E eis que Uma leitura ao dia prossegue com recomendações e notas regadas a peças de Johann Sebastian Bach (Sacro Império Romano-Germânico/Eisenach,1685-1750), maravilhosamente tocadas pelo grande violoncelista britânico Steven Isserlis (UK/London, 1958).

31/07/2022 13h13

Imagem: DW

Karl Marx

“Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher. Consequentemente, não sou feio, porque o efeito da fealdade, o seu poder de repulsa, é anulado pelo dinheiro. Como indivíduo, sou manco, mas o dinheiro fornece-me vinte e quatro pernas, portanto, não sou manco; sou um homem detestável, indigno, sem escrúpulos e estúpido, mas o dinheiro o objeto de honra, por conseguinte, também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, e deste modo o seu possuidor é bom.”

Obra: Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Capítulo 5. Segundo manuscrito. Dinheiro. Edição da Martin Claret, 2003, São Paulo, formato físico. De Karl Marx (Reino da Prússia/Renânia-Palatinado/Tréveris, 1818-1883)

E esse meu curioso hábito de deixar o Marx sempre juntinho do Mises…

Marx cita Shakespeare em Tímon de Atenas [90]; o dramaturgo inglês poeticamente faz uma crítica sobre a ideia da riqueza, representada na forma de “ouro”, definir virtudes naqueles que a possuem.

Um pouco adiante, Marx afirma:

“Se o dinheiro é o vínculo que me liga à vida humana, que liga a sociedade a mim, que me une à natureza e ao homem, não será ele o laço de todos os laços?”

Umberto Eco em A Fealdade [91], cita o primeiro trecho que destaquei como o feio “definido muito bem por Marx”.

Beleza e fealdade são conceitos dos mais relativos, no entanto, alguém considerado “feio” que se torna “belo”, ou pelo menos tratado assim, é algo facilmente verificável a um poder, diria econômico, e as “Marias chuteiras” estão aí para provarem…

Também esse “feio” que se torna “belo” não se resume a questão do dinheiro e pode ser observado pelo poder político, que supera qualquer prestígio econômico; penso em Cleópatra em seus dias de plena beleza que se afeiçoou por amor à estética militarizada de Júlio César, o general ditador da República de Roma que começava a conquistar terras muito além de península itálica. Homens da política com estéticas um tanto diferentes das damas que os acompanharam, assim se tornaram “belos” aos olhos femininos que pareciam se deslumbrar com o poder de seus “amados” em dar ordens que eram cegamente obedecidas. Assim se deu com Mussolini e Hitler, plenos de “beleza interior”, com suas acompanhantes devotas. Estar ao lado de homens poderosos parece ser um fascínio para muitas mulheres.

Marx como um materialista argumenta acerca dos dilemas terrenos da humanidade, e não poderia nada diferente de algo concreto, tangível. A ironia neste texto de Marx tem, no mínimo, a qualidade de colocar o leitor para pensar diante dos verdadeiros valores.

Então, o poder seja qual for, pode comprar todas as coisas? Toda visão materialista se torna por demais limitada para responder essa questão. Outra ironia é o que se desenvolveu como “marxismo” se revelou na história, pelo âmbito da ação política, como uma colcha de retalhos ideológicos, aparentemente no intento de reparar ou superar esse drama de forma violenta, por uma ruptura com o sistema estabelecido, em meio a hipocrisia em torno dos efeitos que podem ser considerados como derivados do uso do poder, contudo, em favor de outro poder temporal. E assim o mesmo veneno se torna “remédio” na visão crítica socialista dita “científica”.

No entanto, no mesmo capítulo Marx aponta uma questão muito interessante:

“Vamos supor que o homem é homem e que a sua relação ao mundo é humana. Então, o amor dó poderá permutar-se com o amor, a confiança com a confiança, etc. Se alguém desejar saborear a arte, terá de tornar-se uma pessoa artisticamente educada […]” (p. 171).

Teria sido Marx mal interpretado pelos próprios marxistas que o sucederam?

Uma verdadeira amizade está no âmbito de relações ou trocas de afeto onde o dinheiro nada significa. O afeto entre duas pessoas que decidem constituir uma família, em Marx como produto privado-burguês a ser destruído, estaria nessa reflexão? Uma questão consiste em saber se o problema suscitado nessa ironia se deriva do dinheiro em si, talvez seja melhor o termo riqueza ou capital (seja econômico ou político), ou de valores que norteiam o comportamento humano. Seria o poder um mal em si ou um mero instrumento que pode ser usado por virtudes ou vícios? Há um peso de moralidade que não pode ser descartado nessa análise.

O dinheiro pode comprar prestígio, apoio político, votos, definir eleições, prover um belo discurso… Alguém brutta figura, com dinheiro pode se passar por inteligente, fino, elegante, até erudito ou grande orador, mas não pode comprar a integridade do pensamento, nem a pureza da honestidade intelectual. O poder temporal compra a forma mas não pode garantir a qualidade, tampouco a genuinidade do conteúdo.

Dinheiro pode comprar beleza e até a sensação de felicidade, mas sempre no âmbito da forma ou aparência, e nada mais evidente do Brasil ter alcançado a posição de ser o país onde mais se realiza plástica estética no mundo [92]. No entanto, infelizmente, para quem no dinheiro ou na riqueza deposita esperança para tudo, a medicina não tem o poder de realizar um determinado tipo de “plástica” que possa resolver certas “rugas” e “gorduras localizadas” no espírito ou seja, eliminar a feiura da estupidez, da falta de educação, da ignorância, prima-irmã das conversas vazias, da inveja, dos vícios, das mentiras, da deslealdade, da falsidade, e de tantas outras coisas que São Paulo resume como “obras da carne” [93].

O poder pode ser instrumentalizado para a caridade, projetos sociais, justiça enquanto pode financiar guerras, genocídios e projetos de degradação moral. Marx, que se queixa ironicamente do dinheiro-poder ser o “bem supremo”, na prática, nas suas ideias anticonservadoras e em seus descendentes quando desdenham de valores mencionados pelo próprio Marx, nas relações pessoais, ambos, o original e os que o sucederam, se mostraram incapazes de interagir e reconhecer o peso de certas virtudes acima de qualquer tangibilidade humana, entre as quais: honra, conhecimento, responsabilidade, liberdade, sinceridade, honestidade, verdade, decência, respeito, caridade, amor e fé.

90. Nota do autor: Shakespeare, Timon de Atenas, Ato IV, Cena 3.

91. Aos Ombros de Gigantes. Lições em La Milanesiana 2001-2015, edição da Gradiva, Portugal, p. 69.,

92. Brasil é o top 1 mundial em número de cirurgias plásticas: 04/10/2021 – Portal Hospitais Brasil.

93. Gálatas 5:16-24

30/07/2022 18h20

Imagem: Mises Brasil

Ludwig von Mises

“Nossa civilização está inseparavelmente ligada aos métodos de cálculo econômico. Pereceria, se tivesse de renunciar a essa preciosa ferramenta intelectual da ação. Goethe tinha razão em qualificar a contabilidade de partidas dobradas como ‘‘uma das mais belas invenções da mente humana [3].”.

3. Nota do autor: Ver Goethe, Wilhelm Meister’s Apprenticeship, livro I, cap. X.

Obra: Ação Humana. Um Tratado de Economia. 3.1a. Edição pelo Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010, Capítulo 13. O Cálculo Econômico como um Instrumento da Ação. São Paulo, formato físico. De Ludwig Heinrich Edler von Mises (Áustria-Hungria/Leópolis, hoje cidade da Ucrânia, 1881-1973).

Economista mais importante em minha formação.

A contabilidade é uma ferramenta de análise dentro do escopo maior que diz respeito ao cálculo econômico, este último face às expectativas ou planejamento para futuras transações. A contabilidade de fatos econômicos versa a outras finalidades e envolve o registro e a apuração da ação passada e do que foi estimado. Na análise do cálculo econômico há um olhar abrangente de expectativas sobre o mercado sujeito a ação humana corrente assim como as expectativas mútuas de quem vai consumir, poupar e investir. As demonstrações contábeis se voltam a um olhar sobre o que aconteceu e ao provisionamento que não tem como tratar a ação humana em seu imponderável teor subjetivo ou, em outras palavras, o cálculo econômico é feito por avaliação nos mercados presente e futuro e demonstrações, como o balanço patrimonial e a DRE, são fotografias de resultados que passaram pelo mercado ou um “raio x” de um negócio em determinado instante assim como, eventualmente, um registro do quantitativo de expectativas do mesmo instante:

“[…] balanços e declarações são provisórios. Descrevem, na medida do possível, o estado das contas num instante arbitrariamente escolhido, enquanto a vida e a ação prosseguem sem interrupção.” (p. 265).

É muito importante compreender essa diferença entre contabilidade e cálculo econômico na avaliação de uma empresa porque no mercado, onde se desenvolvem as expectativas e os resultados fluem, há um peso de subjetividade em tomadas de decisões sob dispersão de conhecimento, tudo a compor resultados passivos de alteração a cada momento que afetam decisões de quem vai produzir, vender e comprar, enquanto a contabilidade se aplica como registro de fatos econômicos em um momento específico:

“Na realidade, as cifras mais importantes de uma contabilidade são especulações quanto às futuras condições do mercado. É um erro comparar os itens de qualquer registro contábil aos itens usados num cálculo tecnológico, como por exemplo, no projeto para construção de uma máquina. O engenheiro – no que se refere ao aspecto puramente técnico de seu trabalho – utiliza apenas relações numéricas estabelecidas pelos métodos experimentais das ciências naturais; o empresário tem de usar cifras que resultam de seu entendimento quanto à futura conduta das outras pessoas.” (p. 265).

