Uma leitura ao dia segue com recomendações, notas e releituras a apreciar On The Nature Of Daylight, composição de Max Richter (Alemanha/Hamelin, 1966).

30/06/2022 23h08

Imagem: PSDB

Fernando Henrique Cardoso

Imagem: AS/COA

Brian Winter

“Naturalmente, quase todo mundo detestou. Da esquerda à direita, dentro e fora do Brasil, foi uma tempestade de críticas e zombaria. ‘Nosso gentil, encantador e inteligente ministro não resiste à tentação de transformar todo mundo num igual’, provocou o senador conservador Roberto Campos. Lula ficou indignado, declarando que o plano serviria apenas ‘para gerar mais miséria’. Celso Martone, um economista ortodoxo, considerou o Plano Real ‘mais um melancólico exemplo da fraqueza e da falta de imaginação que caracterizam os ministros da Fazenda”. Antônio Carlos Magalhães, poderoso governador de direita do Nordeste, exortou-me a ser “mais agressivo e menos conciliador”. Em janeiro de 1994, o jornal Folha de S. Paulo saiu-se um dia com a seguinte manchete: ‘FMI e Banco Mundial veem poucas chances de sucesso para o plano.'”

Obra: O improvável presidente do Brasil. Capítulo 9, Um presidente real. Edição da Civilização Brasileira, 2015, São Paulo. De Fernando Henrique Cardoso (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1931), com Brian Winter (EUA).

Mais uma leitura de tempos pandêmicos, 2021. Obra originalmente escrita em inglês, com o prefácio do ex-presidente americano Bill Clinton e tradução de Clóvis Marques. The Accidental President of Brazil foi produzida em coautoria com o analista americano de política na América Latina, Brian Winter.

Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi, à mon avis, o mais importante presidente do Brasil até o momento. E isso não significa uma admiração pessoal. FHC, como todo político, e enquanto nesta condição, tem o meu desprezo. No entanto, isso não me impede de reconhecer que ele foi o mais importante presidente da República porque capitaneou politicamente um plano econômico que superou um trauma histórico nacional: a hiperinflação.

Enquanto intelectual, considero FHC um dos mais admiráveis do Brasil. Uma coisa marcante na vida do sociólogo que virou presidente (ele menciona na obra) é que acabou sendo o tradutor durante a passagem no Brasil de um filósofo francês cujo pensamento também me fascina: Jean-Paul Sartre (France/Paris, 1905-1980).

No trecho, “quase todo mundo detestou”, FHC se refere ao Plano Real quando foi apresentado à sociedade. Lembro-me que o então candidato à presidente, derrotado pela segunda vez, Lula da Silva, assim como o Partido dos Trabalhadores, foram os principais opositores do Plano desde o início até sua consolidação. O PT não tem o calibre de promover reformas estruturais e a reação bestial de seus líderes apenas seguiu um padrão de um partido de pensamento econômico pobre, débil, que, por ironia do destino, foi beneficiado nove anos adiante quando o então presidente eleito Lula, embora tenha assumido em um contexto de crise fiscal e cambial por um problema de ajustes no Plano Real, onde o então presidente Lula teve que adotar, em 2003, políticas neoliberais, inclusive colocando Henrique Meireles no Banco Central. O governo do petista recebeu um país sem o traumatizante legado da hiperinflação e com um dispositivo de reforma importante: a Lei de Responsabilidade Fiscal, que faz parte de um dos pilares do Plano Real; a necessidade de um constante e rígido controle fiscal para impedir déficits, sobretudo em estados e municípios, uma das fontes da inflação (pela expansão monetária derivada do efeito de se gastar mais do que se arrecada). O primeiro governo Lula (2003-2006), ao seguir a cartilha de FHC, conseguiu manter a essência do Plano Real e uma importante relativa estabilidade da moeda.

O Plano Real foi traçado por profissionais do calibre de Edmar Bacha, André Lara Resende, Pérsio Arida, Gustavo Franco, Pedro Malan, Winston Fritsch, entre outros. Lá pelos idos de 1994 eu tinha 19 anos, tempo marcante em minha vida porque estava na faculdade de economia, decisão tomada em detrimento da graduação em Contabilidade, que seria um caminho natural dado o meu envolvimento com esta ciência desde os tempos de adolescente (14-15 anos) quando ficava com a minha mãe conferindo balanços e outras demonstrações contábeis da empresa onde ela trabalhava. Neste tempo, descobri e me fascinei com a sequência do “débito, crédito e saldo”.

No entanto, desde os 14 anos outra questão me fascinava quando ia ao supermercado com a minha mãe e achava incrível toda aquela algazarra com os preços que não paravam de subir. E aos 19 anos anos, enquanto me graduava em economia, veio o Plano Real e a Unidade Real de Valor (URV), o preâmbulo da nova moeda que entraria em circulação em julho, o Real (BRL). Como já tinha o sistema de folha de pagamento, estudei mais a fundo o funcionamento da URV e a transição para a moeda Real, visando tornar o sistema compatível com o índice que serviu de preparação no primeiro semestre daquele ano, onde valores eram expressos em URV com a moeda circulante à época, o Cruzeiro Real (CR$).

O Plano Real tinha três principais elementos: a nova moeda com um câmbio mantido pelo Banco Central em uma faixa estável perante o dólar americano; além do ajuste fiscal com cortes orçamentários (pois os déficits monstruosos eram uma das causas da inflação) e o Plano Real transferia a FHC mais poder de intervenção para corte de gastos e, por último, o mecanismo da URV como medida de disseminação de consciência de valor para combater vícios da indexação na população. Neste aspecto, os preços eram em CR$ e em URV, e tive que ajustar os sistemas que desenvolvia nos meses que precederam a estreia da moeda Real (R$) em julho daquele ano.

E o plano foi recebido com amplo descrédito; complexo, engenhoso, bem diferente do que se tinha tentado nos anos 1980, com os grotescos tabelamentos de preços e o desastroso confisco da poupança, pelo governo anterior (Collor). O Plano Real deu certo porque tratou de uma causa causante da inflação (os déficits que os governos provocam) para conter o crônico problema denotado em apurações de dois, três e até quatro dígitos que marcou minha infância, adolescência e início de juventude.

29/06/2022 00h18

Imagem: casamariodeandrade.org.br

Mário de Andrade

“Era junho e o tempo estava inteiramente frio. A macumba se rezava lá no Mangue no zungu da tia Ciata, feiticeira como não tinha outra, mãe de santo famanada e cantadeira ao violão. Às vinte horas Macunaíma chegou na biboca levando debaixo do braço o garrafão de pinga obrigatório. Já tinha muita gente lá, gente direita, gente pobre, advogados garçons pedreiros meias-colheres deputados gatunos, todas essas gentes e a função ia principiando. Macunaíma tirou os sapatos e as meias como os outros e enfiou no pescoço a milonga feita de cera de vespa tatucaba e raiz seca de açacu. Entrou na sala cheia e afastando a mosquitada foi de quatro saudar a candomblezeira imóvel sentada na tripeça, não falando um isto. Tia Ciata era uma negra velha com um século no sofrimento, javevó e galguincha com a cabeleira branca esparramada feito luz em torno da cabeça pequetita. Ninguém mais não enxergava olhos nela, era só ossos duma compridez já sonolenta pendependendo pro chão de terra.”

Obra: Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. VII Macumba. Montecristo Editora, versão EPUB, 2021. eBook Kindle. De Mário Raul de Morais Andrade (Brasil/São Paulo/São Paulo, 1893-1945).

Obra prima, um dos romances mais importantes da literatura brasileira.

Lá pelos idos de 1991, no segundo grau, na primeira leitura completa, o autor conseguiu me manter ligado ao texto, não pelo professor de português e literatura, que esperava um resumo, e sim por conta de seu estilo intenso, a indicar que tinha profundo conhecimento de crenças e costumes; a obra, como sintetiza o polímata, é “uma antologia do folclore brasileiro”.

Sendo tão envolvente, arrojada e, sobretudo, poderosa como um compêndio de crenças e tradições do povo, rapsódia, Macunaíma é peça monumental para quem deseja entender melhor o jeito de ser brasileiro a partir de suas raízes e peculiaridades que nos tornam bem distintos, concomitantemente plurais, embora seja também um reflexo, por essa vasta teia de etnias, de um sofrimento diante do que predominou na colonização, a marginalização por aqueles que se portavam como mais “civilizados”, o que dá um certo tom de tristeza, entonado a um fundo em que a pobreza material, as carências, os sentimentos, formam um caldeirão onde o autor constrói uma história muito sofisticada, só possível pela intelectualidade e às pesquisas que realizou.

Macunaíma, um marco pela forma “subversiva” como foi elaborada. A obra se mistura, em sua ousada formatação, com a identidade popular no imenso e complexo bojo da complexa cultura brasileira, e desta forma rompe com o padrão europeu, que até então era a regra na produção literária.

28/06/2022 00h20

Imagem: PGL

Erasmo de Roterdã

“Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará intolerável ao homem. como também, toda vez que olhar para dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de ser o que é, de se achar aos próprios olhos imundo e disforme, e, por conseguinte, de odiar a si mesmo.”

Obra: Elogio da loucura. Declaração de Erasmo de Roterdã. Edição da Martin Claret, 2002, São Paulo, formato físico. De Desidério Erasmo de Roterdã (Holanda/Roterdã, 1466-1536).

Leitura dos tempos de seminarista, em 2004, em uma noite de inverno com risadas do começo ao fim, dada a erudição e o apurado senso de humor do filósofo e teólogo reformador holandês.

Erasmo de Roterdã deve ter sido uma figura…

Erasmo de Roterdã.

Ora, ora, o que seria deste mundo sem essa moça tão desvairada a contagiar corações? Ainda que os homens tenham o hábito de manchar a sua reputação, sem ela a alegria dos mortais e dos deuses não daria o ar da graça em meio aos conflitos e dilemas existenciais. Se bem que, ao ficar exagerada, ela inspira seus amantes a dizerem tudo o que vem à boca, pois o que se passa pela mente é fugaz, sobretudo nos momentos em que seus súditos se reúnem só no intuito de nada fazer de proveitoso, coisa mais conhecida como “jogar conversa fora” a provocar constrangimentos e risadas, das contidas em pensamentos (que são as mais hilárias) às incontroláveis…

Quantos amores seriam impossíveis sem o toque de sua insólita presença entre nós, pobres mortais entre a razão e a intuição, tão vulneráveis aos sentimentos? Graças a essa indolente dona que a paz doméstica pode se estabelecer quando a esposa, por exemplo, descobre o marido que tem, e vice-versa, nos defeitos de cada dia que só a convivência pode revelar.

Até nas Escrituras ela tem seu momento de grandeza, senão vejamos, pois estaria enganado São Paulo ao afirmar que “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias“? [72]

Sem essa levada menininha não haveria a besteira de 22 indivíduos correndo atrás de uma bola, enaltecidos por milhares lotando arquibancadas, se estressando por lazer, e milhões diante de uma tela a fazer o mesmo, e isso fica ainda mais com o jeito dela quando é em escala global (mais conhecido como “Copa do Mundo”) para no dia seguinte gastarem relativo tempo discutindo tal coisa como se fora séria.

O mesmo se pode dizer de quem sai pelo mundo a fazer o bem sem esperar nada em troca, contrariando a prima rica dela deveras orgulhosa, a chamada “razão”.

