Uma leitura ao dia inicia julho com a belíssima peça de Hans Zimmer (Alemanha/Frankfurt am Main, 1957) produzida para o filme Interstellar (2014), obra-prima dirigida por Christopher Nolan (UK/England/London, 1970). Concerto realizado no Royal Albert Hall.

15/07/2024 02h09

Imagem: ex-isto

Platão

[Sócrates] Então que educação há de ser? Será difícil achar uma que seja melhor do que a encontrada ao longo dos anos, a ginástica para o corpo e a música para a alma?

Obra: A República. Livro II. 376a – e. Martin Claret, 2002, São Paulo 2002. Tradução de Pietro Nassetti. De Platão (Atenas, 428/427 – 348/347).

Torno a destaques de 2002, no trecho (p. 65) a indagação de Sócrates nos diálogos de A República a indicar a concepção que já se tinha sobre a importância da música na παιδεία aos cidadãos que, ao lado da educação física, a ginástica, forma o conjunto sobre duas bases principais.

No contexto, a formação do guardião da cidade, o militar que, para ser perfeito, deverá naturalmente ser “filósofo, fogoso, rápido e forte” (p. 64). Concorda Sócrates com Adimanto que na música deve ser incluída a literatura, a começar da “falsa”, ou seja, das fábulas que serão contadas às crianças com o intuito de transmitir verdades, valores, por meio de histórias dos heróis e dos deuses que deverão ser submetidas a uma espécie de controle de qualidade, a ser realizado por parte dos filósofos, os amantes da sabedoria que darão conta da organização das diretrizes educacionais da cidade, antes das mães e amas serem persuadidas a usarem o material, o que denota a ideia de uma regulação (p. 65).

A educação deve começar pela música (e a literatura) antes da ginástica, pois é na alma onde se é moldado, onde se define a matriz sobre quem é a pessoa (p. 65). No Livro XIII, em um contexto onde começam a refletir sobre formas de governo, Sócrates volta a argumentar sobre a proeminência da música sobre a ginástica na educação de base, primeiro ao retratar o caso do indivíduo no regime oligárquico, adorador da riqueza material (p. 243) gastador das coisas alheias para satisfação dos próprios desejos, avaro das suas riquezas, que foge da lei como a criança foge do pai, pois foi educado não pela persuasão e sim pela violência, com maior veneração à ginástica do que à música (p. 244). Sócrates, um pouco mais adiante no diálogo, argumenta que é a razão, misturada com a música, “a única defensora da virtude durante a vida na pessoa que ela (a alma) habita” (p. 245).

14/07/2024 05h47

Imagem: The White House

Abraham Lincoln

“For an instant the audience thought that the pistol-shot and the leap to the stage were a part of the play. No one, not even the actors themselves, suspected that the President had been harmed.”

Obra: Lincoln, the unknow. 28. Dale Carnegie & Associates, 1932, New York. De Dale Carnegie (EUA/Missouri/Maryville, 1888-1955).

Enquanto chegavam as notícias da Pensilvânia, veio-me em um flash a cena de O Poderoso Chefão II (1974) onde Michael Corleone e Tom Hagen discutem sobre como eliminar o traidor e veterano da máfia Hyman Roth que, ao desembarcar em Miami, seria entregue a um aparato de agentes do FBI, da alfândega e da Receita Federal. Hagen, para enfatizar o enorme grau de dificuldade, compara a intenção de Corleone a uma tentativa de assassinato do presidente dos EUA. Corleone então contesta Hagen a argumentar que “se há alguma coisa certa nesta vida, se a história nos ensinou alguma coisa, é que se pode matar qualquer um”.

Veio-me em seguida em memória o democrata John Fitzgerald Kennedy (1917-1963), o mais recente e impactante caso de assassinato presidencial por conta das imagens documentadas. Imediatamente me veio o mais notório, o caso do republicano Abraham Lincoln, e então fui até esta obra de Dale Canergie para reler a cena do assassinato (p. 210), em Washington, no teatro Ford, pelo ator John Wilkes Booth (1838-1865) . Nem mesmo os mais talentosos roteiristas de Hollywood (que à época estava longe de existir), conseguiriam inventar a cena em que o ator, revoltado com as ideias antiescravagistas do presidente, realizou o homicídio:

Parado por um dos guardas do presidente, Booth entregou-lhe seu cartão pessoal de forma confiante (como um bom ator) dizendo que Lincoln desejava vê-lo; e, sem esperar permissão, empurrou e fechou a porta do corredor atrás de si, travando-a com um suporte de madeira de uma estante de partitura. Ele tinha espiado pelo buraco que havia perfurado no porta atrás do presidente, para medir a distância e silenciosamente abrir a porta. Então, empurrou o cano do seu alto calibre derringer perto da cabeça do presidente e puxou o gatilho. Em seguida saltou para o palco abaixo. A cabeça de Lincoln caiu para frente e depois para o lado, sem emitir nenhum som. Por um instante o público pensou que o tiro de pistola e o salto para o palco faziam parte da peça. Ninguém, nem mesmo os próprios atores, suspeitaram que o presidente tivesse sido alvejado (p. 210, tradução livre).

Pela memória auxiliar, vieram-me James Abram Garfield (1831-1881), o primeiro caso de presidente assassinado, e William McKinley (1843-1901), ambos republicanos.

Em seguida recordei os casos de atentados a presidentes americanos, quanto aos que sobreviveram: Ronald Reagan (1981), Jimmy Carter (1979), Gerald Ford (1975) e  Richard Nixon (1974). Em mais um esforço, mais demorado, apareceram Harry Truman (1950) e Franklin Delano Roosevelt (1945). Recorri novamente à memória auxiliar e então me vieram Theodore Roosevelt (1912) e Andrew Jackson (1835). Nessa revisitação histórica, lembrei-me também de Robert F. Kennedy, o irmão do presidente que também foi assassinado, com a diferença que foi na condição de candidato.

Então pensei na leitura de Historia de Roma, de Indro Montanelli (1909-2001); lembrei-me da passagem sobre os dez imperadores que se sucederam em um período de 126 anos (30 a.C a 96 a.C), onde sete foram assassinados [242].

Do caso da facada em Bolsonaro no Brasil, pensei no que ocorrera com o senador Arnon de Mello, pai do ex-presidente Fernando Collor que, entre discursos e após trocas de gestos de sacar arma com o senador Silvestre Péricles, protagonizou disparos dentro do Congresso Nacional, o que resultou na morte acidental de outro colega parlamentar:

Em 4/12/63, o Senador Arnon de Mello proferiu um discurso na bancada do Senado, em resposta ao discurso anterior do Senador Silvestre Péricles. Durante a explanação, os dois fizeram o gesto de sacar uma arma do bolso, mas apenas Arnon de Mello de fato retirou uma arma de fogo, disparando-a, sem qualquer mira, na direção de Silvestre que se abaixou rapidamente. Os tiros, porém, acertaram o Senador pelo estado do Acre, José Kairala, que faleceu horas depois [243].

