2024 – Janeiro é recebido em Uma leitura ao dia com Una Mattina do mestre italiano Ludovico Einaudi (1955), ao violino de Mari Samuelsen (Noruega/Hamar, 1984).

31/01/2024 22h06

Imagem: Site do autor

Walt Larimore

“Não temos o poder de mudar o passado, mas temos um grande controle de como sentimos o passado agora.”

Obra: Os 10 hábitos das pessoas altamente saudáveis. 5. Pratique a aceitação e o desprendimento. O hábito do perdão. D = Dar perdão é muito saudável. Vida, 2004, São Paulo. Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves. De Walt Larimore.

No quinto capítulo desta obra o médico Walt Larimore aponta os benefícios para a saúde de quem pratica o perdão e afirma que “dar guarida ao ódio, à dor ou ao ressentimento sempre corrói” (p. 128). A prática do perdão exige alguns passos difíceis que envolvem recordação do fato gerador de forma mais objetiva possível, o que é potencialmente doloroso pois significa um reconhecimento mais objetivo do mal sofrido; em seguida, compreender o quanto há de desperdício em dedicar tempo para expressar ódio ou esperar por desculpas, além de se evitar a acomodação no papel de vítima.

O benefício da busca pelo “maior valor possível na aflição ou no desastre” foi uma descoberta do autor com seus pacientes, o que se relaciona com o trecho desta Leitura (p. 129). Cita então casos de pessoas que passaram pelo Holocausto, uma das experiências mais traumáticas do século XX; ficar preso ao passado de ódio aos torturadores ou reconhecer o que Deus fizera em meio ao terror? A resposta de Diet Eman, uma das sobreviventes de Auschwitz, junto com o caso do dr. James Upp, mencionado no início do capítulo (p. 123), ao perdoar os jovens envolvidos com o homicídio da filha, são os pontos de maior reflexão que obtive, penso; não se permitir ao ódio, à amargura, é essencial à saúde (p. 129).

Aprender a lidar com o sofrimento e com a vergonha a ponto de enterrar esses sentimentos é o antídoto que vem com o ato da dar o perdão, que só traz benefícios a quem o pratica, sem necessariamente significar o mesmo para quem recebe. Mesmo que o perdão seja indiferente a quem o recebe, a prática higieniza quem o realiza; perdoar é o remédio que se obtém no campo espiritual para a toxina que a dor e a indignação causadas por outrem, produzem.

30/01/2024 22h44

Imagem: Vogue

Martin Luther King Jr.

“Frequentemente eu penso naquilo que é denominador comum e derradeiro da vida: nessa alguma coisa que costumamos chamar de ‘morte’.”

Obra: Luther King: O Redentor Negro – Preces e Mensagens. Coleção Mensagens Espirituais. Introdução. Perfil Biográfico. V. Martin Claret, 2001, São Paulo. Preces e mensagens de Martin Luther King Jr. (EUA/Geórgia, 1929-1968).

Torno a esta leitura de fevereiro de 2004.

O doutor Luther King Jr. em seu último sermão na igreja Ebenézer, onde era pastor, como se soubesse que lhe restava pouco tempo, começou a falar sobre como gostaria que fosse conduzido o seu funeral (pp 20-21).

Primeiro, gostaria de ter um funeral que não fosse longo, e se alguém se apresentasse para fazer o discurso fúnebre, que não falasse muito, não mencionasse que foi agraciado com o Nobel da Paz, pois entende não ser importante, assim como os “trezentos ou quatrocentos prêmios” que recebeu. Gostaria de ser lembrado como alguém que “tentou dar a vida a serviço dos outros”, que “tentou amar alguém”, “ser direito e caminhar ao lado do próximo”; “se quiserem dizer algo, digam que eu fui um arauto”, afirma a citar “da justiça”, “da paz” e “do direito” (p. 20).

O pastor afirma que “não deseja deixar atrás nenhum dinheiro”, que gostaria de deixar uma vida de dedicação, e entoa os versos (p. 22):

Se eu puder ajudar alguém a seguir adiante
Se eu puder animar alguém com uma canção
Se eu puder mostrar a alguém o caminho certo
Se eu puder cumprir meu dever cristão
Se eu puder levar a salvação para alguém
Se eu puder divulgar a mensagem que o Senhor deixou…
Então, minha vida não terá sido em vão.

O pastor superou não apenas a bolha de sua denominação religiosa; foi além da própria cristandade. Em termos de contextualização, penso, deixou uma das melhores interpretações do Evangelho no século XX, pois enaltece um sentido cósmico do amor e da paz de Cristo pela filosofia da não-violência.

29/01/2024 00h02

Imagem: Clarín

Max Weber

“Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência [2] uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas [3] e nos congressos católicos, principalmente na Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados, e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante [4].”

Obra: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Capítulo I – Filiação religiosa e estratificação social [1]. Martin Claret, 2002, São Paulo. Tradução de Pietro Nassetti. De Maximilian Karl Emil Weber (Alemanha/Erfurt, 1864-1920).

Max Weber cita muitas referências bibliográficas nas notas de rodapé (pp 134-136). Há 22 anos o meu eu registrou um curto “questionável” quanto ao trecho (p. 35), ainda com resquício do primeiro contato com a obra em 1995, período em que fui um jovem frustrado com o socialismo, empolgado com o liberalismo clássico, crente que podia explicar boa parte do passado econômico através da econometria e, em casos mais extremos de delírio quanto ao futuro; “prever”.

No segundo parágrafo Weber aponta que o fenômeno se deu “onde quer que o capitalismo pôde alterar a distribuição social conforme suas necessidades e determinar a estrutura ocupacional. Quanto maior foi a liberdade de ação, mais claro o efeito apontado” (p. 35). Em seguida indaga sobre o que explicaria o fato de que os lugares de maior desenvolvimento econômico serem mais propícios a uma revolução dentro da Igreja e reconhece que a resposta “não é tão simples como se poderia pensar” (p. 36).

O tradicionalismo econômico foi afetado pelo protestantismo que colocou em questão as autoridades tradicionais (aqui penso no sentido religioso), o que seria um fator indicado por Weber no argumento de que a Reforma trouxe uma troca de controle da Igreja (Católica Romana), por outra baseada em controle relacionado à “regulamentação da conduta como um todo” (p. 36). Neste ponto, vejo que Weber faz uma espécie de preâmbulo para os temas do espírito do ascetismo na vocação protestante, ponto central da obra. Heranças explicam em parte, sustenta (p. 37), pois entre protestantes se verifica mais propensão ao racionalismo econômico (p. 38), o que se encaixa com o liberalismo de ordem produtiva que veio junto com a divisão do trabalho; mais protestante foram às fábricas e fizeram carreira enquanto católicos tendiam a velhos esquemas produtivos, artesanais (p. 37), o que, penso, estavam sendo superados.

Analisando em um contexto mais amplo, hoje penso que os resquícios da velha ordem feudal, intimamente ligada ao catolicismo romano, foi um dos fatores que retardaram a mudança de mentalidade entre católicos sobre a então nova ordem econômica em ascensão, junto com uma classe que enfrentou as velhas estruturas feudais e a superou: a burguesia. A Reforma Protestante acabou sendo um dos reflexos de um campo desse enfrentamento: o religioso. Se a liberdade passou a ter um peso mais significativo no mundo dos negócios encabeçado pela burguesia, o choque com a estrutura religiosa tradicional (católica romana) seria inevitável face às suas raízes feudais.

28/01/2024 12h28

Imagem: Amazon

Jennette McCurdy

“Então, sem minha mãe, quem eu devo ser agora?”

Obra: Estou feliz que minha mãe morreu. Prólogo. nVersos, 2022, São Paulo. Traduzido por Soraya Borges de Freitas. De Jennette Michelle Faye McCurdy (EUA/Califórnia/Los Angeles, 1992).

Faço uma visita à mesa de minha esposa com os livros de psicologia que recentemente chegaram e esta obra logo me chamou a atenção a começar pelo título e, mesmo não sendo de apreciar o que se passa naquele aparelhinho alienante, não demorou para reconhecer que a autora se notabilizou no papel de uma personagem da série iCarly.

A última frase do Prólogo (p. 8) revela, à mon avis, a chave para começar a entender o drama de uma jovem que, desde o debutar como atriz mirim, teve sua história de vida marcada por uma infância de carências a começar das que foram promovidas pela própria mãe, Debra McCurdy, que pautou o que ela deveria ser. Neste aspecto, penso em muitos pais que exercem essa determinação patológica sobre os filhos, na medida em que espelham tão-somente seus interesses de auto afirmação, talvez por frustações pessoais, e através deles encarnam um autoritarismo a ponto de moldarem quase todos os aspectos dos filhos de acordo com seus caprichos em um processo de atropelamento da maturidade que carece de ser desenvolvida internamente neles, a fim de que consigam sinalizar um caminho que decidiram trilhar (os filhos) por si mesmos. Se na Roma antiga, e em outros povos da antiguidade, os filhos eram propriedades do chefe de família, a pós-modernidade, de certa forma, ainda conserva esse valor em pais que agem como se fossem senhores absolutos sobre o que seus filhos devem ser.

Jannette Mcurdy foi mais uma criança com a triste experiência de não gozar o direito natural de ser criança e assim fora consumida por uma ânsia típica da modernidade líquida (aqui tomo Bauman por empréstimo), de celebrações pelo imediatismo, de coisificação das pessoas, de cultivação de aparências e buscas frenéticas por resultados em um utilitarismo bestial que esvazia o humano na falta de referências legítimas de valores, tudo em prol de um materialismo para ter o os desejos realizados, o “sucesso” a qualquer custo, o que a transformou em um produto do mercado de entretenimento, sob uma supervisão materna que se traduzia em diversos problemas, dos emocionais em meio aos conflitos provocados por queimas de etapas necessárias a uma infância saudável, aos mais profundos, de valores essenciais a considerar o meio de moral religiosa onde cresceu (a Igreja Mórmon, p.191) com o choque de realidade de um meio familiar conturbado na conduta dos pais, da mercantilização a qual foi submetida que veio junto com o assédio que teria recebido no set de iCarly, além dos conflitos e das desconfianças entre os pais, até a anorexia como consequência do regime duríssimo imposto pela mãe. Tento e não consigo imaginar os danos emocionais sobre aquela adolescente atriz.

Então, se o título e a capa do livro podem ser de teor ofensivo para muitos, refletir sobre a pergunta que Jennette McCurdy faz no final Prólogo pode arrefecer sentimentos enquanto se conecta com a coragem que apresenta na obra para externar o que pode ter começado a ficar mais perceptível quando revela algumas de suas reflexões nos últimos momentos de sofrimento da mãe (pp 182-184), acometida por neoplasia maligna. O falecimento então lhe trouxe um vazio com a indagação sobre o que ela viria a ser depois porque passou a vida até então sendo o que a mãe queria que ela fosse e naquele momento, a partir do luto, deu-se conta que teria que se assumir e se pautar por si mesma, um desafio imenso diante de tudo que lhe fora reprimido.

27/01/2024 17h26

Imagem: GTU

Norman K. Gottwald

“[…] a synthetic egalitarian model is advanced which interprets liberated Israel as the conjunction and coalition of prviously fragmented and chiefly rural tribal populations culminating a long hıstory of underclass soial struggle in Canaan. […]”

Obra: The Tribes of Yahweh: A Sociology of the Religion of Liberated Israel. 1250-1050 B.C.E. Part I. Biblical History and Biblical Sociology. 2. Complementarity of Humanistic and Sociological Studies of Early Israel. Orbis Books, 1979, Maryknoll. De Norman Karol Gottwald (EUA/Illinois/Chicago, 1926-2022).

Para apreciar esta obra, antes, é necessário está bem consciente sobre as camadas de leitura da Bíblia, do devocional ao acadêmico, além das ferramentas científicas usadas pelo autor.

Por modelos sociológicos e antropológicos alternativos, Gottward trabalha hipóteses, sobretudo na parte IX, em torno de um Israel bem diverso da leitura devocional, que teria se estabelecido na sociedade cananeia por um processo de formação de categorias de tribos que conseguiram autonomia a partir de populações fragmentadas e principalmente rurais, que teriam insurgido contra regimes os quais estavam sujeitas até então, o que insere implicações para a construção de um modelo de assentamento e para a compreensão da genética do processo social (p. 21).

