12/01/1983 – O Antigo Testamento  registra uma longa tradição do “profetismo do corpo” que parece ter dois níveis.
O primeiro consiste na analogia da aliança entre Deus e Israel como um matrimônio (Provérbios. 2,17, Malaquias 2,14, Isaías 54, 5,6 e 10), vínculo esponsal que consiste em uma dimensão mais profunda de um simples pacto; está baseado no amor e na graça. O segundo nível consiste na “linguagem do corpo” onde há uma íntima relação com o ethos e se faz analogia com o comportamento de Israel, sobretudo quanto à infidelidade. Oséias é o profeta que a estigmatiza não apenas com palavras; faz uso de atos simbólicos (Oséias 1,2) enquanto Ezequiel estigmatiza em analogia com a idolatria, também em função do adultério (Ezequiel 16 e 23). Na tradição profética o corpo fala a verdade com a fidelidade e o amor conjugal, na analogia com o matrimônio, e fala a mentira quando comete adultério.  Neste aspecto, o essencial para o matrimônio como sacramento é a “linguagem do corpo” como meio para constituir o sinal sacramental.
13/10/1982, 20/10/1982, 27/10/1982, 24/11/1982, 01/12/1982, 15/12/1982 e 05/01/1983– Na ruptura da primeira aliança com o Criador, o matrimônio do primeiro marido e da primeira esposa, como sacramento primordial, foi privado da eficácia  sobrenatural, não obstante, no estado de pecaminosidade hereditária do ser humano, na saída do estado original de inocência e justiça, o matrimônio em si não deixou de ser a figura daquele sacramento, o qual se indica como “grande mistério” na Carta aos Efésios (5.22-33).
O matrimônio é o protótipo dos sacramentos. Em analogia à relação Cristo-Igreja, o “grande mistério”, é o Invisível ou o que está velado cuja visibilidade está na ordem dos sinais como realidade. Pela Carta aos Efésios, eis o mysterium magnum, das núpcias de Cristo com a Igreja, o Sacramento da Redenção dirigido ao homem sobrecarregado pelo pecado original e pelo estado de pecaminosidade da tríplice concupiscência (I João 2.16). É parte essencial da nova herança pela remissão dos pecados; a relação esponsal Cristo-Igreja reflete uma união com amor indissolúvel e uma escolha divina antes da criação do mundo (1.4). A Igreja vive do Sacramento da Redenção a atingir toda a fecundidade e maternidade espiritual. Neste aspecto, São Pedro escreve que fomos “regenerados não de uma semente corruptível”, e sim da Palavra de Deus viva e eterna (I Pedro 1.23).
O sentido do sacramento aqui consiste no próprio mistério de Deus, escondido desde a eternidade, em conformidade com a tradição bíblico-patrística (Leonis XIII ACTA, vol. II, 1881, p.22), em um sentido mais lato do aquele que é próprio da terminologia teológica tradicional e contemporânea que com a palavra “sacramento” indica como sinais instituídos por Cristo e administrados pela Igreja, os quais conferem a graça divina à pessoa que recebe. Cada um dos sete sacramentos da Igreja é caracterizado por uma determinada ação litúrgica, mediante a palavra (forma) e a específica “matéria” (teoria hilemórfica [8],Tomás de Aquino e tradição escolástica).
De modo indireto a Carta aos Efésios (5. 22-33) fala sobre o Batismo (5.26) e a Eucaristia (5.29-30). A Igreja é o “grande sacramento”, novo sinal da Aliança e da graça com raízes no sacramento da redenção onde emerge o matrimônio na profundidade do sacramento da criação. Neste contexto o apóstolo Paulo se dirige aos cônjuges para que sejam “submissos uns aos outros no temor de Cristo” (5.21) e assim modelem a sua vida conjugal com fundação no sacramento do “princípio”, que encontrou a sua definitiva grandeza e santidade na aliança esponsal Cristo-Igreja (sacramentum magnum).
Com base no Sacramento da Redenção se pode compreender a sacramentalidade da Igreja, de sua união com Cristo em analogia ao matrimônio como se apresenta na Carta aos Efésios. Não se trata apenas de uma comparação em sentido metafórico, mas de uma real renovação ou de uma re-criação do que constituía o conteúdo salvífico, em certo sentido, a “substância” salvífica do sacramento primordial (Constituição Lumen Gentium).
A resposta de Cristo aos fariseus de que “no princípio não foi assim” (Mateus 19. 8-9) sobre a carta de repúdio do marido à mulher (Mateus 19.3) indica uma posição no plano do sacramento primordial, uma resposta universal e decisiva para a indissolubilidade do matrimônio dirigida ao homem “histórico” de todos os tempos, com uma conclusão de natureza ética de que o repúdio ao conjugue para se casar com outro é adultério. Cristo desenvolve sua própria interpretação da Lei onde apresenta o “pacto conjugal” que envolve mais do que as aparências e apontoa ao coração, no olhar para outro com desejo (Mateus 5. 27-28) o que também se caracteriza como adultério; neste aspecto, Cristo deixa como tarefa para cada homem e mulher o trato com dignidade da masculinidade e da feminilidade em consideração ao corpo, o “sacrum” da pessoa; é confiado a cada homem, a cada mulher, ao coração, à consciência, aos olhares e ao comportamento o ethos no sacramento do matrimônio.
“Cada um recebe de Deus o seu próprio dom, este de uma maneira, aquele de outra” (I Coríntios 7.7) assim se refere São Paulo ao matrimônio em relação à virgindade mantida por contingência pelo Reino de Deus. Fora da continência, o matrimônio é o encontro do eros com o ethos em uma comunhão indissolúvel (comunium personarum) para uma vida segundo o Espírito por forças do mistério da criação, em profunda consciência da santidade (sacrum), um remedium concupiscentiae; “mais vale casar-se do que abrasar-se” (I Coríntios 7.9).
O “princípio” como referência nas palavras de Cristo aponta a uma união “na verdade e na caridade” como filhos de Deus (Gaudium et Spes 24) e parece salientar particularmente de que esta a falar da profundidade do mistério da redenção do corpo, onde convêm mencionar Romanos 8.23, sendo permanente fonte de esperança de que a criação seja libertada da escravidão da corrupção (Romanos 8.21) e compõe os enunciados-chave para a teologia do corpo e, no caso do matrimônio, se relaciona com a essência da união em “uma só carne” (Gênesis 2.24) no “princípio”, a apontar a plenitude da justiça, da equidade e da santidade designada por Deus, exprimindo, sobretudo, aquela plenitude no homem criado como varão e mulher à “imagem de Deus”. Nos Evangelhos de Mateus e Marcos (19 e 10, respectivamente), Cristo abre o matrimônio à ação santificante e salvífica de Deus, às forças que brotam da “redenção do corpo”.
O texto da Carta aos Efésios é um testemunho da sacramentalidade onde o matrimônio é redescoberto e reiterado como parte viva e vivificante do processo salvífico o grande mistério do amor entre Cristo e a Igreja, cuja união consente-nos compreender de que modo o significado esponsal do corpo se completa com significado redentor, nos diversos caminhos da vida e nas diversas situações, não se limitando ao matrimônio nem à continência (virgindade ou celibato), mas também no multiforme sofrimento humano.
O matrimônio é contraído na liturgia mediante as palavras que formam um sinal “irrepetível” dos novos esposos, um pacto conjugal a constituir em gérmen, a família como célula social, na medida em que correspondem a “realidade”, tendo como chave da teologia do sacramento o sinal sacramental em função do conteúdo, diante de Deus e confirmado pela Igreja, tendo o sacerdote que abençoa sendo, concomitantemente, testemunha mais qualificada, acompanhado pelas demais que participam do rito. No entanto, a realização do matrimônio se distingue da sua consumação. “Com efeito, as próprias palavras ‘Tomo-te como minha esposa- meu esposo’ referem-se não apenas a uma realidade determinada, como só podem realizar-se através da cópula conjugal.”. As palavras proferidas pelo noivo e pela noiva não constituiriam, per si, o sinal sacramental do matrimônio, se não houvesse uma correspondência entre as mesmas palavras e a subjetividade humana entre os dois, com a simultânea consciência do corpo , ligada à masculinidade e à feminilidade, cuja essência é a mesma “no princípio” a determinar, em certo sentido, a “linguagem do corpo” na medida em que esposa e esposa se tornam “uma só carne” ao mesmo tempo em que se inserem no contexto da comunhão pessoal e interpessoal (comunnio personarum) tornando-se um dom recíproco na dimensão de toda a vida; “Prometo ser fiel para sempre, na alegria e na dor, na saúde e na doença, a amar-te e honrar-te todos os dias da minha vida.”
28/07/1982, 04/08/1982, 11/08/1982, 18/08/1982, 25/08/1982, 01/09/1982, 08/09/1982,  15/09/1982,  22/09/1982, 29/09/1982 e 06/10/1982 – A sacramentalidade do matrimônio em Efésios 5, centradas no corpo nos significados metafórico e concreto, é o coroamento ao “princípio” e ao “coração humano” no Sermão da Montanha (Mateus 5.28), na inocência original e da justiça, assim com nas perspectivas escatológicas da ressureição dos corpos. O corpo está para o sinal visível de uma realidade invisível (espiritual) cujo conceito se aplica ao “sacramento”.
Em Efésios 5 se enaltece o clima de vida espiritual no mistério de Cristo para salvação do ser humano que se realiza na Igreja e na vocação cristã, em especial nas relações entre todos os membros em uma sociedade familiar ou “Haustaflen” ou códigos domésticos segundo Lutero, não apenas entre marido e mulher (22-23) e no sexto capítulo se estende aos deveres de respeito dos senhores em relação aos servos (escravos, 6.5-9) e encerra com um estupendo incitamento à batalha espiritual (6.10-20). Em caráter parenético (de instrução moral) aos aspectos da vocação dos cristãos. Cristo é fonte e modelo de relações entre os cônjuges; em Efésios, é apresentada uma relação de dupla dimensão, uma fusão de comportamentos, um duplo grau, recíproco e comunitário. Marido e mulher “submissos” um ao outro, “no temor de Cristo” (Efésios 5.21), onde “temor” significa respeito pela santidade, pelo sacrum.
Apesar de ser diversa a nossa sensibilidade contemporânea, e diversão são também a mentalidade e os costumes, além de ser diferente a posição social da mulher  diante do homem, a mútua submissão do casamento em Cristo indica que o marido não é “dono” da mulher; a “submissão” da mulher ao marido, no contexto da passagem, pode-se entender como “provar o amor”. O matrimônio não é um pacto de domínio do marido sobre a mulher, a esposa não é serva do marido e sim ambos estão mutuamente subordinados em uma vocação no mistério à imagem da relação entre Cristo e a Igreja, que permanece transcendente a respeito desta analogia, enquanto aponta a uma profunda compreensão da Igreja e do matrimônio que penetra, em sentido cognitivo, na essência mesmo do mistério. Cristo, através de uma total doação, por amor formou a Igreja e a edifica continuamente tornando-se sua cabeça, sendo salvador de seu corpo, e assim também esposo da Igreja.
São Paulo explica a realidade da Igreja cuidada, espiritual por essência, através da semelhança do corpo e do amor pelo qual os cônjuges vivem, em “uma só carne”.  A ilustração corpo-cabeça, em analogia com Cristo-Igreja e esposo-esposa é, em certo sentido, pedra angular em Efésios; condicionada ao amor, sendo moral, orgânica, somática, biológica; para o matrimônio se funda também em uma união psíquica de dois sujeitos distintos em um, o que pode encontrar fundamento em Gênesis 2.24; “uma só carne”, no entanto, a analogia dessa união não ofusca a individualidade dos sujeitos envolvidos. Denota bi-subjetividade, onde a primeira, Cristo-Igreja, reflete uma entrega  por manifestação de amor à Igreja como imagem ou um modelo para o amor a segunda relação, esposo-esposa, como referência ao que o marido deve manifestar à mulher no matrimônio (“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja”). Assim como Cristo ama a Igreja, deve o marido seguir este modelo para amar a esposa. Quem ama a sua esposa, ama a si mesmo por não querer mal ao próprio corpo; a expressão segundo a qual o homem “nutre e cuida a própria carne”, sugerem vários estudiosos, é uma referência à Eucaristia na relação Cristo-Igreja. O corpo da mulher não é o próprio corpo do marido, mas deve ser amado como se fora: “Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Efésios 5.28); em certo sentido o “eu” da mulher se torna o “eu” do marido. E assim se aprofunda o significado de ser “uma só carne” ao deixar pai e mãe para essa união cuja finalidade é a santificação (Efésios 5. 25-26)  cujo princípio está o batismo, como purificação “no banho da água e pela palavra” (Efésios 5.26), cujo poder deriva da doação de Cristo à Igreja em caráter esponsal em uma ilustração à Igreja onde quem se batiza sinaliza o preparo do corpo Igreja para a união com Cristo.
Cristo é o mistério do Amor Divino cuja tradição o autor de Efésios foi considerar no paralelismo com o Antigo Testamento entre Jahvé-Israel, Jahvé homem-esposo e Israel  como mulher eleita, às vezes sob ênfase dramática para realçar a infidelidade denominada “adultério” de Israel ao Senhor, como se pode verificar em Isaías 54. 4-10. Na mentalidade do Antigo Testamento, a escolha por parte do homem tira a desonra da mulher em pode indicar diversos contextos (pelo estado nupcial de virgindade à espera de ser esposada, da viuvez, do repúdio de não ser amada e na situação de indidelidade). O amor de Deus tem uma dimensão paterna enquanto redentor, misericordioso matrimônio, indo além da índole social do matrimônio:
“O teu esposo é o teu Criador. O seu nome é Senhor dos Exércitos; o teu Redentor é o Santo de Israel.” (Isaías 54.5)
Em relevo se coloca Efésios como revelação de elementos esboçados do Servo de Jahvé e do Cântico de Sião (Isaías 42.1, 53.8-12 e 54.8 por exemplo). Na leitura de Isaías é possível compreender melhor a Carta aos Efésios da grande analogia do amor esponsal de Cristo e da Igreja em alusão aos escritos dos Profetas do Antigo Testamento cuja leitura em Efésios revela uma significativa transformação a indicar um dom que em Cristo se revela “total”, ou seja em caráter “radical” da graça.
O mistério da grande analogia Cristo-Igreja e esposo-esposa, cujo sacramento primordial, remete à criação ou ao princípio na primeira aliança, nos frutos sobrenaturais da eterna eleição do ser humano, sinal visível e eficaz da graça; sinaliza o mistério da salvação, onde a sacramentalidade da Igreja é fonte de sacramentos, em particular, do batismo e da eucaristia. Estudiosos também observam o “banho da água” que precedia o casamento em um importante rito religioso entre os gregos, o que no batismo cristão vai além do “in actu primo” e segue em uma perspectiva escatológica onde a Igreja é adornada, cuidada, embelezada no seu corpo pela graça, “gloriosa”, “sem mancha nem ruga”, a indicar metaforicamente sem defeitos morais, com o dom da salvação na sua plenitude para a parusia, a última vinda de Cristo.
O fato do autor da Carta aos Efésios comparar a indissolúvel relação de Cristo-Igreja com a relação marido-mulher no realizar o mistério do amor divino na ordem visível, faz entrar o mistério na esfera do Sinal, indo a uma dimensão histórica e faz dela o fundamento de toda a ordem sacramental, cujo mérito do autor do texto está em ter aproximado estes dois sinais, fazendo dele um único grande sinal, um grande sacramento (sacramentum magnum).
23/06/1982, 30/06/1982, 07/07/1982, 14/07/2022 e 21/07/1982– São Paulo dá um timbre próprio sobre a continência pelo Reino de Deus (I Coríntios 7),  fruto de sua experiência apostólica-missionária. Na carta aos Romanos, vê a redenção do corpo, alienado do influxo do Espírito de Deus, como objeto de esperança em uma dimensão antropológica e ao mesmo tempo cósmica.
