15/04/1981, 22/04/1981, 29/04/1981 e 06/05/1981 – O corpo humano é um perene objeto de cultura. A dimensão da subjetividade pessoal do homem é indispensável para se compreender as bases do problema do corpo humano na hermenêutica teológica, onde não se deve considerar o corpo como uma realidade objetiva fora da subjetividade do ser humano, na identificação ontológica do corpo com o conteúdo e a qualidade da experiência subjetiva do viver o próprio corpo e na relação homem-mulher.

A experiência da realidade do corpo ocorre nas obras da cultura, nas expressões de arte, em experiências estéticas, nas comunicações sociais, nas imagens, na plástica, na dramática, nas técnicas audiovisuais modernas, no contemplar a obra (aisthánomai, olho, observo, em grego) e também quando o ser humano se torna sujeito da atividade criativa. E este olhar não pode se isolar daquele “olhar” de que fala Jesus Cristo no Sermão da Montanha diante do alerta da concupiscência. O corpo humano nu significa um dom da pessoa à pessoa e o ethos da nudez está para a dignidade humana intimamente ligado ao significado esponsal.  No entanto, se a cultura mostra uma tendência explícita para cobrir a nudez, levando em conta o que discorre Gênesis 3 sobre a vergonha, e não apenas por razões “climatéricas”, a anônima nudez contrasta com os costumes, o que pode ser observado em populações chamadas “primitivas”. Porém, o ser humano sensível à vergonha com sua nudez, a supera por situações justificáveis, quando precisa, por exemplo, se despir para exames e/ou intervenções médicas. Deve-se considerar também a violação do pudor corporal pela nudez como um meio para destruir a dignidade da pessoa, prática usada em campos de concentração ou locais de extermínio.

É necessário fazer a distinção de que uma coisa é o corpo humano vivo, outra coisa é o corpo como modelo de obra de arte; na pintura ou na escultura, o corpo é modelo, no cinema e na arte fotográfica, é o ser humano vivo sendo objeto de uma reprodução sob técnicas apropriadas onde há uma perda de contato por ser reprodução vindo a se tornar objeto anônimo, algo observável em revistas ilustradas para esconder ou velar a identidade da pessoa reproduzida, sendo um problema muito delicado do ethos na cultura de massa, onde o corpo perde o significado profundamente subjetivo e se torna um objeto, aplicado ao conhecimento de muitos para a dimensão da “comunicação social”, enquanto também é fonte de uma particular “comunicação” interpessoal, o que remete ao problema do relacionamento entre o ethos da imagem – os da descrição – e o ethos da visão e da audição.

O fato deste problema ser suscitado não significa que o corpo não possa se tornar tema de obra de arte em toda verdade do ser humano, na dignidade e na beleza, – também “supra-sensual” – da sua masculinidade e feminilidade, e sim de que se trata de uma questão que não é puramente estética nem moralmente indiferente, considerando o limite da vergonha (sobre a obscaena, do latim, para tudo que não deveria aparecer diante dos olhos dos espectadores, derivando o problema da “pornovisão” e da “pornografia”), o respeito ao corpo (natureza ética como “elemento do dom”), questões de escala de valores que devem ser reconhecidas e observadas pelo artista que faz do corpo humano objeto, modelo ou tema de obra de arte ou de reprodução audiovisual.

Desde a antiguidade se pode verificar, sobretudo na arte clássica grega, obras onde a nudez humana pode ser contemplada trazendo em si, praticamente oculto, um elemento de sublimação, conduzindo o espectador ao mistério pessoal do homem. Quando não se está determinado ao “olhar para desejar”, abordado no Sermão da Montanha,. é possível apreender, em certo sentido, o significado esponsal do corpo, podendo inclusive gerar objeções na esfera da sensibilidade pessoal do ser humano, quando a obra se reduz a categoria de objeto para o “gozo” à satisfação da própria concupiscência.

Não se tratam de efeitos de uma mentalidade puritana, tampouco de um estreito moralismo e sim de uma importantíssima esfera de valores à dignidade humana, do caráter pessoal e da eloquência do corpo humano, na órbita das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha, que parecem referir-se também aos vastos campos da cultura humana, inserindo a atividade artística, no “olhar” de um desejo que ocasiona um “adultério cometido no coração”, em uma reflexão que cria um clima favorável à educação da castidade como trabalhado na Encíclica Humanae, para enobrecer tudo o que é humano (ethos da imagem e o que se pode chamar de “ethos do ver”).

14//01/198128/01/1981, 04/02/1981, 11/02/1981, 18/03/1981, 01/04/1981 e 08/04/1981– A liberdade que São Paulo se refere em Gálatas 5.13-14, além do tema da justificação, visa a compreensão da dimensão ética da contraposição “corpo-Espírito” em um apelo dirigido à liberdade humana na plena utilização do espírito humano cumprindo toda a Lei através do amor, maior mandamento do Evangelho. Assim a liberdade não deve servir de pretexto para “servir a carne” e sim “uns aos outros pela caridade” (Gl 5.13). A soberba, a tríplice concupiscência, ou seja, as obras da carne, incapacitam o ser humano, que não tem o domínio (enkráteia) de si, a experimentar a liberdade pela qual Cristo chamou. Aos Tessalonicenses (I Ts 4, 3-5), São Paulo é mais explícito, desenvolvendo o tema da impureza como antítese da santificação. A pureza é uma capacidade, aptidão para agir consciente na contenção dos impulsos, sendo uma variante da virtude da temperança pelo domínio dos sentidos, superação das “paixões luxuriosas” e respeito com tudo o que é corpóreo e sexual, sendo também força de ordem e manifestação concreta da vida “segundo o Espírito”.

