Por pr. Abdoral Alighiero

Do alto da montanha, eis que me vem à baila o capítulo IV da derradeira obra de Hayek [1], e o que um dos maiores pensadores do século XX se referiu à moralidade não como um produto da razão humana, mas como um dom concedido pela evolução cultural, contrariando uma forma especifica de racionalismo que a chama de “construtivismo” ou “cientificismo”, dando destaque ao pensamento de René Descartes no período moderno que influiu profundamente no modo de pensar adiante.

O que Hayek meditou por sessenta anos procurando esmiuçar uma falsidade (ou caricatura) entre intelectuais pretensiosamente dedicados às engenharias sociais, no tempo presente me parece ainda mais evidente: o descarte da tradição e a super estimação da razão pura como meio em si mesmo para proporcionar a realização de desejos, sem qualquer outro instrumento intermediário, visando construir um mundo novo, uma moralidade nova, assim como um novo direito e até mesmo uma nova linguagem.  Hayek não cita; seria como se a nossa espécie pudesse zerar ou reiniciar todos os sistemas de valores morais, assim como refazer inteiramente a própria ética, partindo tão somente da razão pura para uma pretensiosa visão  para um “novo homem”, diga-se de passagem, ideia comum que inspirou figuras como Marx [2],  cuja crítica lançou, com ares de “socialismo científico”, as bases do materialismo dialético inserindo o homem que estaria se descobrindo além do determinismo econômico como consequência da ruptura com as bases do capitalismo e condicionante ao alcance do estágio comunista, até chegarmos em ex-adeptos que se enveredaram por caminhos mais pragmáticos como Mussolini, na doutrina fascista [3], e Hitler [4], ambos derivando conceitos de planejamento central, que inauguraram a fase prática da terceira via, onde o aparato estatal se tornou estratégico na “educação” das massas para formar essa suposta nova humanidade, o que ajuda a explicar a densa necessidade de doutrinas apregoarem uma sociedade gravitando em torno do estado, entre fascistas, nazistas, assim como entre socialistas ditos “científicos” à época. A ideia de refazer o ser humano, por vias estritamente racionais, se relaciona intimamente com conceitos de sociedade como organismo vivo, evolutivo, inspirando-se na teoria das espécies de Darwin, onde Rousseau, Spencer e Comte, cada um ao seu modo, lançaram alguns elementos que serviram de referência a teorias orgânicas do poder [5], voltadas a uma “vontade geral” visando um suposto “bem comum” .

Hayek lembra John Locke como parte de uma corrente de pensamento distinto onde a conduta moral faz parte da razão, no entanto, o que predominou mesmo foi a ideia de um racionalismo puro que domina o progressismo desde então, ocupando cada vez mais o espaço no debate sobre o que é racional, científico, verdadeiro, íntegro, politicamente correto, não raramente dominado por pretensões ideológicas que desembocam em modelos de controles sociais, onde aspetos éticos e morais não estão no mesmo peso ou ficam sujeitos às conveniências de intelectuais nutridos de uma sabedoria superior para engenharias sociais, onde costumes e tradições ficam taxados em categorias inferiores, um tanto primitivas, propositalmente amalgamadas entre “conservadores” e tudo o que convêm chamar de “negacionista” para esta ordem tão justa, racionalista supostamente ocupada em salvar a humanidade de suas crises sem aparente aviso prévio, onde os intelectuais, da batuta da razão, infelizmente não puderam prever.  Aproveitando o que Hayek considera como socialismo racional dos intelectuais, penso que essa visão reflete o dilema atual onde a espécie humana enfrenta alguns problemas sérios que se relacionam com esse paradigma que submete a liberdade aos planejamentos diante de problemas complexos demais; refiro-me aos desdobramentos na cadeia de suprimentos gerando forte escassez de insumos, evidenciados por índices de inflação, o que sugere como efeitos de “políticas públicas” de controles sociais, sendo devidamente carimbadas como “científicas” durante a pandemia (lockdown) e de outras políticas baseadas em desestímulo à produtividade, manipulação de juros na macroeconomia, pelos engenheiros dos bancos centrais, assim como a militância ESG que pretende salvar o planeta promovendo choques de oferta por matrizes energéticas, porém, diante deste cenário, fiquemos tranquilos, pois tudo está sendo realizado em nome da ciência desse racionalismo tão sacro, inconteste, santificado pelas mãos e pelas mentes sábias de seus articulistas ou influencers catedráticos ambidestros ou progressistas, alguns sem o desejo de “sair do armário” das crenças que realmente seguem, buscando camuflagem em narrativas, algo que acomete “liberais” e “conservadores” experts em enganar o homem-massa, ainda mais nefastos que os assumidamente progressistas por fingirem tão bem.