A virgindade deriva de um conselho e não de um mandamento. O apóstolo trata o problema em um tempo em que decisões deste gênero pertenciam mais aos pais ou aos tutores, onde poderia haver a dúvida sobre o matrimônio ser pecado ou não em meio a um possível influxo de correntes dualísticas pré-gnósticas. Não se trata de escolha entre o que é do bem ou do mal, mas entre o que faz bem, e é um dom, ou seja o casamento, e o que é melhor, a continência pelo Reino de Deus, o destino eterno do homem, e São Paulo tem na sua própria vida um exemplo; quem não tem esposa, preocupa-se como há de agradar ao senhor (verso 32), cujo fundamento é o amor enquanto o homem casado  também preocupa-se em como satisfazer a mulher.As duas dimensões não se opõem entre si, antes são complementares.
Sobre as “tribulações na carne” (I Coríntios 7, 28) associadas à vida matrimonial, é uma justa advertência aos que esperam na convivência conjugal apenas felicidade e alegria; conjugues, não raramente, ficam desiludidos naquilo que mais esperavam ocasionando em tribulações, muitas vezes, de natureza moral. E entre o bem que há no ser casado e o melhor a ser feito de uma vida de não casado, consiste a continência pelo Reino, sendo este o contexto em que São Paulo exprime o desejo que todos fossem assim (I Coríntios 7, 7).
10/03/1982, 17/03/1982, 24/03/1982, 31/03/1982, 07/04/1982, 14/07/1982, 21/04/1982, 28/04/1982 e 05/05/1982 A ressureição (Marcos 12,25) indica que também há uma condição de vida isenta de matrimônio, pela continência onde se encontra eco na temporalidade por uma particular sensibilidade do espírito humano com eunucos que assim se fizeram pelo “Reino dos Céus” (Mateus, 19-11-12,) diferentemente dos dois tipos iniciais (sob estado de coação), não se contrapondo ao matrimônio, e sim por ser uma vocação, uma orientação carismática para aquele estado escatológico em que não se tomará “mulher nem marido”, uma “solidão por Deus”, o que na doutrina da Igreja é tratado como um caminho, apresentado pelo próprio Cristo a algumas pessoas; trata-se, obviamente, da continência escolhida, voluntária, por motivos sobrenaturais, renúncia feita por amor e não um mandamento; ato consciente constituído pela disposição esponsal da masculinidade e feminilidade. É um testemunho de uma dimensão pessoal do ser dual, que antecipa a futura ressureição, com um significado determinante, tanto para o “ethos”, como para a teologia do corpo, cuja história do nascimento de Cristo, na graça da união hipostática e pela sobrenatural fecundidade do espírito, está certamente em linha.  A continência “pelo Reino dos Céus”, a escolha da virgindade ou do celibato para toda a vida se tornou uma resposta particular ao amor do Esposo Divino; adquiriu o significado de um ato de amor esponsal na experiência dos discípulos e dos seguidores de Cristo; a chave única para compreender a sacramentalidade do matrimônio é o amor esponsal de Cristo pela Igreja.
Pode parecer paradoxal, mas a ideia do celibato ou da virgindade não diminui o valor do matrimônio; não o inferioriza. Nas palavras de Cristo em Mateus 19, 11-12,  indica uma experiência terrena pelo Reino dos Céus que a tradição da Antiga Aliança não tinha transmitido. O matrimônio era tão comum que só uma impotência física podia constituir uma exceção, dentro de uma cultura de procriação e promessa feita a Abraão (Gênesis 17, 4-6-7), sendo assim um ponto de viragem; Cristo não apenas se pronuncia contra toda a tradição da Antiga Aliança onde o matrimônio está associado a pessoas privilegiadas, mas também, em certo sentido, àquele “princípio” a que Ele próprio apelou; embora seja possível conceber o homem como solitário diante de Deus, o próprio Deus o retirou dessa “solidão” (Gênesis, 2.18), para um duplo aspecto varão-mulher, próprio da humanidade.  E na Sua mensagem evangélica, sendo Sua vida um exemplo, Cristo indica a continência como um sinal inquestionável do “outro mundo”.
Quem escolhe esse caminho de sacrifício ao bem que o matrimônio e a família constituem em si mesmos encontra uma marca de semelhança com Ele, cuja abordagem de São Paulo considera, aos que assim o fizeram, algo “melhor” (I Coríntios 7,38), o que não fundamenta uma suposta contraposição segundo a qual os celibatários  (ou as pessoas que não se encontram casadas), apenas em função da continência, constituem a classe dos “perfeitos”. Efésios 5,25 é igualmente válido para a teologia do matrimônio e para a teologia da contingência pelo “Reino de Deus”. Considerando uma tradição teológica do status perfectionis, a condição de serviço ao Reino de Deus se dá em um conjunto (pobreza, castidade e obediência) desenvolvendo a “maternidade” ou a “paternidade” em sentido espiritual, cuja medida (da perfeição) é aferida pela caridade aos que não vivem no instituto religioso; a medida da perfeição se atinge tanto no “instituto religioso” como no “mundo”.
27/01/1982, 03/02/1982 e 10/02/1982 – Tiveram ressonância no ensinamento de São Paulo as Palavras de Cristo sobre a ressureição dos mortos, começando pela experiência com o Próprio Jesus ressurreto, o “último Adão”, com o relato do encontro em Damasco, que marcou a conversão do que viria a ser o apóstolo. O capítulo XV da primeira carta aos Coríntios remete à Aliança veterotestamentária sob o argumento da integridade da fé (I Cor 15,14.20), onde tudo será submetido, devolvido ao Pai para que “Deus seja tudo em todos” (I Cor 15,28), cujo último inimigo a ser vencido é a morte (I Cor 15,26).
Nesta construção, São Paulo se dirige ao “´princípio”, com a vivificação da matéria mediante o espírito, recordando o “primeiro Adão”, para em seguida desenvolver sob o que Cristo anunciou diante dos Fariseus (Mt. 19,3-8 e Mc 10,2-9), ao “coração” do ser humano (Mt 5,27) e aos Saduceus (Mt 22,30; Mc 12,25 e Lc 20, 30-26). São Paulo atribui definições ao corpo humano histórico, tema que desenvolve mais na carta aos Romanos, e considerando o pecado submetido a toda criação (Gn 1,28); versa sobre o “corpo animal”,  antítese terrena do “corpo espiritual”, afetado pela sensualidade como força que muitas vezes prejudica o homem.
São Paulo indica uma dimensão não só interior, mas também “cósmica”, com o estado da criação pós-pecado (Rm 8,22) onde reside não apenas a “escravidão da corrupção”, mas também a esperança com o mistério da redenção na alma do homem, caminho para a ressureição, mediante os dons do Espírito em uma revelação dos últimos destinos do homem em toda a plenitude da sua natureza psicossomática e da sua subjetividade pessoal, onde podemos admitir, com base no contexto, que não se trata apenas do corpo, mas do homem inteiro na sua corporeidade, não sendo antítese e negação do “homem da terra”, mas sobretudo a sua realização e confirmação em sua complexidade ontológica; restitutio in integrum, a reintegração e ao mesmo tempo a realização da plenitude da humanidade, a espiritualização do corpo que será a fonte da sua força e incorruptibilidade (ou imortalidade).
11/11/1981 [7], 18/11/1981, 02/12/1981,  09/12/1981,  16/12/1981 e 13/01/1982 – Cristo apela à ressureição, dimensão completamente nova do mistério do homem, cujas palavras completam a revelação do corpo, confirmadas na Sua ressureição.
Provocado pela negação teológica da ressureição, por parte dos saduceus, mediante analogia com a lei do levirato, em Marcos 12, 20-23, Cristo dá uma resposta-chave na teologia do corpo (Marcos 12,24-25) na realidade de uma vida à qual a morte não põe fim, onde a verdade escatológica não pode ser alcançada pelo homem apenas com os métodos empíricos e racionalistas e o matrimônio, indissolúvel (Mateus 19, 3-8), pertence exclusivamente a este mundo terreno (Lucas 2-, 34-35), perdendo a razão de ser no futuro escatológico humano; nem homens terão esposas, nem mulheres maridos, mas serão como anjos no céu (Mateus 22,30) na contemplação a Deus por uma comunhão (comunio), diante da mais perfeita, trinitária, puramente divina, cujo amor do ser humano escatológico absorverá inteira subjetividade psicossomática; o ser humano espiritual e corpóreo, ligado a experiência do corpo na dimensão da existência terrena constituindo a teologia do corpo em três dimensões; a revelação do corpo é confirmada na ressureição de Cristo.
O matrimônio em Gênesis 2,24 nas palavras de Cristo são como um novo limiar da verdade integral sobre o homem na teologia do corpo – ensinamento e indissolubilidade – junto com a procriação, indicam somente a realidade concreta ao significado nas dimensões da história, sendo a ressureição o seu encerramento; a glorificação do corpo, fruto escatológico, trará a revelação do princípio em uma autêntica expressão de verdade e amor na construção do perene significado do corpo humano no communio personarum.
O poder do Doador da vida não se vincula pela lei da morte terrena. Abraão, Isaque e Jacó, mencionados por Cristo na argumentação, embora contados entre os mortos na ótica do mundo terreno,  considerando a teofania concedida a Moisés (Êxodo 3, 2-6), constituem um testemunho que o Deus vivo dá àqueles que vivem “para Ele”: àqueles que graças ao Seu poder, têm a vida na “casa do Pai” (João 14,2), em um estado completamente novo da própria vida humana no plano terreno, restituindo à verdadeira vida da corporeidade humana, submetida à morte na sua fase temporal, significando uma nova submissão do corpo ao espírito, algo que impactou São Tomás de Aquino que substituiu a antropologia metafísica (Platão) a uma visão aristotélica (Summa Theologiae, 1a, q. 89, a. 1.); o corpo não está unido a alma de forma apenas temporária e sim integrada. O homem escatológico estará livre do que São Paulo percebeu como uma luta interior na lei do corpo, cujos membros lutam contra a lei da razão (Romanos 7,23) realizando humanização e divinização do ser humano como participação na vida interior do próprio Deus, fruto da graça, qualificando o significado “esponsal” do corpo.
15/04/1981, 22/04/1981, 29/04/1981 e 06/05/1981 [7] – O corpo humano é um perene objeto de cultura. A dimensão da subjetividade pessoal do homem é indispensável para se compreender as bases do problema do corpo humano na hermenêutica teológica, onde não se deve considerar o corpo como uma realidade objetiva fora da subjetividade do ser humano, na identificação ontológica do corpo com o conteúdo e a qualidade da experiência subjetiva do viver o próprio corpo e na relação homem-mulher.
A experiência da realidade do corpo ocorre nas obras da cultura, nas expressões de arte, em experiências estéticas, nas comunicações sociais, nas imagens, na plástica, na dramática, nas técnicas audiovisuais modernas, no contemplar a obra (aisthánomai, olho, observo, em grego) e também quando o ser humano se torna sujeito da atividade criativa. E este olhar não pode se isolar daquele “olhar” de que fala Jesus Cristo no Sermão da Montanha diante do alerta da concupiscência. O corpo humano nu significa um dom da pessoa à pessoa e o ethos da nudez está para a dignidade humana intimamente ligado ao significado esponsal.  No entanto, se a cultura mostra uma tendência explícita para cobrir a nudez, levando em conta o que discorre Gênesis 3 sobre a vergonha, e não apenas por razões “climatéricas”, a anônima nudez contrasta com os costumes, o que pode ser observado em populações chamadas “primitivas”. Porém, o ser humano sensível à vergonha com sua nudez, a supera por situações justificáveis, quando precisa, por exemplo, se despir para exames e/ou intervenções médicas. Deve-se considerar também a violação do pudor corporal pela nudez como um meio para destruir a dignidade da pessoa, prática usada em campos de concentração ou locais de extermínio.
É necessário fazer a distinção de que uma coisa é o corpo humano vivo, outra coisa é o corpo como modelo de obra de arte; na pintura ou na escultura, o corpo é modelo, no cinema e na arte fotográfica, é o ser humano vivo sendo objeto de uma reprodução sob técnicas apropriadas onde há uma perda de contato por ser reprodução vindo a se tornar objeto anônimo, algo observável em revistas ilustradas para esconder ou velar a identidade da pessoa reproduzida, sendo um problema muito delicado do ethos na cultura de massa, onde o corpo perde o significado profundamente subjetivo e se torna um objeto, aplicado ao conhecimento de muitos para a dimensão da “comunicação social”, enquanto também é fonte de uma particular “comunicação” interpessoal, o que remete ao problema do relacionamento entre o ethos da imagem – os da descrição – e o ethos da visão e da audição.
O fato deste problema ser suscitado não significa que o corpo não possa se tornar tema de obra de arte em toda verdade do ser humano, na dignidade e na beleza, – também “supra-sensual” – da sua masculinidade e feminilidade, e sim de que se trata de uma questão que não é puramente estética nem moralmente indiferente, considerando o limite da vergonha (sobre a obscaena, do latim, para tudo que não deveria aparecer diante dos olhos dos espectadores, derivando o problema da “pornovisão” e da “pornografia”), o respeito ao corpo (natureza ética como “elemento do dom”), questões de escala de valores que devem ser reconhecidas e observadas pelo artista que faz do corpo humano objeto, modelo ou tema de obra de arte ou de reprodução audiovisual.
Desde a antiguidade se pode verificar, sobretudo na arte clássica grega, obras onde a nudez humana pode ser contemplada trazendo em si, praticamente oculto, um elemento de sublimação, conduzindo o espectador ao mistério pessoal do homem. Quando não se está determinado ao “olhar para desejar”, abordado no Sermão da Montanha,. é possível apreender, em certo sentido, o significado esponsal do corpo, podendo inclusive gerar objeções na esfera da sensibilidade pessoal do ser humano, quando a obra se reduz a categoria de objeto para o “gozo” à satisfação da própria concupiscência.
Não se tratam de efeitos de uma mentalidade puritana, tampouco de um estreito moralismo e sim de uma importantíssima esfera de valores à dignidade humana, do caráter pessoal e da eloquência do corpo humano, na órbita das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha, que parecem referir-se também aos vastos campos da cultura humana, inserindo a atividade artística, no “olhar” de um desejo que ocasiona um “adultério cometido no coração”, em uma reflexão que cria um clima favorável à educação da castidade como trabalhado na Encíclica Humanae, para enobrecer tudo o que é humano (ethos da imagem e o que se pode chamar de “ethos do ver”).
14//01/198128/01/1981, 04/02/1981, 11/02/1981, 18/03/1981, 01/04/1981 e 08/04/1981– A liberdade que São Paulo se refere em Gálatas 5.13-14, além do tema da justificação, visa a compreensão da dimensão ética da contraposição “corpo-Espírito” em um apelo dirigido à liberdade humana na plena utilização do espírito humano cumprindo toda a Lei através do amor, maior mandamento do Evangelho. Assim a liberdade não deve servir de pretexto para “servir a carne” e sim “uns aos outros pela caridade” (Gl 5.13). A soberba, a tríplice concupiscência, ou seja, as obras da carne, incapacitam o ser humano, que não tem o domínio (enkráteia) de si, a experimentar a liberdade pela qual Cristo chamou. Aos Tessalonicenses (I Ts 4, 3-5), São Paulo é mais explícito, desenvolvendo o tema da impureza como antítese da santificação. A pureza é uma capacidade, aptidão para agir consciente na contenção dos impulsos, sendo uma variante da virtude da temperança pelo domínio dos sentidos, superação das “paixões luxuriosas” e respeito com tudo o que é corpóreo e sexual, sendo também força de ordem e manifestação concreta da vida “segundo o Espírito”.
