As recomendações de Uma leitura ao dia seguem neste mês das mães, da maternidade, das noivas, de sonhos que se renovam e de lutas que não cessam dando sentido à vida. Ao piano do talentoso Vadim Chaimovich (Lituânia, 1978), a obra Nocturne in B-Flat Minor, Op. 9, No. 1 do grande compositor Frédéric François Chopin (Polônia/Żelazowa Wola, 1810-1849).

20/05/2022 22h24

Imagem: BBC

Benito Mussolini

“Em resumo, diremos que o “homem religioso” é um anormal e que a “religião” é a causa certa de algumas “doenças epidêmicas do espírito” para as quais é necessário o tratamento de alienistas”

Tradução livre.

Obra: L’uomo e la divinità. Dio non esiste. Le radici atee e materialiste del fascismo. A cura di Francesco Agnoli. Fede & Cultura, e-book Kindle, 2019, em italiano, De Benito Amilcare Andrea Mussolini (Italia/Predappio, 1883-1945).

Semana insólita com um gênio literário que produzia enquanto praticava nudismo e um encontro de ex-deputados radicais em suas crenças políticas.

O homem e a divindade. Deus não existe é um texto de 1904 de Mussolini na época em que foi uma importante liderança do Partido Socialista Italiano (PSI). Pretensiosamente filosófico, ateu militante, blefe anticlerical, no poder Mussolini preferiu um acordo com o Vaticano por meio do Tratado de Latrão (1929). Ainda em 1920 se mostrava pragmático, como um ensaio para os tempos de presidente do Consiglio dei Ministri, ao considerar que “problemas políticos são problemas políticos” [41] e que “ninguém na Itália, se não quiser desencadear guerra religiosa, pode atacar esta soberania espiritual” [41], se referindo ao que representa a Igreja Católica Romana, algo bem diferente do que apregoara aos camicie neri no que tange a confiscar todos os bens das congregações religiosas. Neste ponto, Umberto Eco bem define a base ideológica do fascismo como “uma colagem de ideias políticas e filosóficas, um alveário de contradições” [42], o que, de certa forma, espelha o “vestido de ideias” do próprio Karl Marx, base ideológica que forjou o Mussolini socialista.

Um aspecto importante nesta obra é que se pode notar traços das raízes materialistas típicas de um socialista progressista na primeira metade do século XX que, no caso de Mussolini, após a Primeira Guerra indicar que o proletariado combateu o proletariado de outra trincheira, derrubando a tese internacionalista em torno de Marx, decidiu ir por uma “terceira via” nacionalista até chegar no fascismo, organizado em 1919 na Piazza San Sepolcro em Milão, com o apoio das lojas maçônicas daquela cidade [41].

41. Ver apêndice de Francesco Agnoli. Mussolini e Dio: Prima e Dopo L’opuscolo del 1904.

42. Ver página 32 de O fascismo eterno. Editora La Nave di Teseo, Milão, 2018, no Kindle

19/05/2022 21h45

Imagem: AGENZIA ANSA

Antonio Gramsci

Querida mãe, estou em Milão nas prisões judiciais de San Vittore desde 7 de fevereiro. Saí de Ustica em 20 de janeiro e uma carta sua me foi enviada aqui, sem data, mas que deve ser dos primeiros dias de fevereiro. Você não precisa se preocupar com essa mudança em minhas condições, isso só agrava meu estado até certo ponto; há só aumento no incômodo e no tédio, nada mais. Nem mesmo quero dizer-lhe em detalhes em que consiste a acusação que me é feita, pois nem mesmo eu pude entendê-la bem até agora; em todo o caso, estas são as habituais questões políticas pelas quais já fui atingido com os cinco anos de confinamento em Ustica. Vai exigir paciência e paciência eu tenho toneladas, vagões, casas (você se lembra como Carlo costumava dizer)”.

Tradução livre.

Obra: Lettere dal carcere. A Giuseppina Marcias, Milano, 26 febbraio 1927, e-book Kindle, 2011, em italiano, De Antonio Sebastiano Francesco Gramsci (Italia/Ales, 1891-1937).

Cartas do cárcere, de Antonio Gramsci. Na obra Sul fascismo (texto disponibilizado no Kindle também em italiano), é possível conferir trechos do deputado comunista a contestar o então deputado fascista Benito Mussolini, em debate no parlamento italiano, no entanto, os tempos são outros e Gramsci se encontra na condição de preso político no regime fascista, entre duas condenações, uma de cinco anos, outra de vinte, sob acusações um tanto vagas acerca de conspiração contra o país (entenda-se o regime) em favor do comunismo, onde o que fora um opositor de parlamento, Mussolini, outrora pensador socialista, agora é a personificação de uma ditadura fascista implacável com comunistas.

No trecho, Gramsci escreve à mamma. As cartas são, em grande parte, familiares, e assim fui surpreendido ao ver um Gramsci em um estilo tão família, bem diferente do Gramsci apenas da hegemonia ou do “marxismo cultural”, desenhado pela militância de direita em um estilo “gênio do mal” estereotipado meio Maquiavel. E eis que esse Gramsci que parece um tanto sereno, paciente e reflexivo sobre o que estava a ocorrer na Itália de Mussolini, a parte do até então desconhecido que se revela no valor que ele destina à sua família, a considerar a pauta constante de tentar tranquilizar seus entes mais próximos, a mãe, Giuseppina Marcias, a esposa Julia e os filhos Delio e Giuliano, em meio à tensão inevitável com a situação financeira e a manutenção do ordenado como deputado. Nas cartas ele também demonstra certa preocupação com a alimentação e a higiene pessoal, o que coincide com o período em que sua saúde começava a se deteriorar.

No mais, Gramsci aparenta ter apreciado bastante o hábito da leitura, pelos autores e obras que mencionou em um tempo onde ideias econômicas mais intervencionistas (que se encaixavam bem com suas ideias socialistas) estavam na moda, fascinando a quase todos. Seu ecletismo literário talvez explique a apurada capacidade reflexiva enquanto articulador acerca de encaminhamentos do Partido Comunista Italiano em relação ao que estava a acontecer em Moscou, tendo uma visão pragmática, visto sua crítica ao líder Palmiro Togliatti (Italia/Genova, 1893-1964), além da grande questão de como a conservação do poder político ocorre através do Estado na instrumentalização das instituições culturais, pois ele tinha na Itália um laboratório vasto em plena sociedade ocupada pela doutrina fascista. Ele mesmo, como prisioneiro político, deve ter sentido isso na pele.

Tenho a impressão de que Gramsci viu, no modelo doutrinário de Mussolini, uma forma bruta, grosseira, a lapidar, diria, de ocupação pela cultura (o fascismo foi um modelo de ocupação violenta), e enquanto fato, pensou em uma hegemonia pela ocupação indolor, mais sofisticada, sutil, imperceptível aos que se ocupam com as banalidades enquanto a política traça seus destinos.

18/05/2022 21h12

Imagem: Aliança Francesa

Victor Hugo

“Apenas fiz meu testamento. Qual é o ponto? Estou condenado às custas, e tudo o que tenho dificilmente será suficiente. A guilhotina é muito cara. Deixo uma mãe, deixo uma esposa, deixo um filho.”

Tradução livre

Obra: Le dernier jour d’un condamné (Annoté). e-book Kindle, 2011, em francês. De Victor Hugo (France/Besançon, 1802-1885)

Em O último dia de um condenado, nesta edição em francês que vem com comentários, o dramaturgo, poeta e romancista Victor Hugo, que gostava de escrever nu, como forma de manter a concentração, trabalha o tema da pena de morte no contexto da França pós-Revolucionária, onde as execuções eram realizadas em ambiente público, normalmente em praças e por guilhotina ou enforcamento.

A obra é importantíssima para tratar sobre direitos humanos diante do direito penal de tirar a vida por uma condenação e Victor Hugo assim propõe reflexões em breves capítulos sobre a pena capital que vai da trajetória de sentença até a execução, cuja narração foi construída em primeira pessoa a inserir como personagem um homem, onde o nome e o motivo da sentença não são revelados, enquanto mergulhado no drama que é inerente a este tenso estado de espera que o remete a pensar no que fizera com a própria vida e o significado de sua condição diante da sociedade e da família.

