15/05/2022

A relevância dos opostos

À escuta de Brothers, do maestro Ludovico Einaudi (Italia/Torino, 1965), ao piano de Jeroen van Veen (Holanda/Herwen, 1969) e a digerir ainda o conto de 21 de abril, de meu velho amigo de infância, eremita pastor que não gosta de receber visitas, não quer crentes(seguidores) em seu regaço e está em busca de uma nova essência para o significado de ser humano.

Estava a meditar sobre a relevância dos opostos. Pensei em Heráclito de Éfeso (540 – 470 a.C.) e o movimento entre os opostos cuja diferença proporciona um significado essencial sobre a própria diferença, o que dessa constatação se deriva a dialética. Lembrei do Livro XII das Confissões de Santo Agostinho, “Mas que são trevas, senão ausência da luz?“. Voltei para a dialética e pensei na tríade de Hegel; tese, antítese e síntese.

Os opostos se apresentam fora de meus controles, quer ou os deseje ou não, independente de minhas vontades e meus valores. Como são identificados, analisados e compreendidos vai definir o meu senso de análise sobre as coisas em um processo que está intimamente ligado ao cotidiano. Se eu estiver bem atento aos opostos, poderei tirar preciosas lições na vida, mas se me deixar envolver por banalidades, os opostos passarão por mim sem que eu os perceba.

Graças a percepção dos opostos que posso tornar a ética exequível ou seja, avaliar uma situação para identifica se algo está correto ou se trata de coisa oposta. Ao ponderar os opostos, se poderá classificar bem e mal, certo e errado, verdadeiro e falso, certeza e dúvida…

No âmbito profissional, assim como na vida pessoal, com a percepção adequada dos opostos terei de condições separar o joio do trigo. Avaliar bem os opostos me dará um senso apurado de quem se conduz com responsabilidade, diligência, zelo, dedicação, foco, disciplina, em comparação com quem não apresenta tais características., em outras palavras, saber identificar opostos, será possível separar

a. Os responsáveis dos irresponsáveis;

b. Os que têm gratidão dos ingratos;

c. Os íntegros dos degenerados;

d. Os fiéis dos traidores;

e. Os transparentes dos falsos ou manipuladores;

f. Os verdadeiros dos falsos.

Opostos bem identificados, aparecerão categorias de clientes e parceiros de negócios; será possível avaliar por meritocracia quem merece crédito e quem foi negligente para ser questionado, restrito ou penalizado. No âmbito contábil, uma conduta negligente de um contador-chefe não apenas prejudica quem conta com seus serviços mas também se desdobra na sociedade. Quando um profissional contábil se porta de forma irresponsável com obrigações, está multiplicando problemas e trazendo danos a empregados, clientes, fornecedores e outros agentes de interesse no negócio mal assessorado. Na análise de opostos há profissionais que se desdobram para manter obrigações assessórias em oposição aos que preferem acumular problemas e prejudicar os outros.

Em outra situação, em um escritório se usa o mesmo sistema e tem equipamentos similares, com uma carteira de clientes de atividades semelhantes, em volumetria próxima, executa bem determinada rotina e as coisas correm no prazo legal, em oposição a outro que está um caos, com diversas obrigações atrasadas. Algumas variáveis entre esses opostos envolvem saber se o suporte é o mesmo feito com o mesmo padrão, para que outras causas possíveis sejam avaliadas. Então, seria por desorganização, procrastinação, falta de foco, gestão ruim de pessoal, alguns desses fatores, ouros ou todos combinados? Perguntas que só podem ser bem respondidas se as categorias dos opostos forem bem trabalhadas.

A ingratidão, que foi uma das coisas mais difíceis que tive que aprender a lidar na minha carreira, se torna coisa menos desagradável quando a submeto a comparações entre opostos, pois graças aos clientes que possuem essa virtude, pude aprender a perceber “gregos” e “troianos” e assim identificar melhor os que são ingratos, de maneira que também não caio no erro da generalização de pensar que só há “ingratidão” ou falta de reconhecimento. Certa vez fui presenteado financeiramente, com um valor que não poderia imaginar, por um cliente que é muito exigente, de um ramo onde sobram rótulos de que só há pessoas mesquinhas, enquanto às vezes preciso tratar de casos onde se exige bastante de mim sem que a contrapartida da obrigação financeira regular seja um fato à altura das exigências. Ao comparar bem a primeira situação com a segunda, graças aos opostos, estarei então evitando injustiças sabendo reconhecer quem me valoriza de fato e quem me despreza para assim definir um melhor juízo.

Apesar da separação do que é correto, justo, responsável, do que não é, hoje ser vista (de forma infantil) como um “pecado” por uma rasa concepção do “politicamente correto” de uma sociedade onde muitos são estimulados a não reconhecer e a não assumir as consequências dos próprios atos, sem aplicar razoavelmente bem as categorias dos opostos não será possível vivenciar a máxima popular (verdadeira) de que “cada caso é um caso”, assim como exercer um mínimo senso de justiça nos relacionamentos, sejam profissionais ou pessoais.

21/04/2022

O cafajeste amado – por pastor Abdoral Alighiero

Olá amigos deste distinto espaço, a repousar está o meu amigo de infância, proprietário deste blog, e assim me convidou para uma participação especial. Eis que do alto da montanha, em minha solitária caverna, aqui estou para um conto e sendo assim, é sempre bom começar a dizer para desavisados que não apreciam a arte da ironia, que se trata de uma ficção, tudo fruto de minha imaginação, e qualquer semelhança com fatos não passa de mera coincidência.

Gerôncio é um empresário à procura de outro escritório contábil pois acha que a Alfa Contábil lhe cobra caro demais (UR$, URSO Real) 2.000 para fazer as rotinas “contábeis” digo, IVA (Imposto sobre Valor Agregado) e o URSO Social (Teletela Trabalhista da Internet das Coisas) e a escrituração propriamente dita em livro diário tão somente para atender a exigências legais em torno do “lucro presumido”.

Então, Gerôncio em sua busca desesperada para cortar custos, encontra a Baratinho Contábil que lhe oferece “tudo” por 800 ursos reais e com promessas de reduzir impostos em 50%. Mais animado do que pinto no galinheiro, Gerôncio assina com a Baratinho e comunica a Alfa Contábil o encerramento imediato do contrato. A Baratinho é uma organização situada em um suntuoso prédio todo espelhado no centro da cidade, aos cuidados de Onildo Barata Agar Romeu Real, famosa entre empresários da região por ter aquele precinho camarada, e por dar uns “jeitinhos” nas guias de impostos, cuja estratégia de “sucesso” é bem simples: RECEBER E NÃO FAZER as declarações com sinceridade à Receita URSO, mesmo que precise, por um tempo, descumprir prazos e as normas legais do Estado URSO, da União das Repúblicas Socialistas da Oceania, coisa que Gerôncio descobrirá em breve… A filosofia de Onildo Barata é sempre parecer correto sem o ser.

PAREÇA CORRETO SEMPRE SEM O SER; ESTEJA EM ETERNA CRISE AOS OLHOS DO FISCO PORQUE A CONTABILIDADE ESTÁ MORTA.

Alguns meses se passaram e a Gerôncio Comércio e Construção está com SPD (Sistema Público Digital) IVA URSO atrasado (pagou algumas multas, novidade na sua vida) e recebeu guias de recolhimento com valores reduzidos . O SPD “Doações Compulsórias”, um programa social de “coerção do bem” também ficou atrasado, não recebeu qualquer balancete, tampouco o balanço trimestral foi apresentado. Até o livro caixa está atrasado, e o SPD URSO Fiscal que ficou com a Baratinho para fazer, visto que encerrou o contrato subitamente com a Alfa Contábil no meio do ano anterior, está também em atraso assim como o URSO Social, que a Alfa Contábil entregava todo santo mês. Gerôncio está mais preocupado com ex-funcionários lhe ameaçando de entrar na justiça, pois deram entrada no salário-desemprego, que dura 12 meses, mas como a Baratinho Contábil tem o hábito de não fazer rotinas no prazo, caiu na malha de analises do governo URSO e estão com o benefício bloqueado.

Tadinho do Gerôncio… Correu para a Baratinho para conversar com o “mito” Onildo, carismático, um nome de sucesso; um “homem de fé e visão”, o recebeu com toda empatia e, após alguns minutos de conversa, saiu leve; tinha recebido detalhes do plano mirabolante de Barata que passou a ser executado para mudar o parâmetro da empresa e confundir o fisco. “Sua empresa está bem demais, querido, seu URSO Social tem empregados demais e temos que passar a ideia de que entrou em profunda crise”, disse. “Seu SPD URSO Contábil fala demais, temos que matar sua contabilidade e fazer nascer uma para o fisco. Seu SPD URSO Fiscal, também. Não se deve ser sincero desse jeito, querido. Temos que dificultar o trabalho dessa gente e deixe o resto com meus advogados. Quanto ao salário-desemprego, faremos o que for minimamente necessário para ativar o benefício, enquanto estudamos sua folha e percebemos que deverá ser reduzida pela metade neste lucro presumido e o restante vai para uma empresa que vou lhe emprestar no Simples URSO”. Em paralelo, a Barata Consultoria, o novo braço do negócio, entrou com processos administrativos para reduzir bases, para isso usou a expertise de um grupo de TI e consultores tributários que identificam falhas nas aplicações de normas e na lógica de decisões nos sistemas fiscais. Após o reset fiscal, começou a entregar as declarações no prazo com os novos parâmetros, parecendo ser de uma empresa em constante “dificuldade”. Transferiu metade dos empregados para a empresa “emprestada” no programa Simples URSO e passou a operar com bases amparadas em decisões judiciais na interpretação de leis confusas, intencionalmente feitas para favorecer o lobby de advogados tributaristas e dos próprios juízes que precisam “justificar” seus elevadíssimos salários por jornadas aparentemente maiores que a média da população. “Quanto mais complicado, melhor”, costuma dizer aos clientes. Para Onildo Barata, uma verdadeira simplificação de normais fiscais seria pior coisa que poderia ocorrer em seu negócio, por isso apoia, financia, faz campanha em favor de políticos que criam legislações confusas que são vendidas à sociedade como “simplificadoras”. “O povo é burro, para manter os parasitas, a estrutura de Estado tem que ser doentia e o povo besta pensa que políticos e governos existem para lhe servir, quando falam em facilitar as coisas, estão complicando, quando criam uma solução é porque criaram um problema ainda maior”, disse a Gerôncio que ficou espantado com o realismo de seu novo “consultor”.

Ao longo dos seus 30 anos de mercado aprendeu a se adaptar rapidamente às circunstâncias e nos dias atuais não gosta de ser chamado de “contador”, pois acha que é pouco para o que faz e prefere ser tratado como “consultor”. Os verdadeiros consultores da Barata Consultoria não aparecem; todos pensam que é o Onildo Barata que pouco entende dos aspectos técnicos, mas como é um marqueteiro de primeira linha, consegue ludibriar a percepção dos clientes que pensam que ele é a enciclopédia tributária da organização. Essa história de “consultor” começou quando Barata percebeu que empresários tem inclinação por esse termo, assim como para “advogado”, além de que “contador” passou a ser sinônimo de quem só traz despesas e pobreza. “Contador é coisa superada, é uma espécie em extinção”, costuma dizer às pessoas mais próximas. ” O futuro é agora e pertence aos consultores”, completa. O “consultor” Barata percebeu que empresários associam hoje o termo “contador” a tudo que não presta no mundo dos negócios em torno da burocracia e problemas com custos, impostos, obrigações disso e daquilo, além de que a conversa de “reduzir imposto” fica mais fácil de ser ouvida quando é apresentada como consultoria e sendo um mestre na arte da embromação, entendeu que se apresentar como “consultor” facilitaria mais as coisas. “Contador é um dinossauro olhando o meteoro”, fala para os mais próximos em reuniões regadas a muito uísque e vinho nas tardes de toda sexta-feira.

“Não o chamem de contador, Barata é o nosso mestre e consultor “, é o que colaboradores antigos do escritório costumam alertar aos novatos. A mudança foi recente, depois de ter participado de um evento com um renomado influencer do meio contábil que mostrou por “A + B”, como “2 + 2 = 5” que o futuro é o contador se transformar em “consultor”. Quanto a isso, Barata não perdeu tempo e alugou um trio elétrico que entre músicas de micareta e dançarinas arrojadas, anunciou por um mês inteiro seu novo negócio de consultoria; público-alvo, o pequeno empresário, o sujeito que já foi regido pela CULT (Consolidação Ursal das Leis do Trabalho), ficou pejotizado e hoje só quer saber de pagar menos impostos para sobreviver no manicômio tributário da URSO. Promoveu então anúncios na rádio da cidade e também lançou um site com atores e atrizes em roupas de grife caríssimas e falando uma linguagem do povo para se passarem como empregados deum negócio que tem quatro dezenas de colaboradores para cuidar dos quase 1.000 clientes que vivem a reclamar de atrasos em entregas de guias e declarações, amansados com uma lábia maior que o prédio de cinco andares que construiu para sediar o escritório, a grande central de “jeitinhos” que seduz empresários cansados da burocracia ursal.

Os empregados de Onildo Barata têm fascínio por sua cativante personalidade. Alguns chegam a adorá-lo. Curiosamente não aceita muitos homens e prefere moças de “bela aparência” pois isso “agrada mais os clientes” que preferem atendimento presencial. “Prefiro as belas e burrinhas”, disse Onildo Barata em tom jocoso em uma roda de confidentes de sua “sociedade especial de conselheiros”, um grupo elitista de empresários; um deles questionou e Barata foi direto, “no atendimento prefiro ficar cercado por novinhas e belas porque como o Rei Davi, meus olhos preferem ser massageados (risos), além do mais mulher feia dá calo na vista e afugenta clientes. Quanto a ser burrinha, pensem comigo, uma mulher inteligente é um problema sério quando a gente precisa manipular certas coisas para dar recado. As burrinhas fazem tudo que eu mandar sem questionar. Mulher inteligente complica, é mais inconveniente até mesmo que homem inteligente para essas coisas. O setor dos empregados inteligentes não precisa aparecer e se forem lá, constatarão que é a maior concentração de gente feia por metro quadrado lá do escritório”, completou. Neste aspecto, dizem que Onildo Barata teve casos extraconjugais com algumas de suas colaboradoras, no entanto, como medida de contra informação, ele faz questão de levar semanalmente a esposa para o escritório para tirar fotos abraçada com as “meninas” mais próximas do seu gabinete, e a instrui a postá-las em redes sociais, seguidas de uma bênção do pastor da igreja e de comentários com mensagens bíblicas sobre “família”, “amor verdadeiro”, “fidelidade” e “honra”, tudo como forma de ridicularizar os boatos que acabam mesmo perdendo ressonância.

A sala de Onildo Barata é mais concorrida que a do prefeito da cidade, que também é seu cliente. É um lugar especial, de “devoção e esperança” para empresários que querem ouvir respostas milagrosas para as sonegações que costumam cometer. Muitos chegam quebrados ou cansados demais de pagar impostos calculados por escritórios que fazem as rotinas corretamente e esperam por “soluções” que acabam saindo da cabeça de Barata das mais diversas formas. “Sonegar é uma arte”, costuma dizer de forma íntima, ao pé do ouvido dos seus interlocutores. E nessa arte Onildo Barata dispõe de um batalhão de advogados tributaristas que são pagos para ver brechas em processos de execução fiscal, além de dispor de um banco de empresas com laranjas para fazer transações de maneira que não ultrapassem os limites do Simples Nacional, entre outras manobras que envolvem manipulação de cálculos em reduções de bases tributárias, e a contabilidade criativa propriamente dita para os clientes do “lucro real”, onde só uma auditoria muito sofisticada poderia flagrar., coisa que só acontece em grandes empresas.

Homem de um tino comercial aguçado, além da propaganda massiva, Barata é um mestre na arte da auto promoção. Entrou na maçonaria apenas para fazer lobby na rede de contatos da loja. Virou crente com o mesmo intento e na igreja onde é membro, tenta “discipular”os irmãos usando algumas de suas velhas artimanhas para trocarem de escritório sob o argumento de que se quiserem pagar menos impostos, ele é o cara; e como isso tem funcionado, apesar de irritar irmãos contadores membros da igreja. Desde que ingressou na Igreja Anabatista Ursal Renovada do Monte dos Milagres, conseguiu 50 novos clientes. Com todo esse envolvimento com os irmãos clientes, Onildo Barata é chamado pelo pastor com frequência para “pregar” nos cultos, no jogo do toma lá, dá cá; ele se compromete a arrumar mais dizimistas e o pastor fornece o púlpito para ele contar suas histórias como “testemunhos” que não passam de mais propaganda de sua “consultoria”. Por ter o “dom da palavra”, Onildo Barata agrada os ouvidos de irmãos que o admiram com a sua história de office boy sem teto que virou dono de escritório, só não sabem que foi como despachante que começou a assediar os clientes do patrão, que sabotou rotinas do escritório para o patrão ser visto como incompetente, e que em seguida chegava com a solução para o problema que ele mesmo criou e quando pediu demissão, abriu seu próprio escritório levando quase toda a clientela, falindo o ex-patrão. O pastor ratifica os “testemunhos” de Onildo Barata como um homem exemplar para a fé, contribuindo assim para expandir ainda mais a clientela do escritório. Dizem que o pastor recebe comissão do escritório… “O povo fala demais”, respondeu certa vez a um colega que tentou denunciá-lo em um conselho, mas foi aconselhado a desistir porque “Onildo Barata tem amigos poderosos”, escutou de outro colega.