Em I Cor 12. 22-25, além da teologia da Igreja como Corpo de Cristo, São Paulo aprofunda a teologia do corpo para indicar o corpo humano como digno de santidade e respeito; “quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, os que parecem ser menos honrosos a esses rodeamos de maior honra, e os que são menos decentes, tratamos com maior decoro e os que são decentes, não têm necessidade disso; mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns com os outros”, uma descrição “realista”, não sendo o corpo apenas como organismo (somático ou científico) mas do ser humano que se expressa por ele, como pessoa. cujo respeito remete às tradições do estado de inocência do Gênesis e a vergonha evidencia a “desunião do corpo” e indicação da doutrina paulina sobre a pureza ou seja, da capacidade centrada na dignidade do corpo para mantê-lo em santidade, como templo (I Cor 6,19) diante das relações humanas para afastar do coração humano o que é fruto da concupiscência da carne que profana o corpo, seja na dimensão moral, como virtude, seja na dimensão carismática, como dom do Espírito Santo.  O corpo como templo do Espírito Santo, sob a redenção de Cristo que veio “por um alto preço” (I  Cor 6. 15-17), e nele habita e opera com seus dons espirituais para uma vida segundo o espírito. A pureza (donum pietatis) em São Paulo é condição para encontrar a sabedoria, remetendo a tradições do Antigo Testamento (Sir 23, 4-6 e 51,20), como virtude e como dom (Sb 8,21, versão da Vulgata citada por Santo Agostinho).
A “vida segundo o Espírito”, no contexto em São Paulo, oferece-nos uma imagem completa das palavras de Cristo no Sermão da Montanha e contêm uma verdade ética e antropológica que coloca de sobreaviso sobre o mal, em meio ao estado de pecaminosidade hereditária, e indicam o bem moral do comportamento humano, sendo normativas, na dimensão da interioridade humana, e ao mesmo tempo indicativas em valores aos quais o coração do ser humano pode e deve aspirar por uma descoberta da dignidade do corpo, sendo também uma pedagogia ou autoeducação por uma visão integral ao e todos os tempos, refletindo nos enunciados da Igreja (Dignidade do Matrimônio e da Família e sua valorização, Concílio Vaticano II, assim como a Encíclica Humanae Vitae de Paulo VI).
03/12/1980, 10/12/1980, 17/12/1980 e 07/01/1981 –  Aprofundando as palavras de São Paulo aos Gálatas em 5,17:
“Pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõem reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis.”
(tradução da Bíblia de Jerusalém)
Terminologia paulina parece quase coincidir com a joanina em relação a tríplice concupiscência em uma tensão imanente ao ser humano disposto apenas para o o que “vem do mundo”; o homem dos sentidos cuja pecaminosidade está constantemente exposta á fraqueza, muitas vezes cedendo sem o preparo reforçado no seu interior para fazer o que quer o Espírito. A mesma questão São Paulo aborda na Carta aos Romano (8, 5-10), no contexto da justificação mediante a fé mediante o poder do próprio Cristo operando no íntimo do homem por meio do Espírito Santo., onde se antecipa a vitória final sobre o pecado e sobre a morte, cujo sinal é a ressureição de Cristo (Rm 8, 11) cuja força se revela nas ações humanas onde as obras da carne (Gl 5, 19-21) se contrapõem às do Espírito (Gl 5, 22-23). Não se trata de um embate apenas no home interior, e sim também encontra amplo e diferenciado campo para se traduzir em obras, pelo esforço da vontade, fruto do espírito humano permeado pelo Espírito de Deus se manifestando pela escolha do bem; não são obras unicamente do ser humano, pois São Paulo utiliza o termo “fruto do Espírito” (Espírito, letra maiúscula) , onde o domínio do homem sobre si mesmo se insere. Para alcançar o ethos do corpo é necessário percorrer o caminho da temperança e do domínio dos desejos; experiência gradual da própria dignidade com consciência da pecaminosidade e ponto de partida para pureza do coração.
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”
(Mt 5.8, tradução da Bíblia de Jerusalém)
Jesus Cristo apresenta uma nova interpretação para “pureza” moral cuja fonte está no coração, e não baseada no sentido meramente exterior e material, dado pelos fariseus, que acabava tendo uma conotação moral, seguindo um entendimento ritual na tradição do Antigo Testamento mediante atos de limpeza física como o de “lavar as mãos” antes das refeições. Nenhuma lavagem do corpo ou ablução produz em si mesma pureza moral. A pureza material, do corpo, é uma questão médica, de higiene e os ritos religiosos não mudam o sentido da pureza mais profundo dado por Jesus Cristo, partindo do coração onde nascem as intenções que podem tornar o homem realmente impuro, imundo. É do coração que saem os assassinatos, adultérios, as prostituições, os roubos, falsos testemunhos e as blasfêmias. É no campo mais profundo e íntimo do ser humano que Jesus Cristo indica o sentido da pureza para a bem aventurança de Mt 5.8. Em suma, a fonte da pureza moral está no coração e não em aparências; nada que “entra pela boca” ou que seja legitimado por ritos por limpeza exterior,  corporal, material, física, torna o homem moralmente puro.
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12/11/1980 – Se não existir a relação entre o ethos e o eros, o ser humano não experimentará a plenitude do eros, o impulso do espírito
Seguindo com Gl 5,17, São Paulo abre horizontes considerando a contraposição entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”, associada á “redenção do corpo” também em uma dimensão cósmica (Rm 8,23) onde o ser humano se encontra no centro, pelo coração e, consequentemente, em todo o seu comportamento frutificando a “redenção de Cristo” por meio das forças do Espírito operando a justificação, fazendo com que a justiça “abunde” (referência a Mt 5,20).
Pureza e impureza no Sermão da Montanha dos ditos de Cristo Jesus estão em analogia na teologia paulina com as “obras da carne” e as “obras do Espírito”, indicando o “ethos” evangélico; da mesma forma que Paulo exorta a “fazer morrer” as obras do corpo com a ajuda do Espírito, Cristo se refere ao coração humano quanto ao domínio dos desejos como condição indispensável a uma vida “segundo o Espírito” e assim São Paulo desenvolve tal contraposição e a vida “segundo a carne” opera à morte, significando pecado,  consequentemente impossibilitando que se herde  o “Reino dos Céus” (Gl 5,21 e Ef 5,5).
A síntese paulina então aponta que a vida como manifestação do Espírito é a liberdade para qual Cristo “nos libertou” (Gl 5,1) cuja lei se resume na Palavra de amar o próximo como o si mesmo (Gl 5, 13-14). A justificação do homem é em Cristo e por Cristo. que opera por meio da caridade, não sendo meramente uma questão material ou carnal, ligado ao ritualismo, mas sobretudo “espiritual” buscando a pureza do coração.
humano para aquilo que é verdadeiro, bom e belo. Em Mateus 5. 27-28, o ethos é forma constitutiva do eros como chamado à plena espontaneidade que é verdadeiramente humana  quando é o fruto maduro da consciência e neste ponto se situam as relações que nascem da atração da masculinidade e da feminilidade. A excitação sexual é muito diferente da emoção profunda e as palavras de Cristo são rigorosas exigindo plena e profunda consciência dos atos, sobretudo os interiores do “coração”, no âmbito das relações com as pessoas do outro sexo. O “homem interior” foi chamado por Cristo a adquirir avaliação madura e complexa visando discernir e julgar os diversos ímpetos do seu coração, assim deve ser senhor de seus próprios impulsos mais íntimos, sabendo extrair o que é conveniente para a pureza do coração, consciente do significado do corpo na feminilidade e na masculinidade, algo que não se aprende apenas com livros porque diz respeito a conhecimento profundo da interioridade humana.
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05/11/1980 – A conotação sob apelo sensualista aos desejos por prazeres sexuais, no uso comum do termo grego eros,  difere do que se deriva como “erótico” no uso do termo em Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para Eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo divergente. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica platônica à luz de Mateus 5.27-28 que é um chamado a um encontro a frutificar o erótico concebido na forma do Ethos ou seja, naquilo que é ético na complexa riqueza do  “coração”:
“Se admitirmos que eros significa a força interior que “atrai” o homem para o verdadeiro, o bom e o belo, então, no âmbito deste conceito, também se vê  abrir o caminho para aquilo que Cristo desejou exprimir no Sermão da Montanha […] O chamamento para aquilo que é verdadeiro, bom e belo, significa simultaneamente, no Ethos da redenção, a necessidade de vencer aquilo que deriva da tríplice concupiscência. Significa também a possibilidade e a necessidade de transformar aquilo que foi agravado pela concupiscência da carne. Mais ainda, se as palavras de Mateus 5.27-28 representam este apelo, então, significam que, no âmbito erótico, o eros e o ethos não divergem entre si, não se contrapõem reciprocamente, mas são chamados a encontra-se no coração humano e, neste encontro, a frutificar. Bem, digno do “coração” humano é que a forma daquilo que é “erótico” seja, simultaneamente, a forma do ethos, ou seja, daquilo que é “ético.”.
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29/10/1980 – Bicoeur qualificou Freud, Marx e Nietzsche como “mestres da suspeita” e se torna ao temo da tríplice concupiscência como parte dessa mesma interpretação sobre o homem munido por desejos. Porém, no Bíblia a tríplice concupiscência não constitui o fundamental, talvez único e absoluto critério da antropologia e da ética. Temos que recordar João 2.15-16 no tocante à “teologia da concupiscência” para compreendermos que Mateus 5.27-28 é um apelo ao coração.
15/10/1980 e 25/10/1980 – No ethos do Sermão da Montanha, o coração é acusado ou chamado ao bem? Como pode e deve proceder o homem? Na interpretação do ethos e da praxis, o homem histórico avalia sempre o seu próprio “coração” à sua maneira, tal como também julga o próprio “corpo”. O maniqueísmo pode parecer em sintonia com as duras palavras de Mateis 5.29-30  (“arrancar o olho”, “cortar a mão”), no entanto, o coração não é acusado nem o corpo condenado no Sermão da Montanha. O corpo é chamado a tornar-se a manifestação do espírito, o que pode ser realizado também através da união conjugal com direitos invioláveis (Mt 19.5-6) cuja redenção do corpo não indica o mal ontológico (do corpo). Salienta-se apenas a pecaminosidade do homem quando o sentido esponsal do corpo se confunde com a concupiscência, Neste ponto, uma atitude maniqueísta levaria a aniquilação do corpo, negando o valor do sexo. O ethos cristão é caracterizado pela transformação da consciência e das atitudes da pessoa humana. para realizar o valor do corpo e do sexo. No maniqueísmo, o corpo e a sexualidade constituem um “anti-valor”. O enunciado cristão não pressupõe que o desejo seja um mal em si e sim um olhar com um desejo desordenado onde o coração é chamado a descobrir um sentido pleno. O maniqueísmo é estranho ao Evangelho.
24/09/1980, 01/10/1980 e 08/10/1980 – Como pode se cometer o adultério sem o ato exterior? A crítica de Cristo Jesus mergulha na Lei objetivando o seu pleno cumprimento, contrariando os que adotavam os casuísmos e interpretações do adultério apenas no sentido de se cobiçar a mulher do próximo, assim como na não  observância da monogamia. A intencionalidade cognitiva, por si mesma, não indica o problema da concupiscência quando o ser humano se serve do outro em dimensões utilitaristas, um problema que parece depender da própria dignidade pessoal.  Jesus Cristo se refere a olhar para “a mulher” e, neste aspecto, de forma ampla, o adultério no coração pode ser considerado até mesmo no âmbito de marido e mulher, quando o marido olha para a própria esposa somente como objeto de prazer, por instinto, sem comunhão, o que neste aspecto, demanda uma interpretação teológica tendo um peso maior que a psicológica.
O Sermão da Montanha está longe de fazer apologia ao maniqueísmo pois não se trata de pôr em questão a importância da vida sexual, a necessidade do fazer sexo, que pode e deve servir a construção da unidade  de comunhão, nos seus recíprocos relacionamentos, na dimensão objetiva da natureza humana acompanhada pela finalidade procriativa que lhe é própria. A questão do adultério cometido no coração em Mateus 5.27-28 suscita uma questão no tocante a se devemos tratar a severidade dessas palavras, ou antes ter confiança no seu conteúdo que salva, no seu poder?
17/09/1980 [3] – Diferentemente da concepção psicológica do desejo, a abordagem de Cristo Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5.27-28) se volta ao que acontece no coração sob um engano que separa o homem da comunhão que vem pela compreensão do significado esponsal do corpo. O olhar enfatizado por Cristo Jesus evidencia um conflito na consciência que afeta a dignidade da pessoa, a tornando envolvida como objeto pelo desejo e pelo prazer. O valor do sexo faz parte da riqueza humana que deveria libertar uma gama de desejos carnais-espirituais de natureza pessoal e de comunhão, no entanto, quando a concupiscência é inserida no âmbito do olhar (Mt 5.27-28), que vai de um ato cognitivo ao conhecimento do que se deseja (appetitus), onde só há a finalidade de satisfação sexual do corpo, essa riqueza se reduz de maneira que o sexo passa a ter um fim em si mesmo,  limitando assim uma diversidade que une as pessoas pelo significado esponsal do corpo.
13/08/1980, 27/08/1980, 03/09/1980 e 10/09/1980 [3] – O adultério falsifica o sinal da comunhão das pessoas, sendo a antítese da relação esponsal, antinomia do matrimônio; é um pecado de ruptura da aliança pessoal do homem e da mulher. O casuísmo diante do tema estava expresso na prática da poligamia tendo como referência a instituição das concubinas. As prescrições e as penalidades do legislador se moldavam de acordo com as conveniências de uma sociedade que submetia a mulher a um peso de maior severidade em casos de traição. No Sermão da Montanha, Cristo Jesus apresenta uma interpretação da Lei fazendo um  apelo à consciência do homem de todos os tempos e lugares diante de um pecado onde era comum haver mais uma preocupação com a aparência de decência e das consequências, do que com o mal em si. Os  elementos teológicos que envolvem o tema adultério indicam significados voltados à própria fé além da relação homem-mulher no casamento, tendo uma profunda relação com um povo por ilustração no papel de esposa infiel para com o “esposo” Deus-Javé, algo constante nas tradições de textos de Oseias e Ezequiel, entre outros, mediante o problema da idolatria onde a monogamia e a fidelidade estão para o monoteísmo assim como o adultério está para o politeísmo. A tradição sapiencial (Ben Sira)  compõe uma vasta base teológica onde é comum a abordagem da concupiscência do homem empenhado em atender aos sentidos, não encontrando sossego e se consumindo em uma insaciável busca para satisfazer os desejos. O adultério no Sermão da Montanha é assim uma releitura diante de tradições onde Cristo Jesus se volta ao “princípio”, atravessando preceitos, legislações, superando casuísmos, aprofundando a abordagem até onde nasce o pecado, enfatizando o ato de olhar como algo que exprime o que está no coração, revelando o homem interior a ser confrontado com o sagrado e o significado esponsal do corpo que dá sentido de comunhão entre as pessoas pelo matrimônio.
06/08/1980 e 13/08/1980 – Nasce nasce no coração, o adultério, e é cometido no homem interior: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração”. Em Mateus 5.28 Cristo Jesus faz um juízo realista sobre o legalismo religioso que servia casuisticamente para aliviar o entendimento sobre os reais  significados do adultério e do casamento. A Lei é um meio para superabundar a justiça e não um conjunto de preceitos ou legislação para quem quer viver de aparência. Porém, no lugar deste pleno cumprimento, o qual Cristo Jesus propõe no Sermão, os legalistas procuravam atender aos desejos daqueles que queria se manter bem aos olhos da religião convencional, cumprindo determinadas orientações enquanto se sentiam livres para cometer adultérios que não eram vistos assim, ou desvirtuando o casamento pelo divórcio  que banalizava o sagrado em torno da mesma Lei, pela “dureza dos vossos corações”. A interpretação da Lei de acordo com interesses de conveniência de cada um servia para fazer parecer que as ordenanças estavam sendo cumpridas em torno do que se entendia por fidelidade e casamento, além de tratar como aceitável o costume de ver a mulher como objeto ou direito de propriedade por parte do marido.