17/05/2022 23h01

Imagem: Royal Academy of Arts

Thomas Okey

Os genoveses eram superiores em número e tinham o vento a seu favor. Os venezianos, entoando o Evangelho do dia e invocando a ajuda de Cristo e do Monsenhor S. Marco, iniciaram o ataque. Uma luta feroz se seguiu nos navios interligados a formar um vasto campo de batalha. A carnificina foi terrível.”

Tradução livre.

Obra: Venezia e la sua storia. Il duelo con Genova. La chiusura del Maggior Consiglio. Edição em italiano, eBook Kindle, 2021. De Thomas Okey (Reino Unido, 1852-1935).

Em Veneza e a sua história, a trajetória da singular cidade contada neste livro de 1904 pelo professor inglês Thomas Okey, que lecionou italiano em Cambridge.

Trecho que retrata um confronto que reflete três características no medioevo. Primeiro, o contexto de guerras entre cidades-estado, visto que os grandes arranjos de estado não eram usuais depois da queda definitiva do Império Romano do Ocidente em 476 da era cristã. Mais comum era um status localista de estado às cidades ou reinos e os conflitos se davam mais de forma pontual, sem grandes envolvimentos de massa. Em 1264, as cidades-estado de Veneza e Gênova travaram uma batalha naval em uma Itália dividida como ex-província do Império Romano, outro ponto característico desse longo período medieval até a unificação, que se deu em um processo político da segunda metade do século XIX até 1871. O terceiro aspecto no trecho está no forte elemento religioso em torno da fé cristã: “os venezianos, entoando o Evangelho do dia e invocando a ajuda de Cristo e do Monsenhor S. Marco” enquanto iam a uma batalha cuja “carnificina foi terrível”.

Evidentemente, a Idade Média não se resume a estes elementos, mas serve de reflexão sobre como os valores da religiosidade e o senso de guerra estavam intimamente ligados.

16/05/2022 23h50

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”

Obra: Autopsicografia. Poema. Em Mensagem. Edição da Martin Claret, 2005, São Paulo, formato físico. De Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

O que é um poema para um poeta e um romance para um escritor?

O poeta é um fingidor, o romancista, outro artista da encenada dor.

Poeta e romancista penetram em empatia pelas dores alheias, tão bem que parecem suas.

Ambos fingem tão profunda e completamente que chegam a fingir que é dor, a dor que deveras sentem porque mergulham, em veias que pulsam não somente no imaginário e nas abstrações das palavras, mas por sentimentos e ideias que dão sentido e alma ao que escrevem.

Quando leem o que escreveram, na dor, na melancolia, na vastidão do coração, sentem bem, não as duas que tiveram, mas apenas as que não tiveram. Nesse encontro frenético de sentimentos e razão entretida, poeta e romancista nas calhas de roda, giram, nesse comboio literário que se chama coração.

15/05/2022 10h40

Imagem: Província Carmelitana de Santos Elias

Frei Carlos Mesters

“O Apocalipse é, antes de tudo, uma mensagem de conforto e de esperança para um povo em crise, ameaçado na sua fé por causa de mudanças e das perseguições. O Apocalipse quer ajudar o povo a encontrar-se, novamente com Deus, consigo mesmo e com sua missão. Quer animá-lo a não desistir da luta e armá-lo melhor para o combate.

Por isso, qualquer interpretação do Apocalipse feita para meter medo no povo ou para aumentar nele o desânimo deve ser considerada errada e falsa! Seria o mesmo que usar o sol para molhar, ou a água para enxugar!”

Obra: Esperança de um povo que luta. O Apocalipse de São João: uma chave de leitura. Edição da Paulus, 2004, São Paulo, formato físico. De Jacobus Gerardus Hubertus Mesters (Holanda/Limburgo, 1931), nome na Ordem Carmelita: Frei Carlos Mesters.

Em 2005 tive a oportunidade de assistir no seminário a uma aula deste simpático e amável teólogo e frei carmelita holandês, hoje com 90 anos de idade na ativa e que abraçou o Brasil, autor deste livrinho que é um livrão na linha da Leitura Popular da Bíblia.

Desde que conheci o trabalho do Frei Carlos, notei nele um potencial para incomodar pessoas que fazem dos estudos bíblicos apenas algo para erudição egocêntrica, a usar a linguagem como forma de exclusão enquanto a Leitura Popular da Bíblia é uma proposta de reflexão em torno de uma linguagem inclusiva, simples sem ser pobre ou vulgar na profundidade das chaves de leitura. Em 1988 especularam (fake news) sobre processos em andamento no Vaticano envolvendo o nome dele [38], provavelmente por conta de sua proximidade com a teologia da libertação [39], duramente criticada no início dos anos 1980, e depois suavizada pelo mesmo crítico, o então papa João Paulo II [40]. Fato é que Frei Carlos não deu atenção aos boatos e seguiu na sua obra missionária com uma marca inconfundível de trazer questões complexas da Bíblia para o bojo de uma sofisticada simplicidade no âmbito popular.

Entendo que a teologia da libertação tem sérios conflitos teológicos na sua ala politizada que mistura fé cristã com política, cujo ícone maior no Brasil é o Frei Leonardo Boff, em relação ao materialismo marxista que a influencia, mas isso não tira o valor do trabalho de chave de leitura desenvolvido por Frei Carlos Mesters.

E no caso da obra Esperança de um povo que luta, Frei Carlos Mesters utiliza uma interessante chave de leitura onde o último livro da cânon do Novo Testamento não é visto como uma futurologia para colocar medo nas pessoas, com muita danação para tempos distantes e sim uma mensagem codificada para o presente, em visões e símbolos para levar conforto e esperança a um povo sofredor, dentro de um contexto de perseguição religiosa imposta pelo corporativismo do Império Romano.

Além da perseguição religiosa, Frei Carlos aponta também uma crise de fé no contexto de produção do Apocalipse de João, a afetar os perseguidos com a falta de visão e questionamentos se valia a pena continuar parte de comunidades (cristãs) tão oprimidas (p.16). O Apocalipse então, nesta chave, também é uma mensagem de fortalecimento às comunidades cristãs em crise de fé para anunciar que os opressores do povo (no Império Romano) serão derrotados e condenados ; Cristo triunfará no final sendo a ressureição o sinal desta esperança.

38. Ver matéria do CEBI

39 Ver Os ”jurássicos” da Teologia da Libertação

40. CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II AOS BISPOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DOS BISPOS DO BRASIL, 09/04/1986.

14/05/2022 19h55

Imagem: Grattacielo Intesa Sanpaolo

Alessandro Barbero

“Dante nasceu e viveu até os 35 anos em uma cidade que, para a época, era enorme: com seus 100 mil habitantes, era uma das maiores metrópoles da Europa. Seus homens de negócio atuavam em todas as cidades do mundo cristão e seus banqueiros administravam as finanças do papa, isto é, da mais colossal organização multinacional existente no mundo. Os lucros eram imensos, os enriquecimentos rapidíssimos, a mobilidade social era mais importante do que em qualquer outro lugar e, apesar disso, a ganância, a inveja e o medo entre os florentinos, em vez de se aplacar, tornavam-se sempre mais ferozes, envenenando o convívio social; é compreensível então que os que viviam às margens de tais contatos, mergulhados nos livros e se contentando em viver comodamente de rendas, como era o caso de Dante, vissem com desprezo os protagonistas dessas relações.”

Tradução livre

Obra: Dante. Edição da Laterza, em italiano., 2020, no Kindle. De Alessandro Barbero (Italia/Torino, 1959).

Ao lado de Umberto Eco (Italia/Alexandria, 1932-2016), Alessandro Barbero é a maior referência que tenho quando o tema é medioevo. Quando o assunto é guerra, Alessandro Barbero também é uma grande fonte de aprendizado pessoal em minhas leituras. A minha admiração pelo professor aumentou quando comecei a acompanhar lives e aulas disponibilizadas por universidades e instituições diversas da Itália. Aprecio demais o estilo de seus textos e a forma como se comunica de maneira que despertou em mim um sonho de um dia cumprimentá-lo in loco, por sinal gesto comum de muitos leitores que lotam suas aulas lá na Itália. Entendo que Barbero é um dos mais importantes historiadores do nosso tempo e com uma característica nobre: ele não se comporta como um doutor arrogante cheio de estrela, como, infelizmente, é possível observar em muitos “acadêmicos”. Barbero gosta de se apresentar como professor e assim ele se notabilizou em programas ou documentários da RAI (a principal TV italiana). Famoso como escritor não apenas na Itália, mas na Europa, tem disposição para participar de lives, não apenas em grandes centros, com estudantes e professores onde discorre sobre suas obras. Acompanhei algumas dessas lives e notei que Barbero, embora tenha muito a falar, gosta de ouvir as pessoas comuns e costuma ser gentil nas respostas, sobretudo no contraditório.

Quanto à obra, Dante Alighieri (Repubblica di Firenze/Firenze, 1265-1321) foi o autor de uma das obras mais importantes de todos os tempos, La Divina Commedia, uma referência sagrada em minha formação como leitor. A obra está no rol da literatura mundial e foi construída em meio ao momento mais difícil da vida do poeta: Dante estava no exílio, a partir de 1301, após ser expulso de Firenze (Florença) em meio a disputas políticas em uma das mais importantes cidades da Europa medieval, conforme o trecho selecionado (tradução pessoal livre). Envolvimento com política costuma estragar pessoas e Dante Alighieri não escapou dessa danosa experiência. É neste contexto que se pode entender a abertura da Divina Commedia a retratar o momento pessoal dramático em que o grande poeta vivia:

“No meio da jornada de nossa vida,
eu me encontrei em uma floresta escura,
perdido estava do caminho certo.

Ah como dizer o que era é coisa difícil
esta floresta selvagem, áspera e forte
que em pensamento renova o medo!”

Tradução livre.

Derrotado e denunciado por ‘baratteria’, um crime que hoje chamamos de “corrupção” quando cometido por agente público ou político em exercício de um cargo público em negociatas para favorecer pessoas do meio privado, Dante então foi julgado, condenado e expulso de Firenze, a mesma cidade onde hoje o reverencia como gênio e filho ilustre (fico a imaginar quantos apreciadores de sua estátua em Firenze sabem que ele morreu ridicularizado e expulso daquela cidade). Como consequência da condenação, o grande poeta ficou isolado da família, desprovido dos bens em um exílio perpétuo (por falta de dinheiro para pagar a multa da condenação) e, enquanto casado (com Gemma Di Manetto Donati), nutria um amor platônico por Beatrice (Beatriz, que dá nome à marcante personagem da Divina Commedia), referência de sua infância e adolescência, e que morreu jovem, aos 25 anos.

E eis que um homem derrotado na política, com um amor não realizado, de moral arruinada, quebrado economicamente, condenado por um julgamento político em sua cidade natal, encontrou inspiração em seus últimos 20 anos de vida para produzir a Divina Commedia que, sem dúvida retrata muitas de suas experiências pessoais. Dante Alighieri foi um gênio que retrata o medioevo, “um homem de seu tempo”, como diz o professor Barbero, e entendo um ser humano de um talento literário imenso enquanto cheio de desencontros, frustrações, falhas, marcado por conflitos morais e éticos.

13/05/2022 21h30

Imagem: Senado Federal

Princesa Isabel

“A Assembléia Geral decreta:


Art. 1º – É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil


Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário


Paço do Senado, em 13 de maio de Maio de 1888″

Obra: Lei Áurea. Biblioteca Nacional (BN). Sancionada por Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança (Império do Brasil/Rio de Janeiro/Palácio Imperial de São Cristóvão, 1846-1921)

Apenas dois artigos, sem delongas, com uma pena de ouro cravejada usada apenas para assinar a lei [37] a encerrar um longuíssimo processo politico de 80 anos em torno de esforços para abolir a escravidão no Brasil. Foram três séculos de escravatura, cerca de 4,5 milhões de escravos que sobreviveram a travessia oceânica na maior chaga da história humana, cravada pelos horrores dos porões dos navios “negreiros” que transportavam seres humanos, muitos convertidos em escravos na África por tribos que guerreavam entre si, então transformados em “peças” ou mercadorias, com tabelas de preços que atraiam europeus a um lucrativo mercado. A princesa Isabel, de toda forma, entrou para a história; “redentora” para alguns abolicionistas, enquanto para outros teria sido a filha mais velha do imperador Pedro II, assim herdeira do trono destituído pelo golpe republicano do ano seguinte, que assinou uma lei de abolição sob enorme pressão e que deixou os escravos na miséria e no abandono à mercê do sistema assalariado, que seria mais lucrativo para os cafeicultores de São Paulo, neste ponto em uma visão estrita entre “marxistas”, os mais novos críticos sociais e econômicos que surgiram em uma Europa em ebulição indo para o final do século XIX.

No segundo artigo “revogam-se as disposições em contrário” é algo por demais importante visto que a escravidão até então era coisa legal. Ter escravos era sinal de prestígio na sociedade que, diga-se de passagem se achava como cristã, fazia parte do normal seres humanos serem negociados legalmente em mercados, anunciados em jornais quando não, usados para diversão sexual. A escravidão sendo legal mostra uma verdade simples que, muitas vezes, passa sem ser notada; nem tudo que é legal é moral. Não raramente, muitas coisas que fazem parte da lei são indecentes, por exemplo, as mordomias de políticos, juízes e funcionários públicos de altos escalões são coisas legais, e seriam também morais? Outras coisas são piores ainda; são abjetas, como fora o caso da escravidão.

E em meio a polêmicas ou problematizações sobre “dívida histórica”, fato é que a escravidão passou por séculos sendo uma prática socialmente aceitável, de arenas da antiguidade onde escravos serviam de entretenimento de lutas até a morte, vistas como “espetáculos”, até o negócio de tratar o ser humano como mercadoria que era legal até o final do século XIX, enquanto persiste clandestina e pontualmente ainda em nossos dias, apesar da infâmia do racismo que perdura, nossa espécie segue dando sinais de que está a evoluir tendo em vista que a escravidão é vista como abominável não apenas por legislação, mas por um senso de moralidade que se aprimorou.

37 Brasil, uma história, de Eduardo Bueno, página 393.

12/05/2022 22h45

Imagem: DW

Albert Einstein

“É tarefa essencial do professor despertar a alegria de trabalhar e de conhecer. Caros meninos, como estou feliz por vê-los hoje diante de mim, juventude alegre de um país ensolarado e fecundo.

Pensem que todas as maravilhas, objetos de seus estudos, são a obra de muitas gerações, uma obra coletiva que exige de todos um esforço entusiasta e um labor difícil e impreterível. Tudo isto, nas mãos de vocês, se torna uma herança. Vocês a recebem, respeitam-na, aumentam-na e, mais tarde, irão transmiti-la fielmente à sua descendência. Deste modo somos mortais imortais, porque criamos juntos obras que nos sobrevivem.

Se refletirem seriamente sobre isto, encontrarão um sentido para a vida e para seu progresso. E o julgamento que fizerem sobre os outros homens e as outras épocas será mais verdadeiro.”

Obra: Como vejo o mundo. Alocução a meninos. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981, formato físico. De Albert Einstein (Alemanha/Ulm, 1879-1955).

Tirando a genialidade de sua física teórica, esta é a parte do pensamento de Einstein que mais admiro. A aprendizagem como um processo repassado com alegria, prazer, satisfação, que cabe ao professor. Einstein celebra o saber como resultado de uma atividade naturalmente desgastante, “um labor difícil e impreterível”, enquanto não se converte em uma obrigação amarga, sem curiosidade e fascínio. Estudar faz parte do “sentido para a vida e para seu progresso“, no entanto, infelizmente, para muitos pode ser uma atividade chata, enfadonha, talvez porque apenas se tem em mente um proposito legalista de passar em alguma “prova” (que pouco ou nada prova), sem qualquer sentido prático ou existencial.

Outro aspecto que é evidente nesta alocução de Einstein envolve o processo do conhecimento que se dá por “herança”, uma construção coletiva de geração em geração. Lendo o gênio da teoria da relatividade, neste ponto, me lembro do aforismo dos anões e dos gigantes, atribuído a Bernardo de Chartres, “somos como anões aos ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude de nossa estatura, ou da acuidade de nossa visão, mas porque, estando aos seus ombros, estamos acima deles.” [36].

