Uma leitura ao dia segue pela divina graça ao Oratório de Páscoa de Johann Sebastian Bach (Alemanha/Eisenach, 1685-1750).

30/04/2023 12h46

Imagem: Ex-isto

Gilles Deleuze

“Kant dénonce les illusions spéculatives de la Raison, les faux-problèmes dans lesquels elle nous entraîne concernant l’âme, le monde et Dieu.”

Obra: La philosophie critique de Kant. CHAPITRE PREMIER – Rapport des facultés dans la critique de la raison pure. USAGE LÉGITIME, USAGE ILLÉGITIME.Quadrige, puf, Presses Universitaires de France, 1963, Paris. De Gilles Deleuze (France/Paris, 1925-1995).

Meu primeiro contato com a filosofia de Deleuze foi em 2005, quando estava no seminário e aproveitei “os pulmões”, a biblioteca. Revisitei-o por esta edição francesa, texto de 1963, no espírito da recente viagem para rememorar outra visão acerca de Kant, em paralelo a Massimo Cacciari (1944) e a Olavo de Carvalho (1947-2022).

Deleuze aborda no trecho um dos elementos do que considero no lado mais interessante da filosofia kantiana: a denuncia das ilusões especulativas da Razão, os falsos problemas para os quais ela nos arrasta, sobre a alma, o mundo e Deus (p. 38). Talvez seja esse o ponto em que Kant seja mal visto por idealistas conservadores com viés teológico.

“Au concept traditionnel d’erreur (l’erreur comme produit, dans l’esprit, d’un déterminisme Kant celui de faux-problèmes et d’illusions internes. Ces Illusions sont dites inévitables, et même résulter de la nature de la raison (2). Tout ce que la Critique peut faire est de conjurer les effets de l’illusion sur la connaissance ellemême, mais non pas en empêcher la formation dans la faculté de connaître.” (p. 38).

Nota do autor: (2) CRP, Dialectique, “des raisonnements dial ectiques de la raison pure” et “appendice”.

Penso que o fato de Kant ter singular ênfase no sujeito interpretativo onde, no lugar da harmonia entre sujeito e objeto, submete o objeto ao sujeito (pp 22-23), o que provoca dilemas filosóficos para séculos de pensamentos, não anula o que suscita quanto ao problema da ilusão do conhecimento. Então, vejo Deleuze apontar Kant como o filósofo que substituiu o tradicional conceito de erro, em função do “determinismo externo”, pelo de “falsos problemas” e “ilusões internas”, em situações consideradas “inevitáveis” e até mesmo tidos como resultantes da natureza da razão, na suposição de seu uso transcendente (p 39-40), e tornando ao parágrafo completo do trecho citado, a Crítica pode associar os efeitos dessa ilusão sobre o próprio conhecimento, mas não pode impedir a sua formação na faculdade do conhecer. Por isso, neste aspecto, compreendo o que Deleuze afirma sobre a obra Crítica da Razão Pura merecer o seu título (p. 38).

29/04/2023 14h48

Imagem: BBC

Adam Smith

“Um maior aperfeiçoamento nas forças produtivas do trabalho, e a maior parte do engenho, destreza e discernimento com que é dirigido em qualquer lugar, ou aplicado, parecem ter sido os efeitos da divisão do trabalho.”

Obra: A Riqueza das Nações. Livro I. Capítulo 1 – Das causas do aumento das forças produtivas do trabalho e da ordem segundo a qual seu produto é naturalmente distribuído entre as diversas categorias do povo. Edição da Hemus, 1981, Curitiba. De Adam Smith (Reino Unido/Escócia/Kirkcaldy, 1723-1790).

Em março de 1776 era essa a percepção que Adam Smith tinha sobre um mundo produtivo em transformação. A divisão do trabalho estaria a gerar “aperfeiçoamento das forças produtivas”, “maior parte do engenho, destreza e discernimento” na direção do trabalho (p. 1).

Em 2000 estava em uma usina e um engenheiro me mostrou a evolução do processo produtivo do açúcar e do álcool derivados da cana. A princípio, a lógica de Adam Smith parecia se encaixar, pois a divisão do trabalho está presente na longa cadeia do plantio ao produto final. No entanto, a produtividade deu saltos não apenas por conta da divisão do trabalho, mas combinada com o avanço do conhecimento traduzido por evolução – e eventualmente revolução – tecnológica, não somente de máquinas, softwares, mas da gestão dos insumos e da capacitação contínua de empregados, a incorporar capital humano. Pode-se indagar se a divisão do trabalho poderia ser concebida em uma visão bem mais ampla, dentro da construção e da aplicação do conhecimento, no acesso às tecnologias, no investimento e até na atividade política, no entanto, à mon avis, a divisão do trabalho fica melhor compreendida não como causa singular, mas como um fator na cadeia de cooperação social.

Em uma situação recente pude avaliar a diferença entre a aplicação da divisão do trabalho em termos qualitativos: um escritório com quatro colaboradoras em divisão do trabalho que não produzem mais que outro escritório com duas colaboradoras, nas mesmas condições de divisão de tarefas a usar as mesmas ferramentas tecnológicas. No segundo escritório as duas colaboradoras são mais qualificadas, em termos de conhecimentos e com maior capacidade de tomar decisões tecnicamente precisas. O trabalho fluiu muito melhor em comparação com o primeiro escritório. Não foi a divisão do trabalho, per si, mas o nível do conhecimento e a gestão na forma como a divisão foi executada que pesaram mais na superioridade produtiva do segundo escritório.

Nos dois casos, considerar que a divisão do trabalho a gerar os efeitos do conhecimento e a gestão mais eficiente atrapalha a compreensão dos fatores que fizeram a diferença, ofuscando a identificação de causas. Mas se a análise for com o conhecimento mais sofisticado e a gestão mais inteligente, junto com a divisão do trabalho, a proporcionar maior produtividade, tudo fica mais nítido.

Carl Menger tem razão.

28/04/2023 19h04

Imagem: Austrian Economics Center

Carl Menger

“In such a manner Adam Smith has made the progressive division of labor the central factor in the economic progress of mankind—in harmony with the overwhelming importance he attributes to labor as an element in human economy. I believe, however, that the distinguished author I have just quoted has cast light, in his chapter on the division of labor, on but a single cause of progress in human welfare while other, no less efficient, causes have escaped his attention.”

Obra: Principles of Economics. CHAPTER I. THE GENERAL THEORY OF THE GOOD. 5. The Causes of Progress in Human Welfare. Edição do Ludwig von Mises Institute, 2007, Auburn, USA, Trasnslated by James Dingwall and Bert F. Hoselitz. De Carl Menger (Império Austríaco/Nowy Sącz, 1840-1921).

Para o fundador da Escola Austríaca de Economia, a divisão do trabalho é “apenas um fator entre outros”, para explicar o progresso produtivo, no que levou a humanidade “da barbárie e miséria à civilização e à riqueza” (p. 73).

E quais outras causas seriam além da mencionada por Adam Smith (1723-1790) quanto aos efeitos da divisão do trabalho? Carl Menger lembra de tribos indígenas que também aplicam divisão do trabalho (p. 72) o que colocara em dúvida os efeitos citados no Livro I de A Riqueza das Nações.

Menger discorre causas relacionadas ao conhecimento onde pesa uma característica marcante de seu pensamento: os desejos humanos. Nesta análise, a divisão do trabalho e a vontade humana se juntam a combinação da percepção da escassez e do controle de fatores produtivos mediante circunstâncias. No estágio primitivo, os bens de consumo se davam por uma coincidência acidental das circunstâncias de sua origem, de economia coletora, confinada a reunir os bens de ordem mais baixa, mas a mudança deste modo para um processo de coisas combinadas, a ocasionar em produtos da vontade humana, dentro de limites das leis naturais, passou ao reconhecimento e o controle das circunstâncias, onde o consumo de bens à disposição humana se sujeitam apenas à extensão do conhecimento das conexões causais entre as coisas, e à extensão do controle humano sobre essas coisas.

O aumento da compreensão das conexões causais entre as coisas e o bem-estar humano, e aumento do controle das condições menos próximas responsáveis para o bem-estar humano, na visão do autor, “levaram a humanidade de um estado de barbárie e a mais profunda miséria ao seu estágio atual de civilização e bem-estar; mudaram vastas regiões habitadas por uma poucos homens miseráveis, excessivamente pobres, em países civilizados densamente povoados” (pp. 74-75).

Finaliza o tópico a afirmar que “nada é mais certo de que o grau do progresso econômico da humanidade ainda será, em épocas futuras, proporcional ao grau de progresso do conhecimento humano.” (p. 75).

27/04/2023 22h28

Imagem: site oficial

Padre Paulo Ricardo

“Também o padre e o diretor espiritual que desejem fazer bom uso deste livro deverão utilizá-lo como aquilo que ele é: um convite para uma conversão interior e para um maior aprofundamento. O melhor laboratório de experiências do diretor espiritual é sua própria alma.”

Obra: Um olhar que cura: Terapia das doenças espirituais. Introdução. Editora Canção Nova, 2016, eBook Kindle. De Paulo Ricardo de Azevedo Júnior (Brasil/Pernambuco/Recife, 1967).

Pregar o que não se vive é uma das maiores debilidades que podem ocorrer a um ser humano.

No tempo do seminário batista sabia que não seria pastor, desde o primeiro dia de aula enquanto me perguntava se havia algum sentido ético não levar ao púlpito – e à vida em comunidade religiosa- a própria experiência de fé, em especial acerca de minhas indagações teológicas, o pensar com autonomia diante de manuais de teologia sistemática e de cartilhas doutrinárias de grupos disso e daquilo, se seria legítimo fazer o que desconfiava entre alguns do meio: fingir sobre certas confissões.

A fé com contínuo auto exame, auto crítica por natureza, à mon avis, é um caminho que notabiliza a vida com Cristo. Então, comecei a pensar sobre o significado de um líder que não se pauta pelo exemplo ético da entrega e da metanoia em Cristo, onde o que prega e aconselha só vale no âmbito religioso para as ovelhas, enquanto na vida dita “secular” é mais um na multidão materialista de desejos insaciáveis, onde se alojam as enfermidades espirituais e Cristo negado, desaparece.

Então, vejo esta obra do padre Paulo Ricardo como uma referência aos valores que acredito na formação de um líder espiritual.