Ambientado a uma leitura bíblica da história de Israel, deparar-me na juventude com essa obra sociológica foi uma experiência curiosa não pela linha do autor, e sim pela reação de não versados com o marxismo, pois não demorou muito para ver que se trata de uma construção sofisticada por hipóteses sob esse viés. As Tribos de Yahweh é vasta, complexa e muito interessante, considerei desde o primeiro contato, o que não significa que concordo com o que autor tenta explicar pela sociologia e pela antropologia. É interessante porque é provocante, uma obra para estudar, pesquisar as referências, apreciar como se pode ser feita uma leitura acadêmica da Bíblia e pensar bastante, por este ponto, sobre como a fé religiosa pode se amalgamar com questões sociais e políticas, de maneira que os fatores não religiosos podem ter relativo peso na construção de narrativas que impactam o devocional. É o principal trabalho de Gottwald, que está na linha protestante da cristandade, e, sem surpreender, é citado como referência de “notável contribuição à teologia da libertação”, como está na divulgação da Paulus [193], que comercializa a edição em português no Brasil.

193. Editora Paulus: As tribos de Iahweh. Uma sociologia da religião de Israel liberto.

26/01/2024 20h25

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

“Dantes quão ledo afetava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.

Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.”

Obra: Dolora. 19-11-1908. Poesias inéditas em Mensagem. Martin Claret, 2005, São Paulo. De Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

O que é sentir?por Heitor Odranoel Bonaventura

O que é sentir? Mera percepção acionada por dispositivos neurológicos? Enquanto caminhava a pensar, não há de ser um sentido o juízo de tal pergunta? O pisotear, o fechar e o abrir as mãos, o olhar para um beija-flor a visitar o jardim, tudo perceptível a sentir, enquanto fiquei a imaginar o sentir daquele ser singelamente belo ao saborear o néctar no bebedouro, e assim imaginar que não seria um sentir em outra dimensão, física para o visitante agradável, porém abstrata, intangível, não física ao meu ser?

Quando me vem uma cefaleia, sinto encarnada em mim o que minha alma pode sentir em modos intangíveis. Tal sentir além do físico chega até minha ψυχή por caminhos que desconheço em mim mesmo e como não disponho de instrumento para mensurar sua matéria, este sentir que sinto em outra forma, na essência do meu ser, chamo-o de “tristeza”, “melancolia”, “desolação”, às vezes “ira”, “indignação”, “amargura”, outras vezes “alegria”, “ânimo”, “júbilo”. Quando penso que nada me perturba em um momento, a este sentir chamo “paz”, quando tudo me pressiona e percebo o quanto não tenho controle da vida, chamo “caos”.

De uma visita pelo jardim a um beija-flor, dos sentidos físicos aos imateriais, o meu sentir tem dimensões muito além de minhas ínfimas capacidades de defini-lo, quando sinto o que sentir na carne não posso.

25/01/2024 21h10

Imagem: Mises Brasil

Ludwig von Mises

“Na Alemanha e na Áustria do pós-guerra, ganha firmemente expressão na política e nas ciências sociais um movimento que pode ser melhor definido como “antimarxismo”. Ocasionalmente, os seguidores desse movimento também usam este rótulo [2], mas seu ponto de partida, seu modo de pensar e lutar e suas metas não são de forma alguma uniformes. O principal vínculo que os une é sua declaração de hostilidade ao marxismo. Cumpre observar que eles não atacam o socialismo, mas o marxismo, que reprovam por não ser o tipo certo de socialismo, por não ser aquele que é verdadeiro e desejável. […]”

2. Nota do editor americano: Na Alemanha, posteriormente, esses seguidores vieram a ser chamados de “nacional socialistas”’ ou “nazistas”.

Obra: Uma Crítica ao Intervencionismo. Capítulo 4. Antimarxismo [1]. 2a. edição, Instituto Ludwig von Mises, 2010, São Paulo. Tradução de Arlette Franco. De Ludwig Heinrich Edler von Mises (Áustria-Hungria/Leópolis, 1881-1973).

Nota do editor: 1. Weltwirtschaftliches Archiv (Arquivos de economia mundial), vol. 21, 1925.

Este livro é composto por ensaios de Mises escritos no início da década de 1920, informa sua esposa, Margit von Mises, na Nota Prévia (p. 9). Sensibiliza-me a dedicação da senhora Mises em conservar escritos e até palestras do marido, como ocorre em outro trabalho que fizera a resultar no livro As Seis Lições.

A Alemanha tinha saído derrotada e humilhada do que hoje é chamada “Primeira Guerra Mundial”, com seríssimos problemas econômicos. Mises estava na faixa dos 40 anos de idade e discorria sobre o movimento antimarxista alemão onde demostra uma impressionante capacidade reflexiva que o livra de confundir esse fenômeno antimarxista com um genuíno movimento político na defesa do capitalismo e da propriedade privada (p. 93).

Não é complicado olhar hoje nos livros de história e compreender que naquele início dos anos 1920, surgiu um movimento sob a alcunha de “nazista” (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), formado por indivíduos socialistas que adaptaram o nacionalismo com antissemitismo, forte intervencionismo sobre o meio privado, que nessa visão é tolerado e, por tabela, descartaram o marxismo, que é outro tipo de socialismo, mas para quem vivera aqueles anos, reconhecer que nazistas e marxistas são socialistas que não se coadunam exigiu, penso, um grau elevado de lucidez. O próprio Hitler, em Minha Luta, deixa clara a intenção de confundir com seu movimento Nacional Socialista a começar pelo nome modificado no Partido dos Trabalhadores Alemães [192].

Então o Mises de meia idade olhava para tudo isso e conseguia ver certas coisas com melhor nitidez. Outro caso que me chama a atenção consiste no que fizera em 1920, onde demonstrou as razões de o socialismo ser impossível de ser sustentável economicamente em O Cálculo Econômico em uma Comunidade Socialista. Também é relativamente fácil entender que o socialismo não se mantêm sem o cálculo econômico que vem pelo mercado e por isso leva ao caos e à miséria, em meu tempo onde nos registros históricos se verifica no início dos anos 1990 (70 anos depois) a bancarrota da União Soviética e a pobreza do bloco do leste europeu até então alinhado, além de como se encontra na pobreza a maioria dos cidadãos de países como Cuba e Venezuela na atualidade, mas naqueles anos tão intrigantes da década de 1920, onde experiências com socialismo eram inéditas, acertar como Mises acertou é algo que se vê apenas em indivíduos com juízos bem mais sofisticados.

E na obra desta Leitura, Mises não caiu no problema do raciocínio binário que resume tudo a duas categorias que abre o caminho da perdição em coisas do tipo: se um indivíduo se declarar ou se portar como crítico do petismo, “automaticamente” é tido como de “direita”, defensor do capitalismo, “burguês” (este jargão que esconde que socialismo nos olhos alheios é refresco) ou “bolsonarista”. E perdição semelhante se verifica entre sujeitos bolsonaristas, comumente acometidos de paralaxe cognitiva na defesa de pautas intervencionistas enquanto acreditam ser favoráveis às leis de mercado, e não raramente caem em uma enfermidade intelectual de fanatismo onde quem não segue seu movimento, não apoia o “mito”, só pode ser “comunista”.

Torno ao início dos anos 1920, fico com o sábio austríaco no alerta que o antimarxismo alemão é outra forma de socialismo e não estava fazendo política para defender o capitalismo e a propriedade privada e assim encerra o parágrafo (p. 93):

“A linha de pensamento adotada, não importa qual seja, não é menos anticapitalista do que a marxista.”

Penso então que Hitler, um mestre do engano, um doutor da fábrica de confusões entre mentes fragilizadas, não tinha a menor chance de realizar tal feito com o Mises de meia idade.

192. 29/09/2022 23h14.

24/01/2024 22h40

Imagem: ex-isto

Platão

“[…] o supra-sumo da injustiça é parecer ser justo sem o ser.”

Obra: A República. Livro II. 361a – e. Martin Claret, 2002, São Paulo 2002. Tradução de Pietro Nassetti. De Platão (Atenas, 428/427 – 348/347).

Mais um diálogo do fundador da Academia de Atenas.

No ano em que, pela divina graça, caminho para cinco décadas, vejo anotações de 20/09/2002, quando me aproximava das 28 primaveras. Sobre “justiça” e “injustiça”, uma me chama a atenção: o oposto da injustiça não é justiça, é amor. Pensei na ocasião que o ser justo se volta à verdade, a Deus que é a verdade e nesse foco não coaduna com o que não seja legítimo, íntegro; assim procede sem interesse pessoal, simplesmente pelo correto diante do próximo; então o meu eu de hoje entrou nesse diálogo com o meu eu de 2002: ser justo é tomar a decisão de amor que atravessa o campo de si mesmo e se externa ao outro.

O Livro II (357a -d) é aberto com Glauco a provocar o debate sobre o que seria melhor, ser justo ou injusto, (p. 44) ou, em outras palavras um desafio, mediante as críticas de Trasímaco que censura a justiça e elogia a injustiça, em como uma pessoa justa pode ter mais felicidade que a injusta? Se a vida do injusto é melhor que a do justo, como argumentam os partidários de Trasímaco, Glauco provoca Sócrates, de maneira que se passa por simpatizante dos que apreciam a injustiça, pelo bem que dela se obtêm no mal maior que se comete a outrem, enquanto espera receber do sábio uma censura da injustiça que louve a justiça (p. 45). E neste exercício mental, Glauco imagina um homem justo por excelência, que não deseja a aparência de o ser, mas sê-lo, e um injusto tão competente nesse propósito a ponto de não ser percebido, o que seria o suprassumo da injustiça (p. 47).

E o homem justo que assim o será até a morte, sem se preocupar com as aparências, parecendo injusto, sofrerá enquanto o injusto será visto como justo, gozará de bens e terá uma vida relativamente confortável; eis aqui o velho dito de que “as aparências enganam”. E ao final da vida de ambos, quem teria sido mais feliz? Se o homem justo está livre do castigo divino, estará distante do gozo material ou dos “lucros” que o injusto terá em suas práticas. Aprofundam o debate, tentam inverter a investigação, no entanto, a questão se volta curiosamente para um âmbito coletivo, a considerar as leis, as instituições da polis, a cidade, o que torna a questão mais interessante pois se pode pensar em uma abrangência maior da justiça e da injustiça; nas relações humanas, pois o agente social indivíduo não é auto suficiente em tudo e terá que buscar em seus semelhantes, meios para satisfazer suas necessidades, o que indica a divisão do trabalho e que há uma proporção na cidade na medida de cidadãos que se relacionam entre si. A questão me soou uma preparação no contexto da obra para inserir o tema papel da filosofia como referência para uma polis de cidadãos cada vez mais educados, amantes do saber, que seriam mais dotados de bem conduzir a vida social.

23/01/2024 20h52

Imagem: Terra Bellum

Aristóteles

“§ 7. É necessário, ainda, obrigar os cidadãos a se caluniarem reciprocamente, prender os seus amigos, irritar o povo contra os homens poderosos, excitar os ricos entre si. Um outro recurso da tirania é deixar os pobres e súditos para que a guarda não custe nada em alimentação, e os cidadãos, constrangidos, a trabalhar e a viver pensando apenas no dia que vivem, não tenham tempo para conspirar. […]”

Obra: Política. Livro Oitavo. Capítulo IX. Martin Claret, 2003, São Paulo. Tradução de Torrieri Guimarães. Aristóteles, filho de Nicômaco de Estagira (Grécia antiga/Estagira/Calcídica, 384 a. C. – 322 a. C).

Torno ao oitavo livro de Política para recordar sinais da tirania apontados pelo filósofo preferido de São Tomás de Aquino.

No parágrafo do trecho desta Leitura, Aristóteles cita ações em obras suntuosas onde tiranos deixaram pobres seus súditos, mantendo-os ocupados e dependentes para não terem capacidade de articulação para formarem um poder que pudesse ameaçar o regime (p. 262).

Manter o povo na pobreza é uma chave, gerenciar privilégios para manter sob controle os mais destacados, outra, semear a difamação e a desconfiança (p. 263) entre cidadãos para dividi-los e assim enfraquece-los, mais outra, promover o aviltamento dos vassalos, estabelecer impostos para transferir a fortuna para o tesouro, promover guerras, para dar maior impressão da necessidade de chefia militar (p. 262), incentivar a discórdia familiar que, no contexto da Grécia antiga, seria incentivar para que, tomando como exemplo, as mulheres denunciassem seus maridos e os servos seus senhores, pois ambos não conspiram contra tiranos, argumenta, além de incentivar o trabalho de aduladores junto ao povo, para manter sempre em evidência a demagogia, além de evitar homens livres, aqui entendo sem amarrações, sem conchavos, bem como preferir estrangeiros, os de fora, aos cidadãos em sua mesa de decisões, pois os primeiros não têm pretensões ao poder (p. 263), penso, não possuem meios para tal; são indicadores da presença de um tirano no poder.

