Por pr. Abdoral Alighiero

Do alto da montanha ouvindo Tomasso Albinoni e apreciando o belo discurso do papa Francesco com base na doutrina social da Igreja e nas “estruturas de pecado” em modo de teologia pública.

Na lista de pedidos direcionada aos poderosos do capital, essencialmente baseados no problema da desigualdade, senti falta de uma demanda muito importante na fala do santo padre:

O papa que se incomoda com os poderosos do capital parece esquecer a corrupção entre políticos  e se o irmão Francesco deseja “justiça social”, se aplicassem honestamente a riqueza que os governos confiscam de pagadores de impostos, haveria tamanha miséria no mundo? Faltou o pedido para que políticos, sejam de esquerda (os queridinhos do Bispo de Roma), direita (os mal recebidos no Vaticano), não importa, parem de fazer da corrupção uma prática comum, desviando o dito “dinheiro  público” que seria destinado aos mais vulneráveis, visto que o sistema produtivo capitalista, o mesmo que o vigário de Cristo critica tanto, é cada vez mais taxado em benefício não da pobreza, mas de cleptomaníacos no poder que se aproveitaram da pandemia, inclusive, para roubar mais. Sem o tão mal afamado “capitalismo” gerando riqueza e arrecadação, sobrariam então economias com planejamento central que não funcionam e só fazem as sociedades empobrecerem.

E deste “detalhe”, a lista de pedidos de Francesco carece de ponderações, sendo o modelo capitalista alvo da constante insaciabilidade humana por poder, riqueza, ostentação, servindo a gananciosos (nada de novo debaixo do céu), o que dizer de experiências de governos socialistas neste quesito, produzindo tiranos ainda mais gananciosos que enriqueceram no exercício do poder enquanto deixaram os pobres que governaram ou governam ainda mais pobres? Oportuno lembrar a extinta URSS: Será que não havia corrupção sistêmica no sistema de partido único, que não permite partidos opositores, cujo fim se deu com o povo nas ruas de Moscou, entre outras cidades, passando fome pela escassez que o planejamento central reiteradamente provoca? Afinal, a fome no mundo é um produto exclusivo de capitalistas mesquinhos e os que enfileiram modelos socialistas nada têm a ver com isso? As grandes corporações financeiras estão sozinhas na culpa pela carestia de crédito não tendo qualquer relações de favores com políticos e governos? O mesmo se pode pensar sobre companhias de alimentos, de energia, tecnológicas? Será que na Venezuela não existe fome em massa com um governo que se diz anticapitalista, “popular”, planificando a economia? E em Cuba, também não há fome, nem carestia, tampouco escassez, pois as pessoas por lá vivem felizes e sequer pensam em atravessar o mar desejando o que está do outro lado a 140 km de distância? Não, em Cuba há muita fome mas, neste ponto, vem aquela velha narrativa de que todo o infortúnio dos cubanos vem de bloqueios capitaneados pelos EUA, no entanto o governo americano atual é progressista e assim bem alinhado ao pensamento de Francesco, enquanto igualmente não mencionado diretamente no discurso…Por que não dar nome aos bois? Ah, o papa é também um chefe de estado e isso não convém nas relações políticas e diplomáticas, no entanto, culpar o capitalismo é uma forma de simplificar uma complexa questão, quando é justamente por falta de capitalismo, ou seja, por não acesso mais livre a mercados (cujo impedimento é governamental e não por empreendedores) que consiste a causa que faz os cubanos passarem por muitas necessidades para produzir importando insumos, tecnologias e recursos humanos, assim como ter acesso a investimentos, podendo assim desenvolver melhor a economia interna.

O papa Francesco é um típico latino americano que, ao falar de questões sociais misturando com política para governos públicos, ignora que é por meio de pautas socialistas que elites econômicas do capital se aliam a governos para ficarem ainda mais poderosas, impondo modelos de controles de mercados que impedem que concorrentes se estabeleçam ameaçando seus impérios. Senti falta desse “detalhe” no discurso papal e assim o que posso ver é que Francesco tem sido um precioso instrumento, muito útil, aos que há décadas estão na política e exploram o capitalismo de laços, ou a terceira via (economia neofascista), pegando carona em pautas de “justiça social”, apoiando quem estatiza empresas, incentivando invasão de terras (violando assim a propriedade privada reconhecida na doutrina da Igreja), intervindo em mercados e provocando oligopólios e monopólios, forçando integração (imigração) sem respeitar quem é obrigado a receber imigrantes sem limites, jogando a conta para famílias pagadoras de impostos, engessando legislações trabalhistas que elitizam empregos e jogam trabalhadores na informalidade, aumentando a burocracia propositalmente para prover controles sociais e travar inovações que possam ameaçar o  que aprenderam no capitalismo sem competição para si mesmos e socialismo para os miseráveis, sem falar que são os mesmos políticos e governos que possuem pautas que se chocam gravemente com fundamentos da fé católica, bastando apenas mencionar uma: o aborto.

Oremos para que o santo padre se lembre dessas coisas no próximo grande discurso.

Comentar pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *