Bem vindos à seção de recomendações de leitura do blog. Todo dia um registro de uma experiência pessoal de leitura. E como criador deste blog, este espaço para mim é muito especial, a aproveitar uma das atividades mais prazerosas que tenho. A ideia de registrar uma experiência de leitura por dia, com algumas anotações pessoais, foi inspirada também em um projeto italiano chamado “Una parola al giorno” (Uma palavra por dia), uma maravilha criada por dois jovens de Florença em 2010, sobretudo para não nativo que estuda italiano. E eis que aqui temos uma leitura ao dia.

31/01/2022 23h22

Anne Frank

[…] Vejo o mundo se transformando aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão. Enquanto isso, devo me agarrar aos meus ideais.[…]”

Obra: O Diário de Anne Frank, final do registro de 15/07/1944, versão b quando tinha cerca de 15 anos; a “Kitty”, a forma como se referia ao diário, inspirada na série de cinco livros infanto-juvenis chamada  Joop ter Heul, onde uma das personagens era Kitty Francken. Trecho da 84o. edição da Record, em formato físico, página 400. De Annelies Marie Frank (Alemanha/Frankfurt, 1929-1945).

Vinte dias depois Anne estaria em um grupo que seria preso em uma busca de nazistas em sua casa; o esconderijo em um anexo secreto fora descoberto. A adolescente cheia de lições de vida, que comove milhões de leitores, sentia a esperança da paz e da tranquilidade em meio ao horror da perseguição nazista. Após a prisão, Anne seria levada ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, para trabalhos forçados destinado a mulheres, com a sua irmã e a sua mãe. Seria separada dos pais, sendo transferida a Bergen-Belsen, onde morreria com febre tifoide. Anne, a adolescente que não queria perder esperança, compartilhando suas experiências no diário de lições que ecoam na eternidade.

30/01/2022 11h24

Imagem: HEARTLAND

Murray Rothbard

Depois que o Estado se estabeleceu, o problema do grupo dominante, ou “casta”, é como manter o seu domínio. Apesar de a força ser o modus operandi, o problema básico e de longo prazo do grupo é ideológico. A fim de continuar no comando, qualquer governo (não apenas um governo “democrático”) tem de contar com o apoio da maioria de seus súditos. Este apoio, deve-se notar, não precisa ser demonstrado com um entusiasmo ativo; pode muito bem ser uma resignação passiva, como se diante de uma inevitável lei da natureza. Mas tem de ser uma sensação de aceitação de algum tipo; de outro modo, a minoria de governantes acabaria vencida pela resistência ativa da maioria. Como a ação predatória deve ser mantida graças ao excedente de produção, é necessário que a classe que compõe o Estado – a burocracia (e nobreza) em tempo integral – seja minoria no território, embora ela possa, claro, fazer aliados entre os grupos importantes da população. Portanto, a principal função dos governantes é sempre garantir a aceitação ativa ou resignada da maioria dos cidadãos.

É claro que um método de garantir este apoio é por meio da criação de interesses econômicos ocultos. O Rei sozinho, portanto, não consegue governar; ele deve ter uma quantidade considerável de seguidores que correspondam aos pré-requisitos do domínio, como, por exemplo, os membros do aparato estatal, tais como a burocracia em tempo integral ou a nobreza estabelecida. Mas isso só garante uma minoria de defensores ávidos, e mesmo a compra de apoio por meio de subsídios e outros privilégios não é capaz de obter o consenso da maioria. Para conseguir essa aceitação essencial, a maioria deve ser convencida, por meio da ideologia, de que seu domínio é bom, sábio, ou, ao menos, inevitável, e com certeza melhor do que as alternativas. Promover essa ideologia entre o povo é a função fundamental dos “intelectuais”, porque as massas não geram suas próprias ideias nem refletem sobre tais ideias independentemente; elas seguem passivamente as ideias adotadas e disseminadas pelo corpo de intelectuais. Os intelectuais são, portanto, os “formadores de opinião” da sociedade.

