Uma leitura ao dia reverencia o compositor Samuel Osborne Barber II (EUA/Pensilvânia/West Chester, 1910-1981) em sua obra prima Adagio for Strings, Op. 11, pela filarmônica de Viena sob a regência de Gustavo Dudamel.

13/04/2024 13h23

Imagem: Círculo de Cultura Bíblica

Sarah Flower Adams

Nearer, my God to Thee
Nearer to Thee
E’en though it be a cross
That raiseth me
Still, all my song shall be
Nearer, my God to Thee.

Obra: Nearer, My God, to Thee. Public Domain. Courtesy of the Cyber Hymnal em hymnary.org. De Sarah Fuller Flower Adams (UK/England/Harlow/Old Harlow, 1805-1848).

Mais Perto Quero Estar – por pastor Abdoral

Do alto da montanha nesta sabatina tarde medito ao som de Mais Perto Quero Estar pela Igreja Memorial Batista de Brasília, sobre o que escrevera meu amigo de infância na Leitura desta última quinta (11).

Ao som do hino cuja letra é da poetisa britânica unitariana e a música é do americano Lowel Mason (1792-1972) [212], fiquei a pensar nas entrelinhas deixadas por meu infante amigo quando se refere à ausência da atmosfera do sagrado “em algumas igrejas ‘protestantes'”. Primeiro, as aspas para protestantes me inclinam a coadunar com o anacronismo do termo e assim prefiro o “católico de rito não romano” para definir cristãos normalmente chamados de “evangélicos”, visto que todo católico romano confessa uma fé herdada da igreja primitiva que foi apostólica e evangélica; em segundo lugar, a atmosfera do sagrado na fé católica romana é fruto de riquíssimas tradições que atravessam dois milênios e compõe uma liturgia onde os sinais externos da graça divina definem esse invólucro, sendo a transubstanciação uma doutrina chave para se entender porque os católicos romanos adoram a hóstia consagrada. Muitos “protestantes” desprezam esse ponto fundamental da missa porque não entendem – ou se recusam a entender – que a celebração católica romana consolida uma forma mais prática de adoração e abertura à experiência de comunhão com Deus. Afirmo “uma forma” que é menos metafísica do ponto de vista de uma outra, e aqui essa “outra” me refiro a que é celebrada por “católicos não romanos” que celebram uma fé cristã diferente mediante a transubstanciação romana. Digo “diferente”, sem intenção de entrar no mérito de ser “melhor” ou “pior”, simplesmente é uma experiência de fé diferente onde a presença sai de uma concretude e se volta a uma internalização, não que os católicos romanos não experimentem essa sentimento interior na fé, mas tão-somente que os “protestantes” vivenciam uma experiência de fé onde a presença de Deus utiliza meios mais metafísicos, abstratos ou, em um sentido mais direto, simbólicos, enquanto são intensos na intimidade de cada ser que a pratica.

212. Ver nota no Hinário para o Culto Cristão. Hino 399, edição cifrada. BomPastor, 1997, Rio de Janeiro.

12/04/2024 22h52

Imagem: Al Jazeera

Ayatollah Khomeini

“Jihad means the conquest of all non-Muslim territories. Such a war may well be declared after the formation of an Islamic government worthy of that name, at the direction of the Imam or under his orders.[…]”

Obra: The Little Green Book. Selected Fatawah And Sayings of The Ayatollah Mosavi Khomeini. I. 1
Islam as a Revolutionary Religion. Bantam Books, 1985. Traduzido para o inglês por Harold Salemson. Do Ayatollah Ruhollah Musavi Khomeini (Irã/Khomeyn, 1902-1989).

Recife, agosto, 1994 – Foi pela economia que comecei a estudar essa personalidade do islamismo xiita, por conta do segundo choque do petróleo que a revolução por ele liderada provocou em 1979 e deixou os EUA em apuros em um processo de elevação de preços que se estendeu até 1986. Quando Khomeini estava para os gráficos do choque, ZW me falou que o islã é uma “religião revolucionária”, termo que logo associei ao que me era mais familiar à época: o socialismo marxista. Para um jovem de 19 anos que não entendeu bem o que ele queria dizer com “religião revolucionária”, restou a concepção do Ayatollah como um líder político-religioso assustador quando fui além dos efeitos econômicos que o seu regime provocou e me deparei com seus pronunciamentos contra o ocidente, entenda-se, com maior ênfase nos EUA, e sobretudo os “infiéis”.

A coletânea de fataawa e ditos do Ayatollah, chamada de O pequeno livro verde, veio-me em tempos pandêmicos, sendo uma demonstração de um islamismo que não cabe, penso, como maior referência para a compreensão dos muçulmanos, mas no ocidente, onde figuras como Khomeini ganharam notoriedade nas hipérboles que as narrativas da política costumam adotar para induzir o publico leigo para a generalização de “todo muçulmano ser isso ou aquilo”…

A separação entre religião e estado não faz parte da visão de mundo muçulmana, penso em relação a uma sociedade sob governo islâmico, onde não há expectativa de tolerância com outros credos. Penso agora em sociedades pluralizadas de credos e valores e não consigo imaginar como o islã ficará em termos predominantes. Uma coisa me parece óbvia, não será possível conviver socialmente com a visão de Khomeini que remonta, por exemplo, ao conceito de “impuro” a todo aquele que não confessa Allah e seu profeta e que por isso deve ser tratado como “excremento” (p. 28).