Christo Nihil Præponere

26/04/2023 18h54

Imagem: Vaticano

São João Paulo II

Se admitirmos que eros significa a força interior que “atrai” o homem para o verdadeiro, o bom e o belo, então, no âmbito deste conceito, também se vê  abrir o caminho para aquilo que Cristo desejou exprimir no Sermão da Montanha […] O chamamento para aquilo que é verdadeiro, bom e belo, significa simultaneamente, no Ethos da redenção, a necessidade de vencer aquilo que deriva da tríplice concupiscência. Significa também a possibilidade e a necessidade de transformar aquilo que foi agravado pela concupiscência da carne. Mais ainda, se as palavras de Mateus 5.27-28 representam este apelo, então, significam que, no âmbito erótico, o eros e o ethos não divergem entre si, não se contrapõem reciprocamente, mas são chamados a encontra-se no coração humano e, neste encontro, a frutificar. Bem, digno do “coração” humano é que a forma daquilo que é “erótico” seja, simultaneamente, a forma do ethos, ou seja, daquilo que é “ético.”.

Obra: Teologia do Corpo. 05/11/1980. Alêtheia Editores, 2013, Várzea da Rainha Impressores, Óbidos, Portugal, eBook Kindle. Tradução a partir da edição portuguesa do Observatório Romano. De Karol Józef Wojtyła (Polônia/Wadowice, 1920-2005), S. Ioannes Paulus PP. II (1978-2005), São João Paulo II.

A conotação sob apelo sensualista aos desejos por prazeres sexuais, no uso comum do termo grego eros,  difere do que se deriva como “erótico” no uso do termo em Platão que o define como força interior, que arrasta o homem para tudo o que é bom, verdadeiro e belo, sendo uma atração como intensidade de um ato subjetivo do espírito humano. O apelo feito ao coração em Mateus 5.27-28, considerando o sentido dado em Platão para Eros, indica que o erótico, na relação com o ethos,  naquilo que é ético, não se trata de algo divergente. Não se contrapõem eros e ethos, considerando  a perspectiva filosófica platônica à luz de Mateus 5.27-28 que é um chamado a um encontro a frutificar o erótico concebido na forma do Ethos ou seja, naquilo que é ético na complexa riqueza do  “coração”.

A união conjugal é “conhecimento” e forma de “redenção do corpo”; não diz respeito a uma aceitação passiva onde o outro é mero objeto de prazer.  No ato sexual  o homem, aqui no sentido de ser humano masculino ou feminino, em comunhão, entra em um nível mais profundo no conhecimento de sua humanidade onde a procriação é uma potencialidade particular do organismo feminino. 

A crise no Jardim do Éden subverteu esse entendimento para uma visão materialista e utilitarista onde o outro é muitas vezes visto como mero objeto de posse e prazer, algo que passou a confundir o sentido do matrimônio ou até mesmo banalizado pelo legalismo religioso diante da concupiscência induzindo  o ser humano a encontrar formas de tentar conciliar os mandamentos sobre a fidelidade no casamento monogâmico com práticas de poligamia e adultério, este último visto como um pecado mais por ato de relação sexual com a mulher de outro, evidenciando mais uma vez a visão da mulher como um objeto ou posse do homem e não como um ser humano a participar no processo de comunhão onde o ato sexual faz parte do dom do amor, sendo assim necessário, fazendo parte do caminho de enlevo da dignidade e do crescimento pessoal através do casamento. 

Jesus Cristo aborda os temas do casamento e do adultério banalizados pelo sistema religioso à época, envolto às origens e o valor profundo da união conjugal, apelando ao coração do ser humano, não para acusá-lo, mas para fazê-lo ser usado como meio para o bem. O coração é um “campo de batalha” entre o desejo de tratar o outro como conquista, objeto de prazer, e a comunhão que evidencia o amor entre seres humanos que dá o profundo sentido da relação entre corpo e espírito. Em Cristo Jesus o coração não é acusado nem o corpo condenado, tampouco o sexo. O desejo em si não é um mal e sim um olhar com um desejo desordenado. O ser humano é então convidado a se voltar ao coração para se tornar firme na manifestação do espírito, o que pode ser realizado através da união conjugal.

25/04/2023 20h06

Imagem: augustinus.it

Santo Agostinho de Hipona

“Ricercando poi l’essenza della malvagità, trovai che non è una sostanza, ma la perversione della volontà, la quale si distoglie dalla sostanza suprema, cioè da te, Dio, per volgersi alle cose più basse, e, ributtando le sue interiora (75), si gonfia esternamente.”

Nota da edição: 75. Sir 10. 10.

Obra: Le Confessioni. Libro Settimo. La perversione della volontà. 16.  augustinus.it. De Aurelius Augustinus Hipponensis (Aurélio Agostinho de Hipona), Santo Agostinho de Hipona (Norte da África/Tagaste, 354-430).

As Confissões de Santo Agostinho em uma edição italiana, sobre o problema da origem do mal, no Livro Sétimo.

No capítulo V, o bispo de Hipona confessa que buscava a origem do mal de forma errônea. Deus é bom, fez todas as coisas, é o Bem Supremo e como se explica a origem do mal? O Livro Sétimo é um registro das tentativas de Agostinho de encontrar uma resposta. No capítulo XII, afirma que o mal não é uma substância, “porque se assim o fosse, seria um bem”. Então, no capítulo 16, Agostinho apresenta uma resposta que, à mon avis, é a mais bem elaborada que encontrei, desde os idos de 8 de agosto de 2002, quando a li pela primeira vez na edição em português que tenho da Martin Claret.

Revisitei este capítulo na edição italiana de augustinus.it:

“Buscando a essência da maldade, descobri que não se trata de uma substância, mas da perversão da vontade, que se afasta da substância suprema, isto é, de Ti, Deus, para as coisas mais baixas, e a jogar de volta suas entranhas, se incha exteriormente.” (tradução livre).

O mal consiste no ato de se afastar de Deus; é o distanciamento do Bem Supremo, decisão que perverte a vontade, em um contexto humano, é a categórica negação de Deus, a rejeição da bondade, o que remete a questão ao plano do livre-arbítrio.

24/04/2023 21h20

Imagem: BBC

Benito Mussolini

Non razza, nè regione, geograficamente individuata, ma generazione storicamente perpertuantesi, moltitudine unificata da un`idea, che è volontà di esistenza e di potenza: coscienza di sé, personalitá.”

Obra: Dottrina del Fascismo. Edição da Blurb, 2021, eBook Kindle. De Benito Amilcare Andrea Mussolini (Italia/Predappio, 1883-1945) e Giovanni Gentille (Italia/Castelvetrano, 1875-1944).

No conjunto do fascismo histórico e seu peculiar apelo coletivista coercitivo em torno do Estado personificado no duce à sua tutela e na metáfora do fascio littorio, da união pela pátria em torno do “feixe de varas”, consiste um programa de doutrinação em massa a uma vida “séria, austera, religiosa” (I. IV) pelo “país”, entenda-se, crença de que a razão parte do líder supremo.

O trecho selecionado sobre “raça”, dentro do escopo fascista de união, talvez surpreenda alguns pelo que ocorreu posteriormente na aliança com Hitler. No entanto, da mesma forma que o indivíduo interessa ao fascismo tão-somente se for um exemplar de devoção ao duce, mediante o sistema do Estado corporativo, a ideia de raça se submeteu à apologia fascista da unidade estatal para neutralizar meios de conflito, sejam de classes, tão presentes na dialética de Marx, sejam por quaisquer outras singularidades. O fascismo foi um fenômeno de conceitos alucinógenos forjados na velha retórica de frases de efeito para um público bestializado, um bojo de apelos doutrinários a catequisar uma população inteira para a crença em uma só realidade econômica e moral (I.VIII) assim determinada e indiscutível, inevitavelmente autoritária, embora isso fora imperceptível a muitos que o apoiaram no início e que se tornaram opositores quando a verdade veio à tona.

O Estado, em Mussolini, é um fato “espiritual e moral”, como se fosse uma instituição religiosa de fundamentalistas, um centro de canalização de energias delirantes cujas origens se dão na percepção disfuncional que opera através da psicologia coletiva dissonante cognitiva, para então servir a uma organização política militarizada, uma afirmação jurídica e uma política econômica à nação, tudo centrado na abstração chamada “Estado” na custódia de todos, a funcionar como meio “transmissor” do que se doutrina como “espírito do povo” (II. X).

A questão racial acabou como mais um elemento no subconjunto dessa concepção que se alimentou da devoção em torno do duce a personificar a presença do Estado. A questão racial se pautou por conveniências da aliança com o nazismo, onde judeus e grupos de minorias se tornaram vítimas de um pacote onde a barbárie foi a regra ao não se encaixarem, cada qual em um contexto, na cultivação dos projetos de poder que se convergiram à narrativa nacionalista que os elegeu como objetos para um ódio disseminado a canalizar pela “multidão unificada por uma ideia, que é a vontade de existência e de poder: autoconsciência, personalidade.”

O fascismo foi um fenômeno de poder que demonstrou como o delírio coletivo, canalizado mediante crenças na política, pode ser devastador no caminho da humanidade.

23/04/2023 14h42

Imagem: Radio France

Michel Foucault

“Côté laboratoire, le Panopticon peut être utilisé comme machine à faire des expériences, à modifier le comportement, à dresser ou redresser les individus. Expérimenter des médicaments et vérifier leurs effets. Essayer différentes punitions sur les prisonniers, selon leurs crimes et leur caractère, et rechercher les plus efficaces.”

Obra: Surveiller et punir. Charpitre III – Le Panoptisme. nrf, GALLIMARD – 1975, YUJI – 2004. De Michel Foucault (France/Poitiers, 1926-1984).

Em sua obra mais conhecida, Foucault aborda o Panóptico, arquitetura atribuída a Jeremy Bentham (1748-1832), construção em anel com uma torre ao centro com janelas largas que se abrem diante a face interna do anel; a construção periférica do anel dividida em celas com janelas voltadas à parte interna, diante da torre, e à parte externa, de maneira que a luz penetra na cela pela janela externa, atravessa a cela e a janela interna, a revelar silhuetas facilmente perceptíveis na torre a formar um “pequeno teatro” de sombras (p. 201).

Inverte-se então o princípio da masmorra no sentido de privar o prisioneiro de luz e escondê-lo, conservando apenas a clausura e assim “a visibilidade se torna uma armadilha”, induz ao detento um estado de permanente vigilância para assegurar “o funcionamento automático do poder” (p. 202). Pela silhueta, o detento se depara com o poder “visível e inverificável”; o primeiro pela silhueta diante dos olhos para a torre e o segundo, porque não sabe se está sendo visto embora saiba que isso pode ocorrer o tempo todo (p. 203); uma”consciência inquieta de ser observada”, o que seria um recurso novo em uma época onde não exista câmera de vídeo.

“Uma máquina maravilhosa” é uma curiosa definição dada pelo filósofo sobre o Panóptico:

“Le Panoptique est une machine merveilleuse qui, à partir des désirs les plus différents, fabrique des effets homo gènes de pouvoir.” (p. 204).