A vida humana é comédia, diz o icônico reformador holandês, e não tem nada mais sem graça que um sábio, que em geral só tem conversa de gente adulta para oferecer, muitas vezes melancólico por cortejar a senhora distinta e sem muito senso de humor, a verdade, em uma festa onde indivíduos devotados a essa graciosa mocinha gostam de se manifestar. Sem ela, não haveria quem risse dos próprios defeitos ou da falta de sorte, muito menos das gafes, preferindo assim adular a si mesmo, coisa mais conhecida como “auto estima”. Alguns gostam de chamar tal louvor ao próprio ego de “amor próprio”, fato é que ela está no tempero da sociedade, pois se cada um olhasse para o que realmente é (e o espelho é só uma sombra), haveria uma epidemia de caos interior em infinitos choques de realidade.

72. I Coríntios 1:27-29

27/06/2022 00h26

Imagem: BBC

Benito Mussolini

“Nós devemos, em primeiro lugar, a Marx, a passagem do socialismo filantrópico cristão para o socialismo científico. Na primeira metade do século passado, o espetáculo da miséria e da degradação dos trabalhadores comoveu muitos filantropos de todas as escolas. Nasceu desse impulso humanitário um tipo de socialismo cristão do qual Kingsley na Inglaterra, Lamennais na França. Estranha mistura de ingenuidade infantil e bizarras reconstruções sociais baseadas na virtude pregada e praticada, esse socialismo não apelava aos oprimidos, mas aos dominadores para convencê-los a renunciarem às suas riquezas pelo bem comum e acreditava-se que seria atingido esse objetivo com uma obstinada pregação da doutrina evangélica.”

Tradução livre.

Obra: Il mio socialismo. Da La Lima, N. 10, 14 marzo 1908. Pubblicato anche su La Lotta di Classe, N. 10, 12 marzo 1910. Edição de Independently published Italia, 2020, eBook Kindle. De Benito Amilcare Andrea Mussolini (Italia/Predappio, 1883-1945).

Leitura de 2020, em noites de tempo pandêmico. O meu socialismo é uma coletânea de textos de Benito Mussolini na época em que ele atuava como um dos principais articuladores do Partido Socialista Italiano (PSI). É o Mussolini em suas raízes marxistas antes da Primeira Guerra Mundial (1914) e, obviamente, antes de romper com o PSI após divergência com a liderança em relação ao entendimento sobre o papel da Itália no conflito mundial. Mussolini tinha dedicado quase metade de sua vida [70] ao Partido Socialista e em meio a insultos, saiu com o rótulo de “traidor” para ser um dos principais mentores do que viria a ser o fascismo como movimento, organizado no pós-Guerra, em 1919 na Piazza San Sepolcro em Milão, “com o apoio das lojas maçônicas daquela cidade” [71].

Pude verificar nesta obra o quanto Mussolini foi um militante devotado ao marxismo, assim como a sua relevância no socialismo italiano. No trecho, o socialista Mussolini faz uma distinção clara entre o socialismo baseado em Marx, dito “científico” e o que entendeu por “socialismo filantrópico” entre cristãos, que na verdade se baseia na caridade. A diferença está no caráter coercitivo do socialismo a partir dos manuscritos de Marx, e na proposta de voluntarismo da caridade cristã.

Consistente separação, mas é comum ver como socialistas promovem (seria por desconhecimento/falta de discernimento ou proposital?) confusão entre o socialismo, enquanto movimento político de coerção estatal (derivado de visões marxistas que se vinculam ao aparato estatal para políticas públicas) e a doutrina social da Igreja. Também há quem acredite ou especule que Jesus foi socialista ou comunista (esta segunda confusão é um aprofundamento da primeira), em concepções marxistas, o que ignora totalmente o teor dos ditos canônicos evangélicos, fortemente marcados por apelos ao coração, em um teor claramente voluntarista. A “teologia de libertação,” quando apela a mesma visão política de teor coercitivo (de raiz marxista), como se fosse doutrina social cristã, também promove essa mesma confusão.

70. Ver página 48 de Il primo fascista, de Hans Woller, pela Carocci editore, 2018.

71. Ver página 32 de O fascismo eterno. Editora La Nave di Teseo, Milão, 2018, no Kindle

26/06/2022 00h24

Imagem: EBC

Manuel Bandeira

Vou-me embora pr’a Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pr’a Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pr’a Pasárgada.

Obra: Vou-me embora pr’a Pasa’rgada. Antologia da moderna poesia brasileira. Revista Acadêmica, 1939, formato digital. De Manuel Bandeira (Brasil/Pernambuco/Recife, 1886-1968).

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho tudo o que quero
No negócio que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Cansei de ser bucha de canhão.
Vou pra praia,
Darei cambalhotas,
Montarei num tubarão,
Venderei meus quitutes,
Sem multa, nem intimação.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá foi extinto o débito,
Só existe o crédito.
Pasárgada é outra civilização!
Fatura nunca vence,
Ilimitado é o meu cartão.

Que maravilha!
Lá todos nascem velhos,
Com o vigor jovial!
O tempo não passa,
Prazo não há,
Pasárgada é sensacional!
Não se marca hora,
Relógio lá só pra decoração,
E de ouro, pra ostentação!

Ninguém tem compromisso,
E todos se encontram,
Não é preciso pressa,
Não existe agenda.
Em Pasárgada tudo se aconchega.
Avião decola,
Navio zarpa,
Trem deixa a estação,
Só quando o último passageiro chega.

Lá exterminaram o imposto,
Revogaram a burocracia,
Advogados foram banidos,
Porque rixas não mais existem!
Livros estão em toda parte,
Conversas só em poesia
Toda forma de amor lá é arte!
E o melhor de Pasárgada é
Que acabaram com a CLT,
Lá não tem bolsonarista,
Nem PT!

Vou-me embora pra Pasárgada!

Leonardo Amorim, 25/06/2022 22h12

25/06/2022 00h40

Imagem: Tribuna Alentejo

Florbela Espanca

“Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,

Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida de um lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma,
Ninguém as vê cair dentro de mim!”

Obra: Lágrimas Ocultas. Poemas Selecionados – Florbela Espanca. Domínio público. Ciberfil Literatura Digital, 2002. De Flor Bela Lobo (Reino de Portugal/Alentejo/Vila Viçosa, 1894-1930).

Soneto com todos as estrofes em rimas externas, inicialmente publicado no Livro de Mágoas, primeira obra editada (1919) da grande poetisa portuguesa que passou a se autonomear como Florbela d’Alma da Conceição Espanca que, segundo espólio da Biblioteca Nacional de Portugal:

“[…] baptizada com o nome de Flor Bela Lobo, cedo opta por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca, forma peculiar de juntar o nome da mãe, Antónia da Conceição Lobo, ao do pai, João Maria Espanca.” [69]

No segundo verso, supressão de sílaba em “querida” na métrica mantida em harmonia com os demais. Passado e presente em contraste simbolista. Florbela Espanca tem um forte tom existencial. O rir das primaveras, como um flashback de tempos de alegria, prazer, realizações afetivas, pois revela “que era querida”. A passar pelo saudosismo, percebe o vago de um momento em forte contraste, como se fora um choque de realidade e eis que cai em um “abandono de esquecida”. Uma profunda tristeza pela experiência do que se teve por momentos de alegria; opostos em dialética.

O poema retrata um eu melancólico por lembranças; a refletir o que vivenciou. E eis que neste estado pensativo mais elevado, passa então a se ver dilacerado, cujo pranto desliza fria e serenamente em um sofrer na alma cuja tristeza ninguém pode ver. É um momento de contrição, isolamento, solidão e distanciamento a ponto de se enxergar em uma experiência à parte, desconectada de toda uma trajetória de vida; “parece-me que foi numa outra vida”

69. Colecção Florbela Espanca, O Espólio. Biblioteca Nacional.

24/06/2022 13h50

Imagem: Forrówelt

Luiz Gonzaga

Imagem: composal.zebrandao

José Fernandes (Peterpan) [68]

“Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava assim em festa
Porque era noite de São João

Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar
Que incendiou meu coração
.”

Obra: Olha pro Céu (1951). Compacto Propriá/Olha pro Céu, Gravadora Victor Talking Machine Company (RCA). Relançado em 1990 no álbum CD Olha pro Céu por RCA/BMG. De Luiz Gonzaga do Nascimento (Brasil/Pernambuco/Exu, 1912-1989) e José Fernandes de Paula (Brasil/Alagoas/Maceió, 1911-1983) [68].

Belo poema musicado originalmente em 1951 na parceria de Luiz Gonzaga com José Fernandes [68].

Na Fazenda Caiçara, há 603 km do Recife, em divisa de Pernambuco com o Ceará, nasceu filho de Januário José dos Santos, homem da roça, enquanto tocador e reparador de sanfonas, que tinha um negócio como animador de bailes. Sua mãe, brava mulher do sertão, Ana Batista de Jesus (Santana), não queria o menino envolvido com o outro negócio (musical) do pai ao perceber o interesse dele pela sanfona. Entre um primeiro amor frustrado para uma (quase) tragédia familiar, aquele menino trilhou um longo, traumático, às vezes insólito, caminho ao deixar sua terra natal até se tornar o maior ícone da cultura nordestina de todos os tempos.

O menino que deixou Exu era apreciado no Rio de Janeiro como o sanfoneiro, cantor e compositor Luiz Gonzaga, e eis que resolveu inovar: dois anos após a publicação de Olha pro Céu, adotou, como acompanhamento da emblemática sanfona branca, o traje sertanejo em seus concertos; chapéu (em alusão ao cangaço, cuja maior figura foi Virgulino Ferreira, vugo Lampião), gibão e outros acessórios da indumentária típica do vaqueiro. A estética de Luiz Gonzaga, do sertanejo em indumentárias com a sanfona, amalgamado no carisma da arte musical, refletiu a sensibilidade mediante sentimentos e valores de uma terra muitas vezes esquecida, quando não ridicularizada no “sul maravilha”.

Um dos mais populares artistas, quase em meados dos anos 1950, com projeção nacional, adotou uma estética como um divisor de águas; do cantor e compositor popular que subiu até os degraus onde apenas os gênios podem ficar; tornou-se uma síntese poderosa de uma cultura enraizada na formação do povo brasileiro, transformou-se em lenda, alcançou o universo do mito, e, certamente, à mon avis, por isso, Luiz Gonzaga foi o artista brasileiro mais importante do século XX.

Sobre a coautoria do “Peterpan”, em História de Alagoas se menciona que “há controvérsia sobre se o José Fernandes que assina a letra da música é o mesmo Peterpan. Há pesquisadores que identificam o parceiro de Luiz Gonzaga como sendo José Fernandes de Carvalho”. [68]

68. Ver Peterpan, o compositor alagoano que deu ritmo aos antigos carnavais

23/06/2022 19h00

Imagem: Museu da Língua Portuguesa

Gilberto Freyre

“Aquelles momentos de confraternisação entre os extremos sociaes, a que nos referimos – a procissão, a festa de igreja, o entrudo – e que foram fazendo das ruas e praças mais largas – da rua em geral – zonas de confraternisação. Marcaram um prestigio novo no nosso systema de relações sociaes: o prestigio da rua.

A partir dos principias do seculo XIX, a rua foi deixando de ser o escoadouro das aguas servidas dos sobrados, por onde o pé bem calçado do burguês tinha de .andar ·com geito sinão se emporcalhava todo, para ganhar em dignidade e em importancia social. De noite, foi deixando de ser o corredor escuro que os particulares atravessavam com um escravo na frente, de lanterna na mão, para ir- sé illuminando a lampeão de azeite de peixe suspenso por correntes de postes altos e tristonhos. Os principias de illuminação publica. Os primeiros brilhos de dignidade da rua, outrora tão subalterna que era preciso que a luz das casas particulares e dos nichos dos santos a illuminasse pela mão dos negros escravos ou pela piedade dos devotos.”

Obra: Sobrados e Mucambos. Decadencia do Patriarchado Rural no Brasil. Prefácio. Companhia Editora Nacional, Bibliotheca Pedagogica Brasileiro, 1936, São Paulo, formato digital. De Gilberto de Mello Freyre (Brasil/Pernambuco/Recife, 1900-1987).

Edição de 1936 com o vocabulário à época, o que me estimulou ainda mais à releitura.

Primeiro contato com esta obra em 1996 na faculdade de economia. Um clássico de sociologia a dar sequência a obra-prima Casa-Grande & Senzala, marcada pela inovação do mestre de Apipucos em considerar anúncios de jornais, livros de receitas (culinária) e anotações diversas como fontes de suas pesquisas.

No trecho do prefácio, mudanças de um cenário rural demarcado pela casa grande e pela senzala para um aspecto urbano onde “os senhores dos sobrados e os negros libertos, ou fugidos, dos mucambos, foram se tornando extremos antagonicos”. A coletivização de espaços foi se tornando densa pelo “prestigio da rua” em meio aos “extremos sociaes” que se encontravam por elos da procissão, da festa da igreja, pelo entrudo, brincadeira de rua mais típica no século XIX, que precipitou as folias do carnaval, onde participantes jogavam farinha, baldes de águas, entre outras coisas, uns nos outros. O “pão e circo” viriam depois dessa aproximação que, a priori se bastou ao segundo termo de uma combinação que se tornou peculiar na formação brasileira.

E a rua, a praça, a festa de igreja, o mercado, a escola, o carnaval, todas essas facilidades de communicação entre as classes e de cruzamento entre as raças,· foram attenuando os antagonismos de classe e de raça e formando uma media, um meio-termo, uma contemporisação mais verdadeiramente brasileira de estylos de vida, de padrões de cultura e de expressão physica e psychologica de povo.” (p. 21).

Sobrados e Mucambos é leitura obrigatória para quem deseja entender melhor as bases que formaram as desigualdades sociais e o jeito de ser brasileiro, em meio ao patriarcalismo se adaptando às novas circunstâncias das interações sociais e de uma economia não mais tingida pela escravatura.

22/06/2022 23h30

Imagem: University of Cambridge

Richard Duncan-Jones

“A abertura do reino de Trajano viu a propagação na Itália de um sistema de governo alimenta ou pagamentos de subsistência que, talvez, foi iniciado por seu predecessor, Nerva. Seu propósito imediato foi claramente para suporte de crianças em pequenas cidades do interior da Itália em que o regime principalmente se concentrava . Por menino era pago 16 sestércios, e por menina, 12 sestércios. Pagamento a filho ilegítimo era um pouco menor para ambos os sexos.”

Tradução livre.

Obra: The Purpose and Organisation of the Alimenta. Papers of the British School at Rome, Vol. 32 (1964), pp. 123-146 (24 pages). Publicado por British School at Rome. Edição online. De Richard Phare Duncan-Jones (Reino Unido, 1937).

Interessante paper do PhD Richard Duncan-Jones (Cambridge) sobre o programa Alimenta (“alimentos” no latim) do Império Romano que foi um modelo de bolsa por criança. De formas mais rudimentares, passando ao modelo supervisionado pelo cônsul e senador Caio Cornélio Galicano, alcançando o curto tempo do imperador Nerva (96-98) até chegar no imperador Trajano (98-117), o programa se tornou, aparentemente, mais intenso. Uma agencia governamental do Império Romano fixava o total de crianças beneficiárias a serem suportadas para uma determinada cidade. Foi um benefício social “ancestral” do Bolsa-Família brasileiro.

Roma cresceu na base do militarismo e do utilitarismo, então, um menino saudável significava potencial recurso, como soldado, entre aplicações para o meio produtivo. A expansão imperialista se deu em guerras de conquista como uma “atividade econômica”, o que ajuda a explicar o maior valor dotado para beneficiário do sexo masculino.

O programa Alimenta funcionou em uma combinação de bolsa com uma intenção de incrementar um aumento na taxa de natalidade e incentivar a produção agrícola mediante empréstimos do Império a donos de terras produtivas. Os juros recebidos pelo erário eram então direcionados para bancar o pagamento dos beneficiários do programa social. Neste aspecto, cabe considerar que os detentores das propriedades agrícolas envolvidas tinham isenção tributária.. O sistema do Império Romano foi mais engenhoso em comparação com o Bolsa-Família brasileiro, que é um programa de distribuição direta de recursos advindos de impostos e não de juros. No modelo romano havia relativa proteção, aos dependentes do programa, de eventuais suspensões de pagamentos em anos de ocorrência de déficit do tesouro.

21/06/2022 21h00

Imagem: AMP

Neury José Botega

“A lente da depressão aumenta o tamanho dos problemas e faz que só enxerguemos defeitos e dificuldades, nenhuma luz. […]

A depressão sempre existiu, não é doença de moda. Estudos populacionais confirmam que a frequência da doença aumentou, sobretudo em jovens. Já o conceito de estresse se originou da física, relacionada à pressão a qual um corpo é submetido.[…] A natureza da depressão é diferente do que se entende por estresse, ainda que possa se originar desse último e com ele se confundir. Para discriminar uma coisa da outra é necessária uma avaliação clínica cuidadosa.”

Obra: A tristeza transforma, a depressão paralisa: um guia para pacientes e familiares. Edição da Benvirá, 2018, São Paulo, formato físico. De Neury José Botega (Brasil, 1958) [66].

Neury José Botega é médico psiquiatra, professor e pesquisador com Pós-doutorado (1990-91) no Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres.

A experiência de leitura hoje é de minha esposa Luciana Amorim, psicóloga clínica [67]:

Ao contrário do que muita gente pensa, depressão não é fraqueza, frescura, nem falta de fé. É uma doença séria que precisa de compreensão e tratamento.

Sentir tristeza é natural e todos nós podemos sentir diante de situações estressoras e/ou desafiadoras que muitas vezes enfrentamos; mas que, gradativamente vamos superando. Essa tristeza é circunstancial e passageira; porém, se ela permanece ou é recorrente, às vezes sem motivo aparente, é bom ficarmos atentos, pois, podemos estar diante de um quadro de depressão, que é um dos transtornos mais vistos por profissionais de saúde mental.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5, a depressão tem como característica “a presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo”.

Ela interfere negativamente nos nossos pensamentos que refletem na perda do prazer de viver e na interação com as pessoas, causa grande sofrimento e pode até levar ao suicídio.

Infelizmente, por falta de informação, apoio, estigma social, preocupação com o sigilo, lado financeiro ou até mesmo as limitações que a própria depressão pode causar, muitas pessoas não procuram e nem recebem tratamento adequado.

O seu diagnóstico é clínico e existem recursos eficazes para o seu tratamento e manejo.

Se você está passando por isso, ou conhece alguém que esteja, busque ou auxilie a buscar a ajuda de um profissional de saúde mental.

66. Blog Neury J. Botega

67. Psicóloga clínica Luciana Amorim CRP/PE: 02/25747 Contato 81 3526.1811 / 81 9.9662.6633

20/06/2022 22h48

Imagem: Recanto do Poeta

Ariano Suassuna

“[…] Sou um escritor de poucos livros e de poucos leitores. Vivo extraviado em meu tempo por acreditar em valores que a maioria julga ultrapassados. Entre esses, o amor, a honra e a beleza que ilumina os difíceis caminhos da retidão, da superioridade moral, da elevação, da delicadeza, e não da vulgaridade dos sentimentos.

Não sei, portanto, que interesse haverá, principalmente para a juventude, numa história tão fora de moda quanto esta.[…]”

Obra: A história do amor de Fernando e Isaura. Advertência do autor. Edição da Nova Fronteira, 2019, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Ariano Vilar Suassuna (Brasil/Paraíba/Parahyba do Norte, atual João Pessoa., 1927-2014).

Foi por sugestão do amigo e artista plástico Francisco Brennand (Brasil/Pernambuco, 1927-2019), que Ariano Suassuna decidiu, em 1956, produzir uma versão brasileira do Romance de Tristão e Isolda. E que versão maravilhosa é A história do amor de Fernando e Isaura.

O trecho é de um comentário de Ariano na edição que disponho, assinado em 7 de outubro de 1994. Reflete seu espírito salutar de escritor, cuja índole é inspiradora pela fidelidade a princípios que externam o seu amor à cultura e à sua visão do significado da arte, livre de toxinas que geralmente acompanham as conveniências dos que a fazem um mero negócio.

Ariano para mim foi uma síntese emblemática do espírito popular com a intelectualidade, o que retrata a sofisticação do Movimento Armorial. E assim pode ser apreciada pela extrema qualidade esta que foi sua primeira prosa de ficção, quase 40 anos depois publicada. No meu caso foi irresistível a uma leitura fulminante. A adaptação retrata um cenário um tanto diverso do sertão, que marcou muitas de suas obras mais conhecidas. A versão de Ariano se dá nas Alagoas e combina um fundo predominantemente rural e litorâneo. Seguindo a essência da versão de Joseph Bédier, e com referências à de Afrânio Peixoto (1930, Tristão & Iseu) Ariano versa sobre a fatalidade de um amor proibido em um fundo moral riquíssimo no desenvolvimento de personagens.

A partir do momento em que esse amor proibido se evidencia, o drama de Fernando e Isaura ganha uma poderosa proporção na consciência sobre uma verdadeira experiência amorosa em circunstâncias trágicas, comoventes, e que suscitam o exame de consciência no confronto com o dever pelo que se tem por justo, íntegro; Fernando e Isaura vivem uma história de relação que se converte ao impossível, por valores nobres que os remetem ao problema da lealdade, e assim seguem atormentados em um caldeirão de sentimentos, que fazem transbordar uma melancolia por desejos contidos, de sonhos frustrados, de escrúpulos onde prevalece uma moralidade que decidem preservar.

Na força de um amor tão intenso, vão do arrependimento e da renúncia à perda do senso de lealdade que até então os envolvia; Fernando e Isaura subestimam os desejos e não resistem; são consumidos por conflitos e dilemas que os impedem de vivenciarem um amor de forma plena de maneira que, por ironia, mesmo tornando a relação realizável, seguem a um fim trágico.

19/06/2022 14h50

Imagem: Prêmio Nobel

Theodor Mommsen

“14. Oligarquia capitalista

Se examinarmos esses fatos como um todo, encontraremos como sinal característico da economia privada desta época, a oligarquia financeira dos capitalistas romanos sendo em nada inferior à oligarquia política. Nas mãos dos capitalistas romanos concentra-se a renda do solo de quase toda a Itália e das melhores partes do território da provincial, o produto da usura dos capitais pelos quais faziam monopólio, o ganho proveniente do comércio de todo o Estado e, finalmente, uma parte muito significativa das receitas do Estado na forma de lucros de aquisições.”

Tradução livre.

Obra: Storia di Roma. Undecimo capitolo, La Republica e la sua economia. Edição de Greenbook, 2020, Roma. De Christian Matthias Theodor Mommsen (Alemanha/Garding, 1817-1903).

Na Roma antiga, aproximadamente dois mil anos atrás, com oligarcas atrelados ao poder político, cada vez mais concentrado. Fascinante a forma de organizar os fatos históricos em tópicos nesta monumental obra de Theodor Mommsen, visto como um dos maiores historiadores, tocante à antiguidade, de todos os tempos.

Leitura importantíssima!

A oligarquia, obviamente, se fortaleceu ainda mais quando a república foi convertida em um império e o senado em uma marionete imperial entre compadres. E mais adiante se lê:

“Não é assim de se maravilhar se esta massa de capitais exerça uma prevalente influência sobre a política externa […] não menos se deve maravilhar se esta torre de babel financeira, não se erguendo sobre bases estritamente econômicas, mas sobre a superioridade política da força de Roma, em toda crise política treme e vacila quase como nossos edifícios em papel moeda.”.