A política, ao longo da história, muitas vezes no uso de linguagem violenta em forma metafórica, acaba por ser o cenário para a violência concreta, sendo tão ou mais sanguinária que a ficção.

Pensei também que a sensação de segurança de quem atua no mundo político, em muitas ocasiões, tem se revelado mais ilusória do que qualquer outra coisa, apesar da imensa estrutura montada para proteger os que ficam expostos, assim como essa ilusão é evidente entre poderosos que não são políticos por atuação pública, enquanto são tão ou mais capazes de prover considerável suporte de segurança, inclusive com o aparato estatal, o que ratifica o dito pelo personagem Michael Corleone.

Outro ponto que refleti é que políticos, ao darem discursos, deveriam considerar que ao fomentarem uma linguagem que incentiva o ódio ao adversário, podem provocar uma ebulição perigosa não apenas em si mesmos, mas também no bojo social, em seus seguidores, sobretudo entre fanáticos.

242. p. 319, Peguin Rabdom House Grupo Editorial, 2014, Barcelona, eBook Kindle. Tradução para o espanhol de Domingo Bruna.

243. Caso Arnon de Mello – Ação Penal Pública n. 967/1963

13/07/2024 00h10

Imagem: confindustriaemilia.it

Frederico Rampini

“Il sisteme delle quote ha prodotto effett paradossali. […] Questo avviene attraverso una miriade di partiti che rappresentano le caste inferiori, e cosi rafforzano la coesione interna della stessa caste.”

Obra: La speranza indiana. Storie di uomini , città e denaro dalla più grande democracia del mondo. VI. L’enigma delle caste e il veleno nazionalista. Mondadori, 2007, Milano. De Frederico Rampini (Italia/Genova, 1956).

Torno à obra do experimentado jornalista, correspondente internacional e escritor italiano sobre a Índia.

O trecho (p. 210) desta Leitura me fez pensar em paralelo nas políticas públicas para cotas no Brasil sob apelos de reparações históricas.

Antes, penso no que Rampini discorre sobre o antiguíssimo sistema de castas na Índia que se confunde com a gênese do hinduísmo (p. 202) que lembra a ideia de “ordem natural” semelhante à visão de Aristóteles quanto a grupos que se apresentam como naturalmente à função de senhorio, enquanto outros foram destinados à submissão. Na Índia, a essência do apartheid está sistematizada na ordem social por uma concepção religiosa de “pureza” que define o ordenamento conforme papéis, do âmbito religioso aos diversos meios da sociedade produtiva, resultando em um complexo sistema de castas (pp. 202-203).

Rampini indica que a sociedade indiana vive nos dias atuais uma tensão entre os que desejam se livrar do apartheid fincado em preceitos religiosos e os que militam para conservá-lo. Cita (pp. 204-205) a defesa categórica feita pelo renomado filósofo do hinduísmo Ananda Kentish Coomaraswamy (1877-1947) em favor do sistema de castas que, na visão do filósofo, “é absolutamente incompatível com a competitividade da sociedade industrial” (p. 205) apregoada na mentalidade capitalista ocidental. Sobre esta leitura, passei a entender melhor o contexto da resistência de Mahatma Gandhi (1869-1948) aos valores da economia no que tange ao mercado, à divisão do trabalho e aos avanços tecnológicos que, de fato, contrariam uma visão de sociedade onde a mobilidade social, a ascensão ou a mudança de status, não é uma coisa concebida, enquanto é algo natural que ocorre em sociedades sob maior influência da ordem espontânea derivada dos mercados.

A Índia atual tem membro da Suprema Corte de casta inferior e o parlamento é um centro de defesa de direitos igualitários em favor dos que são oprimidos pelo sistema de castas (p. 210), no entanto, ao longo dos anos, a consciência em favor do milenar apartheid religioso continua a se afirmar na Índia, conforme o docente e escritor indiano Purushottam Agrawal (1955), mencionado por Rampini (p. 211).

Sobre o “paralelo nas políticas públicas para cotas no Brasil” que pensei nessa experiência de leitura, deu-se ao refletir acerca do que Rampini aponta sobre forças políticas progressistas que enfrentam a mentalidade de castas na adoção de políticas de cotas para fins de promoção econômica. Aqueles que desejam ter acesso a tais benefícios na Índia, devem se declarar como parte de alguma casta inferior e é neste detalhe que reside o “paradoxo” apontado por Rampini, pois ao se declarar como membro de uma casta inferior para obter determinados benefícios sociais para combater as desigualdades, surgem diversos partidos que se dizem representantes dos interesses das castas inferiores e assim “reforçam a coesão interna pelas mesmas castas” (p. 210), aponta Rampini. Há uma política na Índia de reservar empregos a quem se situa nas castas inferiores, o que acelerou o declínio dos que investem nas castas e forçou um sentimento nacionalista hindu com um perfil reacionário, questão que está no centro das reflexões do socialista indiano Pankaj Mishra (1969), também citado por Rampini (p. 211). Diante desse emaranhado de interesses, penso, em face ao Brasil de, além da reação de setores insatisfeitos com as políticas públicas em favor das minorias consideradas vítimas de injustiças históricas, a política pública de favorecimento poderia incentivar o interesse pela preservação de narrativas apenas para manter os benefícios sociais? Findando-se as injustiças, as políticas perderiam o sentido de existência, a priori, o que seria algo benéfico para a sociedade que paga os impostos destinados a essa finalidade, no entanto, o corte de benefícios pode não ser visto assim por parte de quem os recebe e então conservar o discurso como se fora uma “eterna vítima” pode ser um esforço político para, na prática, fazer com que as ditas “injustiças sociais” sejam intermináveis, sem solução, impagáveis na prática, embora o lobby as apresente de forma contrária quanto à quitação. Refiro-me aqui ao problema do “vitimismo” como, em tese, uma ferramenta para obtenção de privilégios por quem não passa pelos efeitos do que se apresenta em função da suposta “dívida histórica”. Pensei em quem tenha características antropométricas e biotipológicas nada semelhantes a da determinada etnia considerada vítima de alguma opressão registrada na história, enquanto se afirma como pertencente apenas para receber algum benefício de políticas públicas, assim como os que se declaram “negros” para obter acesso às vagas reservadas em cotas nas universidades estatais. Então, penso, será que, em casos assim, haverá interesse político autêntico em ver a superação das ditas “desigualdades sociais”?