E são muitos laços de poder: o “consultor” Barata tem contatos no alto escalão no Banco URSO, estatal, e por essa via facilita empréstimos repassando parte de uma taxa que cobra aos clientes que desejam ter acesso a “crédito barato e fácil”. O crédito na base dos “amigos do rei” faz parte da mais importante estratégia de Onildo Barata para tomar clientes de outros escritórios. Ele faz a visita “sem compromisso” e no final se vende como facilitador de um crédito especial que jamais o empresário terá se procurar outro “consultor”. Entre essas e outras estratégias para expandir seu império de “consultoria”, Onildo Barata Agar Romeu Real é um nome de elevado prestígio com o seu famoso bordão:

ÉTICA COM PREÇO JUSTO ou A MAIOR PARTE DO MUNDO DOS NEGÓCIOS SE GUIA PELAS APARÊNCIAS QUE ENGANAM

O que mais orgulha Onildo Barata é a amizade que conserva com políticos que o protegem de eventuais fiscalizações e ofensas. Certa vez um colega de profissão, arruinado por ter perdido quase todos os clientes para as investidas de Barata, um tanto desavisado, decidiu “desabafar” em um grupo no UrsalApp sobre o ocorrido, apresentando provas que cassariam o registro de Barata no conselho, no entanto, rapidamente chegou ao conhecimento do chefão que ordenou ao membro-espião que fizesse um post de uma foto dele com um deputado federal bem conhecido na região por “dar um jeito” em quem ofende seus correligionários, e assim o contador amargurado abandonou a condição de denunciante e decidiu apagar imediatamente tudo. No dia seguinte foi ao escritório fazer uma visita de cortesia ao “nobre colega”, ato que na verdade foi para lhe pedir perdão. Reza a lenda que, por influencia de sua paixão pela trilogia de O Poderoso Chefão, Barata exigiu que o “nobre colega” beijasse a sua mão para receber a benção, rito que ele está a meditar para que se torne permanente em sua saga de empreendedor.

E assim caminha o triunfante Onildo Barata, o cafajeste amado, a alma sebosa mais querida de São Jair do Gado Novo, próspera cidade do país URSO integrante da Oceania meridional, onde todos os cidadãos estão devidamente “chipados”, com todos os seus afazeres registrados no URSO Social.

17/04/2022

A terapia da leitura

Entre as diversas motivações que encontro, ao lado da música, a leitura se apresenta como outra terapia que encontrei nesta minha jornada terrena.

Neste domingo pascal, Gloria in excelsis Deo, gloria, obra do padre e gênio barroco Antonio Lucio Vivaldi (Repubblica di Venezia, 1678-1741). Orquestra e Coro de “Voces para la Paz” (Madrid, 2013). Sob a regência de Antonio Fauró (Espanha), Diretor do Coro del Teatro de la Zarzuela. No Auditório Nacional de Música de Madrid.

A leitura se torna mais intensa no final do dia, para relaxar entre um cansaço natural nos desgastes emocionais que sou submetido. Não raramente, passo pela sensação de que o dia passou como uma onda, que a princípio a vi enorme demais diante do que entendia ser capaz de realizar, no entanto, durante a pandemia fui aprendendo que essa pressão é parte comum no enfrentamento da vida; desejamos a felicidade, no entanto, o sofrimento é um ingrediente fundamental nesse processo como pré-requisito ao crescimento pessoal. Sofrer faz parte da terapia da coisa tão desejada chamada “maturidade” e quem foge do sofrimento que se apresenta está indo em direção a um desastre maior. E se todos sofrem de algo que parece ser muito maior do que pensam que podem suportar, meditei que diante desse fato, entendo que buscar uma forma de experimentar mais o lado espiritual é a única via que pode me dar suporte. A força do lado espiritual vai além do que a matéria pode oferecer. E se o meu emocional é diariamente submetido para sondar novos limites, também devo aprender a dar alguns passos para trás; os erros são tão importantes quanto o sofrimento. Percebi então o hábito da leitura como uma forma de exercício mental para ajudar no preparo imaterial em um sentido de trabalhar melhor o meu jeito de pensar sobre a realidade, para reagir de forma mais adequada aos dilemas que me cercam.

Leio para provocar o meu ser contra o comodismo que costuma estar ao lado da ignorância, para trazer novas perspectivas, possibilitar ensinamentos em uma nova visão e assim repensar conceitos.

Leio para não cair na mesmice de enxergar determinadas situações sob uma mesma ótica, preso a uma bolha de ideias.

Leio porque preciso morrer e renascer de vez em quando.

Leio porque chorar faz bem, assim como sorrir e se reinventar.

Leio porque sou humano, demasiadamente humano.

Leio e compartilho alguma parte que considero interessante para postar no blog e isso basta; se alguém refletir e tirar algum proveito, maravilhoso será como “razão social” deste empreendimento intelectual. Curiosamente, alguns confundem meu interesse pela leitura e por conhecimentos variados com alguma vontade que eu teria de me envolver em algum movimento político ou cultural. Acontece que meu interesse por essas coisas não existe já há algum tempo. Meu interesse pela leitura – e pelo conhecimento que dela se deriva – não está associado à necessidade de defender alguma ideia ou mostrar alguma razão às pessoas. Parece que está a acontecer o contrário: quanto mais leio, mais percebo uma voz falando ao meu íntimo; “procure ler e meditar mais do que falar ou escrever e cuidado com a síndrome do sabe-tudo; sua hora não chegou”, pois a leitura me revela quão imensa é a minha ignorância diante das coisas que aprendo. A mesma coisa ocorre quando estudo línguas; certo dia, parei para meditar sobre minha condição de analfabeto em determinada língua que estou a estudar, o que me sinalizou a importância de me precaver de qualquer “falsa intelectualidade” ou qualquer outro sinal que indique que estou com problemas de “necessidades de satisfação do meu ego” e para isso, não encontrei remédio melhor do que combinar reclusão com silêncio. Muitas vezes, me abstenho de dar opiniões. Debates e formação de opinião não me interessam; o mundo já tem gente demais fazendo tais coisas e pelo visto neste “negócio” não é necessário dedicar tanto tempo para leituras; palpiteiros já nascem “sabendo”.

Meu maior desafio será continuar essa jornada e não ser percebido para certas coisas que preciso realizar onde a leitura está na base… Quando minha maturidade for suficiente.

No mais, é através da leitura que entro em sintonia com outra dimensão da existência a romper com coisas do cotidiano e nessa experiência sinto um transcender, uma força imaterial que me fascina e tento trazê-la ao meu contexto o que faz da leitura é um ato espiritual que percorre a minha alma.

10/04/2022

Disciplina

III. Concentração, foco ou como não adoecer da “síndrome da onipresença”

A encerrar esta reflexão sobre a disciplina, inspirado em ensinamentos de Içami Tiba (Brasil/São Paulo, 1941-2015), venho a destacar o ponto mais crítico que observo atualmente entre profissionais no meu cotidiano: o baixo nível de concentração.

É o mês da Páscoa de Cristo (mas para alguns, neste país aparentemente de predominância cristã, seria de carnaval), e eis que para o momento, Jesus, alegria dos homens, do autor barroco que mais aprecio, obra-prima do protestante Johann Sebastian Bach (Sacro Império Romano-Germânico/Eisenach,1685-1750), ao violoncelo de Stjepan Hauser (Croácia/Pula, 1986), com a Filarmônica de Zagreb, o Coro Zvjezdice, todos sob a regência de Elisabeth Fuchs (Áustria).

Não raramente em comunicados que faço por e-mail ou WhatsApp, vejo que uma orientação importante está bem diante dos olhos mas, pelas perguntas que me são retornadas, noto que o profissional não esteve devidamente atento na ocasião da leitura. O problema da falta do hábito da leitura é bem mais abrangente do que se costuma imaginar, pois noto que muitos associam a questão à “leitura de livros” e o que estou a discorrer aqui se trata da leitura como um exercício básico e pautado pelo foco que, sem a devida prática, pode ser um sintoma da carência de capacidade de concentração. Alguns resumem a leitura ao título ou a alguns pontos que conseguiram ter atenção e é neste aspecto que residem os maiores riscos quando são tratados problemas profissionais ou no dito “o pecado mora nos detalhes”. E muitas vezes o “pecado” acontece por distrações desnecessárias que são tratadas como “urgentes” por falta de disciplina.

Registrei no ano passado um caso mais grave envolvendo um problema de distração:

“Isso pode ser melhor compreendido em um caso de balanço entregue apenas com as receitas, com lucro bruto sem deduções de uma empresa no lucro real que só foi descoberto na análise da ECF Contábil-Fiscal (IRPJ/CSLL), mediante o valor exorbitante dos impostos apurados. No dia do Sped Contábil foi dado o alerta sobre o perigo de se fechar um balanço enquanto se atende alguns clientes por telefone. Resultado? Correria para retificar e justificar à Receita Federal o ocorrido, sobretudo em relação ao lucro (base IRPJ/CSLL) ter caído tanto, além de ter que assinar um termo declaratório cujo acesso será possível ao CFC (Conselho Federal), via Sped Contábil, tratando das razões do fato narrado nas notas explicativas do novo balanço. “ [5].

Percebi que muitos problemas envolvendo falta de concentração se relacionam com a ilusão que muitos têm do que podem realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Estão super estimando a capacidade de lidar com situações em paralelo. A situação de executar tarefas com relativo grau técnico de dificuldade em paralelo com outras tarefas menores (atender o telefone), narrada acima,ocorre com certa frequência e tento alertar o usuário que, ao desviar a atenção dessa maneira, tenderá a cometer mais erros que o normal, além de colocar em risco a execução das tarefas pelas quais motivaram o nosso atendimento no suporte. Nem sempre sou considerado e enquanto há um problema de batimento de algum cálculo tributário relativamente complexo, noto que usuários preferem se arriscar em ações paralelas, pois não estão devidamente treinados para neutralizarem tentativas de desvios de atenção que são frequentes no cotidiano. Isso ocorre quando uma diferença em uma DCTFWeb está sob análise e um cliente aciona o usuário via WhatsApp (o mais comum), sendo uma das razões de eu ter saído desta plataforma quando o assunto é técnico. Percebi que se conversarmos por outras vias, o usuários não terá um pretexto para ohar outras chamadas no WhatsApp. e de fato essa estratégia tem reduzido as ocorrências de dessvios de atenção, no entanto, muitos usuários ainda seguem tentando estudar um problema de cálculo na DCTFWeb advindo do eSocial, e, ao mesmo tempo, conversar um cliente que foi (mal) educado para se comportar como se o contador estivesse à disposição sempre de forma imediata. O resultado é o usuário que decide, com medo de desagradar o cliente, quebrar o raciocínio do problema em que estava mergulhado para atender a demanda aleatória e quando volta, está mais perdido do que cego em tiroteio.

Em casos mais graves, o cliente está a conversar enquanto tenta responder a mensagens no e-mail, Facebook, Instagram, Telegram e WhatsApp. E se o telefone tocar ele atenderá “imediatamente” pois precissa demonstrar sua grande “eficiência”. Este comportamento é o que chamo de “síndrome da onipresença” quando a pessoa pensa que tem poderes divinos para “estar” em vários lugares ao mesmo tempo. Passei a usar a vídeo conferência como estratégia para inibir esse comportamento tão auto destrutivo profissionalmente, pois diante de uma conversa em tempo real de voz e imagem, o cliente sente como se eu estivesse ao lado dele e, de certa forma, tende a dar mais atenção aos problemas que estamos a tratar, algo que me lembro bem, ocorria quando fazia visitas presenciais: ao chegar no escritório, era comum o usuário demonstrar maior atenção, mas em tempos de métodos de conversação paralela virtual, isso ficou seriamente comprometido.

A disciplina na organização diz respeito à administração do tempo e também ao que o doutor Içami Tiba destaca como “assertividade”:

“Concentração é dirigir todos os interesses para um só ponto e focalizar-se apenas nele. Desviar-se de assuntos paralelos ou para atividades desnecessárias consome maior tempo e atenção do estudante.” [6]

O livro tem o tema da disciplina voltado para crianças e adolescentes mas é bastante útil para tirarmos proveito como adultos profissionais senão vejamos casos em que me deparo com usuário diante de um problema contábil envolvendo saldos a transportar de planos com estruturas distintas (por mudança de sistema) e eis que surge um problema trabalhista e o usuário o insere na pauta. Observando o que define o doutor Içami Tiba, tento orientar o usuário a resolver um problema de cada vez, no entanto, alguns não compreendem e seguem tentando resolver duas coisas ao mesmo tempo e isso fica mais “divertido” quando surge um terceiro problema, do tipo um cliente que entra na sala e começa a apresentar outros problemas. Por falta de um plano de ação, que vem de uma política de atendimento, a falta de triagem no escritório deixa muitos profissionais passarem apuros por situações análogas e o que ocorre é a produtividade a cair com o colaborador dividido em três, quatro e até cinco tarefas exigidas para o mesmo momento, sem sequenciamento apropriado.

Então, penso, para quem tem dificuldades em entender a importância de evitar desvios de atenção para que a concentração maior seja uma realidade, é preciso treinar a mente quanto à prática da organização e não somente traçá-la em termos teóricos. É essencial ter regras de atendimento e aplicá-las com serenidade e disciplina. Certamente isso vai desagradar clientes que sofrem do mesmo problema da “síndrome da onipresença”, mas com o passar do tempo, pela prática da disciplina, será construída uma sólida base de relacionamento bem mais sério e profissional com a consequência mais importante,: um trabalho melhor sequenciado e constantemente mais produtivo.

5. Buongiorno, Distrações fatais, em 19/11/2021.

6. Na obra, página 195.

02/04/2022

Disciplina

II. Evitar desgastes desnecessários

Dando sequência ao ensinado pelo doutor Içami Tiba (Brasil/São Paulo, 1941-2015) sobre a disciplina, destaco a importância de “evitar desgastes desnecessários“.

Para o momento, Comptine d’un autre été, mais uma peça do gênio Yan Tiersen (France/Brest, 1970), trilha sonora da obra cinematográfica O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), tocada por Manie Laird do Broonklyn Duo.

Um dos maiores benefícios da disciplina consiste em evitar desgastes desnecessários. Todo trabalho provoca estresse e a disciplina é o fio condutor da ética que direciona decisões a um desgaste do trabalho visando uma melhor eficiência das ações. Pela disciplina analiso cada situação em que uma determinada norma de conduta profissional precisa ser aplicada e digo sim a uma proposição de acordo com a ética que norteia os procedimentos, a evidenciar aspectos da moral, e das regras aplicáveis, assim como digo não para o que me sugerir violação de regras, desordem e uma ação premeditada que indique falta de zelo com a seriedade dos trabalhos, em suma, é um apreço incondicional pela organização. Neste aspecto, considero importante ilustrar situações:

CASO 1: Cliente indisciplinado com práticas contábeis (algo comum) quer implantar contabilidade para apurar lucro real. Desgaste desnecessário: fingir que é possível fazer um trabalho contábil sério e dedicar esforço e tempo para “jeitinhos” no fechamento do balanço. Desgaste necessário: observar a disciplina contábil e cortar o mal pela raiz comunicando ao cliente a impossibilidade do trabalho pela falta de cultura administrativa na empresa para ter contabilidade no sistema tributário desejado.

Lembrando Kant, para certas coisas não se torna necessário passar pela experiência. O conhecimento vem a priori e assim é possível ver que contabilidade gerencial e empresário indisciplinado são como água e óleo; não se misturam. Então, resta o “Simples” para quem não tem condições de disciplina para ter contabilidade séria na apuração do lucro.

O desgaste necessário pode gerar um cliente se sentindo ofendido com a verdade, mas garanto que é muito melhor do que tentar trabalhar a contabilidade, em um cliente com histórico de vícios na gestão onde mistura gasto pessoal com os da empresa, viola o princípio da entidade, além de que não adota boas práticas para controle dos insumos e dos estoques de mercadorias e tem o curioso hábito de realizar compras mensalmente com montantes sempre maiores que o faturamento o que, entre outros fatores, provoca no caixa o saldo insuficiente para cobrir pagamentos. Consciente desses problemas, o contador terá que tomar uma decisão onde confrontará o cliente e os seus vícios com a realidade da disciplina contábil para, se necessário, comunicar que antes de implantar uma contabilidade gerencial, terá que repensar práticas inadequadas a assumir a responsabilidade pelas mudanças; sem a carta de responsabilidade pela administração e o compromisso de realizar as mudanças, nada feito, eis a conversa que gera um estresse necessário. Já o estresse necessário consistirá em iniciar a implantação da contabilidade sem exigir a conscientização do cliente por boas práticas e, no final do exercício, ter que “dar um jeitinho” para fechar o balanço. O desgaste desnecessário envolve o contador que é usado pelo empresário apenas para “pagar menos impostos”, enquanto o caos fica a cargo do mesmo contador que acaba levando a culpa por atrasos e imprecisões nos balanços, além das eventuais auditorias e multas do fisco; alguns não percebem (ou não querem perceber) que muitos empresários querem um contador para servir de bode expiatório.

Ainda neste caso, no meu cotidiano profissional na TI contábil, quando surge um empresário ou gestor no desejo de implantar uma contabilidade para lucro real, faço uma entrevista junto com o contador e, ao perceber vícios administrativos que impedem a realização de um trabalho sério de TI, imediatamente interrompo o processo comercial e comunico ao proponente a impossibilidade de implantar o sistema; para mim, este é o desgaste necessário. Já o desgaste desnecessário seria assinar o contrato certo de que estou para implantar um sistema em uma empresa mal administrada e que, certamente, continuará assim, pois o empresário está apenas interessado na parte que reduz impostos, onde sistema não muda conduta e sim as pessoas que gerenciam o negócio. Dedicar tempo e trabalho técnico, que são recursos escassos, em uma empresa assim é, sem dúvida uma decisão que vai gerar custos desnecessários em minha carreira com suportes e reuniões para tratar de erros causados pela administração. Na prática, estarei trazendo para meu trabalho a gestão dos vícios de um empresário mal educado e mimado pelo contador.