Tradução livre.

Lembrei-me de Indro Montanelli sobre essa velha senhora, mestra raposa romana que combinou empresários com políticos e foi exemplo de escola do compadrio, ou de capitalismo de Estado, pelos séculos até nossos dias:

“[…] sua verdadeira indústria era a política, que oferece, para lucros, atalhos muito mais rápidos do que o trabalho verdadeiro.” [65]

Roma antiga Brasil ou EUA ou União Europeia ou Arábia Saudita ou Rússia ou China ou qualquer corporação estatal ocupada por empresários amigos do rei, em variados graus, com seus bancos centrais que hoje fabricam inflação, todos bem assessorados por economistas-burocratas-perversos-apertadores-de-botões? Por volta de 664 (referência de fundação do Estado romano ou 90 da era cristã), na obra se aborda uma crise financeira com falência do estado e dos meios privados, com medidas anticíclicas que empobreceram ainda mais as províncias em favor de privilegiados no centro do poder. Fuga de empresários para outras localidades não muito afetadas e mais crises econômicas que se desdobravam, com aumento forçado de circulação de argento (mais inflação) e mais crises de preços e de abastecimento. A derrocada do Império Romano foi gradual, lenta, combinando oligarcas e imperadores no capitalismo de laços em meio ao populismo monetário e a controles socializantes que emperravam ainda mais o meio produtivo. Alguma semelhança com nosso tempo e com crises do século XX? Não há nada de novo embaixo do céu…

Lembro-me também de um professor de história do pensamento econômico, de nítido viés marxista, e por isso preocupado em doutrinar alunos (fui um deles), a usar aquele velho roteiro do xará Huberman, em História da Riqueza do Homem, de passagens deterministas do “feudalismo para o capitalismo” e “do capitalismo ao…”, para em seguida aguardar a resposta pela “consciência crítica” de discentes que mais pareciam bezerrinhos no curral universitário da Pindorama formadora de “economistas”, como se o capitalismo fosse coisa pós medieval, muito além da antiguidade.

65. Historia de Roma, de Indro Montanelli (Italia/Fuccechio, 1909-2001), foi jornalista e historiador; edição em espanhol, no Kindle.

18/06/2022 11h56

Imagem: ES Brasil

Roberto Shinyashiki

“Criamos uma confiança equivocada e perdemos a oportunidade de repensar nossas experiências. Ficamos presos a velhos hábitos que nos levaram ao sucesso e perdemos a oportunidade de evoluir. É por isso que os japoneses dizem que na garupa do sucesso vem sempre o fracasso. Os dois estão tão próximos que a arrogância pelo sucesso pode levar à displicência que conduz ao fracasso.

Os donos do futuro sabem reconhecer essas transformações e fazer as mudanças necessárias para acompanhar a nova situação.”

Obra: Os donos do futuro. Os donos do futuro sabem mudar. Editora Infinito, 2000, São Paulo, formato físico. De Roberto Tadeu Shinyashiki (Brasil/São Paulo/Santos, 1952).

Leitura que marcou o tempo em que me mudei para Vitória de Santo Antão, em 2005. Entendi que minha vida poderia ser bem melhor saindo do Recife, atendendo, na época, 30 clientes quando cheguei a estudar em três faculdades ao mesmo tempo. Nascido e criado no Recife, dos 29 aos 31 anos de idade resolvi dar um basta naquela insana correria. Lembro-me que ao comprar um terreno e começar, em 2003, a construir na cidade em que nasceu Osman Lins, algumas pessoas ficaram surpresas e foi no contexto da leitura deste livro que entendi a necessidade da mudança. Quase 17 anos se passaram e percebo que foi uma decisão feliz; trabalho bastante, o desgaste diminuiu e a produtividade cresceu; quando comparei o Leonardo de 2005 com o de 2022, percebi que mais que dobrou a carteira de clientes, tenho meu simples cantinho no segundo andar da Anchieta para programar, estudar, ler, meditar e levo uma vida bem mais estável, sem as preocupações peculiares de quem vive em grandes centros urbanos; por aqui estou a resolver quase tudo a pé (comparando com os tempos de Recife, pouco utilizo o carro) em uma cidade que ainda consegue ter traços de interior (que admiro muito e desejo que conserve ao máximo) e com a vantagem de estar a 50 minutos do Recife. Vitorienses, por favor, olhem para o Recife como um modelo sobre o que NÃO deve ser feito em termos de vida urbana.

Tornando ao livro, o médico psiquiatra e terapeuta, que se tornou um palestrante bastante requisitado por empresários, dá uma série de insights nesta obra que recomendo para quem saiu meio perdido da pandemia, pois incentiva a introspecção, marca nos trabalhos deste renomado doutor. O insight que mais me chamou atenção foi o que é discorrido neste trecho, do mesmo capítulo:

“Soluções do passado, em contextos diferentes, podem transforma-se em problemas. Se a situação se modificou, dê um jeito de mudar.”

Nesta semana, em duas ocasiões fui procurado por ex-clientes que não tinham contato comigo havia, pelo menos, oito anos e não me reconheceram depois de visitarem o site e serem atendidos pela Gioconda no WhatsApp. “Ficou chique”, em relação à robô e aos agendamentos, dissera um que tentou falar comigo fora dos horários de expediente e, obviamente, graças ao modelo que adoto, não conseguiu. Gosto de parar e refletir sobre como estava em determinado período, e no que fora relativo aos dois ex-clientes que me consultaram, percebi de fato que há muitos traços do Leonardo de 2014 que morreram no atual; é, morro de vez em quando… Contudo, analisei em agendas 2002-2003 que já tinha a prática de trabalhar com visitas programadas e o que mudou? Na essência foi sutil, enquanto se deu radicalmente na forma, e isso tem a ver com ideias que amadureceram entre 2018 e 2019 com o aumento da carteira de clientes de contabilidade que são bastante organizados e dados a planejamento, o que se encaixou bem com o meu perfil e com o que significou a pandemia 2020-2021 como acelerador deste processo. As mudanças, no formato de suporte e assessoria, foram fundamentais para que conseguisse suportar a pandemia e permitiram que chegasse a um nível de produtividade adequado ao contexto. Se não tivesse mudado, teria colapsado. Hoje quando inicio um expediente, o faço com maior prazer, tendo melhor consciência do que precisa ser analisado e feito; aprendi a dar melhores níveis às prioridades, quando comparo com o formato de trabalho do Leonardo de 2014 e 2005.

Percebi, nesse processo, que a melhor coisa que pode acontecer na vida profissional é tentar ser uma versão melhor de si mesmo, a cada dia, e não ficar perdendo tempo se comparando com os outros.

17/06/2022 22h36

Imagem: IMTV

Francesca Mannocchi

“Haji, 65 anos, pai de Mustaq […]: Aliciavam nossas crianças, nossos meninos […] usavam a religião como instrumento. Faziam a cabeça das crianças como poderiam fazer a minha ou a de um velho. Um dia meu filho voltou para casa e me disse ‘estou seguindo o Daesh’ (Estado Islâmico). Ele tinha 11 anos.”

Tradução livre.

Obra: Porti ciascuno la sua colpa. Cronache dalle guerre dei nostri tempi. Editora Laterza, 2019, Roma, formato físico. De Francesca Mannocchi (Italia/Roma, 1981)

Francesca Mannocchi é uma lição de vida pela forma como exerce a profissão enquanto lida com o diagnóstico de uma doença incurável. Escritora e jornalista italiana, especialista em reportagem de guerra.

No trecho, o início de uma entrevista dela em um campo de refugiados com o pai de uma criança militante do Estado Islâmico. Um drama terrível que varre a Síria e o Iraque depois das intervenções desastrosas dos EUA. A leitura deste livro me deixou perplexo com os horrores do Estado Islâmico. Trecho que abre esta obra publicada no Brasil sob o título Cada um carregue sua culpa. Muito forte o teor do livro para pessoas sensíveis.

Coragem é a palavra que associo diretamente a esta mulher com marido e um filho; Mannocchi vai a áreas de conflito militar e enfrenta situações de elevado risco; registra os bastidores; entrevista soldados, civis e revela o drama dos mais vulneráveis; idosos, mulheres e crianças. Quando vai falar sobre alguma guerra que cobriu, Francesca Mannocchi é sempre serena e precisa nos comentários; demonstra como um profissional do jornalismo deve tratar o que há de mais trágico em termos humanos. Em 2015 ganhou o Prêmio Franco Giustolisi “Justiça e Verdade” pela investigação realizada para LA7 sobre o tráfico de migrantes em prisões líbias. No ano seguinte recebeu o “Premiolino” de jornalismo e em 2021 o Ischia International Journalism Award. Também dirigiu o documentário Ísis, Amanhã. As Almas Perdidas de Mossul, um trabalho sobre os filhos dos guerrilheiros do ISIS apresentado no 75º Festival de Cinema de Veneza.

Mannocchi conta no livro Bianco è il colore del danno (Branco é a cor do dano) a sua experiência com a esclerose múltipla, doença que foi diagnosticada em 2016:

“Toco minha perna. Eu não sinto isso. Eu toco meu pé. Eu não sinto isso. Toco meu braço, axila, pulso, cada dedo da mão direita e não sinto nada. Minha vida com esclerose múltipla começou assim, sem que eu soubesse, em um quarto laqueado de branco que eu chamava de Gemma”.

Então, ela toca a vida com uma doença sem cura, enquanto os sintomas não se estabelecem segue cobrindo guerras e claro, pode ser vista na Ucrânia a serviço do canal TGLa7.

16/06/2022 21h04

Imagem: deaazen

Siddartha Gautama

“6. Assim como o cavaleiro guarda o portão de seu castelo, deve-se proteger a mente dos perigos externos e internos. Não se deve negligenciá-la nem por um momento sequer.

Cada um é senhor de si mesmo, deve depender de si próprio; deve, portanto, controlar-se a si próprio.

O primeiro passo para se livrar dos vínculos e grilhões dos desejos mundanos é controlar a própria mente, é cessar as conversas vazias e meditar.”

Obra: Doutrina de Buda. IV Aforismos sagrados. Capítulo II. O caminho da realização prática. Edição da Martin Claret, 2005, São Paulo, formato físico. De Siddartha Gautama (Nepal/Lumbini, ~ 563 a. C. – 483 a.C.).

E assim foi dito pelo fundador do budismo ou, sendo mais direto, tenha muito cuidado com o que ocupa em sua mente para não envenená-la. Não negligenciar então o que é feito com a mente, quanto ao conteúdo que nela se ocupa, é o ensinamento mais importante que extraí da doutrina budista e desta sabedoria se compreende a importância da meditação.

Vejo a mente como um imenso “campo de batalha” onde se antagonizam pensamentos, crenças, ideias, desejos, intenções, uma central que pulsa em valores, juízos, raciocínios, vontades; é o grande software humano que processa virtudes e vícios no “datacenter” cefálico chamado cérebro,

Na mente se desenvolve o recurso mais importante e delicado neste maravilhoso sistema humano de inteligência, tema também marcante nos textos canônicos do Novo Testamento, sobretudo por São Paulo aos coríntios (I Cor. 2:16, “Nós temos a mente de Cristo”).