O Antigo Testamento está repleto de casos de poligamia mantida pelos desejos ou pela concupiscência “dentro da lei”, onde adultério era compreendido como posse da mulher de outrem. Adúltero era aquele que tomava a mulher ou a “propriedade legal” de outro homem. Cristo Jesus vai ao princípio para mostrar essa deformação da Lei visando dar pleno cumprimento, e nesse contexto se pode compreender o caso da “mulher adúltera”, quando prestes a ser lapidada se vê diante da intervenção de Cristo Jesus que expõe a hipocrisia de quem se via dentro da Lei: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra” (Jo 8.7). Em seguida, Ele aponta ao que interessa na aplicação da Lei e conclui falando à mulher: “Vai e doravante não tornes a pecar” (Jo 8.11). A consciência sobre o bem  e o mal pode ser mais profunda e correta que a normal legal [2].
30/07/1980 – Se o homem se relaciona com a mulher a ponto de a considerar apenas um objeto, para dela se apropriar, e não como dom em uma comunhão plena, simultaneamente, se condenará a si mesmo a tornar-se também ele, para a mulher, somente um objeto de posse. Embora em Gênesis 3.16 se expresse “ele dominar-te-á”, se referindo ao homem em relação à mulher, o texto pode ser visto como bilateral, no entanto, o domínio, a transformação do ser humano em posse do outro olhando para o sentido sexual, entre outros, acontece sobretudo mais à custa da mulher, que sente mais esse domínio. Em Mateus 5.27-28 há um paralelismo, talvez dando ao ser humano masculino uma função de maior responsabilidade sobre a reciprocidade para ser uma espécie de guardião do dom (relacionamento esponsal, em comunhão) e não pela transformação do outro em mero objeto de prazer e posse. Tendo o domínio do masculino sobre o feminino, parece cair nas costas do homem varão uma maior responsabilidade. diante deste problema, algo que se aplica, talvez, por conta marginalização social da mulher, considerando o contexto das Escrituras, envolvendo o Sermão da Montanha.
A crise no Jardim do Éden e o distanciamento do ser humano do significado original do corpo, no relacionamento sexual, acabou dando à expressão “uma só carne” um outro sentido; em vez de um pertencer ao outro pela comunhão mediante os dons, se passou a predominar uma união onde o outro se torna posse para o gozo pessoal e egoísmo, operando assim outra lei, a do desejo insaciável, da concupiscência, que opera contra a lei da razão, aqui lembrando Romanos 7.23, indicando o perigo do desejo do corpo ser mais forte que o desejo da razão. No lugar da comunhão plena entre pessoas, uma mera satisfação corporal se impõe. Então, para entender o apelo de Cristo Jesus feito ao coração do ser humano, no Sermão da Montanha, é necessário entender esse componente antropológico.
25/06/1980 e 23/07/1980 – O conflito em Gn 3.16 não se explica apenas considerando o corpo, na sexualidade somática, e sim nas mais profundas transformações sofridas no espírito humano, insaciável, que culpa o corpo, o privando de sua simplicidade e pureza. O contexto do sentimento de vergonha com a nudez e o corpo em si, com o fim da inocência, é uma experiência secundária em relação a essa consciência, que aponta o desejo que vem do coração por meio de estímulos do corpo que apontam a uma relação de tornar o outro um instrumento de posse, corporalmente um objeto desejo, prazer e, ao mesmo tempo, opera como alerta funcionando como dispositivo de proteção da própria consciência. Gênesis 3 é surpreendentemente eloquente e penetrante sobre o significado do corpo, em se tratando de um texto arcaico. A ação do homem interior diante da relação do corpo e do espírito é determinada pelo coração, o mesmo que Cristo Jesus se refere no Sermão da Montanha, onde se constitui a história do pecado e da salvação, revelando a profundidade e a própria raiz da sua historicidade, cuja concupiscência se evidencia como verdadeira deformação do significado do corpo e da relação de amor homem-mulher. O corpo humano, além de fonte de fecundidade, é esponsal exprimindo o amor que torna a pessoa humana um dom, bem como firmando um sentido profundo de seu próprio ser e existir. Sendo a concupiscência um fenômeno do corpo, o convertendo em objeto de atração, a masculinidade e a feminilidade então quase perdem a capacidade de exprimir esse amor e essa comunhão homem-mulher. Este “quase”  significa que o coração do ser humano se tornou um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Quanto mais prevalece o domínio da concupiscência no coração, ou seja, a prioridade pelos desejos e o tornar o outro mero objeto, mais o significado esponsal do corpo deixa de ser experimentado. Nessa tensão entre amor e desejos, entre a exploração do outro como posse e prazer e a comunhão verdadeira entre duas pessoas,  operam em conflito a concupiscência e o amor,  cabendo ao ser humano manter o próprio coração sob controle.
04/06/1980 e 18/06/1980 – O colapso da relação humana com o Criador narrado no Éden e a radical mudança do significado da nudez, impactou a plena comunhão homem-mulher. Sem a simplicidade e a pureza, ocorre uma perturbação na relação interpessoal onde o corpo, na masculinidade e na feminilidade, constituía o substrato próprio dessa comunhão. O fim da inocência original é sucedido por uma percepção brusca da diferença de sexo sentida e compreendida (Gn 3.7), como se a sexualidade se tornasse obstáculo na relação homem-mulher, com a concupiscência e uma quase constitutiva dificuldade de identificação com o próprio corpo. Com o pecado original e a consequente perda da plena comunhão e do profundo significado de uma relação onde o corpo é um componente diante de algo maior, sucedeu então um anúncio do domínio do ser humano masculino sobre o ser humano feminino (Gn 3.16).  A história das consciências e dos corações humanos confirmará continuamente o que está descrito no Gênesis (3.16) em um amplo contexto de relações onde a mulher se torna submissa ao homem. Em vez de unidos, o ser humano homem e o ser humano mulher ficam divididos ou contrapostos por causa da masculinidade e da feminilidade.
28/05/1980 – Saindo a inocência no ser humano, ocupando em seu lugar o da concupiscência, torna-se evidente o medo mediante uma vergonha que é “cósmica”, substituída por outra forma de vergonha, imanente, produzida pela humanidade na íntima desordem na unidade espiritual e somática do homem (varão e mulher), que perde a força do espírito que o elevava ao nível da imagem de Deus, pré-anunciando assim uma inquietação de consciência ligada à concupiscência, onde opera o desejo, ao mesmo tempo em que nasce o pudor, ilustrado no uso das “folhas de figueira” para esconder a nudez (Gn 3.7). O coração humano afastado da simplicidade original e da plenitude dos valores,  após a queda diante do Criador, conserva, simultaneamente, o desejo e o pudor, este último com um duplo significado: aponta a ameaça do valor e, simultaneamente, preserva interiormente esse valor; a vergonha opera no interior do homem, para garantir valores que a concupiscência tira. A vergonha que nasceu no Éden tenta neutralizar o desejo na intimidade do ser, no coração, e assim se pode começar a compreender melhor porque Cristo apela ao coração humano para definir o adultério como um pecado que nasce no interior da pessoa, no desejo (no olhar malicioso, com segundas intenções), não sendo apenas definido pelo ato exterior em si.
16/04/1980, 23/04/1980, 30/04/1980 e 14/05/1980 – Pautando-se no problema do adultério, Cristo revisa o modo de compreender a Lei de Moisés acerca do divórcio, inserindo uma grande mudança no Ethos, visando dar seu pleno cumprimento (Mt 5.17). Cristo apela ao coração do homem (Mt 5.27-28) para que a sua justiça supere a dos escribas e fariseus, cuja casuística diante da Lei abria para “escapatórias legais” a deformando. No Sermão da Montanha, Cristo promove uma forma de interpretar a Lei que nos faz entrar na profundidade da própria norma e descer ao interior do homem-sujeito da moral. Desta forma o pecado não se caracteriza apenas no ato visível, mas nasce no desejo mais íntimo, no coração humano. Cristo nos desperta ao pleno sentido ético e antropológico do enunciado (“não cometerás adultério”, Ex 20.14). O mundo é um dom e na ruptura que ocorreu no Éden, quando o homem deu as costas para o Criador, se tornou o lugar e a fonte de uma tríplice concupiscência: da carne, dos olhos para desejar e da soberba de vida (I Jo 2.16-17). Morreu a inocência e nasceu vergonha; o homem descobriu que estava nu diante de si mesmo e do Criador. Esta ruptura provocou um colapso no ser humano quanto à aceitação do próprio corpo, perdendo, de algum modo, a certeza original da “imagem de Deus” em si mesmo vivenciando uma “vergonha cósmica”. Uma relação rompida pelo pecado e como consequência trouxe o desgaste e uma luta diante da natureza; indefeso, o ser humano passou a experimentar a fadiga e a morte. Diante das origens, o apelo de Cristo no Sermão da Montanha se dirige a todos os seres humanos descendentes à mesma história, para que se voltem ao próprio coração e assim mergulhem na dimensão à qual está diretamente ligado o sentido do significado do corpo e a ordem desse sentido.
26/03/1980 e 02/04/1980 – Homem e mulher no “conhecimento” que significa a união conjugal, possuídos ambos pela humanidade, nessa experiência se veem diante da geração de um semelhante, um filho, enquanto  detentores de um mandato (“sede fecundos e multiplicai-vos”, Gn 1.28) dentro do mistério da criação, o que pode ser entendido como posse, mas seria um equivalente bíblico para o eros? A posse se relaciona à primeira parte do mandato do Gn 1.28 no ciclo do *conhecimento-procriação* e não à transformação da mulher em objeto para o homem e vice-versa. Com o pecado, o ciclo do conhecimento-procriação foi submetido à lei do sofrimento e da morte, permanecendo o significado da união matrimonial em “uma só carne”, *conforme o apelo de Jesus Cristo ao “princípio” (Mt 19.3) diante dos fariseus acerca do questionamento sobre o divórcio como ato lícito na Lei de Moisés, a resposta de Cristo os contraria na concepção de que não separe o homem o que Deus uniu, refletindo uma compreensão que envolve uma “visão integral do homem”. Esta é a resposta de Cristo inclusive a um questionamento contemporâneo acerca do sacramento do matrimônio diante do divórcio. Para quem busca no matrimônio o caminho da salvação e da santidade, a resposta de Cristo aos fariseus é particularmente importante na teologia do corpo para o conteúdo de sua vida  na vocação sob uma profunda consciência do significado do corpo na sua masculinidade de feminilidade considerando um contexto de uma civilização sob pressão de um modo de pensar e julgar materialista e utilitário.* A “redenção do corpo” mediante o matrimônio vai além do que a biofisiologia contemporânea pode explicar de forma tão precisa acerca da sexualidade humana, pois tem a Palavra de Deus como fonte para a dignidade pessoal do corpo humano e do sexo.
05/09/1979, 05/03/1980 e 12/03/1980 – Cristo aponta para o “princípio” em diálogo sobre os fundamentos da família e a a indissolubilidade do matrimónio (1 Mt 19, 3ss; cf etiam Mc 10, 2ss.), e evita enredar-se nas controvérsias jurídico-casuísticas. A união conjugal é “conhecimento”; não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto e sim como participante do jadac [1] (“conhecimento”)  do homem, ser humano, varão e mulher, de um pelo outro para uma descoberta mais profunda do significado do corpo. No ato sexual  o homem (masculino e feminino) entra em um nível mais profundo de humanidade. Em um primeiro momento estava só, em seguida foi agraciado com a companhia humana feminina sendo assim possível naturalmente conhecer um significado mais intenso da experiência de humanidade na união em “uma só carne”. Trata-se de um conhecimento mais avançado da pessoa humana se descobrindo como “esposo” e “esposa”.  Tal conhecimento condiciona a procriação como potencialidade particular do organismo feminino. No Gênesis, as palavras dão testemunho no primeiro nascimento, de tudo o que se pode e deve dizer da dignidade da geração humana.
Primeira publicação em 28 de março de 2021 às 13:10:20
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Notas:
  1. Não se trata de um conhecimento meramente intelectual, mas também de uma experiência concreta.
  2. Sobre esta última parte em que o papa encerra a lição, tenho outra síntese, minha, pessoal, que abordei em um sermão em 2006, um dos últimos que dei antes de sair do seminário e desistir da carreira de pastor: Jesus e o episódio da mulher adúltera, expõe a confusão comum que se faz entre legislação e virtude ou moralidade. Nem tudo que é legal é necessariamente belo, moral, muitas vezes é pura inversão de valores.É quando a legislação é usada para proteger infratores, hipócritas e punir severamente o lado mais fraco, frágil da história, desvirtuando o pleno cumprimento da Lei;
  3. De 1979 a 1984, o papa João Paulo II trouxe lições nas quartas-feiras no Vaticano, tratando sobre problemas de antropologia e teologia moral-sexual.Aulas de 13/08/1980, 27/08/1980, 03/09/1980, 10/09/1980 e 17/09/1980Em mais um encontro com o meu póstumo novo professor de teologia, se iniciou uma análise pela qual chamei de “anatomia do olhar”, a partir dos versos do Sermão da Montanha em que Cristo Jesus aborda o adultério:”Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’.Eu porém vos digo,: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração.”Mateus 5:27,28, com tradução da Bíblia de Jerusalém.
    Grifei o “eu porém vos digo” e “olha para uma mulher com desejo libidinoso” porque o primeiro destaca que Cristo Jesus se volta a uma imensa tradição das Escrituras ao tratar do adultério, pecado que acabou sendo banalizado pelos casuísmos de legisladores religiosos. Esse problema é exaustivamente explicado pelo papa, com citações de textos bíblicos, onde os tais “casuísmos” serviam para dar um “jeitinho” quando se traía a esposa e não havia a caracterização de adultério pela religião. Os jeitinhos dos casuísmos eram convenientes também a quem desejava ter uma vida de poligamia (com várias esposas ou com concubinas), sem ser visto como adúltero bastando seguir alguns preceitos religiosos que os livravam das penalidades da Lei. O rabi Jesus de Nazaré, pleno sabedor dessas coisas, contraria o sistema, indo até a raiz do problema e no seu “eu porém vos digo” desconstrói as conveniências que faziam do adultério uma coisa típica da hipocrisia religiosa, enquanto os mesmos adúlteros eram rigorosos quando flagravam uma mulher traindo o marido. O papa João Paulo II destaca nas lições esse juízo deturpado, tendencioso, degenerado, dos escribas e fariseus que pesava muito miais sobre as mulheres em favor dos homens, sobretudo os de maior prestígio de uma sociedade notadamente patriarcal (acho que as feministas vão adorar as riquíssimas análises críticas que o papa fez nessas lições, de textos da tradição sapiencial, como o de Ben Sira, quanto a isso). O episódio da “mulher adúltera” ilustra bem o juízo de Cristo Jesus desarmando a hipocrisia que tomava conta das tradições religiosas do apedrejamento de mulheres flagradas em adultério, na época.
    Então, no texto do Sermão da Montanha, Cristo Jesus diz, “eu porém vos digo” porque o que vem em seguida é uma desconstrução avassaladora dos tais casuísmos, das conveniências, das malandragens de quem praticava o adultério e, ao mesmo tempo, era bem visto por seguir os preceitos da (hipócrita) religião formal dos escribas e fariseus:
    Eu porém vos digo,: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração.”