É evidente que o Estado precisa dos intelectuais; nem tão evidente assim é o fato de os intelectuais precisarem do Estado. Em resumo, podemos dizer que o sustento do intelectual no livre mercado nunca é muito seguro, porque o intelectual depende dos valores e escolhas das massas, e uma característica das massas é justamente que elas geralmente não se interessam muito por questões intelectuais. O Estado, por outro lado, está disposto a oferecer aos intelectuais um trabalho seguro e permanente no aparato estatal, isto é, uma renda segura e a impressão de prestígio. Assim, os intelectuais serão muito bem recompensados pela importante função que desempenham para as autoridades do Estado, grupo do qual eles agora fazem parte”.

Obra: Anatomia do Estado. Capítulo 3 – Como o Estado se preserva. Edição em português, eBook Kindle. De Murray Newton Rothbard (EUA/Nova Iorque/Nova Iorque, 1926-1995).

Economista da ala libertária da Escola Austríaca (EA).

Não foi fácil digerir esta análise de Rothbard em 2007, em meu primeiro contato com as obras dele, que só foi possível quando decidi seguir carreira como autodidata, distante de universidades, onde há o monopólio do pensamento progressista. Até então eu me reconhecia como “liberal” em economia, um democrata em política.

O tempo passou e ao mergulhar em mais fatores na história das sociedades, seja pela política, seja pela economia, pude perceber melhor a profundidade dos argumentos de Rothbard, sobretudo neste trecho sobre as relações de interesses fisiológicos (e por que não dizer deploráveis?) de intelectuais, sobretudo os que operam em entidades “públicas” ou estatais (universidades, centros de pesquisa e demais entidades) com o aparato do Estado. O compadrio é mais intenso e complexo do que aquele versado ao capitalismo de laços.

Observando hoje a defesa agressiva do coletivismo de muitos intelectuais, professores, doutores e afins, em redes socais, formando opinião para uma massa, penso em muitos os quais até são de escolaridade bem avançada enquanto são tratados como homens massa manipulados ao interesse dos que vivem na “casta” que o Rothbard menciona.

29/01/2022 18h43

Imagem: BRAZILIAN POETRY

Cora Coralina

“Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede”

Obra: Aninha e Suas Pedras (Outubro, 1981). Cora Coralina, Melhores Poemas. Direção de Edla van Steen, 2a. edição digital, 2020, no Kindle. De Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, pseudônimo Cora Coralina (Brasil/Goiás, 1889-1985).

Nada mais prazeroso em uma leitura do que apreciar a peculiar linguagem figurada de um poema: recriar a vida, sempre, remover pedras e plantar roseiras, fazer doces, recomeçar, não permitir que a mesquinhez de minha própria vida me destrua. A linguagem simples, coloquial enquanto profunda, sem apetrechos, da grande poetisa e contista brasileira, certa vez me inspirou a tentar outra vez diante de inúmeros insucessos.

28/01/2022 22h19

Imagem: InfoMoney

Frédéric Bastiat

“Enquanto se aceitar que a lei seja desviada de sua função própria, que ela viole a propriedade em vez de protegê-la, todos desejarão participar da criação das leis, seja para se proteger da espoliação, seja para praticá-la”

Obra: A Lei. Edição da Faro Editorial, 2016, em português, eBook Kindle. De Claude Frédéric Bastiat (France/Baiona, 1801-1850)

Esta constatação do economista e jornalista francês, em meados do século XIX, ajuda a compreender melhor certos vícios políticos como o compadrio, o fisiologismo e o clientelismo no Brasil (e por que não dizer no mundo?), quanto ao “fazer política” no âmbito do Estado que é, como Ludwig von Mises sintetiza, “aparato de compulsão e coerção”.

Por trás de discursos recheados de “boas intenções”, não raramente podem ser identificados interesses bem particulares, travestidos em apelos coletivistas, onde a última coisa que importa é o bem-estar dos que supostamente dão a razão de ser da política.