CASO 2: Cliente chega atrasado a um compromisso agendado e pede para ser atendido em um horário reservado a outro. Desgaste necessário: informá-lo sobre a impossibilidade, a observar as regras de atendimento e as opções que envolvem remarcação, conforme a disponibilidade ou avaliação do caso para tratamento em prioridade, nos horários destinados e disponíveis a esse tipo de ocorrência. Desgaste desnecessário: atender ao pedido do cliente estimulando a indisciplina e prejudicando quem nada tem a ver com a situação, gerando outro problema: mais um cliente a acumular atendimento em atraso. Quem prefere o desgaste desnecessário considera mais importante dar vazão a algumas pessoas quesempre esperam por “jeitinhos” que as beneficiam em detrimento de quem é organizado e apenas deseja que o combinado seja cumprido.

CASO 3: Cliente faz plantão no DP de um escritório, decide fazer da sala um escritório particular improvisado, fala com voz alta ao telefone, trata de assuntos que nada têm a ver com os serviços que o escritório lhe oferece e fica o tempo todo acionando os empregados, comprometendo a concentração necessária ao atendimento. Desgaste necessário: ter uma política de atendimento clara, objetiva, que oriente os empregados em uma situação assim, para direcionar o cliente a uma acomodação adequada no escritório que não tire a concentração dos empregados, algo que pode ser obtido com a adoção da prática de triagem para evitar contato desnecessário com os empregados que produzem as tarefas. Desgaste desnecessário: deixar as coisas como estão, gerando prejuízo na produtividade dos empregados, comprometendo o atendimento, tudo para que o cliente mimado não se sinta ofendido.

CASO 4: Cliente utiliza recursos de atendimento não presencial (WhatsApp) para acionar colaboradores e o próprio contador sem respeitar horários de expediente. Desgaste necessário: ter uma política de desconexão para os colaboradores que informe aos clientes os horários de expediente e as regras de atendimento. Desgaste desnecessário: atender o cliente estimulando assim o descontrole e o desrespeito com a privacidade dos colaborares, tudo para que o cliente infantilizado não se sinta “mal atendido” e procure outro escritório que lhe dê os mimos que acha necessário. Neste ponto, o escritório que não adota disciplina com horários e uso de ferramentas não presenciais, tenderá a provocar nos colaboradores desde a irritação constante, passando por uma fadiga que pode se tornar uma doença laboral, o que provocará mais custos desnecessários. O contador que não tem personalidade para conversar seriamente com os clientes sobre atendimento deve procurar outro ramo ou uma orientação profissional à gestão do escritório.

Contudo, em uma sociedade com tendência a inverter valores, onde a ética não tem a importância, será comum encontrarmos quem se dispõe a rir ou ridicularizar quem trabalha com disciplina e leva as normas profissionais a sério. No entanto, será pela disciplina na conduta que será possível passar por essa pobreza ética, terminar bem o dia a encostar a cabeça com a consciência tranquila. Quem tenta agradar a todos está perdendo tempo. O mundo é composto por disciplina e indisciplina, e a educação de clientes se torna estratégica em vez de mimos que estimulam ainda mais a desorganização e aumentam custos desnecessariamente em favor de quem fez da bagunça um estilo de vida em detrimento dos que se esforçam pela boa organização.

Por uma consciência do valor da ética nas ações, algo que só pode ser realizado com regras bem estabelecidas e a disciplina, se pode compreender melhor que uma boa organização de um negócio não depende tanto do porte, nem do poder econômico e sim da mentalidade administrativa em fatores que envolvem educação e índole na gestão; tal conjunto é a essência do profissionalismo.

19/03/2022

Disciplina

I. Gestão do tempo

De acordo com o psiquiatra e professor Içami Tiba (Brasil/São Paulo, 1941-2015) a disciplina “é uma conduta de vida para alcançar melhores resultados com menos recursos e menos tempo, evitar desgastes desnecessários e aumentar a qualidade existencial. Pode ser facilitada se alguns princípios forem considerados: organização, administração do tempo, focalização, ritmo e cuidados gerais” [4]. Esta definição é a mais precisa que encontrei até hoje sobre o que entendo sobre disciplina.

Para o momento, uma experiência pela fé Ortodoxa, A Liturgia de São João Crisóstomo, o Hino do Querubim, composição de coro a capela de Piotr Ilitch Tchaikovski (Rússia/Vótkinsk, 1840-1893). Em tempos de “russofobia”, um clássico russo cantado pelo coro da Federação Russa, pois será justo banir um povo de uma cultura riquíssima por conta de atrocidades feitas por seu governante? Bem, aprecio pelo fone de ouvido, fecho os olhos e começo a meditar sob o hino, abro os braços a correr por minha alma a Força Poderosa da Presença.

Acredito que a bem aventurança na vida requer disciplina e sorte. Disciplina envolve o que pode fazer o animal racional humano, mediante seu apreço e sua aplicação por conhecimentos combinados com princípios extraídos sobre as questões que o doutor Içami Tiba citou. Sorte? Porque considero importante o peso das coisas que estão além do meu controle, e são muitas! Então considero fatores aleatórios influindo nos processos, mas sem disciplina não poderei melhor aproveitá-los, quando forem favoráveis, ou minimizar efeitos de desconforto quando forem desfavoráveis.

Pretendo avaliar em partes o parágrafo do renomado professor que nos deixou um precioso legado. Neste primeiro momento, quanto a disciplina como “conduta de vida para alcançar melhores resultados com menos recursos e menos tempo”, o que envolve o conceito de tratar o tempo como recurso econômico ou seja sujeito aos efeitos da escassez ocasionando em custos, muitas vezes elevadíssimos e subestimados. À mon avis, o tempo é mais importante que o dinheiro ou qualquer outro ativo e esse entendimento é uma peça-chave para compreender a gravidade de banalizá-lo. Com certa frequência sou questionado sobre como consigo encontrar tempo para fazer “tantas coisas diferentes” e longe de uma falsa modéstia, não creio que faço tantas coisas assim mas posso dizer que milagres acontecem quando paramos de ocupar o tempo com bobagens. Neste ponto, por ser algo tão subjetivo, associo o besteirol em coisas banais do cotidiano que evito, tais como jogar conversa fora ou consumir conteúdo em assuntos que sejam apenas para distração; neste ponto, nenhum ambiente é mais propício para tamanho desperdício que as redes sociais (por isso as utilizo apenas para finalidades profissionais e em raros momentos de círculo pessoal muito íntimo a familiares e alguns pouquíssimos amigos). Televisão não ocupa mais do que 10 minutos ao dia como regra. Se me apetece, às vezes assisto a algum documentário ou filme. Partidas de futebol? Não me recordo da última vez que assisti a uma integralmente. Atividade foi abolida há uns cinco anos, pelo menos. De vez em quando paro para ver brevemente “os melhores momentos” incluindo outros esportes que considero mais interessantes como vôlei e rugby. Evito festas e demais eventos com comes e bebes onde sei que haverá muito barulho, música alta e pessoas falando sobre a vida dos outros ou a discutir política para defender seus políticos de estimação. Rodas de bate-papo para jogar conversa fora? Non mi piace. Por apreciar a leitura e a atividade da escrita às vezes pensam que eu gostaria de participar de algum debate ou palestra apenas pelo prazer de apresentar ou discutir ideias e por isso sempre decepciono quem me convida nesse sentido, pois só me interessam discussões sobre ideias (política, economia e sociedade) em um ambiente profissional visando tomadas de decisões importantes que dizem respeito a clientes e minhas responsabilidades técnicas. É perda de tempo tentar convencer os outros sobre minhas opiniões; deixo a reflexão e cada um que avalie da maneira que achar mais adequada.

Procuro ter rigor com minha agenda. Minha filosofia é simples e se baseia em dividir o dia em tarefas por unidade-hora quando estou na ativa, e não permito que terceiros tentem desordená-la ou me induzir a banalizar a sua aplicação de acordo com o tempo planejado e a disponibilidade (fator de escassez) que avaliei. A obviedade de que imprevistos acontecem se trata com uma política de atendimento para o inesperado. Improvisações se tornam necessárias mas jamais serão tratadas como regras. Se um cliente falta por um problema sério, há os horários de prioridades onde faço um encaixe em duas janelas ao dia (08 às 09 e das 14 às 15h). Nunca se deve brincar com o tempo, sobretudo no ambiente profissional e por isso não tem essa de que “temos todo o tempo do mundo”. Ao racionalizar a aplicação do tempo no âmbito profissional entendo que, por essa visão de gestão, posso aumentar minhas chances de “alcançar melhores resultados com menos recursos e menos tempo” ou seja, na medida em que racionalizo o recurso do tempo e aprimoro a prestação de serviços com ferramentas mais adequadas, posso reduzir o tempo desprendido para realizá-las e começar a fazer mais com menos para abrir mais espaço para mais disponibilidade de tempo e assim retomar o processo de aprimorar os métodos para inserir outras atividades. Foi racionalizando o tempo que comecei a combinar o Zoom e o TeamViewer para fazer mais com menos; o atendimento ficou mais humanizado e intenso. Com isso pude reduzir a unidade padrão de agendamento para 60 minutos e na medida em que aprimoro as práticas de análise e resolução de problemas, a tendência é que os mesmos 60 minutos serão melhor aproveitados no setndi de prover a ocorrência de menos agendamentos de clientes que fazem uso desse modelo a abrir espaço para atender mais clientes nessa modalidade; mais com menos abre espaço para ampliar ações e dinamizar a produtividade.

Mas sempre há pedras no caminho e quem é indisciplinado tende a não se sentir bem em um ambiente organizado no uso do tempo e assim aprendi que algumas pessoas tentam socializar a bagunça (da falta de agenda) pelas quais vivem nos outros, porque a desordem na gestão do tempo costuma ser o seu “território comum” e agem assim para tentar nivelar as coisas por baixo e obter alguma vantagem diante do que não podem ou não desejam fazer em termos de organização, algo que na verdade prejudica a si mesmas e a quem se relaciona com elas. Nesta filosofia do tempo ser mais importante que o dinheiro, quando um cliente avesso ao planejamento e que vive na base do improviso, por exemplo, sugere que eu desmarque compromissos ou “dê um jeitinho” para “encaixar” o seu atendimento, sem considerar um horário reservado a outro, imediatamente o informo da impossibilidade. Quando um cliente falta a um agendamento e solicita atendimento durante um horário próximo ocupado, o protocolo desenvolvido orienta a informá-lo da impossibilidade, com a informação de que poderá agendar em faixa disponível ou aguardar uma avaliação para prioridade. Parece conveniente usar a condição de “cliente” para “justificar” um desejo de “parar tudo que estou a fazer para si”, mas a tecnicidade exige que seja algo a ser bem avaliado e sujeito à disponibilidade. Quando estou em uma reunião (quem me conhece sabe que priorizo o foco) é comum outro cliente tentar interrompê-la de diversas maneiras: por ligação telefônica ao terminal que fica direto em minha mesa, a ficar irritado quando o informa que estou em um compromisso fechado chamado “reunião” e que só atendi ao telefone porque estava a aguarda uma ligação de alguém ligado ao trabalho agendado. Mais comuns são as tentativas de entrar na sala do Zoom; houve um caso em que o cliente alegou que queria apenas ser um “ouvinte”, sem considerar que uma reunião é um evento fechada o é assim por ser restrita mediante a privacidade dos participantes. Quando não consegue por telefone ou por Zoom, publica no grupo um determinado problema com ares de “urgente” (apenas para chamar a atenção e tentar me constranger quando sabe que chamada assim não gera registro), sem falar no tradicional (e banido) “olha o privado”. Em outras casos, inunda o privado do WhatsApp com envios de mensagens repetidas, hoje tratadas de forma totalmente robotizada onde não mais ocupo qualquer tempo no registro e na ordenação, ficando essa função coma Gioconda. Então, percebi a importância de neutralizar toda tentativa de desordenar o meu trabalho e desviar a minha atenção quando estou em um compromisso agendado, em um esforço diário para evitar o desvirtuamento no uso do tempo e o acúmulo de pendências. O cliente que tenta interromper minha reunião com outro, parece, confundir um “não posso atender agora” com um “não vou atender”, na melhor das hipóteses. Então, aprendi a tratar uma situação assim com o protocolo de (1) registrar, (2) analisar, (3) definir nível de prioridade, (4) programar o atendimento e (5) executar a tarefa. Contudo, há quem considere imperativo o (infeliz) dito popular de que o “cliente sempre tem razão”, quando não a tem em muitas ocasiões. Aprendi assim a dizer “não posso agora, por favor, aguarde”, por meio de uma politica de relacionamento, para reduzir os riscos de comprometer a qualidade do trabalho em troca de mimos que deseducam e incentivam mais desprezo por organização do tempo. Em suma, jamais permito que a ansiedade e a desorganização de um cliente contaminem a minha gestão do tempo.

Saber usar o tempo de maneira mais eficiente para fazer mais com menos é o principal objetivo no uso da estratégia que considero no suporte em relação ao trato de questões técnicas, inclusive nas mudanças que fiz quando decidi parar de usar o WhatsApp para assuntos dessa natureza. Isso se deu pelo aprendizado e a base de dados que montei para avaliar o meu comportamento e o de clientes desde o final de 2018 e diz respeito às limitações do uso de uma ferramenta de troca de mensagens de texto e mídias sem a possibilidade de uma avaliação mais profunda por meio de suporte remoto e uma conversa direta com o usuário que tenha melhor fluência, como é o caso da vídeo conferência (Zoom). Um problema de envio de eventos de eSocial, por exemplo, demanda uma série de verificações onde o tratamento por WhatsApp se torna moroso, por isso caro, consumindo muito tempo por conta da baixa produtividade que ocasiona. Por isso combino ferramentas onde estou a acompanhar nos detalhes necessários em uma conversa direta com o cliente. Deixar de atender assunto técnico no WhatsApp também foi importante porque percebi que muitos clientes se distraem facilmente nesta ferramenta e o simples fato de direciona-los a uma conversa de vídeo conferência acaba os orientando para uma maior atenção enquanto reduz a probabilidade de “desvios de atenção” com o WhatsApp aberto concorrendo com minhas mensagens no momento do atendimento. Outro fator se deu porque alguns clientes usavam o WhatsApp como ferramenta de conversa enquanto se distanciavam do sistema no terminal; esses casos são os mais graves ondo sequer há interesse em compreender o que está sendo realizado.

Por fim, penso que uma questão fundamental no trato da disciplina para o uso do tempo é avaliar procedimentos – periodicamente – para identificar práticas contraproducentes. Outro vício que percebo em contadores é quando param com frequência para dar retorno a clientes quando estão em atividades que exigem elevado nível de concentração; e quando voltam estão sem foco e tendem a cometer mais erros se não tivessem desviado a atenção da atividade programada. Observo esse problema com frequência durante os atendimentos. Infelizmente há um problema bem mais grave em relação a profissionais conformados em tomar procedimentos questionáveis que afetam a gestão do tempo quando aceitam pedidos de empresários para fazer coisas não recomendáveis ou polêmicas (que exigem plena consciência de ambas as partes) sobre os riscos) perante as normas; neste aspecto, demonstram fragilidade emocional pela incapacidade de criticar empreendedores desajustados com vícios administrativos, sobretudo quando estão sob pressão. Em outras palavras, aplicam o tempo para fazer coisas erradas. A disciplina que cabe à profissão fica bastante comprometida pela conduta negligente mediante a crença ilusória d no (infeliz) dito popular de que estão “amarrando o burro onde o dono manda”. Profissional que se preza não amarra o “burro” onde o dono manda sem antes avaliar bem as coisas pelas suas prerrogativas técnicas, a analisar eventuais problemas que comprometam a boa qualidade do trabalho e a credibilidade do próprio nome no mercado. O dono do “burro” deve saber que o fato de ser o proprietário não significa que obrigará um profissional a fazer o que desejar. Quando cabível deve ser alertado e até admoestado pela ética que aponta consequências de algo impróprio ou fora da legalidade; tais coisas são inegociáveis. E se o dono do “burro” ainda insistir? Será apenas “com ele e a sorte”; parece-me óbvio que um profissional com verdadeira auto estima deva se abster de ações onde as boas práticas não são observadas. O princípio aqui é no sentido de que o uso do tempo envolve disciplina com ações profissionais íntegras, corretas, dignas, dentro de limites técnicos e éticos. Usar o tempo para fazer coisas equivocadas ,em sã consciência, é uma falha grave que pode custar uma carreira no uso de um recurso tão caro, precioso, tomando como referência a essência do ensinamento do professor Içami Tiba.

Na próxima oportunidade, pensarei na disciplina sob a questão de “evitar desgastes desnecessários”.

4. Disciplina. Limite na Medida Certa. Parte 3. Integrare Editora, 2006, São Paulo.

12/03/2022

Cada um acredita no que deseja acreditar

Para este momento, La Longue Route, do genial compositor francês Yan Tiersen (Brest, 1970), em um concerto do próprio realizado em Nantes (2016).