Um tirano também se notabiliza pelo embelezamento dos locais públicos, ou da “cidade”, no contexto grego antigo, para que seja visto como um administrador, e não como de fato é, tirano, além de demonstrar certa devoção religiosa; ser piedoso sem ser supersticioso. O tirano que honra a religião se beneficia com os governados que temem menos injustiças de governantes que honram a fé, enquanto tal devoção pode inibir conspiradores que compartilhem crenças religiosas. Distribuir recompensas, dar prêmios aos cidadãos por um “trabalho qualquer” para enaltecê-los, entendo, iludi-los, enquanto os castigos devem ser deixados aos cuidados dos juízes e dos tribunais (p. 265) também são sinais indicadores de um tirano, na visão de Aristóteles.

22/01/2024 00h02

Imagem: Senado

Chico Xavier

“[…] observei minha própria transformação, no curso dos acontecimentos. Experimentava o júbilo da descoberta de mim mesmo. Dantes, vivia à feição do caramujo, segregado na concha, impermeável aos grandiosos espetáculos da Natureza, rastejando no lodo. […]”

Obra: Os Mensageiros. I. Renovação. FEB, 2011. De Francisco Cândido Xavier (Brasil/Minas Gerais/Pedro Leopoldo, 1910-2022).

Os Mensageiros é a obra em que se baseia o filme Nosso Lar 2, que será lançado no próximo dia 25.

Ditado pelo espírito de André Luiz, pseudônimo, Os Mensageiros é o segundo livro da coleção A Vida no Mundo Espiritual, cujo primeiro é Nosso Lar.

Quanto ao trecho (p. 11) desta Leitura, André Luiz faz uma espécie de breve balanço de sua trajetória de desencarnado; lembra da “inquietude” ao ver a mulher que deixara no plano terreno, que passou então a vê-la como “irmã” a quem deveria auxiliar no que estivesse ao seu alcance, enquanto o segundo marido passou a concebê-lo não mais como um “intruso”, e sim como irmão que necessitava o concurso de suas experiências. Os filhos que deixou na terra não são mais vistos como “propriedade”, na mentalidade do velho “André Luiz” encarnado e superado, e sim “companheiros muito caros” que receberão seu apoio espiritual. Recorda o suporte que recebeu dos “amigos espirituais” na transição que experimentou no Nosso Lar, questão desenvolvida no primeiro livro, e chega a conclusão de que foi liberto nesse processo onde a dor agiu em sua “construção mental”.

Talvez o novo filme deva começar com esse flashback de André Luiz, pois no livro a evolução espiritual da André Luiz se liga a um sentimento de busca por um novo propósito em sua trajetória, além dos trabalhos na Câmara onde é compreendido pela irmã Narcisa (p.12) para, em seguida, ser inserida a temática dos Mensageiros que é intimamente relacionada com a entrada de Aniceto na vida de André Luiz.

A história contada em Os Mensageiros possui uma riqueza de detalhes impressionantes, com um roteiro que me parece excepcional para ser adaptado a uma obra cinematográfica.

21/01/2024 15h37

Imagem: Poem Analysis

Lewis Carroll

“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que quero que signifique: nem mais nem menos.”

Obra: Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá. 6. Humpty Dumpty. Zahar, 2010, Rio de janeiro. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. De Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson (UK/England/Cheshire/Daresbury, 1832-1898).

Na sequência de Alice no país das maravilhas, Humpty Dumpty deixa Alice confusa cujo ápice, penso, está no trecho desta Leitura, e eis que a menina o indaga se é possível fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes. A resposta do ovo antropomórfico é intrigante: “A questão é saber quem vai mandar — só isto”.

No clássico infantil, uma metáfora que chega até a realidade do mundo adulto nas relações humanas de poder, e ilustra o que Gilberto Dupas menciona em O mito do progresso, quanto ao sentido das palavras não raramente se associar a credibilidade de quem as pronuncia [191].

Credibilidade não é sinônimo de integridade; o significado sobre algo dito por quem tem credibilidade, muitas vezes, expressa um interesse que destoa da verdade. Sendo a credibilidade a qualidade do que se é credível, envolve ato de fé em algo ou alguém, um fenômeno humano de crença, sobre esta dialética entre significado real e o significado idealizado, lembro-me de um carismático professor, pelo menos para muitos alunos em uma aula de sociologia, que associou o termo “socialismo” com “liberdade”, talvez por conta de sua filiação partidária. Um aluno “fora da curva” então questionou o significado de tal associação citando os regimes autoritários de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte; o resultado foi uma solidão diante de vários colegas que, como crentes fanáticos de uma seita pentecostal, fizeram apologia ao professor e saíram em defesa da fé no “socialismo é liberdade” alegando que a verdadeira prisão reside no capitalismo a repetir exatamente o mantra cujo poder de aceitação do significado dado entre os seguidores se explica pelo que Humpty Dumpty responde para Alice.

191. O mito do progresso, p. 17. UNESP, 2006. De Gilberto Dupas (Brasil/São Paulo, 1943-2009).

20/01/2024 15h42

Imagem: Womens’s History

Betty Friedan

[…] Primeiro é preciso dizer ‘não’ à imagem da dona de casa. Isto não significa, naturalmente, divorciar-se do marido, abandonar os filhos, renunciar ao lar.[…]”

Obra: Mística Feminina. XIV. Um novo plano de vida para a mulher. Vozes, 1971, Petrópolis. Tradução de Áurea B. Weissenberg. De Betty Naomi Goldstein (EUA/Illinois/Peoria, 1921-2006).

A primeira vez que ouvi falar de Betty Friedan foi por uma crônica de Nelson Rodrigues, mencionada por um empolgado senhor, um tanto descontente com o feminismo em uma breve conversa de intervalo de aula em 1996. Encontrei a crônica em uma coletânea que apreciei nos tempos pandêmicos e registrei em 21/11/2022 23h46.

Tanto a crônica como a opinião do senhor me pareceram interpretações hiperbólicas (para usar um eufemismo) quando li Mística Feminina, um tempo depois. Hoje compreendo que, por conta das crenças terem peso considerável em nossas avaliações, pode ocorrer, não raramente, o problema da interpretação enviesada que gera distorção cognitiva e prejudica bastante o aprendizado sobre as ideias de um determinado autor, isso se a intenção for pelo aprendizado. Isto posto porque a intenção de conhecer um autor diverso das crenças tende a ser outra, bem diferente, pois muitas vezes fui induzido a buscar “conhecimento” através de grupos de pensamentos policiados que distorcem textos, quando não, realizam a leitura de um autor de ideias distintas às do grupo apenas para apontar supostas “falhas” em suas argumentações, tudo em por um tablado de combate ideológico, onde a intenção, via de regra, pode descambar para o uso de cortes de frases lançadas ao vento fora do contexto.

Então aprendi a me desvencilhar de grupos de afinidades para seguir experiências de leitura por minha conta e risco, sem intermediários, sem me restringir a intérpretes. Quando leio um comentário, procuro apreciar o teor do autor comentado para refletir e tentar encontrar uma síntese pessoal. Nem sempre isso é possível, a depender da complexidade do tema, dos pensamentos em análise e de minhas limitações intelectuais.

Quanto ao trecho (p. 294) desta Leitura, no capítulo em destaque, Friedan inicia com casos em que mulheres americanas expressaram, por meio de conversas, suas opiniões no enfrentamento dos problemas pelos quais discorre na obra, acerca de diversas situações do papel de submissão da mulher diante de uma sociedade onde predomina o domínio do homem. Para lidar com a questão sobre “o que fazer?” para sair da teoria e chegar á prática, ela sugere o que está no trecho, seguido da ponderação de que não é preciso adotar uma conduta binária, de isso ou aquilo ou ter que escolher entre casamento e profissão, marido/filhos e carreira; não são auto excludentes e é preciso ter uma visão sobre a vida sob uma perspectiva de “existência inteira” e isso envolver ser mais eficiente no uso do tempo para as tarefas domésticas (p. 294). Em seguida, ao rejeitar a mística feminina, da mulher tão-somente prendada pela imagem da “dona de casa”, propõe a autora que a mulher busque uma finalidade social no seu plano de vida, um trabalho criativo, que não deve ser confundido com “emprego” no sentido de que “qualquer emprego, não é a resposta”; tem que ser uma atividade em que a mulher participe da sociedade onde vive (p. 296), em uma visão incluindo o remunerado com o voluntariado (p. 299).

Penso que negar o que Friedan aborda na obra é como negar o racismo e tantos outros problemas tão evidentes na existência humana. A autora trata sobre o enfrentamento que se assume como “feminismo”, e é preciso ter muito cuidado quando se utiliza esta expressão, pois pode significar tanto a determinação de mulheres que desejam quebrar a submissão do homem que as impede de um pleno desenvolvimento humano, assim como pode significar um núcleo de viés de ideológico que intenciona explorar a pauta tão-somente pelo poder político, não tendo qualquer zelo com as mulheres na legitimidade de suas questões. Nesta segunda hipótese, as mulheres que não conseguirem distinguir uma coisa da outra, ensejarão apenas em uma troca de subserviência: do patriarcado pela manipulação político partidária.

19/01/2024 20h34

Imagem: AGENZIA ANSA

Antonio Gramsci

“Lo Stato è concepito sí come organismo proprio di un gruppo, destinato a creare le condizioni favorevoli alla massima espansione del gruppo stesso, ma questo sviluppo e questa espansione sono concepiti e presentati come la forza motrice di una espansione universale, di uno sviluppo di tutte le energie «nazionali», cioè il gruppo dominante viene coordinato concretamente con gli interessi generali dei gruppi subordinati e la vita statale viene concepita come un continuo formarsi e superarsi di equilibri instabili (nell’ambito della legge) tra gli interessi del gruppo fondamentale e quelli dei gruppi subordinati, equilibri in cui gli interessi del gruppo dominante prevalgono ma fino a un certo punto, non cioè fino al gretto interesse economico-corporativo. […]”

Obra: Note sul Machiavelli sulla politica e sullo stato moderno. I. Il moderno principe. Editori Riuniti, 1996, Roma. De Antonio Sebastiano Francesco Gramsci (Italia/Ales, 1891-1937).

Muitas vezes ao ler Gramsci percebo como o trabalho intelectual dele foi marcado por um papel de exímio conhecedor da história do poder na política, o que me fez lembrar de outro italiano renomado: Niccolò Machiavelli (Repubblica di Firenze, 1469-1527), e não por coincidência Gramsci discorre sobre o fiorentino nesta obra composta por notas muito interessantes em minhas experiências, como a que destaco nesta Leitura.

Primeiro, reconhecer qualidades de pensamento de alguém não significa coadunar com suas ideias e desejos. De Marx a Mises saboreio livros em um estado de contínua busca por uma melhor compreensão do mundo que me cerca, e isso me basta. Ler então se torna um ato para o desarme de minhas crenças quando obscurecem novas reflexões. Segundo, quando revisito um autor tão reverenciado na esquerda, como é o caso de Gramsci, em termos globais, acabo por promover um encontro de meus egos; dos tempos de juventude em que fui um socialista e pouco lia suas obras enquanto lia bastante livros com comentários sobre o pensamento dele, e o meu ego de hoje, austrolibertário, que tem a oportunidade de ler o autor em sua língua nativa enquanto se esforça para deixá-lo falar. Nesta dialética de egos, posso apreender mais sobre onde estava, como cheguei até onde estou e o que posso fazer para entender melhor para onde estou indo nesse empreendedorismo intelectual.

Torno ao trecho desta Leitura onde Gramsci indica o significado do Estado na modernidade mediante o processo de desenvolvimento de um grupo hegemônico, “concebido como um organismo próprio, destinado a criar as condições favoráveis ​​à expansão máxima do próprio, mas este desenvolvimento é apresentado como o motor de uma expansão universal, de um desenvolvimento de todos, como ‘energias nacionais’, isto é, o grupo que se torna hegemônico é concretamente coordenado com os interesses gerais dos grupos subordinados e a vida estatal é concebida como uma formação contínua e superação de equilíbrios instáveis ​​(dentro da lei) entre os interesses do grupo fundamental e os dos grupos subordinados, a pautar equilíbrios em que prevalecem os interesses do grupo dominante, mas até certo ponto, isto é, não até ao estreito interesse econômico-corporativo” (p. 38). O estado é uma abstração, penso, e como fazê-lo inteligível aos governados? Para entender melhor esta questão, fui até o início do capítulo quando Gramsci fala sobre o príncipe moderno, à mon avis é a chave, partindo do pensamento de Maquiavel; “o caráter fundamental do Príncipe é o de ser baseado em um tratamento sistemático, mas em um livro ‘vivo’, no qual a ideologia política e a ciência fundem-se na forma dramática do ‘mito’. Entre a utopia e o tratado escolástico, a considerar as formas em que a ciência política se configurava, Maquiavel deu à sua concepção de forma fantástica e artística, onde os elementos doutrinário e racional se personificam num líder, que plasticamente e “antropomorficamente” representa o símbolo da ‘vontade coletiva’ e este príncipe atua “como uma criação concreta de fantasia operando sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar a sua vontade coletiva” (p. 14).