De uma forma mais simples diria que a rentabilidade de um negócio ou investimento é o que passou e não serve de garantia futura pois há fatores de imprevisibilidade envolvendo mercados, escassez, políticas de governos e grandes players privados, eventos extraordinários (pandemias, guerras) sendo ou não “cisnes negros”, que modificam o comportamento econômico das pessoas. Tais fatores forçam os agentes econômicos a reavaliarem suas estimativas a cada momento, impactando preços de mercado que é a realização do cálculo econômico.

Cabe ao contador o papel social de observar, registrar, apurar e interpretar os fatos em determinado período passado, assim como registrar provisionamentos e expectativas ou estimativas (por exemplo, de crédito duvidoso) que afetam o patrimônio das entidades, cujo sistema moderno é o de partidas dobradas.

“É o sistema contábil de partidas dobradas que torna possível o funcionamento de um sistema gerencial. Graças a esse sistema contábil, o empresário tem condições de separar o cálculo de cada setor da empresa de maneira a poder determinar sua participação na empresa como um todo. Ele pode, assim, contemplar cada setor como se fosse uma entidade separada e avaliá-lo segundo sua respectiva contribuição ao sucesso global da empresa.” (p. 365)

Como dar subsídios ao tomadores de decisões, sem um preciso “raio x” onde se demonstra o efeito do ocorrido para que se possa amadurecer decisões para mudanças ou a continuidade de procedimentos em um negócio? A resposta passa pela contabilidade e termina na análise de mercado ou, em outras palavras, uma sociedade que despreza a contabilidade não terá condições de evoluir economicamente, assim como a receita para o fracasso econômico passa por decisões que ignoram os indicadores de mercado ou tentam modificá-los através de intervenções que desprezam a natureza humana carregada de subjetividade.

Parte da ineficiência econômica em muitas empresas se explica, não raramente, pela falta de contabilidade, pelo desconhecimento de resultados que indiquem causas e efeitos. Quando a contabilidade gerencial não é praticada em uma empresa penso em um avião sem instrumentos, pilotado apenas pela intuição de um piloto sem dados e pergunto: Quem se arriscaria a embarcar em tal aeronave?

29/07/2022 22h54

Imagem: CESEEP

Eduardo Hoornaert

“Abolir a escravidão? Nem pensar. Seria como abolir hoje o neoliberalismo, de vez. A ideia de se cobrar das primeiras comunidades ações e pressões junto às autoridades no sentido de se abolir a escravidão só pode surgir na cabeça de historiadores que não estudam a realidade vivida do cristianismo em cidades como Roma. O cristianismo nem por um momento pensou em abolir a escravidão [22].”

22. Nota do autor: Veyne, 1990, p.70.

Obra: Hermas no topo do mundo. III Orientais em Roma. Edição da Paulus, 2022, São Paulo, formato físico. De Eduardo Hoonaert (Bélgica/Bruges, 1930).

Mais uma leitura do tempo de seminarista, 2004.

Hoornaert é historiador e um dos fundadores do CEHILA (Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina). Padre casado, foi professor de história em seminários de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982) e Fortaleza (1982- 1991) [87].

O trecho se refere aos contexto histórico do cristianismo romano em uma sociedade onde a escravidão era vista como coisa natural. Nesta mesma sociedade do século II foi produzida uma obra cristã importante: o Pastor de Hermas, de um ex-escravo de Roma cujo texto foi “lido em voz alta durante séculos em inúmeras comunidades cristãs.” (p. 5).

Na pragmática e militarizada sociedade romana, o escravo era um ser de categoria inferior, tratado como um bem ou recurso sob um ordenamento jurídico. Hoornaert lembra que a escravidão não foi contestada “nem por filósofos mais lúcidos nem pelos líderes religiosos mais éticos” (p. 39) e faz uso da expressão “patriarcalismo do amor” [88] sobre a orientação de São Paulo para que o cristão se comportasse como “bom senhor” na condição de possuidor de escravo.

“As comunidades cristãs vivem imersas nos segmentos da sociedade que não tomam decisões políticas nem fazem leis” (p. 39). Na sociedade romana se desenvolve a ideia estoica de “humanização da escravidão” que “penetra fundo no cristianismo” (p. 40), com base no relato de Tertuliano: “Os senhores separam menos os escravos de suas famílias, não vendem mais o marido sem a mulher ou os filhos, sepultam escravos em vez de jogar o corpo no lixo.” [89].

Ao longo de quase vinte séculos o cristianismo se desenvolveu em sociedades que tinham a escravidão como coisa regrada, jurídica, legal, normativa e penso agora na Obra Brasil, Uma História, de outro Eduardo historiador, o gaúcho Bueno, mencionada em janeiro, uma das primeiras desta série, onde se discorre sobre a escravidão na colonização do Brasil com ordens jesuítas portadoras de escravos. A infâmia da escravidão foi ética e moralmente contestada em um âmbito ideológico mais abrangente a envolver bastante questões econômicas e acabou sendo um centro de oportunismo para o progressismo (tablado social onde são travados os combates políticos) no tocante ao tema do racismo.

87. Prof. Esp. Eduardo Hoornaert – CEHILA Brasil

88. Em nota do autor, expressão é de Gerd Theissen em Sociologia da Cristandade Primitiva, Editora Sinodal, São Leopoldo, 1987.

89. Nota do autor, Veyne 1990, pp. 78-79.

28/07/2022 23h02

Imagem: Editora Rocco

Clarice Lispector

“Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar. […]”

Obra: Um sopro de vida (Pulsações) . Edição da Rocco Digital, no Kindle, 2020. De Chaya Pinkhasivna Lispector (Ucrânia/Chechelnyk,1920-1977).

Leitura recente. Foi a experiência literária marcante no último recesso.

Contexto de uma Clarice Lispector que estava enferma em 1974. A obra foi concluída em 1977, ano em que ela faleceu, com publicação póstuma.

Texto que retrata a impressionante capacidade de Clarice Lispector em refletir com elementos extremos em um aparente antagonismo. Vislumbra-se um vazio que em seguida se revela a considerar como “plenitude” em um desejo de ser “amante humilde” em “êxtase” de Deus. Uma coragem imensa cuja profundidade me faz lembrar, de alguma forma, o conceito de Übermensch de Nietzsche, no entanto com uma adaptação teológica.

A última parte foi a que mais me identifiquei nesse genial encontro de extremos que se encaixam:

“[…] Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar. […]

Registrei em Fly um sentimento que me veio à mente após essa experiência recente em combinação com anotações de outra, feita há 20 anos (sobre uma terminologia do romance 1984) :

E se metempsicose existe e eu for contemplado quando deste plano partir, havendo mesmo de renascer, e se tiver a oportunidade de pedir alguma coisa lá nas esferas do além, se não for abusar muito da imensa bondade divina, gostaria de reencarnar com um pingo da capacidade reflexiva de Clarice Lispector e vou alegar que tal atributo servirá a uma causa em benefício da minha espécie, que parece evoluir em muitas coisas enquanto urge em outras, por raízes primitivas em duplipensamentos.

27/07/2022 23h40

Imagem: GTU

Norman K. Gottwald

“Algum dia, durante o exílio ou no espaço de um século mais ou menos, após o primeiro retorno à Palestina, um sábio escreveu o Livro de Jó a fim de quebrar o domínio de um moralismo e dogmatismo que limitava a sabedoria a mistificações e fórmulas a respeito das aparências superficiais da vida.”

Obra: Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. Capítulo 12. 54. Escritos sapienciais, p. 533, Edição da Paulus, 1988, São Paulo, formato físico. De Norman Karol Gottwald (EUA/Illinois/Chicago, 1926-2022).

Leitura de 2005, época do seminário (2003-2007). Gottwald foi ministro batista, renomado professor de teologia com ênfase em estudos bíblicos voltados a teoria social. Foi também marxista e ativista político. Sua obra mais conhecida: The Tribes of Yahweh: A Sociology of the Religion of Liberated Israel.

E segue Gottwald no capítulo:

“Os que procuram no livro uma explicação clara do sofrimento inocente, têm dificuldades em encontrá-la, provavelmente porque nenhuma foi tencionada. O autor está satisfeito por estabelecer que existe sofrimento inocente, algo que a dogmática sapiencial não poderia tolerar.”

O sofrimento que supera os limites que a razão humana pode explicar, à mon avis, é o grande teor filosófico do Livro de Jó. Gottwald afirma que o Livro de Jó é “excêntrico” e “intensamente ‘psicológico'” (p. 536).

Segue uma reflexão sobre outro aspecto do Livro de Jó que me fascina, além do tema do sofrimento inocente:

Jó, em profundo sofrimento, passa por um longo diálogo com três amigos onde se discutem os dilemas em um tom existencial e eis que surge o tema da sabedoria atrelada à velhice (12.12). Bem mais adiante, Eliú, filho de Baraquel, mais jovem, vendo que os demais se recolheram ao silêncio diante das perturbadoras questões de Jó, decide então se manifestar e no exórdio afirma:

“Não é a idade avançada que dá sabedoria, nem a velhice o discernimento do que é justo.” (32.9)

Tenho mais amigos na idade que meu pai teria hoje que amigos na minha idade ou mais jovens. Talvez por tentar compreender o mundo procurando ouvir quem viveu certas épocas sem se iludir que a sabedoria está garantida nisso.