Em I Cor 12. 22-25, além da teologia da Igreja como Corpo de Cristo, São Paulo aprofunda a teologia do corpo para indicar o corpo humano como digno de santidade e respeito; “quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, os que parecem ser menos honrosos a esses rodeamos de maior honra, e os que são menos decentes, tratamos com maior decoro e os que são decentes, não têm necessidade disso; mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns com os outros”, uma descrição “realista”, não sendo o corpo apenas como organismo (somático ou científico) mas do ser humano que se expressa por ele, como pessoa. cujo respeito remete às tradições do estado de inocência do Gênesis e a vergonha evidencia a “desunião do corpo” e indicação da doutrina paulina sobre a pureza ou seja, da capacidade centrada na dignidade do corpo para mantê-lo em santidade, como templo (I Cor 6,19) diante das relações humanas para afastar do coração humano o que é fruto da concupiscência da carne que profana o corpo, seja na dimensão moral, como virtude, seja na dimensão carismática, como dom do Espírito Santo.  O corpo como templo do Espírito Santo, sob a redenção de Cristo que veio “por um alto preço” (I  Cor 6. 15-17), e nele habita e opera com seus dons espirituais para uma vida segundo o espírito. A pureza (donum pietatis) em São Paulo é condição para encontrar a sabedoria, remetendo a tradições do Antigo Testamento (Sir 23, 4-6 e 51,20), como virtude e como dom (Sb 8,21, versão da Vulgata citada por Santo Agostinho).

A “vida segundo o Espírito”, no contexto em São Paulo, oferece-nos uma imagem completa das palavras de Cristo no Sermão da Montanha e contêm uma verdade ética e antropológica que coloca de sobreaviso sobre o mal, em meio ao estado de pecaminosidade hereditária, e indicam o bem moral do comportamento humano, sendo normativas, na dimensão da interioridade humana, e ao mesmo tempo indicativas em valores aos quais o coração do ser humano pode e deve aspirar por uma descoberta da dignidade do corpo, sendo também uma pedagogia ou autoeducação por uma visão integral ao e todos os tempos, refletindo nos enunciados da Igreja (Dignidade do Matrimônio e da Família e sua valorização, Concílio Vaticano II, assim como a Encíclica Humanae Vitae de Paulo VI).

03/12/1980, 10/12/1980, 17/12/1980 e 07/01/1981 –  Aprofundando as palavras de São Paulo aos Gálatas em 5,17:

“Pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõem reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis.”

(tradução da Bíblia de Jerusalém)

Terminologia paulina parece quase coincidir com a joanina em relação a tríplice concupiscência em uma tensão imanente ao ser humano disposto apenas para o o que “vem do mundo”; o homem dos sentidos cuja pecaminosidade está constantemente exposta á fraqueza, muitas vezes cedendo sem o preparo reforçado no seu interior para fazer o que quer o Espírito. A mesma questão São Paulo aborda na Carta aos Romano (8, 5-10), no contexto da justificação mediante a fé mediante o poder do próprio Cristo operando no íntimo do homem por meio do Espírito Santo., onde se antecipa a vitória final sobre o pecado e sobre a morte, cujo sinal é a ressureição de Cristo (Rm 8, 11) cuja força se revela nas ações humanas onde as obras da carne (Gl 5, 19-21) se contrapõem às do Espírito (Gl 5, 22-23). Não se trata de um embate apenas no home interior, e sim também encontra amplo e diferenciado campo para se traduzir em obras, pelo esforço da vontade, fruto do espírito humano permeado pelo Espírito de Deus se manifestando pela escolha do bem; não são obras unicamente do ser humano, pois São Paulo utiliza o termo “fruto do Espírito” (Espírito, letra maiúscula) , onde o domínio do homem sobre si mesmo se insere. Para alcançar o ethos do corpo é necessário percorrer o caminho da temperança e do domínio dos desejos; experiência gradual da própria dignidade com consciência da pecaminosidade e ponto de partida para pureza do coração.

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”

(Mt 5.8, tradução da Bíblia de Jerusalém)

Jesus Cristo apresenta uma nova interpretação para “pureza” moral cuja fonte está no coração, e não baseada no sentido meramente exterior e material, dado pelos fariseus, que acabava tendo uma conotação moral, seguindo um entendimento ritual na tradição do Antigo Testamento mediante atos de limpeza física como o de “lavar as mãos” antes das refeições. Nenhuma lavagem do corpo ou ablução produz em si mesma pureza moral. A pureza material, do corpo, é uma questão médica, de higiene e os ritos religiosos não mudam o sentido da pureza mais profundo dado por Jesus Cristo, partindo do coração onde nascem as intenções que podem tornar o homem realmente impuro, imundo. É do coração que saem os assassinatos, adultérios, as prostituições, os roubos, falsos testemunhos e as blasfêmias. É no campo mais profundo e íntimo do ser humano que Jesus Cristo indica o sentido da pureza para a bem aventurança de Mt 5.8. Em suma, a fonte da pureza moral está no coração e não em aparências; nada que “entra pela boca” ou que seja legitimado por ritos por limpeza exterior,  corporal, material, física, torna o homem moralmente puro.