    No desenvolvimento das lições, argumenta o papa que, diferentemente da concepção psicológica do desejo (onde esse fenômeno é visto de modo natural à nossa espécie, o que é evidente e válido do ponto de vista científico, sendo relevante), a abordagem de Cristo Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5.27-28) se volta ao que acontece no coração, a fonte onde o mal surge e se enraíza até o olhar. É o coração humano que passa a ser palco de um engano sobre o desejo que separa o homem da comunhão que vem pela compreensão correta do significado esponsal do corpo. O “olhar” enfatizado por Cristo Jesus (“todo aquele que olha para uma mulher com desejo”) no qual o termo “libidinoso” enfatiza o contexto de não ser a própria esposa, é o que caracteriza o adultério, evidenciando um conflito de valores na consciência que afeta a dignidade da pessoa, a tornando envolvida como objeto submissa pelo desejo e pelo prazer.
    Talvez surpreenda alguns que, nas lições, o papa considera o valor do sexo (ato sexual) como parte da riqueza humana que deveria libertar uma gama de desejos carnais-espirituais de natureza pessoal e de comunhão, no entanto, quando a concupiscência é inserida no âmbito do tal olhar (malicioso em meio ao desejo carnal fora do casamento), esse fato vai de um ato cognitivo ao conhecimento do que se deseja (appetitus), onde se estabelece a exclusiva finalidade de satisfação sexual do corpo, e então essa riqueza do sexo se reduz de maneira que o desejo sexual passa a ter um fim em si mesmo,  é o sexo pelo sexo, limitando assim uma diversidade (corpo-espírito) que une as pessoas através do significado esponsal do corpo, no casamento, na monogamia marido e mulher, como amantes de corpo e alma em comunhão com um sentido pleno.
    É o “olhar” que revela o que está no coração, o homem interior, que passa a ser confrontado com o sagrado e quando isso se dá fora da união matrimonial esse olhar é de adultério para o rabi Jesus de Nazaré. O papa enfatiza que Cristo se volta ao coração onde nasce o pecado do adultério, que falsifica o sinal da comunhão das pessoas, sendo a antítese da relação esponsal, antinomia do matrimônio; é uma ruptura da aliança pessoal do homem e da mulher.
  4. Até este ponto a obra de São João Paulo II reflete uma rica teologia que pode surpreender não apenas católicos, mas também protestantes. Os principais pontos em destaque:  1. A UNIÃO CONJUGAL FAZ PARTE DO CONHECIMENTO DA NOSSA HUMANIDADE. A união conjugal é “conhecimento” e não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto de prazer.  No ato sexual  o homem, aqui no sentido de ser humano masculino ou feminino, munido por uma comunhão, entra em um nível mais profundo no conhecimento de sua humanidade onde a procriação é uma potencialidade particular do organismo feminino. 2. O ATO SEXUAL FAZ PARTE DA DIGNIDADE HUMANA E DA “REDENÇÃO DO CORPO”. A união conjugal é uma forma de “redenção do corpo”, um caminho para santificação, no entanto a crise no Jardim do Éden subverteu esse entendimento para uma visão materialista e utilitarista onde o outro é muitas vezes visto como mero objeto de posse e prazer, algo que passou a confundir o sentido do matrimônio ou até mesmo banalizado pelo legalismo religioso diante da concupiscência induzindo  o ser humano a encontrar formas de tentar conciliar os mandamentos sobre a fidelidade no casamento monogâmico com práticas de poligamia e adultério, este último visto como um pecado mais por ato de relação sexual com a mulher de outro, evidenciando mais uma vez a visão da mulher como um objeto ou posse do homem e não como um ser humano a participar no processo de comunhão onde o ato sexual faz parte do dom do amor, sendo assim necessário, fazendo parte do caminho de enlevo da dignidade e do crescimento pessoal através do casamento. 3. JESUS CRISTO (em Mateus 5. 27-28) FAZ UM APELO AO CORAÇÃO, UM CAMPO DE BATALHA PELO DOMÍNIO DO SER HUMANO. Jesus Cristo aborda os temas do casamento e do adultério banalizados pelo sistema religioso à época, remetendo todos a uma reflexão sobre as origens e o valor profundo da união conjugal, apelando ao coração do ser humano, não para acusá-lo, mas para fazê-lo ser usado como meio para o bem. O coração é um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Em Cristo Jesus o coração não é acusado nem o corpo condenado, tampouco o sexo. O desejo em si não é um mal e sim um olhar com um desejo desordenado. O ser humano é então convidado a se voltar ao coração para se tornar firme na manifestação do espírito, o que pode ser realizado através da união conjugal.
  5. Quando o erótico não está em conflito com os ensinamentos do Sermão da Montanha.  O papa mais uma vez trabalha na teologia do corpo o sexo com aspectos éticos vivenciados a partir dos ditos de Cristo Jesus no Sermão da Montanha. O uso do termo erótico que deriva do grego eros, considerando uma conotação diferente vista na filosofia de Platão. Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo em conflito. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica pela visão platônica à luz de Mateus 5.27-28 onde o erótico é concebido na forma do que é ético.
  6. Uma síntese dessas duas lições do papa pode ser pelo famoso dito “cuidado com as aparências”. Os “sepulcros caiados” dos ditos na crítica em Mateus 23.27 se associam a esta interpretação papal. E nas relações humanas não é raro encontrar quem seja limpo, agradável, por fora, enquanto imundo, podre, repugnante, por dentro;
  7. O papa retornou para dar as lições seis meses depois de sofrer uma tentativa de assassinato, onde foi baleado uma semana depois da lição anterior; ato terrorista ocorreu em uma quarta-feira, 13 de maio de 1981, pelo turco Mehmet Ali Ağca;
i15/09/1982 –
28/07/1982, 04/08/1982, 11/08/1982, 18/08/1982, 25/08/1982, 01/09/1982, 08/09/1982 e 15/09/1982 – A sacramentalidade do matrimônio em Efésios 5, centradas no corpo nos significados metafórico e concreto, é o coroamento ao “princípio” e ao “coração humano” no Sermão da Montanha (Mateus 5.28), na inocência original e da justiça, assim com nas perspectivas escatológicas da ressureição dos corpos. O corpo está para o sinal visível de uma realidade invisível (espiritual) cujo conceito se aplica ao “sacramento”.
Em Efésios 5 se enaltece o clima de vida espiritual no mistério de Cristo para salvação do ser humano que se realiza na Igreja e na vocação cristã, em especial nas relações entre todos os membros em uma sociedade familiar ou “Haustaflen” ou códigos domésticos segundo Lutero, não apenas entre marido e mulher (22-23) e no sexto capítulo se estende aos deveres de respeito dos senhores em relação aos servos (escravos, 6.5-9) e encerra com um estupendo incitamento à batalha espiritual (6.10-20). Em caráter parenético (de instrução moral) aos aspectos da vocação dos cristãos. Cristo é fonte e modelo de relações entre os cônjuges; em Efésios, é apresentada uma relação de dupla dimensão, uma fusão de comportamentos, um duplo grau, recíproco e comunitário. Marido e mulher “submissos” um ao outro, “no temor de Cristo” (Efésios 5.21), onde “temor” significa respeito pela santidade, pelo sacrum.
Apesar de ser diversa a nossa sensibilidade contemporânea, e diversão são também a mentalidade e os costumes, além de ser diferente a posição social da mulher  diante do homem, a mútua submissão do casamento em Cristo indica que o marido não é “dono” da mulher; a “submissão” da mulher ao marido, no contexto da passagem, pode-se entender como “provar o amor”. O matrimônio não é um pacto de domínio do marido sobre a mulher, a esposa não é serva do marido e sim ambos estão mutuamente subordinados em uma vocação no mistério à imagem da relação entre Cristo e a Igreja, onde brota uma profunda compreensão da Igreja e do matrimônio. Cristo, através de uma total doação, por amor formou a Igreja e a edifica continuamente tornando-se sua cabeça, sendo salvador de seu corpo, e assim também esposo da Igreja.
São Paulo explica a realidade da Igreja cuidada, espiritual por essência, através da semelhança do corpo e do amor pelo qual os cônjuges vivem, em “uma só carne”.  A união corpo-cabeça, usada na ilustração relacionada a Cristo-Igreja e a esposo-esposa é, em certo sentido, pedra angular em Efésios; condicionada ao amor, sendo moral, orgânica, somática, biológica; para o matrimônio se funda também em uma união psíquica de dois sujeitos distintos em um, o que pode encontrar fundamento em Gênesis 2.24; “uma só carne”, no entanto, a analogia dessa união não ofusca a individualidade dos sujeitos envolvidos. Denota bi-subjetividade, onde o primeira, Cristo-Igreja, reflete uma entrega de Cristo por manifestação de amor à Igreja como imagem ou um modelo para o amor a segunda relação, esposo-esposa, como referência ao que o marido deve manifestar à mulher no matrimônio (“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja”). Cristo é mistério do Amor ama a Igreja, assim como deve o marido seguir este modelo para amar a esposa. Quem ama a sua esposa, ama a si mesmo por não querer mal ao próprio corpo; a expressão segundo a qual o homem “nutre e cuida a própria carne”, sugerem vários estudiosos, é uma referência à Eucaristia na relação Cristo-Igreja.
O corpo da mulher não é o próprio corpo do marido, mas deve ser amado como se fora: “Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Efésios 5.28); em certo sentido o “eu” da mulher se torna o “eu” do marido. E assim se aprofunda o significado de ser “uma só carne” ao deixar pai e mãe para essa união cuja finalidade é a santificação (Efésios 5. 25-26)  cujo princípio está o batismo, como purificação “no banho da água e pela palavra” (Efésios 5.26), cujo poder deriva da doação de Cristo à Igreja em caráter esponsal em uma ilustração à Igreja onde quem se batiza sinaliza o preparo do corpo Igreja para a união com Cristo. Esta união reflete o mistério da grande analogia Cristo-Igreja, esposo-esposa, cujo sacramento é sinal visível e eficaz da graça; o casamento é uma forma de sinalizar  este mistério da salvação, onde a sacramentalidade da Igreja é fonte de sacramentos, em particular, do batismo e da eucaristia. Estudiosos também observam o “banho da água” que precedia o casamento em um importante rito religioso entre os gregos, o que no sacramento do batismo cristão vai além do “in actu primo” e segue em uma perspectiva escatológica onde a Igreja é adornada, cuidada, embelezada no seu corpo pela graça, “gloriosa”, “sem mancha nem ruga”, a indicar metaforicamente sem defeitos morais, com o dom da salvação na sua plenitude para a parusia, a última vinda de Cristo.
23/06/1982, 30/06/1982, 07/07/1982, 14/07/2022 e 21/07/1982– São Paulo dá um timbre próprio sobre a continência pelo Reino de Deus (I Coríntios 7),  fruto de sua experiência apostólica-missionária. Na carta aos Romanos, vê a redenção do corpo, alienado do influxo do Espírito de Deus, como objeto de esperança em uma dimensão antropológica e ao mesmo tempo cósmica.
A virgindade deriva de um conselho e não de um mandamento. O apóstolo trata o problema em um tempo em que decisões deste gênero pertenciam mais aos pais ou aos tutores, onde poderia haver a dúvida sobre o matrimônio ser pecado ou não em meio a um possível influxo de correntes dualísticas pré-gnósticas. Não se trata de escolha entre o que é do bem ou do mal, mas entre o que faz bem, e é um dom, ou seja o casamento, e o que é melhor, a continência pelo Reino de Deus, o destino eterno do homem, e São Paulo tem na sua própria vida um exemplo; quem não tem esposa, preocupa-se como há de agradar ao senhor (verso 32), cujo fundamento é o amor enquanto o homem casado  também preocupa-se em como satisfazer a mulher.As duas dimensões não se opõem entre si, antes são complementares.
Sobre as “tribulações na carne” (I Coríntios 7, 28) associadas à vida matrimonial, é uma justa advertência aos que esperam na convivência conjugal apenas felicidade e alegria; conjugues, não raramente, ficam desiludidos naquilo que mais esperavam ocasionando em tribulações, muitas vezes, de natureza moral. E entre o bem que há no ser casado e o melhor a ser feito de uma vida de não casado, consiste a continência pelo Reino, sendo este o contexto em que São Paulo exprime o desejo que todos fossem assim (I Coríntios 7, 7).
10/03/1982, 17/03/1982, 24/03/1982, 31/03/1982, 07/04/1982, 14/07/1982, 21/04/1982, 28/04/1982 e 05/05/1982 A ressureição (Marcos 12,25) indica que também há uma condição de vida isenta de matrimônio, pela continência onde se encontra eco na temporalidade por uma particular sensibilidade do espírito humano com eunucos que assim se fizeram pelo “Reino dos Céus” (Mateus, 19-11-12,) diferentemente dos dois tipos iniciais (sob estado de coação), não se contrapondo ao matrimônio, e sim por ser uma vocação, uma orientação carismática para aquele estado escatológico em que não se tomará “mulher nem marido”, uma “solidão por Deus”, o que na doutrina da Igreja é tratado como um caminho, apresentado pelo próprio Cristo a algumas pessoas; trata-se, obviamente, da continência escolhida, voluntária, por motivos sobrenaturais, renúncia feita por amor e não um mandamento; ato consciente constituído pela disposição esponsal da masculinidade e feminilidade. É um testemunho de uma dimensão pessoal do ser dual, que antecipa a futura ressureição, com um significado determinante, tanto para o “ethos”, como para a teologia do corpo, cuja história do nascimento de Cristo, na graça da união hipostática e pela sobrenatural fecundidade do espírito, está certamente em linha.  A continência “pelo Reino dos Céus”, a escolha da virgindade ou do celibato para toda a vida se tornou uma resposta particular ao amor do Esposo Divino; adquiriu o significado de um ato de amor esponsal na experiência dos discípulos e dos seguidores de Cristo; a chave única para compreender a sacramentalidade do matrimônio é o amor esponsal de Cristo pela Igreja.
Pode parecer paradoxal, mas a ideia do celibato ou da virgindade não diminui o valor do matrimônio; não o inferioriza. Nas palavras de Cristo em Mateus 19, 11-12,  indica uma experiência terrena pelo Reino dos Céus que a tradição da Antiga Aliança não tinha transmitido. O matrimônio era tão comum que só uma impotência física podia constituir uma exceção, dentro de uma cultura de procriação e promessa feita a Abraão (Gênesis 17, 4-6-7), sendo assim um ponto de viragem; Cristo não apenas se pronuncia contra toda a tradição da Antiga Aliança onde o matrimônio está associado a pessoas privilegiadas, mas também, em certo sentido, àquele “princípio” a que Ele próprio apelou; embora seja possível conceber o homem como solitário diante de Deus, o próprio Deus o retirou dessa “solidão” (Gênesis, 2.18), para um duplo aspecto varão-mulher, próprio da humanidade.  E na Sua mensagem evangélica, sendo Sua vida um exemplo, Cristo indica a continência como um sinal inquestionável do “outro mundo”.
Quem escolhe esse caminho de sacrifício ao bem que o matrimônio e a família constituem em si mesmos encontra uma marca de semelhança com Ele, cuja abordagem de São Paulo considera, aos que assim o fizeram, algo “melhor” (I Coríntios 7,38), o que não fundamenta uma suposta contraposição segundo a qual os celibatários  (ou as pessoas que não se encontram casadas), apenas em função da continência, constituem a classe dos “perfeitos”. Efésios 5,25 é igualmente válido para a teologia do matrimônio e para a teologia da contingência pelo “Reino de Deus”. Considerando uma tradição teológica do status perfectionis, a condição de serviço ao Reino de Deus se dá em um conjunto (pobreza, castidade e obediência) desenvolvendo a “maternidade” ou a “paternidade” em sentido espiritual, cuja medida (da perfeição) é aferida pela caridade aos que não vivem no instituto religioso; a medida da perfeição se atinge tanto no “instituto religioso” como no “mundo”.