Ouvindo um grupo de senhores acima de 70 ciclos solares em um debate, onde eu não passava de um intruso então nas minhas 40 primaveras, fiquei meditando naquela conversa por soluções para problemas do Brasil. Ouvi (ultrapassadas) ideias mercantilistas em economia do século XVI serem apresentadas como se fossem novidades e percebi que todos ali não tinham noção do que estavam falando, muito menos da ineficácia de outras soluções que envolviam “tabelamento de preços”, algo que remetia à União Soviética, a maior experiência socialista da história que faliu em 1991 justamente por planificar a economia e ignorar leis de mercado. Senhores grisalhos que falavam em um estilo meio “sábio das montanhas” ávidos para explicar o sofrimento nacional, mas que não escondias suas paixões políticas e convicções rasas enquanto demonstravam desconhecer o progressismo no Brasil nos anos 1970, onde demonstravam certo saudosismo.

Um tempo depois, outro grupo de grisalhos acima de sete décadas me deixou por mais de duas horas anotando referências bibliográficas e nomes de autores que eu nunca tinha ouvido falar, assim como ideias que envolviam obras de filosofia, economia, teologia, sociologia que até então eram novidades para mim. Notei que uma diferença deste grupo para o primeiro grupo estava no fato de que seus articuladores tinham muitas questões em aberto e poucas certezas.

Acredito que a sabedoria e a maturidade fluem com o tempo dependendo de como cada pessoa aproveita o que dispõe, aprecia as coisas do espírito e dá valor ao conhecimento. Muitos envelhecem em um binário fora do compasso onde a idade cronológica avança, mas a da maturidade não acompanha e com o passar do tempo se tornam mais suscetíveis a preconceitos, intolerâncias e convicções rasas sobre diversos aspectos da vida. Outros se tornam poços de sabedoria. Entendo que a chave está na espiritualidade que se relaciona com a busca da maturidade e o cultivo da humildade para procurar um sentido existencial a si mesmo, ler o mundo, interagir com conhecimentos, servir e viver em constante aprendizado enquanto se proporciona um legado.

Dicebat Bernardus Carnotensis nos essi quasi nanos gigantium humeris insidentes, ut possimus plura eis et remotiora videre, non utique propii visus acumine, aut eminentia corporis, sed quia in altum subvehimur et extollimur magnitudine gigantes. [86]

86. Aos Ombros de Gigantes. Lições em La Milanesiana 2001-2015, edição da Gradiva, Portugal, p. 22: “Bernardo de Chartres dizia que somos como anões aos ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude de nossa estatura ou da acuidade da nossa visão, mas porque, estando aos seus ombros, estamos acima deles.”

26/07/2022 21h04

Imagem: Nobel Prize

Friedrich August von Hayek

“A ideia de que o direito pode ser criado por homens é estranha ao pensamento das pessoas primitivas. Foi apenas a crença ingênua de idades posteriores mais avançadas de que toda lei deve repousar sobre legislação. De fato, o direito civil romano clássico, sobre o qual o compilação final de Justiniano foi baseada, é quase inteiramente a produto da busca da lei por juristas e apenas em uma extensão muito pequena o produto da legislação.[…]

[…] O único país que conseguiu preservar a tradição da Idade Média e construiu sobre as ‘liberdades’ medievais a moderna concepção de liberdade sob a lei foi a Inglaterra. Isso foi em parte devido ao fato de que a Inglaterra escapou de uma recepção indiscriminada do direito romano tardio e com ele a concepção do direito como criação de algum governante; mas foi provavelmente devido mais à circunstância de que aos juristas do direito consuetudinário haviam desenvolvido, concepções um tanto semelhantes às da tradição do direito natural, mas não expressas na terminologia enganosa dessa escola.”

Tradução livre.

Obra: Law, Legislation and Liberty. VOL I. A new statement of the liberal principles of justice and political economy. THE CHANGIN G CONCEPT OF LAW. The classical and the medieval trandition. Routledge, 1982, London. De Friedrich August von Hayek (Áustria/Viena, 1899-1992).

Obra em três volumes: Rules and Order, The Mirage of Social Justice e The Political Order of a Free People.

Conhecê-la em 2008 foi marcante em dois sentidos: primeiro pude perceber a grandeza intelectual de Hayek depois das leituras de Ação Humana (do sábio Ludwig von Mises) e de O Caminho da Servidão (minha primeira leitura de Hayek), a indicar o quanto precisava aprender com a Escola Austríaca; segundo, despertou meu interesse pela Roma antiga e pela Idade Média, e como desdobramento, meu afeto pela língua italiana.

Uso Lei, Legislação e Liberdade como um centro de referências bibliográficas para o que Hayek dedicou grande parte da vida: estudar sistemas jurídicos em função do que representam no desenvolvimento dos países, identificando a tradição common law (inglesa) baseada no direito natural e a  civil law onde se determinam os papéis do poder estatal para legislar sobre o indivíduo a centralizar o estado.

A common law tem a natureza de limitar o coletivismo governamental em função dos papéis simbióticos entre indivíduos, a reger decisões dos tribunais por direito comum, independentemente da vontade de qualquer um, a considerar costumes ou regras em um sistema pelo qual o parlamento faz poucas intervenções; a conduta justa e o direito comum existem independentemente de autoridade para legislar.

A partir desta obra pude compreender melhor a distinção entre “lei” e “legislação”. A “lei” diz respeito ao direito natural, ao que está na natureza e envolve o desenvolvimento das tradições humanas ao longo das civilizações. A legislação é um produto jurídico de uma camada política intervencionista para normatizar a sociedade por aparato coercitivo.

O mundo hoje é regido pela civil law, com raiz no “direito romano tardio” e com a releitura da Revolução Francesa, um divisor de águas no escopo intervencionista em torno do aparato legislativo estatal que fomenta “engenharia social” com base na imposição de normas legais. O progressismo, o socialismo e toda forma de coletivismo em torno do estado dependem dos avanços da civil law, onde o senso comum consiste em indivíduos passivos com legisladores determinando como devem viver e conduzir seus negócios, suas relações sociais, e até familiares, em detrimento da liberdade e da responsabilidade que são vetores do indivíduo.

25/07/2022 21h26

Imagem: University of Oxford

Carl Benedikt Frey

Imagem: robots.ox.ac.uk

Michael A. Osborne

“Neste artigo, fazemos a pergunta: quão suscetíveis são os empregos atuais a esses desenvolvimentos tecnológicos? Para avaliar isso, implementamos uma nova metodologia para estimar a probabilidade de informatização para 702 ocupações detalhadas. Com base nessas estimativas, examinamos os impactos esperados da futura informatização sobre os resultados do mercado de trabalho, com o objetivo principal de analisar a número de empregos em risco e a relação entre a probabilidade de uma ocupação de informatização, salários e nível educacional.”

Tradução livre.

Obra: The future of employment: How susceptible are jobs to computerisation? Paper. Oxford University, publicação online, 2013. De Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne.

Paper de Carl B. Frey, diretor do programa sobre o Futuro do Trabalho, na Oxford Martin School, e de Michael A. Osborne, pesquisador de aprendizado de máquina, expert em processo gaussiano.

Probabilidade, por processo gaussiano, de 99% para a total substituição de operadores humanos por métodos de automação computacional em serviços de preparação de guias de impostos (tax preparers). Escriturários de contabilidade e auditoria foram estimados em 98%. Contadores e auditores, 94%.

Muitos contadores que estão exclusivamente concentrados em serviços de preparação de guias de recolhimento (tax preparers, no artigo), demonstram preocupação com o que entendem por “desvalorização” no mercado e, parece, não percebem que seus maiores concorrentes não são seres humanos, colegas de profissão, e sim equipamentos e sistemas robotizados que estão lhes substituindo em trabalhos repetitivos. Esse concorrente não pode ser vencido no meio produtivo e não é uma novidade deste século. Nos anos 1980, o normal de escritórios contábeis era de um cenário de muitas mesas, funcionários exercendo muita repetição, preenchimentos e apurações manuais, máquinas de datilografia e imensos armários para armazenar documentação física. Com a informatização, trabalhos repetitivos começaram a ser aplicados em sistemas e o cenário foi mudando. A popularização da internet, a partir do final dos anos 1990, deu um novo impulso a esse processo. A crescente automação e robotização cada vez mais acessível para serviços da burocracia tributária possibilitam enorme ganho de produtividade com aplicação de recursos não humanos, que não têm “direitos trabalhistas” e podem operar 24 horas ao dia, o que impacta severamente os custos e desemboca em preços que são mais econômicos aos tomadores de serviços, enquanto viáveis na realização de lucros para quem utiliza a economia de escala, pela maior capacidade de processamento.