12/07/2024 20h13

Imagem: Planeta

William Sanches

“É como uma árvore pesada, cheia de galhos secos, que não caem […]”

Obra: Em mim basta!: o poder de pular fora quando nada mais faz sentido. 11. Cortar as pessoas de minha vida significa que me respeito. Citadel, 2022, Porto Alegre. De William Sanches.

Esta obra do terapeuta transpessoal William Sanches me fez pensar em algumas experiências onde tive que recorrer ao “em mim basta!” e o capítulo 11 tem uma especial ligação com minha forma de entender que cortar é tão importante quanto criar relações. Quando estou a cuidar de meu pequeno jardim, percebo a essência da verdade dita no trecho (p. 84) desta Leitura.

Nunca fui dado a pertencer de forma intensa a grupos disso ou daquilo e em alguns momentos quando percebi que estava com mais envolvimento em algo do gênero, ao mesmo tempo tomava consciência sobre certos significados em torno de conversas, ideias, crenças, anseios e banalidades ou acerca do que William Sanches afirma sobre ficar atento “ao que é dito e como as coisas são ditas” nos ambientes em que socializo (p. 84).

Nos tempos de seminarista, naturalmente fiquei próximo a círculos liderados por pastores, e não demorou muito para perceber que aquele meio não fazia sentido em minha forma de pensar o mundo, quando passei a meditar sobre o contexto das coisas que escutava. Considero-me um sujeito de fé enquanto apetecido ao contínuo exercício da dúvida; logo, ser impedido ou constrangido para não questionar sistematizações pelas quais estou relativamente envolvido, sobretudo às que tenho por definição pessoal sobre o que me cerca, ou não poder falar sobre possiblidades (p. 82), torna-se um problema sério. Qualquer coisa ou pessoa que procure determinar o que devo ser e pensar se torna tóxica. Acontece que o ambiente religioso é fortemente inclinado a atrair quem se pauta por repulsa ao exercício do espírito crítico e muitas certezas, convicções, “verdades de fé” normalmente vistas como intocáveis na manipulação de quem lidera, enquanto são tratadas como “soluções” com a chancela de revelação divina em um bojo alienante, um mundo de bolha que muitos tomam para si e que se esfarelam no enfrentamento da realidade em questões complexas da vida que demandam maturidade, reflexão e intimidade, sobretudo no relacionamento com Deus. Nada tenho para trocar experiências em um meio com esse tipo de molde em dogmatismos e paixões doutrinárias que impedem um diálogo franco com dilemas do mundo e outros saberes; destarte, cortar relações foi algo natural.

O “em mim basta!” também de vez em quando acontece quando percebo relacionamentos profissionais que se tornaram tóxicos. Nesse aspecto, trabalho bastante para ter condições de cortar relações quando, por exemplo, identifico um cliente que se comporta como se fosse o centro do universo: imediatista contumaz, exige de forma desproporcional ao que está disposto a dar de retorno financeiro, não respeita determinados limites em torno de tarefas, horários e prazos, pauta-se tão somente nos próprios interesses onde os fins justificam os meios e/ou apresenta valores que desprezam o mútuo respeito nas relações humanas. Ao reconhecer uma personalidade assim, o confronto é inevitável no foro íntimo que se relaciona com o que William Sanches recomenda acerca de saber cortar hábitos, comportamentos, palavras, atitudes, tudo aquilo que contraria o que desejo para a minha vida (p. 84).

Às vezes o “em mim basta!” sequer é necessário e percebo isso quando sou convidado para fazer parte de atividades, grupos ou instituições onde tenho muitas restrições; penso quando fui sondado simultaneamente para apoiar movimentos petistas e bolsonaristas (foi uma dupla ofensa inconsciente de quem fez os convites), participar de eventos do meio contábil que exploram comercialmente coisas que tenho muita objeção, pregar em culto evangélico (aqui, pensaram que o Leonardo de 2000 a 2005 ainda está vivo quando eu mesmo o enterrei), eventos sociais onde há muita bebedeira, comilança, música tóxica, normalmente em volume alto, onde será fácil esbarrar em expert no falar sobre a vida alheia (coisas socializadas que tenho ojeriza). Talvez esses chamados ocorram pela ilusão comum em muitos acerca da crença do que sabem sobre uma determinada pessoa.

A capacidade de cortar laços está longe de ser uma questão apenas de liberdade financeira. Envolve um maior auto conhecimento que proporcione uma vida espiritual autêntica, em boa consciência com valores e desejos, e não em função de se viver com base sobre o que os outros pensam; neste ponto considero o que William Sanches ilustra no ato de sair da manada (p. 82), penso no que enseja na busca por um fortalecimento mental para enfrentar críticas que não merecem o valor que lhes é dado nas aparências da vida social.

11/07/2024 22h12

Imagem: Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux

“A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana.”

Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. Intermezzo Musical. Quem foi Bach?Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).

Ensaios Reunidos de Carpeaux está entre as 10 obras que considero mais importantes em minha vida de leitor.

Organização, introdução e notas de Olavo de Carvalho (1947-2022).

O que Carpeaux afirma sobre Johann Sebastian Bach (1685-1750) faz total sentido, à mon avis, quando escuto suas peças; é como se abrisse uma perspectiva além do que consigo entender sobre o significado da existências das coisas em harmonia. A música do gênio que fora esquecido (p. 835) suscita uma percepção de uma forma fascinante de representar a natureza como se a música alcançasse outra dimensão.

Os concertos de Brandenburgo surgem em meu despertar em um “bom dia!” do Criador. O prelúdio 1 BWV 846 me conduz a um mergulho incomum sobre a singeleza da vida que, muitas vezes, deixo de apreciar no cotidiano.

A sequência de BWV 1004 me inspira na resolução de problemas de programação; quantas vezes me flagrei com a música, quando não tocada, em pensamento, diante do que parece desconexo e perturbado, e então as notas parecem decodificar uma forma única ao meu espírito em favor de uma reordenação que supera a incompreensão diante dos problemas de lógica que enfrento.

Carpeaux fala de uma característica de Bach que me causa, concomitantemente, inquietação e deslumbramento: a semelhança em meio a diferença entre os concertos (p. 838), como se todo o conjunto de sua música, dos elementos profanos (p. 836), incluindo os de origem italiana, ao misticismo gótico dos motetos (p. 840), convergisse a um fim supremo, a um encontro com Deus, o que me faz pensar no trecho (p. 840) desta Leitura.

10/07/2024 22h50

Imagem: marxists.org

Lenin

“Os comunistas, os partidários da III Internacional, existem em todos os países precisamente para transformar em toda a linha, em todos os domínios da vida, o velho trabalho socialista, trade-unionista, sindicalista, parlamentar, num trabalho novo, comunista.”