O fenômeno do poder na política em Gramsci é uma síntese de uma dialética de forças marcadas por diversos momentos ou graus, entendo; tal relação de forças sociais intimamente se ligam à estrutura, objetivo, independente da vontade dos homens (aqui vejo como Gramsci concebeu o coletivo como um fenômeno natural fora do alcance do indivíduo interventor), que pode ser medida com os sistemas das ciências exatas ou físicas. E com base no grau de desenvolvimento das forças materiais de produção existem agrupamentos sociais, os quais representam uma função e ocupam uma determinada posição na própria produção, no entanto esse relacionamento revela uma realidade “rebelde”, e aqui penso na inviabilidade reconhecida por Gramsci de se determinar a sociedade de forma imediata, pois em seguida, como exemplo, reconhece que ninguém pode mudar o número de empresas e seus trabalhadores, o número de cidades com determinada população urbana, porque são fatos de uma construção social complexa, no entanto se a manipulação direta lhe parece inviável, a indireta é possível quando se estuda a sociedade para verificar se existem condições necessárias e suficientes para sua transformação, ou seja, para controlar o grau de realismo e a viabilidade das diferentes ideologias que nasceram no seu próprio terreno, no terreno das contradições que tem gerado durante seu desenvolvimento”, argumenta (p. 38).

Gramsci aponta as relações entre as forças, o grau de homogeneidade, autoconsciência e organização alcançadas por diversos grupos sociais, o que pode ser analisado em vários graus, que correspondem aos diferentes momentos da consciência política coletiva, onde destaca inicialmente a econômica-corporativa: “um trader sente que deve ser em solidariedade com outro comerciante, um fabricante com outro fabricante, etc., mas o comerciante ainda não se sente solidário com o fabricante; isto é, a unidade homogênea é percebida, e o dever de organizá-la, do grupo profissional, mas ainda não do grupo social mais amplo. O segundo momento é aquele em que se alcança a consciência da solidariedade de interesses entre todos membros do grupo social, mas ainda no campo puramente econômico” (p. 38).

Em seguida, Gramsci adentra na questão do Estado mediante um grupo que se torna hegemônico, e começa a defender seus interesses a determinar legislação (aqui penso na cultura do lobby). Tal grupo vencedor se apropria do papel de portador legítimo de um interesse geral ou coletivo (normalmente, grupos hegemônicos defendem seus interesses bem particulares como se fossem dos mais vulneráveis, os mais pobres) . Neste ponto reside o conceito de hegemonia política como um fenômeno de massificação em fase de consolidação que vai se expandindo, da estrutura para a esfera das superestruturas onde ideologias antes germinadas no seio da espontaneidade social se transformam em “partidos”, se concretizam a um confronto, entram em combate “até que apenas um deles ou pelo menos uma única combinação deles, tende a prevalecer, a se impor, a se espalhar pela sociedade” (p. 38).

Gramsci faz uma avaliação ampla do governante e do Estado na modernidade por fenômenos de hegemonia não apenas na releitura que realizou sobre Maquiavel. Ele vivenciou o fascismo italiano, onde foi um preso político, e o que foi uma experiência dura pode ter sido, concomitantemente, pedagógica para entender um significado mais profundo da hegemonia como um fenômeno dialético que pode indiretamente ser produzido com vistas a seus empenhos ideológicos como comunista.

18/01/2024 21h41

Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Padre António Vieira

“Estais cegos. Príncipes eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó prelados que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da fé, vedes o descaimento da religião, vedes o desprezo das leis divinas, vedes a irreverência dos lugares sagrados, vedes o abusados costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristondade? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”

Obra: Sermão da Quinta-Feira da Quaresma na Misericórdia de Lisboa. Ano de 1669. VI. Ver sem remediar não é ver vendo, é ver sem ver. Apelo final à cristandade. Oração. Vidit hominem caecum [1]. Sermões. Parte I. eBook Brasil. Biblioteca Nacional. De Padre António Vieira (Portugal/Lisboa, 1608-1697).

Nota do autor: 1. O Senhor vosso Deus vos tenta, para se fazer manifesto se o amais ou não (Deut. 13, 3)

Minhas três idas ao Vaticano entre 2018 e 2022 fez o interlocutor pensar que também sou católico romano. Após saber que teologicamente minha fé é protestante, fingimos como se fosse uma conversa de católico para católico, e assim prosseguiu para lamentar o que entende ser um momento “dificílimo” da Igreja com o papado de Francesco. Referia-se às tendências progressistas do papa e à última declaração Fiducia supplicans.

Percebo que a situação é complexa. Enquanto prefiro não dar opinião como parte de um processo de busca de uma melhor compreensão, lembrei-me então desta prédica de 1669, do padre Antonio Vieira que, à mon avis, essencialmente é oportuna não para julgar, mas para uma íntima experiência consigo mesmo, uma introspecção, o que pode ser salutar não apenas a católicos. Outra parte que me tocou na primeira experiência de leitura:

Oh! quem me dera ter agora neste auditório a todo o mundo! Quem me dera que me ouvira agora Espanha, que me ouvira França, que me ouvira Alemanha, que me ouvira a mesma Roma! Príncipes, reis, imperadores, monarcas do mundo: vedes a ruína das vossos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? (p. 261).

O tema do eterno retorno de Nietzsche me veio à baila, pois, estaria um dos maiores pregadores da cristandade a falar de novidades há quase 355 anos em Lisboa? Seriam ainda novidades quando nasceu a fé cristã no Oriente, filha do judaísmo, há quase dois mil anos? Não, definitivamente não há nada de novo debaixo do céu das debilidades humanas enquanto parece ser uma tendência entre contemporâneos ver que a geração atual como bem mais degenerada que as dos antepassados. Penso que o ponto crucial que o padre Vieira aborda é em um sentido universal para a Igreja, assim como para cada cristão; se quiserem enxergar verdadeiramente a dura realidade do mundo com suas mazelas, para serem aptos a ação sendo luz do mundo e sal da terra, será preciso um profundo exame de consciência santificadora que se torna possível pela misericordiosa dádiva divina, que abrirá os olhos e trará a cura para uma cegueira espiritual que se instrumentaliza como cúmplice de tudo que rejeita o sentido do amor ensinado por Cristo.

“Não olheis, Senhor, para nossas cegueiras; lembrai-vos dos vossos olhos, lembrai-vos do que eles fizeram hoje em Jerusalém. Ao menos um cego saia hoje daqui alumiado. Ponde em nós esses olhos piedosos, ponde em nós esses olhos misericordiosos, ponde em nós esses olhos onipotentes. Penetrai e abrandai com eles a dureza destes corações; rasgai e alumiai a cegueira destes olhos, para que vejam o estado miserável de suas almas, para que vejam quanto lhes merece essa Cruz e essas chagas, e para que, lançando-nos todos a vossos pés, como hoje fez o cego, arrependidos, com uma firmíssima resolução, de nossos pecados, nos façamos dignos de ser alumiados com vossa graça, e de vos ver eternamente na glória” (pp 262-263).

17/01/2024 00h03

Imagem: The New York Times

Roger Scruton

“Onde está a religião na cosmovisão do conservador moderno?”

Obra: Como ser um conservador. Capítulo 11 – Esferas de valor. Record, 2017, Rio de Janeiro. Tradução de Bruno Garschagen. De Roger Vernon Scruton (Inglaterra/Lincolnshire, 1944-2020).

Torno ao capítulo 11 desta obra que pode ser utilíssima para quem deseja ter uma visão crítica bem embasada sobre “conservadorismo”.

Mas que pergunta interessante apresenta o autor e aponta que não é um elemento da cidadania a obediência religiosa, enquanto a religião tem papel “inegável na vida da sociedade” por introduzir ideias do sagrado e do transcendente, ao mesmo tempo em que, pela visão cristã, reconhece a prioridade da lei secular (p. 207).

Scruton então faz uma reflexão sobre ditos de Jesus e a redução dos mandamentos ao amor a Deus e ao próximo (p. 208), um chamado a olhar o mundo sobre a perspectiva de amar o que encontramos, de forma endógena, penso, até se chegar nos atos, explica Scruton em relação a Cristo a referenciar a tradição rabínica. E do amor ensinado por Cristo, que brota na interioridade humana, vem o confrontar o mundo como forma de sinalizar uma abertura para uma “inovação legal” a suscitar a parábola do Bom Samaritano (p. 208), que aponta esse ato de amor além do amigo; chega até o desconhecido, independente de vínculos familiares ou identidade étnica (p. 209).

Desta forma o autor desenvolve para apontar uma característica da fé cristã em reconhecer o Outro, o que não ocorre com o Islã; a essência do Evangelho é a inclusão voluntária, aqui penso, quando contrasta o amor pregado pro Cristo com a submissão coletiva almejada pelos islamitas. Menciona Santo Agostinho, Henri de Lubac e Karl Barth (p. 209), e segue a discorrer sobre questões que envolvem diferenças entre conservadores britânicos e americanos, assim como verte sobre a educação moral ligada ao papel da família, “inimiga dos projetos revolucionários” (p. 213), entre outros temas na esfera de valores onde, penso, relacionam-se intimamente com o lugar do sagrado na cosmovisão do conservador moderno.

16/01/2024 00h05

Imagem: Los Alamos National Laboratory

Oppenheimer

“[…] setting off an atomic bomb could trigger an ongoing reaction that could set fire to the earth’s atmosphere […]”

Obra: Oppenheimer: A World Destroyed. Chapter 9: How to build an A-bomb. eBook Kindle, 2023. De David Boyle (UK/London, 1958).

O trecho desta Leitura foi o que mais me impactou nesta obra sobre Julius Robert Oppenheimer (EUA/Nova Iorque, 1904-1967), que acabou popularmente chamado de “pai da bomba atômica”, o que não me parece um título preciso face a um trabalho realizado por um time de extraordinários cientistas.

Tento imaginar o que se passou na mente dos cientistas em Los Alamos diante do que viam como uma questão de possibilidade ou probabilidade de destruírem o planeta enquanto estavam a desenvolver algo nunca antes experimentado que surgira da nova física. A teoria caminhava ao encontro do mundo real e a ideia de uma arma atômica trouxe um aspecto sinistro propagado pela física quântica que Edward Teller (Hungria/Budapeste, 1908-2003), membro da equipe que ficou conhecido como “pai da bomba de hidrogênio”, ponderou ao levar ao coordenador Oppenheimer a questão de que o lançamento de uma bomba atômica poderia desencadear uma reação em cadeia e incinerar a atmosfera terrestre (754/2595). Como esclarecer a questão? Pela matemática, claro, em termos probabilísticos.

De um lado o temor de que os nazistas estariam a construir uma arma atômica, o que serviu de pretexto para a complexa moralidade de Oppenheimer em outro aparato, onde a ciência e a ética começam a se distanciar, a política cresce junto com interesses econômicos que se propagam; a bomba atômica é uma consequência desse centro de poder que corrompe absolutamente.

15/01/2024 00h01

Imagem: Senado

Chico Xavier

“Terei feito compreender, a quem me lê, a verdade como de fato ela é? Creio que não. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e, noutros, rizinhos ridiculizadores. Há de haver, porém, alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. Um desses que haja, entre mil dos primeiros, e dou-me por compensado do meu trabalho.”

Obra: Parnaso de Além-Túmulo. Palavras minhas. FEB, 2010. De Francisco Cândido Xavier (Brasil/Minas Gerais/Pedro Leopoldo, 1910-2022).

Penso que o contexto da produção desta obra é fascinante. Gosto de deixar o autor falar para que seja possível que eu aprenda alguma coisa com a experiência literária e, a considerar que se trata de uma coletânea de poesias mediúnicas, por escritores luso-brasileiros na outra dimensão, ou seja, peças literárias enviadas por desencarnados então, o que posso pensar além de que o ato de deixar o autor “falar”, como forma de desarme, ganha um sentido múltiplo enquanto ainda mais sereno na esperança de sentir uma linguagem acima das palavras ou, quem sabe, um deslumbramento com o que apetece a Luísa Michel, citada em À guisa de prefácio (p. 17):

“um ser que morre, uma folha que cai, um mundo que desaparece não são, nas harmonias eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não conhecemos ainda.”