Considero o fator da “auto extinção” do contador como um agravante. O que quero dizer é o caso do contador que abdica de tentar uma atuação como contador em trabalhos onde a contabilidade está para a gestão e não apenas para atender ao manicômio tributário nacional na função de despachante. Considerando o paper, e se cada vez mais raro está o trabalho de contabilidade voltada à gestão, onde estão os de estimativa em 94%,(contadores e auditores), a decisão de se pautar no lado dos darfistas terá um duro preço no comodismo de explorar uma atividade que exige uma qualificação bem inferior. Os tax preparers ou tax makers (os de altíssima probabilidade de substituição, 99%) entraram em um mercado em espiral auto destrutiva onde fatores não humanos determinarão preços em queda; contadores que só fazem impostos, talvez, poderão se manter por mais um tempo, enquanto dependentes da reserva de mercado do CFC que impõe o registro para o cumprimento de muitas obrigações acessórias. Não ficarei surpreso se muitos tax makers se iludirem com isso, achando que se trata de algo sustentável. A tecnologia ao massificar a oferta de serviços, impõe preços cada vez mais em queda e o mero legalismo de se portar CRC está sob esse efeito em commodities de serviços fiscais. Nesse ambiente de forte competição por preços, muitos deixarão o mercado por não terem aptidão para lidar com as tecnologias, enquanto outros tantos se adaptarão na economia de escala com sistemas e estrutura de capital humano compatíveis com a nova realidade. O profissional de contabilidade provavelmente terá outro perfil, muito próximo com o de profissional de TI.

Penso que o contador que encontrou mercado com contabilidade gerencial não sentirá esse forte abalo por um certo tempo; mantendo-se distante da manada, faz parte de uma minoria, é escasso, por isso caro; seu capital humano é muito superior e sua expertise levará mais tempo para ser afetada por sistemas computadorizados que coletam, organizam e aplicam dados “aprendendo” a tomar decisões e são mais conhecidos por “inteligência artificial”.

24/07/2022 12h48

Imagem: Lotus Press

Peter Hubral

“Concordei com o físico alemão Max Born (1882-1970): A crença de que existe apenas uma verdade é o mal mais profundo deste mundo. Afirmar possuir a única verdade está muitas vezes ligado ao desejo de reconhecimento, poder e dominação dos outros. É frequentemente a base da intolerância, pois os crentes que afirmam possuir a verdade querem forçá-la aos outros.”

Tradução livre.

Obra: The Lao Tzu Code: Key to ancient Chinese and Greek natural life care and search for truth. 1.0 Traditional world and self-creation (kosmogonía). In search of truth about the self and the world. Edição da Lotus Press, Lohne, 2014, eBook Kindle. De Peter Hubral (Alemanha, 1940).

O professor Peter Hubral publicou interessantes obras de filosofia em sequência: The Lao Tzu Code, The Plato Code, The Socrates Code, disponíveis em inglês; em alemão foram Geheime Dao-Schöpfungslehre: Moderne Dao-Praxis erklärt die älteste und aktuellste chinesische und universelle Welt, Der Glaubensfreie Universelle Erleuchtungsweg (I, II) e Mit Wuwei zum Dao: Mit philía (Wuwei) zum lógos (Dao) – Ursprung und Sinn der Taiji-Praxis. Um “hobby” (e tanto) enquanto titular da Cátedra de Geofísica Aplicada do Instituto Geofísico da Universidade de Karlsruhe, na Alemanha. E alguns me perguntam o que estou a fazer neste espaço e “hobby” também me vem à mente…

Em O Código Lao Tzu é abordado o Tai Chi do mestre Dao Fangfu. O professor Hubral demonstra as relações desta sabedoria com a tradição grega (pitagórica/platônica) com impressionante domínio e riqueza de citações. O livro é recomendável para quem deseja conhecer mais profundamente as contribuições da filosofia oriental, em especial o Tai Chi, para as ciências cognitivas, terapêuticas e medicinais.

Quanto ao trecho, Na busca da verdade sobre o meu eu e o mundo, penso, a verdade é e estou naturalmente muito distante dela. O meu comportamento (humano) diante de sua relativa descoberta se trata de outro problema. O fato de indivíduos se promoverem por conta de conhecerem algo que acreditam ser verdadeiro, não vai mudar a natureza da verdade, tampouco dividi-la para atender a conclusões antagônicas.

O problema está no ser humano. Talvez as diversas, e muitas vezes incontáveis, camadas onde a verdade é desejada, onde se tem alguns lampejos, possam ser interpretadas como fatores para mais de uma verdade sobre um determinado objeto ou problema. Talvez o que se tem como “verdade absoluta” não passe de uma camada rasa sobre algo que pode levar, inclusive, a interpretação equivocada e a conclusão falsa sobre questões mais profundas, mas o fato de estar em uma determinada camada sobre um problema e perceber outra, não significa que se tem mais de uma verdade e sim uma suposta verdade pontual. Outra questão é saber se é possível o ser humano alcançar uma verdade absoluta sobre qualquer coisa ou se a verdade será sempre uma questão parcial, inclusive submissa a revisão que pode desqualificá-la como tal, onde se situa a questão na ciência moderna; o que é verdade hoje pode não ser amanhã, pois se trata de um conhecimento relativo, parcial, aberto a contestação, ou seja, uma camada de esforço em busca de uma verdade, que certamente se situa um tanto distante do fechamento da questão maior que a envolve.

E se alguém “possuir a única verdade” que se liga “ao desejo de reconhecimento, poder e dominação dos outros”, tal problema não se resume ao âmbito religioso. Na política é possível observar o problema a que o professor aponta no trecho e até imagino que a concordância com Max Born possa ter um pouco de um louvável espírito de prudência, quem sabe em função do que a história no século XX ensinou na mesma Alemanha onde trabalha; pessoas crentes de que estavam com a “verdade”, em termos absolutos, sob um explorado pueril desejo de “forçá-la aos outros”, sedimentaram o caminho político ideológico para um ditador genocida que promoveu um dos mais desumanos regimes que se tem notícia.

23/07/2022 10h40

Imagem: Prêmio Nobel

Theodor Mommsen

“[…] a mulher e os filhos estão na mesma condição do escravo, muitas vezes autorizado a constituir família e, com autorização do senhor, também a alienar. O pai poderia até vender o filho a um terceiro, como se fazia com o escravo […]”

Tradução livre.

Obra: Storia di Roma. Quinto Capitolo. La Costituzione Originaria di Roma. Edição de Greenbook, 2020, Roma. De Christian Matthias Theodor Mommsen (Alemanha/Garding, 1817-1903).

Mais um clássico de história da antiguidade romana em língua italiana.

Leitura mais importante deste ano, até o momento.

Dentro da casa paterna romana os bens e tudo o que era produzido pertencia ao pai. Enquanto o pai vivesse, os sujeitos à sua autoridade não podiam possuir bens que produziram ou trabalharam no aumento do patrimônio. Não era permitido que os subordinados ao pai alienasse, nem tinha validade como herança, salvo se existisse uma autorização do pai. É nesse contexto de autoridade de um chefe de uma casa romana que a mulher e os filhos se situam na mesma condição do escravo.

Dentre os princípios normativos dos antigos romanos desde, pelo menos, cinco séculos antes de Cristo, a mulher era propriedade do marido e não podia exercer poder sobre si mesma. Quando o marido falecia, a família continuava por meio de uma “tutela” exercida sobre a viúva cujo comando era automaticamente repassado para os parentes masculinos mais próximos; filhos podiam exercer esse poder de tutela sobre a mãe, dependendo das circunstâncias, e os irmãos sobre as irmãs.

“O poder paterno e marital foi transformado em um direito de propriedade”, sintetiza o autor. Nesse contexto, os filhos podiam ser negociados em acordos de casamento ou simplesmente vendidos. Essa passagem de História de Roma me fez lembrar o caso da Jovem Júlia, com 20 anos, filha do general Caio Júlio César (100 a. C – 44. a.C), usada como moeda de troca em casamento com o general Gnaeus Pompeius Magnus (Pompeu, 106 a.C – 48 a. C) para sedimentar uma aliança política que fez parte do processo de consolidação do primeiro ditador romano sobre a velha república, que se tornaria o Império Romano.

No entanto, a autonomia de governo do chefe da família poderia ser alcançada pela religiosidade romana, onde normalmente era declarado “anátema” aquele que vendesse a própria esposa ou o filho casado, visto que havia a observância rígida de normas de propriedade envolvendo matrimônio.

Um filho natural em um matrimonio é assumido por decisão do chefe da família quando decide criá-lo; torna-se assim propriedade do pai, mas havia o direito a “exposição” que era uma forma de dar o filho rejeitado a alguém ou até mesmo criá-lo como escravo. Diz o autor que “na consciência do povo romano estava profundamente ligada a fundação da família e da criação dos filhos que não eram tanto em um fato natural como uma necessidade moral e um dever do cidadão”.

O direito de propriedade da filha solteira era repassado do pai para o marido na ocasião de um legítimo matrimônio. Não existia maioridade no sentido de autonomia quando se atinge uma determinada idade; o poder paterno sobre os filhos cessava quando se casavam ou quando os vendia. Uma casa romana estava sob uma severa disciplina onde o pai também exercia a função de juiz em um tribunal doméstico, sendo único representante legal para exercer julgamento sobre a esposa ou um filho(a), onde tinha que consultar um parente próximo seu e da família da esposa. Tratava-se de um mera consultoria sem poder decisório do convidado. O chefe da casa era quem dava a sentença.