O trecho desta Leitura me remete à visão mais tipicamente xiita e radical relacionada com o tema da jihad que, por definição na obra, significa “a conquista de todos os territórios não-muçulmanos. Uma guerra que pode ser declarada após a formação de um governo islâmico digno desse nome, sob a direção do Imam, sob suas ordens. Será dever de todo homem adulto saudável se voluntariar nesta guerra de conquista a fim de colocar a lei do Alcorão no poder de um extremo ao outro da terra” (p. 1).

11/04/2024 22h35

Imagem: acervo pessoal

Duomo di Milano

“[…] quando vocês entram numa igreja católica vazia – como acontece ao viajarem por países europeus, uma vez que são lugares de grande interesse – logo percebem que se trata de um lugar especial com sua atmosfera sagrada.”

Obra: História do Pensamento Cristão. Capítulo IV. Catolicismo Romano de Trento ao Século XX. E. Sacramentos. ASTE, São Paulo, 2000. Tradução de Jaci Maraschin. De Paul Johannes Oskar Tillich (Alemanha/Starzeddel, 1886-1965).

Milano, 2018, dezembro – Recordação de minha primeira visão (imagem) quando entrei na Catedral de Milão, registrada por minha esposa. Um sentimento familiar me veio em relação ao trecho desta Leitura de Tillich, apreciada em 2004, de algo dito não por um fervoroso católico, mas por um dos teólogos protestantes mais importantes do século XX, o que pode surpreender muitos.

O silêncio, a beleza e a sacralidade que sinalizam o lugar de celebração de uma fé “onde Deus habita nas vinte quatro horas do dia”; na fé católica “Deus está sempre lá, de modo bem definido, no altar”, afirma Tillich (p. 218) ao abordar neste tópico os sacramentos, em especial a doutrina da transubstanciação; “o pão e o vinho são o corpo e o sangue de Cristo depois da consagração”, e assim explica no contexto do trecho que destaquei para enfatizar a diferença da atmosfera de uma igreja católica em comparação com uma igreja protestante. A presença de Cristo pela transubstanciação demarca o sentido católico e reflete na visão do altar que impacta os fiéis, penso, enquanto em uma igreja protestante, afirma Tillich em relação à presença que se celebra conforme a fé (penso aqui como um “protestante”).

Por um tempo refleti sobre essa provocante comparação do simbolismo protestante com o realismo da fé católica na presença de Cristo na eucaristia e os efeitos do altar que envolve todo o lugar; Tillich concluí que em igrejas protestantes “nada disso acontece. É por isso que as tentativas de algumas igrejas protestantes de permanecerem abertas para oração e meditação, durante o dia, não têm o mesmo efeito. Mas nas Igrejas Romanas, algo aconteceu e seus efeitos estão ainda lá – a presença do próprio Deus, do corpo de Cristo, sobre o altar” (p. 218).

Estava indo ao seminário em 2006 e bateu um saudosismo dos 16/17 anos de idade quando trabalhava em dois turnos e caminhava pela “Veneza Brasileira” para as aulas do ensino médio à noite, de maneira que andar pelo centro do Recife em um final de tarde tinha um significado especial e nessa experiência decidi entrar na Basílica de Nossa Senhora do Carmo (talvez, inconscientemente por conta dessa leitura de Tillich). Quando estive na Catedral de Milão me lembrei dessa experiência; o silêncio, o altar, a nítida demarcação para se separar do mundo lá fora. O mesmo sentimento tive ao entrar na Sacré Coeur em Montmartre (2020), na Capela Sistina (2019), na Basilica di San Francesco in Assisi (2018) e quando pude observar a Matriz na cidade onde resido, Vitória de Santo Antão; não importa a cultura, o país, a atmosfera romana se estabelece sendo a mesma. Em Torino experimentei a mesma sensação na Real Chiesa di San Lorenzo (2023). Em minhas viagens pela Europa, gosto de visitar igrejas antiguíssimas regadas a um silêncio e uma contemplação do sagrado que se dá pela crença na presença de Cristo. Percebi o quanto essa atmosfera abre boas conversas com Deus e refleti, Tillich tem razão. Outra constatação pessoal se deu quando estive na Santa Francesca Romana (2022), basílica do século IX em Roma e parei para meditar mais uma vez naquele silêncio nos fiéis e membros do clero, regado a um fundo musical que acolhe turistas de um lado para o outro; linda discrição de passantes em meio a riqueza imensa em arte sacra e, por um instante, pensei no vazio e na falta dessa atmosfera do sagrado em algumas igrejas “protestantes”, não apenas da aversão à forma sacramental e na arte (confundida com “idolatria”), não raramente, preenchidas com uma indiferença sobre o significado do local de culto, seja na forma de uma indiferença que enaltece o indivíduo, seja por atividades que, aparentemente, servem mais para o entretenimento de seus frequentadores.