27/01/2022 22h59

Martin Luther King Jr.

“Permitam-me agora dizer, em segundo lugar, que, se quisermos ter paz no mundo, homens e nações terão que adotar a atitude pacífica de que os fins e os meios devem adaptar-se. Um dos grande debates filosóficos da História tem girado em volta do problema dos meios e dos fins. E sempre houve quem dissesse que o fim justifica os meios, que os meios não são importantes. O importante é alcançar o fim.

Por conseguinte, se quisermos criar uma sociedade justa, dizem essas pessoas, o importante é alcançar o objetivo, os meios não têm importância. Quaisquer meios que nos façam atingir o alvo – meios violentos, meios desonestos, até mesmo meios injustos, desde que levem a um fim justo. Sempre houve quem argumentasse assim, ao longo da História. Mas nunca teremos paz no mundo enquanto os homens não reconhecerem que os fins não são independentes dos meios., porquanto os meios representam o ideal em ação e o fim em processo, e não se podem alcançar bons fins através de maus meios, pois os meios representam a semente e o fim representa a árvore. […] Se quisermos que haja paz na terra e boa vontade para com todos os homens, teremos de acreditar na moralidade do universo e de crer que toda a realidade se baseia em alicerces morais.”

Obra: Luther King: O Redentor Negro – Preces e Mensagens. Em “Um Sermão de Natal sobre a Paz”, pregado em 24/12/1967, publicado pela Martin Claret, em formato físico. De Martin Luther King Jr. (EUA/Geórgia, 1929-1968), pastor batista e ativista político americano, Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Foi o último Natal do doutor King, pregando na Igreja; ele seria assassinado no dia 4 de abril, do ano seguinte. Tento imaginar o tamanho da dissonância cognitiva em associar o doutor pastor Luther King Jr a ideias progressistas ou marxistas quando na verdade, ele tinha uma forte vertente conservadora, com ênfase da moral no processo de desenvolvimento social e cultural. Se tem uma coisa que não combina com o pensamento dele é o uso da violência e da desonestidade (em todas as formas) para se alcançar objetivos supostamente virtuosos, coisa comum de se ver em meios políticos ambidestros, sendo mais fácil de ser identificado entre marxistas e afins. Fato é que ser contra alguma política importante do governo (como a promoção americana à Guerra do Vietnã), nos anos 1960, era suficiente para um pensador, mesmo produzindo pensamentos conservadores, ser taxado de “comunista” e esse estereótipo foi inevitavelmente dado ao pastor que entrou para o rol das lideranças religiosas e políticas mais importantes do século XX.

26/01/2022 23h35

Imagem: Students for Liberty

Thomas Sowell

“Durante vários séculos, os europeus escravizaram outros europeus, os asiáticos escravizaram outros asiáticos, e africanos escravizaram outros africanos. […] Apenas os piratas da Berbéria, no norte da África, capturaram e escravizaram pelo menos um milhão de europeus entre 1500 e 1800, de forma que o número de europeus submetidos à servidão, na África foi maior que o número de africanos levados como escravos para os Estados Unidos e para as colônias que dariam origem ao país.”

Obra: Fatos e Falácias da Economia. Capítulo 6, Fatos e falácias raciais, Ed. Record, 2017, 1a. edição, formato físico. De Thomas Sowell (EUA/Carolina do Norte, 1930).

O capítulo mais sombrio da humanidade é a escravidão e o racismo é, infelizmente, o tema correlato mais delicado e complexo explorado politicamente.

Visto que a escravidão hoje ainda persiste, enquanto é duramente combatida por vários setores da sociedade, o que denota uma evolução da nossa espécie, para que continuemos na superação do racismo, creio que é preciso que ocorra um esvaziamento ideológico dando lugar a uma plenitude de conhecimentos combinados com a ética no tratamento das questões envolvidas.