Pessoalmente vejo a atividade de estudo como um trabalho prazeroso em meio ao estresse. O importante é aprender e aplicar da melhor forma possível o que se aprendeu e isso nada tem a ver com o formalismo da educação que se aprisiona em paredes institucionais e diplomas que muitas vezes nos enganam.

36. Matalogicon (III, 4) com tradução em Aos Ombros de Gigantes, de Umberto Eco.

11/05/2022 23h13

Imagem: Cuba Debate

Friedrich Engels

“Que significam relações sexuais sem entraves? Significa que não existiam os limites proibitivos vigentes hoje ou numa época anterior para essas relações. já vimos caírem as barreiras dos ciúmes. Se algo pôde ser estabelecido irrefutavelmente, foi que o ciúme é um sentimento que se desenvolveu relativamente tarde. O mesmo acontece com a ideia de incesto. Não só na época primitiva irmão e irmã eram marido e mulher, como também, ainda hoje, em muitos povos é lícito o comércio sexual entre pais e filhos.”

Obra: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. II. A Família. Civilização Brasileira, 9a. edição, 1984, Rio de Janeiro, formato físico. De Friedrich Engels (Alemanha/Barmen, 1820-1895).

Em referência ao período imediatamente anterior à “revolução neolítica”, com base na obra A sociedade primitiva, de Lewis Morgan [32] e em notas de Karl Marx, Engels discorre sobre a vida em sexo livre ou “sem entraves”; onde os filhos eram considerados como pertencentes a todos na comunidade ou tribo. Como teria ocorrido então o processo de fim do “comunismo sexual”? Por adoção de formas de organização baseadas em vínculos de sangue, com a determinação de parentesco sendo feita, inicialmente, através da identificação prioritária da mãe, inaugurando assim uma concepção matriarcal. Roland de Vaux, no Capítulo I da obra Instituições de Israel no Antigo Testamento, afirma que “o matriarcado é um tipo de família muito mais comum nas sociedades primitivas” e que “a criança (no matriarcado) pertence à família a ao grupo social da mãe” [33]. Chegou-se então a um regime privado ficando cada vez mais restrito, atingindo o padrão monogâmico, onde se apresenta a consolidação do sistema patriarcal.

Hoppe em Uma Breve História do Homem, parte do problema malthusiano da superpopulação para desenvolver uma teoria sobre o surgimento da família como resultado de propriedade privada. O instinto humano sexual teria sido se relacionado com com o instinto de sobrevivência no âmbito econômico. Partindo então do “princípio da população” [34] em Malthus, que versa sobre a taxa populacional crescendo em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência, em proporção aritmética, haveria uma explicação com base na percepção de um colapso iminente. Se Malthus foi desacreditado depois, pela realidade da revolução industrial, o princípio por ele apresentado serviu de referência para Hoppe considerar que em tempos primitivos o agente humano estava em uma relação exclusivamente passiva com a natureza, como nômade coletor e caçador, enquanto o crescimento populacional se tornou uma ameaça à vida comunitária. Naturalmente, o ser humano pode ter entendido que o “tribalismo sexual” se tornou insustentável, na medida em que os filhos envolviam questões comunitárias (tribais). Afirma o filósofo alemão austrolibertário que “do ponto de vista puramente econômico, então, a solução para o problema da superpopulação deveria ser imediatamente aparente. A propriedade das crianças, ou mais corretamente, a administração das crianças, deve ser privatizada”. [35].

No entanto, a visão de Bertrand de Jouvenel em ON POWER: The Natural History of Its Growth é um tanto diversa: “Mesmo que não seja admitida a possibilidade de o patriarcado ter sido uma instituição primitiva, sua ascensão é facilmente explicada em termos de guerra. Concordaram que, por razões naturais (na medida em que a parte do pai na procriação dos filhos não era inicialmente compreendida), o filho era propriedade universal dos membros masculinos da família da mãe. Mas não há família materna com a qual os guerreiros vitoriosos, voltando de um combate com um bando de mulheres, tenham contas a acertar. Os filhos serão os deles, e a sua multiplicação lhes trará riqueza e força. E aqui está a explicação da passagem da família avuncular (tios) para a paterna.” Neste ponto, o patriarcalismo é explicado no contexto de guerras de conquista, se sobrepondo à relação familiar avuncular.

32. Etnólogo e evolucionista americano (1818-1881)

33. Instituições de Israel no Antigo Testamento, Ed. Teológica, 2003. Página 41.

34. Thomas Malthus (1766-1834) na obra “Ensaio sobre o princípio da população”

35. Uma Breve História do Homem. Ed. LVM, 2018. Página 70.

10/05/2022 22h20

Imagem: Mises Brasil

Ludwig von Mises

“Em todas as grandes empresas, cada seção possui, de certa forma, uma independência em sua contabilidade. Cada seção é capaz de calcular e comparar os custos da mão-de-obra com os custos dos materiais, o que torna possível que cada grupo individual atinja um determinado equilíbrio e classifique, por meio de uma abordagem contábil, os resultados econômicos de sua atividade. Pode-se assim apurar qual foi o sucesso que cada seção em particular obteve, bem como tirar conclusões quanto à necessidade de haver reorganizações, cortes de despesas, abolição ou expansão de grupos existentes, ou até mesmo a criação de novos. Reconhecidamente, alguns erros são inevitáveis em tais cálculos. Eles surgem parcialmente em decorrência das dificuldades de se alocar as despesas gerais. Já outros erros surgem da necessidade de se calcular aquilo que, sob vários pontos de vista, não constitui dados rigorosamente determináveis — por exemplo, quando, ao se avaliar a lucratividade de um dado método de produção, calcula-se a depreciação das máquinas baseando-se na hipótese de elas terem uma durabilidade já pré-determinada. Ainda assim, todos esses erros podem ser considerados ínfimos, de modo que eles não atrapalham o resultado líquido do cálculo. O que restar de incerto vai entrar no cálculo da incerteza das condições futuras, que afinal é uma característica inevitável da natureza dinâmica da vida econômica.

Seguindo-se essa lógica, pode ser tentador querer fazer — por meio de analogias — estimativas e valorações individuais para determinados grupos de produção no estado socialista. Mas isso seria totalmente impossível, pois cada cálculo econômico para cada seção individual da mesma empresa só pode ser feito se houver um livre mercado de formação de preços. É exatamente nas transações de mercado que os preços de mercado — a serem tomados como base para todos os cálculos — são formados para todos os tipos de bens e mão-de-obra empregados. Onde não há um livre mercado, não há mecanismo de preços; e sem um mecanismo de preços, é impossível haver cálculo econômico.”

Obra: O cálculo econômico sob o socialismo. Edição do Instituto Ludwig von Mises. Brasil, São Paulo, 2012, formato digital. De Ludwig Heinrich Edler von Mises (Áustria-Hungria/Leópolis, 1881-1973).

A segunda edição revista e ampliada desta obra foi publicada sob o título O cálculo econômico em uma comunidade socialista. Leitura recomendada para quem deseja entender as razões do socialismo não ser viável como base para ideias econômicas.