10/04/2024 00h02

Imagem: acervo pessoal

Calle de Alfonso XII, 4

“¿No es un inconveniente preferir la patria a la libertad?”

Obra: Obras completas de José Ortega y Gasset. Tomo I (1920-1916). Nuevo libro de Azorín. El Imparcial, junio 1912. Revista de Occidente, 1966, Madrid. De José Ortega y Gasset (España/Madrid, 1883-1955).

Madrid, 2023, janeiro – Que pergunta provocante deixou Ortega y Gasset neste artigo produzido aos 29 anos de idade para o jornal que sua mãe herdara, pensei, enquanto entrava na Calle del Alfonso e olhava do outro lado o imponente Parque de el Retiro. Diante da lápide no número 4, finalmente estava diante da casa onde nasceu o filósofo espanhol, e lembrava o quanto a forma de pensar dele me influenciou na maneira de ver o mundo.

“Pátria, pátria! Nome divino, que cada um aplica à sua maneira!” (p. 243), afirma, após citar Azorín (1873-1967) e Cadalso (1741-1782), e lembrar um tom patriótico em que se despreza a liberdade, por parte de um professor de História da Espanha, da Universidade Central. O texto é de 1912 o que me sinaliza que antes do socialismo, do fascismo e do nazismo alcançarem o poder e iludirem muitos europeus, Ortega y Gasset, a caminhar para a meia idade, já tinha uma posição crítica refinada sobre um pilar dessas concepções políticas que descambam para o intervencionismo e o autoritarismo. Pensei como o “patriotismo” pode servir de camuflagem entre os que vivem na política e atuam tão-somente pelo poder concentrado em seus interesses apenas, não importa o lado; termos como “soberania nacional” e “segurança nacional” agrada a gregos e troianos da política, tendo forte apelo na opinião pública, em narrativas e ações melodramáticas que talvez escondam outros interesses, que vão dos privilégios a grupos do compadrio aos pés do governo e do aparato estatal, ao cerceamento da liberdade de expressão, como se as consequências, inclusive jurídicas, desse exercício não fossem suficientes. No meio desse jogo de interesses está o homem comum, muitos vezes bestializado, infantilizado, o cidadão-massa que se esvazia pelo coletivo, carente de valores que se desenvolvem na medida em que a liberdade é experimentada com o devido contrapeso da responsabilidade. É no mundo medonho do patriotismo dissimulado, não raramente, que o homem da manada prevalece, um sujeito sonâmbulo no refletir que prefere ser subjugado por um coletivismo que corrói seu senso de liberdade, e assim se torna um produto manipulado de uma tutela estatal conforme as conveniências ideológicas de quem está no poder.

09/04/2024 00h04

Imagem: Brown University

Thomas Skidmore

“Em suma, o autoritarismo brasileiro tornara tanto as instituições não elitistas quanto as elitistas da sociedade civil incapazes de ação autônoma importante. Seu medo e imobilidade refletiam o tipo de Brasil que os linhas-duras se esforçaram por criar.”

Obra: Brasil: De Castelo a Tancredo. VI. Geisel: rumo à abertura. Vozes da sociedade civil. Paz e Terra, 5a. reimpressão, 1988, Rio de Janeiro. Tradução de Mario Salviano Silva. De Thomas Elliot Skidmore (EUA/Ohio, 1932-2016).

Recife, 1996, agosto – Foi por recomendação de ZW que fui à Livro 7 adquirir esta obra. Um brasilianista americano a produzir uma história do período da ditadura militar da Pindorama (1964-1985), foi algo que me pareceu muito interessante e na conclusão da leitura as expectativas foram superadas.

No trecho desta Leitura (p. 356), Skidmore me fez pensar em uma característica nas sociedades brasileiras que, penso, está longe de ser herança apenas da ditadura 64-85 (penso no Estado Novo como um momento anterior), embora neste período o problema tenha se agravado: o autoritarismo da mentalidade política que se coloca em evidência e a passividade de brasileiros comuns. Instituições e cidadãos no Brasil não raramente são como zumbis; perambulam sem qualquer capacidade de reação contra a força de coerção e controle social que o aparato estatal representa e a ditadura militar 64-85 foi um período hiperbólico dessa servidão da brasilidade.

O contexto de um Brasil no ano em que nasci diz respeito a Ernesto Geisel (1907-1996) que assumiu a Presidência da República em um ambiente conturbadíssimo, de repressão, censura, tortura, então falava-se em um “novo diálogo com os líderes da sociedade civil” (p. 356). A Igreja Católica foi um dos pontos de tensão destacados neste capítulo. Representando a “igreja popular”, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tiveram rápido crescimento em meio a disseminação da teologia da libertação (p. 359), além de uma coordenação mais estreita na cúpula da CNBB (p. 360), além da reação da OAB como adversária do governo (p. 363), sinais que inquietaram a linha-dura.