Então a moral e os costumes entraram para o lixo da história como objetos de estudo na mente de quem deseja endeusar a razão pura em favor ideológico o que se choca com a ideia de liberdade do selvagem ou homem primitivo que não passou de um mito, pois sem a propriedade privada da família, o ser humano em seus primórdios pouco poderia fazer sem a concordância da tribo [6]. A saída de um modo comunista de organização social (aldeia) para um espaço restrito (família) lançou as bases da propriedade privada ou separada no processo civilizatório. Hayek chama à atenção para o “banimento” da importância da seleção evolutiva das tradições morais no desenvolvimento da civilização (pág. 71), o que afasta o seu pensamento do tradicional economicismo, que não passa de uma forma sofisticada de esconder mais um racionalismo. Então, ao negligenciar o papel da moral e das tradições na formação do ser humano ao longo do tempo, progressistas impuseram a ideia de liberdade em torno de proposições coletivistas onde a liberdade passou a ser um ilusório objeto de busca com o papel da razão super dimensionado pelo aparato político apropriando ideias socialistas, o que inverte uma ordem e prejudica a própria experimentação da liberdade, pois na medida em que esse aparato cresce para “garantir” a liberdade, na verdade a inibe cada vez mais por seus controles. A liberdade como fenômeno do indivíduo não é algo negado em tempos recentes; está nas bases de uma mudança profunda de pensamento que sacramentou a ideia do homem submisso ao coletivo, onde Rousseau é uma peça chave para se entender esse processo, sendo Marx um divisor de águas, por trazer uma concepção que alimenta interpretações antagônicas [7] em uma sociedade que passa a ser estudada como uma coisa única de organismo e não mais como resultado da livre cooperação entre indivíduos que procuram agir livremente, com o peso da responsabilidade, para satisfazer seus interesses tomando decisões não necessariamente racionais, mas também emocionais e subjetivas. O comportamento do agente humano deixou de ter peso na visão racionalista, que se apoderou do que é tido como intelectual para não apenas discorrer e analisar fenômenos sociais mas, sobretudo, fazer política de maneira que a razão pura é vendida como força motriz sobre os instintos, sobrepujando ligações com raízes de valores, crenças, tradições, enfim, tudo que seja moral e esteja agindo dentro do ser humano com peso de subjetividade, desde o início da nossa espécie.

E assim Hayek constrói uma análise destemida para explicar como a mentalidade socialista passou a ser sinônimo de racional, intelectual, científico, e como pessoas inteligentes acabaram seduzidas dentro de bolhas de convicções socialistas, super estimando o planejamento  central de governos apenas com base no racionalismo, de forma deliberada sobre a sociedade, fator que reside no coração do atual estágio de pensamento progressista. Então, para ilustrar a força da ideia da razão e da ciência como, talvez, única fonte da verdade, (dando lastro a suposição progressista/construtivista), Hayek menciona mentes ilustres como Jacques Monod, o criador da biologia molecular moderna, recomendando uma revisão dos fundamentos da ética (pág. 78). E não poderia faltar um velho conhecido dele: John Maynard Keynes, “um dos mais representativos líderes intelectuais” que “levando em conta efeitos previsíveis”, acreditava que podia “construir um mundo do que se submetendo a ideias abstratas tradicionais” (pág. 79). Em seguida, passa ao psiquiatra canadense George Brock Chisholm, que foi o primeiro diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) e  defendeu a “erradicação do conceito de certo e errado” (pág. 81). E então chega no que acredita ter sido, talvez, o maior gênio de seu tempo: o físico teórico Albert Einstein e seu famoso argumento racionalista de substituir a produção para o lucro pela produção para o uso (pág. 82), ignorando fatores subjetivos entre agentes humanos, inserindo todos dentro de uma caixa de valores padronizados, desconhecendo que a produção para o lucro vem de um sinalizador ou de indicações do mercado a sustentar necessidades que ultrapassam a percepção do produtor, permitindo a todo indivíduo participar no intercâmbio produtivo, servindo a pessoas pelas quais desconhece, fornecendo bens e serviços na cooperação econômica. Einstein, por uma ideia tipicamente socialista, foi por um racionalismo simplista que revelou “falta de compreensão do processo real pelo qual os esforços humanos são coordenados, ou falta de interesse verdadeiro por ele” (pág. 82).

Por fim, este capítulo de Hayek é um excepcional ensaio para começar a entender o fenômeno do agente humano se vendo como capaz de estabelecer uma concepção absolutista da razão, sem qualquer interesse por fenômenos culturais compondo a moralidade, a ética e os costumes. Trata-se de uma oportunidade para compreender melhor as raízes da ideia onipresente, onisciente e onipotente entre seres humanos que passaram ao estágio de cuidarem melhor de si mesmos para se apropriares de outros, e em grande escala, por imensos arranjos abstratos de poder, nutrido de ferramentas, de tecnicidades, onde supostamente pode estabelecer modelos e impor regras onde os costumes e as tradições são simplesmente valores a serem esmagados. Prever para dizer o que é melhor para a humanidade passa a ser a joia da coroa para este engenheiro racional que desdenha de forças subjetivas e morais e assim usa a matemática para camuflar seus fetiches ideológicos, sob conceitos políticos vagos, enquanto apresentados como plenos de “ciência”, devidamente amparados pela sabedoria de seus catedráticos em universidades devidamente ocupadas pela mentalidade progressista, metódica, carregada de um espírito de censura ao que considera o papel da psicologia, das crenças, dos valores assimilados em séculos na economia e na sociedade mediante o caldeirão cultural da nossa espécie.

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1. Os erros fatais do socialismo Por que a teoria não funciona na prática. Faro Editorial, 2017.
2. A Ideologia Alemã
3. Ver as obras Dottrina del Fascismo, de Mussolini e Giovanni Gentille para o Partito Nazionale Fascista (PNF) e “Il Primo Fascista”,  de Hans Woller, em especial nos capítulos “Il fascista” e “Il dittatore”.
4. Assim como o seu amigo Mussolini, Hitler tinha a pretensão de refazer a humanidade e se aprofundou (vindo depois a influir no pensamento do próprio Mussolini) uma concepção de eugenia coordenada pelo aparato estatal que também servia como instrumento primordial para tutelar a educação dos cidadãos, conceitos que podem ser identificados na leitura da obra “Minha Luta”.
5. Ver capítulo III da obra ON POWER: The Natural History of Its Growth, de Bertrand de Jouvenel (França/Paris, 1903-1987);
6. Ver “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Engels, e notas de Marx, e a obra de referência “A sociedade primitiva”, de Lewis Morgan;
7. Ver as críticas de Erick Fromm ao que seria adulteração dos conceitos de Marx e a interpretação ao que seria o individualismo em Marx na “Conceito Marxista do Homem”;

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