Vítima da tragédia de Pompeia

Por pr. Abdoral Alighiero

Do alto da montanha de um sábado de verão, com ar de inverno, eis que surge mais um beato “conservador” da confissão apocalítica dos ávidos pelo fim do mundo, em plena escatologia covidiana, falando de um meteoro e de um tsunami como mais alguns sinais para (mais um) fim da trajetória terrena-milenar da humanae.

O beato prosseguiu na sua empreitada profética de boteco, naquele sentido dado por Umberto Eco ao idiota da aldeia nas redes sociais, reforçando que estamos próximos do “fim”, e para ter um ar de consistência diante de um velho pastor eremita, citou II Timóteo 3, em especial o verso 8 [1], que também lhe serviu para fazer um forçado link com a política, pois o visitante “conservador” anda um tanto frustrado com os últimos conchavos do seu outrora “mito”.

Antes, vamos à nossa irmã natureza que já protagonizou muitos “fins de mundo”: ora, ora, desde que a terra é terra que meteoros e vulcões se dão neste mundo de Deus, e entre tantas tragédias, penso na de 24 de agosto de 79 d.C, em Pompeia; imagino se um vulcão hoje entrasse em erupção, como o Vesúvio, a sepultar uma cidade inteira, como ocorrera naquela da província italiana do Império Romano na pior catástrofe da antiguidade [2], não ficaria surpreso testemunhar delírios à espera do iminente arrebatamento neste interminável processo esquizofrênico de espera pelo “fim” da história. No entanto, penso, qual o impacto do evento que destruiu Pompeia, na concepção dos primeiros cristãos naqueles dias, e qual impacto teria hoje entre fundamentalistas cheios de tesão pelo juízo final?

Quanto ao meteoro, neste aspecto, creio que não se faz necessário falar daquele que deu fim nos dinossauros em mais um mundo que se acabou, considerando que, para essa gente fideísta, paleontologia é coisa de “ímpio” ou “teólogo liberal” (termo ainda mais pejorativo), e assim esse meteoro não conta. Prefiro então pensar no misterioso “Evento de Tunguska”, ocorrido em 15 de fevereiro de 1908; mais um “fim de mundo” que destruiu uma floresta de 80 milhões de árvores que ocupavam 2 mil quilômetros quadrados, na Sibéria? O meteoro de Tunguska está envolto a uma intrigante ausência de cratera, suscitando algumas teorias, incluindo uma um tanto “alternativa” [3]. Imagino um evento desse tipo hoje, diante da explosão de informações dispersas, com terraplanistas apreciados por multidões, entre outras teorias da conspiração se multiplicando mais que a variante ômicron, catalisando gerações cada vez mais alheias aos fatos, vivendo em suas bolhas ideológicas, reagindo ao inesperado como se tudo fosse “cisne negro”…

Quanto ao Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, em mais um sinal do interminável fim “próximo”, depois do Vesúvio, pensei nas ondas gigantes da erupção do Krakatau, na Indonésia, em 27 agosto de 1883; imaginei o quanto se falou dobre o “fim” no maior de todos registrados, o de Sumatra, Indonésia, em 26 dezembro 2004, seguido pelo ocorrido na costa leste do Japão, em 11 março 2011.Também outro fim de mundo me veio à mente: o terremoto que implodiu Lisboa no dia 1 de novembro de 1755, seguido de um tsunami. Então, pensei no atual estágio histérico das redes sociais, recheada de homens massa do “fim” e pensei como reagiriam, sobretudo a tragédia de Sumatra (2004) com 240 mil vitimas fatais ou a que destruiu uma das mais importantes capitais europeias colonialistas à época (Lisboa/1755), fenômeno sísmico seguido de uma onda de choque no Oceano Atlântico que atingiu o litoral brasileiro com outro tsunami. [4]

Os “sinais dos tempos” às vezes soam como fetiche em mentes frustradas com a realidade, em constante crise existencial, nutridas por uma fé escatológica que não saiu da adolescência, se ocupando demais com o imponderável que não pode ser tratado e previsto. A falta de profundidade com o passado, onde tudo soa a inédito, ferve um caldeirão pelo iminente fim em indivíduos que se tornam sonhos de consumo de líderes inescrupulosos e extremistas, sejam religiosos ou políticos, onde a regra principal é canalizar a superficialidade da ingenuidade para arregimentar projetos de poder. Aproveitando as frustrações do nosso “conservador”, nesse universo onde a ignorância é o insumo principal na formação de seguidores ou eleitores, imaginei um futuro pós-apocalíptico onde alguma nova espécie encontre, quem sabe em meio a ruínas (se sobrar alguma), um texto assim sobre a “arte” da política em uma determinada sociedade que viveu seus dias de decadência:

[…] sua verdadeira indústria era a política, que oferece, para lucros, atalhos muito mais rápidos do que o trabalho verdadeiro [5]

Só pode ser sobre o nosso Brasil bem brasileiro, desde os tempos de colônia, com empresários e políticos viciados no capitalismo de compadrio ou de laços, em negociatas de “amigos do rei”. Porém, como não há nada de novo debaixo do sol, como diz o sábio Coélet [6], o trecho é de uma obra de Indro Montanelli sobre a Roma do antigo Império, sobre políticos e empresários romanos que há dois mil anos faziam fortunas por conchavos no aparelhamento estatal; foi a política bem no estilo “museu de grandes novidades” cantada pelo poeta Cazuza.

Em meio a tanto anseio para que chegue logo o nosso triste fim, acredito não ser necessário discorrer mais sobre o Armagedom de cada dia em seus episódios do divino contra a iniquidade humana e quantos passaremos, por crenças que perduram desde testemunhos da narrativa bíblica do dilúvio, replicando antigos mitos onde deuses decidiram exterminar a nossa espécie, e entre tantos cataclismos, dar um fim a humanae não vem se revelando uma empreitada de sucesso quanto aos desejos escatológicos, visto que ainda estamos por aqui.

Notas

  1. Advertência de São Paulo sobre os perigos dos últimos tempos, no oitavo versículo menciona “homens de espírito corrupto”;
  2. I tre giorni di Pompei: 23-25 ottobre 79 d. C. Ora per ora, la più grande tragedia dell’antichità, obra de Alberto Angela;
  3. Ver em Meteor that blasted millions of trees in Siberia only ‘grazed’ Earth, new research says;
  4. Tsunami no Brasil, ver em Rede Sismográfica Brasileira
  5. Historia de Roma, de Indro Montanelli, edição em espanhol, tradução livre. XXXIX, sobre como se dava o mundo dos negócios entre políticos e empresários na capital do antigo Império;
  6. Eclesiastes 1:9, Bíblia de Jerusalém, ed. Maio de 2000.

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