Não sou espírita, mas achei por bem usar terminologia familiar e da apresentação do jovem e empolgante Chico Xavier, assinada em dezembro de 1931 (p. 31), penso na recepção desta obra na época entre céticos encarnados repletos de certezas do mundo material e nos dias atuais, contudo, a considerar as três possibilidades citadas pelo médium brasileiro, no trecho desta Leitura, estou na terceira.

Ah, para mim a literatura é um sopro de esperança que vem das misericórdias do Criador.

Encerro com Manuel Quintão que, após destacar as formas literárias psicografadas, coloca um desafio aos incrédulos de plantão (p. 21):

“Duvidamos que o mais solerte plumitivo, o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar, sequer, ainda que premeditadamente, esta produção.”

14/01/2024 11h39

Imagem: VVPN

Martin Hautzinger

“A melancolia desenvolve-se quase sempre de modo imperceptível, como uma espiral voltada para baixo.”

Obra: Como lidar com a depressão. 3. O que é possível fazer contra as depressões. Possibilidades de tratamento. 3.2 A espiral da depressão. Hogrefe, 2019, São Paulo. Tradução de Jessica Fernandes Alonso. De Martin Hautzinger (Alemanha, 1950).

Este livro considerei excelente como um guia, conforme define o autor, psicólogo e professor alemão (p. 7), para pessoas que estão passando por sintomas que possam caracterizar depressão, assim como uma referência para seus familiares. No item 1.2 apresenta questões para reconhecimento da doença como “primeira orientação” (pp 12-13).

Quanto ao trecho desta Leitura (p. 56), penso, um dos entraves consiste nos “episódios depressivos”; começa-se a notar algum problema apenas em mau humor, insônia, exaustão, isolamento, perda de autoconfiança, o que não denota necessariamente o início do transtorno, que pode ter começado com um evento estressante, a envolver alguns dos sintomas citados, um episódio infeliz, uma notícia ruim ou por pensamentos, tais como os que remoem lembranças (p. 57).

Destaque para o espiral da depressão com os três elementos (sentir, pensar, agir) ligados entre si e, não raramente, difíceis de serem separados (p. 58). Aponta o autor que é possível obter controle sobre esses elementos e reverter o espiral “aprendendo a pensar de modo diferente sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre nosso futuro” (p. 59).

Outro destaque na obra, à mon avis, são as planilhas de autoavaliação (pp 81-84); a observação e a análise meticulosa do humor e das experiências do dia a dia se relacionam com a possibilidade da reversão da espiral depressiva como “pré-requisito” (p. 60). No item 3.3 o autor orienta como realizar esse processo.

13/01/2024 13h52

Imagem: IHU

Zygmunt Bauman

“Condições econômicas e sociais precárias treinam homens e mulheres (ou os fazem aprender pelo caminho mais difícil) a perceber o mundo como um contêiner cheio de objetos descartáveis, objetos para uma só utilização; o mundo inteiro — inclusive outros seres humanos.”

Obra: Modernidade Líquida. 4. Trabalho. Os laços humanos no mundo fluido. Zahar, 2001, Rio de Janeiro. Tradução de Plínio Dentzien. De Zygmunt Bauman (Polônia/Poznań, 1925-2017).

À mon avis, o maior crítico da pós-modernidade no início deste século.

Um mundo que é consumista parece uma “caixa preta” com coisas hermeticamente fechadas; peças que se quebram não se consertam, são trocadas por outras igualmente seladas. O espírito de que tudo é descartável faz a regra de sociedades de indivíduos imediatistas, avessos a planejamento; importa mais o “aqui e agora”, a realização imediata, aponta o filósofo (p. 152).

Nessa correria frenética que há na modernidade líquida, não se pensa que os seres humanos não são como peças de substituição que se encontram convenientemente por aí, não se considera que “tendem a se deteriorar e desintegrar facilmente se ficarem hermeticamente fechados e que não são fáceis de substituir quando perdem a utilidade”; tudo é descartável, pessoas são equiparadas a coisas que possam ser jogadas no lixo e repostas de uma prateleira, eis um problema que diz respeito a uma mentalidade da política de precarização das relações humanas na atualidade; vem o enfraquecimento dos laços, das comunidades, da transitoriedade das parcerias em uma “profecia autocumprida” no que reflete na rejeição a antigos valores que celebram o “até que a morte nos separe”, que então se transformam em contratos do tipo “enquanto durar a satisfação”; penso aqui no comum sujeito que enjoou da companheira ou do companheiro, a procurar uma mais nova ou um mais novo, para trocar as rugas e a perda da impetuosidade pela pele lisa, com a estética e a disposição sexual que atendam às suas necessidades de prazer para, em outro momento, quando enjoar, fazer uma nova troca, assim seguirá, medito pelo que discorre Bauman sobre relações humanas deterioradas que passam a ser tratadas como coisas a serem consumidas (p. 153); são meramente objetos de conquista e exploração, de relações não mais produzidas, não são construídas, trabalhadas em conjunto, fraternalmente nas alegrias e tristezas, regadas ao longo do tempo com as virtudes e os defeitos, penso, em suma, vivemos cercados por uma mentalidade de utilitarismo bisonho que enseja esvaziar a nossa humanidade.

Penso então em um professor em 2006, que estava a citar Bauman, e referendou a importância do espírito crítico com a celebração de referenciais de valores face a essa modernidade líquida que promove um vazio com apelos tecnológicos, estéticos e antiéticos.

12/01/2024 22h04

Imagem: HEARTLAND

Murray Rothbard

“O valor é determinado pelas avaliações dos consumidores, e os preços relativos dos bens e serviços são determinados pela avaliação que os consumidores fazem destes produtos e pela intensidade de seu desejo de adquiri-los.” [3]

Nota do autor: 3 Ver Eugen von Böhm-Bawerk: “The Ultimate Standard of Value” em Shorter Classics of Böhm-Bawerk (Grove City, Penn.: Libertarian Press, 1962).

Obra: O Essencial von Mises. Capítulo 2. A Escola Austríaca. Mises Brasil, 2010, São Paulo. Tradução de Maria Luiza Borges. De Murray Newton Rothbard (EUA/Nova Iorque/Nova Iorque, 1926-1995).

Até entender e aceitar esta simples verdade no mundo real, consumiu um tempo precioso de minha juventude. Digo “mundo real” porque ao esbarrar com textos da Escola Austríaca em 2006 (o que sabia até então consistia em opiniões suspeitas de professores keynesianos e/ou desenvolvimentistas), apesar de me definir na ocasião não mais como “socialista”, e sim como “liberal e democrata” (vejo hoje como hilário), se alguém afirmasse algo similar a esta frase, concordaria hipocritamente, pois atuaria como um sujeito convencido de que fatores econômicos podem ser condicionados de maneira que a vida se resume a uma redoma de vidro totalmente sob controle de quem formula políticas públicas; tentava ainda desenvolver proposições como se o mercado não refletisse naturalmente, apesar das intervenções, a dureza da economia real na imensidão dos conhecimentos em dispersão; ainda guardava resquícios da forma de pensar como intervencionista e socialista.

No início de 2006 ainda me esforçava para pensar economia como uma ciência mais próxima da política, ocupada em criar modelos, ufanamente econométricos, que pudessem justificar “cientificamente” intervenções, “políticas sociais”, incluindo um sistema de preços “regulados”, cuja presunção sobre o conhecimento (disperso) não pesa quanto às sérias consequências. Mas o mesmo 2006 traria um ponto de inflexão, pois começaria a ler os austríacos sozinho, em silêncio, sem as vozes de professores enviesados a produzir ruídos ideológicos que comprometem toda boa reflexão.

A experiência de leitura desta obra veio muito tempo depois de conhecer Human Action. Quanto a este trecho, recordo-me de que, entre conceitos de oferta e demanda, aspectos tecnológicos que reduzem custos em trabalhos repetitivos da burocracia, também o mencionei a um pequeno grupo de contadores no coffee break de um evento em São Paulo (2014), onde o assunto foi “a crescente desvalorização dos serviços contábeis”. Enquanto todos pareciam frustrados das obviedades que apontei, houve quem suscitasse a velha ideia de ver os CRCs como aparato fiscal sobre contadores que praticam preços baixos demais em meio a “soluções” com tabelamento de preços mínimos através da imposição de sindicatos. Prevaleceu a crença de que alguém ou algo teria que “fazer alguma coisa”, entenda-se prover “regulação” para conter a “concorrência desleal”; seria necessário, segundo os interlocutores, uma “lei” para inibir o vilipêndio da classe (Gramsci nas veias) etc e tal; eis a mentalidade que predomina entre contadores quando converso sobre este assunto até os dias atuais. O que mais me chama a atenção até hoje é que naquela rodinha de “nobres colegas” estavam pessoas que até hoje influenciam bastante o público contábil.

Recentemente apenas assisti a um caloroso debate entre desenvolvedores de sistemas de gestão comercial sobre como parar a perigosa queda de preços dos aplicativos. Escutei lamentos sobre o “absurdo” de startups oferecerem produtos com preços cada vez menores, com serviços de integração com PIX e até chat com inteligência artificial. É um absurdo, es a concordância dos debatedores, oferecer às pessoas coisas que se aproximam dos preços pelas quais estão dispostas a pagar… Enquanto convidado para dar opinião, coisa que não aprecio, abstive-me, mas em pensamento me veio a indagação: ninguém aqui parece preocupado em saber o que pensa quem paga pelos serviços, o consumidor… Pensei então que um bom exercício consiste em se colocar no lugar de quem está no lado da procura por serviços (emissão de NF-e/NFS-e e afins), cuja obrigatoriedade e complexidade são forçadas pela burocracia estatal. O que desejariam como consumidores, um mercado vasto de ofertas e forte concorrência a produzir preços econômicos, ou cartel, monopólio e demais negociatas funcionais entre ofertantes que encarecem preços e punem quem toma serviços?

Pouco depois escutei um comerciante saudoso dos anos 1990 a falar sobre o início glorioso de seu mercadinho de bairro, e as enormes dificuldades que enfrenta hoje com os grandes supermercados que chegaram à cidade trazendo a tal da “concorrência agressiva” de serviços online no WhatsApp e em aplicativos com preços “do fim do mundo” (seria um mercado apocalíptico então…). Até parece que a vontade do consumidor é uma coisa insignificante, quando não, prejudicial aos negócios.

Por outro lado, um gestor de uma representação ligada ao setor de construção civil pediu uma indicação para contador até 5k, pois o atual não aceitou a proposta de redução dos honorários atuais (8k) para cuidar de três empresas no Lucro Real (LR), com toda a estrutura tecnológica implantada na empresa, com dois assistentes empregados pela própria à disposição e tendo que realizar boa parte das tarefas no seu escritório por remoto, enquanto proprietário de empresa contábil. Não faço indicação de contador e mesmo se a fizesse, seria uma missão impossível, neste caso, encontrar quem estivesse disposto a receber 5k por três empresas no LR a tratar de contabilidade em alto nível enquanto próximo à competência do profissional; o gestor externou a enorme dificuldade nesta curiosa procura por um recurso (humano) severamente escasso pelo preço (honorário) disposto a pagar. E se aparecesse alguém, cogitei, não suportaria. Todo profissional tem seu preço… A chave para compreender melhor o mercado está na combinação da subjetividade de ofertantes de demandantes com a escassez. Então apenas o adverti que o preço atual que vem pagando está baixo e que poderia pensar em formular políticas de RH em sua organização para preservar bons profissionais como o senhor distinto que assina seus balanços, porque ele pode encontrar por aí um demandante disposto a pagá-lo melhor e com condições mais atraentes, de maneira que perca o interesse pela empresa que tentou reduzir seus honorários; assim, concluí, seria inteligente tomar cuidado para não cair no adágio popular de que muitos só dão valor ao que é bom quando perdem.

11/01/2024 20h24

Imagem: Palácio Piratini

Getúlio Vargas

“Jesus Cristo, pelo povo
Padeceu morte e paixão.
Getúlio foi outro Cristo,
Varou o seu coração
Com uma bala sublime
Para salvar a nação!”[65]

Nota do autor: 65 Marly Silva da Motta, Teotônio Vilela, p. 28.

Obra: Juscelino Kubitschek /Ronaldo Costa Couto. Capítulo 11. Candidatura e campanha presidencial. Da vida para a história. Edições Câmara, 2011, Brasília. De Ronaldo Costa Couto.