Cada um acredita no que deseja acreditar, obviedade que está em um lado; no outro, um bom espírito crítico sobre a realidade. Se políticos dizem que podem evitar o aumento dos preços dos combustíveis por “canetada” ou seja, através de mudança em legislação, no outro lado da equação está a economia como “ciência da escassez” com leis (naturais) de mercado que se derivam das ações humanas em infinitas combinações de interesses e necessidades de se manter negócios. Sim, políticos podem legislar e impor os preços dos combustíveis enquanto haverá natural e complexa reação por uma imensa e imponderável cadeia produtiva onde se avalia a nova condição mediante preços artificialmente determinados, e assim o comportamento de fornecedores de insumos vai se ajustar ao novo cenário repassado por vendedores de mercadorias. Nesse processo, produzir passa a ser algo mais questionado e nessa dispersão de conhecimentos, a percepção de que o controle trava a realização de lucros, o desabastecimento é inevitável, não sendo assim uma surpresa para quem compreende a dinâmica dos mercados diante de um teto na ponta de consumo. Resta então saber avaliar se o controle de preços traz mais benefícios do que danos. Sobre isso, sugiro aos crentes em tabelamentos considerarem a história econômica envolvendo controles de “administrados” (eufemismo) por parte de governos: aqui mesmo no Brasil, em especial pelos anos 1980, no modelo planificado da União Soviética (falida em 1991), na Venezuela desde Chávez (a partir de 1999) e na Argentina, de liberais a outros socialistas de carteirinha, onde se tem recorrido bastante a tais meios, pelo menos nos últimos 30 anos, só para começar. No mais, tais “detalhes” não fazem parte da avaliação do eleitor médio, o alvo de populistas que sabem aproveitar bem a falácia de que um controle de preços é o “lógico” ou “óbvio” a ser feito em situações extremas, sobretudo na mente de quem não tem a menor ideia de como a economia funciona no encontro da oferta com a demanda, e além do mais o mesmo eleitor incauto, o definidor de eleições e por isso preferido por populistas, tende a aceitar que o efeito danoso do controle, que se dá pelo desabastecimento, tem um “culpado”: o meio produtivo que só se baseia na realização de lucro, fator demonizado pela mentalidade socialista que prevalece na população, como se produtores fossem obrigados a manter negócios sob prejuízos em meio a limites de preços que ignoram a demanda mantida sobre uma oferta sob pressão mediante aumento da escassez.

Quem sabe uma experiência mais próxima ajude… Com aplicações práticas e alertas no ano passado, foram 40 reuniões com 106,2 horas, sobre como se adaptar ao monstrengo-digital-eSocial-do-quinto-dos-infernos, e suas bestas hiperburocráticas “Reinf” e “DCTFWeb”. Muitos clientes incorporaram às suas rotinas a nova realidade do monstrengo, pois acreditaram no que queriam acreditar com espírito crítico, no entanto outros (poucos) preferiram manter suas “convicções” ou achismos (talvez por comodismo) e desta forma ignoraram completamente os avisos no site sobre as reuniões com as orientações e os alertas. Curioso é ainda ver que se portam como se tais coisas não existissem, vivendo em um “mundo paralelo”, e assim seguem a conduzir seus clientes para o caos com o fisco, a multiplicar obrigações em atraso com multas, juros, além de recolhimentos indevidos. São os mesmos com empregados que batem à porta irritados porque descobriram que não vão receber o PIS ou na ocorrência de algum outro benefício travado por falta de dados no CNIS quando alimentado pelo monstrengo. Mesmo na dor alguns não aprendem porque cada um acredita no que deseja acreditar, não é mesmo?

É preciso ter fé, dizem, e quando um governante se encontra diante de um problema na cadeia global de suprimentos, que não pode solucionar, como por exemplo, a escassez de fertilizantes oriundos da Rússia, voltando ao drama econômico do aumento persistente de preços por choque de oferta, combinado com inflação (aumento do volume de dinheiro em circulação provocado por governos em medidas anticíclicas), e eis que seus devotos são facilmente envolvidos e convencidos de que um decreto, uma portaria, um ato sancionado com o Legislativo, seguido de um discurso impactante e otimista, resolverão per se o problema, isto posto porque pessoas que somente acreditam no que desejam acreditar foram educadas ou “treinadas” para avaliar políticas apenas pelas supostas intenções de quem as formula, sem considerar os resultados, e assim não conseguem refletir adequadamente sobre a realidade de um pais fincado no agronegócio, mas que carece de desenvolvimento tecnológico na produção de fertilizantes, para não ficar tão dependente de poucos fornecedores nos mercados externos, e isso se dá por inúmeros fatores, cuja solução não pode ser imediata e começa pela melhoria do ambiente de negócios (cujo governo é o causador) para atrair investimentos e pesquisas a enriquecer o capital humano, outro problema crônico em uma sociedade que glamouriza a ignorância e está adestrada a viver em torno do Estado. Mas nada disso importa a um devoto eleitor que segue crente nas “boas intenções” e na “competência” de seu político de estimação, mesmo se os discursos e as promessas não correspondam aos fatos. Fatos? Perda de tempo será ter uma conversa de adulto com alguém preso a narrativas de tal maneira que não consegue ver o mínimo necessário para não ser um idiota, parafraseando aqui um título de um livro com coletâneas textuais de um finado filósofo que não raramente foi tratado como “guru” [3].

Há quem confunda quem tem coragem de mudar de opinião ao questionar as próprias crenças com alguém tão-somente “fraco”, “inconstante” ou “imaturo”, como se a crença em si, e aqui falo sobre coisas meramente humanas, tivesse auto suficiência de validação e não dependesse da verdade atestada, que só pode ser percebida pela aplicação de conhecimento mediante apurado senso crítico. Neste aspecto, quem se fecha nas próprias crenças nega a condição humana de busca constante do aprendizado, pois o desconhecimento ou a dúvida é uma constante, mas deixa de ser para quem inverte as coisas e passa a menosprezar a humilde busca da verdade. Fechar-se em si mesmo pelo próprio achismo é também uma forma de se esconder pelo comodismo quando se percebe o trabalho, muitas vezes árduo, de ter que verificar a procedência das coisas. Fato é que cada um segue o seu caminho, a acreditar no que bem deseja como fenômeno natural à nossa espécie, não tendo nada demais nisso se no outro lado da consciência houver disposição autêntica para verificar as próprias crenças ou “pensamentos automáticos” mediante análise de fatos para que um achismo não predomine sobre uma melhor leitura da realidade.

3. Obra “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, de Olavo de Carvalho.

06/03/2022

Ética entre contadores

Enquanto produzia este texto, pensei em Antônio Lopes de Sá, um dos maiores intelectuais que este país teve. Minha homenagem ao professor e contador que, por meio de seus livros, me ajudou a pagar as cadeiras de contabilidade na graduação em economia. Lopes de Sá (Brasil/Minas Gerais, 1927-2010), deu grande importância à ética entre contadores, e por isso está a fazer uma ENORME FALTA na atualidade

Contadores e problemas éticos: no meu contexto e ângulo de visão, ressalva a ser bem considerada para não haver entendimento equivocado ainda a considerar pela minha consciência de profissionais de contabilidade com reais interesses em boas práticas a enobrecer a atividade em relação aos problemas que vou discorrer.

O que mais me chama a atenção em queixas de contadores envolve o problema do “assédio” a clientes de outros colegas: não é preciso fazer esforço para ouvir casos típicos sobre questões dessa natureza; predomina uma visão rudimentar sobre o lado comercial, sob visão de commodity, com serviços contábeis submetidos em modo de leilão às avessas; contadores assim não passariam de vendedores de serviços de despachantes na base do quem oferece por menos, no entanto, chega a ser mais agressivo, pois se no pregão quase tudo é feito às claras, a dura competição por preços parece marcada por ações na surdina, não raramente com deslealdade. Além do caso do contador que sai batendo de porta em porta para fazer propaganda como se tivesse vendendo uma mercadoria qualquer, outro caso mais questionável seria o do contador que se oferece, sem ser convidado, ou camuflado por meio de algum “parceiro”, para serviço de consultoria a apontar algumas supostas “falhas” de colegas que assinam pela assistência ao cliente, participando de um processo de “fritura” e venda casada e produtos e serviços que se converte em mais um cliente a ser “tomado”. Penso ser questionável também quando se considera um contador a atuar mais como vendedor, sobretudo de soluções que possam colocá-lo em situação de conflito de interesses; penso aqui no caso de quem oferece software ou produtos de consultoria de empresas de grife a clientes, em meio ao incentivo de receber comissão, levando em conta que esse envolvimento pode comprometer qualquer análise técnica contábil necessária sobre a qualidade dos produtos oferecidos que naturalmente se relacionam com o trabalho contábil.

Outro ponto que me chama a atenção é como contadores estão mais inclinados a dar pouca relevância ao significado estratégico de recursos humanos, em parte, talvez, porque muitos se concentram em serviços padronizados que demandam baixa escolaridade de empregados, quando comparada a outras profissões, no entanto essa questão se torna mais delicada quando o mercado de serviços contábeis demanda mais tecnologia que carece de pessoal mais qualificado, em especial na TI, ganhando aspecto multidisciplinar. No meu cotidiano, me parece mais comum ver a preferência e o descarte de colaboradores sob baixos salários, na base de um utilitarismo quando atuam como empregadores. Neste aspecto, tentam justificar atitudes questionáveis na gestão dos próprios recursos humanos em função do utilitarismo entre clientes e colegas, quando estes últimos não medem esforços para lhes passarem a frente (ou a perna), tudo pela competição. Então, predomina o “sou assim porque costumam ser assim comigo”; e nesta lógica fria e pragmática se está a uma passo para banalizar e “justificar” o total desprezo pela ética, em um espaço de coisificação de pessoas por uma pobreza de valores fundamentais e quem suscita questões dessa natureza passa a ser visto como “estranho” ou anacrônico dada a competição agressiva em que estão pautados.

Seria eticamente aceitável o assédio de clientes feito por contadores? Visitar quem é assistido por outro colega, sem ser convidado, lhes oferecendo serviços, às vezes com preços impressionantemente mais baixos e com promessas de melhor qualidade, seria uma ação normal por se tratar de um ambiente de mercado? Longe de mim qualquer aversão à livre competição da liberdade de mercado, com viés austríaco (EA) que tenho, acredito no valor oferta e da demanda livres em uma sociedade de cooperação econômica. Neste aspecto, quem alega que o empresário tem o direito de conhecer serviços e escolher quem ele bem entenda em um livre mercado, está apontando uma verdade, algo belo e moral, mas é preciso analisar outro aspecto que se diferencia do direito natural de conhecimento e liberdade de escolha de quem atua na demanda, face a condição de ser um potencial cliente, em relação ao que significa um assédio considerando termos éticos em atividades técnicas e sujeitas a um necessário e minucioso código de conduta. Uma coisa não anula a outra; o direito do consumidor em saber e escolher livremente quem deseja que lhe preste serviços, não anula a aplicação de um código de ética que sirva de norte para que profissionais não banalizem ou vulgarizem práticas que envolvam sondagens e mudanças de contador ou de escritório contábil. Se um empresário decide procurar outro contador para fazer uma consulta ou sondagem para fins de contratação, não há assédio, a priori, da mesma forma quando um paciente decide procurar outro médico para fazer uma consulta e, quem sabe, elegê-lo como profissional permanente ao tipo desejado de prestação de serviços. Mas se um médico sai por aí de porta em porta se oferecendo para tratar pacientes que estão sob acompanhamento de outros colegas, então há de se considerar que se trata de um assédio; e o mesmo se aplica a contadores que procedem assim com empresários, levando em conta que tanto o médico como o contador, a princípio, não se relacionam com o cliente ou paciente apenas em termos comerciais, como se tivessem vendendo algo ou se o paciente fosse uma coisa negociada ou mercadoria, pois o trabalho contábil envolve outros fatores de cunho humano, subjetivo, personalizado, mais íntimo com questões de sigilo e confiabilidade. E mesmo no caso de um empresário que procura espontaneamente outro contador, em termos éticos, ao que fora sondado cabe ter um código de procedimentos a considerar o contato com o atual contador, seja para comunicar o fato, seja para verificar a possibilidade de eventuais trocas de informações técnicas, seja para mostrar ao empresário o nível de seriedade da profissão contábil, tudo dentro dos limites do código de ética aplicável, o que demonstraria uma prática de respeito mútuo diante dos olhos do empresário, a possibilitar também amplitude aos profissionais envolvidos diante de eventuais problemas apresentados pelo demandante; em outras palavras, é sempre bom que o contador sondado ouça a outra parte da história, digo, o colega titular que está a prestar serviços, sobretudo quando se tratam de questões onde aspectos de conhecimentos de detalhes e da tecnicidade em si são relevantes se o objetivo de todos for prover o mútuo respeito, o atendimento digno ao empresário e a seriedade entre os profissionais. Os mesmos cuidados, à mon avis, devem ser tomados quando um contador decide fazer uma divulgação pública de seus serviços e recepciona pessoas que lhe procuram como resultado desta estratégia de publicidade.

Embora possam ser frequentes, não vejo tais problemas sendo mais comuns entre médicos, economistas, psicólogos e advogados que conheço, com exceção de lobbies relacionados a potencial conflito de interesses, comuns quando profissionais liberais se envolvem com corporações que fornecem produtos e soluções a clientes ou pacientes. Mas entre contadores, sobretudo quanto ao assédio de clientes, essa prática me parece cada vez mais intensa e vulgarizada; alarmante a sinalizar talvez a decadência de uma profissão. A pobreza ética entre contadores pode ser um caso de necessidade de volta à banca de estudos para “aprimorar o espírito” e revisar valores essenciais da profissão, assim como fomentar uma base intelectual, considerando que percebo enorme carência nesse ponto, e não necessariamente me refiro de um retorno à faculdade tradicional, pois esta última tem falhado bastante na “formação” profissional, assim como na parte intelectual. Parece-me ser urgente promover, na sociedade de contadores, um amplo debate sobre a ética nas relações profissionais, em vez de cursos e “capacitações” para o manicômio tributário nacional, coisa que por sinal pode ajudar a explicar parte dos problemas que aqui suscitei, tendo em vista que no mundo bizarro da (hiper) burocracia são o imediatismo, o pragmatismo e a mera competição por preços, de coisas baseadas na “obrigação de fazer” (coerção do Estado), confundidas com contabilidade, que influenciam o comportamento, atraindo assim pessoas que não se importam com conhecimentos contábeis em si e não medem esforços para atingirem fins que “justificam” os meios e tais debilidades não se explicam por condições econômicas; contadores pobres, ricos e de médio patrimônio podem ser igualmente envolvidos por pobreza ética pois derivam de questões de valores que passam pela cultura, pela moral e pela ética, ter mais dinheiro ou riqueza pode até agravar a situação, incentivando a arrogância e a prepotência, mas não aponta as reais causas.

Uma coisa me parece certa, parte do que vejo como “morte da Contabilidade” entre contadores também se explica por essa triste condição da ética no dito “meio contábil”, pois a ciência Contábil ao lidar com causas e efeitos, essencialmente é ética por natureza, e como muitos contadores hoje não mais a praticam, por serem mais “despachantes”, então…

26/02/2022

O dinheiro muda as pessoas?

Novos ricos sempre despertaram a minha atenção, talvez porque conheci indivíduos que, em um certo sentido, mudaram de comportamento, passando a apresentar certos valores que, aparentemente, se revelaram incongruentes com o que falavam e faziam antes de experimentarem a prosperidade material.

Para o momento, a obra La Dispute – Amelie, do compositor francês Yan Tiersen (Brest, 1970), tocado maravilhosamente pelo próprio em uma belíssima introdução.

Se na época das “vacas magras” tinha certa empatia e demonstrava espírito de cordialidade, na medida em que acumulou prestígio e riqueza passou a revelar um perfil diverso onde predominam frieza, indiferença e utilitarismo. É o curioso caso de quem, ao perceber que a prosperidade chegou, desenvolveu certa predisposição a fazer da “auto afirmação” um sentido em si mesmo, e assim passou a se achar mais importante e competente do que realmente é. O mundo se explica apenas pelos próprios parâmetros, tão-somente confiante no poderio financeiro que acumulou, o conhecimento e o espírito crítico alheios são coisas desprezíveis, salvo se tiver alguma utilidade para seus interesses econômicos. Não raramente, menospreza colegas de profissão e aqueles que estavam no início da história de um negócio que começou humilde, cresceu e o enricou. Se no começo dessa história de sucesso chegava na empresa e dava bom dia aos poucos colaboradores, agia com alguma simpatia, na prosperidade adotou postura “militar” transformando o ambiente de trabalho em um “quartel general”, onde até as idas ao banheiro, por parte dos empregados, passaram a ser controladas. A simples saudação a colaboradores só existe agora em eventos ao público ou diante de clientes, como um político praticando demagogia em campanha eleitoral, embasado em falsa consideração. A ênfase nos relacionamentos profissionais passa a ser apenas na produtividade, adotando um utilitarismo que exclui o bem estar mental dos empregados. Via de regra, age com excentricidade que dispensa pessoas intempestivamente, de acordo com seu estado emocional, onde antigos relacionamentos profissionais nada mais significam. “Ninguém pode me deter”, se não pensa assim, age como se fora um excepcional.

A crença de que o dinheiro “resolve tudo” toma conta de uma visão pragmática que ridiculariza a ética e o respeito pelos semelhantes. Algumas pessoas, parece, possuem um estado mental doentio que se revela quando se envolvem com muito dinheiro. Não é de se admirar então que utilizem este recurso como formas de ostentação ou culto a si mesmo, enquanto de degeneração sobre pessoas e instituições; neste ponto, tentam passar por cima de regras elementares, normas e valores fundamentais quando não possuem meios legais para lidarem com alguma dificuldade. Tornam-se tóxicas, extremamente nocivas, para convivência quando se consideram especiais demais para se submeterem a certas condições além do que podem controlar ou quando são advindas de quem acha que é inferior ou menos importante. Uma experiência no ano passado foi marcante para mim quando um certo indivíduo “novo rico” pensou que poderia “comprar” uma jornada de minha agenda, oferecendo uma “gratificação especial”, ou um “extra” para que eu desmarcasse com clientes agendados no dia desejado. Na mentalidade do indivíduo “ninguém iria saber e eu seria premiado com um plus financeiro”. A ética está no lixo para quem raciocina assim sem levar em conta que há coisas que o dinheiro jamais poderá comprar, entre as quais está a seriedade que se deve ter com compromissos, independente do prestígio social de quem conta com a consideração. Eis um princípio que adoto na filosofia de atendimento. Não me causou surpresa a tentativa pois, para alguns, o dinheiro é ou se tornou a razão de todas as coisas e muitos se vangloriam por demonstrar este tipo de força. Neste ponto, costumo dizer que são tão pobres que a única coisa que possuem é o dinheiro, uma espécie de divindade que atrai crentes e ateus em uma “religião” materialista. O dinheiro se torna veneno quando se perde a referência da honradez e da humildade no seu uso e assim surgem brigas entre pai e filho, casais, irmãos de sangue ou na fé, amigos de infância, sócios… Em suma, a medida de relacionamentos de muitos, onde o dinheiro é a única referência de avaliação, parece estar determinada por um mundo vazio de valores essenciais, desprovido de humanidade, que odeia a ética, se tornando imediatista extremo, hedonista, vulgar, cativando a brutta figura, onde tudo tem preço e não se mede consequência.

