Por pr. Abdoral Alighiero

Domingo de primavera e no alto da montanha eis que abro o primeiro capítulo da derradeira obra de Hayek [1] para contrariar o individualismo primitivo discorrido por Thomas Hobbes [2] dos primórdios da espécie humana, coletivista, tribal, lembrando outra obra [3], de um filósofo da EA que não se deu bem com certas ideias do mestre austríaco mais conhecido no mainstream.

Hoppe, citando Friedrich Engels em  “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” [4], se refere ao período imediatamente anterior à “revolução neolítica”, com base na obra “A Sociedade Primitiva”, de Lewis Morgan [5] e em notas de Karl Marx, descrevendo a vida em poligamia e poliandria em uma espécie de “comunismo sexual” onde a mulher era potencialmente dada a relações com vários homens e vice-versa. Afirma Engels, sobre este período, que “os filhos eram considerados como pertencentes a todos”, cabendo considerar o aspecto social matriarcal onde existiam os vínculos familiares em torno da mãe.

Algo por demais curioso ocorre quando penso na depravada turma do poliamor e de outras formas alternativas de liberalismo sexual hodierno que, na prática, tenta reavivar a vida sexual primitiva. Nos primórdios da espécie humana, surgiu o natural problema econômico da escassez mediante a multiplicação que o sexo no tribo ocasionou, mas na modernidade a “solução” para essa multiplicação vem pela militância do aborto como prática “regulamentar”.

O ser humano primitivo pautava sua subsistência em caça e coletas, e se deparava com a necessidade de fazer guerras tribais por conquista de territórios. Se os filhos que pertenciam a “todos”, em um contexto de membros da família da mãe, havia então uma espécie de “socialismo primitivo” matriarcal que teria então sido abandonado paulatinamente por um processo evolutivo, cultural, que culminou na separação de espaços comuns, por meio da racionalização de recursos e restrições de acesso para organizações menores, iniciando assim os parâmetros sociais que deram condições para que se desenvolvesse a propriedade no contexto da família patriarcal.

Guerras de conquistas territoriais são fatores importantes diante do papel da mulher, outrora centrada na procriação , passando a ser elemento de posse, assumidas como compensações pelos vencedores, como um “ajuste de contas”, com os filhos apropriados, junto com os que viriam depois, desde que saudáveis (os deficientes eram descartados, uma prática conhecida entre os antigos romanos) [6]. A prole separada, submetida agora a uma liderança derivada da mentalidade de guerra de conquista, se configura como patriarcal, não mais gerida em modo socialista tribal, centrada na família materna, passando a ser tratada como recurso privado, para o que viria a ser a família sob liderança do homem, chefe, patriarca. Os filhos e as mulheres se tornam propriedades patriarcais. Bertrand de Jouvenel [7] aborda o surgimento do patriarcalismo no contexto de guerras de conquista no desenvolvimento do poder, cuja síntese compensa mencionar:

“Even if possibility os the patriarchate ever having been a primitive institution os not admitted, its rise is easily explained in terms of war.

Agreed that, for natural reasons (in that the part os the father in the procreation of children was not at firts understood), the child was universally the property oh the male members os the mothers’s family. But there is no maternal family with which the victorious warriors, returning from a raid with a boty of women, have any account to settle. The children will the theirs, anda their multiplication will bring them weathh and strength. And here is the explanation os the transition from the avuncular family to the paternal.” [8]

Para Hayek, a civilização foi alcançada pelo homem no aprendizado de seguir regras, por meio de tradições, e não por genética ou fatores biológicos; não se trata de um processo evolutivo darwiniano e sim cultural, do contexto tribal, e depois em espaços cada vez mais amplos de organização social, freando instintos pelo que considera uma “moralidade natural”, que mantinha o homem primitivo em grupo submisso a uma forma de coletivismo. O isolamento do ser humano primitivo era uma sentença de morte; para Hayek, o selvagem “não foi um solitário”, não poderia enfrentar um mundo tão hostil, sem contar com um grupo de proteção; eis que nos primórdios de nossa espécie o sentimento de “juntos somos mais fortes” estava fortemente enraizado em uma necessidade dramática de luta pela sobrevivência, mas se esse espírito coletivista enfrentou o crescimento populacional, enfatizado por Hoppe, em um mundo tecnológico sem poder de transformação de recursos naturais, nem mesmo em termos agrários, então há de se cogitar o momento em que o homem desenvolveu certos conhecimentos para lidar com a terra, usando instrumentos, descobrindo ferramentas, abandonando lentamente o nomadismo, passando a cultivá-la, deixando de ser apenas um caçador e um coletor andarilho em grupos, travando suas guerras, enfrentando dificuldades impostas pela escassez no aumento da tribo, o que pode ser chamado de “problema malthusiano”. Assim a família governada por um chefe do clã, deve ter se desenvolvido como resposta ao seio de uma organização tribal militarizada em decadência, rompendo com o paradigma matriarcal “socialista”, se voltando a uma “ordem ampliada” combinada com a propriedade separada [9], composta não apenas por indivíduos sob uma organização econômica que se revelou mais eficiente, não mais comunista primitiva, mas por subordens, onde permaneceram antigos instintos de solidariedade, altruísmo, voluntarismo, e não apenas o egoísmo inerente ao que espécie pode aprender em termos de separação e ordem.