25/01/2022 22h46

Imagem: Jornal da USP

Ortega y Gasset

“A obra intelectual visa, muitas vezes em vão, esclarecer um pouco as coisas, ao passo que a do político normalmente consiste, ao contrário, em confundi-las mais do que já estavam. Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil: ambas são, de fato, formas de hemiplegia moral.” 

Obra: A rebelião das massas. Prólogo para franceses, página 61. Edição do CEDET, Campinas, 2016, formato físico. De José Ortega y Gasset (Espanha/Madrid, 1883-1955).

Assim como o austríaco Hayek, o pensador espanhol Ortega y Gasset foi um dos que testemunharam, na primeira metade do século XX, a ascensão de três produtos totalitários (comunismo soviético, fascismo italiano e nazismo alemão) e conseguiu ler, a meu ver, de forma muito reflexiva à presente geração, o que estava acontecendo em relação ao que a política, regida naqueles dias por ideais republicanos, estava fazendo após a derrocada de muitas monarquias na Europa, subvertendo sinais que os mesmos sistemas políticos em crescimento davam sobre concepções rasas, em meio a definições precárias e bastante usadas no mundo da política direcionado ao “homem-massa”: “direita” e “esquerda”.

Na política, a confusão é um instrumento estratégico para canalizar a força bruta dos incautos que se reflete nas urnas, para dar suporte a projetos de poder onde a obra intelectual se torna naturalmente um ponto de inconveniência.

24/01/2022 13h34

Graciliano Ramos

“Deve-se escrever da mesma maneira com que as lavadeiras lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Obra: Linhas Tortas. Edição em português, formato físico, 18a edição, Record. De Graciliano Ramos de Oliveira (Brasil/Alagoas, 1892-1953).

Às vezes, o uso rebuscado da palavra serve não somente para tentar impressionar a quem se dirige, enquanto não necessariamente indica riqueza de conteúdo, mas também para intimidar. Outro aspecto dessa belíssima reflexão de Graciliano Ramos se dá quanto a importância do escritor analisar e reavaliar bem o texto produzido visando ajustá-lo, identificando vícios de linguagem, redundâncias, silogismos, outros problemas lógicos, multiplicidade de sentidos, assim como a qualidade dos argumentos apresentados. É o trabalho de depuração que programadores fazem nos aplicativos e que as lavadeiras na beira do rio sabem muitíssimo bem no que fora discorrido por Graciliano.

23/01/2022 00h28

Aurelius Augustinus Hipponensis

“Nem sequer resta às palavras o papel de manifestar ao menos o pensamento de quem fala, pois è duvidoso se este sabe ou não o que diz. Considera também os mentirosos e enganadores, e facilmente compreenderás que, com as palavras, eles não só não revelam, mas até ocultam o pensamento.”

Obra: De Magistro, Capítulo XIII, edição em português, formato físico, da Martin Claret. De Aurelius Augustinus Hipponensis (Aurélio Agostinho de Hipona), o genial teólogo e filósofo da patrística Santo Agostinho de Hipona (Norte da África/Tagaste, 354-430).

Sobre o problema de não conseguir conhecer efetivamente o pensamento de quem fala, embora se escute ou leia o que fora dito. O trecho é de um diálogo com o seu filho adolescente Adeodatus, (372-391), Adeodato (do latim, “dado por Deus”), de uma incomum inteligência, que morreu aos 17 anos (causa desconhecida). O peso do pensamento de Santo Agostinho em minha forma de pensar é imensurável pela introspecção a qual ele revela, sobretudo em Confissões, a inspirar leitores a fazerem o mesmo, e pela disposição a tratar questões que envolvem complexo raciocínio enquanto costumam provocar o foro intimo. O trecho destacado é um exemplo de sua riquíssima forma de pensar sobre problemas envolvendo a autenticidade quando se expressa um pensamento.