Um zoológico onde o homem é o enjaulado, assim entende (p. 205) que não se aplicaria somente a detentos; em enfermos (epidemias), estudantes e trabalhadores, visto o que menciona na abertura (pp 201-202), todos objetos nesse intento de mudar o comportamento (p. 205).

A citar Claude Adrien Helvétius (1715-1771) sobre “qualquer um pode aprender qualquer coisa”, Foucault apresenta uma possível aplicação do modelo para treinar e, talvez, esteja neste trecho a razão de seu aparente deslumbramento:

“[…] on pourrait suivre « la généalogie de toute idée observable »; on pourrait élever différents enfants dans différents systèmes de pensée, faire croire à certains que deux et deux ne font pas quatre ou que la lune est un fromage, puis les mettre tous ensemble quand ils auraient vingt ou vingt-cinq ans; on aurait alors des discussions qui vaudraient bien les sermons ou les conférences pour lesquelles on dépense tant d’argent; on aurait au moins l’occasion de faire des découvertes dans le domaine de la métaphysique.” (p. 205).

Seria um “laboratório de poder”, explica:

“Le Panopticon fonctionne comme une sorte de laboratoire de pouvoir. Grâce à ses mécanismes d’obser- vation, il gagne en efficacité et en capacité de pénétration dans le comportement des hommes ; un accroissement de savoir vient s’établir sur toutes les avancées du pouvoir, et découvre des objets à connaître sur toutes les surfaces où celui-ci vient s’exercer.” (p. 206).

O sentido que entendi de doutrinar (não seria mais apropriado o termo adestrar?) como meio de “controle social” me fez lembrar Mussolini no devaneio de “L’uomo nuovo“.

De certa forma, o desejo de modificar o comportamento humano é chave para entender como o tema suscitado por Foucault se torna matéria de grande interesse aos que atuam pelo poder e esbarram na resistência humana impulsionada pelo instinto e/ou pela razão, sobretudo em torno da problemática da liberdade do indivíduo em diversos segmentos da vida social em conflitos entre apologistas por controles regulatórios do Estado versus defensores da gestão privada, a incluir serviços públicos, do intervencionismo estatal versus da natureza das leis de oferta e demanda, do Big Brother Fiscal (desmantelamento da privacidade dos negócios) versus da ética do sigilo empresarial, da economia planificada (socialismo) versus da livre cooperação de mercado (capitalismo), da tutela estatal da educação versus da educação sob responsabilidade maior da família e de ensino privado.

22/04/2023 13h40

Imagem: Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

Mais zangada ainda, Emília mostrou-lhe a língua e dando uma chicotada no cavalinho tocou para a frente, resmungando alto:

— Princesa!… Princesa que ainda toma palmadas de dona Benta e leva pitos da negra beiçuda! E tira ouro do nariz… Antipatia!…

Obra: Reinações de Narizinho. O Sítio do Pica-Pau Amarelo. VI – A viagem. Edição Integral e Ilustrada em monteirolobato.com/downloads/. Digitalização e Revisão Arlindo_San. De José Bento Renato Monteiro Lobato (Brasil/São Paulo/Taubaté, 1882-1942).

Monteiro Lobato foi perseguido politicamente no Estado Novo e teve obra proibida pela Igreja Católica, registrada no Index Librorum Prohibitorum. O escritor foi acusado de ser “comunista” e hoje vive sob a sombra de ser mais um “cancelado” pelo moralismo progressista hodierno.

Lá pelos idos dos anos 1980, como um tipo brasileiro no primário, tive o primeiro contato com suas obras na escola, enquanto assistia a séries de televisão, assim como personagens e textos de Lobato eram comuns em peças teatrais. Termos como “negra beiçuda” (como está inserido no trecho selecionado), passavam um tanto desapercebidos como expressão racista, inaceitável, enquanto em sala de aula ocorria o subestimado , quando não totalmente ignorado e seríssimo problema que hoje é chamado de “bullying”.

Nastácia, “negra beiçuda” e “de estimação” [166], também é é associada ao que se define como “povo”, entenda-se entre “tias velhas”, “sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” [165].

Lobato produziu literatura para o público infantil, o que reforça a tese de que valores contidos em suas obras devem ser regularmente submetidas a análises criteriosas de pais e educadores. À mon avis, foi um escritor a retratar, em seus personagens, valores de seu tempo o que, neste aspecto, denota certa indisposição para romper paradigmas como em Nastácia “negra”, empregada de “estimação” e “sem cultura”, enquanto os enredos e seus personagens revelam um universo ficcional de imaginário criativo riquíssimo e a mesma Nastácia ganha destaque em seus contos. Não estaria a retratar certas coisas como eram na época e não como determinados leitores da atualidade gostariam que fossem? Vejo, portanto, dois Lobatos: o homem de seu tempo (a inserir antagonismos sob temas de política e economia que não convêm aqui destacar) que trabalha o folclore em, meio a uma determinada psicologia coletiva, assim como vejo o outro Lobato, escritor inspirado em tradições folclóricas, embora não “à frente de seu tempo” como já escutei, foi extraordinariamente ousado, criativo, provocante, que deixou para a cultura brasileira um legado literário indiscutível. Quando dona Benta define “povo”, sem aqui entrar no mérito da questão (sem exigir que o autor convirja ao que penso, vício triste que todo leitor deve superar), a pensar fico se Lobato não estaria a tratar de uma concepção à época, talvez incômoda a alguns leitores que se identificaram com personagens que ficaram tão populares (tal incômodo teria crescido com mudanças de valores na sociedade), e se também não estaria em uma visão, sob certo prisma, um tanto fechada, rasa e preconceituosa quando parece associar a ignorância popular apenas a afrodescendentes.

Penso como válidas as atualizações textuais de obras onde termos de cunho racista foram removidos e personagens revisados, onde tia Nastácia não é mais empregada de “estimação” e vira “amiga” de dona Benta (sempre levando em conta que o público principal é o infantil), contudo, é importante que a releitura não seja utilizada para esconder os textos originais e sim haja um contínuo debate para que leitores brasileiros possam conhecer bem o passado literário do país, bem como ter melhor consciência de importantes mudanças ou revisões de valores que a sociedade apresentou, a refletir nas artes e, sobretudo, quando direcionadas a crianças.

165. Histórias de Tia Nastácia. IV A princesa ladrona. Editora brasiliense. Digital source, https://monteirolobato.com/

166. Reinações de Narizinho. Narizinho. I – Narizinho Arrebitado, em monteirolobato.com

21/04/2023 18h20

Imagem: Brown University

Thomas Skidmore

“As rigorosas medidas de arrecadação de impostos resultaram em significativa elevação da receita federal. Ela passou de 7, 8 por cento do PIB em 1963 para 8,3 por cento em 1964, depois para 8,9 por cento em 1965 e 11,1 por cento em 1966. [46].”

46. Nota do autor: Syvrud, Founations of Brazilian Economic Growth, p. 130.

Obra: Brasil: De Castelo a Tancredo. II – Castelo Branco: arrumando a casa. Abril de 1964 – março de 1965. Ed Paz e Terra, 5a. reimpressão, 1988, Rio de Janeiro. Tradução de Mario Salviano Silva. De Thomas Elliot Skidmore (EUA/Ohio, 1932-2016).

Terceira menção a esta leitura de 1996 do autor americano brasilianista que marcou minha juventude, feita por recomendação do professor de macroeconomia na ocasião (Marcos Targino).

O golpe clamado por vários setores da sociedade trouxe uma nova gestão às contas do Estado; corte de despesas, aumento de impostos e a consequente redução do déficit público que foi de 4,2 (1963) para 3,2% (1964) do PIB, com indexação de títulos do tesouro (ORTN) a 6% a.a. (p. 75). Os impostos em atraso passaram a ter correção monetária, o que desestimulou o atraso de pagamentos (p. 73).

A dupla bem vista nos mercados globais à época, Roberto Campos, “carinhosamente” chamado de “Bob Fields” por adeptos do lado canhoto da história, e Octavio Bulhões prepararam um diagnóstico e o esmiuçaram em um documento com um plano discorrido em 240 páginas, intitulado Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), onde o excesso de demanda seria a causa da inflação relacionada a “déficits do setor público, excesso de crédito para o setor privado e excessivos aumentos de salários.”, (p. 69).

Certa vez afirmei a um interlocutor, fã do Che Guevara, que socialistas brasileiros têm muito a agradecer, pelo menos em termos de “política econômica”, aos militares golpistas de 1964, o que me rendeu um olhar esbugalhado de reprovação. Isto posto em função de que se tem uma coisa que regozija todo progressista é arrecadação; quanto mais, melhor. E no trecho desta Leitura, o aumento da carga tributária foi um dos efeitos da política econômica do regime militar tido como de “direita”, onde o primeiro presidente “eleito” (Castelo Branco) fez questão de dizer que não seria “reacionário”; neste aspecto bem cumpriu o propósito para o deleite de progressistas assumidos, uns nem tanto, que governariam o país após a “redemocratização” e continuariam a saga do aumento de impostos a refletir mais carestia no consumo das famílias e mais gastos do Estado até nossas dias.

“Caminharemos para a frente com a segurança de que o remédio para os malefícios da extrema-esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária, mas o das reformas que se fizerem necessárias. Creio, firmemente, na compatibilidade do desenvolvimento com os processos democráticos, mas não creio em desenvolvimento à sombra da orgia inflacionária, ilusão e flagelo dos menos favorecidos pela fortuna. E ninguém pode esperar destruí-los sem dar a sua parte no trabalho e no sacrifício, fonte única donde poderá fluir o bem-estar e a prosperidade de todos. Portanto, que cada um faça a sua parte e carregue a sua pedra nesta tarefa de soerguimento nacional.” [164]

Como parte do contexto de aumento do escopo estatal na sociedade, onde se inseria o aumento da carga tributária, militares criaram o PIS/PASEP, que forçou a criação da RAIS (aumento da burocracia por controles sociais), o FGTS optativo e substitutivo (poupança compulsória e confiscada, além de mais burocracia), o CAGED (o primeiro Big Brother Trabalhista, antepassado do eSocial ou seja, mais burocracia), o BNH (que faliu com recursos para habitação), conversão do BNDES (banco de fomento dos compadres do Palácio, que passou a ser o centro de operações de empresários adeptos do toma lá, dá cá), centralizaram institutos de previdência no INPS, que se tornaria o INSS, instituíram a Receita Federal (1968), aumentaram o endividamento de empresas estatais, entre diversas medidas que encareceram drasticamente a vida do brasileiro e desembocaram nas crises inflacionárias dos anos 1980.