Nos dias atuais se tornou mais nítida, à mon avis, a questão da aplicação mental, pois o advento da internet trouxe uma nova potencialidade como recurso que superou tudo o que se tinha de facilidade para ocupação da mente, provendo acesso a conteúdos em escala nunca antes vista na história humana. Os benefícios deste acesso tão poderoso e facilitado podem ser potencialmente imensos, assim como os danos. Neste ponto, penso que se tornou muito mais fácil degenerar uma mente do que preservá-la ou bem cuidá-la; e para constatar, creio que basta conferir o que predomina ou desperta mais a atenção de usuários de redes sociais; o sucesso maior está no besteirol, assim como na busca por informação rápida, “prática” e comumente rasa, quando não há tempo para leitura e que, muitas vezes desinforma para manipular em torno de algum interesse político, além do apelo às vulgaridades onde muitos artistas do show business exploram, e por isso figuram no topo das visualizações, porque perceberam que o público médio tem inclinação por futilidades e debates sobre coisas onde a inteligência passa distante. Outros preferem trabalhar as mentes de quem é chegado a fofocas, boatos, cancelamentos por extermínios de reputações e, sobretudo, ao hedonismo de cada dia que banaliza o prazer material ou carnal sob apelo sexual. O erotismo é o meio de grande destaque na intoxicação de mentes, que vão se destruindo, implodindo. . As redes sociais retratam, muitas vezes, o que antigamente era somente visto em festas, familiares ou não, com indivíduos falando da vida alheia a conversar bobagens e outras banalidades. E como sugeriu Umberto Eco, o idiota que ficava restrito a vila ou, no exemplo dado, ás festas locais, agora pode ganhar o mundo.

É um mundo medonho quando não pelo erotismo, através da diversão vil sem qualquer zelo por mínimas relações de respeito ao semelhante, por exemplo, mediante o humor que banaliza a morte e outros temas delicados, comumente no uso de baixo calão, linguagem vulgar ou mais sutis no aspecto degenerado de usar mídias para tirar proveito de tragédias alheias usadas como base para piadas nesse negócio de ganhar visualizações. Certa vez, observei a viralização de um conto em que se fazia piada com um bêbado que encontrou uma mulher, na escuridão noturna de uma praia, a espera do parceiro e a violou sexualmente ao se aproveitar de um trágico engano; ao encerrar o conto, vieram as gargalhadas retratando um público bestializado que busca esse tipo de conteúdo em redes sociais. O sucesso vem do compartilhamento de quem se deixou levar por uma ocupação de mente que se tornou insensível com algo seríssimo que denota um problema de estupro. Vale tudo para o alcance do topo do sucesso na ocupação ou distração de quem prefere tratar a própria mente como um imenso depósito de lixo, problema que me parece intimamente relacionado com ao vazio no uso do tempo , a glamourização da ignorância e o desprezo pelo saber que seja mais refinado; no mundo massificado da internet, quem tenta elevar o nível comete um grave “pecado” e pode acabar mal visto.

E nesta era de pessoas tão conectadas, plenas de si, repletas de opiniões conclusivas, acabadas, que se tornam especialistas do dia para a noite sobre vários assuntos complexos, transformadas em mantras ambulantes por influencers,, não raramente, formados na universidade de busca no Google, na certeza de que são ávidas por um bom passatempo lucrativo nas plataformas sociais, eis que a sabedoria budista ficou ainda mais evidente quanto à relevância de controlar-se a si próprio, na capacidade de saber selecionar o que vai ocupar na mente, sendo assim o senhor de si mesmo por meio de hábitos que proporcionem uma boa saúde mental.

15/06/2022 23h10

Imagem: Twitter

Roberto Ellery Jr.

“No capitalismo brasileiro o que é essencial, o que transforma empreendimentos em grandes empresas, o que faz a diferença para chegar ao topo é o acesso aos bastidores do poder.”

Obra: Anotações de um Reformista no País dos Incentivos: Posts sobre reformas, investimento, produtividade, liberalismo e outros temas chatos. 40. Sobre a crise, a grita dos compadres com a presidente do BNDES, os riscos e as esperanças para economia brasileira. eBook Kindle, 2020. De Roberto de Goes Ellery Junior.

Este livro é uma coletânea de posts do professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (Unb), instituição onde o time de professores de economia é excepcional. Leitura recomendada para quem deseja conhecer análises bem fundamentadas sobre “temas chatos” acerca da economia brasileira; produtividade, investimentos públicos, inflação, crescimento e períodos recessivos. O doutor Ellery Jr. tem a rara virtude de desmontar narrativas pelos fatos, sem ofender quem as dissemina, o que é muito precioso no país onde políticas públicas são predominantemente avaliadas pelas supostas intenções nos discursos e não pelos resultados. Dizem que ele é liberal e penso que seja muito mais do que isso.

Sobre o trecho, o professor se notabiliza também por destacar o antiguíssimo problema do “capitalismo de laços”. Não é difícil encontrar indivíduos em qualquer esquina que defendam, muitos sem perceber, alguma ideia que envolva relações clientelistas com políticos que estão retroalimentam esse processo de compadrio no capitalismo de laços, em diversos planos e subterfúgios. Esse problema não tem um lado definido; está na esquerda, no centro e na direita; ambos fazem uso de alguma retórica que justifique os lações: “soberania nacional”, “vontade popular”, outros versam a “constituição cidadã”, tudo em um pano de fundo que camufla interesses protecionistas que se consolidam em planejamento central. Neste aspecto, regulações, concentração e monopólio de crédito e todo forma de socialização de riscos com pagadores de impostos são os objetivos dos que têm acesso aos bastidores do poder: os lobistas.

14/06/2022 22h32

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Alberto Caeiro

“Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…

Assim é e assim seja…”

Obra: Se eu pudesse trincar a terra toda. O guardador de rebanhos (1911-1912). Poema XXI. Obra poética de Fernando Pessoa. Volumes I e II. Edição da Nova Fronteira, 2016, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Alberto Caeiro (1889-1915) heterônimo por Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

Paz no meio da agonia – I

Quando era menino
Queria no bolso
O mundo colocar.

Sem céu ao limite
Sonhos desenhava
Em tudo soava doce e promissor.

Então morri como o dia
Que morre ao poente belo
E fui noite adentro…

Como o dia desejar
Sem sentir como quem passa
Pela noite escura?

Flores, pedras, ternura, azedume
Favos e espinhos.
Era a infelicidade a me ensinar.

A vida ganha sentidos,
Naturalmente, quando
Eu morrer de vez em quando.

Morte de quem envelhece
Para encontrar paz
No meio da agonia.

Leonardo Amorim, 10/12/2021

13/06/2022 21h20

Imagem: ESCUELA AUSTRIACA DE ECONOMÍA E IDEAS DE LIBERTAD

Friedrich August von Hayek

“[…] De repente, medidas como gastar dinheiro e gerar déficits orçamentários passaram a ter uma conotação extremamente positiva. Argumentava-se, com profunda convicção, que a expansão dos gastos públicos era totalmente meritória, uma vez, que propiciava a utilização de recursos até então ociosos, o que, além de nada custar à comunidade, trazia-lhe um ganho líquido.

Um resultado prático dessas crenças foi que, pouco a pouco, foram-se removendo todos os obstáculos que impediam as autoridades monetárias de emitirem cada vez maior quantidade de dinheiro. […]”

Obra: Desemprego e política monetária. A teoria de Keynes – uma tentação para os políticos. 2a. edição do Instituto Ludwig von Mises, 2011, São Paulo, eBook no Kindle. De Friedrich August von Hayek (Áustria/Viena, 1899-1992).

Esta obra é um capítulo do maior duelo do pensamento econômico do século XX: Hayek x Keynes. Fui privado de conhecer o lado de Hayek durante a graduação, por uma grade curricular enviesada a Keynes e tudo o que se inclinasse ao intervencionismo, sobretudo no tocante ao marxismo na economia. Foi a partir de 2007 que pude estudar o pensamento de Hayek, fora do “ambiente acadêmico” e descobri impressionantes detalhes deste duelo de senhores que não se atacaram pessoalmente; ficaram como distintos pensadores, no campo das ideias, elegância que falta hoje em dia no debate econômico.

O lorde se tornou o “líder intelectual”, assim define Hayek (p. 28), durante o ciclo de valorização internacional da libra esterlina (1929-1931) cuja “avaliação política” (p. 27) que fez o tornou “o grande inflacionista, ou pelo menos o mais ávido antideflacionista dos anos 1930” (p.27). No mesmo parágrafo Hayek foi gentil; não atribuiu totalmente a Keynes todas as mazelas inflacionistas que se sucederam com o oportunismo politico em torno das ideias heterodoxas que seu oponente de pensamento desenvolveu:

“Tenho, no entanto, boas razões para crer que ele desaprovaria o que fizeram os seus seguidores no período de pós-guerra. Se não tivesse morrido tão cedo, teria sido, certamente, um dos líderes na luta contra a inflação.”

Hayek lembra este empolgante confronto de ideias na ocasião do Nobel recebido em 10 de dezembro de 1974 [64], quando abordou, na conferência (Parte II), os efeitos pela visão “cientificista” da interpretação keynesiana dos fatos, sobretudo no tocante à formula que considera o emprego como função direta da demanda total; teoria “falsa” enquanto “passível de prova quantitativa”, na visão do austríaco, enquanto não pode, “por sua natureza” (p. 28) ser avaliada em termos estatísticos.

Fato é que neste duelo de titãs do raciocínio econômico, Keynes prevaleceu na mídia, e obviamente na política, que se consolidou pelo mainstream que deu “base científica” a populistas pelo mundo que praticaram (e até hoje o fazem) políticas inflacionistas com expansão monetária e déficits orçamentários. E Hayek foi o ícone mais conhecido (e respeitado) como um ferrenho questionador das interpretações keynesianas que não são, integral e necessariamente, de Keynes.

64. The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 1974. Friedrich von Hayek Facts

12/06/2022 11h06

Imagem: Jornal da USP

Osman Lins

“Neste ponto, um homem de aspecto bovino, falando pausadamente, interrompendo a série de suposições, que ameaçavam converter a assembleia numa palestra sem consequências e mais ou menos sinistra, fez uma proposta lúgubre e que provocou, sem exceção, mal-estar profundo. Sugeriu fosse feita, na próxima vítima, rigorosa autópsia, verificando-se inclusive se não acusava irradiações atômicas.”

Obra: A ilha no espaço. Capítulo V. Os casos especiais. Edição da Cepe, 2019, Recife, eBook no Kindle. De Osman da Costa Lins (Brasil/Pernambuco/Vitória de Santo Antão, 1924-1978).

Osman Lins foi um intelectual e escritor de estilo refinado, inclusive com experiência na Europa [63]. Sendo de rara qualidade literária, terminou aclamado pela crítica na pioneira aplicação de técnicas na construção de textos para adaptações ao âmbito audiovisual. Autor de romances, ensaios, peças de teatro e contos, se tornou mais conhecido do público, do tipo que que busca o mero entretenimento, com Lisbela e o Prisioneiro.

A ilha no espaço é um conto adaptado para a teledramaturgia da Rede Globo, sob a direção de Cassiano Gabus Mendes, Paulo José e Sérgio Brito. Em um enorme condomínio diante do Capibaribe, moradores começam a morrer misteriosamente e o medo se instala no residencial que logo se esvazia. Um morador decide enfrentar a solidão no enorme concreto, em meio aos dilemas financeiros da vida, enquanto a esposa e a filha decidem também deixar o apartamento. Durante o drama, uma reunião de moradores onde Osman Lins trabalha uma de suas geniais metáforas; um homem de “aspecto bovino” traz consigo uma espécie de teoria da conspiração cogitando “irradiações atômicas” a serem verificadas por autópsia. Tempos de guerra fria, o imaginário popular estava fluindo sob as ameaças nucleares e pessoas bombardeadas pela mídia, massificadora de ideias, podem acabar mesmo com “aspecto bovino”; agindo como repetidoras de divagações e superficialidades, parecem mais como “gado” no curral, o que também me fez lembrar um pouco o conceito do homem-massa, de Ortega y Gasset. Na Nota 6 da edição que disponho, em relação à abertura do conto, Osman Lins faz uso do flashforward, como se estivesse em um roteiro de cinema; joga a cena final para o começo dando a história uma característica de longo flashback. São detalhes que denotam o estilo sofisticado do escritor em combinar narrativas com técnicas de outros gêneros.