Obra: Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. Editora Montecristo. Fonte digital The Marxists Internet Archive, 2022, eBook Kindle. De Vladimir Ilyich Ulianov (Rússia/Ulianovsk, 1870-1924), pseudônimo Lenin.

Paris, 2022, janeiro – A place de la République é um desses lugares que me fizeram pensar nos dramas políticos da história quando estive de passagem, da França revolucionária, de manifestações que desafiaram a compreensão da ciência do poder… E enquanto caminhava, pensava na imagem um tanto estereotipada que tinha da França, como um país repleto de progressistas, feministas e comunistas em franca ebulição, o que na verdade é um rabisco, uma caricatura até mesmo de Paris em contraste com o resto do país, onde há relevância em conservadorismo e catolicismo.

Admiro o estilo francês aberto ao contraditório, mais educado, fino, elegante, inclinado a escutar o outro, tirando os extremistas, claro, que tem em todo lugar. Um debate francês é algo normalmente palatável; um tanto diferente em comparação com o que ocorre entre espanhóis, italianos e portugueses , que mais lembram o estilo “feira livre” com requintes de ataques de nervos, gritarias e chiliques.

Então, as imagens que conferi esta semana da place de la République, fizeram-me pensar neste trecho de Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo; a celebração de eleitores da grande coalizão de esquerda me inspirou a parafrasear Lenin. Pensei, de fato foi uma virada impressionante em uma semana onde a dita “extrema-direita”, com ideias retrógradas que retomam uma sombra do passado europeu, foi da vitória no primeiro turno, com alguma possibilidade de compor um bloco absoluto, para o terceiro lugar, embora tenha avançado na ocupação de cadeiras no parlamento. Venceu o grande bloco esquerdista, composto pela França Insubmissa, encabeçada por Jean-Luc Mélenchon, arregimentado com socialistas, a militância do Partido Verde e comunistas. Venceu mas não o suficiente para determinar ou primeiro-ministro; a falta da maioria forçará negociações com o bloco encabeçado por partidários do presidente Emmanuel Macron e, neste detalhe, reside minha paráfrase.

Hoje, “comunista” serve mais como espantalho que qualquer outra coisa: extremistas de direita o aplicam para capitalizarem votos entre eleitores bastante infantilizados se darem ao temor, assim como entre os do lado canhoto o utilizam para adestrar quem tem a cabeça na Rússia bolchevique. O presidente da França realizou uma jogada de alto risco ao dissolver o parlamento, o que pode resultar em uma grave crise política, talvez em um governo técnico, ou em uma retomada do protagonismo de seus partidários no parlamento se a doença infantil do comunismo for suficiente tanto quanto Lenin pensava para os camaradas da ditadura do proletariado, no sentido de compor capital político parlamentar diante de um inimigo implacável no lado oposto, o que, no contexto de Macron, tinha acabado de vencer as eleições do parlamento europeu e passaria o restante de seu mandato presidencial a fazer um barulho que talvez não fosse bom escutar. O “derrotado” Macron agora está no meio do parlamento francês, onde pode negociar com esquerdistas pela cartilha da realpolitik onde vender a mãe é uma possibilidade, o que não é viável com a “extrema direita” ou, naquela velha ação de canalizar toda a linha, em todos os domínios da vida, o velho trabalho socialista, trade-unionista, sindicalista, parlamentar, num trabalho macronista.

Bem… o “macronismo” pode ser substituído por qualquer outro “ísmo” que seja capaz de instrumentalizar a doença infantil do comunismo.

09/07/2024 20h42

Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Padre António Vieira

Para falar ao vento, bastam palavras: para falar ao coração, são necessárias obras.”

Obra: Sermão da Sexagésima. Pregado na Capela Real em 1655. Semen est Verbum Dei [1]. §IV. Sermões. Parte I. eBook Brasil. Biblioteca Nacional. De Padre António Vieira (Portugal/Lisboa, 1608-1697).

Nota do autor: 1. A semente é a palavra de Deus (Lc. 8,11)

Neste tópico do sermão, afirma um dos maiores oradores sacros da cristandade que o exemplo de vida define o melhor conceito que um pregador pode levar ao púlpito diante dos ouvintes.

Não há conversão apenas com palavras e pensamentos. Discursos estão vazios sem obras, sem o testemunho vivo na pessoa do pregador. Padre António Vieira indica o maior de todos os exemplos: o próprio Deus que, para converter o mundo, enviou o seu Filho, Palavra enquanto Deus, obra enquanto homem; Jesus é encarnação da Palavra, união do logos com a carne, pensamento e ação de Deus:

Quis Deus converter o mundo, e que fez? Mandou ao mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Gertitum, nonfactum. O Filho de Deus enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est [8] De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras, não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do mundo.

Nota do autor: 8. E o Verbo se fez carne (Jo. 1. 14).

No céu Deus é visto, na terra, escutado. O que se vê impacta mais a alma em relação ao que se escuta. Deus é contemplado no céu, mas e na terra? Sermões que não impactam os ouvintes são os que só chegam aos ouvidos, não são vistos, ou seja, carecem de exemplo de vida do pregador e, neste ponto, padre Antonio Vieira cita João Batista:

[…] suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos.

Modéstia, humildade, desapego à ostentação terrena, simplicidade; o que se escutava de João Batista era visto nele e assim multidões se convertiam. O que se ouvia era confirmado pelo que se via:

Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?

Esta parte do sermão me fez pensar sobre o que seria uma “conversão” nos tempos atuais, ao considerar pregadores que, talvez, possam não se encaixar na essência do que o padre António Vieira apresenta de forma tão impactante, enquanto são seguidos por multidões. O que se busca de referência seria a essência do Evangelho baseada no testemunho de vida do pregador ou o centro de atração estaria em outra coisa, quem sabe em uma admiração, um desejo de ver em torno de idiossincrasias? Seriam almas convertidas a Cristo ou legiões de fãs à semelhança do que ocorre no mundo pop, com a diferença de que o ídolo está disfarçado de pregador?

08/07/2024 00h01

Imagem: Mises Institute

Hans-Hermann Hoppe

“Os senhores feudais e os reis só podiam ‘taxar’ com o consentimento dos taxados e, em sua próprio terra, todo homem livre era equivalente a um soberano, ou seja, o tomador máximo de decisões, assim como o senhor feudal era em suas terras.”

Obra: Uma Breve História do Homem. Progresso e Declínio. Capítulo III. Da Aristocracia à Monarquia e à Democracia. LVM Editora, São Paulo, 2018. Tradução de Paulo Polzonoff. De Hans-Hermann Hoppe (Alemanha/Baixa Saxônia, 1949).