Mas, será que foi o dinheiro que os transformou? Penso que seja uma forma simplista demais para analisar a questão porque conheci novos ricos que não foram acometidos das debilidades que mencionei, embora tiveram que mudar alguns hábitos para se preservarem melhor, por conta de um mundo agressivo e invejoso com quem consegue prosperar legitimamente nos negócios. É preciso considerar que a inveja, de quem permanece apenas no desejo da riqueza, pode comprometer uma reflexão séria a respeito de novos ricos. Por outro lado vi pessoas abrindo mão de patrimônio considerável para recomeçar a vida; se eram bem sucedidas financeiramente, decidiram assumir uma vida econômica mais simples para terem a oportunidade de experimentarem um recomeço. Vi também novos ricos onde a simplicidade no viver e a humildade foram preservadas, enquanto seguem caridosos; são filantropos, determinados em ajudar regularmente os vulneráveis e mais necessitados. Por outro lado, observei novos ricos também filantropos enquanto empregadores ou chefes de índole duvidosa, onde desconfio que o “fazer caridade” seja uma forma de passar uma imagem falsa para se obter mais prestígio social, onde sobram interesses personalistas e/ou políticos. Um indicador de suspeita de algo assim pode ser verificado em quem costumar dar publicidade às caridades que realizou.

Por essas e outras coisas, não creio que o dinheiro, per se, mude as pessoas, como uma coisa automática onde tê-lo será decisivo para uma mudança, mas considero que pode ser um instrumento para potencializar certos traços (bons e ruins) que estão na intimidade profunda de cada personalidade, incubados, podendo emergir em determinadas circunstâncias, entre as quais se insere um aumento de poder financeiro como um fator de estímulo, seja para constituir atos em coisas negativas, na forma de ingratidão, arrogância e prepotência, seja para fazer uso da hipocrisia – quando se usa o dinheiro para fingir amar alguém ou algo – ou em coisas verdadeiramente virtuosas, positivas, exercendo amor, caridade, serviço livre ao próximo sem qualquer intenção de ser exaltado, visto, reconhecido; neste ponto, penso em Jesus Cristo apelando ao coração no Sermão da Montanha como fator determinante para discernimento dessas coisas. Entendo que a posse do dinheiro não vai determinar, em termos gerais, uma sentença para a mesquinhez ou caridade; dependerá da índole da pessoa. Da mesma forma que um novo rico pode exalar tolices, futilidades e avarezas, pode impelir ao uso cristão deste recurso ofertando quantias elevadas a igrejas e centros espíritas, entre outras instituições de caridade, ao mesmo tempo em que não se deseja ser destacado, mencionado, reconhecido, “fazendo o bem e não vendo a quem”, assim como aqueles abastados que prestam serviços comunitários e se esforçam para não serem notados, preferindo a discrição. Tais pessoas sinalizam para mim que a posse do dinheiro não explica, em termos gerais, um comportamento para uma única determinada direção de valores, no sentido de que o dinheiro imperativamente muda as pessoas para o pior, todavia, pode ser um elemento para estimular quem tem potencial inclinação para se revelar como uma pessoa indigesta, intragável, soberba, assim como desenvolver mudança no sentido de degeneração do indivíduo, todavia, em se tratando de ser um “instrumento, o dinheiro ou a riqueza pode ser meio para evidenciar virtude, o bem ou a bondade, para aprimorar o exercício fraterno de humanidade.

Quando percebo certos traços negativos, aparentemente novos, em alguém que estava em situação financeira difícil enquanto dizia ter apreço por contar com o meu trabalho, mas na medida em que superou o problema, ou apresentou significativa melhora, começou a revelar uma conduta diversa, onde as atitudes excludentes sob presunção, com um toque de indiferença, revelando certa desconsideração entraram no relacionamento, assim como em outros casos onde um conceito super estimado de si mesmo aflorou no “novo normal” das finanças elevadas que alcançou, sabendo que trabalho com pessoas que cresceram patrimonialmente em três décadas e continuam com a mesma relação de consideração por mim, então aprendi que um novo rico assim, tão deslumbrado, ou candidato a tal condição narcisista econômica, acometido de alguma debilidade no patamar de “sucesso” nesse mundo de ostentação onde, muitas vezes, as aparências enganam, tais fatores sinalizam para mim que chegou a hora de seguirmos por caminhos diferentes. O tempo com alguém nessa trajetória paupérrima de honra será cada vez mais aplicado de forma questionável, em termos de expectativa de retorno em um relacionamento profissional onde o desejo maior, na minha concepção, deve se basear prioritariamente no saudável e no construtivo para ambas as partes.

20/02/2022

O remédio da leitura

Retomo o tema da importância da leitura para tratar sobre um benefício que, talvez, seja o mais perceptível: o enriquecimento do vocabulário que pode fornecer uma melhor base para se expressar bem em público, sobretudo por meio da fala.

A apreciar Concerto a cinque, Op. 9/2: D Minor for Solo Oboe and Strings: Adagio, obra-prima do compositor barroco Tomaso Giovanni Albinoni (Serenissima Repubblica di Venezia, 1671-1751).

Comum são os cursos para aprender e/ou perder o medo de falar em público. Quem sabe, para algumas pessoas, esse medo esteja mais associado à insegurança que têm no uso da língua? O medo de falar errado acomete bastante os que estão aprendendo outra língua e quando fazem uma viagem internacional, se sentem um tanto travados na hora de falar com um estrangeiro. Entendo que cursos para perder o medo de falar em público são muito importantes para quem tem alguma dificuldade assim, e neste ponto refiro-me a pessoas que precisam falar em língua nativa por alguma necessidade profissional. Perder o medo de falar em público é uma parte de um problema maior quando analiso a dinâmica da atividade oral, sendo a outra relacionada ao uso do idioma a ser aplicado na comunicação. Saber falar bem em publico é algo que envolve, essencialmente, um bom domínio da língua pela qual se fala; uma coisa depende da outra, pois não adianta conseguir a tão desejada extroversão no falar, se há limitação por um vocabulário pobre, insuficiente para prover uma boa expressão de ideias.

A baixa qualidade no uso de normas da língua pode comprometer seriamente o que se deseja comunicar por abrir possibilidades de interpretações dúbias, não raramente conflitantes com o desejo de quem fala pelo uso impreciso de termos ou pela adoção de palavras fora do contexto. O vocabulário é uma chave importantíssima nesse processo de “falar bem”, e para isso se tornar uma realidade, entendo que é preciso treinar a mente para ficar cada vez mais familiar com a língua. Neste aspecto, nenhuma atividade, à mon avis, me parece melhor para essa finalidade do que a LEITURA; em outras palavras, se alguém deseja falar bem em público com um rico vocabulário, deve ler bastante nessa língua! Se almejo ter um português claro, objetivo, rico em termos, com facilidade de argumentação; devo ler bastante textos versados em boa qualidade do ponto de vista da normal culta. Se tenho como aspiração o bom uso de sínteses, combinado com uma capacidade para fazer análise profunda quando precisar entrar em detalhes, ler regularmente, buscando entender o texto é a chave. O que farei com um curso de oratória se não dominar bem a língua que falo e não ter como força do hábito a aptidão para boa interpretação de textos?

Não se trata, portanto, de qualquer leitura, pois para isso se pode encontrar em redes sociais o uso vulgar e, muitas vezes, confuso da língua; isto posto porque se o objetivo é fazer uma apresentação oral pela norma culta, é muito importante estar em contato com a língua mediante a leitura de obras que enriqueçam o conhecimento das normas gramaticais, assim como do vocabulário. Em outros termos, refiro-me a ler obras com textos onde a língua portuguesa é bem trabalhada e, na medida em que se vai lendo, analisando, interpretando, a mente vai treinando ou mapeando a lógica da construção de frases, concordâncias, argumentos, e eis que recursos são apreendidos para lidar com a líingua sem ser prolixo, não caindo em redundância ou repetições que podem cansar os ouvintes. Da mesma forma que leio obras em outras línguas para melhorar minha fluência, meus interesses por autores clássicos em português do quilate de Camões, Ruy Barbosa e Machado de Assis, assim como de romancistas, poetas, também podem ser explicados por um desejo de municiar a minha mente com recursos mais qualificados em português para falar cada vez melhor a língua materna. Ler bons textos técnicos de economia, contabilidade, política, história, artes, também ajuda para criar condições a um constante treinamento mental no manuseio da língua, reduzindo desta forma a incidência de erros quando vou me comunicar.

A leitura me impulsiona a um constante processo crítico-construtivo; quando me deparo com uma palavra desconhecida, percebo ainda mais a importância da atividade literária; então vou ao dicionário, faço mais pesquisas se necessário, para poder seguir adiante no texto, da mesma forma quando me deparo com um parágrafo cuja argumentação me parece complexa demais e não consigo compreendê-la de imediato, sobretudo quando o autor trabalha termos que exigem outros conhecimentos técnicos como pré-requisitos, e então percebo a oportunidade de aprofundar minha relação com a língua e a busca por conhecimentos que transitam no parágrafo, proporcionando assim um enriquecimento ainda mais depurado no exercício da leitura.

Por fim, o hábito da boa leitura tornará automática a superação de problemas que incomodam quem deseja se livrar de certos vícios ou “errinhos” quando falam ou escrevem no cotidiano, envolvendo palavras que não existem na língua materna como “menas”, “veje”, “seje”, “asteristico”, “iorgute”, “pobrema”, “bicicreta”, além daquela costumeira confusão da conjunção adversativa “mas” com o advérbio de intensidade “mais”. Algo mais delicado pode ocorrer em situações onde errar na concordância verbal ou no uso da vírgula pode proporcionar confusões maiores, totalmente evitáveis, sobretudo na comunicação técnica. Se no uso da linguagem com pessoas íntimas, ou colegas próximos, podemos nos permitir a uma linguagem coloquial, sem maiores preocupações com normas gramaticais, usando até regionalismos, no ambiente profissional entendo que um português pobre tende a “pegar mal” e para tal situação, que até soa engraçada para alguns (para mim é sempre um assunto sério) mais um vez, só tenho uma coisa a recomendar: o remédio da leitura.

17/02/2022

Apreciar erros

Considerando a natureza humana, todo trabalho tem deficiências, por mais “perfeito” que possa parecer.

A sala Zoom do suporte está ambientada com a peça Due Tramonti, do maestro italiano Ludovico Einaudi.

Entendo que ocorrências de erros, falhas ou deficiências técnicas percebidas no trabalho são oportunidades preciosas para o meu crescimento profissional. Quando estou diante de uma situação assim, seja em um dos sistemas que desenvolvo ou de consultorias que presto, imagino que estou com uma janela que se abriu para tornar o meu desempenho melhor.

Viktor Frankl, neuropisiquiatra austríaco que marcou meus tempos de leituras quando era seminarista, argumenta [1] que quando se procura o sucesso, o transformando em um alvo, mais erros são cometidos, e aqui entendo que são os erros “evitáveis”, até mesmo os infantis. E segue afirmando que a felicidade é como o sucesso, não pode ser perseguida, deve acontecer naturalmente. Conclui o fundador da Logoterapia que é importante escutar a própria consciência a dizer o que deve ser feito, colocando em prática da melhor maneira possível.

Sobre “apreciar erros”, penso no ensinamento de Nassim Nicholas Taleb, filósofo e matemático preferido de minhas leituras de mercado financeiro, e aqui entendo que não se tratam de todos os erros, e sim de situações novas, além do meu controle, onde a falha que cometi faz parte do processo de aprendizado sobre o fato, ocasionando em um novo erro. Nessa empreitada é preciso saber avaliar riscos para não cair em falhas que me levem à ruína, e para isso tenho que estar apto a avaliar bem situações críticas para não produzir erros repetidos, evitáveis.

Certa vez ouvi, em uma reunião com empresários, um profissional contábil dizer a pérola de que “nunca cometeu um erro sequer que tivesse prejudicado um cliente”. Achando que estava impressionando, acabou passando uma péssima mensagem de arrogância aos interlocutores. Percebi que estava diante do que Taleb chama de “fragilista”, um sujeito narcisista na profissão, iludido consigo mesmo, capaz de multiplicar erros apreciáveis enquanto pensa ser um “suprassumo” da competência.

Seja na visão de Frankl ou a de Taleb, percebo quão importante é não fazer da busca pelo sucesso ou diante da ocorrência de falha, uma “neura” pessoal, assim como sempre desconfio mais de quem tenta se apresentar como “super competente” e reage mal diante do dito “errar é humano” , seja não os reconhecendo para tentar preservar uma imagem falsa de si mesmo, seja os imputando aos outros. Quando erro, pergunto se poderia ter evitado, e caso seja negativo, em seguida tento tirar lições novas. Nesse processo, ter autocrítica é importante.

E assim, no desejo de uma melhor consciência sobre minha “missão de vida” em várias dimensões, percebo que o estar bem comigo mesmo é algo que ocorre por um processo natural, no dia a dia, errando, aprendendo, ajustando, superando fases, enfrentando e apreciando novos erros.

  1. Ver o prefácio da edição de 1983 da obra “Em busca de sentido”.
  2. Ver em Antifrágil;

13/02/2022

A perda da identidade contábil

Há algum tempo penso em escrever sobre este tema, especificamente, quanto ao que venho a observar em profissionais de contabilidade que perderam por completo a identidade contábil ou, em outras palavras, não conseguem mais racionar, e por tabela, atuar como contadores e sim como despachantes.

Para o momento, a apreciar Summer 78, do compositor francês Yan Tiersen (Brest, 1970) , tocada pelo pianista holandês Jeroen van Veen (Herwen, 1969).

Em um escritório contábil se pode achar muitas coisas, mas dificilmente se encontrará contabilidade. Parte do que escrevo aqui falei recentemente para alguns clientes que frequentam a sessão matinal de atendimento no Zoom (08-09h). Também pode ser encontrado neste blog outras reflexões com ênfase maior em teoria de mercado.

Ao afirmar que muitos contadores que observo raciocinam e atuam como despachantes, quero dizer que não praticam a essência da atividade contábil que (à mon avis) envolve, impreterivelmente, o observar, o analisar e o dar parecer sobre determinados fenômenos ou problemas de agentes econômicos (no caso, relacionados ao interesse contábil como “ciência da riqueza”), procurando identificar suas origens e aplicações. No lugar do profissional procurar saber, com razoável profundidade, as causas de determinados problemas, queimam esta preciosa etapa do trabalho e preferem ir diretamente à aplicação ou seguem ao operacional, sem qualquer interesse em entender, de fato, o que provocou a situação, buscando resolução sem interesse de saber como esse “algo” surgiu, como se tal conhecimento não importasse para uma boa prática do exercício profissional. Refiro-me ao fenômeno dos apertadores de botões em sistemas privados e do fisco que utilizam aplicativos que realizam procedimentos de interesse da burocracia e desconhecem normas, leis, regras básicas de validação, sequenciamento lógico de tarefas, se tornando assim facilmente passivos a estresse demasiado em situação que requer disciplina para raciocínio investigativo quando surge uma dúvida ou problema de execução, abdicando de uma atividade intelectual que cabe a um genuíno contador. E eis que passam por apuros desnecessários podendo ser observados como frequentadores de grupos de WhatsApp que lançam perguntas com termos genéricos e mal elaborados na busca ansiosa por respostas rápidas, para situações razoavelmente complexas, na expectativa de obterem soluções céleres sem qualquer interesse em compreender acerca do quê estão lidando. Demonstram desinteresse em saber das origens dos problemas; tão-somente lhes interessa a aplicação, e aqui faço uso de uma analogia entre débito e crédito a parafrasear as partidas dobradas que (à mon avis) simbolizam a essência do raciocínio contábil moderno que foi documentado na península itálica pelo lendário matemático Luca Bartolomeo di Pacioli (1447-1517), e isso também lembra a questão de que hoje, muitos contadores não sabem mais (ou nunca souberam) o que é débito e crédito, o que, neste caso, os impossibilitará de compreender minimamente bem a analogia.