Para Hayek, “parte da nossa dificuldade atual é que, para vivermos ao mesmo tempo dentro de diferentes tipos de ordem, e de acordo com diferentes regras, temos que ajustar constantemente nossas vidas, nossos pensamentos, e nossas emoções. É preciso aprender em dois mundos, o microcosmo (família) e o macrocosmo (civilização global) e aplicar o termo “sociedade” a ambos não serve para promover os ajustes necessários, podendo, segundo o pensador austríaco, “levar a vários equívocos” [10].

Vivemos assim entre o instinto e a razão, administrando nossos sentimentos, valores, crenças, tradições, lembranças, diante de algo ampliado onde predomina uma racionalidade ou normatização para convivência social; posso considerar como “política” no sentido “público”, enquanto essa força externa atua e dialoga com a ordem interna, a família e, na menor das unidade; o indivíduo. Estamos entre microrelações e macrorelações de ações humanas, entre o individual e o coletivo, entre preferências subjetivas, existenciais, e questões práticas, objetivas, amplas, a serem discutidas em âmbito pessoal e coletivo, onde se insere o problema da competição, visto por Hayek como recurso para aumentar gradualmente a eficiência humana [11] nessas duas visões de ordens, sobretudo quando se depara a ter que se relacionar com a ampliada onde o aspecto econômico, de mercado, tem considerável peso. No entanto, Hayek lembra que “a competição requer que aqueles nela envolvidos observem regras em vez de recorrer à força física” [12]. E essas regras não são meramente arbitrárias e sim produtos de um contínuo esforço de “tentativa e erro, de “experimentação”, de cooperação sem que tenha ocorrido intenção de experimentar, mas de tentar superar adversidades, cujo planejamento central não é causa, tampouco pode explicar, e sim um processo de repassagem de conhecimentos, tradições, valores, hábitos, moralmente aceitos, em um certo ponto conservados, depois modificados, em uma tensa e dinâmica relação de forças em agentes sociais, cuja mente humana promove dentro de uma evolução cultural onde a imitação tem um peso maior que a percepção e a razão. Para Hayek, a razão, assim como a moralidade, resultam de um processo evolutivo cultural; é o que está na espécie humana entre o instinto e a razão.

Notas:

  1. Os erros fatais do socialismo Por que a teoria não funciona na prática. Faro Editorial, 2017;
  2. Leviatã (1651)
  3. Uma Breve História do Homem. Ed. LVM, 2018, de Hans-Hermann Hoppe, que compõe uma linha da EA ligada Murray N. Rothbard, severamente crítica a Hayek, visto como liberal;
  4. Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staates. Página 38;
  5. Etnólogo e evolucionista americano (1818-1881);
  6. Os filhos como itens de propriedade do chefe de família, paterno, se tornou então um parâmetro nos negócios da antiguidade, cabendo destaque a civilização romana, algo que pode ser conferido na obra História de Roma, do historiador e jornalista italiano  Indro Montanellim (Itália/Fucecchio (1909-2001), edição em espanhol;
  7. No livro II da obra ON POWER: The Natural History of Its Growth, de Bertrand de Jouvenel (França/Paris, 1903-1987), ver “War Gives Birth to the Patriarchate”;
  8. Obra da nota anterior, página 92;
  9. Hayek prefere o termo “propriedade separada” à propriedade privada neste contexto de surgimento da ordem ampliada., para enfatizar que a relevância não está na propriedade privada e sim em uma propriedade plural, separada, dividida entre vários proprietários separados que competem entre si para usá-la da melhor maneira possível (nota do tradutor da obra da nota 1);
  10. Página 29 da obra da nota 1;
  11. Página 31 da obra da nota 1;
  12. Página 31 da obra da nota 1;

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