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12/11/1980 – Se não existir a relação entre o ethos e o eros, o ser humano não experimentará a plenitude do eros, o impulso do espírito

Seguindo com Gl 5,17, São Paulo abre horizontes considerando a contraposição entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”, associada á “redenção do corpo” também em uma dimensão cósmica (Rm 8,23) onde o ser humano se encontra no centro, pelo coração e, consequentemente, em todo o seu comportamento frutificando a “redenção de Cristo” por meio das forças do Espírito operando a justificação, fazendo com que a justiça “abunde” (referência a Mt 5,20).

Pureza e impureza no Sermão da Montanha dos ditos de Cristo Jesus estão em analogia na teologia paulina com as “obras da carne” e as “obras do Espírito”, indicando o “ethos” evangélico; da mesma forma que Paulo exorta a “fazer morrer” as obras do corpo com a ajuda do Espírito, Cristo se refere ao coração humano quanto ao domínio dos desejos como condição indispensável a uma vida “segundo o Espírito” e assim São Paulo desenvolve tal contraposição e a vida “segundo a carne” opera à morte, significando pecado,  consequentemente impossibilitando que se herde  o “Reino dos Céus” (Gl 5,21 e Ef 5,5).

A síntese paulina então aponta que a vida como manifestação do Espírito é a liberdade para qual Cristo “nos libertou” (Gl 5,1) cuja lei se resume na Palavra de amar o próximo como o si mesmo (Gl 5, 13-14). A justificação do homem é em Cristo e por Cristo. que opera por meio da caridade, não sendo meramente uma questão material ou carnal, ligado ao ritualismo, mas sobretudo “espiritual” buscando a pureza do coração.

humano para aquilo que é verdadeiro, bom e belo. Em Mateus 5. 27-28, o ethos é forma constitutiva do eros como chamado à plena espontaneidade que é verdadeiramente humana  quando é o fruto maduro da consciência e neste ponto se situam as relações que nascem da atração da masculinidade e da feminilidade. A excitação sexual é muito diferente da emoção profunda e as palavras de Cristo são rigorosas exigindo plena e profunda consciência dos atos, sobretudo os interiores do “coração”, no âmbito das relações com as pessoas do outro sexo. O “homem interior” foi chamado por Cristo a adquirir avaliação madura e complexa visando discernir e julgar os diversos ímpetos do seu coração, assim deve ser senhor de seus próprios impulsos mais íntimos, sabendo extrair o que é conveniente para a pureza do coração, consciente do significado do corpo na feminilidade e na masculinidade, algo que não se aprende apenas com livros porque diz respeito a conhecimento profundo da interioridade humana.

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05/11/1980 – A conotação sob apelo sensualista aos desejos por prazeres sexuais, no uso comum do termo grego eros,  difere do que se deriva como “erótico” no uso do termo em Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para Eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo divergente. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica platônica à luz de Mateus 5.27-28 que é um chamado a um encontro a frutificar o erótico concebido na forma do Ethos ou seja, naquilo que é ético na complexa riqueza do  “coração”:

“Se admitirmos que eros significa a força interior que “atrai” o homem para o verdadeiro, o bom e o belo, então, no âmbito deste conceito, também se vê  abrir o caminho para aquilo que Cristo desejou exprimir no Sermão da Montanha […] O chamamento para aquilo que é verdadeiro, bom e belo, significa simultaneamente, no Ethos da redenção, a necessidade de vencer aquilo que deriva da tríplice concupiscência. Significa também a possibilidade e a necessidade de transformar aquilo que foi agravado pela concupiscência da carne. Mais ainda, se as palavras de Mateus 5.27-28 representam este apelo, então, significam que, no âmbito erótico, o eros e o ethos não divergem entre si, não se contrapõem reciprocamente, mas são chamados a encontra-se no coração humano e, neste encontro, a frutificar. Bem, digno do “coração” humano é que a forma daquilo que é “erótico” seja, simultaneamente, a forma do ethos, ou seja, daquilo que é “ético.”.

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29/10/1980 – Bicoeur qualificou Freud, Marx e Nietzsche como “mestres da suspeita” e se torna ao temo da tríplice concupiscência como parte dessa mesma interpretação sobre o homem munido por desejos. Porém, no Bíblia a tríplice concupiscência não constitui o fundamental, talvez único e absoluto critério da antropologia e da ética. Temos que recordar João 2.15-16 no tocante à “teologia da concupiscência” para compreendermos que Mateus 5.27-28 é um apelo ao coração.

15/10/1980 e 25/10/1980 – No ethos do Sermão da Montanha, o coração é acusado ou chamado ao bem? Como pode e deve proceder o homem? Na interpretação do ethos e da praxis, o homem histórico avalia sempre o seu próprio “coração” à sua maneira, tal como também julga o próprio “corpo”. O maniqueísmo pode parecer em sintonia com as duras palavras de Mateis 5.29-30  (“arrancar o olho”, “cortar a mão”), no entanto, o coração não é acusado nem o corpo condenado no Sermão da Montanha. O corpo é chamado a tornar-se a manifestação do espírito, o que pode ser realizado também através da união conjugal com direitos invioláveis (Mt 19.5-6) cuja redenção do corpo não indica o mal ontológico (do corpo). Salienta-se apenas a pecaminosidade do homem quando o sentido esponsal do corpo se confunde com a concupiscência, Neste ponto, uma atitude maniqueísta levaria a aniquilação do corpo, negando o valor do sexo. O ethos cristão é caracterizado pela transformação da consciência e das atitudes da pessoa humana. para realizar o valor do corpo e do sexo. No maniqueísmo, o corpo e a sexualidade constituem um “anti-valor”. O enunciado cristão não pressupõe que o desejo seja um mal em si e sim um olhar com um desejo desordenado onde o coração é chamado a descobrir um sentido pleno. O maniqueísmo é estranho ao Evangelho.