O governo Geisel ficou apenas no discurso. Em 1974 Vladimir Herzog foi morto no quartel do segundo exército em São Paulo e o Cardeal Arns realizou um serviço fúnebre ecumênico, o que desagradou o governo e despertou a ira do coronel Erasmo que, em represália, quando o cardeal viajou para Roma, aproveitou-se da ausência e, com sua força de segurança munida de “cães de ataque pastores alemães”, “invadiram a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo destruindo equipamentos e materiais de pesquisa e espancando os estudantes e professores que não conseguiram escapar a tempo. Mais de 700 estudantes foram presos” (p. 360).

Não raramente pode ser encontrado em qualquer esquina um tipo acometido pelo que chamo de “síndrome do saudosismo por milicos”, e no tempo da graduação havia um que não gostou deste livro, por motivos óbvios. Além da passividade do brasileiro-massa, outra coisa que acho curiosíssima na brasilidade é esse tipo, chegado a lamber botas dos quartéis, que parece viver em um mundo paralelo aos livros de história em seu fetiche por homem de farda, como ZW costumava definir.

08/04/2024 00h01

Imagem: BBC

Ziraldo

Era uma vez um menino maluquinho.

Ele tinha o olho maior do que a barriga […]

Obra: O Menino Maluquinho. Melhoramentos, 2000, São Paulo. De Ziraldo Alves Pinto (Brasil/Minas Gerais/Caratinga, 1932-2024).

A partida do escritor, poeta, cartunista e jornalista deixa de luto a literatura brasileira.

Recife, 1991, janeiro – Não me recordo de ter contato com a obra (publicada pela primeira vez em 1980) nos anos 1980, quando atravessei o ABC e o ensino fundamental. A primeira vez que me lembro de ter visto O Menino Maluquinho foi na Livro 7. Nas férias escolares (já estudava à noite), gostava de passar por aquele mundo de livros quando largava do meu primeiro emprego e fazia uma caminhada do Bairro do Recife até a Sete de Setembro. Achava fascinante uma livraria daquele tamanho. Então a história do Menino Maluquinho prendeu minha atenção… Cerca de dez anos depois imaginei uma menininha com o pescoço maior do que tronco e a cabeça imensa com o cabelo se esparramando pelo chão… Quem sabe não seja um pingo do Ziraldo que ficou em minha imaginação…

Recife, 1995, novembro – ZW tinha me falado do Pasquim e eis que, no dia seguinte veio com uma cópia de uma edição com uma charge em francês como capa da revista que fez com a ditadura o que ela merecia: expô-la ao ridículo e de forma ironicamente fina ao se aproveitar da falta de classe e cultura de quem estava com a batuta. Então ZW me falou, “olha que gracinha fez o Ziraldo”; referia-se à capa com um fundo em um estereótipo de um cenário de praia tupiniquim e o título La mer… com o complemento que melhor se encaixava.

Dois grandes referenciais de valores me vêm à mente quando penso em Ziraldo; primeiro, o amor pelo trabalho como fonte de sentido para a vida. Ziraldo produzia muito porque amava o que fazia e isso para mim é inspirador; segundo, foi um mestre em fazer arte em um estado de síntese que transmite uma riqueza de conteúdo ao mesmo tempo em que supera a linguagem formal e alcança um mundo que desperta a um encontro do que se pensa com o que se sente, sobretudo, no universo infantil trabalhado por ele. A arte é uma forma de expressão que pode dialogar com a realidade mas tem sua autonomia pela imaginação em um encontro imensurável dos sentidos que a contemplam e operam a partir da lógica, enquanto nos apresenta o poético, e nesse encontro profundo há um fascínio um tanto lúdico que nos mostra que a beleza da vida tem dimensões onde a ficção desperta um tom de humanidade sem apelar para fazer da imaginação algo que seja confundido com o real, por se apresentar como tal, coisa tão comum e mais intensa em tempos de manipulação e fake.

O artista inventa em linguagem poética para dialogar com a inteligência e os sentimentos, o que nesse encontro o ficcional pode fazer aflorar a consciência de alguma verdade, já o produtor de fake inventa em modo de linguagem formal se passando como real, para manipular o público e disseminar o falso por meio da exploração de sentimentos e de carências de uso da inteligência.

07/04/2024 00h01

Imagem: DW

Karl Marx

“But the English bourgeoisie has also much more important interests in the present economy of Ireland. Owing to the constantly increasing concentration of leaseholds, Ireland constantly sends her own surplus to the English labour market, and thus forces down wages and lowers the material and moral position of the English working class.”

Obra: Karl Marx and Friedrich Engels Selected correspondence. Marx to Sigfrid Meyer and August Vogt In New York. Progress Publishers, 1975, Moscow. De Karl Marx (Reino da Prússia/Renânia-Palatinado/Tréveris, 1818-1883).

A imigração em massa é um tema bastante complexo; pelo mundo em ambientes de esquerda, filhos de Marx, é defendida arduamente em parlamentos e manifestações enquanto ocorre o contrário na direita dita “conservadora”.

A leitura desta obra se deu a partir do que apreciei em uma aula de Frederico Rampini no Festival Economia Trento, intitulada Il fallimento della sinistra Intersezioni, quando o jornalista e escritor falou sobre uma posição “embaraçante, impublicável” expressa por Marx acerca da imigração, quando comparada com o que se observa na esquerda da atualidade.