Em caso de adultério estava prevista a pena de morte. Neste contexto se insere a tragédia de Lucrécia, a qual me remeto a outra obra italiana [84]. Em campo com os soldados, em meio às habituais guerras por conquistas de territórios, Sexto Tarquino, filho do rei Lucius Tarquinius Superbus (535 – 496 a.C.) mais conhecido como Tarquínio, o Soberbo, que adorava confiscar bens de quem não lhes rendia apoio, jogava conversa fora com seu sobrinho, o prefeito da cidade, Lúcio Tarquino Colatino, sobre as virtudes de suas respectivas esposas, cada um, claro se auto proclamando um “bom marido”. Montanelli diz que provavelmente os dois conversavam em uma tenda mais ou menos assim: “a minha é uma esposa honesta. A tua deve te colocar chifres.”. Bem, é o estilo de Montanelli… Decidiram então fazer uma aposta e naquela noite voltaram do acampamento de guerra para tentar surpreende-las, quem sabe as flagrando em algum ato de infidelidade. Encontraram a mulher de Sexto se banqueteando com amigos, se aproveitando da “viuvez temporária” (Montanelli de novo ilustra a situação com a ironia peculiar), se desejando cortejar. Já a esposa de Colatino, Lucrécia, como uma exemplar dama romana, foi vista em casa costurando uma roupa para o marido vestir, quem sabe após retornar de uma batalha. Colatino ficou orgulhoso por ter vencido a aposta, mas Sexto não se deu por vencido e passou a seduzir a prendada Lucrécia que tentava resistir às investidas, porém “um pouco com violência e outro pouco com astúcia”, diz Montanelli, Sexto venceu a resistência. Abre a discussão sobre um estupro. A dama então chamou o marido e o pai, que também era senador, e contou o ocorrido. Em seguida, provavelmente movida por desgosto profundo, e certamente sabendo o que a aguardava em uma provável investigação e julgamento de adultério, Lucrécia se matou apunhalando o coração. O suicídio se relaciona com uma crise política que derrubou o que seria último rei de Roma antes do Império [85].

Volto à obra de Theodor Mommsen, o poder patronal sobre os filhos, exercido pelo típico chefe de uma família romana, era tão intenso que se vendesse um servo, e o comprador o tornasse livre, o indivíduo seguiria em sua autonomia, mas o mesmo não acontecia em caso de um filho vendido, quando liberado pelo comprador voltava para o controle de propriedade do pai.

Novamente fico então a meditar na profundidade da mudança disseminada pelo pensamento cristão, a considerar o estabelecimento das tradições mais antigas dos romanos, seis séculos adiante quando Roma era o centro político e jurídico do mundo ocidental e na Carta aos Efésios se instrui sobre a “mútua submissão” entre marido e mulher…

84. Historia de Roma. Edição em espanhol. Peguin Rabdom House Grupo Editorial, 2014, Barcelona, eBook Kindle. De Indro Montanelli (Italia/Fuccechio, 1909-2001).

85. Na luta política pelo poder, oportunidade e falta de escrúpulo costumam estar do mesmo lado e tal ocorrência costuma não poupar sequer familiares. E eis que o suicídio de Lucrécia acabou sendo usado para arquitetar um golpe de Estado; a tragédia familiar alimentou uma trama política contra o monarca, movida por um familiar, Lúcio Júnio Bruto, sobrinho do rei, que tinha assassinado o seu pai, viu uma oportunidade para se vingar com a “infâmia” sobre Lucrécia atingindo a cúpula do poder e assim reuniu o Senado, contou tudo e propôs a remoção do rei e a expulsão da cidade de toda a família real (exceto a dele, claro, visto que era sobrinho do rei). O rei então ficou sabendo da trama e tentou restabelecer a ordem na cidade enquanto as legiões, que compunham as força armadas, se rebelaram com a situação ficando caótica, e assim saíram do campo de batalha e marcharam para a cidade. O rei, percebendo que tinha perdido o controle da situação, fugiu desesperado para pedir hospitalidade a Porsena, primer magistrado da cidade de Clusium. E caiu Lúcio Tarquínio Soberbo, o último rei de Roma; foram sete durante 246 anos. Em seguida, proclamaram a República que assim nascia na Cidade Eterna 509 anos antes de Cristo.

22/07/2022 23h04

Imagem: BBC

George Orwell

“‘Controle da realidade’, era a designação adotada. Em Novafala: ‘duplipensamento’. […] estar consciente de mostrar-se cem por cento confiável ao contar mentiras construídas laboriosamente, defender ao mesmo tempo duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são contraditórias e acreditando nas duas […]”

Obra: 1984. Parte I.3. Edição da Companhia das Letras, 2009, São Paulo, formato físico. De George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair (Índia/Motihari, 1903-1950).

Romance está no meu TOP 10.

O produto deles é o melhor desde que eu esteja lá para anunciá-lo – A conversa com um analista de negócios de uma grife de TI estava cansativa. Perdi as contas de quantas vezes usou a expressão “temos a melhor plataforma cloud do mercado”, como se fosse um mantra. Encerrado o show, fui ao “pé do ouvido” e o lembrei que ele dizia exatamente o mesmo, e na mesma intensidade, quando estava na outra empresa de TI, agora sua concorrente. Com o senso de humor que lhe é peculiar, sussurrou: “o deles (do concorrente) é o melhor, desde que eu esteja lá para anunciar” (risos).

A outra marca é a melhor, tanto quanto a minha – Procurando uma bomba-hidro em uma loja de materiais de construção, fui atendido por um promotor de vendas que tentava me convencer, com aquela empolgação da primeira venda do dia, de que a empresa que representa “oferece a melhor opção do mercado em termos de qualidade e potência”. Questionei o rapaz sobre opiniões contrárias de profissionais especialistas em instalar esse tipo de equipamento, que me apontaram a outro fabricante. Ele então argumentou, falando discretamente, que “a outra é mesmo a melhor, tanto quanto a minha”. Então, soltou um discreto sorriso ao notar o meu sarcástico “compreendo”.

CLT protege o trabalhador, apesar de prejudicá-lo – Um advogado e professor universitário, conversando sobre a “reforma trabalhista” de 2017, concordou com as evidências que apresentei e até achou espirituosa a minha afirmação de que a CLT “protege tanto” o trabalhador que o deixa sem emprego. No entanto, contra argumentou que a CLT é “insubstituível”, por ser um “preço a ser pago” pela sociedade em favor do que chamou de “civilização” diante dos “problemas do capitalismo sem freios”. Então, repliquei sobre o que significaria a tal da “civilização” na concepção de um trabalhador com baixo capital humano, produtivamente fraco, alijado do mercado pela incapacidade de atingir uma cota mínima de qualidade face aos custos impostos pela CLT, tendo que sobreviver por programas sociais, obviamente, bancados pelo meio produtivo que acaba ficando encarecido, afetando a mesma sociedade com os custos da ineficiência na alocação de recursos. Questionei se era mesmo uma coisa civilizatória tentar resolver o problema por legislação, como se tenta há mais de 70 anos no Brasil. Ele rebateu dizendo que a CLT “deve ser preservada, de todo jeito, pois protege o trabalhador, apesar de prejudicá-lo”.

O projeto é bom, mas estou descrente de sua eficácia – Segundo matéria do G1, de 12/08/2018 [83], o então presidente da Fenacon, Sérgio Approbato Machado Junior, sobre o eSocial, afirmou que o projeto é “bom”, mas está descrente de sua eficácia. Ato falho? Bem, penso que o eSocial seja mesmo bom para o aparato estatal e as eSocialites (quem vive do Custo Brasil e do estado corporativo) e tão-somente para tais, e de fato é ineficaz para o meio produtivo, que vai usá-lo por coerção.

Os exemplos acima não são exatamente casos onde o “duplipensamento”, elaborado por Orwell no romance “1984”, foi aplicado com eficiência. “Duplipensamento” consiste em aceitar duas opiniões que se anulam uma à outra, contraditórias, autoexcludentes, em um exercício que recorre à lógica para questionar a lógica. Trata-se de um instrumento para discurso corporativo.

Se fossem “prendados” na prática do “duplipensamento”, o analista de TI e o promotor de vendas me diriam, sem demonstrar qualquer hesitação ou ar irônico, em favor de uma das “verdades” que lhes fosse mais apropriada no sistema de “duplipensar” e se adaptariam ao contraditório rapidamente, de acordo com as circunstâncias. Demonstraram explícito conflito e falta de firmeza; faltou-lhes aquela fé inabalável de que “2+2=5”, como se conta no romance. No caso do advogado militante de esquerda (pleonasmo muitas vezes), é possível algo trazer benefícios e danos, cabendo analisar se os ganhos compensam as perdas. Já no dito de Approbato Machado Junior sobre o eSocial, um militante do eSocial bem treinado teria produzido um conteúdo corporativo fechado em uma concepção, embora conflitos estejam nas entrelinhas para os mais atentos, o eSocial seria apresentado com algo “bom”, “eficiente” e “eficaz”, independente dos fatos. Vi abordagens assim entre eSocialites que retratam a “verdade” estritatamente por narrativa que se caracteriza pela firmeza de quem a apresenta; não há espaço para uso de termos conflituosos de forma tão explícita. Uma das eSocialistes, à época vista como palestrante de referência, certa vez me confessou ser impensável emitir alguma crítica ao projeto sob pena de não ser mais convidado para dar palestras.

Discurso político, o lugar habitual do duplipensamento – Não há nada mais significativo no uso do duplipensamento que o discurso político, sobretudo o de palanque. A aplicação do duplipensar é um instrumental para forjar uma crença inabalável em fraudes para induzir o público a uma determinada convicção; trata-se de uma poderosa arma de doutrinação. Verdade e mentira passam a ser detalhes que dependem do público que vai ouvir a explanação. A prática do processo de “duplipensar” requer um rigoroso “programa de treinamentos” para inviabilizar todas as formas de pensamento que não interessam ao aparato ideológico a ponto de gerar uma obebdiência cega que supera as entrelinhas do juízo.