24/09/1980, 01/10/1980 e 08/10/1980 – Como pode se cometer o adultério sem o ato exterior? A crítica de Cristo Jesus mergulha na Lei objetivando o seu pleno cumprimento, contrariando os que adotavam os casuísmos e interpretações do adultério apenas no sentido de se cobiçar a mulher do próximo, assim como na não  observância da monogamia. A intencionalidade cognitiva, por si mesma, não indica o problema da concupiscência quando o ser humano se serve do outro em dimensões utilitaristas, um problema que parece depender da própria dignidade pessoal.  Jesus Cristo se refere a olhar para “a mulher” e, neste aspecto, de forma ampla, o adultério no coração pode ser considerado até mesmo no âmbito de marido e mulher, quando o marido olha para a própria esposa somente como objeto de prazer, por instinto, sem comunhão, o que neste aspecto, demanda uma interpretação teológica tendo um peso maior que a psicológica.

O Sermão da Montanha está longe de fazer apologia ao maniqueísmo pois não se trata de pôr em questão a importância da vida sexual, a necessidade do fazer sexo, que pode e deve servir a construção da unidade  de comunhão, nos seus recíprocos relacionamentos, na dimensão objetiva da natureza humana acompanhada pela finalidade procriativa que lhe é própria. A questão do adultério cometido no coração em Mateus 5.27-28 suscita uma questão no tocante a se devemos tratar a severidade dessas palavras, ou antes ter confiança no seu conteúdo que salva, no seu poder?

17/09/1980 [3] – Diferentemente da concepção psicológica do desejo, a abordagem de Cristo Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5.27-28) se volta ao que acontece no coração sob um engano que separa o homem da comunhão que vem pela compreensão do significado esponsal do corpo. O olhar enfatizado por Cristo Jesus evidencia um conflito na consciência que afeta a dignidade da pessoa, a tornando envolvida como objeto pelo desejo e pelo prazer. O valor do sexo faz parte da riqueza humana que deveria libertar uma gama de desejos carnais-espirituais de natureza pessoal e de comunhão, no entanto, quando a concupiscência é inserida no âmbito do olhar (Mt 5.27-28), que vai de um ato cognitivo ao conhecimento do que se deseja (appetitus), onde só há a finalidade de satisfação sexual do corpo, essa riqueza se reduz de maneira que o sexo passa a ter um fim em si mesmo,  limitando assim uma diversidade que une as pessoas pelo significado esponsal do corpo.

13/08/1980, 27/08/1980, 03/09/1980 e 10/09/1980 [3] – O adultério falsifica o sinal da comunhão das pessoas, sendo a antítese da relação esponsal, antinomia do matrimônio; é um pecado de ruptura da aliança pessoal do homem e da mulher. O casuísmo diante do tema estava expresso na prática da poligamia tendo como referência a instituição das concubinas. As prescrições e as penalidades do legislador se moldavam de acordo com as conveniências de uma sociedade que submetia a mulher a um peso de maior severidade em casos de traição. No Sermão da Montanha, Cristo Jesus apresenta uma interpretação da Lei fazendo um  apelo à consciência do homem de todos os tempos e lugares diante de um pecado onde era comum haver mais uma preocupação com a aparência de decência e das consequências, do que com o mal em si. Os  elementos teológicos que envolvem o tema adultério indicam significados voltados à própria fé além da relação homem-mulher no casamento, tendo uma profunda relação com um povo por ilustração no papel de esposa infiel para com o “esposo” Deus-Javé, algo constante nas tradições de textos de Oseias e Ezequiel, entre outros, mediante o problema da idolatria onde a monogamia e a fidelidade estão para o monoteísmo assim como o adultério está para o politeísmo. A tradição sapiencial (Ben Sira)  compõe uma vasta base teológica onde é comum a abordagem da concupiscência do homem empenhado em atender aos sentidos, não encontrando sossego e se consumindo em uma insaciável busca para satisfazer os desejos. O adultério no Sermão da Montanha é assim uma releitura diante de tradições onde Cristo Jesus se volta ao “princípio”, atravessando preceitos, legislações, superando casuísmos, aprofundando a abordagem até onde nasce o pecado, enfatizando o ato de olhar como algo que exprime o que está no coração, revelando o homem interior a ser confrontado com o sagrado e o significado esponsal do corpo que dá sentido de comunhão entre as pessoas pelo matrimônio.