27/01/1982, 03/02/1982 e 10/02/1982 – Tiveram ressonância no ensinamento de São Paulo as Palavras de Cristo sobre a ressureição dos mortos, começando pela experiência com o Próprio Jesus ressurreto, o “último Adão”, com o relato do encontro em Damasco, que marcou a conversão do que viria a ser o apóstolo. O capítulo XV da primeira carta aos Coríntios remete à Aliança veterotestamentária sob o argumento da integridade da fé (I Cor 15,14.20), onde tudo será submetido, devolvido ao Pai para que “Deus seja tudo em todos” (I Cor 15,28), cujo último inimigo a ser vencido é a morte (I Cor 15,26).
Nesta construção, São Paulo se dirige ao “´princípio”, com a vivificação da matéria mediante o espírito, recordando o “primeiro Adão”, para em seguida desenvolver sob o que Cristo anunciou diante dos Fariseus (Mt. 19,3-8 e Mc 10,2-9), ao “coração” do ser humano (Mt 5,27) e aos Saduceus (Mt 22,30; Mc 12,25 e Lc 20, 30-26). São Paulo atribui definições ao corpo humano histórico, tema que desenvolve mais na carta aos Romanos, e considerando o pecado submetido a toda criação (Gn 1,28); versa sobre o “corpo animal”,  antítese terrena do “corpo espiritual”, afetado pela sensualidade como força que muitas vezes prejudica o homem.
São Paulo indica uma dimensão não só interior, mas também “cósmica”, com o estado da criação pós-pecado (Rm 8,22) onde reside não apenas a “escravidão da corrupção”, mas também a esperança com o mistério da redenção na alma do homem, caminho para a ressureição, mediante os dons do Espírito em uma revelação dos últimos destinos do homem em toda a plenitude da sua natureza psicossomática e da sua subjetividade pessoal, onde podemos admitir, com base no contexto, que não se trata apenas do corpo, mas do homem inteiro na sua corporeidade, não sendo antítese e negação do “homem da terra”, mas sobretudo a sua realização e confirmação em sua complexidade ontológica; restitutio in integrum, a reintegração e ao mesmo tempo a realização da plenitude da humanidade, a espiritualização do corpo que será a fonte da sua força e incorruptibilidade (ou imortalidade).
11/11/1981 [7], 18/11/1981, 02/12/1981,  09/12/1981,  16/12/1981 e 13/01/1982 – Cristo apela à ressureição, dimensão completamente nova do mistério do homem, cujas palavras completam a revelação do corpo, confirmadas na Sua ressureição.
Provocado pela negação teológica da ressureição, por parte dos saduceus, mediante analogia com a lei do levirato, em Marcos 12, 20-23, Cristo dá uma resposta-chave na teologia do corpo (Marcos 12,24-25) na realidade de uma vida à qual a morte não põe fim, onde a verdade escatológica não pode ser alcançada pelo homem apenas com os métodos empíricos e racionalistas e o matrimônio, indissolúvel (Mateus 19, 3-8), pertence exclusivamente a este mundo terreno (Lucas 2-, 34-35), perdendo a razão de ser no futuro escatológico humano; nem homens terão esposas, nem mulheres maridos, mas serão como anjos no céu (Mateus 22,30) na contemplação a Deus por uma comunhão (comunio), diante da mais perfeita, trinitária, puramente divina, cujo amor do ser humano escatológico absorverá inteira subjetividade psicossomática; o ser humano espiritual e corpóreo, ligado a experiência do corpo na dimensão da existência terrena constituindo a teologia do corpo em três dimensões; a revelação do corpo é confirmada na ressureição de Cristo.
O matrimônio em Gênesis 2,24 nas palavras de Cristo são como um novo limiar da verdade integral sobre o homem na teologia do corpo – ensinamento e indissolubilidade – junto com a procriação, indicam somente a realidade concreta ao significado nas dimensões da história, sendo a ressureição o seu encerramento; a glorificação do corpo, fruto escatológico, trará a revelação do princípio em uma autêntica expressão de verdade e amor na construção do perene significado do corpo humano no communio personarum.
O poder do Doador da vida não se vincula pela lei da morte terrena. Abraão, Isaque e Jacó, mencionados por Cristo na argumentação, embora contados entre os mortos na ótica do mundo terreno,  considerando a teofania concedida a Moisés (Êxodo 3, 2-6), constituem um testemunho que o Deus vivo dá àqueles que vivem “para Ele”: àqueles que graças ao Seu poder, têm a vida na “casa do Pai” (João 14,2), em um estado completamente novo da própria vida humana no plano terreno, restituindo à verdadeira vida da corporeidade humana, submetida à morte na sua fase temporal, significando uma nova submissão do corpo ao espírito, algo que impactou São Tomás de Aquino que substituiu a antropologia metafísica (Platão) a uma visão aristotélica (Summa Theologiae, 1a, q. 89, a. 1.); o corpo não está unido a alma de forma apenas temporária e sim integrada. O homem escatológico estará livre do que São Paulo percebeu como uma luta interior na lei do corpo, cujos membros lutam contra a lei da razão (Romanos 7,23) realizando humanização e divinização do ser humano como participação na vida interior do próprio Deus, fruto da graça, qualificando o significado “esponsal” do corpo.
15/04/1981, 22/04/1981, 29/04/1981 e 06/05/1981 [7] – O corpo humano é um perene objeto de cultura. A dimensão da subjetividade pessoal do homem é indispensável para se compreender as bases do problema do corpo humano na hermenêutica teológica, onde não se deve considerar o corpo como uma realidade objetiva fora da subjetividade do ser humano, na identificação ontológica do corpo com o conteúdo e a qualidade da experiência subjetiva do viver o próprio corpo e na relação homem-mulher.
A experiência da realidade do corpo ocorre nas obras da cultura, nas expressões de arte, em experiências estéticas, nas comunicações sociais, nas imagens, na plástica, na dramática, nas técnicas audiovisuais modernas, no contemplar a obra (aisthánomai, olho, observo, em grego) e também quando o ser humano se torna sujeito da atividade criativa. E este olhar não pode se isolar daquele “olhar” de que fala Jesus Cristo no Sermão da Montanha diante do alerta da concupiscência. O corpo humano nu significa um dom da pessoa à pessoa e o ethos da nudez está para a dignidade humana intimamente ligado ao significado esponsal.  No entanto, se a cultura mostra uma tendência explícita para cobrir a nudez, levando em conta o que discorre Gênesis 3 sobre a vergonha, e não apenas por razões “climatéricas”, a anônima nudez contrasta com os costumes, o que pode ser observado em populações chamadas “primitivas”. Porém, o ser humano sensível à vergonha com sua nudez, a supera por situações justificáveis, quando precisa, por exemplo, se despir para exames e/ou intervenções médicas. Deve-se considerar também a violação do pudor corporal pela nudez como um meio para destruir a dignidade da pessoa, prática usada em campos de concentração ou locais de extermínio.
É necessário fazer a distinção de que uma coisa é o corpo humano vivo, outra coisa é o corpo como modelo de obra de arte; na pintura ou na escultura, o corpo é modelo, no cinema e na arte fotográfica, é o ser humano vivo sendo objeto de uma reprodução sob técnicas apropriadas onde há uma perda de contato por ser reprodução vindo a se tornar objeto anônimo, algo observável em revistas ilustradas para esconder ou velar a identidade da pessoa reproduzida, sendo um problema muito delicado do ethos na cultura de massa, onde o corpo perde o significado profundamente subjetivo e se torna um objeto, aplicado ao conhecimento de muitos para a dimensão da “comunicação social”, enquanto também é fonte de uma particular “comunicação” interpessoal, o que remete ao problema do relacionamento entre o ethos da imagem – os da descrição – e o ethos da visão e da audição.
O fato deste problema ser suscitado não significa que o corpo não possa se tornar tema de obra de arte em toda verdade do ser humano, na dignidade e na beleza, – também “supra-sensual” – da sua masculinidade e feminilidade, e sim de que se trata de uma questão que não é puramente estética nem moralmente indiferente, considerando o limite da vergonha (sobre a obscaena, do latim, para tudo que não deveria aparecer diante dos olhos dos espectadores, derivando o problema da “pornovisão” e da “pornografia”), o respeito ao corpo (natureza ética como “elemento do dom”), questões de escala de valores que devem ser reconhecidas e observadas pelo artista que faz do corpo humano objeto, modelo ou tema de obra de arte ou de reprodução audiovisual.
Desde a antiguidade se pode verificar, sobretudo na arte clássica grega, obras onde a nudez humana pode ser contemplada trazendo em si, praticamente oculto, um elemento de sublimação, conduzindo o espectador ao mistério pessoal do homem. Quando não se está determinado ao “olhar para desejar”, abordado no Sermão da Montanha,. é possível apreender, em certo sentido, o significado esponsal do corpo, podendo inclusive gerar objeções na esfera da sensibilidade pessoal do ser humano, quando a obra se reduz a categoria de objeto para o “gozo” à satisfação da própria concupiscência.
Não se tratam de efeitos de uma mentalidade puritana, tampouco de um estreito moralismo e sim de uma importantíssima esfera de valores à dignidade humana, do caráter pessoal e da eloquência do corpo humano, na órbita das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha, que parecem referir-se também aos vastos campos da cultura humana, inserindo a atividade artística, no “olhar” de um desejo que ocasiona um “adultério cometido no coração”, em uma reflexão que cria um clima favorável à educação da castidade como trabalhado na Encíclica Humanae, para enobrecer tudo o que é humano (ethos da imagem e o que se pode chamar de “ethos do ver”).
14//01/198128/01/1981, 04/02/1981, 11/02/1981, 18/03/1981, 01/04/1981 e 08/04/1981– A liberdade que São Paulo se refere em Gálatas 5.13-14, além do tema da justificação, visa a compreensão da dimensão ética da contraposição “corpo-Espírito” em um apelo dirigido à liberdade humana na plena utilização do espírito humano cumprindo toda a Lei através do amor, maior mandamento do Evangelho. Assim a liberdade não deve servir de pretexto para “servir a carne” e sim “uns aos outros pela caridade” (Gl 5.13). A soberba, a tríplice concupiscência, ou seja, as obras da carne, incapacitam o ser humano, que não tem o domínio (enkráteia) de si, a experimentar a liberdade pela qual Cristo chamou. Aos Tessalonicenses (I Ts 4, 3-5), São Paulo é mais explícito, desenvolvendo o tema da impureza como antítese da santificação. A pureza é uma capacidade, aptidão para agir consciente na contenção dos impulsos, sendo uma variante da virtude da temperança pelo domínio dos sentidos, superação das “paixões luxuriosas” e respeito com tudo o que é corpóreo e sexual, sendo também força de ordem e manifestação concreta da vida “segundo o Espírito”.
Em I Cor 12. 22-25, além da teologia da Igreja como Corpo de Cristo, São Paulo aprofunda a teologia do corpo para indicar o corpo humano como digno de santidade e respeito; “quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, os que parecem ser menos honrosos a esses rodeamos de maior honra, e os que são menos decentes, tratamos com maior decoro e os que são decentes, não têm necessidade disso; mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns com os outros”, uma descrição “realista”, não sendo o corpo apenas como organismo (somático ou científico) mas do ser humano que se expressa por ele, como pessoa. cujo respeito remete às tradições do estado de inocência do Gênesis e a vergonha evidencia a “desunião do corpo” e indicação da doutrina paulina sobre a pureza ou seja, da capacidade centrada na dignidade do corpo para mantê-lo em santidade, como templo (I Cor 6,19) diante das relações humanas para afastar do coração humano o que é fruto da concupiscência da carne que profana o corpo, seja na dimensão moral, como virtude, seja na dimensão carismática, como dom do Espírito Santo.  O corpo como templo do Espírito Santo, sob a redenção de Cristo que veio “por um alto preço” (I  Cor 6. 15-17), e nele habita e opera com seus dons espirituais para uma vida segundo o espírito. A pureza (donum pietatis) em São Paulo é condição para encontrar a sabedoria, remetendo a tradições do Antigo Testamento (Sir 23, 4-6 e 51,20), como virtude e como dom (Sb 8,21, versão da Vulgata citada por Santo Agostinho).
A “vida segundo o Espírito”, no contexto em São Paulo, oferece-nos uma imagem completa das palavras de Cristo no Sermão da Montanha e contêm uma verdade ética e antropológica que coloca de sobreaviso sobre o mal, em meio ao estado de pecaminosidade hereditária, e indicam o bem moral do comportamento humano, sendo normativas, na dimensão da interioridade humana, e ao mesmo tempo indicativas em valores aos quais o coração do ser humano pode e deve aspirar por uma descoberta da dignidade do corpo, sendo também uma pedagogia ou autoeducação por uma visão integral ao e todos os tempos, refletindo nos enunciados da Igreja (Dignidade do Matrimônio e da Família e sua valorização, Concílio Vaticano II, assim como a Encíclica Humanae Vitae de Paulo VI).
03/12/1980, 10/12/1980, 17/12/1980 e 07/01/1981 –  Aprofundando as palavras de São Paulo aos Gálatas em 5,17:
“Pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõem reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis.”
(tradução da Bíblia de Jerusalém)
Terminologia paulina parece quase coincidir com a joanina em relação a tríplice concupiscência em uma tensão imanente ao ser humano disposto apenas para o o que “vem do mundo”; o homem dos sentidos cuja pecaminosidade está constantemente exposta á fraqueza, muitas vezes cedendo sem o preparo reforçado no seu interior para fazer o que quer o Espírito. A mesma questão São Paulo aborda na Carta aos Romano (8, 5-10), no contexto da justificação mediante a fé mediante o poder do próprio Cristo operando no íntimo do homem por meio do Espírito Santo., onde se antecipa a vitória final sobre o pecado e sobre a morte, cujo sinal é a ressureição de Cristo (Rm 8, 11) cuja força se revela nas ações humanas onde as obras da carne (Gl 5, 19-21) se contrapõem às do Espírito (Gl 5, 22-23). Não se trata de um embate apenas no home interior, e sim também encontra amplo e diferenciado campo para se traduzir em obras, pelo esforço da vontade, fruto do espírito humano permeado pelo Espírito de Deus se manifestando pela escolha do bem; não são obras unicamente do ser humano, pois São Paulo utiliza o termo “fruto do Espírito” (Espírito, letra maiúscula) , onde o domínio do homem sobre si mesmo se insere. Para alcançar o ethos do corpo é necessário percorrer o caminho da temperança e do domínio dos desejos; experiência gradual da própria dignidade com consciência da pecaminosidade e ponto de partida para pureza do coração.
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”
(Mt 5.8, tradução da Bíblia de Jerusalém)
Jesus Cristo apresenta uma nova interpretação para “pureza” moral cuja fonte está no coração, e não baseada no sentido meramente exterior e material, dado pelos fariseus, que acabava tendo uma conotação moral, seguindo um entendimento ritual na tradição do Antigo Testamento mediante atos de limpeza física como o de “lavar as mãos” antes das refeições. Nenhuma lavagem do corpo ou ablução produz em si mesma pureza moral. A pureza material, do corpo, é uma questão médica, de higiene e os ritos religiosos não mudam o sentido da pureza mais profundo dado por Jesus Cristo, partindo do coração onde nascem as intenções que podem tornar o homem realmente impuro, imundo. É do coração que saem os assassinatos, adultérios, as prostituições, os roubos, falsos testemunhos e as blasfêmias. É no campo mais profundo e íntimo do ser humano que Jesus Cristo indica o sentido da pureza para a bem aventurança de Mt 5.8. Em suma, a fonte da pureza moral está no coração e não em aparências; nada que “entra pela boca” ou que seja legitimado por ritos por limpeza exterior,  corporal, material, física, torna o homem moralmente puro.
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12/11/1980 – Se não existir a relação entre o ethos e o eros, o ser humano não experimentará a plenitude do eros, o impulso do espírito
Seguindo com Gl 5,17, São Paulo abre horizontes considerando a contraposição entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”, associada á “redenção do corpo” também em uma dimensão cósmica (Rm 8,23) onde o ser humano se encontra no centro, pelo coração e, consequentemente, em todo o seu comportamento frutificando a “redenção de Cristo” por meio das forças do Espírito operando a justificação, fazendo com que a justiça “abunde” (referência a Mt 5,20).