No contexto de “1984”, seria totalmente centrado no que o “Partido” define como “verdade”, sob o invólucro coletivista moldado pela crença na infalibilidade do “Grande Irmão” (Big Brother), o supremo líder que deve ser amado no adestramento e pelo medo de um sistema de vigilância (teletelas) contra qualquer evidência de “pensamento-crime” ou seja, propagação de ideia que não esteja dentro da cartilha do Big Brother .

A distopia de Orwell, escrita em 1949, retrata um ambiente fascista, de indivíduos cativos por um controle governamental que monopoliza opiniões e criminaliza quem tenta construir crítica ou pensamento livre além da doutrina imposta pelo partido. O cidadão-modelo é o que se mostra convicto de propósitos doutrinários sob ideias antagônicas, aplicando contextualizações para expressar uma “verdade” que seja conveniente ao sistema dominante, sendo capaz de demonstrar lealdade absoluta ao que se está argumentando e assim não é algo tão distante quando observo militantes partidários no mundo real, não importando o lado. 

Quando um adepto de um partido de esquerda associa o presidente Bolsonaro ao totalitarismo ou coisa do gênero, consegue conciliar no pensamento tal conceito com o contraditório apoio que dá ao regime desumano imposto pelo socialismo de Maduro, na Venezuela. Quando um militante de Bolsonaro se diz favorável a ideias liberais em economia enquanto defende formas de protecionismo e intervencionismo, além de privilégios a determinados segmentos do funcionalismo “público” (militares), consegue se conciliar com as mesmas ideias que todo partido de esquerda costuma defender, mas se vende como politicamente diverso, antagônico, e ao mesmo tempo, moralmente superior. De fato, cada lado procura a sua “verdade” por “duplipensamento” que mais lhe favorece, para parecer diferente e melhor, sendo igual em ideias de “Socing” que convergem a interesses acerca do que o personagem O´Brien define como “poder puro”.

A curiosa união na denominação “Socialismo e Liberdade” de um partido político é um outro bom exemplo de “duplipensamento” na política brasileira, que em termos de “Novafala, não deixa a desejar para a imaginação de Orwell.

Os mestres do “duplipensar” não hesitam em construir discursos aparentemente bem embasados de lógica, mas sob factoides, dissimulações, meias verdades. O mérito de Orwell foi ter organizado algo tão corriqueiro na desonestidade intelectual em um conceito. A obra “1984” nunca perderá a conexão com a atualidade.

83. G1: Empresas relatam dificuldades e despreparo na implantação do eSocial

21/07/2022 23h00

Imagem: ANDT

Arion Sayão Romita

Não se trata de reavivar o pueril debate sobre a questão de saber se a CLT é “cópia” da Carta del Lavoro: basta comparar a extensão de uma e de outra, pois enquanto a CLT contém 922 artigos, a Carta italiana consta de 30 declarações.

Ao que consta, jamais alguém formulou semelhante sandice, pois a tese da “cópia” raia pela absurdez, ante sua evidente fragilidade.

Inegável, porém, é a influência que o ordenamento corporativo italiano exerceu (e continua a exercer, no que diz respeito à organização sindical) sobre a legislação trabalhista brasileira. Essa influência é ampla e abrangente, espraiando-se por todos os segmentos do Direito do Trabalho no Brasil. […]”

Obra: A Matriz Ideológica da CLT. Artigo, 02/09/2013. Academia Brasileira de Direito do Trabalho (ABDT). Edição online. De Arion Sayão Romita (Brasil, 1934-2022).

Artigo sobre o tema da orientação política perfilhada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), do jurista que foi presidente honorário da Academia Brasileira de Direito do Trabalho (ABDT), autor de importantes obras (26 livros e cerca 200 artigos [82]) no direito do trabalho, professor titular de Direito do Trabalho nas Faculdades de Direito da Uerj e da UFRJ, além da pós-graduação da Universidade Gama Filho.

Nos tempos em que era tecnicamente um ditador, Vargas implementou seu maior legado: a CLT, longe de ser uma cópia da Carta del Lavoro, enquanto reflexo de uma mentalidade política que, em certo sentido, recebeu considerável influência da doutrina fascista de Mussolini. Contudo, entendo importante o que o professor Romita destaca no artigo:

“O fascismo não ‘inventou’ o direito. O ordenamento fascista fez uso político de certos institutos, de modo a afeiçoá-los a seus propósitos políticos.” (p. 2)

E vindo de um magistrado que foi de grande referência no Brasil, também cabe destacar:

“O influxo do fascismo italiano sobre o Direito do Trabalho brasileiro é um bem ou um mal? A resposta depende da posição política de cada qual. Ainda existe, difusa no inconsciente coletivo dos brasileiros, uma forte tendência favorável ao fascismo.” (p.3)

Entendo que a CLT faz parte do que foi conservado em tradições fascista e positivista no escopo coletivismo estatista brasileiro. Deste instrumento se derivam as raízes regulatórias dos controles sociais sobre a vida laboral. A CLT também selou o perfil do sindicalismo mais parasitário, que gravita em torno do aparato estatal, assim como dá o escopo demagógico, servil e político-partidário das relações entre trabalhadores e instituições fiscais e jurídicas do estado. Também a CLT me parece evidente em ser um poderoso vetor que retroalimenta o paternalismo e o vitimismo na formação áulica dos brasileiros em relação ao “papel do estado”, o que desemboca ou reflete uma justiça parcial, corporativista que trata os indivíduos como tão-somente vulneráveis, inaptos a cuidarem de si mesmos na vida profissional. Outro ponto que considero importante sobre o desenvolvimento da CLT consiste na sua expansão com maior destaque no período de outra ditadura, a militar de 1964-1985.

E ao observar hoje como progressistas e “conservadores” a consideram, cada um em sua devida proporção, diria que a CLT também é um “ponto de encontro” entre socialistas antagônicos, digo, entre marxistas e afins (esquerda) e populistas de direita, o que rememora suas raízes fascistas em um medonho bojo de crenças comuns acerca do coletivismo monopolizado pelo estado.

82. Ver Seccional lamenta falecimento de Arion Sayão Romita, OAB-RB 03/03/2022 – 18:13

20/07/2022 21h26

Imagem: DW

Nietzsche

“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.

O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.

Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.”

Obra: Assim Falou Zaratustra. Primeira parte. Preâmbulo de Zaratustra.  Edição da Martin Claret, 2003, São Paulo, formato físico. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900)

Foi em uma noite de primavera que o meu heterônimo pastor ficou a contemplar o Übermensch, para mergulhar dentro de si e encontrar a potência para criar no meio do caos, para estabelecer uma ordem própria sobre a agonia; ir além-do-homem, atravessar a dor dos ressentimentos, dos traumas, das fraquezas, para descobrir o sentido do eterno retorno.

Volontà di potere nella mia stanchezza [81]

La mia stanchezza mi rattrista.
Ma la tristezza mi rafforza,
Mi fa pensare alla passeggiata.

Nella fatica la mia anima si riprende.
E al limite delle mie forze
Capisco il significato del dolore.

Nella tristezza, faccio versi con i miei errori,
E il tempo passa, lo spirito impara,
La volontà matura,
E quella sensazione, capisco,
Che io chiamo tristezza,
Si rivela come volontà di potere.

Pastor Abdoral, 28/09/2018.

Vontade de poder no meu cansaço

O meu cansaço me entristece.
Mas a tristeza me fortalece,
Me faz pensar na caminhada.

Na fadiga a minha alma retoma.
E no limite de minhas forças,
Entendo o significado da dor.

Na tristeza, faço versos com meus erros,
E o tempo passa, o espírito aprende,
A vontade amadurece,
E aquela sensação, entendo,
Que eu chamava de tristeza,
Se revela como vontade de poder (vontade de potência).

Tradução livre.

81. Original em italiano, de Paz no meio da agonia, poemas de Abdoral e Leonardo Amorim.

19/07/2022 22h48

Imagem: University of Michigan

David Dunning

Imagem: NYU STERN

Justin Kruger

“Pessoas tendem a ter visões excessivamente favoráveis ​​de suas habilidades em muitos domínios sociais e intelectuais. Os autores sugerem que essa superestimação ocorre, em parte, porque as pessoas não qualificadas nesses domínios sofrem uma dupla carga: não apenas chegam a conclusões errôneas e fazem escolhas infelizes, mas sua incompetência rouba-lhes a capacidade metacognitiva de realizá-las.”

Obra: Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments. APA PsycArticles: Journal Article. Journal of Personality and Social Psychology. De David Dunning (EUA) e Justin Kruger (EUA).