Parece-me sedutora, pelo que observo na história econômica e, em especial, nos momentos de crise de escassez, a ideia de adoção de um controle central de preços até mesmo entre pessoas que se julgam “liberais” na economia e quando li pela primeira vez este texto, em 2007, foi como se tivesse tomado a pílula vermelha de Matrix. O problema da falta de um mercado livre para indicar preços está na consciência sobre a escassez. O preço em um mercado é um indicador de escassez derivado pela relação oferta versus demanda. Na mentalidade socialista de planejamento central, os preços livremente exercidos pelo mercado são substituídos por aqueles de acordo com a política traçada, então se um determinado bem tem o preço X e há um choque de oferta do próprio bem ou de insumos que o compõem, em uma economia de mercado, haverá no preço em alta a indicação dessa escassez maior, mas no ambiente de preços controlados, a política, que não tem conhecimento de todos os fatores de produção, determina valores, e nesse determinismo ficará comprometido o conhecimento sobre a escassez. Digamos que o litro da gasolina seja R$ 6 e uma guerra no leste europeu compromete a cadeia de produção e distribuição de petróleo. A escassez aumentará rapidamente e digamos que um governante decida, por decreto, determinar o congelamento do preço do litro da gasolina no preço que estava antes da guerra. Os consumidores continuarão a tomar um bem que se tornou bem menor na oferta, pois o sinal da escassez que vem pelo preço não é sentido pelos consumidores. Acabará rapidamente o estoque dos postos, salvo se não for imposto um racionamento e mesmo assim, com o preço fixado em tabela, o governante ignora que outros fatores que compõem os custos fogem de seu controle de preços o que, inviabilizará o negócio da venda do bem, fazendo com que falte o produto mesmo com uma oferta mínima, visto que o revendedor evitará tomar prejuízo ao vender por um preço menor que os custos de sua aquisição, o que restará ao governante interventor apelar à estatização do negócio onde o prejuízo de subsidiar o acesso ao bem via preços controlados será socializado com os pagadores de impostos que sentirão o aumento do custo de vida por meio de nos tributos embutidos de forma generalizada ou como disse Milton Friedman (EUA/Nova Iorque, 1912-2006), “não existe almoço grátis”.

Agora, o problema descrito acima é um caso isolado onde o preço que seria de mercado foi substituído por um preço determinado por uma política intervencionista. Em uma comunidade socialista, se parte de uma premissa de que não se adotam preços livres de mercado de forma geral. Os bens são produzidos e distribuídos de acordo com políticas de de um planejador central; eis a essência do socialismo em economia, algo que ganhou maior notoriedade durante o século XIX por meio das ideias avessas ao livre mercado defendidas por Karl Marx (Reino da Prússia/Renânia-Palatinado/Tréveris, 1818-1883) que, diga-se de passagem, não deixou um manual para substituir o modelo de mercado por um da comuna. Então foi Mises, em 1920, o pioneiro a suscitar o ponto crítico da ausência do cálculo econômico que é derivado do mercado livre a indicar a inviabilidade do socialismo a partir do ensaio “O Cálculo Econômico sob o Socialismo”. Trata-se então de um alerta dado (e ignorado) bem antes da predominância de tentativas de implantar modelos de planejamento central que marcaram o século XX, tendo a então URSS como maior referência socialista, além do aumento do intervencionismo, evidentemente via planejamento central em países não socialistas digo, de Estado de bem estar social, evidentemente sem apologia direta à Marx e sim às ideias heterodoxas de J. M Keynes, em um contexto de “políticas públicas” anticíclicas, como as que se deram após o trágico final dos anos 1920 estigmatizados por recessões e crash acionário.

09/05/2022 23h38

Imagem: Perfil oficial no Twitter

Nassim Nicholas Taleb

“Acho escandaloso que, apesar do histórico empírico, continuemos a projetar o futuro como se fôssemos bons nisso, usando ferramentas e métodos que excluem eventos raros. Previsões são firmemente institucionalizadas em nosso mundo. Temos uma queda por aqueles que anos ajudam a navegar pela incerteza, sejam eles adivinhos, acadêmicos (chatos) “bem publicados” ou servidores civis utilizando matemática fajuta.”

Obra: A lógica do cisne negro. Capítulo 10 – O escândalo da predição. edição da best.business, Rio de Janeiro, 2018, formato físico. De Nassim Nicholas Taleb (Líbano/Greater Amyoun, 1960).

Taleb dedica o capítulo 10 de A lógica do cisne negro para tratar de uma modesta verdade: simplesmente não podemos prever, porém, economistas, não raramente, vivem a fazer previsões ou “projeções” (termo mais apropriado a essa classe de doutos) e são muito bem pagos por isso. Acontece que entre um vidente e um economista, quando o assunto é previsão, se tiver que fazer uma “escolha coercitiva”, penso que cabe bem ser um profissional do ramo, o que se aplica ao primeiro caso; o segundo é sedutor por usar matemática, e mesmo por assim impressionar, prefiro quem é do negócio e isto posto além de videntes, para quem deseja saber coisas do futuro, entendo que isso cabe mais a profetas, magos, ciganos (quando sabem ler a mão), cartomantes, astrólogos, pais de santo quando jogam os búzios, adivinhos e outros profissionais afins com expertise em saber manipular corretamente uma bola de cristal. Contudo, obras preditivas de economistas podem ser apreciadas em publicações do tipo Focus do Banco Central. E esse negócio de prever na economia deve ser por demais lucrativo, dado o respaldo na ocupação de indivíduos que normalmente usam ternos caros e falam com uma retórica impecável, principalmente se estiverem em talk show, devidamente munidos de seus cálculos “precisos” e “comprovados”.

Entre os que militam nas coisas ditas “públicas”, com o dinheiro igualmente dito “público”, onde não há skin in the game, pois são socializados os custos dos erros de quem planeja a alocação do que foi coercitivamente tomado dos outros, não me causa surpresa que o ramo de fazer previsões costuma ir também de vento em popa e assim surgem coisas do tipo se um gestor governamental alocar X em Y e/ou controlar determinados fatores A, B e C (os detalhes ou onde está o inferno ficam a cargo dos que lhes dão crédito), então “obterá” resultados W, Z que soam como margem matemática razoável, tudo como se a sociedade fosse uma máquina precisando de regulações e o mercado funcionasse apenas através de suas pretensiosas regressões, métodos, planilhas e equações onde não se tem por estima o insondável peso subjetivo da ação humana em uma imensa cadeia de combinação de elementos intangíveis. Não se trata aqui de aversão à matemática e a econometria como ferramentas que, sem dúvida, auxiliam para uma melhor compreensão sobre o que aconteceu traduzido em números, mas entre analisar um passado “fotografado” em estatísticas, balanços e big datas, e entre usar modelos para justificar  “prognósticos muito generalizados” sobre o que se deve esperar em determinada situação acerca de problemas e fenômenos econômicos, se trata então de um salto da ciência para outra coisa.

08/05/2022 10h36

Imagem: Discogs

Vinicius de Moraes

“Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.”

Obra: Minha Mãe. O Caminho para a Distância (trecho). Companhia das Letras, 2008, São Paulo, no Kindle. De Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes (Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1913-1980)

Minha Mãe, poema que compõe O Caminho para a Distância, que foi o primeiro livro de “O Poetinha” Vinícius de Moraes, publicado em 1933.  “Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”, disse Carlos Drummond de Andrade [31], autor de outro lindo poema sobre as mães:

Imagem: Lusofonia Poética

Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.

Obra: Para Sempre (trecho). Lição de coisas. Companhia das Letras, 2012, São Paulo, formato físico. De Carlos Drummond de Andrade (Brasil/Minas Gerais, 1902-1987).

Dois poemas de dois gigantes da literatura para o amor que mais se aproxima do amor de Deus.

Dois poemas de dois filhos gigantes da literatura para o amor que mais se aproxima do amor de Deus.

Amor materno, incondicional, genuíno, íntegro; não é “amor” de quem faz juras em conveniências pessoais; não tem riqueza, nem pobreza que resista ao amor de mãe, muito menos se limita ao desejo do estético. É o amor que supera barreiras sobre o belo; não é um amor que se confessa apenas em momentos de alegria ou prazer. Para quem tenta problematizar ou politizar a maternidade, o amor de mãe é a resposta; toca irresistivelmente todos os corações.

Amor que se fortalece com o passar do tempo, ao contrário do “amor” de quem, jovem, faz confissões, mas que se perdem quando as rugas aparecem e assim o substitui pelo “novo” e agradável às futilidades. Mãe simplesmente ama sua insubstituível criação; é do jeito que for, em todo tempo, em qualquer circunstância, eternamente.

O amor de mãe é humanamente incomparável.

O amor de mãe é humanamente incomparável.