Encontrei então o que Marx escrevera no dia 9 de abril 1870 em Londres (pp 220-224), após analisar a situação crítica da economia da Irlanda e os efeitos que resultaram em imigração em massa de irlandeses, uma situação próxima do que ocorre na atualidade pelo mundo, por razões diversas; guerras, perseguições políticas e religiosas, além de crises econômicas.

Afirma meu herói ideológico da adolescência até o início da juventude que “a burguesia inglesa também tem interesses muito mais importantes em relação à situação da economia da Irlanda. Devido à concentração cada vez maior de arrendamentos, a Irlanda envia constantemente os seus próprios excedentes para o mercado de trabalho inglês, forçando assim a descida dos salários e diminuindo a posição material e moral da classe trabalhadora inglesa”., e a queda nos salários com a chegada de imigrados dispostos em situação de extrema pobreza, assim dispostos a aceitarem qualquer salário, provoca uma tensão com os trabalhadores nativos, no caso os ingleses. No que define como “antagonismo” entre classes laborais, Marx argumenta que nesta questão está “o segredo da impotência da classe trabalhadora inglesa, apesar da sua organização, é onde a classe capitalista mantém o seu poder”, ou seja, a imigração em massa, ao aumentar a oferta de recursos humanos dispostos a salários menores, em razão da situação crítica de pobreza, é um fator favorável aos tomadores de recursos, os empresários ou, na linguagem marxista, “a classe capitalista”; neste ponto, Marx demonstra lucidez sobre impactos econômicos da imigração em massa.

É curioso que os socialistas da atualidade, na medida em que incentivam a imigração em massa, sobretudo na Europa (cabe aqui pensar em outras motivações, muitas relacionadas a interesses de degeneração das sociedades destinatárias) em vez de promoverem abordagem em torno de causas dos fenômenos migratórios, preferem remediar e parecem ignorar este efeito nas economias face ao aumento abrupto de oferta de mão de obra que força queda de “preços” (salários), a beneficiar o lado da demanda (empreendedores). Marx pontua outro fator interessante a ser analisado no contexto atual: no caso da Irlanda, aponta um interesse comum na aristocracia inglesa em transformar o país vizinho em uma mera pastagem que forneça ao mercado inglês carne e lã a preços mais econômicos possíveis; os ingleses, segundo Marx, estariam interessados em reduzir a população irlandesa através do despejo e da emigração forçada para um número tão pequeno que o capital inglês (investido em terras arrendadas para agricultura) operasse com “segurança”, aqui entendo, sem maiores riscos de movimentos sociais que pudessem romper com a ordem estabelecida. Então, na apreciação de Marx, os capitalistas ingleses gozavam de duplo benefício; na Inglaterra, uma queda nos salários pelo aumento de oferta causado pelos imigrantes irlandeses, e por outro lado, o enfraquecimento de qualquer ameaça aos investimentos na Irlanda pela redução forçada da população local, fator que poderia representar uma força potencialmente perigosa em revoltas organizadas.

Paro para meditar quais seriam os interesses dos socialistas da atualidade em incentivar a imigração em massa? Seriam apenas relacionados a pulverizar as sociedades para enfraquecer suas tradições, abrindo um caminho para mudanças profundas nas ordens sociais, ou estariam também a serviço de grandes investidores interessados nos mesmos efeitos lucrativos que o fenômeno migratório pode provocar nos mercados, quem sabe no fortalecimento de regimes tirânicos, os quais se associam, nos países remetentes, enquanto ocorre a oferta massiva de recursos humanos para trabalhos onde os nativos nos países destinatários não se interessam muito em realizar?

06/04/2024 07h47

Imagem: SWR

Stefanie Stahl

“Pessoas que buscam harmonia a todo custo querem satisfazer as expectativas de todos à sua volta. Tendo descoberto ainda crianças que essa era a maneira mais eficiente de receber afeto e reconhecimento, aprenderam a sufocar seus desejos e sentimentos para se adequar ao máximo.”

Obra: Acolhendo sua criança interior. Capítulo 13. As estratégias de autoproteção da criança-sombra. Estratégia de autoproteção: obsessão por harmonia e hiperadequação. Sextante, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maurício Mendes e Vanessa Rabel. De Stefanie Stahl (Alemanha/Hamburgo, 1963).

Torno à obra em que consigo conversar com meu primeiro amigo de infância, minha “criança-sombra”.

Reflito acerca dessa infante companhia interior a começar pela agradabilidade e a gentileza que caracterizam sua obsessão por harmonia, a tal “síndrome do bonzinho”(p. 85), o que pode provocar desgastes em relacionamentos e até destrui-los, mediante o receio de desagradar, não raramente por distorção perceptiva sobre outrem visto como mais importante ou superior, o que faz evitar certos conflitos e a assim prejudicar a franqueza sobre sentimentos, pensamentos e intenções, passando a uma submissão voluntária não percebida, processo que flui para o ressentimento dessa aparente dominação e, nessa corrente de degeneração, dá-se um afastamento para proteção do “espaço pessoal”, não dando oportunidade a quem se tem por mais forte e dominador para um diálogo que possa romper essa sequencia de distorções tão comuns (p. 84).