Então, é sempre uma “graça” ver bolsonaristas com saudades dos militares…

164. Ver em 15 de abril de 1964 – Perante o Congresso Nacional, ao tomar posse no cargo de Presidente da República, http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/castello-branco/discursos/1964-1/02.pdf/view

20/04/2023 19h48

Imagem: Companhia das Letras

Hilda Hilst

“Tadeu, a empresa é um corpo que precisa um dirigente, vão notar a estria vermelha no teu olho, mandaste o Balanço para os jornais?”

Obra: Tu não te moves de ti. Tadeu (da razão) Companhia das Letras, 2022, eBook Kindle. De Hilda de Almeida Prado Hilst (Brasil/São Paulo, 1930-2004).

Tadeu está angustiado em crise de meia idade, cotidianamente sufocado em muitos afazeres onde o sentido da vida se fecha no socialmente correspondido a expectativas no cumprir bem tarefas, seguir uma agenda e manter as aparências do casamento. Descobre um mundo diverso, onde as vicissitudes se invertem em dilemas e valores imateriais enquanto a esposa não pode acompanhá-lo.

Sexualidade, existencialismo e psicanálise correm no estilo refinado de uma das mais talentosas escritoras em língua portuguesa que pude ler. A obra envolve três contos que se interconectam de forma muito sofisticada por contrastes entre personagens: o primeiro, Tadeu (da razão), depois o mais provocante Matamoros (da fantasia), onde o momento mais difícil foi o do padre exorcista, e por último Axelrod (da proporção).

Tu não te moves de ti é literatura bastante fora da curva, que não recomendo a quem tem problemas em identificar a arte em meio ao desvario de personagens, com um enredo subversivo para quem padece de confundi-la com apologia, seja para o que for, além de não estar disposto a confrontar paradigmas que permeiam a moralidade no foro íntimo.

19/04/2023 20h34

Imagem: skoob

Joseph Conrad

“Formas negras agachadas, deitadas e sentadas, apoiadas contra os troncos das árvores, confundiam-se com a terra, entre escondidos e paridos pela luz parca, todos com ares de dor, abandono e desespero. […] O trabalho continuava. O trabalho! E era aqui o lugar em que alguns de seus ajudantes se retiravam para morrer.”

Obra: Coração das Trevas. I. ESC, Instituto Mojo, 2019, São Paulo. Tradução de Ricardo Giassett. De Józef Teodor Nałęcz Korzeniowsk, Joseph Conrad (Ucrânia/Berdychiv, 1857-1924).

A Leitura desta ficção está no contexto da colonização europeia na África, na corrida por matéria-prima para suprir a Revolução Industrial que corria como paradigma, com destaque ao British Empire, e pode ser difícil para alguns pelo fato do autor, que viveu a experiência de trabalhar como marinheiro mercante, dispor uma narrativa à época, com termos que hoje são considerados impróprios quando se trata de racismo; assim, verte-se a um realismo sobre o tema colonialista. No parágrafo seguinte:

“Claramente morriam devagar. Não eram inimigos, não eram criminosos, não eram mais criaturas deste plano — nada além de sombras negras doentes e famintas jazendo de forma confusa sobre o lamento verde.[…] (p. 36)”

Charlie Marlow é inserido para descrever experiências de quem trabalha no negócio da exploração, sendo o sr. Kutz uma ilustração do europeu colonialista ganancioso. Embora não citado, o romance colonial, ambientado no Congo, me remete a figura de um político um tanto “esquecido” pelas atrocidades que promoveu: Leopoldo II, da Bélgica (1835-1909), que foi um dos “investidores” mais determinados a explorar regiões africanas tidas com enorme potencial de lucros nas commodities.

Em Marlow há um tom atenuante em alusão à própria experiência, e assim certamente pode ser visto como de um teor racista-imperialista, em especial no primeiro capítulo sobre os primeiros exploradores que tem conhecimento, os romanos do Império:

“Nossa salvadora é a eficiência… nossa devoção à eficiência. Mas esses tipos não levavam isso muito a sério. Não eram colonos, sua administração consistia em saquear e acredito que nada mais. Eram conquistadores e para isso bastava a força bruta… nada de que se vangloriar, pois tal força não passava da exploração de uma oportunidade frente à fraqueza dos outros. Pegavam o que podiam pelo simples prazer da posse.” (p. 15)

Coração das Trevas tem uma frieza peculiar no trato de temas tão delicados, sob o olhar comum contemporâneo, talvez porque o autor fora um homem de seu tempo, naturalmente limitado ao contexto histórico sobre origens da riqueza europeia pela corrida colonialista na África à época.

18/04/2023 20h50

Imagem: AH

Big Brother Fiscal

“Nos termos do art. 3º, § 7º, da Lei nº 4.783, de 31 de dezembro de 1923, as declarações dos contribuintes estavam sujeitas à revisão dos agentes fiscais, que não podiam solicitar a exibição de livros de contabilidade, documentos de natureza reservada ou esclarecimentos, devassando a vida privada.”

Obra: História do Imposto de Renda no Brasil. Um enfoque da pessoa física (1922-2013). Capítulo 3. Fiscalização proibida de solicitar livros de contabilidade dos contribuintes. Secretaria da Receita Federal do Brasil, 2014. De Cristóvão Barcelos da Nóbrega.

Nem mesmo na França absolutista do “rei Sol” Luís XIV (1638 -1715), logrou êxito a obrigação de confissão de bens, por conta da enorme resistência em torno do argumento da violação da privacidade [162] e no distante Brasil da monarquia também, onde havia o Código Comercial de 1850 que proibia o aparato estatal de praticar o que hoje é regra: Big Brother Fiscal ou devassar negócios privados.

A proibição perdurou na república mesmo após o nascimento do Imposto de Renda tupiniquim, lá pelos idos de 31 de dezembro de 1922. A vedação caiu em 1939 (p. 33) pelo Decreto-lei nº 1.168 [163], assinado pelo ditador Getulio Vargas, cujo regime soava certo lampejo um tanto enamorado com a megalomania coletivista lá na península itálica à época.

Art. 14. Os peritos e funcionários do imposto de renda. mediante ordem escrita do diretor do Imposto e dos chefes de Secções nos Estados, poderão proceder a exame na escrita comercial dos contribuintes, para verificarem a exatidão de suas declarações e balanços.

§ 1º A recusa de exibição dos livros dará lugar à imposição, por aquelas autoridades, de multa de 5:000$000 a 20:000$000, promovendo-se, em seguida, a exibição judicial.

§ 2º Os infratores terão o prazo de 30 dias para se defenderem perante a autoridade administrativa de 1ª instância.

§ 3º Para os efeitos do presente artigo, fica revogado o disposto no art. 17 do Código Comercial.

A devassa do aparato estatal há muito tempo deixou de ter uma conotação negativa ou até mesmo relevância para ser discutida. O Sped e o eSocial, dois grandes Big Brothers, foram implantados na Pindorama com pouquíssima resistência quanto ao problema de natureza ética que suscita em torno da privacidade dos cidadãos, que fica nas mãos de burocratas do fisco, enquanto fortemente apoiados por entidades contábeis e de TI, bem amaradas no feixe de varas como linhas auxiliares do coletivismo de Estado que cria dificuldades para se vender facilidades, diante de uma sociedade desinformada, que assiste a tudo um tanto bestializada.

Não é preciso mais um regime com face autoritária para impor modelos de Big Brother, pois o Estado democrático de direito, carregado de uma imensa agenda de benefícios que força diversos “controles sociais” meticulosos, funciona como um “cavalo de Troia”, na medida em que seduz o cidadão-eleitor com “direitos e garantias” em troca do voto e da sua privacidade, um sistema de angariação eficiente para que a devassa do aparato fiscal nos negócios privados passe desapercebida como um problema ético grave, chegando até mesmo a ser aplaudida em muitas ocasiões.

162. Ver “La bancarotta dello stato: le cause della rivoluzione francese”, do professor Alessandro Barbero;

163. Ver em Planalto: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/del1168.htm;

17/04/2023 20h04

Imagem: France 3

Cécile Coulon

“Le Pouvoir avait besoin des analphabètes, c’était le seul moyen pour garantir une prospérité à long terme.”

Obra: Le rire du grand blessé. Editora Points Coleção, 2015, Paris. De Cécile Coulon (France/Saint-Saturnin/Puy-de-Dôme, 1990).

O que pode ocorrer quando se anda despretensiosamente por Paris, sem agenda, em caminhadas que fizeram enormemente bem à circulação e às juntas? Entrar em uma Fnac para “esbarrar” com uma distopia da jovem escritora francesa.

O riso do ferido, elaboração filosófica e antropologicamente desconcertante, ambientada em um país sem nome onde ser analfabeto é a (irônica) regra e o acesso a livros é proibido; uma sociedade de analfabetos e viciados, crias de engenharias sociais que o tempo presente parece uma sombra. Le Grand personifica o que na realidade permanece oculto; a lembrar o Big Brother da mais famosa distopia, 1984.

Nesse paralelo, pensei, 1075 também é um pouco Winston, apenas pelo despertar diante do que se identifica, abalado quando se depara com uma professora e a subversiva aula primária. O regime multiplicador de ignorantes glamourizados soou como uma auxese; 1075 sendo tão perfeito para o regime e assim fazer parte da guarda dos iletrados de repressão aos que conseguem compreender lampejos do alfabeto, onde crenças entram em uma dialética quando se descobrem potencialidades do intelecto, mas 1075 odeia quem é livre enquanto o desvelar das letras o provocam, não faz sentido, em sua rígida ignara condição, nada ter enquanto se pode agir pela própria consciência.

A ignorância do povo é fundamental no negócio da política ou como se tem na síntese do trecho desta Leitura, “o poder precisava dos analfabetos, era a única maneira de garantir prosperidade a longo prazo” (tradução livre), diria, a parafrasear, que o poder precisa de eleitores analfabetos funcionais, a única maneira de garantir prosperidade neste ramo.

Enquanto corre o mundo real que medito, percebo como a distopia toma as páginas desta ficção e, de certa forma, envolve 1075 que também me parece um escopo hiperbólico do indivíduo bestializado dos dias hodiernos. Também lembra o outrora dito homem-massa por Ortega y Gasset, sujeito alienado do cultivo da intelectualidade, hoje é o inculto bem “formado” para seguir influencers e assim ter muitas opiniões ou convicções enquanto cumpre seu rumo dissonante cognitivo em meio ao entretenimento materialista consumista, a armadilha que o poder político oferece ao assim chamado “cidadão” pleno de direitos positivados no Estado de “bem estar social” em troca da liberdade.