31. Amizade em site oficial de Vinícius de Moraes.

07/05/2022 20h16

Imagem: Skoob

Simone de Beauvoir

“Uma ética verdadeiramente socialista, que procure a justiça sem suprimir a liberdade, que imponha cobranças aos indivíduos, mas sem abolir a individualidade, ver-se-á muito embaraçada com os problemas que põe a condição da mulher. Viola-se mais profundamente a vida de uma mulher, dela exigindo-se filhos, do que regulamentando as ocupações dos cidadãos: nenhum Estado ousa jamais instituir o coito obrigatório. […] Não seria possível obrigar diretamente uma mulher a dar a luz: tudo o que se pode fazer é encerrá-la dentro de situações em que a maternidade é a única saída; a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio. São exatamente essas velhas coações do patriarcado que a URSS ressuscitou; reavivou as teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente à mulher que se torne objeto erótico: um discurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquiagem, a se mostrarem vaidosas ao flerte para reterem seus maridos e incentivá-los ao desejo.”

Tradução livre.

Obra: Le deuxième sexe. I. Les faits et les mythes. Edições de Gallimard, 1949 Renouvelé en 1976, Paris, formato digital. De Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir (France/Paris, 1908-1986).

O segundo sexo é uma obra fluvial, uma das mais importantes do século XX que foi produzida por uma existencialista que se tornou ícone do feminismo. Atrapalha qualquer leitura fazê-la armado de pré-conceitos sobre o que se tem de ideia acerca da autora. Quando li esta obra de Simone de Beauvoir, tinha ideias socialistas que predominavam em minha cosmovisão e revisitar o livro recentemente foi um exercício salutar.

O livro é conhecido, pelo público não versado no pensamento dela (normalmente de conservadores mal formados), pela parte inicial (grifei) da frase: “Não se nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. Talvez retorne a este trecho em outra publicação.

Volto-me ao trecho em tradução livre e a primeira questão é o dilema da justiça e da liberdade em uma ética socialista, questão difícil para quem prefere um mundo de grandes controles sociais e se depara com experiências políticas que se deram e se dão onde as liberdades ficam no porão em favor de projetos tirânicos de poder. Isto posto, desde a primeira leitura me chamou a atenção a importância que Beauvoir dá a individualidade, algo típico de uma pensadora existencialista onde o papel do indivíduo tem um peso imenso. Contudo, cabe a ressalva que hoje a individualidade se trata de um instrumento político no feminismo militante para enaltecer o direito de escolha conforme a conveniência ideológica. Exemplo, a individualidade aplicada ao direito de a mulher escolher ser o que bem entender: casar, ter filho(s) ou não, optar pela castidade por razões variadas, entre outras questões que envolvem a sexualidade, o que para mim é algo belo e moral quanto ao respeito à individualidade, fica em descrédito por militantes feministas se uma mulher decidir ser uma esposa dona de casa, mãe e zeladora dos filhos, tudo sob a narrativa da submissão ao patriarcado.

Sobre “uma ética verdadeiramente socialista, que procure a justiça sem suprimir a liberdade”, duas décadas após a leitura, penso: Será que Beauvoir conseguiu enxergar, como existencialista importante que foi, os sérios problemas de incompatibilidade do socialismo real (e não apenas de governos com o propósito de serem socialistas) com a liberdade, termo caro ao indivíduo?

O contexto em que se situava a autora deve ser sempre considerado pois, quando ela argumenta sobre a maternidade ser “única saída”, quando a lei ou os costumes impõem o casamento, a citar proibições de medidas anticoncepcionais, do aborto e do divórcio, está dentro de um mundo em ebulição onde tais questões estavam aquém, se comparadas com as mudanças nas legislações até se chegar na atualidade, além da abertura maior da participação da mulher em questões que estavam restritas aos homens.

Leitura, como premissa pessoal, é um esforço para tentar entender e aprender sobre o que um autor escreveu; meus valores importam enquanto reflito e direciono minhas ações, mas tenho que tomar cuidado para que não atrapalhem a compreensão sobre o que a autora está a apresentar pelo texto. Exemplo: sou totalmente avesso ao aborto, mas enquanto leitor prefiro deixar a autora “falar pelo texto” sem que eu obscureça o desenvolvimento do tema, procurando identificar contextos, sobretudo no caso deste livro onde são discorrido diversos problemas em argumentos bastante complexos, longos e com amplitude bibliográfica; não devo esquecer que o objetivo é tentar aprender mais sobre o tema mediante a obra, ficando o concordar ou não com a autora em uma questão secundária derivada de uma reflexão que deve ser sempre livre e destemida de conveniências ideológicas, algo por final difícil de se ter quando se está em uma bolha: feminista, conservadora, religiosa fundamentalista, etc.

Curioso é o descontentamento da autora com a União Soviética, considerando que ela, enquanto socialista na produção do texto, revela um incômodo em uma campanha estatal do maior governo socialista em seu tempo (e de todos), o que pode surpreender alguns, saber que o regime soviético incentivou suas cidadãs a cuidarem da estética exterior, a investirem em boa aparência, em vestidos, a usarem maquiagem, ou seja, a se mostrarem vaidosas. Seria apenas um problema de ver a mulher como “objeto erótico”? Novamente penso no problema ético do direito de escolha pois será mesmo apenas coisa de submissão ao patriarcado, caso uma mulher decida ser atraente para o sexo masculino? O problema está mal resolvido até hoje entre as que demonstram carecer de uso mínimo de lógica que torne consistente um argumento sobre algo tão importante que é o direito de escolha.

06/05/2022 23h16

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Bernardo Soares
por Fernando Pessoa

“Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.”

Obra: Livro do Desassossego. 3. A ficção de mim mesmo. Editora Brasiliense, 1986, Biblioteca digital AEJM. De Bernardo Soares (semi-heterônimo) por Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

Assinada pelo semi-heterónimo Bernardo Soares “ajudante de guarda livros na cidade de Lisboa”, a insondável capacidade reflexiva de Fernando Pessoa desfila nesta obra. Uma pessoa mesmo não comportaria, e assim parafraseio o poeta: criou em si, constantemente, várias personalidades; cada sonho seu foi, imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado em outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e ele não (p. 160).

Quantos Leonardos “desreconheci”? Vários, porque a busca de valores e conhecimentos envolve mudanças, a começar em si mesmo. Eis que Uma leitura ao dia me faz revirar livros, anotações, reviver memórias, classificar rascunhos, de um Leonardo nas 15, 20, 25, 30 e 40 primaveras; às vezes “desreconheço-me” e sinto certa vergonha por alguma ingenuidade ou imprudência em raciocínios um tanto rudimentares, sem a maturidade mínima, no entanto percebo que mais importante que a vergonha auto infligida, foi ter passado por toda essa ebulição de leituras no intelecto, não ficando no meio do caminho preso a um orgulho doentio confundido com “constância” ou “estabilidade” de crenças que não se permitem a uma reflexão.

Em outros momentos dou risadas, fico incrédulo no melhor estilo “não acredito que escrevi isso” quando não, sinto até medo quando me imagino a conversar com um Leonardo dos anos 1990 tão palpiteiro ou “certo” das coisas incertas; tão “pleno” de conclusões que nada concluíam.

Ah, hilário mesmo é quando bato de frente com o Leonardo adolescente, socialista marxista vidrado em Lênin e Trótski, fascinado por Cuba, e sucedido pelo frustrado com o fim da URSS e o choque de realidade do início dos anos 1990 de um Brasil mergulhado em inflação galopante, reeditada dos anos 1980, maldita herança dos militares socialistas e canastrões do desenvolvimento. Então adormeceu um Leonardo no cotidiano de lutas, de um jovem confuso, imaturo demais para ser pai a surgir um leitor com ares de biblista no início deste século, meio apologeta, meio crítico livre, mas que morreu ao abraçar os “pulmões do seminário” [30] para dar lugar a um tanto liberal de uma teologia avessa ao fanati$mo de futuros pastores que o convenceram de que se tratava de mais um “negócio”, o que não o apeteceu onde, em paralelo corria um estudante de economia keynesiano de final de curso, amante da matemática e da estatística, com ilusória inclinação econometrista e planos de consertar externalidades do “deus mercado” (e as risadas ficam mais intensas quando penso nos multiplicadores do lorde). Esse Leonardo também morreu para em seguida nascer outro Leonardo; liberal socialdemocrata cada vez mais próximo do laissez-faire clássico e que desencarna para, em 2007 emergir em um embrião austrolibertário no segundo andar da Anchieta, se descobrindo em ideias, crenças revisitadas, leituras em refinamento, por anotações, escritos, certezas, decepções, dores, alívios e mais reinvenções de si mesmo para calibrar, depurar conceitos.