Torno à esta compacta e interessantíssima obra do filósofo libertário alemão no tocante ao tema da “ordem natural” que tem me ocupado novamente.

Após citar Realeza e Direito na Idade Média, de Fritz Kern (1884-1950) e a sua provocante obra Democracia, o deus que falhou, Hoppe aponta a Idade Média como “exemplo histórico” (p. 124) do que descreveu como “ordem natural” que discorre no trecho (p. 124) desta Leitura. A taxação dependia de consentimento, caso contrário seria considerada “sequestro”, afirma no mesmo parágrafo, e prossegue a indicar que havia um entendimento da lei como algo antigo e eterno; tentativas de inovações eram rejeitadas e caberia ao rei aplicar e protegê-la.

No início medieval o rei não se definia por nascimento e sim por consentimento dos que faziam a escolha, havendo a opção de abandoná-lo em interesse por outro. Nessa breve descrição do feudalismo ‘alodial’, “com a supremacia de uma única lei e da subordinação de todos a ela”, “da ausência do poder legislativo”, e “da ausência do monopólio legal da judicialidade e da arbitragem de conflitos” (p. 125), Hoppe pondera que não se trata de uma ordem natural “perfeita”, pois havia o problema da instituição da servidão (p. 124, aqui se observa outro elemento de moralidade diversa à aristotélica).

A ordem natural na visão de Hoppe se relaciona então com a unicidade da lei que deriva das relações livres na sociedade; essa lei comum e ampla se atesta por costumes e tradições, sendo a escravidão uma forma de negá-la. A supremacia dessa lei é outro ponto; não há posição social que resulte em tratamento diferenciado, pois todos estão submissos a ela. O terceiro ponto é caríssimo ao pensamento austro-libertário: o monopólio, justamente o elemento que caracteriza o estado. A lei é natural das relações humanas, é para todos e não deve ser aplicada por um aparato que monopolize seu juízo.

O problema do monopólio se torna essencial na abordagem de “ordem natural” feita por Hoppe neste ponto da obra, ao considerar outro monopólio que caracterizou a passagem desse feudalismo no início da Idade Média, por formas de monopólio territorial onde surgiram os reis absolutistas e, em seguida, os constitucionais (p. 125). Penso como a Idade Média me foi apresentada na adolescência e início da juventude: como um período marcado apenas por absolutismo monárquico e como foi interessante conferir a separação que Hoppe faz de momentos diversos, onde considera o primeiro em uma ordem natural imperfeita com os reis feudais, e os seguintes, no afastamento dessa naturalidade com reis que se colocavam acima da lei e se tornaram déspotas, vindo, em fase posterior, a serem institucionalizados, como ocorreu na França, o que culminou em uma crise que desencadeou a Revolução em 1789.

07/07/2024 19h32

Imagem: C. S. Lewis Fundation

C. S Lewis

“[…] who write on social matters have not yet learned to imitate the physicists by always including Time among the dimensions. […]”

Obra: The Abolition of Man. 3. The Abolition of Man. The Macmilllan Company, 1947, New York. De Clive Staples Lewis (UK/Belfast, 1898-1963).

Esta obra me ajudou a pensar sobre o tema da “ordem natural” em uma perspectiva diversa à aristotélica, em um sentido da dimensão da moralidade em uma crítica no contexto de meados do século XX. Disponível em português pela editora Thomas Nelson Brasil, A Abolição do Homem expõe, através de uma análise sofisticada do tema, por parte de um professor universitário, crítico literário e autor de prestígio internacional por diversas obras não-ficcionais e ficcionais, entre as quais o clássico As Crônicas de Nárnia.

C.S. Lewis inicia a apontar o caso de uma obra para “meninos e meninas das últimas séries” (Capítulo 1, p.1) a qual decidiu não revelar o título e assim adotou a denominação de “livro verde”, onde pontua elementos que se relacionam com o relativismo moral, e desta crítica insere a questão da importância do entendimento e do respeito à ordem natural para a conservação da espécie humana ou, em outras palavras, C. S. Lewis lança um bem fundamentado alerta sobre os danos que o relativismo moral pode causar no ser humano.

Sobre o trecho (p. 36) desta Leitura, C. S. Lewis aponta que estudiosos em questões sociais ainda (a obra foi publicada pela primeira vez em 1943) não sabem fazer com o objeto de estudo que se ocupam, o que os físicos fazem quando consideram o tempo como uma dimensão. O objetivo dessa abordagem no plano social seria para possibilitar uma compreensão sobre o que realmente significa o poder do ser humano sobre a Natureza e, por tabela, isso inclui o poder do homem sobre o homem no tempo de cada geração humana que exerceu poder sobre seus semelhantes, fenômeno que altera o meio ambiente que herda, promove um conflito com a tradição enquanto impulsiona um contínuo crescimento desse poder (do homem sobre o homem). O tema do crescimento do poder (aqui penso em termos de política), fez-me lembrar na tese de ON POWER: The Natural History of Its Growth, de Bertrand de Jouvenel.

C. S Lewis argumenta que se uma determinada geração alcançasse, menciona “por educação e eugenia” (temas à época em ebulição com ideias comunistas e nazistas no tablado político), o poder concentrado em líderes para realizar sobre seus descendentes o que bem entendessem, ficaria evidente que todo homem que vivesse após essa geração seria objeto de tal poder ou seja, produziria uma sequência de indivíduos submetidos mais fracos; nessa lógica “os últimos homens (aqui entendo, governados), longe de serem os herdeiros do poder, serão de todos os homens os mais sujeitos à mão de morte de planejadores e condicionadores (aqui entendo, os que receberam a herança do poder político)” e esse processo produz uma minoria governante mais forte, cada vez mais restrita, ou seja, cada vez mais elitizada, para dominar grandes massas de seres humanos (pp. 36-37).

Penso que é neste aumento paulatino de poder de manipular grandes massas, uma ordem se estabelece no que seria o último estágio do homem sobre a Natureza, onde se insere o relativismo como instrumento de políticas públicas para moldar gerações envidando abolir o sentido do que C. S. Lewis concebe sobre o que significa o ser humano, agente dotado de valores objetivos da ordem natural.

06/07/2024 16h28

Imagem: Terra Bellum

Aristóteles

“§ 14. A utilidade que têm os escravos é quase a mesma dos animais domésticos: auxilia-nos com sua força física em nossas diárias necessidades. A natureza mesma parece desejar dotar de características diferentes os corpos dos homens que são livres e dos que são escravos. […]”

Obra: Política. Livro Primeiro. Capítulo II. Martin Claret, 2003, São Paulo. Tradução de Torrieri Guimarães. Aristóteles, filho de Nicômaco de Estagira (Grécia antiga/Estagira/Calcídica, 384 a. C. – 322 a. C).