O escritor vitoriense participou com mais duas narrativas: Quem era Shirley Temple? e Marcha fúnebre. A versão inicial de A ilha no espaço é de 1960 em contraste com a versão que foi ao ar na década de 1970. Curiosamente, em relação à adaptação da Globo, o escritor, em Nota da primeira edição, revela que pensou em vários desfechos os quais nenhum o satisfez; “a história, a meu ver, esgota-se no capítulo 11, beneficiando-se, exatamente, do que fica na sombra, do que não se esclarece.”.

Há um ponto que considerei muito interessante sobre a inteligência e a visão do escritor: diz respeito ao que a pesquisadora Ermelina Ferreira, em palestra (06/08/2003) disse sobre o conto A ilha no espaço ser uma alegoria da solidão, vivida pelo próprio Osman Lins, em função da indiferença de leitores face a um comentário dele extraído do livro Guerra sem testemunhas, o que denota que Osman Lins tinha um enorme comprometimento com seu trabalho inovador, sem ficar passivo ao deleites ou caprichos do público.

63. “Aos 36 anos, em 1961, reside por seis meses na França, como bolsista da Aliança Francesa, onde teve acesso, in loco, ao ´’noveau roman'”.  Ver em Instituto Cultura Osman Lins. Biografia.

11/06/2022 15h12

Imagem: The Economist

John Maynard Keynes

“Eu critico o socialismo de Estado doutrinário, não porque ele procura engajar os impulsos altruístas dos homens a serviço da sociedade, porque ele se afaste do laissez-faire, ou porque retire das liberdades naturais do homem a de tornar-se milionário, ou ainda porque tem a coragem de fazer experiências ousadas. Eu aplaudo todas essas coisas. Mas, eu o critico, por deixar de perceber o significado do que está realmente ocorrendo; porque, de fato, é pouco melhor que a sobrevivência empoeirada de um plano de enfrentar os problemas de cinquenta anos atrás, com base num mal-entendido do que alguém disse há cem anos. O socialismo de Estado do século XIX originou-se com Bentham, na livre concorrência, etc., e, sob alguns aspectos, constitui uma versão mais clara, e sob alguns aspectos mais perturbadora, da mesma filosofia subjacente ao individualismo do século XIX. Da mesma forma, ambos colocaram toda sua força na liberdade, um negativamente, a fim de evitar limitações a respeito da liberdade, existente, e o outro de forma positiva, para destruir os monopólios naturais ou adquiridos. Trata-se de reações diferentes à mesma atmosfera intelectual.”

Obra: O fim do laissez-faire. Keynes. Coletânea. Tradução de Miriam Moreira Leite. Editora Ática, 1978, São Paulo, formato físico. De John Maynard Keynes (Reino Unido/Cambridge, 1883-1946).

O mais curioso neste trecho, com alguns toques de sinceridade (outros diriam “sincericídio”), é o “etc” depois de Bentham… Trata-se de um ensaio que se baseou em uma conferência feita por Keynes em Oxford (novembro de 1924) e em uma palestra na Universidade de Berlim (junho de 1926).

No mainstream, Keynes é, não raramente, visto como o maior economista do século XX. Creio que tenha sido pela mídia que teve, sem necessariamente entrar em algo bem mais subjetivo que envolve preferência por escola de pensamento econômico.

O que mais me chamou a atenção foi o lorde ter aplaudido a retirada das liberdades naturais do homem (“a de tornar-se milionário” parece ter servido de apelo e hoje se traduziria em coisas do tipo “taxação de grandes fortunas”). O afastamento do laissez-faire é um desdobramento de ideias intervencionistas que desenvolveu e foram compradas no mundo político após o crash de 1929, contexto de uma Europa onde prevalecia a aversão ao liberalismo e, por tabela, ao laissez-faire em meio a crises econômicas que antecederam às ascensões do nazismo e do fascismo em uma Inglaterra com libra esterlina valorizada. Outro ponto está no que Keynes entende por engajamento do altruísmo; o que depende de um comportamento espontâneo, não combina, à mon avis, com um aparato de coerção de compulsão como se verifica com o Estado.

Keynes parece ter subestimado a grande valia do socialismo no meio empresarial, o que pode soar como paradoxal, mas é tão antigo quanto o clientelismo do Império Romano, e que pode ser conferido em empreendedores especialistas em serem “amigos do rei”; compadres de negociatas de planejamento central nos gabinetes, coisa que inclusive deu base ao fascismo e ao nazismo à época em que o renomado palestrante proferiu o trecho. No mais, sem sombra de dúvida, laissez-faire e socialismo são como água e óleo, e é justamente neste ponto que empresários avessos à livre competição se aliam a políticos para implementarem, por meio do aparato estatal, “políticas públicas” que restringem a entrada de concorrentes que possam lhes trazer alguma ameaça enquanto fortalecem modelos de cartel no corporativismo que administram junto a políticos e lobistas, no Congresso e no Palácio, sob pretexto de correção de externalidades de mercado, ou seja, o contrário do que argumenta Keynes como sendo de “forma positiva”, na parte final do trecho.

10/06/2022 22h26

Imagem: Foxbit

Satoshi Nakamoto

“Uma versão puramente peer-to-peer de dinheiro eletrônico permitiria que pagamentos on-line fossem enviados diretamente de uma parte para outra, sem passar por uma instituição financeira. As assinaturas digitais fornecem parte da solução, mas os principais benefícios são perdidos se um terceiro confiável ainda é necessário para evitar o gasto duplo. Nós propomos uma solução para o problema de gasto duplo usando uma rede peer-to-peer. A rede insere data e hora nas transações através de um hash em uma cadeia contínua de prova-de-trabalho à base de hash, formando um registro que não pode ser alterado sem refazer a prova-de-trabalho. A cadeia mais longa não só serve como prova da seqüência de eventos testemunhados, mas prova de que ela veio do maior pool de CPUs. Enquanto a maioria do poder das CPUs é controlado por nós que não estão cooperando para atacar a rede, eles irão gerar a cadeia mais longa e superar os atacantes. A própria rede requer estrutura mínima. As mensagens são espalhadas em regime de melhor esforço, e nós podem sair e regressar a rede à vontade, aceitando a cadeia mais longa de prova-de trabalho, como prova do que aconteceu enquanto eles estavam fora.”

Tradução de Rodrigo Silva Pinto

Obra: Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. Edição online em bitcoin.org, 2008. De Satoshi Nakamoto, pseudônimo.

Minha fascinação no primeiro contato com o paper pela matemática do gênio desconhecido a aplicar a densidade de Poisson:

E o código C:

#include

double AttackerSuccessProbability(double q, int z)
{
double p = 1.0 – q;
double lambda = z * (q / p);
double sum = 1.0;
int i, k;
for (k = 0; k <= z; k++)
{
double poisson = exp(-lambda);
for (i = 1; i <= k; i++)
poisson *= lambda / i;
sum -= poisson * (1 – pow(q / p, z – k));
}
return sum;
}

Seguido da queda exponencial de z…. Para um programador isso foi muito mais do que familiar, além da essência da contabilidade no modelo de sistema de caixa eletrônico totalmente “ponto a ponto”, sem necessidade de confiança em terceiros; ou seja, uma espécie de terceira partida contábil que autentica os lançamentos no “livro de registro” ou blockchain, a significar a maior revolução na contabilidade desde a invenção das partidas dobradas. Uma ironia nisso é que essa revolução tecnológica e contábil está a ocorrer sem que o meio convencional contábil esteja envolvido. Mais uma vez os acadêmicos burocratas, com doutorado em ensinar pássaro a voar, estão atrasados.

Quem será o gênio autor dessa obra-prima? Seria um nipônico libertário? Um economista austríaco programador e, ironicamente, amante da matemática? Um professor de filosofia aposentado no Nebraska entediado com o padrão dólar que resolveu deixar um legado para a humanidade? Um grupo de nerds de QI > 150 que resolveram destruir o Fed e os bancos centrais produtores de inflação? Uma moça chinesa que ama poesia, com um caso platônico, personagem de um romance que ainda será lançado pelo meu amigo de infância?

Quem será Satoshi Nakamoto?

Uma coisa me parece certa: O bitcoin é um efeito de uma causa maior; a essência do blockchain. Quem está na crença de o bitcoin ser “fraude”, “bolha”, que não tem “garantia” (como se os bancos centrais não fraudassem as pessoas emitindo dinheiro), e não conhece os fundamentos do paper de Nakamoto, está perdendo a chance de compreender um mundo econômico, contábil e tecnológico extraordinariamente novo.

09/06/2022 21h58

Imagem: ex-isto

Epicuro

Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens; antes, deve considerar também que aquilo que agora possuis se encontrava no número dos teus desejos.”

Obra: Pensamentos. Texto complementar III. Antologia de textos de Epicuro. Edição da Martin Claret, 2005, São Paulo, formato físico. De Epicuro de Samos (Grécia/Samos, 341 a.C. – 270 a.C.)

E o estoico Epicteto , cerca de quatro séculos depois, em uma espécie de releitura clássica:

“O homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas se rejubila com as que tem.“ [61]

O humano, quando dominado pela insaciabilidade, mais necessidade terá do futuro e não conseguirá bem aproveitar ou saborear o que dispõe, não importa se muito ou pouco, no tempo presente. E assim seguirá em um interminável ciclo de insatisfação na medida em que se pauta o viver por desejos de acúmulo, por conquistas e avanços em um progresso onde não se tem espaço para outra coisa senão o próprio ego.

Penso que não surpreenderá se, nessa interminável ressonância de vontades mal resolvidas, tiver uma vida marcada por indiferença, ingratidão, utilitarismo, constantemente agitada, sem contemplação das coisas simples e agradáveis, tampouco haverá prazer em meditar sobre de onde veio e onde está; não há poesia, nem introspecção, pois o ser domado pelo insaciável, alinhado em valores e crenças de ostentação, estará sempre direcionado para um futuro ofegante na busca pelo que não se tem que, ao ser conquistado, logo entrará no rol das coisas que tendem a perder a graça correndo o risco de serem banalizadas.

Em outro trecho nesta antologia, acrescenta Epicuro, “quem menos sente a necessidade do amanhã, mais alegre se prepara para o amanhã”.

Recordando esses trechos do sábio Epicuro, pensei no Sábio dos sábios no Sermão da Montanha, Cristo Jesus:

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” Mateus 6:34

E também me veio uma recordação pessoal, de novembro/2019: “Pensar demais ou se (pré) ocupar com dia de amanhã faz parte desse universo desconhecido e não mensurável. A ansiedade e o estresse desnecessário residem justamente quando tentamos tratar de coisas tentando supera-las e que não estão ao nosso alcance no sentido de nossas forças, capacidades. Se compreendermos as naturezas de cada problema que passamos na vida, estaremos mais próximos de compreendermos o que podemos fazer e o que não podemos fazer diante de cada situação, assumindo nossas responsabilidades de forma justa, e evitando que carreguemos em nossos ombros culpas por coisas que não tivemos como evitar, sabendo que fazem parte do que não podemos tratar, algo que devemos conversar em espírito, entregando a Deus. O que posso tratar, devo tratar. O que não posso, entrego ao Senhor da minha fé. É nesse sentido que entendo um dos ditos de Jesus no Sermão da Montanha.” [62]

61. The Discourses of Epictetus: With the Encheiridion and Fragments, página 429;

62. Mateus 6:34 “Basta a cada dia o seu mal”

08/06/2022 23h00

Imagem: IEA-USP

Darcy Ribeiro

Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um povo-nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Ao contrário da Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na América, por exemplo, que são sociedades multiétnicas regidas por Estados unitários e, por isso mesmo, dilaceradas por conflitos interétnicos, os brasileiros se integram em uma única etnia nacional, constituindo assim um só povo incorporado em uma nação unificada, num Estado uniétnico. A única exceção são as múltiplas microetnias tribais, tão imponderáveis que sua existência não afeta o destino nacional.”