E assim sigo adiante nesta “ficção de mim mesmo”, a cometer novos erros entre alguns acertos. Uma palavra em italiano resume a consciência desse processo que hoje percebo mais claro, aos 47 anos: Divenire.

30. A biblioteca STBNB, entre 2003 e 2007, era onde eu poderia ser encontrado se não estivesse em aula.

05/05/2022 22h12

Imagem: ABL

Rachel de Queiroz

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha…
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô…
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha…

A moça não disse nada;
Mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro…
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade…

Agora
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que apesar de tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia…
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão da telha
milagrosa…
Ou alguma estrelinha audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda, a camarinha! E era tão feia!
— Você me disse, um dia
,
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão…
Por que você não experimenta?
A moça não foi tão vem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Obra: Telha de Vidro. Serenata: Poesias. Editora Armazém da Cultura, Fortaleza, 2010, formato físico. De Rachel de Queiroz (Brasil/Ceará/Fortaleza, 1910-2003).

Serenata é uma coletânea de poemas escritos entre 1925 e 1930, de uma das mais importantes escritoras em língua portuguesa do século XX, cujos registros foram organizados pela bibliófilo José Augusto Bezerra, mantenedor do Memorial Rachel de Queiroz.

Em meio a sombras que nos envolvem por fatalidades ou casualidades da vida, muitas vezes podemos encontrar luz através de coisas simples. A “telha de vidro” ilustra que em vez de lamentos com o que se dispõe ou pelas circunstâncias da vida, muitas vezes, à semelhança da moça que “não disse nada”, no lugar de resmungos e auto flagelação, será salutar se permitirmos a um proveitoso silêncio que fale ao nosso juízo, e eis que apesar das dificuldades, haveremos de ver que o sol brilha para todos, e tamanha verdade nos inspira ao desejo para iluminar nosso momento de “tristura”, não importa se estivermos em “uma alcova sem luzes” onde o que nos resta é apenas uma “camarinha sem claridade”. E o que estava triste, sombrio, sem luz, ficará claro ao meio-dia para revelar a beleza do que parecia feio e desprezível quando a escuridão escondia.

04/05/2022 23h45

Imagem: El Español

Umberto Eco

“[…] o paralogismo é um simples erro de raciocínio, que pode ser corrigido sem problemas. Por exemplo, dizer que todos os atenienses são gregos, todos os espartanos são gregos, logo todos os atenienses são espartanos é um paralogismo. À parte o facto de que a conclusão parece falsa logo à luz do bom senso, o paralogismo é demonstrado por um diagrama do gênero:

Todos os A são G.

Todos os S são G.

Logo, todos os A são S”

Obra: Paradoxos e Aforismos. La Milanesiana, Aos Ombros de Gigantes, página 214. Ed. Gradiva, 1a. edição. 2010, Lisboa. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).

Umberto Eco aborda a questão do paradoxo na lógica e na filosofia em contraponto ao que é usado em retórica, até chegar no paralogismo, que é um erro de raciocínio, por sinal muito comum no cotidiano que se dá na falácia que explora a “falta de quantificação do termo médio”; um silogismo onde a falta de conhecimento determinado em relação ao “termo médio” G pode levar a conclusões equivocadas sobre a equivalência objetiva de A e S.

O paralogismo evidencia um problema de conhecimento mínimo suficiente, quando classificações sintéticas geram conclusões inconsistentes enquanto aparentemente lógicas. Lembro-me da “tábua das categorias” de Kant em relação à quantidade: “a totalidade não é mais do que a pluralidade considerada como unidade” [28], penso, “considerada”, levando em conta “um ato particular do entendimento” [29], para que não se aplique um silogismo falacioso com fatores que precisam ser separados, qualificados, ponderados analiticamente.

Erros de raciocínio desta natureza encontram no imaginário popular um fértil terreno em se tratando de uma massa que pensa brutamente ou em outras palavras:

Todos os conservadores são opositores de Lula.

Todos os bolsonaristas são opositores de Lula.

Logo, todos os conservadores são bolsonaristas.

Ou:

Todo crítico de Bolsonaro é petista.

Leonardo é um crítico de Bolsonaro.

Logo, Leonardo é um petista.

Ou:

Todo crítico de Lula é bolsonarista

Leonardo é um crítico de Lula

Logo, Leonardo é bolsonarista.

E, por ser crítico de Bolsonaro e Lula, aos ambidestros olhos militontos, Leonardo é, concomitantemente, petista e bolsonarista.

28. Immanuel Kant em “Crítica da Razão Pura”. página 110. Ed. Martin Claret, 2002.

29. Obra da anterior, página 111.

03/05/2022 23h08

Imagem: post-italy

Dante Alighieri

“No meio da jornada de nossa vida,
eu me encontrei em uma floresta escura,
perdido estava do caminho certo.

Ah como dizer o que era é coisa difícil
esta floresta selvagem, áspera e forte
que em pensamento renova o medo!”

Tradução livre.

Obra: La Divina Commedia. Inferno, Purgatorio e Paradiso. Edição em italiano em eBook Kindle. De Dante Alighieri (Repubblica di Firenze/Firenze, 1265-1321).

E assim começa uma das mais importantes viagens literárias de todos os tempos, uma jornada alegórica do poeta que se sente perdido no momento da vida em que parou para refletir sobre sua jornada pessoal. Prestes a completar 35 anos, no ano de 1300, Dante Alighieri está em busca do caminho de redenção e purificação moral para se libertar dos equívocos, para superar as feridas e do pecado no imaginário do homem medieval no desejo de ganhar beatitude.

A obra-prima começa com uma questão pessoal; Dante Alighieri tinha se envolvido com a política e, no lamaçal, passava pela dura experiência do exílio e do abandono da própria família; “Ai como dizer o que era é coisa difícil esta floresta selvagem, áspera e forte”, pois quando se olha introspectivamente e a consciência reverbera erros marcantes de uma juventude, em certo momento da vida pode ocorrer um misto de introspecção, arrependimento, melancolia, em processo de lamento e dor; eis que “em pensamento se renova o medo”, pela sensação de temor diante da condição de debilidade e/ou fracasso, talvez em um (semi) consciente esforço de maturidade; o poeta está a passar pela comum crise de meia idade.

E nessa tempestade existencial, escreveu um poema épico em língua vulgar, fiorentina, em vez de aplicar o latim, onde era versado e tradicionalmente aceito. Nesta decisão de ruptura com o mainstream literário, acabou por ser um marco na base do que viria a ser a moderna língua italiana, quebrando o paradigma da alta literatura restrita, até então, às elites medievais habituadas a desmerecer a língua popular, falada pelo homem comum.

02/05/2022 23h04

Imagem: ABL

Machado de Assis

“Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Assis, Machado de. Obra Completa. vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, Domínio Público. De Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1839-1908).

Machado de Assis para mim foi o auge da literatura brasileira; um Camões que tivemos. E um dia desses sonhei com Chicó a falar com Brás Cubas. E entre uma baforada, um toque na gaita de João Grilo e outro “só sei que foi assim”, empolgado por se encontrar com o famoso “defunto escritor”, contou aquela velha história de que conheceu “um sujeito lá em Cabaceiras que se encontrou com Jesus” e que “o Paraíso fica lá pros lado da Bahia, por isso que o Cristo é escurinho” [25]. A conversa de Chicó também parecia agradável a Brás Cubas, ainda um tanto enfadado de suas memórias no além, conseguiu dar umas risadas e até esqueceu um pouco o seu “póstumo arrependimento literário”. Brás Cubas aproveitou para perguntar por “Seu Ariano”. Chicó deu outra baforada, olhou profundo no horizonte e disse que “Dotô Ariano aparece de vem em quando, vive lá pras bandas da Quarta Esfera Celestial” [26] e completou: “Da última vez que ele passou por aqui, tava indo com Capiba pra um um tal de colóquio com Olavo Bilac, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Alexandre Dumas, Dostoiévski e Tolstoi [27], e segundo Quincas Borba fica lá na Irmandade dos Eternos, organizada por teu pai, Machado de Assis, mais Dante Alighieri e Luiz Vaz de Camões”.