06/08/1980 e 13/08/1980 – Nasce nasce no coração, o adultério, e é cometido no homem interior: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração”. Em Mateus 5.28 Cristo Jesus faz um juízo realista sobre o legalismo religioso que servia casuisticamente para aliviar o entendimento sobre os reais  significados do adultério e do casamento. A Lei é um meio para superabundar a justiça e não um conjunto de preceitos ou legislação para quem quer viver de aparência. Porém, no lugar deste pleno cumprimento, o qual Cristo Jesus propõe no Sermão, os legalistas procuravam atender aos desejos daqueles que queria se manter bem aos olhos da religião convencional, cumprindo determinadas orientações enquanto se sentiam livres para cometer adultérios que não eram vistos assim, ou desvirtuando o casamento pelo divórcio  que banalizava o sagrado em torno da mesma Lei, pela “dureza dos vossos corações”. A interpretação da Lei de acordo com interesses de conveniência de cada um servia para fazer parecer que as ordenanças estavam sendo cumpridas em torno do que se entendia por fidelidade e casamento, além de tratar como aceitável o costume de ver a mulher como objeto ou direito de propriedade por parte do marido.

O Antigo Testamento está repleto de casos de poligamia mantida pelos desejos ou pela concupiscência “dentro da lei”, onde adultério era compreendido como posse da mulher de outrem. Adúltero era aquele que tomava a mulher ou a “propriedade legal” de outro homem. Cristo Jesus vai ao princípio para mostrar essa deformação da Lei visando dar pleno cumprimento, e nesse contexto se pode compreender o caso da “mulher adúltera”, quando prestes a ser lapidada se vê diante da intervenção de Cristo Jesus que expõe a hipocrisia de quem se via dentro da Lei: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra” (Jo 8.7). Em seguida, Ele aponta ao que interessa na aplicação da Lei e conclui falando à mulher: “Vai e doravante não tornes a pecar” (Jo 8.11). A consciência sobre o bem  e o mal pode ser mais profunda e correta que a normal legal [2].

30/07/1980 – Se o homem se relaciona com a mulher a ponto de a considerar apenas um objeto, para dela se apropriar, e não como dom em uma comunhão plena, simultaneamente, se condenará a si mesmo a tornar-se também ele, para a mulher, somente um objeto de posse. Embora em Gênesis 3.16 se expresse “ele dominar-te-á”, se referindo ao homem em relação à mulher, o texto pode ser visto como bilateral, no entanto, o domínio, a transformação do ser humano em posse do outro olhando para o sentido sexual, entre outros, acontece sobretudo mais à custa da mulher, que sente mais esse domínio. Em Mateus 5.27-28 há um paralelismo, talvez dando ao ser humano masculino uma função de maior responsabilidade sobre a reciprocidade para ser uma espécie de guardião do dom (relacionamento esponsal, em comunhão) e não pela transformação do outro em mero objeto de prazer e posse. Tendo o domínio do masculino sobre o feminino, parece cair nas costas do homem varão uma maior responsabilidade. diante deste problema, algo que se aplica, talvez, por conta marginalização social da mulher, considerando o contexto das Escrituras, envolvendo o Sermão da Montanha.

A crise no Jardim do Éden e o distanciamento do ser humano do significado original do corpo, no relacionamento sexual, acabou dando à expressão “uma só carne” um outro sentido; em vez de um pertencer ao outro pela comunhão mediante os dons, se passou a predominar uma união onde o outro se torna posse para o gozo pessoal e egoísmo, operando assim outra lei, a do desejo insaciável, da concupiscência, que opera contra a lei da razão, aqui lembrando Romanos 7.23, indicando o perigo do desejo do corpo ser mais forte que o desejo da razão. No lugar da comunhão plena entre pessoas, uma mera satisfação corporal se impõe. Então, para entender o apelo de Cristo Jesus feito ao coração do ser humano, no Sermão da Montanha, é necessário entender esse componente antropológico.

25/06/1980 e 23/07/1980

O conflito em Gn 3.16 não se explica apenas considerando o corpo, na sexualidade somática, e sim nas mais profundas transformações sofridas no espírito humano, insaciável, que culpa o corpo, o privando de sua simplicidade e pureza. O contexto do sentimento de vergonha com a nudez e o corpo em si, com o fim da inocência, é uma experiência secundária em relação a essa consciência, que aponta o desejo que vem do coração por meio de estímulos do corpo que apontam a uma relação de tornar o outro um instrumento de posse, corporalmente um objeto desejo, prazer e, ao mesmo tempo, opera como alerta funcionando como dispositivo de proteção da própria consciência. Gênesis 3 é surpreendentemente eloquente e penetrante sobre o significado do corpo, em se tratando de um texto arcaico. A ação do homem interior diante da relação do corpo e do espírito é determinada pelo coração, o mesmo que Cristo Jesus se refere no Sermão da Montanha, onde se constitui a história do pecado e da salvação, revelando a profundidade e a própria raiz da sua historicidade, cuja concupiscência se evidencia como verdadeira deformação do significado do corpo e da relação de amor homem-mulher.

O corpo humano, além de fonte de fecundidade, é esponsal exprimindo o amor que torna a pessoa humana um dom, bem como firmando um sentido profundo de seu próprio ser e existir. Sendo a concupiscência um fenômeno do corpo, o convertendo em objeto de atração, a masculinidade e a feminilidade então quase perdem a capacidade de exprimir esse amor e essa comunhão homem-mulher. Este “quase”  significa que o coração do ser humano se tornou um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Quanto mais prevalece o domínio da concupiscência no coração, ou seja, a prioridade pelos desejos e o tornar o outro mero objeto, mais o significado esponsal do corpo deixa de ser experimentado. Nessa tensão entre amor e desejos, entre a exploração do outro como posse e prazer e a comunhão verdadeira entre duas pessoas,  operam em conflito a concupiscência e o amor,  cabendo ao ser humano manter o próprio coração sob controle.