16/04/2023 17h36

Imagem: PBS

Colin Powell

“E então George Bush falou. Ele não tinha dito nada até esse momento – Somos uma nação de investidores – disse o vice-presidente.

[…] – senhor secretário-geral, que segurança podemos proporcionar a um investidor quanto às condições da União Soviética dentro de três, quatro ou cinco anos?

Gorbatchov riu – Senhor vice-presidente, nem Jesus Cristo poderia responder a esta pergunta. – […]”

Obra: Minha Jornada Americana. Capítulo 14 – Assessor de segurança nacional do presidente. Editora Best Seller, 1995, São Paulo. Tradução de Rosane Albert e Tomás Rosa Bueno. De Colin Luther Powell (EUA/Nova Iorque, 1937-2021).

1987, dezembro, Gorbatchov tinha sido aplaudido na ONU após anunciar que o governo da União Soviética reduziria o contingente das forças armadas em 500 mil homens. Naquele mesmo ano a Perestroika foi publicada em 21 países, revelando tendências de abertura econômica, no então “estatizado” regime soviético (há controvérsia sobre o surgimento de milionários russos do dia para a noite logo após a derrocada do regime).

A comitiva americana ocupava a residência do almirante que comandava o primeiro distrito da Guarda Costeira, na ilha dos Governadores e depois do compromisso na ONU, naquele restrito local foi organizado um almoço “cordial e íntimo” (p. 377) entre Reagan e Gorbatchov, onde o então vice-presidente, George Bush, recém eleito para suceder Reagan, e o secretário Colin Powell estavam presentes. Em meio a comes e bebes, em uma aparente descontraída conversa sobre cavalos, com o secretário de olho no relógio para o tempo passar logo “antes que qualquer bobagem acontecesse” (p. 378), o vice-presidente dos EUA resolveu perguntar a Gorbatchov sobre segurança de investimentos na União Soviética, em alusão às expectativas de abertura ao capital estrangeiro. A resposta espirituosa do secretário soviético (p. 378) também causou risada em Reagan, vinda do vértice onde o comunismo ateu é a regra. Afirma Collin Powel que Reagan “acreditava que Gorbatchov tinha algum tipo de inclinação religiosa” (p. 378).

O encontro foi uma sondagem dos soviéticos sobre o novato Bush, que ocuparia a Casa Branca, entende Powell (p. 378). Sobre a resposta, sendo ou não “força de expressão”, parecia mesmo profética sobre o que ocorreria menos de quatro anos adiante, com a falência soviética, o desmembramento em várias repúblicas que se tornariam independentes e a conversão da Rússia em um estado de economia (neo) fascista, plutocrático, condições ideais para o tipo “agente KGB” que chegaria ao poder: Vladimir Putin.

15/04/2023 20h28

Imagem:: BNB Digital

Rachel de Queiroz

AGORA, ao Chico Bento, como único recurso, só restava arribar.

Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse.

Depois, o mundo é grande e no Amazonas sempre há borracha…

Obra: O Quinze. Capítulo 1. José Olýmpio, 2012, Rio de Janeiro. De Rachel de Queiroz (Brasil/Ceará/Fortaleza, 1910-2003).

L’année de la grande sécheresse (O ano da grande seca), é o titulo da tradução em francês deste romance, o primeiro de Rachel de Queiroz, aos 19 anos, publicado em 1930.

A estreia atestou o enorme talento da jovem cearense, destaque no Correio da Manhã, de 05/10/1930. Rachel de Queiroz nasceu para contar histórias. O Quinze, título em referência à seca de 1915 que devastou regiões do Ceará, marcadas pelos campos de concentração para flagelados a fim de evitar que chegassem à capital, Fortaleza:

CONCEIÇÃO passava agora quase o dia inteiro no Campo de Concentração, ajudando a tratar, vendo morrer às centenas as criancinhas lazarentas e trôpegas que as retirantes atiravam no chão, entre montes de trapos, como um lixo humano que aos poucos se integrava de todo no imundo ambiente onde jazia.

Rachel de Queiroz tinha 5 anos quando a seca ocorreu e tento imaginar os relatos que aquela jovem ouviu e documentou para produzir essa extraordinária ficção com toques de um realismo peculiar em um contexto social brasileiríssimo. O talento da Rachel de Queiroz se evidencia na forma madura de contar uma catástrofe, assim como traduz com fidelidade o tema da fé do homem da roça, do cangaço, do sertão, em Chico Bento que anima a esposa com histórias de retirantes que enriqueceram no Norte; neste ponto, Rachel de Queiroz constrói as expectativas do vaqueiro a inserir o tema do ciclo da borracha, junto com outro fenômeno de mobilidade à época: a retirada para São Paulo, pela personagem Conceição.

O Quinze é um clássico, drama de angústias nordestinas que, de certa forma, até hoje perduram.

14/04/2023 23h00

Imagem: Renovatio Imperii

Sêneca

“Meu discurso se dirige aos imperfeitos, aos medíocres e doentes, não ao sábio. Este não deve andar timidamente nem de modo vacilante, já que tem tanta confiança em si que não receia ir ao encontro do destino, ao qual não fará nenhuma concessão. Nem tem por que temê-lo, porque não apenas os escravos, as posses, a dignidade, até o seu corpo, os olhos e as mãos com tudo o que faça a vida mais agradável, e até a si próprio, tudo está entre as coisas precárias. Tem consciência de que a vida é algo que lhe foi dado de empréstimo e, por isso, sujeita à restituição, sem tristeza, quando lhe for reclamada.”

Obra: Da tranquilidade da alma. XI. LPM, 2009, Porto Alegre. Tradução de Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanajara Neves Vranas. De Lúcio Aneu Séneca (Império Romano/Espanha/Córdoba, 5-65).

É a serenidade quando que diz, “mal vive aquele que não sabe morrer bem”, “a causa do morrer é o medo da morte” e “aquele que teme a morte nunca fará nada com dignidade”. Para Sêneca, deve-se ter consciência que a vida naturalmente envolve sujeição a problemas que surpreendem apenas os descuidados que só esperam por coisas felizes (p.33) e assim muitos não pensam na tempestade quando embarcam (p. 34) , eis o estoico por excelência.

Ocupar-se bem na vida, cuidar do espírito e não cair na ingratidão diante da natureza, que dá e toma de volta. Se a natureza conceder que envelheça por cinco, seis, sete ou mais décadas, espero que haja sentido não apenas em função de minha expectativas a momentos de alegria ou de tristeza; espero envelhecer sem me tornar recalcado, carregado de preconceitos, bruto no pensamento, inculto, confiante e vanglorioso nas coisas materiais, cercado e iludido por gente interesseira, arrogante no pensar e pleno de certezas na ilusão de que o tempo provê sabedoria, incapaz de questionar as próprias crenças e de aprender com novos erros.

13/04/2023 23h10

Imagem: Alchetron

Hans-Hermann Hoppe

“Caso o liberalismo deseje ter algum futuro, é necessário, portanto, que ele repare o seu erro histórico.”

Obra: Democracia, o Deus que Falhou. Capítulo XI. Sobre os Erros do Liberalismo Clássico e o Futuro da Liberdade. Edição do Mises Brasil, 2014, São Paulo. Tradução de Marcelo Werlang de Assis. De Hans-Hermann Hoppe (Alemanha/Baixa Saxônia, 1949).

Na visão do economista e filósofo austro libertário, o liberalismo carece de se transformar na teoria do “anarquismo de propriedade privada” para ter alguma chance superar o declínio que vem sofrendo desde a segunda metade do século XIX, problema que abre o capítulo (p. 257).

Hoppe entende que o liberalismo vive em um equívoco em três pontos que precisam ser reconhecidos (p 271): o status moral, onde nenhum governo é contratualmente justificado (1); destrói (todo governo) o que os liberais desejam preservar (2) e a proteção e a produção de segurança são legítimas apenas se ofertadas por um sistema de fornecedores em livre concorrência (3). Sobre o primeiro ponto, uma vez que a premissa é aceita, liberais ficam sem argumentos diante de socialistas quando levam a legitimidade moral do governo às últimas consequências (p. 270) o que, penso, faz do liberalismo um “instrumento” do avanço do escopo socialista camuflado de suas intenções autoritárias através da democracia.

Se monopólio (é preciso entender que o governo o qual Hoppe se refere é um agente do monopólio estatal) e tributação são justos, não há princípio moral (penso, sobretudo, no sentido da defesa da liberdade) para defender (p. 270) e assim liberais “sempre lamentam o seu desfecho antiliberal” (p. 271). Este ponto tão crítico percebi antes dessa obra, por volta de 2007, em Rothbard, o que culminou em meu abandono das crenças liberais.

12/04/2023 21h14

Imagem: IHU

Bruno Forte

“Se il credente è un ateo che ogni giorno si sforza di cominciare a credere, non sarà forse anche l’ateo un credente che ogni giorno vive la lotta di cominciare a non credere?”

Obra: La Parola della fede. Introduzione alla Simbolica Ecclesiale. 3. L’analogia del mistero. Dove l’esodo accoglie l”Avvento: la fede. Edizioni San Paolo, 1996, Milano. De Bruno Forte (Italia/Napoli, 1949).

Um dos mais importantes teólogos da atualidade (tenho grande admiração), ao abordar a luta que envolve a fé e o ser humano nos dilemas existenciais, cita Kierkegaard sobre a fé como “escândalo” (p. 21). “Deus não se encontra na facilidade de posse deste mundo, mas na pobreza da Cruz” (p. 21), afirma; a fé não é uma resposta tranquila e sim uma “subversão de todas as nossas perguntas” e só depois do crente passar pelo fogo da desolação, o Deus revelado se torna o Deus das consolações e da paz (p. 22), complementa.

Nessa caminhada de agonia e de esperança, a fé é uma contínua conversão, uma entrega constante do coração a Deus, e, nesse sentido, o crente seria um ateu que se esforça todo dia para crer (a parte mais provocante à reflexão neste livro, à mon avis), e eis que chego ao trecho desta Leitura:

“Se o crente é um ateu que luta todos os dias para começar a acreditar, não seria o ateu também um crente que experimenta essa luta de começar a descrer todos os dias?” (tradução livre, p. 28).

Certa vez ao ouvir um ateu “confesso”, notei esse algo “tão perturbador” ou a “luta” diante do imponderável, igualmente peculiar a quem vive pela fé, no que o impelira a um esforço de “acreditar na sua própria vontade de não acreditar” diante de perturbações reflexivas sobre o infinito, a morte e tudo quanto o humano fica a mercê, apesar de muitos vezes se sentir “poderoso”.