Obra sobre Juscelino Kubitschek, de Ronaldo Costa Couto, doutor em história pela Universidade de Paris-Sorbonne e então me deparei com esses versos de cordel (pp. 120-121) destacado pelo autor para exemplificar a fortíssima referência de Vargas no sentimento popular. Mais uma vez penso como uma flash a forma como Vargas me foi apresentado pela primeira vez no ginásio; “herói estadista” e “pai dos pobres”.

Idolatria a político, marcante característica do imaginário brasileiro. Obviamente, não sendo exclusividade nacional, segue traços facilmente observados em outros povos, independente do grau de desenvolvimento humano. Napoleão na França, Hitler na Alemanha, Stalin na União Soviética, Mussolini na Itália, Perón na Argentina, Mao Tsé-Tung na China, Fidel em Cuba…

Em 2022 a idolatria a político destruiu amizades, dizimou laços familiares, degenerou contatos profissionais e corroeu o resto do bom senso que havia entre pessoas que se julgam mais esclarecidas e não percebem que os “mitos”, tão apaixonadamente defendidos, não passam de experts em colonizar mentes para canalizar devoção à instrumentalização no velho esquema do “nós contra eles”, que só funciona em quem é rude no uso do próprio juízo, e não se trata de algo restrito ao grau de instrução; a bestialização promovida pelo negócio da política é democrática, vai de iletrados a doutores, de crentes e ateus. A mente que funciona com base em paixão ideológica é um campo de ação poderoso para um processo de atração para degeneração espiritual que propulsiona desonestidades intelectuais, distorções cognitivas e todo tipo de obra abjeta de ideias que exploram sentimentos e degradam a racionalidade; penso aqui como uma síndrome similar a de Estocolmo, dado o fascínio por quem nada produz e vive de gastar o dinheiro tomado de quem produz, em favor de enriquecimento próprio como se fora caridade. No entanto, é preciso separar os que vivem da coisa, dos instrumentos, o “gado”. Penso nos profissionais da política, correligionários, militantes remunerados e afins, que formam então uma cadeia de parasitas de um sistema que se mantêm ativo nas bases da sociedade e se dissemina rapidamente; assim, não é preciso ir tão longe para conferir suas manifestações, quem sabe em uma esquina próxima…

Fico a pensar como seria o mundo se toda essa veneração a seres humanos, não raramente no rol dos piores da sociedade, fosse dirigida ao Autor da vida…

10/01/2024 21h16

Imagem: PSYCIENCIA

Carl Rogers

“[…] a maior barreira à comunicação interpessoal é a nossa tendência muito natural para julgar, avaliar, aprovar ou desaprovar as afirmações de outra pessoa ou de outro grupo.”

Obra: Tornar-se pessoa. Capítulo 17. O tratamento das perturbações na comunicação interpessoal e intergrupos. WMF Martins Fontes, 2009, São Paulo. Tradução de Manuel José do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli. De Carl Ransom Rogers (EUA/Illinois/Oak Park, 1902-1987).

É em termos de hipótese que Carl Rogers fez esta afirmação (p. 382), contida em um escrito de 1951 para o Congresso Centenário sobre as Comunicações, na Northwestern University (p. 381).

Sobre o que sintetiza acerca do indivíduo “neurótico”, emocionalmente desadaptado, muito interessante quando discorre sobre o problema do rompimento da comunicação consigo mesmo que deriva a comunicação prejudicada com os outros, a indicar problemas de distorção, para em seguida argumentar que a psicoterapia tem como função ajudar o indivíduo nessa situação a realizar uma comunicação perfeita consigo mesmo para que possa se comunicar melhor com os outros, mas também entende que a inversão dessa sequência é verdadeira (p. 382).

Quando menciona um problema político da Guerra Fria, indica como os sentimentos influem na apreciação de juízos, e aqui penso no fator da ideologia como ponto nervoso para potencializar distorções ou dificultar a comunicação intersubjetiva (p. 383). Penso, a refletir nesta Leitura, que a paixão por ideias, a devoção de conceitos, pode comprometer uma boa comunicação quando se está diante de uma divergência ou de um conflito de ideias, então, torno ao que apresenta o autor como proposição para superação desse tipo de barreira: procurar ouvir com compreensão, “ver a ideia e a atitude expressa pela outra pessoa do seu ponto de vista, sentir como ela reage, apreender seu quadro de referência em relação àquilo sobre que está falando” (p. 384), uma compreensão empática que consiste em captar o quadro de referência do outro interlocutor, compreendendo seus sentimentos e suas ideias; sugere então, aos ouvintes de sua conferência, um exercício prático para aplicarem essa “compreensão empática” antes de defenderem suas próprias ideias quando estiverem em uma discussão com alguém (p. 385).

09/01/2024 21h39

Imagem: Rádio Senado

Jânio Quadros

“Cuba, no contexto destas preocupações, não era apenas a séde de uma revolução vitoriosa, no Caribe. Passou a representar, os próprios fundamentos da política continental; a afirmação dos princípios de auto determinação dos povos, e da não intervenção.”

Obra: Discursos selecionados do presidente Jânio Quadros. Razões da Renúncia. 5 – A POLÍTICA INTERNACIONAL E A ECONOMIA BRASILEIRA. Fundação Alexandre de Gusmão, 2010, Brasília. Organizados por Camille Bezerra de Aguiar Muniz.

Trecho do discurso de 15 de março de 1962, quase sete meses após a renúncia.

Ao me deparar com esta coletânea, boas recordações vieram-me de um velho heterônimo amigo de infância; tinha nascido havia um pouco mais de um ano quando decidiu fazer uma brincadeira com jovens di sinistra. Citou o trecho desta Leitura e perguntou quem o teria dito em 1962. Foi uma saraivada de nomes de “companheiros” e “companheiras” (eram tempos do Lula I). Pediram uma dica, então o pastor aproveitou que a vassoura da zeladoria estava por perto e a segurou no estilo da foto. Não funcionou.

Passei um tempo a pensar sobre as razões daqueles jovens universitários não terem conseguido, com a dica da vassoura tão evidente, identificar Jânio Quadros. Impressionou-me a desconexão com a memória sobre algo tão óbvio de um tempo não tão distante assim da história política do país, uma área em que afirmam ter grande interesse. Talvez por serem tão bem educados no sistema soviético tupiniquim, entenda-se versados em clichês e terminologias disfarçadas de “pensamento crítico” com um foco enviesado, explique parte do fenômeno.

O Brasil não é para amadores, eis o dito popular que pode ser comprovado com o presidente considerado conservador, eleito com os apelos para varrer a corrupção e moralizar o país, um antigetulista que desejava defender o capital e a empresa privada desde que “se colocassem a serviço da Nação e de seu Povo” (p. 46, e como tem “conservador” assim por aí..), um homem ímpar de pensamentos e bilhetinhos intrigantes que apontou comunistas, em parceria com “grupos e instrumentos financeiros do Brasil e do Exterior”, a conspirarem para derrubá-lo, contudo, em meio a suposta trama de “agentes da subversão vermelha” (p. 46), revelou-se simpático com o que Castro estava a fazer em Cuba enquanto condecorou Che Guevara com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

Recentemente meditei sobre como, de tempos em tempos, aparecem vultos do conservadorismo para salvar o povo de uma suposta degeneração. O país que teve um golpista que fechou o Congresso, perseguiu e praticou censura sobre aqueles que discordavam de suas ideias, não raramente é celebrado como vulto nacional por quem afirma defender a democracia (além de esquerdistas que o enobrecem, a lembrar o estilo de um certo deputado do movimento gay que cultua Che Guevara, hater de homossexuais). Eis o país que teve o moralista da vassoura no início dos anos 1960, conheceu o caçador de marajás no final dos anos 1980 e, na atualidade, é palco (ou picadeiro?) de um dito “liberal” em economia, enquanto saudosista do tempo militar, idolatrado por deslumbrados com um regime “conservador” que aumentou a carga tributária, lançou bases do Big Brother Fiscal, endividou estatais e criou programas sociais que se tornaram sagrados na psicologia coletiva de dependentes ou “tutelados” do socialismo vosso de cada dia.

Como será o próximo vulto do conservadorismo da Pindorama?

Onde se revelará a nova esperança conservadora do povo que precisa da salvação?

Se a fé que esse povo coloca em políticos fosse direcionada a Deus, penso, como estaria este país?

08/01/2024 00h01

Imagem: marxist.org

Rui Facó

“Se durante a monarquia não era tão evidente a espoliação dos pobres pelos cobradores de impostos… A República só podia ser confundida, em seu espírito primário, com a lei do Diabo… Contra ela, portanto, a sua religiosidade se levantava, de armas nas mãos, uma vez que com armas era agredido.”

Obra: Cangaceiros e Fanáticos: gênese e lutas. II Parte. Canudos e Conselheiro. A República e os impostos. Civilização Brasileira, 1976, Rio de Janeiro. De Rui Facó (Brasil/Ceará/Beberibe, 1913-1963).

Rui Facó foi referência dos tempos em que tinha crenças marxistas. Apesar da metanoia política a que cheguei quase 30 anos depois, considero hoje de grande importância conhecer as obras deste intelectual comunista sobre os conflitos sociais no Brasil no final do século XIX e na primeira metade do século XX.

Leitura de meados dos anos 1990, quando desenvolvi grande interesse pelo liberalismo econômico. Nesta época comecei também a me interessar mais pelos temas do cangaço, em parte como releitura dos movimentos sociais que deram origem a algo tão complexo no Brasil e, principalmente, pelas revoltas camponesas no sertão contra a cobrança de impostos no contexto do alvorecer da República, com destaque à figura de Antonio Conselheiro que foi um tipo de líder religioso carismático que estava a enfrentar, com viés de resistência, alguns diriam “revolucionário”, além da estrutura de poder político em mutação no Brasil, a própria hierarquia conservadora da Igreja Católica que não via com bons olhos a capacidade de quem conseguia conquistar seguidores, vistos como “fanáticos”, que se voltavam contra as autoridades civis em conflitos sociais.

Em 1893 o governo central republicano autorizou os municípios a realizarem cobrança de impostos. A intrigante tendência de estados republicanos cobrarem mais impostos que os monárquicos foi um fenômeno que só pude compreender melhor 13 anos depois quando comecei a ler os “austríacos”, sobretudo os da ala libertária. O Brasil da última década do século XIX tinha uma estrutura precária do aparato fiscal e era por editais de cobrança que a operacionalização se iniciava nas Casas da Câmara municipais. Conselheiro estava em Bom Conselho e mandou arrancar os tais “editais de cobrança” para em seguida com eles fazer uma fogueira em praça pública (p. 82); fiquei a imaginar a cena deste Brasil tão distante e hoje impossível. Neste Brasil sertanejo revoltado com os impostos, Conselheiro consegue seguidores em meio a quem nada possuía e passou a ser forçado a pagá-los, bem como entre pequenos proprietários de terras que lutavam pela sobrevivência (p. 82).

Facó menciona um confronto em que conselheiristas derrotaram um destacamento de 30 soldados da polícia da Bahia em Massete, entre Tucano e Cumbe, atual Euclides da Cunha, (p. 83). Canudos surgiria em seguida, na velha fazenda em ruínas, vindo a se tornar um marco nas tensões entre o velho Brasil monarquista e o Brasil que seguia a tendência que se dava pelo mundo em favor de governos republicanos com maior ânsia por arrecadação.

07/01/2024 11h55

Imagem: TVU Espanha

Walter Riso

“A mente flexível avalia os princípios, critérios ou mandatos tentando definir as fronteiras a partir das quais eles deixam de funcionar.”

Obra: A arte de ser flexível. De uma mente rígida a uma mente livre e aberta à mudança. Capítulo I. Três tipos de mentes: Rígida, líquida e flexível. Três tipos da mente flexível. A exceção à regra. L&PM, 2023, Porto Alegre. Tradução de Marcelo Barbão. De Walter Riso (Italia/Napoli, 1951).

Leitura oportuna do terapeuta e professor italiano que vive entre a Colômbia e a Espanha.

Alguns possuem uma mente de pedra, rígida, não se permitem a dúvidas, não gostam de autocrítica, teimam diante de fatos, enquanto outros se arriscam mais na forma de se relacionarem com informação disponível em seus cérebros, reconhecem falhas e tentam aprender com elas, aponta o autor na abertura do capítulo (p. 19).

Há também pessoas que caem em relativismo extremo, sem pontos de referência, possuem uma “mente líquida”, a citar o sociólogo Zygmunt Bauman [5], totalmente desinteressadas em compreender e decidir o que se apresenta em suas mentes, “acomodando-se às exigências da vida sem fixar posições de nenhum tipo” (p. 19); não se trata então da “fluidez do sábio” e sim da “negação da própria existência”, indica (p. 20).