Fui atrás deste artigo depois de conferir uma acalorada discussão onde dois “acadêmicos”, um tanto antagônicos na conceituação econômica e que, talvez mais pelo viés ideológico, acusavam um ao outro de estar sob o “efeito Dunning-Kruger” em relação ao que discutiam: o conceito de inflação. O efeito se identifica quando um indivíduo super estima suas habilidades diante de um determinado campo do saber, e foi assim rotulado após estudos de David Dunning e Justin Kruger. É aquela história do sujeito convencido de que é capaz de tratar de um problema, que sabe o suficiente ou é hábil para elucidar algo mais do que realmente pode lidar

Não qualificado e inconsciente disso: como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência levam a auto avaliações infladas, trabalho inicial com quatro estudos onde foi constatado que os participantes, no quartil inferior em testes de humor, gramática e lógica, superestimaram o próprio desempenho e capacidade no teste. Entre os rixosos do debate, um desdobramento agressivo em torno do problema com uma mútua acusação para tentar desqualificar o oponente, o que revelou uma indelicadeza que não combina com um ambiente de espírito crítico; à mon avis, apresentar argumentos para discordar ou concordar, conforme o caso, é o que basta. E voltando ao estudo da prestigiada dupla americana, foi verificado que os participantes ficaram no 12º percentil, enquanto acreditavam estar no 62º., fato que se relacionou com déficits na “habilidade metacognitiva” (capacidade de distinguir precisão de erro). Então fiquei a pensar, qual seria o percentil dois dois rixosos debatedores? E eis que me pareceu mais apropriado considerar que o estudo apontou que a melhora nas habilidades ajudou os participantes a reconhecerem suas limitações.

O efeito Dunning-Kruger está presente no meu dia a dia, a começar com minhas próprias ilusões de saber. Às vezes me flagro em erros que cometi porque superestimei meus conhecimentos e minhas habilidades. Quando isso ocorre até me considero feliz por ter percebido logo o desastre em minha ignorância, pois pior seria se não tivesse tomado breve consciência da inaptidão, o que potencializaria mais os danos. Creio que sempre é melhor pensar no “efeito Dunning-Kruger” em si mesmo do que nos outros, embora às vezes perceba situações do tipo em meus semelhantes que trazem lições. Inesquecível foi de um contador bem narcisista ouvir esta pérola: “Nunca cometi um erro que pudesse provocar algum prejuízo para o cliente”. Tirando o fator de má-fé, em reuniões de empresas de TI, Dunning-Kruger fica bem à vontade com frases do tipo “nosso sistema atende plenamente a isso ou aquilo”. No entanto, ainda não vi um centro tão eficiente de produção deste efeito que o de indivíduos com político de estimação, crentes no sistema de idolatria política do país, quando reunidos para discutir complexos temas sociais. Durante a pandemia, de repente, apareceram diversos “especialistas” em vírus e doenças infectocontagiosas, da mesma forma que, da noite para o dia, este ano foram incontáveis os especialistas em geopolítica e na agressão militar da Rússia sobre a Ucrânia. E quando alguma questão econômica relevante surge, multiplicam-se catedráticos; entre as questões atuais está a política de preços da Petrobras onde nunca vi tantos experts no mercado internacional de barris, em custos de refino assim como na tributação tupiniquim, todos formados por grupos e sites de currais eleitorais. Diria que os militantes não profissionais são os alvos prediletos dos políticos na exploração deste efeito para massificar seus interesses de poder, se bem que políticos são naturalmente intoxicados de Dunning-Kruger quando tratam de questões sob grande dispersão de conhecimento, subestimada nos planejamentos centrais que promovem.

No suporte me deparo com um problema onde o cliente tem algumas opiniões: “acho que é isso” ou “se fizer isso pode resolver”. Noto uma certa decepção quando prefiro um “não sei” seguido de um “vou investigar”. Partir com alguma convicção, sem conhecimento de determinados fatos de um problema, pode potencializar o tal efeito no desenvolvimento de uma solução, então penso que é sempre melhor apurar o que realmente está a ocorrer a ter que apontar causas por especulação.

Imagino que este efeito é inevitável em algumas ocasiões (espero que não tenham sido muitas comigo), quando problemas em tanto diferentes ocorrem. De Dunning-Kruger sofri e sofrerei em minhas análises, mas acredito na misericórdia divina, razão pela qual ainda não fui consumido e assim sigo com o desejo de minimizar este medonho efeito sob minha jornada.

18/07/2022 22h18

Imagem: Département Sciences sociales
ENS de Lyon

Sylvain Gouguenheim

“À presença dos gregos no Ocidente, aos esforços das diferentes soberanos e prelados, às consequências do exílio das elites cultivadas, devemos acrescentar um grande movimento de tradução, destinado a redescobrir a cultura secular do mundo grego. Este processo começou antes de tomarmos conhecimento das traduções árabes por cristãos siríacos; começa, de fato, já no século VI, tão desequilibrado pela queda do Império Romano, graças a aquisição de livros sobre filosofia e medicina.”

Tradução livre.

Obra: Aristote au Mont-Saint-Michel: Racines grecques de l’Europe chrétienne. PERMANENCES ÉPARSES ET QUÊTE DU SAVOIR ANTIQUE . V. ÉDITIONS DU SEUIL, 27, rite Jacob, Paris VI, eBook, Kindle, Editions du Seuil, mars 2008. De Sylvain Gouguenheim (France, 1960).

Esta obra do professor de história medieval da Escola Normal Superior de Lyon, contraria a narrativa que escutei em várias ocasiões, por parte de professores universitários de filosofia e história, de que foram os árabes islâmicos que traduziram e assim trouxeram para a Europa o conhecimento da filosofia grega, o que soa muito mais simpático à islamização no Ocidente que propriamente algo fundamentado em documentos e fatos, à luz do que é demonstrado neste livro.

Gouguenheim aponta que partiu de uma iniciativa dos próprios europeus e de cristãos árabes, a busca por conhecimento do mundo helênico, e não dos árabes islâmicos. O Mont-Saint-Michel foi um centro de trabalho de tradução dos textos de Aristóteles, a seguir uma tradição de prestígio da língua grega no Ocidente medieval, o que representou uma continuidade, pelo menos, desde os textos canônicos do Novo Testamento, produzidos em grego.

Empresas de tradução operavam na Idade Média. “Constantino” foi um desses empreendedores de tradução; um cristão do Norte da África, nascido no século XI e que morreu por volta de 1087, aprendeu medicina em Kairouan e por volta de 1075 se estabeleceu no mosteiro italiano de Montecassino. O inglês Adelardo de Bath (1090-1150), trabalhou com tradução no sul da Itália; foi dedicado a textos científicos, entre os quais se destacam as versões latinas dos Elementos de Euclides. O autor menciona que “tradutores também eram pensadores” (p. 67). Tiago de Veneza escreveu glosas sobre as obras de Aristóteles; foi o primeiro a traduzir diretamente do grego para o latim antes de 1127. Hermann de Carinthie traduziu a Grande Sintaxe de Ptolomeu por volta de 1150. O autor aponta que o movimento de tradução do século XII foi de um “voluntarismo poderoso” e estava aliado à “curiosidade científica.” (p. 67). Destaque para o Anexo II sobre eruditos cristãos árabes do século VIII ao XI.

17/07/2022 13h56

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Álvaro de Campos

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das
etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

Obra: Poema em linha reta. Em Mensagem. Edição da Martin Claret, 2005, São Paulo, formato físico. De Álvaro de Campos , heterônimo por Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

Nada mais recheado de “campeões” na vida do que o mundo encantado das redes sociais.

Casais em juras de amor com afagos, selinhos, coraçõezinhos, fotos (sem retoques, claro) de viagens a lugares sempre paradisíacos ou que possam servir à ostentação da sinistra caviar no velho capitalismo (tão politicamente incorreto), com toda harmonia familiar longe de qualquer possibilidade de existir um relacionamento tóxico no meio de tanta bem-aventurança.

Neste universo paralelo, trades e analistas de investimentos só aparecem para registrar o resultado de suas carteiras recomendadas, claro, recheadas de operações lucrativas. Turma curiosa que costuma sumir em época de bear market.

E o Instagram?, quão notável centro de empresas e profissionais liberais em perfeita atividade de um mundo corporativo desprovido de falhas e imprevisibilidades; tudo em pleno sucesso; tão-somente se vislumbra o “íntegro” e “abençoado” negócio, afinal não passa de “lenda urbana” os sites que vendem pacotes de seguidores, curtidas e até comentários “reais e personalizados”, não é mesmo?

Empresários com depoimentos comoventes de fé e humildade bem diferentes do tipo que assedia moralmente os empregados durante a semana. Que mundo fantástico!

Em páginas de empresas de contabilidade, funcionários esteticamente belos, escolhidos (“nada fictícios”) com roupas de grife, em um ambiente (“real”) que mais parece um laboratório de exames para socialites, com o depoimento do proprietário cujo texto é de sua “autoria” e não de um marqueteiro… Balanços assinados por quem entende mesmo de contabilidade e participou diretamente da produção e da supervisão. Nada da ética ser apenas uma palavra bonitinha para decorar a seção de Missão e Valores

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

16/07/2022 15h18

Imagem: ACTU AERO /// AAF

Antoine de Saint-Exupéry

“O quarto planeta era o do homem de negócios. Estava tão ocupado que nem levantou a cabeça quando o pequeno príncipe chegou. Olá – disse a ele – O teu cigarro apagou. – Três e dois são cinco. Cinco e sete, doze […] Ufa! Então são quinhentos e um milhões, seiscentos e vinte e dois mil, setecentos e trinta e um. – Quinhentos milhões de quê? – Ei, você ainda esta aqui? […] tenho tanto trabalho! Eu sou sério, não me ocupo com futilidades! […].”

Tradução livre

Obra: Le Petit Prince. XIII. Edição da DN Pubhishers, em francês eBook Kindle. De Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry (France/Lyon, 1900-1944).