04/06/1980 e 18/06/1980

O colapso da relação humana com o Criador narrado no Éden e a radical mudança do significado da nudez, impactou a plena comunhão homem-mulher. Sem a simplicidade e a pureza, ocorre uma perturbação na relação interpessoal onde o corpo, na masculinidade e na feminilidade, constituía o substrato próprio dessa comunhão. O fim da inocência original é sucedido por uma percepção brusca da diferença de sexo sentida e compreendida (Gn 3.7), como se a sexualidade se tornasse obstáculo na relação homem-mulher, com a concupiscência e uma quase constitutiva dificuldade de identificação com o próprio corpo.

Com o pecado original e a consequente perda da plena comunhão e do profundo significado de uma relação onde o corpo é um componente diante de algo maior, sucedeu então um anúncio do domínio do ser humano masculino sobre o ser humano feminino (Gn 3.16).  A história das consciências e dos corações humanos confirmará continuamente o que está descrito no Gênesis (3.16) em um amplo contexto de relações onde a mulher se torna submissa ao homem. Em vez de unidos, o ser humano homem e o ser humano mulher ficam divididos ou contrapostos por causa da masculinidade e da feminilidade.

28/05/1980

Saindo a inocência no ser humano, ocupando em seu lugar o da concupiscência, torna-se evidente o medo mediante uma vergonha que é “cósmica”, substituída por outra forma de vergonha, imanente, produzida pela humanidade na íntima desordem na unidade espiritual e somática do homem (varão e mulher), que perde a força do espírito que o elevava ao nível da imagem de Deus, pré-anunciando assim uma inquietação de consciência ligada à concupiscência, onde opera o desejo, ao mesmo tempo em que nasce o pudor, ilustrado no uso das “folhas de figueira” para esconder a nudez (Gn 3.7). O coração humano afastado da simplicidade original e da plenitude dos valores,  após a queda diante do Criador, conserva, simultaneamente, o desejo e o pudor, este último com um duplo significado: aponta a ameaça do valor e, simultaneamente, preserva interiormente esse valor; a vergonha opera no interior do homem, para garantir valores que a concupiscência tira.

A vergonha que nasceu no Éden tenta neutralizar o desejo na intimidade do ser, no coração, e assim se pode começar a compreender melhor porque Cristo apela ao coração humano para definir o adultério como um pecado que nasce no interior da pessoa, no desejo (no olhar malicioso, com segundas intenções), não sendo apenas definido pelo ato exterior em si.

16/04/1980, 23/04/1980, 30/04/1980 e 14/05/1980

Pautando-se no problema do adultério, Cristo revisa o modo de compreender a Lei de Moisés acerca do divórcio, inserindo uma grande mudança no Ethos, visando dar seu pleno cumprimento (Mt 5.17). Cristo apela ao coração do homem (Mt 5.27-28) para que a sua justiça supere a dos escribas e fariseus, cuja casuística diante da Lei abria para “escapatórias legais” a deformando. No Sermão da Montanha, Cristo promove uma forma de interpretar a Lei que nos faz entrar na profundidade da própria norma e descer ao interior do homem-sujeito da moral. Desta forma o pecado não se caracteriza apenas no ato visível, mas nasce no desejo mais íntimo, no coração humano. Cristo nos desperta ao pleno sentido ético e antropológico do enunciado (“não cometerás adultério”, Ex 20.14).

O mundo é um dom e na ruptura que ocorreu no Éden, quando o homem deu as costas para o Criador, se tornou o lugar e a fonte de uma tríplice concupiscência: da carne, dos olhos para desejar e da soberba de vida (I Jo 2.16-17). Morreu a inocência e nasceu vergonha; o homem descobriu que estava nu diante de si mesmo e do Criador. Esta ruptura provocou um colapso no ser humano quanto à aceitação do próprio corpo, perdendo, de algum modo, a certeza original da “imagem de Deus” em si mesmo vivenciando uma “vergonha cósmica”. Uma relação rompida pelo pecado e como consequência trouxe o desgaste e uma luta diante da natureza; indefeso, o ser humano passou a experimentar a fadiga e a morte. Diante das origens, o apelo de Cristo no Sermão da Montanha se dirige a todos os seres humanos descendentes à mesma história, para que se voltem ao próprio coração e assim mergulhem na dimensão à qual está diretamente ligado o sentido do significado do corpo e a ordem desse sentido.

26/03/1980 e 02/04/1980 Homem e mulher no “conhecimento” que significa a união conjugal, possuídos ambos pela humanidade, nessa experiência se veem diante da geração de um semelhante, um filho, enquanto  detentores de um mandato (“sede fecundos e multiplicai-vos”, Gn 1.28) dentro do mistério da criação, o que pode ser entendido como posse, mas seria um equivalente bíblico para o eros? A posse se relaciona à primeira parte do mandato do Gn 1.28 no ciclo do *conhecimento-procriação* e não à transformação da mulher em objeto para o homem e vice-versa. Com o pecado, o ciclo do conhecimento-procriação foi submetido à lei do sofrimento e da morte, permanecendo o significado da união matrimonial em “uma só carne”, *conforme o apelo de Jesus Cristo ao “princípio” (Mt 19.3) diante dos fariseus acerca do questionamento sobre o divórcio como ato lícito na Lei de Moisés, a resposta de Cristo os contraria na concepção de que não separe o homem o que Deus uniu, refletindo uma compreensão que envolve uma “visão integral do homem”. Esta é a resposta de Cristo inclusive a um questionamento contemporâneo acerca do sacramento do matrimônio diante do divórcio.