E na ausência de um diálogo para intervir na erosão relacional, na medida em que se agrava, pode ocorrer uma inversão (vítima-agressor) em que a criança-sombra guia o adulto para um desvio da ameaça e assim, manipula com heranças da infância que são usadas para camuflar sentimentos no convívio social, quem sabe no acometimento do que se passa a fazer com outrem o que, por distorção via crença, está a fazer com quem sofre do ressentimento (p. 84).

Aprendi a rememorar situações para tentar identificar e neutralizar esse processo mediante esta experiência muito interessante de leitura da psicóloga alemã expert em fobia de compromisso.

05/04/2024 22h18

Imagem: confindustriaemilia.it

Frederico Rampini

“Disapprovava l’industrializzazione, signava un ritorno alla tradizione del vilaggio, un’arcaica autosuffizienza basata sull’agricoltura.”

Obra: La speranza indiana. Storie di uomini , città e denaro dalla più grande democracia del mondo. V. L’islam, gli inglesi, Gandhi: identità di una nazione. Mondadori, 2007, Milano. De Frederico Rampini (Italia/Genova, 1956).

Gandhi (1869-1948) “desaprovava a industrialização, sonhava um retorno às tradições da aldeia, uma arcaica auto suficiência baseada na agricultura” (p. 195); o jornalista, correspondente internacional e escritor italiano se refere a um ponto do pensamento econômico do líder espiritual indiano (p. 195) inclinado a apregoar um estilo de vida mais familiar à monástica, distante de uma sociedade moderna. Se fosse seguido à risca, teria afundado a Índia em uma miséria ainda maior em comparação com a colônia que padecia nas mãos dos ingleses. Contudo, a Índia na virada deste século já dava sinais de ser um país vibrante em termos de inovação tecnológica e crescimento econômico, em contraste com a Índia que saía do jugo britânico. Neste aspecto, aponta o autor, a super potência econômica é filha de Nehru (1889-1964), “um homem mais em sintonia com seu tempo” (p. 196) e que fora elevado politicamente por Gandhi.

Gandhi, em termos econômicos foi arcaico, saudosista dos antigos modos de produção comunitária e assim avesso à inovação tecnológica ; na filosofia, tornou-se um exemplo de autenticidade na defesa de seus valores. Como lembra Rampini nesta obra, Gandhi conduziu experimentos de seus ideais em si mesmo e, neste aspecto, penso, foi um filósofo por excelência; “a vida de Gandhi foi a sua lição” (p. 194), cita Rampini o diplomata e romancista Shashi Tharoor (1956). O mestre da não-violência refutava a busca da verdade por métodos não verdadeiros, não justos; os fins, em Gandhi, jamais justificam meios violentos ou fraudulentos contra adversários e, à mon avis, viveu uma filosofia impossível de ser aplicada no âmbito do pragmatismo que apetece ao mundo do poder.

Posteriormente o associaram à esquerda, mas, lembra o autor, Gandhi não foi um igualitarista, não renegou completamente o sistema de castas, tampouco apoiou a batalha dos agricultores pela distribuição de terras, além de manter-se desconfiado dos sindicatos de operários e dos marxistas (p. 195) ou, em outras palavras, Gandhi foi um ponto completamente fora dos rótulos políticos; incompatível com a esquerda, inconcebível com a direita, deslocado no oportunismo do centro.

04/04/2024 22h11

Imagem: flickr oficial

Olavo de Carvalho

“Se ele se sentir humilhado ao ler minhas palavras, sorte dele: a vergonha, dizia Nietzsche, é a mãe do aprendizado.”

Obra: Aristóteles em Nova Perspectiva. INTRODUÇÃO À TEORIA DOS QUATRO DISCURSOS. Aristóteles no Dentista Polêmica entre o Autor e a SBPC. I. DE RE ARISTOTELICA OPINIONES ABOMINANDÆ ou: Miados de um gato morto. XVII. Conclusão. Topbooks, 1996, Rio de Janeiro. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo, 1947-2022).

Este livro me vem por recordação sobre o que Olavo de Carvalho, Ludwig von Mises e Rudolph Bultmann, entre outros autores um tanto polêmicos, têm em comum na minha rebelde vida de leitor.

Recife, 2001, maio – Fui alertado por um exemplar docente da tutela educacional tupiniquim que o autor da obra que apreciava na ocasião, cuja primeira parte me pareceu por demais interessante e por isso a tinha separado para um melhor aprendizado, é “um curioso recalcado de artigo recusado na SBPC que passou a viver de pseudo-filosofia”.

Recife, 2003, setembro – Um badalado líder denominacional me advertiu a tomar cuidado com alguns professores do seminário (citou nomes os quais descobriria na instituição que se tratavam dos docentes mais íntegros e intelectualmente honestos em minha vida de estudante, bem diferente dos “ministros” que ele tinha bem recomendado). Advertiu-me porque, segundo suas crenças, tais docentes propagam a “infeliz” teologia liberal e, claro, encerrou a citar o clássico exemplo da demitização de Bultmann (foi a primeira vez que ouvi falar do autor) como um exemplo das “más influências” que encontraria por lá. Resultado do conselho: uma das primeiras coisas que fiz quando entrei no seminário foi ir à biblioteca para apreciar livros de Bultmann…

Recife, 2006, setembro – Outro exemplar docente da tutela (des)educacional tupiniquim definiu Mises como “um ultraliberal de extrema direita, pai da pseudoeconomia chamada ‘Escola Austríaca'”. Guardei a crítica e fui à biblioteca em busca de textos do autor tão mal recomendado; após o contato inicial com as obras de Mises, minha vida de estudante de economia entrou em um ciclo de mudanças profundas.