Recife, 2006, setembro – O filósofo de Tomas de Aquino foi “um extraordinário homem de seu tempo”, havia pouco tempo escutado de um colega católico muito versado na Escolástica. Pensei no dito quando estava na biblioteca e percebi que, talvez, a frase tivesse ficado melhor sem o “extraordinário”. Às vezes se apela a uma ênfase imprópria, um tanto exagerada ou contraditória para enfatizar a importância de algo ou de um pensador. Então, foi também nessa experiência que anotei:

“O espanto é comum quando não se pondera a imensa diferença de 2.400 anos de evolução das tradições, da moralidade e dos costumes. Na época de Aristóteles, a escravidão era uma condição vista com normalidade, prevista em planos normativos […]” [241]

Alguns nascem fortes como se tivessem destinados ao trabalho pesado, outros nem tanto, de maneira que são apropriados à “utilidade para a vida civil”, argumenta; para os escravos é “proveitoso e justo viver como servos” (p. 19), indica a sinalizar o entendimento dessa mentalidade. Aristóteles pondera quanto ao homem reduzido à escravidão, visto como diferente do homem escravo a versar sobre a lei de seu tempo; o primeiro, ilustra, pode ocorrer ao que fora vencido na guerra e se torna propriedade do vencedor, algo que por ser discordado por juristas e sábios (§ 16, p. 19) mediante o problema da noção do justo mediante a visão da justiça residir na benevolência, enquanto outros defendem que o comando pertence a quem tem mais superioridade (§ 17, pp. 19-20). Após discorrer sobre discussões sobre a validade do homem reduzido à escravidão, o escravo e os que são nobres, Aristóteles reconhece a polêmica enquanto afirma que “existem escravos e homens livres pela própria ação da natureza” (§ 20, p. 21) e, neste aspecto, senhor e servo estariam integrados em um corpo onde um depende do outro, remetendo-me novamente à noção peculiar grega de ordem natural das coisas.

Isso posto, penso que em vez de julgar imediatamente a moralidade de um autor de um tempo tão distante, penso ser mais edificante, na atividade de leitura, priorizar melhor entendimento dos contextos histórico e cultural da obra em questão. É evidente em meu pensar no século XXI rejeita essa categórica defesa da escravidão feita na obra, enquanto esse mesmo eu deve considerar que se trata de uma visão típica de um homem de seu tempo, nada de “extraordinário” como escutei na retórica; Aristóteles ficou para a posteridade por sintetizar o jeito predominante de pensar na Grécia antiga sobre a ordem das coisas. Desta forma, Política contêm, em certo sentido, uma espécie de compêndio dessa visão de mundo onde os pensamentos de Aristóteles foram desenvolvidos.

241. 14/10/2022 23h02

05/07/2024 20h50

Imagem: Forrówelt

Luiz Gonzaga

“[…] Eu tinha interesse em me adaptar ao sotaque carioca. Sotaque nordestino, havia muito tempo que eu já tinha perdido. […]”

Obra: Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga. Capítulo III. Editora 34, 1996, São Paulo. De Dominique Dreyfus (France/Poitiers).

Em 1940 Gonzaga tentava se estabelecer no Rio de Janeiro e estava “obcecado pelo desejo de integração no Sul […] imitando o modo de ser dos crioulos do Mangue e afastando tudo que havia de nordestino nele” (p. 81), afirma a pesquisadora francesa autora desta belíssima biografia.

Fico a imaginar este Gonzaga tão diferente do que se consagrou como símbolo da cultura nordestina no bairro “mais quente” (p. 75) do Rio de Janeiro, o Mangue, atual Cidade Nova, em busca de um caminho para a carreira musical. A vida pulsa nos sinais de mudanças e cabe ao nosso espírito perceber a necessidade; o Luiz Gonzaga de 27 anos, após alguma hesitação, mudou enquanto tocava, na luta pela sobrevivência, para alguns cearenses que se interessaram em ouvi-lo ao notarem a “pontinha do sotaque” que ele tentava disfarçar; Gonzaga hesitou quando os nordestinos da república estudantil pediram para ele tocar umas coisas lá da terra (p. 81), e pensou na possível reação negativa dos fregueses dos bares que o escutavam no tango, na valsa, no foxtrote e no blues (p. 79). Prometeu tocar “uma coisinha lá do Nordeste” (p. 82) depois de ser ameaçado de não ver mais as moedas caírem no pires caso não atendesse ao insistente pedido.

Na vida acontecem coisas perturbadoras que parecem nos empurrar para o que evitamos por desconhecimento de nossa própria intimidade. Gonzaga então fez um mergulho em suas memórias de adolescente quando acompanhava o pai Januário e o resultado é que dos ensaios saiu uma “polca charmosa e alegre”, o “xamego”, “Pé-de-Serra”; tocou de maneira que encantou os fregueses (p. 82). Estava a nascer uma lenda enquanto começava a “tomar consciência do valor de sua cultura musical” (p. 83).

Este é um momento singular da vida de Gonzaga, da insistência dos jovens cearenses, passando por sua sua resistência ao passado em Exu até conseguir colocar para fora a imensa riqueza cultural que herdara de sua terra natal; o jovem descobriu o seu grande rumo e abandonou a caricatura de carioca para ser um autêntico baluarte da cultura nordestina e assim se tornar um dos maiores de todos os tempos.

04/07/2024 21h20

Imagem: EBC

Adélia Prado

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem — sem coação alguma —
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

Obra: Guia. Em Poesia reunida. Bagagem. Record, 2016, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Adélia Luzia Prado de Freitas (Brasil/Minas Gerais/Divinópolis, 1935).

Assunção poética – por Heitor Odranoel Bonaventura

Estava a apreciar a história
de um missionário que tentou
evangelizar uma tribo
e terminou por perder
o sentido e a fé.

Foi quando senti
que só a poesia
me salvará
de ver somente a dureza
de uma descrença
em não contemplar
uma beleza tão próxima
de uma pureza
na singela existência,
de vidas amalgamadas
com a natureza,
e assim contam a
grandiosidade de Deus
além da lógica
do que penso
sobre quem deve ser colonizado
por minhas ideias.

O mundo foi pintado de cinza
e o céu escureceu
na melancolia
de um senhor desenganado
que perdeu a esperança
na vida que pulsa
na sagrada mãe terra.

E daquela frieza d’alma,
de repente cores brotaram
e um clarão desceu
sobre a amargura.
Era a poesia assunta a me resgatar
do vazio de sentidos
tão óbvios,
para ver pelas batidas
e veias que correm
na humanidade que o divino
habita em mim.