Para quem busca no matrimônio o caminho da salvação e da santidade, a resposta de Cristo aos fariseus é particularmente importante na teologia do corpo para o conteúdo de sua vida  na vocação sob uma profunda consciência do significado do corpo na sua masculinidade de feminilidade considerando um contexto de uma civilização sob pressão de um modo de pensar e julgar materialista e utilitário.* A “redenção do corpo” mediante o matrimônio vai além do que a biofisiologia contemporânea pode explicar de forma tão precisa acerca da sexualidade humana, pois tem a Palavra de Deus como fonte para a dignidade pessoal do corpo humano e do sexo.

05/03/1980 e 12/03/1980

A união conjugal é “conhecimento”; não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto e sim como participante do jadac [1] (“conhecimento”)  do homem, ser humano, varão e mulher, de um pelo outro para uma descoberta mais profunda do significado do corpo. No ato sexual  o homem (masculino e feminino) entra em um nível mais profundo de humanidade. Em um primeiro momento estava só, em seguida foi agraciado com a companhia humana feminina sendo assim possível naturalmente conhecer um significado mais intenso da experiência de humanidade na união em “uma só carne”. Trata-se de um conhecimento mais avançado da pessoa humana se descobrindo como “esposo” e “esposa”.  Tal conhecimento condiciona a procriação como potencialidade particular do organismo feminino. No Gênesis, as palavras dão testemunho no primeiro nascimento, de tudo o que se pode e deve dizer da dignidade da geração humana.