E tornando a experiência de leitura, a fé deve ser “pensante”, “viva”, “questionadora”, enquanto aberta à dúvida, também é “capaz de recomeçar a cada dia a entrega ao Outro, a viver o êxodo sem retorno rumo ao Silêncio de Deus, revelado e escondido em Sua Palavra.” (p. 28)

Che bello, Dom Bruno Forte!

11/04/2023 22h48

Imagem: flickr oficial

Olavo de Carvalho

“[…] toda a análise que Kant faz é a análise do sujeito cognoscente, quer dizer, a análise das estruturas racionais e perceptivas do sujeito cognoscente.”

Obra: Kant. Aula 24. Coleção História Essencial da Filosofia. E Realizações Editora, 2008, São Paulo. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo, 1947-2022).

Então, por essa análise kantiana, explica o professor, a compreensão da estrutura da validade do conhecimento passa a ser a medida de aferição (p. 24), e o não o objeto, que deixa de ser necessário para atestar o conhecimento; eis a segunda ponderação que faz o professor. A primeira consiste na coisa objetiva, que existe independentemente da interferência do sujeito (p. 23), entendo, tampouco do que pode conhecer ou perceber. Então é apresentado o problema do sujeito cognoscente; “é sempre e unilateralmente sujeito ou ele é também objeto? Eu poderia ser sujeito sem ser objeto?” (p. 24).

Tinha uma leitura da Crítica da Razão Pura até 2010, e eis que começou a ser repensada a partir desta aula de Olavo de Carvalho. A crítica acima lembra muito o que li de Massimo Cacciari: “qual sentido teria afirmar que o conhecimento, a priori, deve ser entendido como independente da experiência, se a mesma experiência vem pensada como primeiro e fundamental produto do nosso intelecto?”.

O exemplo que Olavo de Carvalho dá logo em seguida, sobre a imagem no espelho, foi como um despertar de um longo período alucinógeno da bolha “acadêmica”; Kant é um filósofo um tanto intocável nesse meio, e por muito tempo não parei para avaliar um pensamento que se resume ao sujeito, sem o colocar como objeto, a forçar um mundo de possibilidades subjetivas como produtos da mente humana, com enorme potencial de distorção da realidade ou do sentido do objeto e da relação do mesmo com o mundo exterior.

10/04/2023 21h40

Imagem: Avvenire

Massimo Cacciari

“Tutto il suo raggionamento si funda su un equivoco; Quando Kant parla di conoscenze empiriche, intende per l’appunto conoscenze che traiamo dalle impressioni sensibili, dala nostra sensibilità (Sinnlichkeit), e nient’afatto conoscenze ‘dettate’ da oggettività esterne.”

Obra: Dell’Inizio. Parte prima. L’inicio logico. Sezione prima. Adelphi Edizioni, 1990, Milano. De Massimo Cacciari (Italia/Venezia, 1944).

A crítica do filósofo italiano, grande referência pessoal de pensamento (p. 19), lembra a que escutei de outro filósofo de referência, Olavo de Carvalho, acerca do conceito de Kant sobre o conhecimento empírico, extraído de “impressões sensíveis”, de nossa sensibilidade, sem considerar o conhecimento ‘ditado’ pela objetividade externa.

Cacciari abre o capítulo apresentando o que entendo como um contrassenso nas definições de Kant em Crítica da Razão Pura, ao comparar as edições de 1781 cuja primeira linha afirma (tradução livre) que “a experiência é, sem dúvida, o primeiro produto que o nosso intelecto produz”, e a de 1787 onde se afirma “que todo o nosso conhecimento se inicia com a experiência”. Então pergunta: “qual das duas ‘indubitáveis’ devemos crer?” (p. 17). Ao abordar as diferenças “sutis” e salientar o pensamento kantiano que “nem todo conhecimento deriva da experiência: também há conhecimentos absolutamente independentes de toda experiência”, entendo porque abre o parágrafo a afirmar “ele (Kant) ama bastante o jogo de palavras” (p. 18).

Um problema, percebo, no amaranhado de Kant acerca do conhecimento a priori, em meio à variação da edição de 1787, está na indagação de Cacciari sobre “qual sentido teria afirmar que o conhecimento, a priori, deve ser entendido como independente da experiência, se a mesma experiência vem pensada como primeiro e fundamental produto do nosso intelecto?”, e o “vice-versa” do italiano me parece ainda mais “intrigante” (p. 19), quando então chego, no parágrafo seguinte, ao trecho desta Leitura que, à mon avis, é um parecer com base em uma das críticas mais bem desenvolvidas que li sobre o que penso ser a armadilha kantiana de se considerar o sujeito sendo a medida dos objetos apenas pelo que percebe, o que soa como o ponto mais provocante de uma filosofia que deu asas à subjetividade com pretensões um tanto inconsequentes, quando não ilógicas, para inspirar a “pós-modernidade”.

09/04/2023 14h06

Imagem: augustinus.it

Santo Agostinho de Hipona

“Era questo per lei il motivo più grande di dolore: il non saper dove trovare conforto al suo dolore. Ma ormai era venuta l’ora in cui il pianto si sarebbe tramutato in gaudio, come in qualche modo le avevano annunziato gli angeli, dicendole di non piangere.”

Obra: Commento al Vangelo di San Giovanni. Omelia 121. Non me toccare! augustinus.it. De Aurelius Augustinus Hipponensis (Aurélio Agostinho de Hipona), Santo Agostinho de Hipona (Norte da África/Tagaste, 354-430).

Um pequeno exemplo de como o pastor Agostinho de Hipona cuidava bem de suas ovelhas da paróquia, através das Escrituras:

Homilia 121 (do século V), de Santo Agostinho de Hipona sobre o Evangelho de São João (20:11-28): Não me toques!

Naquela manhã de domingo o pranto de Maria Madalena, ao ver o sepulcro vazio, daria lugar à alegria; “Mas por que essa mulher, que já havia se virado para olhar para Jesus quando acreditou que era o jardineiro e para falar com ele, novamente, segundo o relato do evangelista, volta para dizer-lhe: Rabboni! Não é porque antes ela se virou apenas com o corpo e, portanto, o tomou pelo que não era, enquanto mais tarde ela se voltou com o coração e o reconheceu como realmente é?” [2], indaga, após salientar que a gentileza de Maria em chamar de “senhor” o homem que pensava ser um jardineiro indica que “chama de senhor alguém pelo qual não é serva, entendendo chegar, por ser intermédio, a quem verdadeiramente é seu Senhor” [2].

Por que o Senhor não permitiu ser tocado por Maria enquanto se permitiu ser tocado por discípulos (cita o relato em Mateus, omitido em João, onde a própria Madalena o toca) antes de ascender ao Pai? [3], questiona.

“Com efeito, lemos no Evangelho que também as mulheres, depois da ressurreição, antes de ascender ao Pai, tocaram em Jesus, e entre estas mulheres estava a própria Maria Madalena. É Mateus quem o conta: ‘E eis que Jesus veio ao encontro deles dizendo: Salve! Eles se aproximaram, apertaram seus pés e se prostraram diante dele’ (Mt 28:9). Este episódio foi omitido em João, mas é atestado em Mateus.” [3].

O “Evangelho dos Sinais” me envolve nesta tarde, junto com o bispo Agostinho que insere hipóteses para o “Não me toques!”: “Penso, então, que o Senhor disse a Maria Madalena ‘Não me toques, porque ainda não subi ao Pai’, ou porque naquela mulher estava representada a Igreja dos gentios, que não creram em Cristo até depois que ele subiu ao Pai; ou porque queria que as pessoas acreditassem nele, ou seja, que o tocassem espiritualmente, convencidos de que ele e o Pai são um. De quem progrediu na fé, pode-se afirmar que no íntimo do seu espírito ascendeu ao Pai, na medida em que chegou a reconhecer que o Filho é igual ao Pai. Por outro lado, aqueles que ainda não chegaram a esse progresso não o tocam de maneira autêntica, pois não acreditam nele como deveriam. Maria talvez acreditasse nele, porém também crendo que ele não era igual ao Pai, e por isso ele a chama de volta dizendo ‘Não me toques’, isto é, não acreditas em mim segundo a ideia de que tens de mim, não fixe sua atenção apenas no que me tornei para ti, negligenciando minha natureza divina pela qual foste criada. Como se pode dizer que ela não estava mais apegada a ele se ainda o lamentava como se ele fosse apenas um homem? ‘Ainda não subi’ – diz – a meu Pai: então verdadeiramente me tocareis quando tiverdes acreditado que, como Deus, não sou inferior ao Pai. Mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Ascendo para meu Pai e vosso Pai. Ele não diz: ascendo ao Pai Nosso, querendo indicar que ele é seu Pai em um sentido e nosso em outro: seu por natureza, nosso por graça. Deus meu e teu Deus. Aqui também ele não diz: nosso Deus, porque também neste caso Deus é meu em um sentido e seu em outro: Meu Deus porque como homem estou sujeito a ele, vosso Deus, porque sou mediador entre vós e Ele” [3], argumenta.

Sobre o comportamento de Tomé, que queria ver para crer: “a visão é como um sentido que resume todos os outros. De fato, ao nomear a visão, geralmente nos referimos também aos outros quatro sentidos, como quando dizemos: Ouça e veja que doce melodia, inspire e veja que bom cheiro, prove e veja que bom sabor, toque e veja como é quente. Sempre dizemos “ver”, mesmo que ver seja próprio dos olhos. Assim diz o próprio Senhor a Tomé: ‘Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos’. Ele lhe diz: ‘Toque e veja’, mesmo que Tomé certamente não tivesse os olhos nos dedos” [5]

Encerra o comentário salientando o tempo verbal no pretérito, usado pelo Senhor Jesus, “pois considera, na predestinação, como algo já ocorrido o que ocorreria no futuro” [5]

“Porque viste, creste.
Felizes os que não viram e creram!”

(João 20:29, Bíblia de Jerusalém, 2000, p. 2039)

08/04/2023 14h16

Imagem: Vogue

Martin Luther King Jr.

“Men, for years now, have been talking about war and peace. But now, no longer can they just talk about it. It is no longer a choice between violence and nonviolence in this world; it’s nonviolence or nonexistence. That is where we are today.”

Obra: I’ve Been to the Mountaintop. American Rethoric TOP 100. Áudio de 3 de abril de 1968. Church of God in Christ Headquarters, Memphis, Tennessee. De Martin Luther King Jr. (EUA/Geórgia, 1929-1968).

3 de Abril de 1968, I’ve Been to the Mountaintop, o último sermão de doutor King, na sede da maior denominação pentecostal afro-americana, a Igreja de Deus em Cristo.

No dia seguinte foi assassinado.