Quanto ao trecho desta Leitura (pp 30-31), cita exemplos de como uma mente rígida atua enquanto apresenta os três princípios de uma mente flexível: a exceção à regra, o caminho do meio e o pluralismo. Sobre o primeiro ponto, penso na importância de saber identificar e lidar com princípios, e não confundi-los com regras, que são importantes para a ordem mas que se ajustam ao longo das experiências, enquanto também são abertas à contingência. um dos casos exemplificados pelo autor, da aeromoça que impediu a gestante da classe econômica de usar o banheiro da primeira classe desocupado em meio a fila formado no banheiro de sua classe(p. 30), fez-me lembrar de uma situação em uma viagem que fiz onde funcionários franceses de uma companhia ferroviária, no percurso Milão-Paris em dezembro de 2019, discutiam entre si se serviriam gratuitamente um kit do serviço de bordo (que normalmente deve ser comprado por passageiros) por conta de um atraso de mais de duas horas de um maquinista em uma estação francesa em meio a uma greve na França. Como estava próximo ao local onde funcionários estavam acomodados, lembro-me que um, mais jovem, comentou discretamente com outro, que não tinha previsão legal, nem autorização superior para fazer a distribuição. O que tinha ar de veterano argumentou que o bem estar dos passageiros é um princípio da companhia e, sendo assim, com todos ficando com fome por causa de um problema que não provocaram, o kit deveria ser distribuído imediatamente e foi o que acabou ocorrendo. A compensação alimentar veio com um pedido de desculpas aos passageiros no sistema de som do TGV.

Afirma o autor nos Comentários Finais que “uma mente que funciona bem estará sempre ativa e comprometida com uma transformação profunda do eu” (p. 183). Estar aberto a críticas e revisões é salutar como forma de tratar problemas de dogmatismo que envolvem uma mente petrificada, no entanto é tênue a linha entre a flexibilidade e a desordem pela adoção continua de exceções sem reflexão ou, como indica o autor na Zona 1, o pensamento crítico consiste em estar aberto a revisões “sem cair no ‘vale tudo'” (p. 183). Quanto a este ponto, em situações do cotidiano profissional, vivo intensamente a tensão entre observar normas e considerar casos onde se aplicam revisões e exceções. Penso que o saneamento dessa difícil e constante relação se dá por meio dos princípios.

No principal método de trabalho que utilizo, o de agendamento, tive que aprender a revisar regras para flexibilizar horários e atender a situações excepcionais onde todos os horários habituais de agendamento estão preenchidos. Para evitar o “vale tudo” da Zona 1, nos critérios de contingência tive que adotar métodos de classificação de prioridades que são constantemente revisados e consideram o nível da urgência e o comportamento dos clientes, pois há casos, incomuns, de clientes que não comparecem aos compromissos e não se justificam, para em seguida solicitarem ocupação de horários reservados a outros, atitude antiética que deve considerada assim como casos em que “tudo é prioridade”, quando o cliente deseja tratar exceção como regra, despreza regras elementares e se porta como se fora o centro o universo, inverte valores conforme suas conveniência e propõe, mesmo que inconscientemente, um caminho para o caos, caso o profissional que o atenda não realize um trabalho de análise mais depurada das suas demandas.

Ler Walter Riso ratificou a importância da atitude ética de avaliar processos internos que direcionem a conduta para mudanças inteligentes (p. 101), de forma consciente, sobretudo dos riscos (p. 102), enquanto se enfrentam dogmatismos, inclusive nos casos de “preconceitos sutis” (p. 126) que intoxicam a mente, bem como a arte de saber evitar clichês e não se deixar levar por aparências (p. 134) para aplicar normas em análises de forma ampla e, neste ponto, penso, não apenas em um sentido profissional. A autorregulação é outro ponto de destaque na visão do autor, algo que também muito me interessa, dado como encerra a obra com uma citação de Nietzsche a respeito (p. 185).

Nota do autor: 5. Bauman, Z. Vida líquida, São Paulo: Zahar, 2007.

06/01/2024 16h35

Imagem: FEARP

Fábio Barbieri

“A partir de 1950 alguns países com economias centralizadas, em especial Iugoslávia e Hungria, buscaram implementar reformas que introduziam alguns elementos das economias de mercado [12].”

Nota do autor: 2 Ver Brus (1998:337, 1992) e Kornai (1986, 1993).

Obra: História do debate do cálculo econômico socialista. Socialismo de Mercado Moderno: Informação e Incentivos. A Nova Geração de Modelos de Socialismo de Mercado. O ‘Socialismo de Mercado Real’ [11.]. Mises Brasil, 2013, São Paulo. De Fábio Barbieri.

Nota do autor: 11. 1 Roemer cita Janos Kornai , Alec Nove e Wlodzimierz Brus como os principais representantes dessa fase.

Mises tinha apontado em 1920 o problema central que impede o socialismo de funcionar economicamente: a ausência do cálculo econômico, pelo planejamento central e pela abolição da propriedade privada dos meios de produção a impedirem o mercado livre, fator que impede a atuação do mecanismo do sistema de preços mediante as relações dos agentes econômicos com a demanda e a oferta impactadas pela escassez ou, como aponta o professor da USP na FEA da Ribeirão Preto, nas palavras do próprio Mises [190]:

Onde não há um livre mercado, não há mecanismo de preços; e sem um mecanismo de preços, é impossível haver cálculo econômico.”

Foi apenas em 2006, tardiamente, que li pela primeira vez a obra de Mises sobre o problema do cálculo econômico. Naquele ano tinha relativa noção do significado do fracasso das tentativas que vislumbravam um “socialismo puro” ou “total”, com todos os meios de produção coletivizados ou não privados, sob forma de planejamento central, bem como tinha consciência de que esse socialismo nunca tinha sido atingido. A explicação de Mises me ajudou a compreender que as razões que impedem esse socialismo puro não se dão por derrota no embate político; o fato do socialismo total não se sustentar não se explica porque faltam bons socialistas capazes de torná-lo realidade e sim por causa da ausência do cálculo econômico que o planejamento central enseja com os meios coletivizados ou estatizados.

Um tempo depois da experiência com a obra de Mises, passei a ter uma visão diferente sobre a expressão “socialismo de mercado”, o que, a princípio soaria estranha para um economista que estava se tornando “austríaco”, mas ao adotar a tríade hegeliana, filosofia familiar em minha formação, pude observar que, no mundo real, economia de mercado total ou pura não é praticada; por menor que seja a participação do Estado em um sistema liberal, há regulação e alguma forma de planejamento central, bem como meios produtivos não privados ou estatizados são preservados, sobretudo em áreas consideradas “estratégicas” a envolver justiça, segurança, educação, saúde, energia, entre outros casos menos frequentes. E se, por um lado, socialismo total é inviável, na mentalidade de Estado de transição (rumo ao comunismo), este socialismo utópico me veio como a primeira tese.

Por outro lado, não necessariamente por inviabilidade, mas provavelmente por razões políticas em torno da luta pelo controle do Estado entre liberais e socialistas, alguns diriam também por utopia, não há economia 100% em mercado livre, sem qualquer interferência estatal, seja na regulação, seja na posse de recursos. E a economia 100% em mercado livre me veio à mente como a antítese do socialismo puro.

A síntese ou a “superação”, aqui tomo por empréstimo um termo familiar aos marxistas que conhecem e aplicam a filosofia de Hegel, assim como o próprio Marx, é o resultado do confronto da tese com a antítese; certamente algo análogo ocorreu com comunistas da China. Eles devem ter percebido que o socialismo puro traria o caos à China e então adotaram alguns elementos comuns em economias de mercado. É a terceira via que Olavo de Carvalho chamava de “economia fascista” onde os meios produtivos privados são tolerados, desde que sob rígida submissão ao aparelhamento do Estado; empresários são aceitos e até reverenciados com certos controles estatais, bem como são mantidas empresas estatais puras ou mistas, desta forma, as pautas sociais dos socialistas se tornam viáveis pois a economia está no suporte essencial à vida que vem do mercado parcialmente livre e com relativa descentralização econômica.

No trecho desta Leitura, torno ao livro do professor Barbieri que afirma: “A expressão ‘socialismo de mercado’ foi então associada às economias desses países em transição, embora a realidade dessas economias pouco se assemelhasse aos modelos teóricos de socialismo de mercado desenvolvidos na década de trinta” (p. 237). Parece-me o típico caso de que a teoria pensada nos anos 1930 na prática foi outra coisa e aqui penso quando o professor menciona o que ocorreu entre pensadores econômicos que tentaram “conciliar mecanismos de mercado com a
abolição da propriedade privada dos bens de capital” (p. 89), com relações de interesse, em refutar o problema apontado por Mises (p. 96). Torno ao parágrafo do trecho desta Leitura, quando o professor cita China, União Soviética e Polônia, entre outros, que passaram a adotar mais tarde esse socialismo que chamo de “dialético”, ou “de mercado” como se apresenta. Aqui penso que o primeiro país mencionado está cada vez mais ativo no sistema global de negócios, no encalço dos EUA, o que se trata de uma realidade impensada por Marx; um país de “comunistas” membros do partido e acionistas de bolsas, multimilionários. Já o segundo país citado até que tentou, mas houve um desmantelamento da estrutura política que centralizava tudo em Moscou, o que impediu a aplicação do modelo de economia fascista que hoje se notabiliza na China.

191. O cálculo Econômico sob o Socialismo. Edição do Instituto Ludwig von Mises. Brasil, São Paulo, 2012. Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque. De Ludwig Heinrich Edler von Mises (Áustria-Hungria/Leópolis, 1881-1973).

05/01/2024 21h58

Imagem: DW

Nietzsche

“Termino aqui e pronuncio a minha sentença: eu condeno o cristianismo, lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que jamais acusador algum pronunciou: para mim ela é a maior corrupção imaginável.”

Obra: O Anticristo. LXII. Martin Claret, 2003, São Paulo. Tradução de Pietro Nassetti. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

O dia em que nasceu o pastor Abdoral

Pelo ano da graça de 2005 em um círculo de pastores, ali estava o então seminarista a pensar em em três decisões que seriam tomadas na semana seguinte.

A primeira dizia respeito a um telefonema que daria a um pastor (não o mencionarei) para comunicá-lo de que não aceitaria o concílio examinatório que ele estava a organizar mediante o fato de que nunca tive a pretensão ao ministério pastoral – já o tinha advertido – além de que sequer fui consultado sobre um exame que não seria outra coisa além de imprópria.

A segunda seria a de encerrar meu trabalho como seminarista pois, talvez alguns, incluindo o pastor do concílio que se envolveu para encontrar uma solução para a igreja, enquanto não tinha como assumir o pastorado dela, todos ilusoriamente pensassem que eu estava servindo com algum interesse diverso ao de simplesmente contribuir em uma situação especial. É curioso como a presunção rasa em uma lógica não-espiritual, diria mundana, típica do jogo de interesses, parece guiar a concepção sobre o comportamento alheio, inclusive entre pessoas que se declaram cristãs e ativas em igrejas. Enquanto estava para colaborar emergencialmente em uma comunidade sem pastor efetivo, buscava maturidade na vida espiritual, mas se um jovem de 30 anos, bem casado, economista, em ritmo forte no seminário, que tinha optado recentemente por aulas pela manhã e à noite, conciliava uma agenda desgastante, à época com três dezenas de clientes de sistemas contábeis, nas funções de programador e analista de suporte, enquanto cuidava das finanças da obra de construção de sua casa que seria concluída naquele mesmo ano (onde reside até hoje), o envolvimento, apesar de formalmente temporário na liderança de uma igreja, só poderia significar que tinha a intenção de ser o pastor-presidente, embora nunca tivesse externado algo dessa natureza.

Foram dias extraordinários…

A decisão significava que encerraria minha breve carreira para retornar à igreja de origem. A terceira decisão, como desdobramento da segunda, seria a de comunicar in loco minha demissão; foi o momento mais delicado, lembro-me até hoje do semblante (que tinha se agravado porque a cidade tinha passado por uma enchente e as pessoas estavam cansadas demais) dos que guardavam maiores expectativas naquele seminarista “bombril” que gostava de escrever pastorais em boletins, elaborar ordens de culto, preparar sermões, analisar demonstrações financeiras e dar aulas na EBD, que não fazia uso de terminologias de “crente”, evitava jargões. Não podia adiar a decisão enquanto o pastor parecia determinado, com a ideia do concílio, de passar por cima de minha não-vontade de ser pastor.