Contadores que não pensam mais (ou nunca pensaram) como contadores? Contadores que se entregaram a um senso de imediatismo a confundir sintomas com causas, sem a capacidade para ler as dificuldades e chegarem a uma consciência da realidade que os cerca. Entendo que este drama profissional se relaciona com o distanciamento, cada vez maior, de contadores em relação a atividades genuinamente contábeis; ou seja, pelo fato de terem deixado de fazer contabilidade, digo, em escriturar, apurar e interpretar resultados, lidando com constantes problemas ou fenômenos acerca de origens e aplicações de recursos econômicos (débito/crédito). A perda da “força do hábito” de viver intensamente a contabilidade, como um médico que vive a medicina em hospitais e consultórios, está produzindo gerações de contadores que se especializaram em preencher formulários, úteis ao fisco e inúteis ao meio produtivo, sem atuação com uma ciência social moderna que exige análise investigativa por sequenciamento lógico. Infelizmente, imagino que se trata de um problema acima da vontade de contadores em se envolver com a contabilidade por conta de problemas estruturais no ambiente de negócios no Brasil que inviabiliza a prática contábil em níveis minimamente sofisticados e assim resta, para a maioria, viver na execução do operacional burocrático mais por impulso e necessidades imediatas, consumindo supostas “soluções” de TI para problemas periféricos, fora do contexto do que cabe realmente a um contador fazer. Para agravar a situação, marqueteiros inculcam a venda do contador como um profissional “multidisciplinar”, quase um “faz tudo”, e contabilidade que é bom…

E como uma pergunta leva a outra, o que está provocando o distanciamento de contadores da contabilidade evidenciando a conversão deles em despachantes? Primeiro, a conversão de contadores em despachantes é um problema antigo, embora o avanço tecnológico usado pelo aparato governamental possa dar a impressão de ser uma coisa recente, as raízes deste problema se relacionam com a estrutura de Estado que há no Brasil: corporativo, denso, burocrático ao extremo, de capitalismo de laços, por isso planificador da economia, invasivo e com aversão à liberdade econômica, evidenciando características que não foram construídas neste século e sim desde a colonização portuguesa, ganhando um forte impulso na ditadura Vargas dos anos 1930, o regime mais próximo do fascismo ocorrido neste país. O histórico peso da burocracia do Estado na sociedade brasileira seguiu se avolumando durante a segunda metade do século passado; ganhou forte impulso durante os governos militares (1964-1985) com o surgimento e fortalecimento da Receita Federal e de uma série de obrigações acessórias que surgiram (IRPF, IRPJ na fiscal, depois o CAGED e a RAIS no âmbito trabalhista). O desenvolvimento da contabilidade, como ciência voltada às suas prerrogativas modernas, ficou prejudicado na medida em que contadores passaram a se ocupar mais com as exigências do fisco, cada vez mais invasivo considerando que o Estado corporativo, de forte compadrio, retroalimenta uma cultura de “criar dificuldades para vender facilidades” em torno da indústria da burocracia e da insegurança jurídica que tomou proveito de empresários viciados em trocas de favores com políticos, o velho “capitalismo de laços”, e nesse sentido se tornou latente o desprezo em priorizar a busca pela eficiência econômica, onde a contabilidade se insere como ferramenta elementar. Nessa mentalidade que gravita em torno das “simplificações” ou facilidades das “políticas públicas” via Estado, a mesma fonte dos problemas, pergunto: Por que um empresário vai procurar investir seriamente em boas práticas de gestão e de contabilidade se tem o atalho de favores políticos para lhes oferecer “benefícios” que passam desde legislações criadas para favorecer grupos de lobistas, com protecionismos e reservas de mercado, passando por normas ‘regulamentadoras” que dificultam o ingresso de concorrentes, até chegar em financiamentos com juros subsidiados por pagadores de impostos? Não é preciso fazer muito esforço para ver que um empresário será tentado a ir pelo atalho de alimentar suas maiores expectativas com a política em vez de procurar administrar melhor seus próprios negócios, conhecendo com maior precisão os números de suas operações onde se insere (repito) a contabilidade como ferramenta fundamental. Então, uma parte do desprezo pela contabilidade, e a chamada “desvalorização” do contador, reside no problema do Estado corporativo com laços de compadrio viciando agentes econômicos, enquanto ocorrem desdobramentos ou derivações no mesmo aparato estatal que impõe uma burocracia severa para fiscalizar a aplicação de “benefícios” em uma sociedade criada para ser submetida ao Estado “tutor”, uma espécie de babá constitucional. Então, não será bem uma surpresa ver o mesmo aparato-babá-estatal-constitucional impondo determinados controles sociais, sobretudo em meio fiscal-digital, visando “cuidar” de (fiscalizar) seus “tutelados”, como no caso do Sped e do eSocial, modelos invasivos, típicos de Big Brother Fiscal, em formatos que transformam o contador em delator, fazendo com que o empresário, o mesmo exposto a uma educação positivista viciada em trocas de favores com a política, veja o profissional contábil como um sujeito um tanto inconveniente que o “entrega” ao fisco, no sentido de repassar determinados segredos (comerciais, industriais e financeiros), o que explica parte do desinteresse dos mesmos empresários em colaborar com contadores no fornecimento de dados para a escrituração contábil, coisa tão comum que escuto entre contadores. Relacionado a este problema está o fato de que também fica com o contador o papel indigesto de apurar e gerar as guias de recolhimento de impostos, e em se tratando de uma sociedade onde o Estado arrecada muito e aplica mal recursos, em meio ao histórico de escândalos de corrupção e privilégios incontáveis de políticos e funcionários “públicos”, tudo isso reverbera em custos com tributos e obrigações acessórias derivadas, inevitavelmente aumentando as dificuldades na manutenção de negócios, encarecendo ainda mais a cadeia de produção, e eis que a questão se agrava porque resta ao contador executar o operacional do manicômio tributário, também a ficar com a “missão” de ser o sujeito que trabalha apenas para o fisco arrecadar. Por essa e outras razões, um contador jamais terá o destaque de um advogado no meio empresarial, pois quem labora no direito para empresários não costuma fazer o papel de delator ou entregador de dados pessoais e negociais ao fisco, por coerção, tampouco o de gerador de guias de impostos que, são custos ao desenvolvimento mais livre do meio econômico. O advogado é, via de regra, o profissional que atua no lado dos interesses de defesa e busca de soluções legais das corporações e dos empresários, e assim o mesmo empreendedor que olha de lado para o contador e o vê como um “custo”, evidentemente terá outros olhos para um advogado. O contador é o sujeito que traz os problemas, o medo das multas e as dívidas, e o advogado é aquele que “resolve” certas dores do empresário mais crônicas; as do âmbito da insegurança jurídica. É claro que há muitos contadores que atuam na defesa legal de empresários, mas a força da prerrogativa se concentra nos advogados e pesa mais o tosco papel de “dedo-duro”, taxmaker, darfista, preparador de guias, exercido por contadores. Desta forma, é inevitável que o empresário enxergue o advogado com maior interesse de valorização, em comparação com o contador.

O efeito da economia de mercado (oferta versus demanda), com muitos contadores oferecendo serviços comoditizados, é outro fator importante pois explica a queda nos preços de serviços da burocracia, sobretudo em contadores que trabalham apenas com obrigações acessórias e não exercem a atividade contábil plena, formando uma enorme oferta, enquanto enfrentam forte concorrência que está cada vez mais fazendo mais com menos tempo e recursos humanos, mediante tecnologias robotizadas e de integração de bases de dados; neste aspecto, há um fator saudável para a sociedade produtiva no tocante à redução de custos com o operacional da burocracia fiscal-estatal.

Contadores então que reclamam de empresários que valorizam mais advogados, enquanto são desprezados, na verdade estão relatando um sintoma sem pensarem em causas reais; desta forma, sofrem para compreender a situação porque não raciocinam mais como contadores autênticos procurando ver as origens dos problemas pelos quais estão envolvidos na desvalorização que, diga-se de passagem, é pontual, pois há contadores que não se sentem desvalorizados e que estão no grupo dos que trabalham para um pequena fatia do mercado, em empresas que fazem uso pleno da contabilidade enquanto adotam meios tecnológicos avançados para lidarem melhor com os danos do Custo Brasil.

E se a estrutura de Estado inibe o trabalho contábil, é óbvio que a demanda por autênticos serviços de contabilidade será mínima em organizações que não podem arcar com os exorbitantes custos do manicômio tributário, a maioria formada por micro e pequenas empresas. Como já argumentei no início, é um problema que não se explica pela falta de vontade de contadores em trabalhar com a contabilidade e sim pelas enormes dificuldades que inviabilizam trabalhos contábeis. Hoje a contabilidade está praticamente morta em escritórios contábeis, micro e pequenas empresas e quem quiser ver trabalhos de boa qualidade tem que se voltar a empresas maiores que suportam arcar com os custos da compliance fiscal-estatal, juntamente com as companhias de capital aberto na Bolsa de Valores. Fora disso, a contabilidade mais parece obra de ficção. No segmento de contabilidade real, contadores são pouquíssimos e muito bem pagos, enquanto que a maioria segue na “manada” (termo de mercado) para quem optou em seguir a maioria, no caso, procurando lidar com serviços que exigem menor qualificação de pessoal, atendendo a clientes apenas com serviços da burocracia, tentando sobreviver na oferta vasta e, por isso, com preços em viés de baixa.

Por fim, penso que o distanciamento de contadores da contabilidade traz danos seríssimos à carreira profissional, além da falta de disposição ou mente treinada para raciocinar como contador autêntico, e essa perda de identidade pode criar um vácuo no mercado da profissão, a ser ocupado por outro tipo de profissional que conseguiu se adaptar melhor ao ambiente que combina conhecimento de tecnologias de integração e contabilidade, o que ocasionará na extinção profissional de contadores que assim o são de direito, apenas pelo CRC, limitados a serviços da burocracia, enquanto há muito tempo não são mais contadores de fato.

06/02/2022

A importância da leitura em minha vida

A apreciar Time Lapse, do maestro italiano Ludovico Einaudi, ao piano do holandês Jeroen van Veen.

Ler é um dos exercícios mais caros e prazerosos que cultivo. Uma prática que se intensificou desde os tempos da adolescência e que se transformou em uma terapia para lidar com os dramas da pandemia. Por falar nisso, a ideia de “Uma leitura ao dia” surgiu por uma provocação de alguém um tanto desapontado com este blog. Segundo o interlocutor, era melhor aqui ter apenas matérias sobre questões tributárias, certamente sem saber o trabalho no Zoom sobre assuntos nessa área, além dos agendamentos com clientes de contabilidade e fiscal onde é o que mais trato. Nunca tive como propósito transformar este blog em uma central de consultoria gratuita, sobretudo a não clientes. Talvez, o visitante esperasse um prolongamento do site llconsulte.com.br. Então, ao visitar este blog, viu que só há “coisas inúteis” em termos profissionais, e não fiquei surpreso com isso, considerando que neste mundo, não é raro encontrar indivíduos, geralmente “novos ricos” do meio contábil, que não se importam com intelectualidade e parecem ser tão pobres que a única coisa que possuem é o dinheiro, quando não, se dedicam a uma vida onde a regra é repetir o que vem de cima para baixo. Então, após a provocação (alguns diriam “ofensa”), durante a leitura de uma publicação do projeto italiano “Una Parola al Giorno“, surgiu a ideia de publicar uma experiência de leitura ao dia e assim permaneço disposto a decepcionar ainda mais o visitante contábil que deseja ver aqui um lugar dedicado à sua querida bolha hiperburocrática.

Mas, o que entendo por “leitura” e qual o seu sentido prático à mon avis? Um essencial exercício para manter a saúde do intelecto. O uso da linguagem codificada chamada “idioma” se dá pela interação mais importante que posso ter com um objeto que emite algum conhecimento, algo que pode se revelar na forma de leitura de um texto escrito ou falado, e é através dessa atividade mental que me permito trabalhar o intelecto a vivificar meus conteúdos imateriais. Quando leio e me permito “conversar” com o texto, percebo um leque de possibilidades para fortalecer o espírito, potencializando meios de aprendizagem. O “espírito” aqui não tem uma conotação religiosa, e sim filosófica, no sentido de ser a parte não material do humano, corpo “não animal” onde se hospeda o intelecto. É pela dúvida associada ao hábito da leitura, é perguntando coisas no texto, é lendo, interpretando, interrogando e refletindo sobre o que supostamente é dito no texto, que se abre a porta para o universo do saber em nível mais profundo. A leitura é como uma chave dessa porta, a minha vontade de ler é o movimento de “malhação” do meu corpo para abrir a porta, o que possibilita o acesso ao outro lado, à sala onde está o conhecimento a ser trabalhado também pelo intelecto. Sem o hábito da leitura, não tenho como evoluir nessa estética ou na beleza do intelecto, e aqui convém esclarecer que entendo por “leitura” também o ouvir, a atividade auricular que é uma forma menos sofisticada de lidar com texto, no caso falado, sem os meios da linguagem codificada escrita, recurso que exige mais do cérebro e possibilitou a civilização evoluir, pois isso penso que ler texto escrito é uma atividade mais enriquecedora do que ler um texto por meio auricular (escuta).

Em termos práticos, o hábito da leitura me ajuda a treinar melhor minha relação com os problemas, não necessariamente os que me deparei nos textos lidos. Como o exercício da leitura requer constante uso lógico de meios do intelecto na aplicação da dúvida, percebo que o ato de questionar em si é um exercício cerebral que se estende ao cotidiano e se leio e medito constantemente, estou educando meu cérebro a cultivar uma forma saudável de reagir a problemas visando construção de um saber, enquanto dificulta eventuais tentativas de manipulação às quais sou exposto constantemente. Quando estou diante de uma dificuldade ou problema, o hábito da leitura me treinou a pensar em inúmeras formas de problematizá-lo; ler me ajuda a compreender a importância de tentar antes identificar causas, sem me afobar diante do problema em si, para depois pensar em diversas possibilidades de solução, isso porque na leitura sou estimulado a sempre procurar saber o porquê de determinado conteúdo ou as possíveis causas e/ou razões do autor ter escrito ou falado determinada coisa argumentada. A leitura me deixa mais concentrado e prudente diante de respostas prontas sobre um determinado problema. Sempre dou espaço para o contraditório diante de algo dividido ou polêmico. Em suma, é lendo que posso desenvolver melhor a capacidade de pensar e questionar com maior sensibilidade às coisas do cotidiano. Outro aspecto é que a leitura me proporciona uma busca de amplitude de coisas de um mundo tão disperso. Percebo que a leitura ajuda o intelecto a encontrar forças e inspiração onde o dinheiro e os demais meios físicos que posso ter não podem suprir.

Também é pela leitura que posso revisitar meus valores e reavaliar minhas próprias ideias. Ler é um treinamento dos recursos mentais ou, em uma linguagem mais direta, é malhar a “musculatura” do espírito, da mesma forma que alguém ao seguir um programa de exercícios físicos, dependendo das intenções, desde as que são por recomendação médica às puramente narcisistas, vai fortalecendo certas partes do corpo físico, visando melhorar alguma função do organismo, desejando melhor qualidade de vida, tratando da saúde no sentido físico, assim como, do ponto de vista estético, aos mais vaidosos, se tem a malhação do corpo como meio de torná-lo mais belo ou atraente, alguns diriam mais “sexy”, do ponto de vista de consoantes preocupações na intenção de impressionar como objeto de desejo.

Isto posto, a estética do corpo envolve (à mon avis) aspectos éticos em via material e em via imaterial ou uma ética comum para o trato do físico e do intelecto. Enquanto na leitura, exercito meu eu interior de maneira que, pelo hábito em si e pela boa seleção do que leio (aqui é preciso considerar aspectos subjetivos) vejo uma real possibilidade de “embelezar” o meu corpo por dentro, digo espiritual ou imaterialmente, o alimentando de certos conteúdos e valores, enfim, de elementos preciosos ao desenvolvimento da minha intelectualidade, contudo, da mesma forma que a beleza física pode ser uma via de auto afirmação narcisista, ou seja uma forma agressiva e arrogante de explorar a própria beleza, a intelectualidade, com sua beleza imaterial também pode ser um meio para desenvolver uma perigosa vaidade pessoal, sendo este um problema que cabe a toda pessoa que aprecia o saber, que valoriza o conhecimento em suas diversas variantes, considerar como risco real: não se deixar levar pela melhoria do próprio intelecto para menosprezar a quem julga ter uma menor bagagem de conhecimento ou cultura considerada “inferior”. Preciso é saber levar em conta que a ignorância imensa que se tem sugere o contínuo exercício da humildade na busca de enlevo espiritual, onde se insere a prática diária da leitura. Se alguém que se acha culto demais, o que já é um sintoma de perdição moral enquanto debilidade ética, começa a desenvolver práticas de tratar com arrogância, sobretudo sobre os que Santo Agostinho chama de “simples”, isso pode ser um sinal de que sua busca pelo conhecimento se tornou um fim espúrio, do ponto de vista da humanização do saber, se equivalendo a de um sujeito que vai para a academia malhar o corpo apenas para se exibir satisfazendo tão-somente o próprio ego, muitas vezes pretendendo conquistar pessoas apenas pela aparência, explorando a paixão ou os desejos de ocasião para fins puramente carnais ou sensuais, eróticos, não acrescentando nada de importante para as pessoas as quais se relaciona sobre sua história de vida; em outras palavras, é puro e simplesmente culto de si mesmo ou egolatria visando se estabelecer como colonizador de quem se permite impressionar pela beleza encantadora que ostenta, assim pode cair alguém que se acha culto acima da média.

Da mesma forma que a beleza física pode ser admirada sem segundas intenções, a beleza intelectual também. Experimento isso ao ouvir uma explanação de um catedrático ou a ler uma obra de um doutor em determinado assunto. Assim como a beleza física pode inspirar pessoas, por exemplo, a conseguirem entender a saúde pela estética, como no caso de pessoas que conseguem perder peso, se livrando de problemas crônicos da obesidade, muitas vezes inspiradas em testemunhos e lições de pessoas que passaram pelo mesmo problema, a beleza espiritual pelo saber pode inspirar pessoas a exercitarem o próprio pensamento, percebendo o potencial que possuem no intelecto, não raramente se livrando de vícios ideológicos ou do que os psicoterapeutas chamam de “pensamentos automáticos”. A contrapartida que define a virtude da beleza ou estética seja física ou espiritual, envolve o que se faz com ela, se é usada para inspirar a quem admira o belo no sentido de refletirem melhor sobre como podem crescer na vida, em vários aspectos, evidenciando uma compreensão madura sobre o admirável, ou se a beleza em si serve tão-somente para cultuar alguma personalidade e, em casos mais extremos, a práticas de degeneração moral, seja no uso do corpo para fins de objetificação ou do conhecimento para manipulação nas mais variadas formas.