Destaco o ponto do sermão onde aborda, a partir a 7:30 (trecho desta Leitura) a filosofia que marcou seu ministério e vê na humanidade duas possibilidades: a não violência e a inexistência.

A luta pelos direitos civis não se trata de um protesto negativo, não é uma discussão negativa. Como filhos de Deus, os negros não têm que viver como são obrigados a viver (10:07). E o lugar de direito dos negros no mundo de Deus vem por uma determinação como pessoas, seres humanos. Em seguida faz um apelo à unidade; é necessário que os negros permaneçam juntos, então cita como exemplo a história dos hebreus que foram escravizados no Egito (10:40) cuja estratégia do Farão, para enfraquecer qualquer iniciativa de libertação, consistiu em promover a desunião entre os subjugados, mas a corte sentia a força quando os hebreus se uniam.

Sobre uma questão local, a greve dos trabalhadores no sistema sanitário da cidade, adverte que é preciso que os trabalhadores tomem cuidado com a imprensa que dá maior ênfase a registros de violência, mesmo que casos pontuais, pequenos, o que tem mais destaque quanto a injustiça com os trabalhadores. Então reitera: “Somos mestres em nosso movimento não violento de desarmar as forças policiais” (14:10), e em seguida rememora a experiência em Birmingham, Alabama, quando a polícia, munida de cães, se deparou com um movimento da não violência na Igreja Batista da Rua 16, com os adeptos a cantar “Ain’t gonna let nobody turn me around” (14:48). À mon avis, este fato citado por doutor King demonstra como o movimento da não violência foi capaz de desmontar um aparato repressor estatal. Em seguida, (14:54) lembra que o chefe policial Bull Connor, na ocasião, a perceber que os cães não faziam efeito sob os manifestantes, apelou para mangueiras usadas em incêndios, que também falharam pois “há determinado tipo de fogo que a água não pode apagar” (isso dito em uma igreja pentecostal ficou bem ilustrativo e assim é possível ouvir a reação do público). Com senso de humor, doutor Kink também me fez lembrar um pastor que certa vez, em um dia de muita chuva, disse na chamada para o culto noturno: “ora amados irmãos, somos batistas, estamos bem habituados à muita água”.

“E simplesmente íamos diante dos cães da polícia e olhávamos para eles; e íamos diante das mangueiras e olhávamos para elas, e continuávamos cantando “Over my head I see freedom in the air”. E então éramos jogados nos vagões de arroz e, às vezes, empilhados lá dentro como sardinhas enlatadas. E eles nos jogavam lá dentro, e o velho Bull dizia: “Tire-os,” e eles tiravam; e nós simplesmente íamos no camburão cantando, “We Shall Overcome”. E quando íamos para a cadeia, víamos os carcereiros olhando pelas janelas, comovidos com nossas orações, nossas palavras e nossas canções. E havia um poder ali ao qual Bull Connor não conseguia lidar; e assim acabamos transformando Bull em um novilho, vencemos nossa luta em Birmingham. Agora temos que continuar em Memphis assim. Peço que estejam conosco quando sairmos na segunda-feira.” (17:02, tradução livre).

Estendo o legado de doutor King na lição de que a violência não é opção quando se está sob o espírito da fé cristã diante de um mundo permeado de injustiças. Vejo um traço sublime do sofrimento como preço de uma mensagem de paz e transformação que se recusa a tratar os problemas pela brutalidade; sempre me vem à mente a prisão do Senhor Jesus Cristo, tocante ao que dissera a São Pedro sobre o uso da espada e a missão (cósmica) do “cálice” que tinha que beber (João 18:10).

Lendo e ouvindo doutor King, vi um exemplo do bom combate no trato das ideias em dialética, no conhecimento das lições da história, na força intelectual que enriquece o diálogo e, sobretudo, da fé movida pelo amor de Cristo. A civilidade em doutor King envolve a ação planejada, sua essência reside na conservação do direito ao contraditório em amplo e múltiplos espaços. O embate nesse mundo de injustiças pode se dá em tribunais, como menciona no sermão em relação a liminares que se envolveu, mas sempre está voltado a uma visão que busca solução pacífica promotora da fraternidade. Os protestos de rua foram pensados como instrumentos de afirmação do verdadeiro e profundo sentido de comunhão, inerente à humanidade, enquanto desnorteavam os que só entendiam a linguagem bruta do preconceito, a pobreza mental da coerção e o vazio da legalidade hipócrita, sem moralidade. Sua visão foi um dom para um mundo intoxicado de ansiedade belicosa; doutor King nada tem a ver com ruptura violenta, violações, entre outros extremismos tão comuns em certas concepções revolucionárias baseadas no legado de Marx.

O racismo é um dos comportamentos mais desumanos que conheço. Quando o identifico, não importa se for explícito ou sutil, restam-me a rejeição e a indignação. Todo racista é um negador categórico da humanidade.

07/04/2023 13h06

Imagem: Vaticano

Benedictus XVI

“Se hoje tivéssemos de escolher, teria Jesus de Nazaré, o filho de Maria, o filho do Pai, alguma possibilidade? Será que conhecemos mesmo Jesus? Será que O compreendemos? Não deveríamos hoje, tanto quanto ontem esforçar-nos para de novo O conhecer?”

Obra: Jesus de Nazaré. Capítulo 2 – As tentações de Jesus. Editora Planeta, 2007, São Paulo. Tradução José Jacinto Ferreira de Farias, SCJ. De Joseph Aloisius Ratzinger (Alemanha/Marktl, 1927-2022), Benedictus XVI (2005-2013)

“Senhor, eu te amo”, por Leonardo Amorim.

Roma, manhã agradável, 31 de dezembro e estava quase no Vaticano em uma aprazível caminhada que partiu da Via delle Quattro Fontane e fez aflorar meus sentimentos mais profundos pela cidade eterna. Eram 09h40 quando a família não católica, que gosta de ir ao Vaticano, cruzou uma fila que já se tornava enorme para a Basílica. Aparentemente, a notícia do falecimento de Ratzinger ainda não havia chegado. O centro da Piazza di San Pietro estava com pouco movimento e em torno do belíssimo presépio aproveitei para gravar uma mensagem de final de ano para o grupo; apreciamos as colonnati del Bernini, e um momento de gratidão por mais uma vez estar em um lugar tão significativo.

“Senhor eu te amo”, foram as últimas palavras ditas em italiano pelo papa emérito Bento XVI naquela manhã às 09h36, à mon avis, um dos mais importantes teólogos do século XX, que se tornou papa, depois emérito em um grandioso gesto, raríssimo entre os que experimentam o poder político.

Jesus de Nazaré, obra publicada no tempo de seu pontificado, é um exemplo da qualidade de seu pensamento teológico cuja leitura, entendo, é indispensável a cristãos católicos e não católicos romanos. Enquanto reapreciava, pensei no papa Francisco que demonstrava grande contentamento em visitá-lo e, nos dias atuais sempre se lembra dele com profunda admiração; Ratzinger está entre as maiores referências de minha formação em termos de fé, intelectualidade e honra, um extraordinário doutor da Igreja, teólogo-crítico refinado com um tom de voz que demonstrava sabedoria para ouvir e debater com respeito a quem se posicionava contrariamente a seus valores.

Do trecho selecionado, destaco a escolha popular disposta por Pilatos entre Jesus e Barrabás, onde Ratzinger explica que o termo grego traduzido como “salteador” tinha um significado específico na situação política na Palestina: “lutador da resistência” (p. 51). Entendo ser muito importante compreender que Barrabás não era um ladrão comum, como se pode ver no imaginário popular, e sim um militante político anti-imperialista, um radical no desejo de luta contra o domínio romano.

“Em outras palavras: Barrabás era uma figura messiânica. A escolha entre Jesus e Barrabás não é casual: estão em confronto duas figuras messiânicas, duas formas de messianismo. Isto se torna ainda mais claro quando pensamos que Bar-Abbas quer dizer “filho do Pai”.” (p. 51).

O que estaria mais próximo de Barrabás hoje? Um líder radical de esquerda, a conduzir o povo contra o imperialismo americano ou contra as “elites” (como se não fizesse parte), ou contra os “ricos gananciosos” (como se fosse um pobre proletário), um apologista do “nós contra eles”, tudo em nome de uma propaganda de “justiça social”? Ou seria um portador do ambidestro nacionalismo, baluarte do protecionismo do capitalismo de laços, auto proclamado tutor do povo bestializado? Quem sabe as duas coisas misturadas com um toque de escândalos de corrupção e vitimismo, tudo a confundir o juízo de uma psicologia coletiva…

Com a prisão de Jesus de Nazaré, por Pilatos inserido ao lado de Barrabás para uma opção democrática de soltura, ficam dispostos dois messianismos bem distintos: um político revolucionário, o outro espiritual. O messianismo de Barrabás foi o escolhido. E hoje seria diferente? O que o povo costuma escolher? Um messias político que promete atender às suas demandas consumistas e materialistas, não raramente a promover a luta de classes e o ódio? Escolheria um político o qual costumam brigar com amigos e parentes, a romper relacionamentos e assim idolatrá-lo ou ficariam com Jesus filho de Maria de Nazaré, o Cristo, Deus que se fez carne e transforma o coração dos homens?

Afirma o doutor Ratzinger:

“A escolha consiste, portanto, entre um Messias que encabeça um combate que promete liberdade e o próprio reino e este misterioso Jesus que anuncia o perder-se como caminho para a vida. É então surpreendente que as massas tenham dado a prioridade a Barrabás?”(p. 51)

E então insere a pergunta desta Leitura cuja melhor resposta vejo em suas últimas palavras a caminho da eternidade, naquela última manhã de dezembro:

“Senhor, eu te amo.”

Feliz Páscoa!

06/04/2023 22h02

Imagem: Companhia das Letras

Joseph Brodsky

“Quien escribe un poema, lo hace por encima de todo, pues la escritura de un verso es un acelerador extraordinario de la conciencia, del pensamiento, de la comprensión del universo.”

Obra: Discursos Premios Nobel. Tomo 2, edição em espanhol, 2014, eBook Kindle. Discurso de Joseph Brodsky, pseudônimo de Iosif Aleksandrovich Brodsky (União Soviética/Rússia/São Petersburgo, 1940-1996).

Divenire

Dou graças ao Criador
Nos versos que me tornei
Dissidente das coisas
que se esfarelam
Nas auguras do tempo.

Na leitura sinto
Que não preciso
Me encerrar no mundo.
Não careço de temor
De suas figuras
Que obscurecem
A poesia da vida
Enquanto tentam me tragar
Com suas “boas intenções”.

Pela poesia estou acolhido,
Sua singeleza me conforta,
Sua multiplicidade me inspira
Em letras, notas, cores e tons.
Nela o mundo percorro
Para regar agonias e
Conter o cotidiano frívolo
Com devoções dissimuladas
Que petrificam a alma.