Os três autores amaldiçoados, de três áreas do saber bem distintas, ilustram minha personalidade ao reagir a quem tem a pretensão de conduzir o que devo ou não ler e estudar. Olavo, Mises e Bultmann acabaram sendo conhecidos em minha jornada literária não pelo que outros comentaram e sim por suas obras, para a decepção de quem se viu na posição de me “proteger” de concepções fora de suas respectivas bolhas de pensamento e manipulação.

A teoria dos quatro discursos considero ser o ponto extraordinário desta obra de Olavo e a exposição que ele faz sobre o parecer é outra forma, diria mais pragmática, intensa, provocante, de explicar a releitura que fizera de Aristóteles. Separei o trecho para citação (p. 173) porque me lembrei do sorriso que dei ao pensar na ocasião em que o docente doutor me advertiu sobre a “incapacidade” do autor; refiro-me à falta de argumentos, a uma pobreza de quem porta uma condição de autoridade que me sinalizou um quadro delicado onde a incompetência intelectual costuma se camuflar em diplomas e titulações acadêmicas; no lugar de suar o espírito para produzir o que possa efetivamente contribuir para o saber, prefere-se a conveniência de um viés pelo grupo dominante e assim penso acerca da polêmica com a SBPC, externada na obra, como uma referência para uma melhor compreensão da gravidade do que Olavo de Carvalho protagonizou como crítica sobre a situação débil que se pode observar na elite acadêmica brasileira.

03/04/2024 21h33

Imagem: Portal Geledés

Carlos Moore

“Salvo em raras ocasiões, os escravos do mundo greco-romano eram brancos europeus, considerados bárbaros.”

Obra: Racismo e sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Capítulo 2. A escravidão econômica generalizada greco-romana: primeira estruturação de um proto-racismo? Xenofobia ou proto-racismo? Mazza Edições, 2007, Belo Horizonte. De Carlos Moore (Cuba/Camagüey, 1942).

O intelectual cubano aponta que gregos e romanos eram “profundamente xenófobos”; enquanto a dominação greco-romana permaneceu na Europa, termos como “superior” e “inferior”, “livre” e “escravo” foram utilizados em relação a “populações vizinhas de raça branca”, mas isso mudaria quando o imperialismo alcançou o norte africano e o Oriente Médio (p. 55).

No contexto da expansão greco-romana, entre autores e obras, cita a Ilíada, de Homero, para apontar “simbologização” entre povos europeus e sedentários de pele negra (p. 56); Aristóteles em Fisiognomica para indicar o fenótipo como base para definir a natureza e a inteligência humana e lembra que o termo etiop, “cara queimada” (p. 56), conceitos aplicados para classificar de forma negativa os povos africanos. Entendi que Carlos Moore, neste ponto da obra, procura mostrar evidências por diversas referências bibliográficas, de que houve uma visão raciológica na antiguidade greco-romana mediante o problema da relação entre o genos e as qualidades morais de um povo (p. 71), o que se apresenta como uma antítese da visão do racismo como um fenômeno um tanto recente. Penso, e o autor desenvolve ao longo do capítulo, “greco-romano” deve ser pensado em dois momentos em termos imperialistas; o fenômeno grego, seguido pela supremacia romana (iniciada no século IV a.C.) que assimilou valores do primeiro (p. 75).

O capítulo trata de “um” proto-racismo a considerar que o autor discorre sobre proto-racismos que teriam surgido, por sua abordagem, em diversas partes do mundo antigo, entre os quais me chamou a atenção o relacionado a textos sagrados (a partir da p. 50).

02/04/2024 23h14

Imagem: Chateau de la Brède

Montesquieu

“Existem dois gêneros de corrupção: um quando o povo não observa as leis e outro quando o povo é corrompido pelas leis; mal incurável este, porque reside no próprio remédio.”

Obra: Do espírito das leis. Livro Sexto. XII Do poder das penas. Martin Claret, 2002, São Paulo. Tradução de Jean Mellville. De Charles-Louis de SecondatMontesquieu (France/La Brède, 1689-1755).

Recife, 1996, novembro – ZW voltou a perturbar a zona de conforto que me apetecia por meio de um professor de economia brasileira contemporânea; foi a primeira vez que parei para pensar como o sistema tributário brasileiro é contraproducente ao incentivar a corrupção, a informalidade e o desinvestimento. O docente, de nítido viés progressista, não gostou de ser questionado sobre o fato de que os países com as maiores rendas per capita e boas práticas nos sistemas corporativos terem legislações que, se fossem aplicadas no Brasil, seriam chamadas de regimes de “capitalismo selvagem” por entusiastas do jeito tupiniquim-esquerdista de ser. A apologia professoral ao Estado de Constituição Cidadã terminou um tanto abalada com a citação que fez de Montesquieu a qual replico nesta Leitura. “O brasileiro está corrompido pelas leis, problema essencial que Montesquieu trata em Do espírito das leis… temos um sistema tributário que não reflete a realidade de uma ordem de costumes e valores que se encontram no povo”, afirmou como síntese. Sete anos depois decidi ler a obra.