Por fim, penso em inúmeras pessoas onde encontrei inspiração para crescer em termos intelectuais, na busca do saber, mediante o que falavam sobre o sentido de se ter conhecimento, refletindo sobre “propósitos”, em compartilhá-los ou aplicá-los da melhor maneira possível na livre cooperação social visando servir nossos semelhantes. E assim penso no belo como parte essencial em uma missão de vida terrena que amadurece, na medida em que o hábito da leitura é a forma mais eficiente que conheço para reduzir em mim certos problemas abstratos e incomensuráveis inerentes à minha espécie, entre os quais o principal e inesgotável é a ignorância.

30/01/2022

O que Kant e a escassez têm a ver com isso?

De vez em quando surge a pergunta sobre de onde tiro certas ideias que aplico no meu trabalho de suporte, na organização de minha gestão profissional e em relação aos critérios que utilizo na adoção de agendamentos e no uso planejado de ferramentas como o Zoom e o remoto.

O suporte escreve a apreciar Nocturnes, Op. 9: No. 1 in B-Flat Minor, de Frédéric François Chopin (Polônia/Mazóvia, 1810-1849).

A resposta começa a ser dada pela filosofia e pela economia ou no que Kant e a escassez têm a ver com isso.

Penso que aprender é uma atividade possível em duas vias, basicamente, sendo a primeira a posteriori, não citada inicialmente por relevância e sim por ser a mais usual do ponto de vista do que observo, pela análise mediante a experiência, onde a dor dos erros cometidos é um fenômeno inevitável, assim como a satisfação dos acertos que podem inspirar aprimoramentos. A experiência em si não garante aprendizado e sim a meditação sobre os resultados que dela podem ser extraídos. Não meditar sobre os atos no trabalho então torna a experiência apenas um processo efêmero e inútil, do ponto de vista da aprendizagem, acarretando em repetições de erros totalmente evitáveis. Já a segunda via de aprendizagem é a priori, e tem muito a ver com uma atividade que me dá imenso prazer: a leitura, como busca incessante do conhecimento, forma de crescimento da dignidade que cada pessoa pode desenvolver por esforço próprio, sendo aplicável em qualquer âmbito do seu viver. Hoje, com as facilidades tecnológicas, não é preciso estar em grandes centros, tampouco em universidades para crescer intelectualmente; por sinal, o meio formal de ensino pode até atrapalhar esse processo, na medida em que não acompanha a evolução de conhecimentos e práticas que ocorrem na dispersão de mercados, e mais precisamente, em empresas.

Acredito que o enlevo intelectual é a chave para o aprendizado a priori, ou seja, para aprender sem ter que passar necessariamente pela experiência, e tal empreitada exige muita disciplina em função de escolhas que me cabem fazer. Por custo de oportunidade, em vez de ficar por horas me distraindo com as facilidades da vida hodierna, em redes sociais, por exemplo, em um tempo que seria gasto em banalidades, entendo ser estratégico direcioná-lo para atividades que estimulem meu intelecto a trabalhar melhor, mediante leituras e meditações no que Immanuel Kant (Prussia/Königsberg, 1724-1804), escreveu sobre “vivências experienciais”, procurando dar ênfase na aprendizagem a priori que “não se derivam imediatamente da experiência, mas de uma regra geral, que todavia fomos buscar à experiência. Nesse sentido, diz-se que alguém, que minou os alicerces de sua casa, que podia saber a priori que ela havia de ruir, quer dizer, que não deveria esperar pela queda, para saber pela experiência” [1]. Posso conhecer através da teoria comprovada, do raciocínio, da lógica, da matemática, da filosofia, da meditação, da análise, sem ter que aplicar um método experimental. Não preciso me atirar da janela do quinto andar para entender a lei da gravidade. Não é preciso passar pela dor de ver a casa ruir (aqui recomendo dar um sentido figurado), se tiver conhecimentos sobre a importância de ter alicerces adequados ao seu pleno suporte. Da mesma forma que no trabalho de suporte, se tenho uma base de dados sobre o comportamento de clientes e o meu próprio, posso analisá-los, usando saberes diversos para aprender e promover mudanças.

É óbvio que pela experiência, como processo comprobatório, se confirma teoria, mas não se deve superestimar o experimental por isso, mesmo sabendo que no sofrer reside o comum para aprender (se bem que há os que não aprendem nem pelo sofrimento da experiência), e que também me cabe considerar que determinadas coisas só se aprendem mesmo com algum sofrimento com o inesperado, o que passa inevitavelmente pela dor, sobretudo em relação a problemas novos fora do controle, inimagináveis ou “cisnes negros” que Taleb aborda em suas obras [2]. Tudo isso não anula a relevância de se aprender a priori, através da leitura, da capacidade de analisar dados e desenvolver modelos que sejam proativos.

O problema é que muitas vezes há déficit de proatividade, ausência de leitura, carência de meditação, falta de análise como tendência de muitos, pelo menos no meu ambiente de trabalho; percebo o problema de se procurar aprender mais adequadamente apenas quando os danos mais graves acontecem, ou seja, pela triste experiência da dor, a posteriori, por sofrimento que poderia ser evitado mediante processo a priori, pelo hábito de valorizar bom conhecimento teórico e disposição para acompanhar fatos e analisar dados em desenvolvimento, aplicando planejamento de ações. Um exemplo se dá em um escritório onde um gestor “descobre” que está em situação crítica, gravíssima, diante de certos problemas com obrigações acessórias de clientes, não devidamente executadas adequadamente ou até mesmo em omissão. O problema sério não surgiu do nada, de repente; a descoberta pode esconder um questionamento sobre algo ainda mais grave, quando o quadro foi resultado de um longo processo de não acompanhamento dos fatos ou dos dados, onde o conhecimento teórico, a priori, poderia ter sido aplicado por precaução. E assim, em vez de aprender com a observação (experiência em processo) combinada com conhecimento teórico bem dominado e ciência de consequências bem estimadas ou seja, a priori, se decidiu pela inação ou inércia na análise e o aprender tão somente fica restrito a dor experimental quando se percebe que o caos se instalou por completo.

As ideias que estou aplicando este ano foram resultantes de um processo dinâmico, muitas a priori, combinado com situações a posteriori vividas há alguns anos. Aprendi pensando, meditando, avaliando, tentando evitar o estresse desnecessário, procurando não passar pela dor de velhos erros enquanto não tenho receio de cometer novos, avaliando riscos, sofrendo com algumas iatrogenias, tudo como parte do mesmo processo de aprendizagem onde se insere o fator a posteriori ou experimental, contudo sob vigilância do a priori. A teoria não pode ser desligada da prática, assim penso.

O que recomendo a profissionais de TI e contabilidade é priorizar totalmente uma formação intelectual robusta, rica, algo que só pode vir pelo hábito da leitura; livros, ensaios, obras clássicas, história, filosofia, conhecimentos de saberes que possibilitem a abertura de janelas para uma visão holística ou ampla da realidade, não se limitando a “gurus” ou formadores de opinião com respostas prontas, acabadas, onde o saber fica muito raso ao fazer sem saber exatamente certos porquês que devem ser conhecidos. No meio contábil, a busca por respostas rápidas para problemas complexos é uma questão recorrente que, talvez, esteja ocorrendo pelo distanciamento de contadores em relação a própria ciência da contabilidade que envolve conhecimentos a priori e a posteriori, onde a necessidade de uma boa base intelectual, muita reflexão pela aplicação de teorias, são ações imprescindíveis. Infelizmente, vejo muitos contadores se comportando como imediatistas, desprezando o básico do saber em relação aos detalhes técnicos que envolvem certas tarefas, depositando esperança em coisas sem consciência do contexto, confundindo a facilidade de acesso á informação (pelas redes sociais) com o conhecimento em si. Por isso usam o WhatsApp sem levar em conta que é preciso ter uma certa base teórica do assunto e ficam a mercê de trocas de mensagens rasas que evidenciam alguns comodismos. Percebendo isso, extingui o uso do WhatsApp para tratar de assuntos técnicos, e passei a priorizar a vídeo conferência (Zoom) combinada com suporte remoto para enriquecer o processo investigativo visando melhor conhecimento de um determinado problema apresentado, para poder tratá-lo de forma adequada. Em suma, identifiquei, avaliei e promovi uma mudança em função de um problema comum em usuários no WhatsApp, que consiste no ingênuo desejo de resolver questões que exigem melhor investigação, com certos aspectos técnicos e contextuais, tudo mediante simples trocas de mensagens e assim gastam mal o tempo e empregam energia sem avaliar os retornos ou benefícios, sendo um típico caso de alocação indevida de recurso.

O que posso dizer é que foi através do processo a priori de busca de conhecimento de problemas, analisando dados, aplicando teoria dando vazão pelo pensamento, inspirado pela prática de leituras diárias, onde descobri uma forma de aprimorar um enlevo intelectual para repercutir em minha vida laboral, e assim pude compreender melhor minhas deficiências técnicas. Outro ponto a destacar consiste no fato de que a minha agenda profissional é construída com base no que a economia me ensinou como ciência da escassez, onde me fez compreender melhor a importância de saber a limitação de recursos, da disciplina e da aplicação de meios ao meu alcance a um controle mais preciso de horários com clientes; é ilógico, irrealizável e trágico tratar o meu trabalho de suporte como coisa “ilimitada” como se eu tivesse todo o tempo do mundo, sem ordem, sem controle e monitoramento da aplicação de ferramentas, sem avaliação de resultados. Aliás, ao conversar com um entusiasta contador, em relação a uma TI de grife, me chamou a atenção exatamente a ideia um tanto ingênua que ele tem sobre o “ilimitado”, sem saber de certas impossibilidades dele e da TI, quando há variáveis como tempo, recursos humanos, outros insumos na cadeia de produção, entre os quais está o meio tecnológico que sofre restrições os tornando naturalmente escassos ou seja, econômicos e quando se tem melhor consciência dessa amplitude de escassez no trabalho, se pode planejar melhor as ações para maximizar benefícios da aplicação ou alocação de recursos, evitando certas decepções consigo mesmo e com os outros. Subestimar tais coisas é a receita para viver constantemente à beira do caos. Acredito que só o conhecimento a priori, combinado com certas nuances experimentais (a posteriori), é possível obter melhores resultados no processo de superação pela real aprendizagem e crescimento profissional, assim como promover mudanças importantes que qualifique melhor o próprio trabalho.

  1. Em Crítica da Razão Pura;
  2. Ver A Lógica do Cisne Negro e Antifrágil

19/01/2022

Tempus edax rerum

O suporte trabalha apreciando, ao piano, BWV 974; transcrição para o cravo feita pelo gênio barroco Johann Sebastian Bach (1685-1750) do trabalho em oboé, cordas e baixo contínuo do grande compositor Alessandro Ignazio Marcello (1673-1747), da Repubblica di Venezia.

O tempo, escasso recurso, por isso inevitavelmente econômico. Sua principal característica: irrecuperável; o que é aplicado dele não se pode tomar de volta. Não é possível recuperar o tempo perdido. O que foi ocupado nele se foi, passou, para sempre. Não há como entrar em uma máquina do tempo e reaver o que foi usado ou, recuperar o recurso que foi “alocado”, como dizem os economistas.

Outro fator um tanto dramático no recurso do tempo se dá quanto a sua disponibilidade. Não sabemos quanto tempo nos resta em nossa existência terrena, se o analisarmos além do curto prazo. Podemos ter uma vaga ideia, mas a vida que passa no Κρόνος (Cronos) tem variáveis imponderáveis e o tempo é uma das mais desafiadoras.

Usamos o tempo reduzindo o saldo desconhecido que nos resta; a cada segundo a conta corrente na contabilidade da vida sofre uma baixa pela origem do recurso ou “crédito”, no seu ativo; o “débito” é a aplicação do recurso ou o que se faz no tempo.

Por isso entendo que o tempo é a questão mais complexa a ser administrada tanto na vida pessoal como no ambiente de negócios. Tem a mesma impessoalidade do mercado; não perdoa amadores que brincam inadvertidamente. No entanto, parece que alguns não o consideram assim, pois se comportam como se tivessem “todo o tempo do mundo”; gastam-no a esmo, muitas vezes sem considerar que o seu uso se deu o ocupando com uma coisa em detrimento de outra. E o tempo passa carregando a velhice que se acumula enquanto reflete resultados de decisões tomadas no seu uso, se foi para estudar/investir/crescer/amadurecer/produzir/contribuir ou mais com distrações… Muitas vezes o tempo se reduz a um mero “passatempo”. Então penso em uma fração dele: 1 dia. Em seguida, observo que cada alma vivente que a experimentou integralmente, recebeu de forma igualitária distribuída em 24 horas à disposição. Alguns as aproveitaram bem, outros nem tanto. Uns preferiram gastá-las em grande parte com bobagens ou inutilidades, enquanto outros conseguiram usá-las com certa sabedoria. Descansaram, trabalharam, estudaram, brincaram, viveram bem. Outros apenas brincaram. O tempo de qualquer pessoa, médico, juiz, professor, contador, não importa, foi o mesmo considerando o dia que passou em 24 horas. Isto posto, vejo que o tempo requer que tomemos decisões constantes sob um determinado custo, que na ciência econômica se chama “de oportunidade”, em face de que muitas coisas não podem ser realizadas simultaneamente em meio a um recurso escasso onde, não raramente , temos que escolher em ocupar o tempo com uma coisa ou outra.

Fato é que, no imponderável da vida e na certeza de que um dia este recurso cessará para todos, muitas vezes sem aviso prévio, quando a conta do tempo chamada vida terrena ficar zerada, nos será, de alguma forma cobrado o que fizemos enquanto o tivemos à nossa disposição.

O que ficará entre os que ainda o possuem são memórias de nossos atos, recordações, boas, ruins, o que fizemos com o tempo que nos foi dado ficará registrado para nossos descendentes.

O tempo é como o mercado financeiro na economia: impessoal, não perdoa erros, sobretudo os de amadores. Administrar bem o tempo, planejando horários para tarefas, é a base principal de todo trabalho que almeja ser bem sucedido. Quem brinca com o tempo, o utilizando de forma banal, achando que tem “todo o tempo do mundo”, está colocando em risco desnecessário a própria vida, seja no aspecto profissional ou pessoal. Uma das mentiras mais aceitas sobre o tempo é o tal dito “recuperar o tempo perdido”. Isso não existe. Não é possível recuperar o “tempo perdido”, o que passou não volta desde a criação do universo. O tempo é gasto sempre, e vivenciamos isso a partir do momento em que chegamos a este mundo; não podemos pará-lo olhando para a dimensão do decurso da vida. Apesar disso, não é raro ver quem faz do uso do tempo no jardim da infância, e o tempo passa, a idade avança, projetos não executados quando houve tempo não devidamente bem aproveitado.

Tempus edax rerum.

13/01/2022

Fundamentalismo político, a versão laica do fundamentalismo religioso

Sobre um triste evento ocorrido neste início de semana…

O fundamentalismo ideológico entre militantes na política é algo tão ou mais nefasto quanto o fundamentalismo religioso.

O suporte aprecia La valse d`Amélie, do compositor francês Yan Tiersen (Brest, 1970) , tocada pelo pianista holandês Jeroen van Veen (Herwen, 1969).

Nada mais tóxico socialmente que uma pessoa “politizada”, envolvida por alguma ideia coletivista para corrigir ou orientar algo no mundo, uma personalidade que se sente “iluminada”, portadora de alguma “verdade absoluta”. Após um certo tempo de exposição a uma certa doutrina coletivista, via de regra baseada em formas de “coerção do bem”, acaba se tornando perigosamente incapaz de conviver em ambientes além de sua bolha ideológica; não me admira que ao sair da tal “zona de conforto” em grupinhos políticos, onde todos concordam subliminarmente enquanto fingem algum debate com divergências rasas, só para se auto iludirem, o fundamentalista-militante-político ao se deparar com algo verdadeiramente incompatível com sua cosmovisão , onde naturalmente há um contraditório às suas convicções, então se manifesta em sua bruta visão sobre o que Hayek alertou acerca da “dispersão do conhecimento”.

Dada a sua crença absolutista, não raramente munida de um sentimento de “missão superior” para com o que entende ser a plenitude de seu entendimento acerca de uma determinada questão sensível à sociedade, o fundamentalista-militante-político então revela a sua face mais hostil não suportando ter que lidar quando alguém simplesmente exerce um “direito de escolha”; o choque então aciona um explosivo e assim o sujeito se perde em uma peculiar inaptidão para seguir decentemente na discussão, de forma civilizada, tão-somente pautado nas ideias; ora, se concordar ou discordar faz parte de todo autêntico debate político-ideológico, na mente do fundamenta-lista-militante-político no lugar do diálogo e do argumento, imperam as suas limitações intelectuais, retroalimentadas pelos vícios de sua bolha ideológica, e eis que acaba levando o que seria um bom debate para a ofensa pessoal. É por isso que há um bom tempo não discuto mais política em redes sociais e me limito ao propósito de procurar avaliar certos impactos que as políticas provocam nas economias e como tentar se precaver delas.

Por fim, como diz o papa Francesco, “estamos todos no mesmo barco”, sim, estamos, e deveríamos entender que nesta nave terrena o RESPEITO é fundamental, mas o fundamentalista-militante-político não quer saber disso porque no universo bipolar em que vive só há uma verdade: a que ele (supostamente) leva consigo, pela qual foi doutrinado, e quem discordar acaba ofendido gravemente (no mínimo), evidenciando desta maneira um comportamento análogo ao de um fundamentalista religioso.

O fundamentalista-militante-político é a versão laica do fundamentalista religioso.