Pureza e impureza no Sermão da Montanha dos ditos de Cristo Jesus estão em analogia na teologia paulina com as “obras da carne” e as “obras do Espírito”, indicando o “ethos” evangélico; da mesma forma que Paulo exorta a “fazer morrer” as obras do corpo com a ajuda do Espírito, Cristo se refere ao coração humano quanto ao domínio dos desejos como condição indispensável a uma vida “segundo o Espírito” e assim São Paulo desenvolve tal contraposição e a vida “segundo a carne” opera à morte, significando pecado,  consequentemente impossibilitando que se herde  o “Reino dos Céus” (Gl 5,21 e Ef 5,5).
A síntese paulina então aponta que a vida como manifestação do Espírito é a liberdade para qual Cristo “nos libertou” (Gl 5,1) cuja lei se resume na Palavra de amar o próximo como o si mesmo (Gl 5, 13-14). A justificação do homem é em Cristo e por Cristo. que opera por meio da caridade, não sendo meramente uma questão material ou carnal, ligado ao ritualismo, mas sobretudo “espiritual” buscando a pureza do coração.
humano para aquilo que é verdadeiro, bom e belo. Em Mateus 5. 27-28, o ethos é forma constitutiva do eros como chamado à plena espontaneidade que é verdadeiramente humana  quando é o fruto maduro da consciência e neste ponto se situam as relações que nascem da atração da masculinidade e da feminilidade. A excitação sexual é muito diferente da emoção profunda e as palavras de Cristo são rigorosas exigindo plena e profunda consciência dos atos, sobretudo os interiores do “coração”, no âmbito das relações com as pessoas do outro sexo. O “homem interior” foi chamado por Cristo a adquirir avaliação madura e complexa visando discernir e julgar os diversos ímpetos do seu coração, assim deve ser senhor de seus próprios impulsos mais íntimos, sabendo extrair o que é conveniente para a pureza do coração, consciente do significado do corpo na feminilidade e na masculinidade, algo que não se aprende apenas com livros porque diz respeito a conhecimento profundo da interioridade humana.
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05/11/1980 – A conotação sob apelo sensualista aos desejos por prazeres sexuais, no uso comum do termo grego eros,  difere do que se deriva como “erótico” no uso do termo em Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para Eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo divergente. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica platônica à luz de Mateus 5.27-28 que é um chamado a um encontro a frutificar o erótico concebido na forma do Ethos ou seja, naquilo que é ético na complexa riqueza do  “coração”:
“Se admitirmos que eros significa a força interior que “atrai” o homem para o verdadeiro, o bom e o belo, então, no âmbito deste conceito, também se vê  abrir o caminho para aquilo que Cristo desejou exprimir no Sermão da Montanha […] O chamamento para aquilo que é verdadeiro, bom e belo, significa simultaneamente, no Ethos da redenção, a necessidade de vencer aquilo que deriva da tríplice concupiscência. Significa também a possibilidade e a necessidade de transformar aquilo que foi agravado pela concupiscência da carne. Mais ainda, se as palavras de Mateus 5.27-28 representam este apelo, então, significam que, no âmbito erótico, o eros e o ethos não divergem entre si, não se contrapõem reciprocamente, mas são chamados a encontra-se no coração humano e, neste encontro, a frutificar. Bem, digno do “coração” humano é que a forma daquilo que é “erótico” seja, simultaneamente, a forma do ethos, ou seja, daquilo que é “ético.”.
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29/10/1980 – Bicoeur qualificou Freud, Marx e Nietzsche como “mestres da suspeita” e se torna ao temo da tríplice concupiscência como parte dessa mesma interpretação sobre o homem munido por desejos. Porém, no Bíblia a tríplice concupiscência não constitui o fundamental, talvez único e absoluto critério da antropologia e da ética. Temos que recordar João 2.15-16 no tocante à “teologia da concupiscência” para compreendermos que Mateus 5.27-28 é um apelo ao coração.
15/10/1980 e 25/10/1980 – No ethos do Sermão da Montanha, o coração é acusado ou chamado ao bem? Como pode e deve proceder o homem? Na interpretação do ethos e da praxis, o homem histórico avalia sempre o seu próprio “coração” à sua maneira, tal como também julga o próprio “corpo”. O maniqueísmo pode parecer em sintonia com as duras palavras de Mateis 5.29-30  (“arrancar o olho”, “cortar a mão”), no entanto, o coração não é acusado nem o corpo condenado no Sermão da Montanha. O corpo é chamado a tornar-se a manifestação do espírito, o que pode ser realizado também através da união conjugal com direitos invioláveis (Mt 19.5-6) cuja redenção do corpo não indica o mal ontológico (do corpo). Salienta-se apenas a pecaminosidade do homem quando o sentido esponsal do corpo se confunde com a concupiscência, Neste ponto, uma atitude maniqueísta levaria a aniquilação do corpo, negando o valor do sexo. O ethos cristão é caracterizado pela transformação da consciência e das atitudes da pessoa humana. para realizar o valor do corpo e do sexo. No maniqueísmo, o corpo e a sexualidade constituem um “anti-valor”. O enunciado cristão não pressupõe que o desejo seja um mal em si e sim um olhar com um desejo desordenado onde o coração é chamado a descobrir um sentido pleno. O maniqueísmo é estranho ao Evangelho.
24/09/1980, 01/10/1980 e 08/10/1980 – Como pode se cometer o adultério sem o ato exterior? A crítica de Cristo Jesus mergulha na Lei objetivando o seu pleno cumprimento, contrariando os que adotavam os casuísmos e interpretações do adultério apenas no sentido de se cobiçar a mulher do próximo, assim como na não  observância da monogamia. A intencionalidade cognitiva, por si mesma, não indica o problema da concupiscência quando o ser humano se serve do outro em dimensões utilitaristas, um problema que parece depender da própria dignidade pessoal.  Jesus Cristo se refere a olhar para “a mulher” e, neste aspecto, de forma ampla, o adultério no coração pode ser considerado até mesmo no âmbito de marido e mulher, quando o marido olha para a própria esposa somente como objeto de prazer, por instinto, sem comunhão, o que neste aspecto, demanda uma interpretação teológica tendo um peso maior que a psicológica.
O Sermão da Montanha está longe de fazer apologia ao maniqueísmo pois não se trata de pôr em questão a importância da vida sexual, a necessidade do fazer sexo, que pode e deve servir a construção da unidade  de comunhão, nos seus recíprocos relacionamentos, na dimensão objetiva da natureza humana acompanhada pela finalidade procriativa que lhe é própria. A questão do adultério cometido no coração em Mateus 5.27-28 suscita uma questão no tocante a se devemos tratar a severidade dessas palavras, ou antes ter confiança no seu conteúdo que salva, no seu poder?
17/09/1980 [3] – Diferentemente da concepção psicológica do desejo, a abordagem de Cristo Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5.27-28) se volta ao que acontece no coração sob um engano que separa o homem da comunhão que vem pela compreensão do significado esponsal do corpo. O olhar enfatizado por Cristo Jesus evidencia um conflito na consciência que afeta a dignidade da pessoa, a tornando envolvida como objeto pelo desejo e pelo prazer. O valor do sexo faz parte da riqueza humana que deveria libertar uma gama de desejos carnais-espirituais de natureza pessoal e de comunhão, no entanto, quando a concupiscência é inserida no âmbito do olhar (Mt 5.27-28), que vai de um ato cognitivo ao conhecimento do que se deseja (appetitus), onde só há a finalidade de satisfação sexual do corpo, essa riqueza se reduz de maneira que o sexo passa a ter um fim em si mesmo,  limitando assim uma diversidade que une as pessoas pelo significado esponsal do corpo.
13/08/1980, 27/08/1980, 03/09/1980 e 10/09/1980 [3] – O adultério falsifica o sinal da comunhão das pessoas, sendo a antítese da relação esponsal, antinomia do matrimônio; é um pecado de ruptura da aliança pessoal do homem e da mulher. O casuísmo diante do tema estava expresso na prática da poligamia tendo como referência a instituição das concubinas. As prescrições e as penalidades do legislador se moldavam de acordo com as conveniências de uma sociedade que submetia a mulher a um peso de maior severidade em casos de traição. No Sermão da Montanha, Cristo Jesus apresenta uma interpretação da Lei fazendo um  apelo à consciência do homem de todos os tempos e lugares diante de um pecado onde era comum haver mais uma preocupação com a aparência de decência e das consequências, do que com o mal em si. Os  elementos teológicos que envolvem o tema adultério indicam significados voltados à própria fé além da relação homem-mulher no casamento, tendo uma profunda relação com um povo por ilustração no papel de esposa infiel para com o “esposo” Deus-Javé, algo constante nas tradições de textos de Oseias e Ezequiel, entre outros, mediante o problema da idolatria onde a monogamia e a fidelidade estão para o monoteísmo assim como o adultério está para o politeísmo. A tradição sapiencial (Ben Sira)  compõe uma vasta base teológica onde é comum a abordagem da concupiscência do homem empenhado em atender aos sentidos, não encontrando sossego e se consumindo em uma insaciável busca para satisfazer os desejos. O adultério no Sermão da Montanha é assim uma releitura diante de tradições onde Cristo Jesus se volta ao “princípio”, atravessando preceitos, legislações, superando casuísmos, aprofundando a abordagem até onde nasce o pecado, enfatizando o ato de olhar como algo que exprime o que está no coração, revelando o homem interior a ser confrontado com o sagrado e o significado esponsal do corpo que dá sentido de comunhão entre as pessoas pelo matrimônio.
06/08/1980 e 13/08/1980 – Nasce nasce no coração, o adultério, e é cometido no homem interior: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração”. Em Mateus 5.28 Cristo Jesus faz um juízo realista sobre o legalismo religioso que servia casuisticamente para aliviar o entendimento sobre os reais  significados do adultério e do casamento. A Lei é um meio para superabundar a justiça e não um conjunto de preceitos ou legislação para quem quer viver de aparência. Porém, no lugar deste pleno cumprimento, o qual Cristo Jesus propõe no Sermão, os legalistas procuravam atender aos desejos daqueles que queria se manter bem aos olhos da religião convencional, cumprindo determinadas orientações enquanto se sentiam livres para cometer adultérios que não eram vistos assim, ou desvirtuando o casamento pelo divórcio  que banalizava o sagrado em torno da mesma Lei, pela “dureza dos vossos corações”. A interpretação da Lei de acordo com interesses de conveniência de cada um servia para fazer parecer que as ordenanças estavam sendo cumpridas em torno do que se entendia por fidelidade e casamento, além de tratar como aceitável o costume de ver a mulher como objeto ou direito de propriedade por parte do marido.
O Antigo Testamento está repleto de casos de poligamia mantida pelos desejos ou pela concupiscência “dentro da lei”, onde adultério era compreendido como posse da mulher de outrem. Adúltero era aquele que tomava a mulher ou a “propriedade legal” de outro homem. Cristo Jesus vai ao princípio para mostrar essa deformação da Lei visando dar pleno cumprimento, e nesse contexto se pode compreender o caso da “mulher adúltera”, quando prestes a ser lapidada se vê diante da intervenção de Cristo Jesus que expõe a hipocrisia de quem se via dentro da Lei: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra” (Jo 8.7). Em seguida, Ele aponta ao que interessa na aplicação da Lei e conclui falando à mulher: “Vai e doravante não tornes a pecar” (Jo 8.11). A consciência sobre o bem  e o mal pode ser mais profunda e correta que a normal legal [2].
30/07/1980 – Se o homem se relaciona com a mulher a ponto de a considerar apenas um objeto, para dela se apropriar, e não como dom em uma comunhão plena, simultaneamente, se condenará a si mesmo a tornar-se também ele, para a mulher, somente um objeto de posse. Embora em Gênesis 3.16 se expresse “ele dominar-te-á”, se referindo ao homem em relação à mulher, o texto pode ser visto como bilateral, no entanto, o domínio, a transformação do ser humano em posse do outro olhando para o sentido sexual, entre outros, acontece sobretudo mais à custa da mulher, que sente mais esse domínio. Em Mateus 5.27-28 há um paralelismo, talvez dando ao ser humano masculino uma função de maior responsabilidade sobre a reciprocidade para ser uma espécie de guardião do dom (relacionamento esponsal, em comunhão) e não pela transformação do outro em mero objeto de prazer e posse. Tendo o domínio do masculino sobre o feminino, parece cair nas costas do homem varão uma maior responsabilidade. diante deste problema, algo que se aplica, talvez, por conta marginalização social da mulher, considerando o contexto das Escrituras, envolvendo o Sermão da Montanha.
A crise no Jardim do Éden e o distanciamento do ser humano do significado original do corpo, no relacionamento sexual, acabou dando à expressão “uma só carne” um outro sentido; em vez de um pertencer ao outro pela comunhão mediante os dons, se passou a predominar uma união onde o outro se torna posse para o gozo pessoal e egoísmo, operando assim outra lei, a do desejo insaciável, da concupiscência, que opera contra a lei da razão, aqui lembrando Romanos 7.23, indicando o perigo do desejo do corpo ser mais forte que o desejo da razão. No lugar da comunhão plena entre pessoas, uma mera satisfação corporal se impõe. Então, para entender o apelo de Cristo Jesus feito ao coração do ser humano, no Sermão da Montanha, é necessário entender esse componente antropológico.
25/06/1980 e 23/07/1980 – O conflito em Gn 3.16 não se explica apenas considerando o corpo, na sexualidade somática, e sim nas mais profundas transformações sofridas no espírito humano, insaciável, que culpa o corpo, o privando de sua simplicidade e pureza. O contexto do sentimento de vergonha com a nudez e o corpo em si, com o fim da inocência, é uma experiência secundária em relação a essa consciência, que aponta o desejo que vem do coração por meio de estímulos do corpo que apontam a uma relação de tornar o outro um instrumento de posse, corporalmente um objeto desejo, prazer e, ao mesmo tempo, opera como alerta funcionando como dispositivo de proteção da própria consciência. Gênesis 3 é surpreendentemente eloquente e penetrante sobre o significado do corpo, em se tratando de um texto arcaico. A ação do homem interior diante da relação do corpo e do espírito é determinada pelo coração, o mesmo que Cristo Jesus se refere no Sermão da Montanha, onde se constitui a história do pecado e da salvação, revelando a profundidade e a própria raiz da sua historicidade, cuja concupiscência se evidencia como verdadeira deformação do significado do corpo e da relação de amor homem-mulher. O corpo humano, além de fonte de fecundidade, é esponsal exprimindo o amor que torna a pessoa humana um dom, bem como firmando um sentido profundo de seu próprio ser e existir. Sendo a concupiscência um fenômeno do corpo, o convertendo em objeto de atração, a masculinidade e a feminilidade então quase perdem a capacidade de exprimir esse amor e essa comunhão homem-mulher. Este “quase”  significa que o coração do ser humano se tornou um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Quanto mais prevalece o domínio da concupiscência no coração, ou seja, a prioridade pelos desejos e o tornar o outro mero objeto, mais o significado esponsal do corpo deixa de ser experimentado. Nessa tensão entre amor e desejos, entre a exploração do outro como posse e prazer e a comunhão verdadeira entre duas pessoas,  operam em conflito a concupiscência e o amor,  cabendo ao ser humano manter o próprio coração sob controle.