A poesia de cada dia me salvará
em uma linguagem
que de Deus me aproxima
quando as palavras
não mais me alcançam.

03/07/2024 21h40

Imagem: Students for Liberty

Thomas Sowell

“Preços são como mensageiros levando as notícias – […]”

Obra: Economia Básica. Uma guia de economia voltado ao senso comum. Volume I. Capítulo 2. O papel dos preços. Alta Books, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Carlos Bacci. De Thomas Sowell (EUA/Carolina do Norte, 1930).

Recife, 1994, março – “Preços de mercado indicam um instante da realidade”, dizia ZW ao pé do ouvido, “e preços controlados representam a política que nega a economia”, completou. Lembro-me dessa primeira lição que se deu na primeira vez que escutei a expressão “ciência da escassez”. Para um rapaz de 19 anos com mentalidade socialista, as palavras de ZW soaram sem sentido. Voltei-me rapidamente ao professor na abordagem do conceito de escassez, logo após analisar brevemente o histórico de fracassos nos planos econômicos dos governos Sarney e Collor para conter a inflação galopante. Há lembranças curiosíssimas; às vezes ficam evidentes as dificuldades para me lembrar de detalhes de coisas importantes que vivi naquele período, mas essa cena foi tão marcante, dado que o tema da inflação me atraía fortemente, que me lembro da fisionomia fechada do professor e do livro volumoso de Samuelson e Nordhaus em sua mesa, tendo ao fundo, no quadro, um gráfico de oferta e demanda que ele tinha desenhado, junto com dados das bases monetárias do Banco Central.

A inflação marcou minha adolescência de maneira que passei a querer entender a razão de sua existência. Quando comecei a trabalhar como programador (16 anos), lá estava a maldita nas rotinas de preços, indicadores e reajustes. Sofri para entender que passei boa parte do tempo usando o termo para se referir ao sintoma (aumento persistente de preços) e não à cadeia de causas até chegar na “causa causante”; este último termo escutei de ZW se referindo ao que tinha reproduzido de um texto de Roberto Campos. Um tempo depois entendi que os governos e os bancos centrais são os grandes responsáveis pela inflação a partir do aumento deliberado da base monetária.

De 1994 dei um salto na memória para 2018 quando escutei um grupo de docentes (todos tinham doutorado) a discutirem a greve dos caminhoneiros que corria a desencadear um aumento deliberado de preços, sobretudo de combustíveis. Impressionou-me a crença em todos de que o governo poderia “fazer alguma coisa” para conter o fenômeno de “inflação” pontual, no caso provocado pelo choque de oferta. O escabroso debate me fez pensar nesta obra de Thomas Sowell, editada no mesmo ano em português que, em uma linguagem bem simples e direta, explica o significado dos preços em uma economia; sinalizar o estado de escassez de um determinado bem econômico para todos os agentes econômicos e, neste sentido, funcionam como “mensageiros” (p. 12) que transmitem informações da realidade, e sendo assim nem sempre são agradáveis, lembra o professor americano cuja obra é de utilidade pública.

Pensei então em atualizar o que aprendi com ZW em 1994: controle de preços é fake news nos mercados. No caso da greve dos caminhoneiros, os preços avisavam que a escassez tinha aumentado abruptamente; notícia verdadeira. Acadêmicos sugerindo controlar os preços disseminam notícias falsas ao mercado. Alguns pontuarão que foi pela ganância do ser humano que a carestia repentina se deu, mas a economia é feita justamente de agentes humanos, sejam os do lado da oferta, sejam os que estão na demanda, com seus peculiares e diversos interesses que se encontram no ambiente chamado “mercado”, a realidade que pode ser amistosa ou hostil, fato é que nessa troca de interações resultam os preços como sinalizadores do estado de determinado bem. Se o aumento abrupto de escassez afeta o comportamento dos agentes econômicos, sejam os que correm para estocar, sejam os que percebem queda da concorrência e começam a reavaliar preços, o aumento deliberado de dinheiro em circulação provoca maior disposição ao consumo e, mediante um quadro de oferta que não aumentou na proporção do aumento do dinheiro em circulação, o resultado é que a pressão maior pela procura, pelo desejo de consumo, exercerá uma reação no lado da oferta que perceberá o impacto da escassez, abrindo perspectiva de reajuste de preços, ou seja, o fator comportamental humano é o que faz a economia ser o que é na realidade ou, como afirma Sowell:

“Os preços não se restringem a um modo de transferir dinheiro. Seu papel primário é providenciar incentivos financeiros que afetam o comportamento no uso de recursos e produtos resultantes” (p. 13)

Preços formam então uma “ampla rede mundial de comunicação”, ilustra o professor e, penso, como interpretação, quando olho fenômenos de escassez e abundância pelo mundo que se relaciona economicamente. Esse sistema em rede é pioneiro, antes da internet, lembra Sowell e, penso, na medida em que sinaliza a compradores e vendedores onde há mais oferta, mais carência, maiores lucros, grandes prejuízos (que indicam o parar de fazer) e onde há oportunidades de investimentos, este último fator que denotará eventual atração para aumento de oferta a depender de condições diversas.

O maior problema de distorção cognitiva em quem acredita que a política de controlar preços é algo eficiente, consiste em ignorar que a economia é feita de seres humanos (e não de cálculos em mesas de burocratas) que provocam ações e reações em infinitas combinações, preferências, interesses, desejos e outros fatores comportamentais que se traduzem na disposição para investir, consumir, poupar, decisões de acordo com o que cada agente compreende em relação aos seus interesses que pesam os sinais dados pelos preços. Controlar preços então é desligar os sinais, fazendo com que os agentes econômicos, compradores e vendedores, fiquem cegos nessas tomadas de decisões que ocorrem o tempo todo, sem saber o quanto pesa de fato a escassez dentro de suas possibilidades e vontades mediante cadeias de produção e distribuição até chegar na ponta do consumidor final.

02/07/2024 22h23

Imagem: The Nobel Prize

Daniel Kahneman

“A ilusão de que compreendemos o passado fomenta a superconfiança em nossa capacidade de prever o futuro.”

Obra: Rápido e devagar: duas formas de pensar. Parte 3. Confiança excessiva. 20. A ilusão de validade. Objetiva, 2012, Rio de Janeiro. Tradução de Tássio de Arantes Leite. De Daniel Kahneman (Israel/Telavive, 1934-2024).

Torno a obra do psicólogo que se enveredou pela economia comportamental e conquistou um Nobel.

