Sacrifício de Isaque (1602), obra barroca de Caravaggio (Itália/Milão, 1571-1610)

Por pr. Abdoral Alighiero

Do alto da montanha, no primeiro domingo do novo ciclo solar, eis que surge um saudosista sexagenário daquele tipo que se vê como “conservador”, ainda esperançoso no inquilino do Palácio, a se lamentar sobre o que define acerca do “futuro da humanidade” mediante uma juventude que estaria tão somente na “perdição” deste mundo terreno.

“Decadência” das instituições e “degeneração” da sociedade, cada vez mais distante dos “bons costumes”, seriam os “sinais de evidência” do nosso amigo “conservador” aparentemente preocupado com o futuro de seus descendentes ao ver uma juventude endossada pelo “individualismo” e pelo “sexismo” (seja lá o que quis dizer com isso), pelo “analfabetismo funcional”, pela perda de “boas referências”, sendo assim grossa, “estúpida”, mal educada e consumista. Nenhuma novidade em termos de divagação…

E então meu visitante desfilou mais detalhes de seu gênero interpretativo fatalista/saudosista/simplista sobre os próximos passos da humanae, tudo sob a sua visão crítica que logo se revelou baseada mais na experiência própria dos sentidos e da vida pessoal, naturalmente sujeita à dispersão de conhecimentos, caindo na ilusão de um raciocínio que, para ter algum sentido, dependeria de um mundo civilizado cuja apoteose estaria nos anos 1970 (referência de “ordem” social que demonstrou), como se fora um produto de um tempo de sua juventude que dá a medida justa do mundo e da humanidade, tudo limitado ao que consegue saudar ou memorizar.

Essa coisa de que o mundo está cada vez pior, como se a história estivesse por um fio condutor tendo uma certa previsibilidade para o fim dos tempos, indicando um processo histórico, quando não lembra o jeito de pensar de marxistas, embora o sujeito se declare “conservador”, parece mais coisa de fundamentalista alienado em narrativas de apocalipse, cuja pandemia acabou servindo para reverberar uma visão trágica, como se a humanae não tivesse passado por epidemias bem piores em tempos em que não existiam antibióticos, nem vacinas, como se deu na peste de 1348, onde predominavam crendices religiosas [1], o que evidencia o quanto “pioramos”, embora temos os novax atualmente.

Lembrei-me de Winston Churchill sobre o saber olhar mais atrás, com uma profundidade maior no passado, para enxergar melhor no horizonte, mais distante, em relação ao futuro, em face de que o primeiro problema do visitante “conservador” ficou evidente na referência central que tem sobre o que consegue entender como “melhores tempos”, desprezando a imensidão do passado e o quanto a nossa espécie se tornou moralmente mais sofisticada em relação ao que faz consigo mesma, e esse “moralmente mais sofisticada” não significa resumir a questão a uma evolução ou decadência e sim a costumes que foram se consolidando por movimentos nas culturas, em meio a crises e superações. Ressalvando os casos dos que aplicam literalidade da narrativa do Éden, o visitante “conservador” simplifica demais as coisas descartando que nossos ancestrais, profundamente conectados ao que podemos entender como “natureza selvagem”, viviam em bandos, faziam das tribos os meios de guerras por território, praticavam normalmente o que alguns entenderiam hoje como “sexo livre”, o que prefiro chamar de “comunismo sexual” [2], procuravam lidar com fenômenos naturais fazendo uso de sacrifícios humanos, onde costumeiramente se arrancava o coração. Oferendas, sobretudo de crianças, era o que se entendia para acalmar ou satisfazer o divino ou aplacar o sobrenatural, sendo que neste ponto, uma leitura do Antigo Testamento será proveitosa acerca da mentalidade típica em Canaã, cujo ponto maior é Abraão com Isaque [3]. A antropofagia, hoje um tabu predominante em culturas pelo mundo, era uma prática comum documentada [4], em especial em casos de nativos pré-colombianos que chocaram os invasores europeus. Sem dúvida, “pioramos” bastante nesse quesito também.