25. O Auto da Compadecida.

26. A Divina Comédia, esfera solar onde ficam os sábios.

27. Alguns escritores apreciados por Ariano Suassuna.

01/05/2022 12h20

Imagem: Voltaire Fundation

Voltaire

“Fanatismo é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que é a raiva para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que considera os sonhos como realidades e as imaginações como profecias é um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático. [… ] Fanatismo por assassinato excita humanos [23] […] O mais detestável exemplo de fanatismo é aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despedaçar, na noite de São Bartolomeu [24], seus concidadãos que não iam à missa. Há fanáticos de sangue frio: são os juízes que condenam à morte aqueles cujo único crime é não pensar como eles; […] Não há outro remédio contra essa doença epidêmica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religião não bastam contra a peste das almas; a religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados. […] Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que, consequentemente, está certo de merecer o céu se vos degolar?”

Obra: Dictionnaire Philosofique. Dicionário Filosófico. Em francês, (online) TOME CINQUIEME. EDITION STKRÉOTYPK D APRES LE PROCEDE DE FlRMIN DlDOT, A. PARIS, 1886. Em português, edição da Martin Claret, São Paulo, 2002, formato físico. De François-Marie Arouet (France/Paris, 1694-1778), pseudônimo Voltaire.

Voltaire é mais um fenômeno envolvendo pseudônimo. Usei uma publicação online em francês combinada com uma edição em português que possuo em formato físico.

Neste domingo primeiro de maio achei por bem revisitar esta obra, lida em 2002, e rever passagens sobre “fanatismo”. O contexto de Voltaire é de um livre pensador em um mundo predominantemente absolutista monárquico e sob forte influência política da Igreja Católica Romana; um mundo também em ebulição com ideias iluministas em torno do livre pensamento ou do “espírito crítico” cada vez mais em conflito com o absolutismo de reis e do papa. Então, é natural que Voltaire, sendo um filósofo iluminista. se volte com frequência ao fanatismo com um pano de fundo mais intenso nos problemas de quem usa a religião para fins de poder e repressão. Neste aspecto, também se torna compreensível que Voltaire tenha sido um ferrenho (e justo) crítico do cristianismo enquanto fenômeno de poder temporal, terreno, político, diga-se de passagem, totalmente avesso ao que se pode ler nos Evangelhos.

Deve-se considerar que Voltaire não viveu o suficiente para ver que o fanatismo, pela religião, que matava (e ainda mata hoje) em nome de Deus, apresentou uma versão laica ou “anticlerical” na matança em massa que se sucedeu com os desdobramentos da Revolução Francesa (1789-1799) no banho de sangue onde a guilhotina foi popularizada. O grande pensador francês não teve como conferir o fanatismo não religioso, em nome do Estado, por indivíduos avessos à Igreja e que se tornaram tão assassinos quanto os fanáticos religiosos que ele tanto se indignou. Voltaire não testemunhou o fanatismo de se matar em nome de ideologias predominantes no Estado que se modernizava, não mais atrelado ao religioso; o grande iluminista de Paris, que foi implacável (com justiça) aos horrores de se matar em nome de Deus, na fogueira “santa” da Inquisição, não viveu tempos de intolerância extrema de autoridades civis sem compromissos religiosos e com dispositivos constitucionais que funcionam como “cortina de fumaça” em favor de intolerantes.

Atualmente, o fanatismo em nome do Estado segue matando, e para isso basta conferir os conflitos militares pelo mundo, muitos contando com líderes religiosos, como é o caso de Vladimir Putin na Rússia, apoiado publicamente pelo patriarca Cirilo I da Igreja Ortodoxa. Outros tantos avessos a qualquer religião, e neste aspecto, nada superou a matança de Stalin na União Soviética, ateu por natureza política, seguida pelas atrocidades de Hitler na Alemanha, com o nazismo sendo um movimento reconhecidamente pagão.

No entanto, o fanatismo ideológico laico tem suas versões “pacíficas” ou não militarizadas que dominam mentes nos aparatos estatais movidos por um insaciável desejo de controlar a sociedade e as opiniões dos indivíduos por meio de censuras onde a moralidade é confundida com legalismo. Parafraseando por uma releitura eu diria: Que responder a um homem do Estado, um juiz (STF?), um parlamentar, um presidente que manda silenciar quem pensa diferente, mesmo sem incitar morte ou promover crimes, e assim desdenha do direito natural da liberdade de expressão e que, consequentemente, acha que merece ser reconhecido como “justo”, perante as leis (legislações) do Estado, ao cancelar, censurar e aprisionar quem tão-somente discorda de suas opiniões?

Neste dia de reflexão sobre o trabalho, penso no fanatismo político de quem fomenta o ódio contra empresários e empreendedores, indivíduos que trabalham na difícil tarefa de investir no país onde quem, honestamente, promove negócios e costuma ser amaldiçoado.

O fanatismo é um fenômeno humano que não tem fronteiras na religião. Pode acometer letrados, iletrados, crentes, ateus, eclesiásticos, magistrados de um estado não clerical, intelectuais de todas as áreas, professores universitários, em suma, qualquer indivíduo que abra a porta de sua mente para alimentar preconceitos, permitir-se à presunção, e juntando problemas dessa natureza com alguma paixão ideológica incontrolável então, a receita para um fanatismo mortal ficou pronta.

Na política, o fanatismo produz formas tão horripilantes quanto nas versões religiosas, com o agravante de que no tabuleiro laico das ideias as coisas se camuflam sem o rótulo da abstração de uma fé religiosa e, em algumas ocasiões, se passando por “científico”. Em grupos políticos, sejam de esquerda ou de direita, o fanatismo é tão desumano, perverso e destrutivo quanto qualquer fanatismo religioso, senão vejamos:

Na esquerda, o fanatismo político alimentou o marxismo, o stalinismo (marxismo versão soviética), os regimes de Fidel Castro em Cuba, o chavismo na Venezuela, que se perpetuou com Maduro, o petismo e linhas auxiliares (PSOL, Rede, PSB e outros) e o lulismo no Brasil. Também penso no regime da Coreia do Norte, considerado por muitos o país mais fechado do mundo que combina traços do Ur-Fascismo, explicado por Umberto Eco, com ideias marxistas e de absolutismo monárquico em uma colcha de retalhos.

Na confusão dos lados, pensei no fanatismo político do peronismo na Argentina e na ditadura militar no Brasil que combinou planejamento central (socialismo) com discursos de direita.

No lado destro, pensei no fanatismo político que sustentou o fascismo e o nazismo, assim como diversos regimes autoritários pelo mundo no pós Segunda Guerra, na Europa, com Pinochet no Chile. Hoje o fanatismo político de direita assombra a Europa, com movimentos neonazistas e outros de extrema direita na França, na Itália e no leste. No Brasil, o fanatismo político de direita pode ser observado no bolsonarismo como resposta radical ao fanatismo petista.

Então, o fanatismo é uma pandemia além da religião e que não cessa na história da humanidade; não se trata de um problema restrito a pessoas sem instrução, não poupa doutos, costuma infeccionar intelectuais, todos encharcados por paixões ideológicas a formar opinião para alimentar bolhas que, no estouro, provocam enormes danos e desnudam os dilemas mais profundos na convivência social em nossa espécie.

23. Tomo quinto, em francês, página 120,

24. Repressão violentíssima por assassinatos em massa de protestantes em Paris nos dias 23 e 24 de agosto de 1572. Movimento patrocinado pela monarquia francesa em favor do catolicismo romano.

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Comentário

  1. Adorei o de Umberto Eco, resumo das tretas nos grupos de zap da família:

    “Todo crítico de Bolsonaro é petista.

    Leonardo é um crítico de Bolsonaro.

    Logo, Leonardo é um petista.

    Ou:

    Todo crítico de Lula é bolsonarista

    Leonardo é um crítico de Lula

    Logo, Leonardo é bolsonarista.

    E, por ser crítico de Bolsonaro e Lula, aos ambidestros olhos militontos, Leonardo é, concomitantemente, petista e bolsonarista.”

    Parabéns pelo belo trabalho.

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