22/01/2022 19h30

Tobias Straumann

“Na Alemanha, o maior beneficiário da crise financeira foi o líder nazista Hitler. Ele conseguiu monopolizar as críticas generalizadas à ordem do pós-guerra estabelecida pelo tratado de Versalhes e pelo Plano Jovem. Incansavelmente, ele fez a ligação entre a dívida alemã e a crise econômica. […] Agora que o Plano Jovem estava prestes a entrar em colapso sob o peso da crise financeira alemã, ele estava em uma posição particularmente forte, pois poderia alegar que sempre esteve certo.”.

Tradução livre.

Obra: 1931: Debt, Crisis, and the Rise of Hitler, edição em inglês, no Kindle, capítulo 10: The Rise of Hitler. De Tobias Straumann (Suíça/Wettingen, 1966), respeitadíssimo historiador econômico europeu. Foi a leitura mais interessante que fiz em 2021.

Radicais ou extremistas, sejam de direita ou de esquerda, agentes na política de estado, tendem a obter enorme força com o oportunismo em torno de grandes crises econômicas. A Alemanha, mergulhada em profunda crise financeira do Estado e dos bancos, pós Tratado de Versalhes, se tornou um ambiente propício para que um radical como Adolf Hitler, trazendo uma ideologia coletivista remodelada, chamada de “Nacional Socialismo”, encontrasse a oportunidade para chegar ao topo do poder. Quanto pior, melhor para quem faz do radicalismo a base da política e o caso da rápida ascensão de Hitler serve de alerta para os nossos dias de elevadíssimo endividamento dos estados nacionais e do surgimento de projetos populistas em tempos pandêmicos.

21/01/2022 23h02

Tommaso d’Aquino

“Se o professor resolver a questão somente por meio de argumentos de autoridade, quem o escuta ficará, sem dúvida, convencido de que as coisas são assim, mas não adquirirá nada em ciência e intelecto, e irá embora vazio”

Tradução da introdução da obra “À escuta do outro”, edição Paulinas, em formato físico, do teólogo italiano Dom Bruno Forte (Italia/Napoli, 1949)

Obra: Summa Theologiae, Quodl. IV a. 18.) De San Tommaso d’Aquino (Regno di Sicilia/Roccasecca, 1225-1274).

Este pensamento de São Tomás de Aquino, marcante no medioevo (Idade Média), é interessante para meditar, especialmente diante de quem apenas rotula a Idade Média sob o mito de um período de “absolutismo” e aversão à dúvida e ao conhecimento além das amarras religiosas, que se imputa inadvertidamente a este longuíssimo período da história. A ideia da construção do conhecimento se nutrindo pela formulação de questões verdadeiras, brotando na medida em que se permite ir aos porquês, sendo também um processo endógeno de aprendizagem, e não apenas de recepção de conceitos, estava presente na dita “Idade da Trevas”. Pela busca dos porquês há uma via de interação com o conhecimento, sendo de dentro para fora (também lembrando um pouco Santo Agostinho com a “verdade que ensina interiormente” em De Magistro, cerca de oito séculos atrás), caracterizada pelo exercício da dúvida, não se limitando a mera recepção de respostas prontas, acabadas.

20/01/2022 22h32

Ayn Rand

Não existem contradições. Sempre que você achar que está diante de uma, verifique suas premissas. Você vai descobrir que uma delas está errada”.

Obra: A Revolta de Atlas (2010), lançado inicialmente com o título “Quem é John Galt” (1987). Edição em português, no Kindle. De Ayn Rand (pseudônimo) adotado por Alisa Zinov’yevna Rozenbaum (Império Russo/ São Petersburgo, 1905-1982), escritora e filósofa russa, com cidadania americana.