Voltando para cerca de 2300 anos, na Roma antiga, filhos deficientes eram abandonados [5] como costume de famílias cujos pais das Domus viam mulheres e filhos como meras posses, a serem negociadas conforme interesses políticos e econômicos do chefe do lar. A caridade com os mais vulneráveis seria uma realidade mais evidente em Roma a partir de quatro séculos adiante, com o surgimento de uma fé estranha aos costumes antigos: a cristã, que pregava o amor com o próximo e o perdão, este último ponto coisa meio subversiva para um simples da plebe exercer, até então restrita à demagógica política na figura do imperador e de seus asseclas. No Colosseo da “cidade luz”, o panis et circersis da plebe era ver, na arena, seres humanos, na condição legal de escravos, se matando no exercício como “gladiadores”, ou se entreter assistindo a “desprezíveis” ou condenados sendo devorados por feras, estes últimos, muitos deles confidentes líderes religiosos, bispos (επισκοπος), quando não crianças e idosos de uma fé que entronizava outro rei no lugar do imperador: Jesus de Nazaré, três décadas passadas sentenciado à morte de cruz na província da Judeia.

Imagine a maior potência do mundo, símbolo do progresso incomparável com outros povos, provedora da segurança de seus cidadãos, a pax romana, tendo sete dos seus dez primeiros “presidentes” sendo assassinados por conspiradores, com tramas que fazem House of Cards parecer história de adolescente… Os assassinatos de imperadores no “Império Romano do Ocidente” denotam um quadro de uma sociedade que tinha abandonado um modelo de república para cair em um regime de ditadura no entendimento predominante de que era necessário um “homem forte” para lidar com inúmeras ameaças internas e externas, nas guerras de conquistas. Neste mundo onde se tinha a ideia de progresso baseado em intolerâncias que hoje seriam inaceitáveis no ocidente, antes da “conversão” de Constantino, o “ser cristão” ou qualquer confissão religiosa ou ideológica contrária aos ditames imperiais, significava correr grande risco de morte em condenação sumária, não raramente em execução por um soldado indiferente que só queria mesmo era cumprir o dever com Roma; confessar uma fé diferente da oficial do panteão dava então algumas opções, além da prisão ou pena de morte, conforme o caso, como fugir para as florestas, ficando à mercê de bárbaros ou saqueadores, ou corromper fiscais do império para não ser denunciado e processado. Com a oficialização, muitos perseguidos se tornaram perseguidores, mas atualmente, quem em sã consciência diria que na cristandade predomina a ideia de que é correto matar um semelhante por causa de divergência religiosa, embora o preconceito e o fundamentalismo estejam presentes? Sem dúvida, “pioramos” bastante, sobretudo quando se considera um tempo em que ir à guerra para retomar Jerusalém, no medioevo, tudo em santidade, em nome de Deus [6], era uma aceitável forma “cristã” de ser honrado pelo papa no advento do reino celestial; se a “guerra santa” atemoriza o mundo hoje no extremismo islâmico, seria um engodo ver como coisa superada entre ampla maioria de confissões cristãs? Mais uma vez, “pioramos” bastante.

E não poderia deixar de tornar à escravidão, certamente o capítulo mais sombrio da humanae, uma prática das mais antigas que atravessou civilizações, não poupando povos, independentemente da cor da pele, ou será que os faraós no Egito que escravizavam hebreus eram loirinhos dos olhos azuis? E os africanos prisioneiros, vendidos por traficantes africanos que eram de pele alva como a neve? [7]

Durante vários séculos, os europeus escravizaram outros europeus, os asiáticos escravizaram outros asiáticos, e africanos escravizaram outros africanos. Apenas na era moderna passou a haver tanto a riqueza quanto a tecnologia para se organizar o transporte maciço de pessoas por um oceano, como escravos ou imigrantes livres. Os europeus também não foram os únicos a transportar massas de seres humanos escravizados de um continente para outro. Apenas os piratas da Berbéria, no norte da África, capturaram e escravizaram pelo menos um milhão de europeus entre 1500 e 1800, de forma que o número de europeus submetidos à servidão, na África foi maior que o número de africanos levados como escravos para os Estados Unidos e para as colônias que dariam origem ao país. [8]

A escravidão ainda não foi erradicada, mas considerando a legalidade predominante até o século XIX em muitas culturas e o que ocorre hoje enquanto identificada, na ilegalidade, é normalmente denunciada com fervor, como deve ser. Considerando que no século XIX ter escravos no Brasil era coisa “normal” de uma pessoa bem sucedida, hoje predomina na nossa espécie um sentimento de repulsa por isso, o que denota o quanto “pioramos”, não é mesmo?