Primeira publicação em 28 de março de 2021 às 13:10:20
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Notas:
  1. Não se trata de um conhecimento meramente intelectual, mas também de uma experiência concreta.
  2. Sobre esta última parte em que o papa encerra a lição, tenho outra síntese, minha, pessoal, que abordei em um sermão em 2006, um dos últimos que dei antes de sair do seminário e desistir da carreira de pastor: Jesus e o episódio da mulher adúltera, expõe a confusão comum que se faz entre legislação e virtude ou moralidade. Nem tudo que é legal é necessariamente belo, moral, muitas vezes é pura inversão de valores.É quando a legislação é usada para proteger infratores, hipócritas e punir severamente o lado mais fraco, frágil da história, desvirtuando o pleno cumprimento da Lei;
  3. De 1979 a 1984, o papa João Paulo II trouxe lições nas quartas-feiras no Vaticano, tratando sobre problemas de antropologia e teologia moral-sexual.Aulas de 13/08/1980, 27/08/1980, 03/09/1980, 10/09/1980 e 17/09/1980Em mais um encontro com o meu póstumo novo professor de teologia, se iniciou uma análise pela qual chamei de “anatomia do olhar”, a partir dos versos do Sermão da Montanha em que Cristo Jesus aborda o adultério:”Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’.Eu porém vos digo,: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração.”Mateus 5:27,28, com tradução da Bíblia de Jerusalém.
    Grifei o “eu porém vos digo” e “olha para uma mulher com desejo libidinoso” porque o primeiro destaca que Cristo Jesus se volta a uma imensa tradição das Escrituras ao tratar do adultério, pecado que acabou sendo banalizado pelos casuísmos de legisladores religiosos. Esse problema é exaustivamente explicado pelo papa, com citações de textos bíblicos, onde os tais “casuísmos” serviam para dar um “jeitinho” quando se traía a esposa e não havia a caracterização de adultério pela religião. Os jeitinhos dos casuísmos eram convenientes também a quem desejava ter uma vida de poligamia (com várias esposas ou com concubinas), sem ser visto como adúltero bastando seguir alguns preceitos religiosos que os livravam das penalidades da Lei. O rabi Jesus de Nazaré, pleno sabedor dessas coisas, contraria o sistema, indo até a raiz do problema e no seu “eu porém vos digo” desconstrói as conveniências que faziam do adultério uma coisa típica da hipocrisia religiosa, enquanto os mesmos adúlteros eram rigorosos quando flagravam uma mulher traindo o marido. O papa João Paulo II destaca nas lições esse juízo deturpado, tendencioso, degenerado, dos escribas e fariseus que pesava muito miais sobre as mulheres em favor dos homens, sobretudo os de maior prestígio de uma sociedade notadamente patriarcal (acho que as feministas vão adorar as riquíssimas análises críticas que o papa fez nessas lições, de textos da tradição sapiencial, como o de Ben Sira, quanto a isso). O episódio da “mulher adúltera” ilustra bem o juízo de Cristo Jesus desarmando a hipocrisia que tomava conta das tradições religiosas do apedrejamento de mulheres flagradas em adultério, na época.
    Então, no texto do Sermão da Montanha, Cristo Jesus diz, “eu porém vos digo” porque o que vem em seguida é uma desconstrução avassaladora dos tais casuísmos, das conveniências, das malandragens de quem praticava o adultério e, ao mesmo tempo, era bem visto por seguir os preceitos da (hipócrita) religião formal dos escribas e fariseus:
    Eu porém vos digo,: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração.”
    No desenvolvimento das lições, argumenta o papa que, diferentemente da concepção psicológica do desejo (onde esse fenômeno é visto de modo natural à nossa espécie, o que é evidente e válido do ponto de vista científico, sendo relevante), a abordagem de Cristo Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5.27-28) se volta ao que acontece no coração, a fonte onde o mal surge e se enraíza até o olhar. É o coração humano que passa a ser palco de um engano sobre o desejo que separa o homem da comunhão que vem pela compreensão correta do significado esponsal do corpo. O “olhar” enfatizado por Cristo Jesus (“todo aquele que olha para uma mulher com desejo”) no qual o termo “libidinoso” enfatiza o contexto de não ser a própria esposa, é o que caracteriza o adultério, evidenciando um conflito de valores na consciência que afeta a dignidade da pessoa, a tornando envolvida como objeto submissa pelo desejo e pelo prazer.
    Talvez surpreenda alguns que, nas lições, o papa considera o valor do sexo (ato sexual) como parte da riqueza humana que deveria libertar uma gama de desejos carnais-espirituais de natureza pessoal e de comunhão, no entanto, quando a concupiscência é inserida no âmbito do tal olhar (malicioso em meio ao desejo carnal fora do casamento), esse fato vai de um ato cognitivo ao conhecimento do que se deseja (appetitus), onde se estabelece a exclusiva finalidade de satisfação sexual do corpo, e então essa riqueza do sexo se reduz de maneira que o desejo sexual passa a ter um fim em si mesmo,  é o sexo pelo sexo, limitando assim uma diversidade (corpo-espírito) que une as pessoas através do significado esponsal do corpo, no casamento, na monogamia marido e mulher, como amantes de corpo e alma em comunhão com um sentido pleno.
    É o “olhar” que revela o que está no coração, o homem interior, que passa a ser confrontado com o sagrado e quando isso se dá fora da união matrimonial esse olhar é de adultério para o rabi Jesus de Nazaré. O papa enfatiza que Cristo se volta ao coração onde nasce o pecado do adultério, que falsifica o sinal da comunhão das pessoas, sendo a antítese da relação esponsal, antinomia do matrimônio; é uma ruptura da aliança pessoal do homem e da mulher.
  4. Até este ponto a obra de São João Paulo II reflete uma rica teologia que pode surpreender não apenas católicos, mas também protestantes. Os principais pontos em destaque:  1. A UNIÃO CONJUGAL FAZ PARTE DO CONHECIMENTO DA NOSSA HUMANIDADE. A união conjugal é “conhecimento” e não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto de prazer.  No ato sexual  o homem, aqui no sentido de ser humano masculino ou feminino, munido por uma comunhão, entra em um nível mais profundo no conhecimento de sua humanidade onde a procriação é uma potencialidade particular do organismo feminino. 2. O ATO SEXUAL FAZ PARTE DA DIGNIDADE HUMANA E DA “REDENÇÃO DO CORPO”. A união conjugal é uma forma de “redenção do corpo”, um caminho para santificação, no entanto a crise no Jardim do Éden subverteu esse entendimento para uma visão materialista e utilitarista onde o outro é muitas vezes visto como mero objeto de posse e prazer, algo que passou a confundir o sentido do matrimônio ou até mesmo banalizado pelo legalismo religioso diante da concupiscência induzindo  o ser humano a encontrar formas de tentar conciliar os mandamentos sobre a fidelidade no casamento monogâmico com práticas de poligamia e adultério, este último visto como um pecado mais por ato de relação sexual com a mulher de outro, evidenciando mais uma vez a visão da mulher como um objeto ou posse do homem e não como um ser humano a participar no processo de comunhão onde o ato sexual faz parte do dom do amor, sendo assim necessário, fazendo parte do caminho de enlevo da dignidade e do crescimento pessoal através do casamento. 3. JESUS CRISTO (em Mateus 5. 27-28) FAZ UM APELO AO CORAÇÃO, UM CAMPO DE BATALHA PELO DOMÍNIO DO SER HUMANO. Jesus Cristo aborda os temas do casamento e do adultério banalizados pelo sistema religioso à época, remetendo todos a uma reflexão sobre as origens e o valor profundo da união conjugal, apelando ao coração do ser humano, não para acusá-lo, mas para fazê-lo ser usado como meio para o bem. O coração é um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Em Cristo Jesus o coração não é acusado nem o corpo condenado, tampouco o sexo. O desejo em si não é um mal e sim um olhar com um desejo desordenado. O ser humano é então convidado a se voltar ao coração para se tornar firme na manifestação do espírito, o que pode ser realizado através da união conjugal.
  5. Quando o erótico não está em conflito com os ensinamentos do Sermão da Montanha.  O papa mais uma vez trabalha na teologia do corpo o sexo com aspectos éticos vivenciados a partir dos ditos de Cristo Jesus no Sermão da Montanha. O uso do termo erótico que deriva do grego eros, considerando uma conotação diferente vista na filosofia de Platão. Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo em conflito. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica pela visão platônica à luz de Mateus 5.27-28 onde o erótico é concebido na forma do que é ético.
  6. Uma síntese dessas duas lições do papa pode ser pelo famoso dito “cuidado com as aparências”. Os “sepulcros caiados” dos ditos na crítica em Mateus 23.27 se associam a esta interpretação papal. E nas relações humanas não é raro encontrar quem seja limpo, agradável, por fora, enquanto imundo, podre, repugnante, por dentro.

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