Obra: O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil. Global Editora, 2015, São Paulo, no Kindle. De Darcy Ribeiro (Brasil/Minas Gerais/Montes Claros, 1922-1997).

É natural e salutar o ato de hoje discordar de muitas ideias, em termos políticos, deste que foi um renomado antropólogo brasileiro e, ao mesmo tempo, conhecer as contribuições, à mon avis, que ele deu para o melhor entendimento da formação étnica e cultural do povo brasileiro.:

“O povo-nação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável.”

A base da formação cultural do que Darcy Ribeiro sintetiza no conceito de “povo brasileiro” consiste em um dramático ingrediente escravagista, de genocídio e etnocídio, onde não me parece ser coisa inteligente ignorá-lo, primeiro se houver o legítimo propósito de se entender melhor como são exploradas as narrativas de “dívida histórica”, que retroalimentam o “vitimismo” no tabuleiro progressista político do poder. A base intelectual arrojada que dá suporte ao debate socializante não tira a relevância que a obra possibilita de se compreender as raízes culturais que moldam o jeito de ser brasileiro, e mesmo que muito em parte se discorde do peso das bases que Darcy Ribeiro discorre sobre a unidade que aponta, assim como sua amplitude na sociedade, conhecer esta obra-prima antropológica brasileira é uma forma de tornar possível avaliar melhor muitos aspectos comportamentais peculiares ao “brasileiro” como um tipo cultural.

07/06/2022 23h08

Imagem: BBC

Adam Smith

“A riqueza. como diz o sr. Hobbes, é o poder. Mas a pessoa que adquire ou herda uma grande fortuna não necessariamente adquire ou herda, nenhum poder político, civil ou militar. Sua fortuna pode, talvez, proporcionar-lhe os meios para adquirir ambos, mas a mera posse daquela fortuna nãos os traz necessariamente. O poder que aquela posse traz imediata e diretamente é o poder de compra; um certo comando sobre todo o trabalho ou sobre todo o produto do trabalho que está então no mercado. Sua fortuna é maior ou menor, precisamente na proporção da extensão desse poder, ou à quantidade do trabalho de outrem, ou, o que dá no mesmo, do produto do trabalho de outrem, que lhe permite adquirir ou comandar. O valor de troca de tudo deve ser sempre precisamente igual à extensão deste poder que traz a seu possuidor.”

Obra: A Riqueza das Nações. Livro I. Capítulo I – Da Divisão do Trabalho. Edição da Hemus, 1981, Curitiba, formato físico. De Adam Smith (Reino Unido/Escócia/Kirkcaldy, 1723-1790)

Obra fluvial, talvez a mais importante da economia por ser um marco na qualificação de ciência à parte da filosofia. Adam Smith é apontado como pai, e entre outras paternidades: do capitalismo, do liberalismo e da famosa e deturpada (por não versados na obra) “mão invisível”.

No primeiro contato com a obra, em 1994, um estudante de economia a refletir sobre o trecho que percebeu a superioridade da política diante da economia. O que é a mera posse de fortuna sem poder político? Questão subestimada pelos que pensam ser o dinheiro em si a “mola do mundo”; o poder é causado por um processo muito mais dinâmico, além do econômico. A riqueza é o poder e se traduz pela força de determinar políticas e, em termos pragmáticos, de impor ou se prevalecer por ideias, o que na prática se traduz muitas vezes no poder de regulação. Poder é a capacidade de comandar, governar, influenciar pessoas, sociedades, conforme a escala; em suma, de dar ordens que sejam cumpridas.

Os imperadores de Roma tinham poder enquanto sabiam que deviam a lealdade das tropas aos generais, e os homens de negócios da domus, sabiam que de nada servia o patrimônio que ostentavam sem a proteção do poder político por meio do imperador, em algo que corria em toda a corporação do estado romano.

Mercado em si não significa poder político; é o campo dos fenômenos econômicos onde o poder político impõe suas consequências onde no lugar das regulações naturais ocorrem as regulações políticas e, neste âmbito, o enriquecimento se torna uma questão política enquanto sinônimo de poder quando atrelado à força de comando dos que governam, fazem lobby e/ou elaboram leis, que são legislações. Embora Adam Smith tenha se pautado muito mais na regulação natural via liberdade econômica, o que menciona na abertura do parágrafo do trecho selecionado é uma obviedade que muitos liberais de hoje parecem subestimar.

06/06/2022 22h40

Imagem: France 3

Cécile Coulon

“Gostaria que a poesia fosse tão natural para aqueles que me cercam quanto a emoção que surgiu naquela noite, em frente àquela praça, com aquela facilidade improvável de momentos que nunca teriam, não deveriam ter sido […] não há maior infortúnio na terra do que aquele onde não se tem poema escrito para abraçá-lo, consolá-lo, contê-lo.”

Tradução livre.

Obra: Les Ronces. Edição Le Castor Astral, 2018, Paris, formato físico. De Cécile Coulon (France/Saint-Saturnin, Puy-de-Dôme, 1990).

Sem poesia não dá

Sem poesia não dá.
É vida que seca,
de palavras sem alma.

Sem poesia ficam as cinzas
de uma rotina do tempo
que apenas passa.

Não tem pés descalços na terra,
no chão batido, na grama,
pois sem poesia tudo é perfeito,
desumano e sem graça.

Quando não há poesia
meus amigos felinos
não correm sobre a mesa
quebrando minhas regras.

Findam-se os sonhos da criança
que insiste em habitar lá naquele
porão onde guardo meus maiores segredos.

Caminho para o oblivium,
à espera do que nunca virá, sem um poema
sem poesia, sem versos, preso
em minhas armadilhas do cotidiano.

Leonardo Amorim, 10/12/2021

05/06/2022 12h02

Imagem: Companhia das Letras

Ian Kershaw

Outro episódio, que se passou por volta de 1906, ilustra bem o mundo de fantasia em que Adolf vivia. Depois de comprar com o amigo um bilhete de loteria, ele teve tanta certeza de que ganhariam o primeiro prêmio que desenhou uma visão detalhada da futura residência deles. Os dois moços levariam uma existência artística, cuidados por uma senhora de meia-idade que cumprisse com as exigências artísticas de ambos — nem Stefanie nem outra mulher da idade deles figuravam nessa visão —, e iriam a Bayreuth, Viena e outros lugares de prestígio cultural. Adolf tinha tanta certeza de que ganhariam que sua fúria contra a loteria estatal não teve limites quando a fezinha deles não vingou.”

Obra: Hitler. Capítulo 1. Fantasia e fracasso. Companhia das Letras, 2010, São Paulo. Tradução de Pedro Maia Soares, formato físico. De  Ian Kershaw (Reino Unido/Oldham, 1943).

Obra indispensável do historiador britânico especialista em nazismo, hoje aposentado (2008) do oficio de professor de história contemporânea da Universidade de Sheffield.

Trecho que retrata uma das fantasias peculiares de um adolescente onde conduz a si mesmo e os outros com base em uma realidade alternativa onde sempre sua crença prevalece, não importam os fatos, na base do custe o que custar [59]. E foi assim que esse adolescente um dia se tornaria o mais famoso genocida e criminoso de guerra do século XX (e talvez, de todos os tempos), que conduziu o Estado alemão e a massa ignara de um país supostamente de pessoas cultas; Nietzsche já tinha cantado a pedra da decadência intelectual alemã quando o menino crescia bem distante de entrar para o tabuleiro da história. E o Hitler crescido, no gozo do poder, gostou de ter o sobrenome mudado pelo pai, de Schicklgruber para “Hitler”. Comenta o professor Kershaw que “‘Heil Schicklgruber’ teria sido uma saudação improvável a um herói nacional”, o que me parece ter muito sentido irônico a considerar o pragmatismo do genocida com a comunicação política.

Hitler foi um menino e adolescente muito mimado, e assim pleno de delírios de grandeza de sua cultura e da superioridade alemã, e por isso não me surpreende, secondo me, que acabasse na política após se tornar um militar patriota socialista frustrado com o desfecho da Primeira Guerra em uma Alemanha humilhada. O jovem ficou certo de que tinha a missão de resgatar o “orgulho alemão” e eis que o sociopata, por pleonasmo, megalomaníaco, não raramente que se torna genocida, iniciou uma caminhada democrática até ocupar o cargo executivo mais elevado do Estado. Um monstro no poder? Não há nada de novo debaixo do céu e desde que o homem inventou meios de governar, foi Hitler mais um caso dessa tradição humana de depositar fé em uma única pessoa que se apresenta como “salvadora da pátria” para definir os rumos de uma sociedade atormentada, e a se tornar líder acaba mesmo se consagrando como um “deus”na política, negócio que atrai esse tipo de personalidade ultra patológica com aplausos democráticos. A trajetória de Adolf Hitler é uma das dramáticas e catastróficas evidências do que Hayek discorre na obra O Caminho da Servidão, no Capítulo X: Por que os piores chegam ao poder.

Recentemente, o presidente francês Emmanuel Macron, diga-se de passagem, formado na prestigiada École nationale d’administration, andou argumentando que se deve tomar cuidado para “não humilhar a Rússia” [60] no caso da guerra com a Ucrãnia, para a Europa não perder a porta diplomática do diálogo com a Rússia quando o conflito acabar. É preciso tomar muito cuidado com essa retórica de Macron , pois lembra um pouco o que aconteceu com Hitler quando assombrou a Europa nas invasões iniciais que culminaram na Segunda Guerra Mundial: a confusão, no seio popular, algo que apetece ditadores, entre a personalidade política e o Estado. Hitler foi uma coisa, a Alemanha, de uma história imensa, outra. Putin é uma coisa, o povo russo, outra, e o Estado da Federação Russa, também outra. A confusão na retórica de Macron merece um complemento; não humilhar um povo e sim humilhar, digo, destruir, o ato militar de Putin, antes que seja tarde demais. Do jeito que foi apresentada, sobre relações diplomáticas, é tão-somente útil para populistas, sobretudo quando se tornam genocidas e criminosos de guerra.

59. O coronel Claus von Stauffenberg, ao perceber que Hitler estava delirando enquanto levava a Alemanha para o desastre militar, e não havia como reverter o processo por vias legais na política para entrar em um acordo de paz, entrou como protagonista de um golpe de Estado combinado com ao assassinato de Hitler, o que fracassou em 20/07/1944: foi a “Operação Valquíria”.

60. CNN Portugal: Para irritação da Ucrânia, Macron diz que o Ocidente não deve humilhar a Rússia, Agência Lusa , 04/06/2022 17:06

04/06/2022 16h52

Imagem: O Observador

Luís Vaz de Camões

“Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.”

Obra: Os Lusíadas. Canto IX. 83. Edição da Best Bolso, Rio de Janeiro, ePub, 2015, no Kindle. De Luís Vaz de Camões (Portugal/Lisboa, 1524-1579 ou 1580).

Edição com atualização de grafia. A mais importante obra da língua portuguesa. À mon avis, Luís Vaz de Camões é o maior escritor em língua portuguesa que tenho conhecimento.