09/01/2022

A música em minha vida

Abro os olhos, em minha primeira experiência com os sentidos no dia e eis que me dou conta que uma melodia barroca está em minha mente, normalmente uma do prete rosso di Venezia, Antonio Vivaldi, ou do professor germânico Johann Sebastian Bach, o mais frequente. Em outras experiências de despertar me dou conta de que em minha mente está a tocar uma melodia de Mozart, Beethoven ou alguma peça de um compositor contemporâneo, o que chamo de “neoclássico”, como o italiano Ludovico Einaudi ou o francês Yan Tiersen.

Durante o trabalho a música está presente quase que o tempo todo como ambientação, e aqui vale explicar que o termo “trabalho” para mim tem uma abrangência ampla pois envolve, leituras, estudos, pesquisas, meditações, escritos, além do que se convenciona classificar com “atividade profissional” de programação de sistemas, investimentos e atendimento (suporte) a clientes.

Estudo ouvindo música barroca ou clássica; uma meditação se dá com algum prelúdio de Bach; o meu preferido é o BWV 846. Então escrevo normalmente com música, sendo as composições de Antonio Vivaldi as mais frequentes.

Quando me sinto mais cansado do que o habitual, pego o fone de ouvido e me permito ao relaxamento com Mozart, Beethoven, avanço no tempo e chego em Chopin, Debussy, Franz Liszt, desço séculos e vou a Johann Pachelbel e Tomasso Albinoni, entre outros gênios. Quando o cansaço entristece, a música se faz presente.

No ano passado, muitas vezes me flagrei em um nível elevado de estresse; muitos desgastes físicos e emocionais e tive que encontrar forças no lado espiritual para entender minimamente minhas necessidades mais prioritárias e não perder o foco, e nesse processo a música foi um instrumento indispensável temperando minha alma com cansaço e lágrimas.

Alguns dizem que é questão de “gosto” apreciar música barroca e clássica. Não se resume apenas a isso, pois também é algo de interesse científico, senão vejamos:

Em estudo da Universidade de Oxford, verificou-se que ouvir música clássica pode contribuir na redução da pressão arterial, beneficiando a saúde do coração, aliviando[1], Em uma experiência na França, pesquisadores constataram que alunos que ouviram uma palestra em que música clássica foi tocada ao fundo, tiveram melhores resultados em um teste quando comparados com outros alunos [2]. Na Universidade de Stanford (EUA) um estudo constatou que após exposição à música (usaram produção barroca), foram identificadas reações em áreas de cognição e emoção; sugerindo que “o processo de ouvir música pode ser uma forma de o cérebro aprimorar sua capacidade de antecipar eventos e manter a atenção”.[3]. Um outro estudo (2015), de pesquisadores da Universidade de Helsinque (Finlândia), verificou uma associação da prática de ouvir música clássica ao aumento da produção de dopamina, na ativação dos circuitos de recompensa do cérebro, cabendo considerar que baixos níveis de dopamina podem provocar doenças degenerativas [4].

Na minha experiência pessoal, ouvir músicas barroca e clássica acabou se revelando como uma questão proativa de tratamento mental ou terapia diante de exposição a elevados momentos de estresse. Quando escuto Bach, Vivaldi , Beethoven ou algum outro gênio barroco ou clássico, posso sentir em minha mente um teor de harmonia, ordem, pela forma como os acordes são executados e os instrumentos trabalhados; posso perceber uma mensagem de inspiração à serenidade que, parece, formam um conjunto de coisas imateriais que me ajudam na concentração. Sinto-me mais disposto para pensar, escrever e organizar minhas tarefas com melhor qualidade. Em outras palavras, percebo que as músicas influem em minhas atividades cognitivas causando uma melhoria no foco.

Então, sinto-me mais por dentro de mim mesmo ouvindo músicas barroca e clássica, assim como suas variantes em compositores atuais. Apreciar gênios barrocos e clássicos, além dos contemporâneos que dão prosseguimento a essa maravilhosa tradição, acaba sendo um saboroso momento pessoal em meio a uma vida naturalmente de desgastes, entre a razão e a intuição, com uma humana combinação de sentimentos e racionalidade.

  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15296685
  2. Ver Learning and Individual Differences citado em https://news.usc.edu/71969/studying-for-finals-let-classical-music-help/
  3. https://med.stanford.edu/news/all-news/2007/07/music-moves-brain-to-pay-attention-stanford-study-finds.html
  4. https://peerj.com/articles/830/

08/01/2022

Anotações sobre a primeira semana do ano

O suporte aprecia Nuvole Bianche, do maestro Ludovico Einaudi.

Encerrando-se a primeira semana do ano, uma parcial das primeiras observações quanto às mudanças realizadas no atendimento:

Todos os agendamentos foram de uma hora e a redução do tempo indicou melhoria no foco, pois é menos complicado se comprometer com mais intensidade em uma hora do que com duas ou três.

A preferência pelo Zoom combinado com o remoto e a retirada do WhatsApp do atendimento humano, estão possibilitando que eu fique mais próximo dos clientes para ouvi-los melhor, além de que a fluência no atendimento é superior quando se utiliza vídeo conferência em comparação com trocas de mensagens em textos ou áudio. Aos poucos que ainda que não costumam usar o Zoom no agendamento, recomendo repensar a medida pois a produtividade aumenta bastante quando conversamos por vídeo conferência.

O novo modelo possibilita que eu atenda mais pessoas e dá uma dinâmica que está reduzindo o meu desgaste e isso pode ser observado no encerramento dos expedientes dentro dos horários limites (12h00 e 18h00) com uma pequena margem de variação (até 10 minutos é aceitável).

Agora, respondendo aos que me disseram:

“Aproveita que vai mudar e acaba logo com esses agendamentos (kkk)”

O atendimento planejado possibilita melhor organização de tarefas, mapeamento de prioridades, pauta e execução com estimativa mais precisa no uso do tempo, um recurso por demais escasso e que deve ser muito bem administrado. Os dados mostram que os agendamentos possibilitam o amadurecimento de um plano de ação e melhor produtividade. Quem sugeriu acabar com os agendamentos apenas revelou um traço de uma personalidade de “gestor” baseada tão-somente no improviso e na falta de ordem, com desprezo ao planejamento. Neste ponto, se eu fosse um empresário a procura de um contador, este seria o meu primeiro “ponto de corte” em minha lista de sondagens.

Quanto aos argumentos superficiais e a risadinha no final (kkk), entendo que a forma como uma pessoa se expressa ou suas ideias são externadas, muitas vezes serve mais para revelar o seu nível de maturidade como profissional.

Lamento informá-los, ciência (conhecimento) e filosofia (moral e ética) costumam superar o achismo de palpiteiros que até como fingidores não passam de canastrões.

“Uma hora? Com duas as pessoas já não cumprem horário, imagina só com uma”

Primeiro, cabe lembrar que é possível ter duas ou até três faixas sucessíveis ou intercaladas (no mesmo dia). Isso vai depender da análise de casos.

Mais alguns fatos: em uma hora o volume de tarefas atingiu média de 70% de um agendamento médio quando se tinham duas horas e isso se deve ao aumento do foco do suporte e dos usuários que resultou no aumento da intensidade via elevação do nível de concentração. Com a minha exclusividade e o uso da vídeo conferência, caso de cliente disperso não ocorreu, Outro fator importante é que com uma hora, dentro de um expediente que, normalmente, vai no mínimo em oito, na média, o profissional agendado tem um comprometimento menor na sua jornada diária de trabalho, o que ajuda a reduzir o absenteísmo pois é mais fácil comprometer uma hora do que duas ou três no mesmo dia.

Sobre não cumprir horário, dos 29 agendamentos, 27 tiveram seus horários cumpridos e dois foram queimados, índice de 93% (elevado) de aproveitamento, superior aos 79% na modalidade usada até o final do ano passado.

Na opinião também se comete o equívoco da generalização: “as pessoas”; diria “pessoas, vírgula”, como gostavam os antigos de ponderar, pois isso depende do senso de organização de cada profissional. Conheço muitos disciplinados que desmentem esse tipo de conclusão tão rasa. Parece que alguns usam a própria medida da desorganização, que aplicam em si mesmos, para avaliar o mundo e os outros.

Mais uma vez, o uso de ciência na análise de dados e uma filosofia aplicada a gestão de negócio (política privada para normas) superaram o achismo de quem dá opinião sem conhecimento de fatos e com achismo de generalização.

Sessões de prioridade

Uma das críticas que mais recebi é o foco exagerado no agendamento, o que procede em certo sentido, e eis que foram disponibilizadas duas faixas de prioridades por dia, combinadas com o Zoom, ajudando a resolver este problema. O inesperado passa a ter mais espaço, mas isso não significa que as sessões no Zoom para esses casos serão baseadas no aleatório. O que surge como prioridade, fora da agenda, é antes identificado, analisado e classificado e quando entro nas sessões tenho uma boa base de conhecimento das tarefas a serem tratadas, em função de uma programação de atendimento previamente construída. Então, o inesperado ou o aleatório também acaba submetido ao uso racional e planejado de recursos, o que tende a ser economicamente melhor para todos.

Uma coisa ficou clara: clientes que gostam, ou estão dispostos a apreciar organização, ordem e planejamento, tendem a se identificar com os agendamentos e as sessões organizadas de prioridades enquanto os que são chegados apenas no improviso, fazendo quase tudo por impulso, e se contentam com a falta de organização em seus próprios negócios, tendem a ficar insatisfeitos. Os que estão usando a Gioconda no privado observando as orientações dela sobre as opções dos menus, estão sendo atendidos mais rapidamente em comparação com os que só descarregam mensagens em texto, áudios e imagens de forma desordenada, sem considerar as orientações do atendimento robotizado, denotando uma confusão mental na forma de conduzir problemas.

E entre agradar o primeiro tipo e o segundo, sabendo que é impossível agradar a todos, digo os mais organizados e o segundo, o tipo mais chegado em uma bagunça e que não quer se organizar, quem será que vou decidir agradar?

01/01/2022

Mensagem do Leonardo hoje ao Leonardo de primeiro de janeiro de 2021

Neste primeiro dia de um novo ciclo solar, me veio à mente o filósofo grego estoico Epiteto, que viveu na Roma antiga:

“O homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas se rejubila com as que tem.“ [1]

O suporte aprecia hoje Tabarly, bela peça em piano do talentosíssimo compositor francês Yann Tiersen (Brest, 1970), executada pelo brilhante pianista holandês Jeroen van Veen (Herwen, 1969).

Muito comum nesta fase de recomeço, a experiência da reflexão envolvendo planos novos ou antigos com desejos que (res)surgem mediante a passagem a um novo ano, assim como comparações que são feitas entre o que se conquistou e, sobretudo, o que se deseja conquistar.

Então, o Leonardo de primeiro de janeiro de 2022 imaginou uma viagem no tempo para encontrar o Leonardo de primeiro de janeiro de 2021 e pensou em lhe dizer o seguinte:

Meu caro eu de primeiro de janeiro de 2021, fiz está viagem insólita para te dizer que belo e moral foram os desejos que você traçou para 2021. Alguns realizou, outros não, e não te direi quais foram, mas preciso te falar que um desejo de crescer em vários aspectos da vida, desde as coisas materiais que se almejam às imateriais ou espirituais, as mais importantes, pode estar acompanhado de uma lacuna, um vazio, que se tenta preencher como se a felicidade ou o bem-estar consigo mesmo dependesse de coisas que não se tem, ou daquilo que não se consegue ser, em um impulso imaturo de se comparar com outras pessoas ou coisas.

Neste início de 2021, o teu eu de 2022 vem te abraçar, como um amigo das coisas guardadas no porão, e te dizer que melhor do que uma comparação com os outros é se comparar consigo mesmo, e longe de um narcisismo, te desafio no sentido de procurar a cada dia refletir sobre a pessoa que foi hoje para tentar ser uma pessoa melhor amanhã; é nesse sentido que podes encontrar um meio de compreender melhor a profundidade da sabedoria de Epiteto. Aproveitando a ocasião, meu caro eu de 2021, se você apresentar avanços, melhorias, em vários aspectos, neste ano de 2021, celebre sem exagerar na empolgação, sempre com gratidão a Deus, e se sentir um tanto cansado, triste, abatido, quem sabe com a ingratidão, lembre-se sempre das coisas que você tem, que o dinheiro não compra, incluindo a gratidão e a admiração daqueles que verdadeiramente te respeitam.

Meu caro eu de 2021, bem sei de tuas carências, necessidades não realizadas, como todo ser humano, mas jamais esqueça do perigo de caíres no equívoco de pautar a tua caminhada apenas pelo que não tens ou não és; impossível será encontrarmos paz, em nossa mais profunda intimidade, se nos rendermos aos valores efêmeros de ostentação deste mundo, onde aparências costumam enganar bastante, onde o “ser feliz” não passa de um momento, onde não ecoamos nossa existência pela eternidade, condicionando a realização pessoal aos outros e não ao melhor conhecimento sobre nós mesmos.

Meu caro Leonardo de 2021, sabes bem que a tua amiga Teologia te ensinou que o futuro a Deus pertence, mas repito isso como uma prece pois melhor do que traçar planos e desejos, é saber apreciar o que és e o que tens na tua caminhada pessoal, reconhecendo a graça de Deus na tua vida… E eis que se lembrarás daquela exortação do apostolo que marca a teologia da “coragem de ser” em teu coração, São Paulo, no final da primeira carta aos Tessalonicenses (5.18):

“Por tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus.” [2]

Por tudo que tens, revelando novas experiências, quem sabe avanços em conhecimentos, melhorias na intelectualidade e nos valores de foro íntimo, e tais coisas se tornam possíveis quando paramos para darmos valor ao que temos, não importa se achamos pouco, e isso inclui uma melhor consciência sobre de onde viemos, nossas raízes, até onde conseguimos alcançar, mesmo que tais avanços sejam coisas desprezíveis aos olhos dos que se acham mais bem sucedidos, mais preparados ou “superiores”, não devemos nos apegar em tais comparações alheias como se fossem determinantes nessa maravilhosa busca pela felicidade.

E aqui termino, meu eu amigo de 2021, voltando ao primeiro dia de 2022; despeço-me com a percepção, os sentimentos, as intuições e as razões atuando como forças interiores que se unem para celebrar a alegria do viver, cuja razão principal está no fato de simplesmente ser, existir, estar neste dia tão oportuno para falar de recomeço. Siga em frente sem medo de buscar a tua felicidade que se compartilha na felicidade dos que te amam.

Seja uma versão melhor de si mesmo a cada dia.

  1. Na obra “The Discourses of Epictetus: With the Encheiridion and Fragments”, página 429;
  2. Tradução da Bíblia de Jerusalém, maio de 2000.

🥂 Feliz 2022!

Buongiorno em 2021, Fly em 2022

O cantinho de blog destinado às minhas crônicas em 2022 já está aberto, se chama “Fly”, em alusão às metas que tenho para o ano que se aproxima.

Em 2021, Buongiorno e em 2022, Fly; faz um tempo que venho me inspirando nesta composição do maestro italiano Ludovico Einaudi, especialmente na versão “reimaginada” (um remix) por Mercan Dede e Dexter Crowe, cuja essência se encaixa nas coisas que estou desenvolvendo.

Minha vida profissional está passando por um importante processo de mudanças, com o mundo das leituras se tornando mais intenso ao lado do trabalho de programador e analista de suporte, em meio a janelas que se abrem para um mundo novo para os negócios e a contabilidade.

A Gioconda ganhou novos códigos e um ambiente que a permite operar 24 horas por dia. Meta batida. O Zoom se consagrou como ferramenta de atendimento com o elemento HUMANO que eu tanto desejava, outra meta batida. O grupo ganhou uma direção mais consistente, mais uma meta batida. O atendimento no privado do WhatsApp se tornou 100% robotizado permitindo que eu encontrasse uma melhor administração do tempo. Novos protocolos internos foram concluídos; mais metas batidas.

Metas para 2022

A Gioconda ganhará novas funcionalidades, ficará mais rápida com os processos que estão em andamento, previstos para serem concluídos no ano que se aproxima.

O SEIFolha Web dará o ar da graça até o final do ano premiando clientes com recursos integrados à Gioconda, ambos operando com o irmão dela, o Hal9000 e o e-goback, um aplicativo para celular, todos visando um conceito de atendimento baseado no que chamo de “Filosofia do Processo”.

Será um ano intenso, com férias em julho que podem abrir janelas internacionais ao meu trabalho.

Quando falo “trabalho”, o conceito é muito abrangente. Quando estou lendo, estudando, meditando, estou trabalhando. O trabalho para mim envolve a mente bem ocupada e gostaria de morrer assim.

O mais importante é que os esforços que farei em 2022 visam trazer os clientes juntos. O que eu conseguir realizar, aprender, vou compartilhar de maneira que todos possam ter a oportunidade de usufruírem dos benefícios para que produzam mais, atendam melhor, com maior eficiência e lucrem mais.

Claro que coisas darão errado, mas isso faz parte do processo de crescimento profissional.

Estarei em um mundo de integrações e tecnologias robotizadas apontando ao trabalho mais importante de minha vida: o CriptoCont, que é um conjunto de esforços intelectuais e técnicos para trazer a tecnologia do blockchain para as escriturações contábeis.

Deus permita que eu possa realizar esta jornada.

Soli Deo gloria

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4 Replies to “Fly”

  1. Foi maravilhoso chegar nesse “cantinho” , como você disse, e poder ler essa sua mensagem de hoje. Texto lindo demais, demais.

  2. Estava curioso para saber como você encontra tempo para fazer tanta coisa neste blog. Olhei o outro site e topei com sua agenda. Estou começando a entender. Nunca pensou em iniciar uma carreira para ensinar sobre gestão do tempo a contadores? Seus textos são muito interessantes. Saudações.

  3. Rindo litros aqui com o pr. Abdoral. Onildo Barata é um cafajeste que diz algumas verdades viu? “Contador é um dinossauro olhando o meteoro” foi demais! E esse nome é agarra-o-meu-real kkkkkkkk kkkk kkkk kkkk

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