Pastor Abdoral, 06/04/2022 22h00

05/04/2023 20h04

Imagem: DW

Nietzsche

“O que é pois, a verdade? Um exército móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram realçadas poética e retoricamente, transpostas e adornadas, e que, após uma longa utilização, parecem a um povo consolidadas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões as quais se esqueceu que elas assim o são, metáforas que se tornaram desgastadas, e sem força sensível, moedas que perderam o seu troquel e agora são levadas em conta apenas como metal e não mais como moedas.”

Obra: Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral. I. Hedra, 2007, São Paulo. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

Uma das experiências mais gratificantes do ato da leitura reside na busca das referências citadas por autores. Para chegar em Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral, comecei por Umberto Eco, cuja citação em Aos Ombros de Gigantes significou uma “recomendação”, então passei pela marcante homilia de Ratzinger às portas do conclave de 2005, também citado e, neste ponto, a rememorar uma leitura que fiz naquele mesmo ano, percorrendo assim um caminho para me conduzir a releituras que proporcionaram um olhar mais depurado ou menos superficial dos textos.

Sobre o trecho selecionado, primeiro foi um exercício notável de apreciar sem (pré) julgar ou deixar o autor falar sem ser interrompido por minhas crenças e perturbações, talvez muitas ou todas oriundas de uma ânsia inútil confundida com dialética digna de alguma nota.

Mesmo que venha a discordar, não anula o fato (soa até irônico) sobre quantas vezes argumentei e caí na experimental filosofia do marrento que mais aprecio, quando me escondi “detrás do arbusto” em minha comodidade de convicções disfarçadas de fatos para me vangloriar nesse procurar e encontrar no “interior do domínio da razão” (p. 40), de pinceladas de retóricas, assim como pensei na sutil provocação de Umberto Eco ao imaginar a cena, depois de conferir a introdução, com K von Gersdorff tomando nota do ditado pelo filósofo lá pelos idos de junho de 1873 (p. 9) e o que pudera ter pensado ao ouvir sobre a verdade ser “um exército móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos” para depois ouvir uma detalhada e provocante explicação que vale muito a pena ser relida, meditada e, por que não considerar, reinterpretada (pp 37-45).

Maior dano potencial ao desejo da vontade de potência, em fazer certas indagações no foro íntimo, é o de não ter a coragem de fazê-las.

04/04/2023 22h20

Imagem: El Español

Umberto Eco

“Ora, nem Ratzinger nem os anti-relativistas em geral são visionários ou conspiradores. Simplesmente, os anti-relativistas, que definirei como moderados ou críticos, identificam o seu inimigo apenas com aquela forma específica de relativismo extremo para a qual não existem factos, mas apenas interpretações […]”

Obra: Aos Ombros de Gigantes. Absoluto e Relativo. Lições em La Milanesiana 2001-2015. Gradiva, 2018, Lisboa. Tradução de Eliana Aguiar. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).

Partindo da citação da Leitura anterior, Umberto Eco lembra, que “é difícil encontrar nos muitos escritos do cardeal Ratzinger uma definição de verdade que não seja aquela revelada e encarnada no Cristo.” (p. 136). Um pouco mais adiante cita novamente Ratzinger em Il monoteismo (2002) sobre a essência de todo pensamento filosófico e científico, na separação da verdade substituída pelo consenso (p. 136), o que torna ao problema do pensamento moderno de que não existem fatos, mas apenas interpretações (derivado da experimental, entendo, filosofia de Nietzsche, citado mais adiante), para então chegar a citação da Leitura de hoje (p. 137), em um escopo que torna a verdade “um movediço exército de metáforas” (p. 138) por “constrições naturais” a pressionar o que se tem como “verdade científica”, argumenta o semiólogo italiano que insere a questão ética com a “ausência de Deus” onde só seria possível uma vida moral “pondo de parte Deus” a citar Un’etica senza Dio (2006) de Eugenio Lecaldano (p. 139) e o cardeal Martini, que criou em Milano a “cátedra dos não crentes” (p. 140).

“Se não existissem factos, mas apenas interpretações, então de que é que uma interpretação seria interpretação?”, indaga em seu estilo refinado de expor problematizações; lembra que o negacionismo dos factos não é algo compartilhado em todo pensamento contemporâneo; insere também o problema do acontecimento inicial que teria nos impelido a interpretar. De toda forma, “Deus pode estar morto, mas Nietzsche não. Com que fundamento justificamos a presença de Nietzsche? Dizendo que é apenas uma metáfora?”, provoca Umberto Eco em seu estilo de estimular intensamente o leitor a pensar (p. 140).

03/04/2023 22h56

Imagem: Vatican News

Joseph Ratzinger

“Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. […] Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades.

Ao contrário, nós, temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo.”

Obra: Homilia de 18 de Abril de 2005. Capela Papal. SANTA MISSA «PRO ELIGENDO ROMANO PONTIFICE». Vaticano. Edição online. De Joseph Aloisius Ratzinger (Alemanha/Marktl, 1927-2022).

Homilia do Cardeal Ratzinger, à mon avis, um dos mais importantes teólogos do século XX, então decano do Colégio Cardinalício na missa da eleição do papa, conclave o qual seria eleito. Trecho de uma releitura do ponto que mais me chamou a atenção, após ler uma citação de Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016) em Aos Ombros de Gigantes [162].

“Cristo leva no seu corpo e na sua alma todo o peso do mal, toda a sua força destruidora. Ele queima e transforma o mal no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor. O dia da vingança e o ano da misericórdia coincidem no mistério pascal, no Cristo morto e ressuscitado”, afirma.

Na missão pascal de Cristo e pela maturidade em Sua plenitude consiste a medida do verdadeiro humanismo para lidar com um mundo carregado de relativismo, egocentrismo e, diria, fanatismo ideológico disfarçado de espírito crítico derivado de uma potencial limitação de visão interpretativa do indivíduo. Para se contrapor a essa ditadura da opinião baseada tao somente em desejos pessoais, tal medida consiste em uma fé “profundamente radicada na amizade com Cristo”, que gera unidade e caridade a convergirem à verdade, que nasce de dentro para fora e reconhece o valor maior da Soberania do Espírito.

162. Lições em La Milanesiana 2001-2015. Edição da Gradiva, 2018, Lisboa. Tradução de Eliana Aguiar. Absoluto e Relativo (p. 135).

02/04/2023 12h26

Imagem: Aracne editrice

Emanuela Prinzivalli
(org)

“Gli studiosi, con qualche eccezione che vorrebbe spingere la conduzione collegiale fino a metà del III secolo, concordano che con Vittore (189-199 ca.) si registra un comportamento da vescovo monarchico. L’episodio più significativo in tal senso è la sua decisione di uniformare il calendario pasquale a Roma, dove la comunità asiatica celebrava secondo l’uso quarcodecimano (cioè il 14 Nisan, lo stesso giorno della Pasqua ebraica), mentre la maggioranza celebrava la domenica successiva al plenilunio di primavera.”

Obra: Storia del cristianesimo. Volume I. L’età antica (secoli I-VII). 3. Le molteplici strade del vangelo (1-11 secolo) e il consolidamento ortodosso del 111 secolo di Emanuela Prinzivalli e Andrés Sdez . I cristiani di Roma e Cartagine fra II e III secolo. Carocci editore, 2015, Roma. Organizado por Emanuela Prinzivalli (Italia/Roma, 1956).

Excelente experiência de leitura deste volume I de História do Cristianismo, organizado pela professora italiana Emanuela Prinzivalli.

A tentativa do bispo de Roma (189-199), Vittore (155-199), em uniformizar com a comunidade asiática o calendário da páscoa na cristandade revelaria, segundo estudiosos, no final do século II, um “comportamento monárquico” (p. 123), entendo, uma pretensão do bispo romano de presidir toda a cristandade, o que rendeu uma tensão com lideranças do oriente.

O bispo de Roma queria um concílio para resolver o problema, mas o bispo Policrate de Éfeso (Eusebio, h.e. 5,2.4,2.), representante das comunidades consultadas, enviou uma carta mantendo o calendário pascal diferente do praticado em Roma (p. 123). Asiáticos tinham referência no costume de celebrar a Páscoa no dia 14 da primeira Lua de Março, não importava o dia da semana ou seja, em 14 de nisã (o mesmo dia da Páscoa judaica), enquanto a maioria comemorava no domingo seguinte à lua cheia da primavera. A insistência do bispo romano pode ter relação com o desencontro de fiéis que seguiam calendários onde se poderia ter grupos celebrando a Páscoa e outros em jejum penitencial. A oposição ao profeta Montano (Ásia Menor), cuja doutrina foi combatida, enquanto adotou o calendário dos asiáticos, pode também ter relação com a tentativa de padronização.

A uniformização da data da Páscoa só foi acordada cerca de 130 anos depois da iniciativa de Vittore, no concílio de Niceia (325); a mon avis, a esta altura no Império havia a disposição de “uma estrutura uniforme superior aos bispos” (p. 255) que fazia da fé cristã institucionalizada um instrumento político.

01/04/2023 22h00

Luciano Macêdo

Senhor meu Deus! te louvo, te adoro, meu Senhor!
Verdadeiro é o meu Senhor! Herói é o meu Senhor!
E contigo terei a vitória, meu Deus.
Pois estou contigo em busca da paz e do amor.
Verei a tua glória, a glória de Deus.
Os sofrimentos são simples alentos na vida de um servo de Deus.
Repousa o meu espírito no meu Deus; pois ele me dá tudo para que eu vença.
A vitória não é minha, mas de Deus.
Pois sem ti, Senhor, o que eu seria?
Um nada no espaço vazio.

Obra: Oração a Deus. De Luciano Arcelino de Macêdo (Brasil/Pernambuco/Recife, 1957).

A fé que recebi

A fé que recebi
Pela imensidão percorreu
Fome, nudez e espada do mundo, venceu.
Porque da Palavra da Cruz, verteu.

Pedro de ponta cabeça, crucificado.
Prisioneiro de Cristo, São Paulo encarcerado,
Testemunhara Santo Estevão aos pés, apedrejado.
Em Roma a carreira encerrou, decapitado.

Assim Crisóstomo padeceu,
E a Santa Olímpia escreveu,
Viveu seu “Patmos” como São João, exilado,
Sabiam que só uma coisa terrível há: o pecado.

Fé triunfante nos sofrimentos
Que são simples alentos,
De testemunho que alto preço cobrou
A quem a Deus se consagrou.

Pastor Abdoral, 01/04/2023 23h40.



Comentar pelo Facebook

Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.