Nos estudos estatísticos essa ilusão se torna intensa, sedutora; correlações, regressões e progressões, um arsenal de equações, funções, derivadas, matrizes, vetores, e eis que no olhar para séries temporais, com modelos econométricos, economistas são experts que ganham a vida com projeções que, não raramente, são por demais imprecisas. Quando vejo previsões para PIB, inflação, dólar, e a seriedade que se concede a esse tipo de empreendimento, vejo como essa ilusão é poderosa ao misturar ciências exatas com ciência humanas; matemática aplicada para estimar resultados mediante imprevisibilidades nas ações de indivíduos que provocam dispersão de conhecimentos em um pacote que acaba fomentando a ilusão desse olhar para o passado.

Na contabilidade essa ilusão ocorre quando se dá aos balanços e demais demonstrações, a ênfase de que o conhecimento da análise daquele instante, que é uma fotografia dos números de um determinado negócio (balanço patrimonial), é suficiente para apontar, com relativa segurança, o que irá acontecer.

Na história essa ilusão é frequente, muitas vezes em sujeitos com aquele ar de “sábio das montanhas” pelo vasto conhecimento, então de antepassados à grande erudição, o futuro até parece um roteiro que pode ser descoberto na medida em que se conhece mais sobre o passado e assim se tiram conclusões como se o entendimento da história fosse uma chave para abrir a caixa preta do futuro.

Nos investimentos essa ilusão está em quem se sente atraído pela rentabilidade passada de um ativo e se comporta como se o histórico de indicadores fosse garantia de rentabilidade futura; a manada se forma, em parte, por conta dessa ilusão.

É evidente que é belíssimo, admirável, o saber, o conhecimento do passado que se analisa na estatística, na economia, na contabilidade, na história, nas culturas, nos investimentos, assim como em diversos outros ramos do saber. O problema é quando se é superestimado e assim o pensante acredita saber mais do que realmente sabe denotando um excesso de confiança, enquanto se ignoram fatores desconhecidos e fora do controle que podem gerar situações novas, inéditas, inestimáveis, obviamente não consideradas nas projeções.

O pior uso das projeções é quando são tomadas como parte da realidade. Kahneman cita um trabalho do psicólogo e cientista político Philip E. Tetlock, realizado por meio de entrevistas com 284 profissionais analistas que ganham a vida com comentários e previsões; os resultados foram “devastadores” com previsões que se saíram piores “do que macacos jogando dardo” (p. 234).

01/07/2024 00h01

Imagem: IMPA

Ramanujan

Many years later, Ramanujan’s work would provide the basis for the fastest-known algorithm, or step-bystep method, for determining pi by computer.

Obra: The man who knew infinity. A life oh the genius Ramanujan. Chapter Six. Ramanujan’s Spring [1914 to 1916]. Washington Square Press, 1992, New York. De Robert Kanigel (EUA/Nova York/Nova Iorque, 1946).

Na medida em que avançava na leitura, a perplexidade me tomava sobre a vida do gênio da matemática Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan (Índia britânica/Tamil Nadu/Erode, 1887-1920), que também pode ser conferida no filme (2015) baseado no livro, com o mesmo título.

A obra é aberta com uma provocante citação em destaque, do astrônomo e professor Clifford Stoll (EUA/Nova York/Buffalo, 1950):

O que Mozart foi para a música e Einstein foi para a física, Ramanujan foi para a matemática.”

Menino pobre, órfão de pai, recebeu da mãe uma educação na tradição brâmane e assim sua vida religiosa foi intensa enquanto passou a apresentar um peculiar interesse por matemática avançada; com 13 anos de idade dominava trigonometria após estudar a obra de S. L. Loney e enquanto meninos normais de sua idade estudavam funções trigonométricas por métodos convencionais, o pequeno Ramanujan se ocupava com conceitos sofisticados envolvendo séries infinitas, de maneira que até os professores se sentiam “desconfortáveis” com o seu excêntrico poder de raciocínio. Tornou-se uma espécie de “celebridade mirim” com certificados de mérito em poesia inglesa e a conquista do prêmio de matemática K. Ranganatha Rao (p. 27).

A primeira vez que ouvi falar de Ramanujan foi no ensino médio quando me contaram que se tratava de um indiano gênio da matemática que nunca tinha frequentado uma escola, um menino da roça que não tinha recebido qualquer instrução formal e, de repente, apareceu com fórmulas que desconcertaram os matemáticos mais renomados de sua época, inverdades adotadas quando se pretende destacar uma grande história; Ramanujan fora um gênio que recebera instrução formal como bolsista do Government College de Kumbakonam (p. 45), em primeiras artes, mas não dava atenção às matérias de fisiologia, grego e história, e acabou reprovado em redação em inglês, o que provocou a perda da bolsa (p. 47), por isso não finalizou a formação acadêmica, não alcançou os níveis mais elevados do dito “ensino superior”. Envergonhado, acabou fugindo de casa (p. 48).

Sua vida intelectual foi marcada por uma mística perturbadora onde o sistema convencional de educação não se encaixava em meio a uma intensa produção de trabalhos registrados em seu caderno de anotações, obras que só poderiam ser comparadas às de nomes consagrados como Leonhard Euler (1707-1783) e Carl Gustav Jakob Jacobi (1804-1851). O longo e sofrido caminho que trilhou até conseguir encaminhar a Cambridge, aos cuidados do matemático Godfrey Harold Hardy (1877 – 1947), e ser convidado para ir a Inglaterra, é a parte da biografia de Ramanujan em que a sua trajetória se revela como assombrosa na medida em que o professor vai percebendo com o que estava lidando: um gênio, de uma originalidade extraordinária, capaz de deixar para a posteridade a base para o algoritmo mais rápido conhecido, ou o método passo a passo, para determinar pi por computador (p. 210).

A história de Ramanujan demonstra como o saber é livre e, muitas vezes, perturbador para quem pensa que pode chancelá-lo entre paredes institucionais, mas também envolve o drama de estar entre o deslumbre com a intuição e a exigência da disciplina, da tecnicidade acadêmica, das provas que Hardy lhe cobrava sobre as fórmulas, enquanto teve que lidar com preconceitos derivados dessa relação tortuosa, além de questões étnicas de ingleses acometidos da comum xenofobia. Há um momento em que o drama se torna intenso com a pobreza de espírito de acadêmicos que costumam dominar o senso de corporativismo, tão peculiar neste meio e, finalmente, torna-se desconcertante como o infinito, que tanto lhe atraiu, quando vem à tona seu relacionamento místico com uma fé religiosa onde a matemática não lhe fazia sentido sem sua familiar deusa protetora Namagiri, que teria lhe dado os “ofícios divinos”, como às vezes dizia (p. 215).

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