Era junho, final de semestre, último dia de provas e decidi passar uma hora na biblioteca para concluir a leitura de O Anticristo, sob o olhar curioso de um indivíduo, parecia até um diácono do tipo dono de igreja, brucutu que se ufana por rotular pessoas por aquilo que leem ou mencionam, então espiou o trecho desta Leitura como quem dizia ironicamente pelo olhar de patrulha, “que texto edificante para este irmãozinho liberal seminarista!”. Então fui a reunião de pastores como convidado, cuja intenção seria a de proporcionar que eu ficasse cada vez mais familiarizado com “questões pastorais”.

Na saída daquela experiência, nasceu o pastor Abdoral.

Enquanto dirigia, pensava na sentença de Nietzsche e no que ouvira de pastores que mais pareciam homens de negócios sedentos por dízimos, crescimento de arrecadação, comparações de benefícios e salários, todos devotados a resultados financeiros. Se o pastor Leonardo jamais seria uma realidade desde o primeiro dia de aula em 2003, quando respondi a um professor porque estava ali, o pastor Abdoral surgiu como um espírito crítico de um heterônimo de pensamentos tão distintos e provocantes, face ao criticismo inevitável por sua personalidade não corporativista.

Abdoral, o pastor sem igreja, sem crentes no regaço, que não deseja bajuladores nem seguidores, solitário que guarda a teologia no coração, não se desgarra da fé e vive em uma caverna no alto de uma montanha para pastorear o que pensa pelo espírito livre que apascenta os próprios juízos.

04/01/2024 22h41

Imagem: Palácio Piratini

Getúlio Vargas

“Impedido pela Constituição de se reeleger, em 10 de novembro de 1937 o presidente, com apoio militar, deu um golpe de Estado: fechou o Congresso, outorgou nova Constituição, cancelou as eleições e manteve-se no poder.”

Obra: Getúlio Vargas. 1ª Parte – Ensaio Biográfico. Edições Câmara, 2011, Brasília. Organizado por Maria Celina D’Araujo.

Obra muito interessante, organizada pela professora e doutora em Ciência Política Maria Celina D’Araujo, não se pautando em ser uma biografia completa, é rica em discursos dando excelente referência para melhor conhecer a estrutura de pensamento de Getúlio Dornelles Vargas (Brasil/Rio Grande do Sul/São Borja, 1882-1954).

Lembro-me da primeira vez que ouvi falar de Vargas; foi na aula de educação moral e cívica em meados dos anos 1980. A forma como o professor falou dele me fez sair então da aula crente de que fora um grande líder na história do Brasil. Recordo-me de dois pontos: teria dado grande atenção aos trabalhadores e foi o primeiro presidente a pensar nos mais pobres, um estadista à semelhança do que falava acerca dos militares que até então governavam o país. Lembro-me também da época do ensino médio, no início dos anos 1990, de um professor um tanto entusiasta de Brizola com uma leve tensão com outro que foi o primeiro a me indicar um lado até então desconhecido de Vargas: o de “ditador”, algo impensável na década anterior nas aulas de moral e cívica que serviam para doutrinar crianças em favor da ditadura militar, apesar de que corria de forma ainda mais forte a doutrinação de esquerda, velada e mais sofisticada.

Muito tempo passou e Vargas me veio à baila; estava a apresentar um trabalho sobre a CLT enquanto não estava interessado em discutir a questão que me fora levada (parecia até encomendada, pois já naquele tempo, início dos anos 2000, o remetente sabia que eu tinha crenças de um liberal-democrata) acerca do que falei sobre as relações com a Carta del Lavoro e se eu seria a favor de uma reforma ou revogação do sistema trabalhista nela contido. Relutei a responder, a considerar que se tratava de uma análise técnica do sistema de leis trabalhistas, mas soltei um “por mim seria extinta” (e eu ainda nem era “austríaco”). Então sobrou um “fascista” no fundo da sala. A dose de ironia auto infligida foi cavalar naquela voz com ar de insulto; quisera-me ter sido irônica mesmo mas, pelo tom, não foi.

O trecho desta Leitura (p. 32), assim como descreve a autora acerca de fatos ocorridos no regime, nas páginas que sucedem sobre o “Estado Novo”, fizeram-me lembrar do breve comentário que fiz na ocasião, sobre a Consolidação tão sagrada por muitos no Brasil, sobretudo de viés socialista (incluindo o jovem que me classificou de forma tão “carinhosa”) ter nascido de um contexto de uma ditadura que foi a coisa mais próxima de fascismo que se teve no país; pelo totalitarismo, pelo proto-controle social de suas regulações e pela aversão à existência do contraditório.

O fascínio por Vargas é um fenômeno deveras complexo, pois vai de petistas, militantes psolistas, passa por pedetistas e chega até saudosistas do regime de 1964, em função do anticomunismo, onde congregam muitos bolsonaristas. Um poderoso terraplanismo político-econômico que pode encantar alguém que se declara defensor da democracia para, em seguida, enaltecer Vargas e tem o poder de fazer um jovem, intoxicado por ideologias progressistas, chamar de fascista quem se opõe a coisas como a CLT.

03/01/2024 21h04

Imagem: História Judaica

Guimarães Rosa

“Donde é mesmo que o senhor é, donde?” Se sorria. E eu não medi meus alforjes: fui contando que era filho de Seô Selorico Mendes, dono de três possosas fazendas, assistindo na São Gregório. E que não tinha em minhas costas crime nenhum, nem estropelias, mas que somente por cálculos de razoável política era que eu vinha conduzindo aqueles jagunços, […]”

Obra: Grande Sertão: Veredas. Volume II. Nova Aguilar, 1994, Rio de Janeiro. De João Guimarães Rosa (Brasil/Minas Gerais/Cordisburgo, 1908-1967).

Quando comecei a me interessar mais pelo medioevo, boa parte nas lições do professor Alessandro Barbero, algo me sinalizava familiar em certos valores quando penso na cultura do homem do interior nordestino, com maior destaque ao do sertão.

A relevância da ascendência parental (“filho de Seô Selorico Mendes”) como critério para credenciais, como se descreve sobre as reputações em cidades medievais. A economia delineada em posses de terras (dono de três possosas fazendas), como indicador de elevado prestígio de ordem econômica em um indivíduo, bem como sua concepção de honradez, retidão, seriedade, (não tinha em minhas costas crime nenhum, nem estropelias), como características apreciadas em todo líder familiar e feudal que se preze, enquanto detentor ou senhor de grupos de auto defesa em meio a questões políticas que são bem regionalizadas entre conflitos com outros grupos ou famílias, tais “soldados privados” ou membros de sua cavalaria (somente por cálculos de razoável política era que eu vinha conduzindo aqueles jagunços), além de outros elementos análogos pelo ritualismo da forma de se vestir, falar e se conduzir socialmente, bem como os casamentos dos filhos, arranjados, acordados entre os chefes de família.

O Nordeste brasileiro externa um traço dessa essência medieval, embora quando se fala em “Idade Média”, facilmente pode se deparar com uma conotação negativa, não raramente preconceituosa, sobretudo pela força de narrativas de teor progressista que combatem certos valores deste homem tão rural, forte, que preza pela palavra, não aceita o que entende por desonra dentro de sua casa, assim inflexível, deveras religioso, um tipo conservador, mais objetivo e reverente nos negócios, diria um modelo que não abdica de um conceito de ser social que vai além das aparências e subjetividades que tanto fascinam o ser pós-moderno e, por essas e tantas outras, parecem-me próximos o senhor medieval e o coronel-cabra-macho do sertão.

02/01/2024 00h02

Imagem: Picturing Golda Meir

Golda Meir

“If you strangle me, I don’t know how to go to the people and explain to them that, after all, never mind there was a war, there was another war, more dead, more wounded, but we have to give up Syrian territory. Why? because Assad says so… I can never accept that there is no difference between the attacker and the attacked. I can’t accept that… I can’t make peace with the idea that we had two wars in seven years, with the price we paid for it. Then Assad says he must get his territory back. I mean, that is chutzpah of the nth degree. How is it possible… Isn’t it an encouragement for our neighbors to go on fighting when the fighting does not lose anything?” [31]

Nota do editor: 31. Kissinger, Years of Upheaval, p. 1054.

Obra: Golda Meir: A Political Biography. 19 Salvage (1973–1974). Yediot Aḥaronot, 2008, Sifre ḥemed. Publicado por De Gruyter Oldenbourg. De Meron Medzini (1932).

Cada vez que leio Golda Meir (Ucrânia/Kiev, 1898-1978) fico impressionado com os nervos de aço da então primeira-ministra israelense.

Contexto: Guerra do Yom Kippur, 1973, no meio da crise, Golda Meir escuta “pacientemente”, diz o texto (p. 642), o judeu e secretário americano Henry Kissinger que, obviamente, estava a serviço dos interesses do governo dos EUA no barril de pólvora do mundo e suplantam o Estado de Israel (um instrumento da política externa americana). Kissinger fala sobre um recuo no cessar-fogo em forma de retirada israelense para a antiga linha do cessar-fogo de Junho de 1967, o que daria a Assad prestígio na Síria e no resto do mundo árabe; esperava o inimigo israelense não aceitar menos do que Israel deu a Sadat, diante da inflexibilidade israelense na política dos assentamentos no Golan.

Golda Meir então responde a Kissinger de forma que resume parte da linha política de Israel diante de seus vizinhos (o que ajuda a entender a reação do governo de Israel no atual conflito). Nessa lógica, Israel se posiciona ao enfatizar que é a parte vítima, “atacada”, o que tem sentido se o evento de 6 de outubro de 1973 for visto isoladamente, mas se for considerado em um contexto maior, o do processo de formação e ocupação do Estado soberano judeu, então há controvérsia. De qualquer forma, se Israel foi atacado por seus vizinhos árabes, todo agressor deve pagar com alguma perda significativa, eis a lógica de Golda Meir. Assad, um dos atacantes, ao inserir a recuperação do território perdido na Guerra dos Seis Dias (1967) nas negociações com os EUA, ao ser aceito por Israel não seria um estímulo a novos combates?, argumenta a primeira-ministra (p. 642). A ironia desta conversa tensa é que ocorre com um judeu na política e não um árabe anti-israelense.

01/01/2024 12h02

Imagem: El Español

Umberto Eco

“[…] la realidad es reproducida con precisión, pero al mismo tiempo según al punto del vista subjetivo del observador, que em cierto sentido ‘añade’ a la exactitud del objeto la belleza por el sujeto.”

Obra: Historia de la Belleza. Capitulo VII. La belleza mágica entre los siglos xv y xvi. 2. El Simulacro. Mondadori, 2010, Barcelona. Traduzida para o espanhol por Maria Pons Irazazábal. De Umberto Eco (Italia/Alexandria, 1932-2016).

Recordação de minha passagem por Madrid, há quase um ano, em ruas movimentadas com as rebajas e, ao adentrar em uma livraria, termino por apreciar uma edição espanhola de Storia della Bellezza.

Ah, lembro-me como aquela criança literária ganhou o dia…

No Renascimento a pintura ganha avanços com as técnicas a óleo. A arte imita a natureza quando o sujeito, o ser humano, criativo, inventivo, adiciona sua interpretação, sua subjetividade nessa imitação do mundo natural (p. 181); em especial o humano é retratado em detalhes sobre a beleza do todo, aponta Umberto Eco neste capítulo, a exemplificar com reprodução de uma belíssima pintura do Retrato de jovem dama (1485) de Domenico Ghirlandaio (p. 181). Há uma correspondência mais geral entre o macrocosmos e o microcosmos (p. 186), o humano sendo o natural, faz arte como inserido no natural em riqueza de traços onde a beleza ganha uma dignidade análoga à bondade e à sabedoria, o que me faz pensar nos gregos, em termos clássicos. A luz nas artes, que já tinha grande destaque na Idade Média, com a pintura a óleo, por meio das cores, ganha efeito “mágico e envolvente” (p. 183), em meio a influência neoplatônica e um contraste entre as formas de beleza feminina (p. 188).

A leitura deste capítulo me trouxe uma meditação sobre o Renascimento onde o humano era o fator central de interação e aprendizagem com a imensidão e a beleza da natureza, e traçando um paralelo com o século presente, são as máquinas e os softwares que tentam reproduzi-las em um processo de desumanização da criatividade. Saem os seres humanos intelectualmente ativos, entram as coisas, as máquinas, os programas de computador e a Inteligência Artificial produzindo retratos, falas, vídeos, com degeneração da ética sobre a produção e a autoria de conteúdos. A geração de Leonardo da Vinci para o século XV/XVI em contraste com a tecnológica deste século indica, à mon avis, um processo de substituição da genialidade humana por outra coisa, degenerada, penso, por trogloditas digitais que abdicam do saber pela IA, iludidos com o razoável conhecimento de TI enquanto entorpecidos por desprezo pelo conhecimento de si mesmos enquanto humanos.

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