É o objetivismo da autora (sistema filosófico). Não existe contradição; existe leitura equivocada de fatos ou situações envolvidas em aparente incoerência. Partindo de uma determinada premissa imprópria se pode cegar a conclusão equivocada, de onde se aponta contradição. Quando um político se declara a favor de determinada coisa, mas seus atos indicam o contrário, apontar contradição ignora o problema de que se partiu da alguma premissa equivocada, em uma declaração política Uma vez exercendo o cargo, se tomar decisões em sentido contrário do que declarou em campanha, não há contradição; o político pode ter declarado algo para ter o voto dos eleitores, não necessariamente a estar de acordo com a posição política em questão, se revelando após ocupar o cargo, o que seria um “estelionato eleitoral” ou o político tinha uma concepção alinhada ou próxima com a dos eleitores, mas decidiu ir por outro caminho em meio a conveniência em favor de seu plano de poder, onde fidelidade e coerência não são valores intocáveis, garantidos. Então, a premissa errada envolve a crença na honestidade do político, seja mais pelo fator da ilusão com a autenticidade, no primeiro caso, ou no entendimento equivocado sobre sua índole para com a lealdade perante os que o apoiaram como eleitores, no segundo.

19/01/2022 19h45

Bertrand de Jouvenel

Mesmo que não seja admitida a possibilidade de o patriarcado ter sido uma instituição primitiva, sua ascensão é facilmente explicada em termos de guerra. Concordaram que, por razões naturais (na medida em que a parte do pai na procriação dos filhos não era inicialmente compreendida), o filho era propriedade universal dos membros masculinos da família da mãe. Mas não há família materna com a qual os guerreiros vitoriosos, voltando de um combate com um bando de mulheres, tenham contas a acertar. Os filhos serão os deles, e a sua multiplicação lhes trará riqueza e força. E aqui está a explicação da passagem da família avuncular (tios) para a paterna.”

Tradução livre.

Obra: ON POWER: The Natural History of Its Growth, edição em inglês da Liberty Fund, 2020. De Bertrand de Jouvenel des Ursins (França/Paris, 1903-1987). Citação de “War Gives Birth to the Patriarchate”, tratando sobre surgimento do patriarcalismo no contexto de guerras de conquista, se sobrepondo à relação familiar avuncular. O autor é um realista que destrincha a natureza do poder e a tendência de aumentar continuamente. Jouvenel também discorre sobre como a democracia não conseguiu impedir o aumento deliberado do poder político assim como a sofisticação de seu exercício popular pelas elites.

18/01/2022 22h35

Imagem: ENGEPLUS

Eduardo Bueno

“[…] eram chamados de ‘brasileiros’ aqueles que traficavam o ‘pau de tinta’. Se prevalecessem as regras gramaticais, os nativos do Brasil deveriam se chamar brasilienses.”

Obra: Brasil, Uma História. Editora Leya, 2013, no Kindle. De Eduardo Bueno (Brasil/Rio Grande do Sul/Porto Alegre, 1958).

Brasil, Uma História é uma imperdível obra do historiador gaúcho, que se notabiliza em seu canal do YouTube sobre o que “‘não vai cair no Enem’ (uma provocação ao deplorável estado do ensino no Brasil) assim como por irritar petistas e bolsonaristas com as lições da história.

Em um estádio lotado escuto um canto Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor… E eis que mergulho no século XVI para ver como o significado das palavras muda de forma radical, onde “brasileiro” à época era sinônimo de europeu contrabandista de pau-brasil, hoje é um gentílico mal empregado, a considerar normas gramaticais. Se alguém quisesse depreciar algum negociante de “pau-brasil” na Europa do século XVI, era só dizer “ah, fulano é um brasileiro” que, a princípio, não tinha relação com pessoa nascida no que hoje chamamos de “Brasil” e que passou por diversos nomes como colônia de Portugal: Pindorama (indígena), Ilha de Vera Cruz (1500), Terra Nova (1501), Terra dos Papagaios (1501), Terra de Vera Cruz (1503), Terra de Santa Cruz (1503), Terra de Santa Cruz do Brasil (1505), Terra do Brasil (1505) e Brasil (a partir de 1527).