Curioso trecho na epopeia camoniana sobre a lendária “Ilha dos Amores”, ponto de encontro dos marinheiros desbravadores dos oceanos com suas amantes. A conotação sexual e a referência a uma divindade pagã neste canto pode surpreender em um tempo (1572) em que a Igreja dispunha de controles entre o que era escrito e publicado. No entanto, talvez a ousadia dos versos pode ser melhor compreendida a considerar o que diz o escritor pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, no prefácio da edição utilizada, sobre Camões: “passava dias e noites pelas ruas e nas tabernas, entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos” a escrever versos “às vezes, em troca de gorjeta. Ou comida.”. Sabe-se pouco sobre o gênio escritor lusófono; teria tido muitas amantes, problemas financeiros. Fato é que foi preso algumas vezes por dívidas ou rixas, teria estudado em Coimbra. Dado a brigas, em uma condenação parte da pena consistiu em servir na Índia, cuja experiência e batalhas enquanto explorava os mares (e perdeu o olho direito) foi a base para produzir o poema épico.

03/06/2022 22h21

Imagem: ABM

Sophia de Mello Breyner Andresen

“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

Obra: Apesar das ruínas. Coral e outros poemas. Edição da Companhia das Letras, São Paulo, 2018, formato físico. De Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal/Porto, 1919-2004).

E destes versos da maravilhosa poeta portuguesa, meditei.

Poeira cósmica

Tu és pó, e ao pó tornarás!

E sendo o que sou,
poeira cósmica, ambulante
tão frágil no mistério da vida,
preciso morrer de vez em quando.

Antes ao pó tornem o que fui
E que ainda insisto para em ser
quando não mais sou,
para que fique a verdade
que me ensina a viver.

Sou pó e enquanto vivo,
em pó vou me transformando,
como um ensaio para o retorno
a poeira que sou e me aguarda.

Careço que virem pó, vícios,
ideias mal fundadas,
de ruínas em mim que não enxergo.

E eis que poderei sentir
a infinita bondade do Criador
que ao me fazer pó,
tão-somente pó,
Ele também me faz sonhar e germinar vida
pelo pó de minhas ilusões.

Leonardo Amorim, 01/01/2022

02/06/2022 21h04

Imagem: DW

Karl Marx

“Qualquer nova invenção que permita produzir numa hora o que até aqui foi produzido em duas horas faz baixar todos os produtos homogêneos. que se encontram no mercado. A concorrência obriga o produtor a vender o produto de duas horas tão barato como o produto de uma hora. A concorrência realiza a lei segundo a qual o valor relativo de um produto é determinado pelo tempo de trabalho necessário para o produzir. Servindo o tempo de trabalho de medida do valor venal, ele torna-se assim a lei de uma depreciação contínua do trabalho. Diremos mais. Haverá depreciação não somente para as mercadorias levadas ao mercado, mas também para os instrumentos de produção e para toda uma oficina.”

Obra: Miséria da Filosofia. Capítulo I – Uma descoberta científica. Edições Mandacaru, 1990, São Paulo, formato físico. De Karl Marx (Reino da Prússia/Renânia-Palatinado/Tréveris, 1818-1883).

Engels faz o prefácio da primeira edição alemã desta obra e informa que foi produzida no inverno de 1846-1847 em crítica ao ícone do socialismo francês, Joseph Proudhon (France/Besançon, 1809-1865) que tinha lançado O Sistema de Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria.

Proudhon trabalha conceitos de valor de utilidade e o valor de troca. Marx dedica o primeiro capítulo, com um tom irônico, a contestar os argumentos do francês e assim comenta o movimento do valor de utilidade ao valor de troca como um “ato de transubstanciação” (p.32). Proudhon se permite a um ensaio de subjetividade nas relações de troca enquanto Marx, pautado pela sua teoria do valor determinado “pelo tempo de trabalho necessário para o produzir”, não considera a subjetividade mediante o peso da vontade ou do desejo do consumidor a influir na formação da demanda que provocará efeitos na precificação na relação com a oferta. Marx inclusive tenta adaptar o conceito ao avaliar a concorrência de acordo com sua teoria quando afirma que realiza a lei do que entende sobre a formação do valor.

Na teoria econômica de Marx sobre o valor não há espaço para considerar o papel do consumidor ou do tomador de bens, assim como do tomador de insumos ou recursos em processos produtivos a considerar expectativas de mercado. A economia de Marx é de uma mecânica rígida, totalmente atrelada ao fator tempo combinado com a mão de obra. Por isso Marx vê “depreciação” com valores de bens quando em queda nos mercados mediante diversos fatores, envolvendo escassez e efeitos na oferta, e no caso ilustrado no trecho, por conta da melhor eficiência econômica a possibilitar produzir mais por menos, o que tem íntima relação com a competição de mercado. A melhor eficiência econômica impõe a superação de processos produtivos que se tornam obsoletos e, mais um vez, por conta de sua teoria atrelada ao “tempo de trabalho”, Marx desconsidera que processos arcaicos são assim considerados pela produtividade inferior ao que se apresenta com mais eficiência. Por conta dessa teoria de Marx, muitos socialistas passaram a ter dificuldades para entender e aceitar processos inovadores de produção que possibilitar fazer mais com menos o que denota em economia o termo “escala”.

Marx, se estivesse entre nós, certamente ficaria escandalizado com a “depreciação” do valor do trabalho por meio de computadores e a economia digital diante das máquinas de impressão de seu tempo. Também teria sérios problemas com as máquinas de datilografia, as impressoras, o telex, o fax e os celulares. Fico a pensar como Marx adaptaria sua teoria ao saber das lâmpadas led diante da vela e dos candeeiros (a lâmpada incandescente também o abalaria, inventada 12 anos após sua morte). Acredito que Marx poderia ter um mal estar ao ver os atuais chãos de fábrica automatizados diante do que observou nas fábricas de seu tempo. E o maquinário em lavouras gerenciadas por computadores e sistemas? Lançaria uma série de livros intitulados Miséria da Filosofia com incontáveis volumes e acredito, teria um enorme sucesso entre seus adeptos tão avessos a “depreciação” do trabalho pela sua curiosa teoria do valor dos produtos; um público que, diga-se de passagem, é chegado a um iPhone. Para não deixar Marx tão estressado, nem vou entrar em detalhes sobre a robotização a substituir o trabalho humano repetitivo, enfim, Marx está no século XIX e seus seguidores juntos com ele , pelo menos quando pensam em economia, enquanto o mundo (e ecidentemente não foi desde o século XIX) segue em processos que possibilitam a oferta de bens por preços cada vez mais acessíveis enquanto, concomitantemente, com lucros retornados que mantêm o interesse daqueles que atuam no investimento para a produção.

01/06/2022 20h00

Imagem: flickr oficial

Olavo de Carvalho

“Geisel adota uma política econômica socializante da qual pagamos o prejuízo até hoje, tolera a corrupção, inscreve o Brasil no eixo terceiro-mundista anti-americano e ajuda Cuba a invadir Angola, um genocídio que não fez menos de 100 mil vítimas (o maior dos crimes da ditadura e o único autenticamente hediondo — contra o qual ninguém diz uma palavra, porque foi a favor da esquerda). Figueiredo prossegue na linha de Geisel e nada lhe acrescenta – mas não se pode negar-lhe o mérito de entregar a rapadura quando já não tinha dentes para roê-la.”

Obra: Resumo do que penso sobre 1964. Bah! (jornal universitário gaúcho), maio de 2004. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Editora Record, São Paulo, 2017, formato físico. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo, 1947-2022).

O regime militar 64-85 não raramente é objeto de saudosismo, no entanto, o modelo econômico adotado provocou danos que até hoje repercutem na livre sociedade produtiva brasileira. Digo “livre sociedade” porque a parte dos “amigos do rei”, com empresários forjados em gabinetes e projetos de lei, como sempre, se deu bem na ampliação do capitalismo de Estado, enquanto no tablado político, o regime descambou para um conflito entre facções totalitárias de esquerda e os militares que ilustram bem a tese que tenho sobre o “socialismo de direita”.

O uso das estatais para endividamento da máquina pública foi uma marca dos governos militares, sobretudo o de Geisel, mencionado por Olavo de Carvalho. Foram mais de 300 empresas-cabides-de emprego inventadas pelos patriotas de farda. Adolfo Sachsida, hoje ministro (Minas e Energia), em 2013 apresentou uma interessante análise [54] em referência a 2015-2017 emergir entre semelhanças da era Dilma com a dos militares no final dos anos 1970. Por ironia, Adolfo Sachsida hoje está no governo apoiado por saudosistas dos militares e que, por isso, aumentou a ocupação e o corporativismo dos quartéis, mas o ministro Sachsida parece na linha liberal a trabalhar duramente por privatizações no setor elétrico.

Foram os militares que orquestraram a centralização de institutos de previdência no INPS, pelo Decreto nº 72, de 21 de novembro de 1966, que viria a ser o INSS em 1990. Lançaram as bases da pirâmide financeira previdenciária que foi sacramentada na Constituição de 1988.mia,

Os heróis de farda, para muitos brasileiros que pensam que economia se resolve por decreto, instituíram o Banco Nacional de Habitação (BNH) em 1964 na base de subsídios, porque queriam “promover a construção e aquisição da casa própria, especialmente pelas classes de menor renda” [55]. O BNH rapidamente faliu.

A Transamazônica entrou para o rol das obras faraônicas e inacabadas, costume que muitos associam apenas aos regimes tidos como “de esquerda”; um escandaloso caso de alocação indevida de recursos que queimou fundos e até nossos dias tem repercussão negativa na economia.

O intervencionismo de farda fez significativas mudanças no sistema tributário e elevou bastante a arrecadação federal que pulou rapidamente de 7,8% em 1963 para 11,1% em 1966 [56]. Criaram o PIS/PASEP em 1970 [57] e a Finsocial em 1982 [58], fortalecendo uma agenda socialista que fez a CTB aumentar significativamente. Pelo PAEG de Roberto Campos (viria a ser o mais famoso liberal brasileiro, frustrado com as experiências milicas) e Octávio Bulhões, estruturaram a Receita Federal.

Estudando a CLT, onde neo-nazi-fascistas, socialistas e comunistas se encontram fraternalmente, o histórico de alterações entre 04/1964-1985, além do FGTS, obteve no período dos militares a expansão de dispositivos com regramentos e meticulosos procedimentos de controle social de empresas. No período dos militares foram criadas as obrigações CAGED (1965, o primeiro eSocial) e a RAIS (1975), o segundo “eSocial” do Big Brother trabalhista da Pindorama Soviética.

Se tem uma coisa que a esquerda brasileira se aproveitou bastante na “redemocratização” e na chegada de Lula ao poder em 2002, foi de todo esse arsenal “socializante” (tomando por empréstimo o termo usado por Olavo de Carvalho) desenvolvido pelos governos militares 64-85.

54. Sachsida Alerta: A Década de 1970 está de volta!!!

55. Ver FGV CPDOC – BANCO NACIONAL DA HABITACAO (BNH),

56. Brasil de Castelo a Tancredo. Thomas Skidmore, página 75 (1988).

57. Leis Complementares 7, de 07 de setembro de 1970, e 8, de 03 de dezembro de 1970.

58. Ver A COFINS – UMA BREVE HISTÓRIA, de Joé Antonio Schöntag

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Comentário

  1. Olhando o outro site, você deve ter uns 35 anos e pela minha idade posso chamá-lo assim: Filho, seu trabalho aqui é esplendoroso. Alguns desses livros li, outros decidi ler por causa de seus comentários que, pelo menos, despertam o interesse, atiçam a curiosidade. Você deve ser uma pessoa muito especial. Continue assim, Deus permita e te ilumine.

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