04/06/1980 e 18/06/1980 – O colapso da relação humana com o Criador narrado no Éden e a radical mudança do significado da nudez, impactou a plena comunhão homem-mulher. Sem a simplicidade e a pureza, ocorre uma perturbação na relação interpessoal onde o corpo, na masculinidade e na feminilidade, constituía o substrato próprio dessa comunhão. O fim da inocência original é sucedido por uma percepção brusca da diferença de sexo sentida e compreendida (Gn 3.7), como se a sexualidade se tornasse obstáculo na relação homem-mulher, com a concupiscência e uma quase constitutiva dificuldade de identificação com o próprio corpo. Com o pecado original e a consequente perda da plena comunhão e do profundo significado de uma relação onde o corpo é um componente diante de algo maior, sucedeu então um anúncio do domínio do ser humano masculino sobre o ser humano feminino (Gn 3.16).  A história das consciências e dos corações humanos confirmará continuamente o que está descrito no Gênesis (3.16) em um amplo contexto de relações onde a mulher se torna submissa ao homem. Em vez de unidos, o ser humano homem e o ser humano mulher ficam divididos ou contrapostos por causa da masculinidade e da feminilidade.
28/05/1980 – Saindo a inocência no ser humano, ocupando em seu lugar o da concupiscência, torna-se evidente o medo mediante uma vergonha que é “cósmica”, substituída por outra forma de vergonha, imanente, produzida pela humanidade na íntima desordem na unidade espiritual e somática do homem (varão e mulher), que perde a força do espírito que o elevava ao nível da imagem de Deus, pré-anunciando assim uma inquietação de consciência ligada à concupiscência, onde opera o desejo, ao mesmo tempo em que nasce o pudor, ilustrado no uso das “folhas de figueira” para esconder a nudez (Gn 3.7). O coração humano afastado da simplicidade original e da plenitude dos valores,  após a queda diante do Criador, conserva, simultaneamente, o desejo e o pudor, este último com um duplo significado: aponta a ameaça do valor e, simultaneamente, preserva interiormente esse valor; a vergonha opera no interior do homem, para garantir valores que a concupiscência tira. A vergonha que nasceu no Éden tenta neutralizar o desejo na intimidade do ser, no coração, e assim se pode começar a compreender melhor porque Cristo apela ao coração humano para definir o adultério como um pecado que nasce no interior da pessoa, no desejo (no olhar malicioso, com segundas intenções), não sendo apenas definido pelo ato exterior em si.
16/04/1980, 23/04/1980, 30/04/1980 e 14/05/1980 – Pautando-se no problema do adultério, Cristo revisa o modo de compreender a Lei de Moisés acerca do divórcio, inserindo uma grande mudança no Ethos, visando dar seu pleno cumprimento (Mt 5.17). Cristo apela ao coração do homem (Mt 5.27-28) para que a sua justiça supere a dos escribas e fariseus, cuja casuística diante da Lei abria para “escapatórias legais” a deformando. No Sermão da Montanha, Cristo promove uma forma de interpretar a Lei que nos faz entrar na profundidade da própria norma e descer ao interior do homem-sujeito da moral. Desta forma o pecado não se caracteriza apenas no ato visível, mas nasce no desejo mais íntimo, no coração humano. Cristo nos desperta ao pleno sentido ético e antropológico do enunciado (“não cometerás adultério”, Ex 20.14). O mundo é um dom e na ruptura que ocorreu no Éden, quando o homem deu as costas para o Criador, se tornou o lugar e a fonte de uma tríplice concupiscência: da carne, dos olhos para desejar e da soberba de vida (I Jo 2.16-17). Morreu a inocência e nasceu vergonha; o homem descobriu que estava nu diante de si mesmo e do Criador. Esta ruptura provocou um colapso no ser humano quanto à aceitação do próprio corpo, perdendo, de algum modo, a certeza original da “imagem de Deus” em si mesmo vivenciando uma “vergonha cósmica”. Uma relação rompida pelo pecado e como consequência trouxe o desgaste e uma luta diante da natureza; indefeso, o ser humano passou a experimentar a fadiga e a morte. Diante das origens, o apelo de Cristo no Sermão da Montanha se dirige a todos os seres humanos descendentes à mesma história, para que se voltem ao próprio coração e assim mergulhem na dimensão à qual está diretamente ligado o sentido do significado do corpo e a ordem desse sentido.
26/03/1980 e 02/04/1980 – Homem e mulher no “conhecimento” que significa a união conjugal, possuídos ambos pela humanidade, nessa experiência se veem diante da geração de um semelhante, um filho, enquanto  detentores de um mandato (“sede fecundos e multiplicai-vos”, Gn 1.28) dentro do mistério da criação, o que pode ser entendido como posse, mas seria um equivalente bíblico para o eros? A posse se relaciona à primeira parte do mandato do Gn 1.28 no ciclo do *conhecimento-procriação* e não à transformação da mulher em objeto para o homem e vice-versa. Com o pecado, o ciclo do conhecimento-procriação foi submetido à lei do sofrimento e da morte, permanecendo o significado da união matrimonial em “uma só carne”, *conforme o apelo de Jesus Cristo ao “princípio” (Mt 19.3) diante dos fariseus acerca do questionamento sobre o divórcio como ato lícito na Lei de Moisés, a resposta de Cristo os contraria na concepção de que não separe o homem o que Deus uniu, refletindo uma compreensão que envolve uma “visão integral do homem”. Esta é a resposta de Cristo inclusive a um questionamento contemporâneo acerca do sacramento do matrimônio diante do divórcio. Para quem busca no matrimônio o caminho da salvação e da santidade, a resposta de Cristo aos fariseus é particularmente importante na teologia do corpo para o conteúdo de sua vida  na vocação sob uma profunda consciência do significado do corpo na sua masculinidade de feminilidade considerando um contexto de uma civilização sob pressão de um modo de pensar e julgar materialista e utilitário.* A “redenção do corpo” mediante o matrimônio vai além do que a biofisiologia contemporânea pode explicar de forma tão precisa acerca da sexualidade humana, pois tem a Palavra de Deus como fonte para a dignidade pessoal do corpo humano e do sexo.
05/09/1979, 05/03/1980 e 12/03/1980 – Cristo aponta para o “princípio” em diálogo sobre os fundamentos da família e a a indissolubilidade do matrimónio (1 Mt 19, 3ss; cf etiam Mc 10, 2ss.), e evita enredar-se nas controvérsias jurídico-casuísticas. A união conjugal é “conhecimento”; não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto e sim como participante do jadac [1] (“conhecimento”)  do homem, ser humano, varão e mulher, de um pelo outro para uma descoberta mais profunda do significado do corpo. No ato sexual  o homem (masculino e feminino) entra em um nível mais profundo de humanidade. Em um primeiro momento estava só, em seguida foi agraciado com a companhia humana feminina sendo assim possível naturalmente conhecer um significado mais intenso da experiência de humanidade na união em “uma só carne”. Trata-se de um conhecimento mais avançado da pessoa humana se descobrindo como “esposo” e “esposa”.  Tal conhecimento condiciona a procriação como potencialidade particular do organismo feminino. No Gênesis, as palavras dão testemunho no primeiro nascimento, de tudo o que se pode e deve dizer da dignidade da geração humana.
Primeira publicação em 28 de março de 2021 às 13:10:20
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Notas:
  1. Não se trata de um conhecimento meramente intelectual, mas também de uma experiência concreta.
  2. Sobre esta última parte em que o papa encerra a lição, tenho outra síntese, minha, pessoal, que abordei em um sermão em 2006, um dos últimos que dei antes de sair do seminário e desistir da carreira de pastor: Jesus e o episódio da mulher adúltera, expõe a confusão comum que se faz entre legislação e virtude ou moralidade. Nem tudo que é legal é necessariamente belo, moral, muitas vezes é pura inversão de valores.É quando a legislação é usada para proteger infratores, hipócritas e punir severamente o lado mais fraco, frágil da história, desvirtuando o pleno cumprimento da Lei;
  3. De 1979 a 1984, o papa João Paulo II trouxe lições nas quartas-feiras no Vaticano, tratando sobre problemas de antropologia e teologia moral-sexual.Aulas de 13/08/1980, 27/08/1980, 03/09/1980, 10/09/1980 e 17/09/1980Em mais um encontro com o meu póstumo novo professor de teologia, se iniciou uma análise pela qual chamei de “anatomia do olhar”, a partir dos versos do Sermão da Montanha em que Cristo Jesus aborda o adultério:”Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’.Eu porém vos digo,: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração.”Mateus 5:27,28, com tradução da Bíblia de Jerusalém.
    Grifei o “eu porém vos digo” e “olha para uma mulher com desejo libidinoso” porque o primeiro destaca que Cristo Jesus se volta a uma imensa tradição das Escrituras ao tratar do adultério, pecado que acabou sendo banalizado pelos casuísmos de legisladores religiosos. Esse problema é exaustivamente explicado pelo papa, com citações de textos bíblicos, onde os tais “casuísmos” serviam para dar um “jeitinho” quando se traía a esposa e não havia a caracterização de adultério pela religião. Os jeitinhos dos casuísmos eram convenientes também a quem desejava ter uma vida de poligamia (com várias esposas ou com concubinas), sem ser visto como adúltero bastando seguir alguns preceitos religiosos que os livravam das penalidades da Lei. O rabi Jesus de Nazaré, pleno sabedor dessas coisas, contraria o sistema, indo até a raiz do problema e no seu “eu porém vos digo” desconstrói as conveniências que faziam do adultério uma coisa típica da hipocrisia religiosa, enquanto os mesmos adúlteros eram rigorosos quando flagravam uma mulher traindo o marido. O papa João Paulo II destaca nas lições esse juízo deturpado, tendencioso, degenerado, dos escribas e fariseus que pesava muito miais sobre as mulheres em favor dos homens, sobretudo os de maior prestígio de uma sociedade notadamente patriarcal (acho que as feministas vão adorar as riquíssimas análises críticas que o papa fez nessas lições, de textos da tradição sapiencial, como o de Ben Sira, quanto a isso). O episódio da “mulher adúltera” ilustra bem o juízo de Cristo Jesus desarmando a hipocrisia que tomava conta das tradições religiosas do apedrejamento de mulheres flagradas em adultério, na época.
    Então, no texto do Sermão da Montanha, Cristo Jesus diz, “eu porém vos digo” porque o que vem em seguida é uma desconstrução avassaladora dos tais casuísmos, das conveniências, das malandragens de quem praticava o adultério e, ao mesmo tempo, era bem visto por seguir os preceitos da (hipócrita) religião formal dos escribas e fariseus:
    Eu porém vos digo,: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração.”
    No desenvolvimento das lições, argumenta o papa que, diferentemente da concepção psicológica do desejo (onde esse fenômeno é visto de modo natural à nossa espécie, o que é evidente e válido do ponto de vista científico, sendo relevante), a abordagem de Cristo Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5.27-28) se volta ao que acontece no coração, a fonte onde o mal surge e se enraíza até o olhar. É o coração humano que passa a ser palco de um engano sobre o desejo que separa o homem da comunhão que vem pela compreensão correta do significado esponsal do corpo. O “olhar” enfatizado por Cristo Jesus (“todo aquele que olha para uma mulher com desejo”) no qual o termo “libidinoso” enfatiza o contexto de não ser a própria esposa, é o que caracteriza o adultério, evidenciando um conflito de valores na consciência que afeta a dignidade da pessoa, a tornando envolvida como objeto submissa pelo desejo e pelo prazer.
    Talvez surpreenda alguns que, nas lições, o papa considera o valor do sexo (ato sexual) como parte da riqueza humana que deveria libertar uma gama de desejos carnais-espirituais de natureza pessoal e de comunhão, no entanto, quando a concupiscência é inserida no âmbito do tal olhar (malicioso em meio ao desejo carnal fora do casamento), esse fato vai de um ato cognitivo ao conhecimento do que se deseja (appetitus), onde se estabelece a exclusiva finalidade de satisfação sexual do corpo, e então essa riqueza do sexo se reduz de maneira que o desejo sexual passa a ter um fim em si mesmo,  é o sexo pelo sexo, limitando assim uma diversidade (corpo-espírito) que une as pessoas através do significado esponsal do corpo, no casamento, na monogamia marido e mulher, como amantes de corpo e alma em comunhão com um sentido pleno.
    É o “olhar” que revela o que está no coração, o homem interior, que passa a ser confrontado com o sagrado e quando isso se dá fora da união matrimonial esse olhar é de adultério para o rabi Jesus de Nazaré. O papa enfatiza que Cristo se volta ao coração onde nasce o pecado do adultério, que falsifica o sinal da comunhão das pessoas, sendo a antítese da relação esponsal, antinomia do matrimônio; é uma ruptura da aliança pessoal do homem e da mulher.
  4. Até este ponto a obra de São João Paulo II reflete uma rica teologia que pode surpreender não apenas católicos, mas também protestantes. Os principais pontos em destaque:  1. A UNIÃO CONJUGAL FAZ PARTE DO CONHECIMENTO DA NOSSA HUMANIDADE. A união conjugal é “conhecimento” e não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto de prazer.  No ato sexual  o homem, aqui no sentido de ser humano masculino ou feminino, munido por uma comunhão, entra em um nível mais profundo no conhecimento de sua humanidade onde a procriação é uma potencialidade particular do organismo feminino. 2. O ATO SEXUAL FAZ PARTE DA DIGNIDADE HUMANA E DA “REDENÇÃO DO CORPO”. A união conjugal é uma forma de “redenção do corpo”, um caminho para santificação, no entanto a crise no Jardim do Éden subverteu esse entendimento para uma visão materialista e utilitarista onde o outro é muitas vezes visto como mero objeto de posse e prazer, algo que passou a confundir o sentido do matrimônio ou até mesmo banalizado pelo legalismo religioso diante da concupiscência induzindo  o ser humano a encontrar formas de tentar conciliar os mandamentos sobre a fidelidade no casamento monogâmico com práticas de poligamia e adultério, este último visto como um pecado mais por ato de relação sexual com a mulher de outro, evidenciando mais uma vez a visão da mulher como um objeto ou posse do homem e não como um ser humano a participar no processo de comunhão onde o ato sexual faz parte do dom do amor, sendo assim necessário, fazendo parte do caminho de enlevo da dignidade e do crescimento pessoal através do casamento. 3. JESUS CRISTO (em Mateus 5. 27-28) FAZ UM APELO AO CORAÇÃO, UM CAMPO DE BATALHA PELO DOMÍNIO DO SER HUMANO. Jesus Cristo aborda os temas do casamento e do adultério banalizados pelo sistema religioso à época, remetendo todos a uma reflexão sobre as origens e o valor profundo da união conjugal, apelando ao coração do ser humano, não para acusá-lo, mas para fazê-lo ser usado como meio para o bem. O coração é um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Em Cristo Jesus o coração não é acusado nem o corpo condenado, tampouco o sexo. O desejo em si não é um mal e sim um olhar com um desejo desordenado. O ser humano é então convidado a se voltar ao coração para se tornar firme na manifestação do espírito, o que pode ser realizado através da união conjugal.
  5. Quando o erótico não está em conflito com os ensinamentos do Sermão da Montanha.  O papa mais uma vez trabalha na teologia do corpo o sexo com aspectos éticos vivenciados a partir dos ditos de Cristo Jesus no Sermão da Montanha. O uso do termo erótico que deriva do grego eros, considerando uma conotação diferente vista na filosofia de Platão. Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo em conflito. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica pela visão platônica à luz de Mateus 5.27-28 onde o erótico é concebido na forma do que é ético.
  6. Uma síntese dessas duas lições do papa pode ser pelo famoso dito “cuidado com as aparências”. Os “sepulcros caiados” dos ditos na crítica em Mateus 23.27 se associam a esta interpretação papal. E nas relações humanas não é raro encontrar quem seja limpo, agradável, por fora, enquanto imundo, podre, repugnante, por dentro;
  7. O papa retornou para dar as lições seis meses depois de sofrer uma tentativa de assassinato, onde foi baleado uma semana depois da lição anterior; ato terrorista ocorreu em uma quarta-feira, 13 de maio de 1981, pelo turco Mehmet Ali Ağca;
  8. Teoria elaborada por Aristóteles (Grécia/Estagira, 384 a.C – 322 a.C ) que influenciou a Escolástica.

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