São Paulo, 2014, outubro – Os aplausos de uma plateia formada por maioria de advogados ao competente palestrante que abordou questões sobre o contencioso tributário no Carf, em um evento da ABAT, fez contraste com um comentário de um colega economista ao meu lado sobre a inviabilidade do Brasil se tornar um país de primeira divisão produtiva no cenário global com um sistema de leis que incentiva a indústria dos litígios tributários, força a criatividade dos jeitinhos, potencializa a corrupção e o clientelismo, além de ser um poderoso vetor de inconformidade fiscal. Citei então este trecho de Montesquieu e uma passagem de Bastiat sobre a diferença entre lei e legislação; o colega foi mais do quintal e citou Roberto Campos sobre a burrice ter um passado glorioso e um futuro promissor na nossa pátria mãe gentil.

Paris, 2023, janeiro – Ao passar no Louvre, parei e dei um sorriso ao ver a estátua de Montesquieu. Pensei em momentos diversos em que este pensador da literatura universal me provocou a lembrar questões do direito que se entrelaçam com economia e sociedade, desde o libertário ZW dos anos 1990 ao professor Adriano Gianturco que em um evento do Fórum da Liberdade afirmou que se todas as leis fossem cumpridas no Brasil, o país pararia. Pensei também no mestre Ariano Suassuna que lembrou uma distinção feita por Machado de Assis sobre o país real, do povo, bom e dotado dos melhores instintos, e o país oficial que é burlesco e caricato.

01/04/2024 00h01

Imagem: Acervo pessoal

Château de Versailles

“Quant au ministre de Ia justice, Danion, il ne fil pas le moindre gestepour proteger les prisons. Au commis de Roland, Grandpré, qui lui demandait d’agir, il répondit, d’après Mme. Roland : ‘Je me fous bien des prisonniers, qu’ils deviennent ce qu’ils pourrout!’ Et quelques jours plus tard, quand, Alquier, présideiit du tribunal criminei de Seine-et-Oise, vint le trouver pour rintéresser au sort des prisonniers de Ia Haute Cour d’Orléans que Ia bande de Fournier conduisait à Versailles pour les y massaerer […]”

Obra: La Revolution française. Tome II. La Gironde et la Montagne. Chaptre II. Septembre. Armand Colin, 1924, Paris. De Albert Mathiez (France/La Bruyère, 1874-1932).

Versailles, 2020, janeiro – Chegamos cedo e assim pudemos aproveitar bem as salas, os jardins e os aposentos ainda pouco movimentados, mas que logo ficariam cheios e aprés midi, abarrotados de turistas, apesar do frio e da greve (tradição do humor social francês) em serviços de transporte público.

De uma janela do palácio, por um instante, parei para pensar nas memórias daquele lugar, da cidade afastada, de que se tornou a França nos últimos dias da monarquia e da brutalidade do ser humano (um sentimento parecido com o que me ocorreu no Colosseo di Roma quando pensei nos cristãos e nos escravos assassinados naquela arena como entretenimento das arquibancadas). Senti uma forte emoção de estar ali e tirei a foto olhando para o portão de entrada em meio a toda aquela opulência em ouro, o que me impactou logo no portão de entrada, assim como as obras de arte e os móveis, tudo de uma riqueza monumental que me remeteu a lembrar o que foi possível naquela visita tão marcante com a história de guerras, pilhagens, apropriações, moratórias, golpes financeiros da corte que promovia alta carga de impostos, o que atormentou o meio produtivo e acendeu o espírito revolucionário, junto com a corrupção que envolvia os amigos do rei e o balanço fiscal com dívida estatal estratosférica que empurrava a sociedade ao custeio de uma corte de um estado que potencializou o caos econômico quando se tornou absolutista a partir do “Rei Sol”.

Pensei então na obra de Mathiez, mais precisamente em Versailles como palco de ostentações de uma realeza que inventou aquela jurisdição para se refugiar de Paris (esse negócio de criar uma cidade para escapar do povo está longe de ser inovação brasileira), e de massacres (p. 27) do terror institucionalizado que fora pior do que o regime que os revolucionários do parlamento diziam combater; do banho de sangue da guilhotina como símbolo do que se tornou a revolução com os Estados Gerais e a Assembleia Nacional que dizimou o sangue real, promoveu separação do Estado e da Igreja (Tomo I, p 158) e, sobretudo, do estado de exceção em que Robespierre (1758-1794) e seu partido incentivaram com as prisões, o que ironicamente se voltou contra eles e os matou (Tomo III, p. 222).

Enquanto turistas sorriam e se encantavam, eu tentava ouvir vozes da história que gemem naquele lugar.

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