A humanae produziu tiranias de imperadores, guerras que se agigantaram na proporção do tamanho dos estados, reis medievais sucedidos ou superados por um modelo de poder renascentista que incluiu pessoas comuns para aumentar o poder de manipulação de massa e nesse processo, massificando o senso de justiça que se revelou como ferramenta de terror para controle social, a coisa evoluiu para as democracias modernas que camuflaram a tirania. Nada mais explícito do que o uso da guilhotina, produto da Revolução Francesa, de onde surgiu um Napoleão; e no afã doentio de melhorar a nossa espécie por mais planejamento central de governos, se forjou um Hitler, um Mussolini, um Stalin, um Fidel Castro, e a dinastia em Cuba, além de outras totalitárias como as dos Kim na Coreia do Norte, e tantos outros ditadores em várias formatos atravessando culturas, enquanto há quem na nossa espécie celebre tais “vultos” até como defensores das virtudes da humanae. Assim sofremos com um drama permanente entre a subjetividade dos arranjos individuais, onde se inserem as famílias, os indivíduos e os pequenos arranjos sociais, e a objetividade de arranjos coletivos, em maior escala, onde opera o poder “público” ou estatal, residindo nessa tensão muitos dos problemas sobre liberdade, responsabilidade, economia, educação, tolerância e cooperação social.

De alguma forma, opera na humanae uma força através da cultura que agrega novos fatores, aprimorando uns costumes, abandonando outros, preservando coisas fundamentais, enquanto destruindo ou reinventando outras, onde no tablado da vida em comum, ou “sociedade”, estão ideias em conflito e o fato de, aparentemente, predominar na atualidade muitos alheios ou incapazes de perceberem a gravidade desses problemas, quando não manipulados cujo hedonismo serve de moeda de troca com a própria liberdade, além de outras questões, levando em conta a amplitude da trajetória da nossa espécie desde nossos ancestrais, vejo sinais de evidência que não me permite afirmar que somos um “caso perdido” ou uma sombra de perdição às próximas gerações.

Não é possível prever e o futuro da humanae permanece superior a qualquer determinismo, enquanto a esperança segue alimentando nossos planos em alguns passos melhores, enquanto outros desastrosos porque somos humanos, destinados ao imponderável, aos erros como parte de um processo de aprendizagem, para fazer a ciência em um processo de cultura que se retroalimenta por nossa própria natureza.

Notas:

  1. Ver a publicação “A crise do século XIV” neste blog que se trata de um resumo da palestra “Fra recessione e innovazione: la crisi del Trecento”, do professor e historiador italiano Alessandro Barbero;
  2. “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”. Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staates, de Friedrich Engels. Ver também “A sociedade primitiva”, de Lewis Morgan.
  3. Gênesis, capítulo 22;
  4. “Brasil, Uma História” de Eduardo Bueno é possível começar a tomar conhecimento do canibalismo entre nativos, assim como de bibliografia vasta usada pelo autor;
  5. História de Roma, do historiador e jornalista italiano  Indro Montanellim (Itália/Fucecchio (1909-2001), edição em espanhol;
  6. Le guerre di Dio. Nuova storia delle crociate, de Christopher Tyerman. Sacri guerrieri. La straordinaria storia delle crociate, de Jonathan Phillips, edição em italiano com tradução de Cristina Spinoglio. Il grande racconto delle crociate, de Franco Cardini e Antonio Musarra;
  7. Ver o capítulo 6, Fatos e falácias raciais”, da obra “Fatos e Falácias da Economia”, de Thomas Sowell
  8. Na obra da nota anterior, página 210, Sowell cita na bibliografia (página 302) , Robert C. Davis, “Christian Slaves”, Muslim Masters: “White Slavery in the Mediterranean, the Barbary Coast, and Italy 1500-1800”, Nova York: Palgrave Macmillan, 2003, p.23. Philip D. Curtin, The Atlantic Slave Trade: A Census. Madison: University of Wisconsin Press, 1969, p. 72, 87, 91.

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