No capítulo Terra da Bem-Aventurança, o autor discorre sobre diversas interpretações acerca das origens do nome “Brasil”, em meio ao mito de uma antiga ilha chamada “Hy Brazil”, palco de uma lenda celta do século IX, e do termo “brasileiro” que foi inicialmente associado a marinheiros, na então terra descoberta do outro lado do Atlântico, que traficavam para a Europa a madeira rubra, chamada no vulgo de “pau-brasil”, usada para colorir tecidos.

Detalhes sobre a escravidão, a maior chaga da história do país, a vida cheia de conflitos, tramas e debilidades dos imperadores no “Brasil independente”, as aventuras sexuais de D. Pedro I, o bon vivant então príncipe mulherengo e deplorável que se casou com uma mulher culta e honradíssima, Maria Leopoldina, e que acabou morrendo em meio ao desgosto com as traições do marido, passando pelas raízes dos vícios de compadrio no poder político que assolam o país até hoje, a discorrer as crises políticas que foram maiores que qualquer crise recente que enfrentamos, os movimentos de pesquisa que ocorreram pela diversidade biológica do país, entre vários acontecimentos muito bem contados por este brilhante e espirituoso historiador.

17/01/2022 13h39

Sócrates

“Mas, entre as muitas mentiras que divulgaram, uma, acima de todas, eu admiro: aquela pela qual disseram que deveis ter cuidado para não serdes enganados por mim, como homem hábil no falar […] Contudo, por Zeus, não ouvireis, por certo, cidadãos atenienses, discursos enfeitados de locuções e de palavras, ou adornados como os deles, mas coisas ditas simplesmente com as palavras que me vieram à boca; pois estou certo de que é justo o que eu digo, e nenhum de vós espera outra coisa. […] só prestai atenção a isso: se o que digo é justo ou não: essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador – dizer a verdade.”

Obra: Apologia de Sócrates, primeira parte; evocada pelo discípulo Platão (Atenas, 428/427 – 348/347 a.C), edição em português, em formato físico, da Martin Claret.

Início da auto defesa de Sócrates (Alópece, 469 – 399 a.C) que nada escrito deixou, perante a Assembleia de Atenas, sob acusações de “tornar mais forte a razão mais débil” e de “corromper a juventude”.

Teria sido o filósofo vítima do que hoje chamados de “fake news”?

16/01/2022 12h53

Milan Kundera

“O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os movimentos políticos. […] No reino do kitsch totalitário, as respostas são dadas de antemão e excluem qualquer pergunta nova. Daí decorre que o verdadeiro adversário do kitsch totalitário é o homem que interroga. […]

Obra: A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera (República Tcheca/Brun, 1929), edição em português, em formato físico, da Companhia de Bolso.

O autor viveu sob o totalitarismo de regimes socialistas do leste europeu no século passado. As personagens retratam experiências que revelam análises provocantes sobre fenômenos políticos. É um romance que aborda temas com toque existencial sobre escolhas, relacionamentos, interferências do acaso e opressão, de rara e precisa conexão com fatos históricos.

15/01/2022 23h16

Imagem: RAI Cultura

Indro Montanelli

“[…] sua verdadeira indústria era a política, que oferece, para lucros, atalhos muito mais rápidos do que o trabalho verdadeiro.”

Tradução livre.

Obra: Historia de Roma. XXXIX (Su capitalismo). Edição em espanhol. Peguin Rabdom House Grupo Editorial, 2014, Barcelona, eBook Kindle. De Indro Montanelli (Italia/Fuccechio, 1909-2001).

Indro Montanelli foi um ícone do jornalismo italiano. Também se notabilizou por suas obras de história.

Como se dava o mundo dos negócios entre políticos e empresários na capital do antigo Império Romano, há cerca de dois mil anos? Capitalismo de laços, o velho produto da política “que oferece, para lucros, atalhos muito mais rápidos do que o trabalho verdadeiro”.

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3 Replies to “Uma leitura ao dia (jan/22)”

  1. Sempre que acesso seu blog percebo alguma novidade e esta aqui foi demais. O pensamento da Ayn Rand foi o mais provocante. Parabéns!

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