À pequena princesa Lili,

O pensamento proporcionado por uma boa leitura nos leva a um reino onde as riquezas não podem ser consumidas, cujo destino é constituído pelo puro desejo de descobrir e caminhar em novos horizontes; ler é refletir, repensar, é se assumir, ser o que jamais se pensou um dia.

Dedicatória em 30/04/2009, no exemplar em português.

Certa vez me perguntaram a razão deste espaço no blog, “que bem poderia ser usado para esclarecer dúvidas” sobre isso ou aquilo, entenda-se “isso ou aquilo” o que, na tosca visão do businessman do quarto planeta de O Pequeno Príncipe, estou a me ocupar durante boa parte da semana e é o que basta.

O businessman abdica de um senso mais humano da vida, cuja existência remete à essência do carpe diem; o humano diminui em favor de uma rotina que se resume a resultados por uma dimensão estritamente material ou, em sentido mais direto, no afã de acumular posses, ser rico, não que seja um problema ser bem sucedido economicamente, mas tornar isso como um fim em si mesmo não me apetece. A riqueza vejo como um instrumento e nada mais bruto, cavernoso, primitivo, que uma roda de gente endinheirada que só conta vantagens e é incapaz de meditar sobre coisas além das materialidades da vida, muito menos em perceber o que apenas de olhos fechados se pode sentir, com o coração, aqui este último ponto a lembrar o autor (“On ne voit bien qu’avec le cœur. L’essentiel est invisible pour les yeux”).

No entanto, à mon avis, a caricatura do capítulo XIII tem sentidos mais dinâmicos. Certa vez me perguntaram porque não gosto de grupos de contadores e/ou “especialistas” em bizarrices da hiperburocracia orgulho-nacional e quando fora do trabalho, quando falam no assunto, tomo distância assim como recuso propostas para cursos de final de semana que não passam de overdose para quem resume a vida ao que faz no trabalho. Participei de fóruns de contadores taxmakers e vi os danos potenciais ao engessamento mental em quem se dedica a tais coisas, sobretudo em uma conversa mais ampla sobre o Brasil onde fica evidente o desprovimento de um melhor uso da massa cefálica; o normal é encontrar o tipo papagaio-zumbi da matrix à semelhança do businessman, só que em vez de contar as estrelas que conseguiu comprar, se trata do contador que não fala sobre contabilidade e tão-somente de impostos e obrigações acessórias.

15/07/2022 22h30

Imagem: Students for Liberty

Thomas Sowell

“[…] a história mostra que a trajetória profissional das mulheres ao longo do século XX, se parece pouco com um cenário em que seus progressos se explicariam pelas variações de discriminação exercida pelo empregador.”

Obra: Fatos e falácias masculinos e femininos. Fatos e Falácias da Economia. Capítulo 3, Ed. Record, 2017, 1a. edição, formato físico. De Thomas Sowell (EUA/Carolina do Norte, 1930).

Sowell argumenta que a proporção de mulheres em profissões e cargos de alto nível nos EUA se deu com maior intensidade nas primeiras décadas do século XX, em comparação com o meio do mesmo século, antes do crescimento do movimento feminista e do surgimento de leis contra a discriminação, o que pode surpreender muitos que associam, a priori, legislações protetivas e punitivas, sob políticas afirmativas, positivistas, aos avanços das mulheres em termos de remuneração no mercado de trabalho. A participação feminina aumentou desde meados do mesmo século em ocupações de nível superior, mudanças nos parâmetros de casamento e concepção de filhos.

Outra questão no capítulo envolve o uso de estatísticas que mostram a média de rendimentos de homens sempre superior às de mulheres [80], algo que é bastante difundido para alimentar falácias quando é fundamental expurgar fatores em torno dos resultados, entre os quais envolvem dados de quem trabalha menos, sob o mesmo salário/hora, e terá discriminado no holerite mensal um rendimento total menor. Se alguém recebeu maior salário porque trabalhou mais, tendo as mesmas qualificações em comparação com alguém que tem a mesma unidade salarial e trabalhou menos, ocorre discriminação por tempo de serviço; se alguém recebeu mais porque foi mais produtivo, cumpriu metas, e assim obteve mais em prêmios e comissões, se trata de uma discriminação por produtividade; se alguém percebeu maior salário porque proporciona mais retorno ao empregador, gerando mais lucro para o negócio, se trata de uma discriminação por avaliação de valor econômico no mercado.  Discriminação por sexo é outra coisa.

Outro problema envolve variações de salário por fatores de oferta e procura onde empregos com meio expediente, ou seja, carga horária reduzida, tendem a ser menos ofertados e assim, sujeitos a vieses salariais inferiores; tais coisas correm alheias à discriminação sexual. Quando a mulher precisa exercer uma jornada reduzida e opta por atividades menos instáveis, muitas vezes se programando para a maternidade, sobretudo nas tarefas dos primeiros meses após o parto, ou quando opta em investir mais na supervisão do lar, considerando mais a carreira profissional do conjugue,  mesmo que atividades domésticas sejam bem divididas, tratando decisões que não são incomuns e refletirão em estatísticas que indicarão resultados de rendimento médio inferior como consequência de jornadas reduzidas e não um fenômeno de discriminação por sexo que seja, per si, associado a empregadores.

80. Falácias deste tipo no Brasil: publicação de março deste ano, do IBGE, que tenta induzir leitores ao entendimento equivocado de que mulheres estudam mais, trabalham mais e recebem menos que os homens (76,5% do rendimento médio), no entanto, o instituto brasileiro joga a conta dos afazeres domésticos de forma coletivizada para o setor produtivo, o que é uma falácia. Ver matéria do IBGE

14/07/2022 22h21

Imagem: Nobel Prize

Friedrich August von Hayek

“[…] a moralidade incluindo especialmente as instituições da propriedade, da liberdade e da justiça, não é criação da razão do homem, mas um segundo dom distinto conferido a ele pela evolução cultural […]”

Obra: A revolta do instinto e da razão. Capítulo IV de Os Erros Fatais do Socialismo. Por que a teoria não funciona na prática. Faro Editorial. 1a. edição brasileira. 2017 , São Paulo, formato físico. De Friedrich August von Hayek (Áustria/Viena, 1899-1992).

Um dos premiados do Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel em 1974, tenho Hayek como um dos mais importantes intelectuais do século XX.

Neste capítulo abre a mencionar Aristóteles (Grécia/Estagira, 384 a.C – 322 a.C ), que influenciou a teologia de San Tommaso d’Aquino (Regno di Sicilia/Roccasecca, 1225-1274). Aristóteles, diz Hayek, foi “cego à importância do comércio” e careceu de “qualquer compreensão da evolução” para ressaltar um problema desde a antiguidade mas que “só bem mais tarde, e sobretudo entre pensadores franceses dos séculos XVII e XVIII, que ocorreram vários desenvolvimentos importantes”.

O mais conhecido pensador da Escola Austríaca de Economia meditou por sessenta anos procurando esmiuçar uma falsidade (ou caricatura) entre intelectuais, pretensiosamente dedicados às engenharias sociais: o descarte da tradição e a super estimação da razão pura como meio em si mesmo para proporcionar a realização de desejos, sem qualquer outro instrumento intermediário, visando construir um mundo novo, uma moralidade nova, assim como um novo direito e até mesmo uma nova linguagem. Lembra John Locke como parte de uma corrente de pensamento distinto onde a conduta moral faz parte da razão, no entanto, o que predominou mesmo foi a ideia de um racionalismo puro que domina o progressismo desde então. Hayek chama à atenção para o “banimento” da importância da seleção evolutiva das tradições morais no desenvolvimento da civilização (pág. 71), o que afasta o seu pensamento do tradicional economicismo, que não passa de uma forma sofisticada de esconder mais um racionalismo. explicar como a mentalidade socialista passou a ser sinônimo de “racional”, “intelectual”, “científico”, e como pessoas inteligentes acabaram seduzidas; para ilustrar a força da ideia da razão e da ciência como, talvez, única fonte da verdade (dando lastro a suposição progressista/construtivista), Hayek menciona mentes ilustres como Jacques Monod, o criador da biologia molecular moderna, recomendando uma revisão dos fundamentos da ética (pág. 78).

E não poderia faltar o seu grande rival ideológico: John Maynard Keynes (Reino Unido/Cambridge, 1883-1946), “um dos mais representativos líderes intelectuais” que “levando em conta efeitos previsíveis”, acreditava que podia “construir um mundo do que se submetendo a ideias abstratas tradicionais” (pág. 79). Em seguida, passa ao psiquiatra canadense George Brock Chisholm, que foi o primeiro diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) e  defendeu a “erradicação do conceito de certo e errado” (pág. 81). E então chega no que acredita ter sido, talvez, o maior gênio de seu tempo: o físico teórico Albert Einstein (Alemanha/Ulm, 1879-1955) e seu famoso argumento de substituir a produção para o lucro pela produção para o uso (pág. 82), racionalismo simplista que revelou “falta de compreensão do processo real pelo qual os esforços humanos são coordenados, ou falta de interesse verdadeiro por ele” (pág. 82).

À mon avis, a liberdade é um elemento cultural e fenômeno do indivíduo negado por uma pensamento que sacramentou a ideia do homem submisso ao coletivo, onde Jean-Jacques Rousseau (Suíça/Genebra, 1712-1778) foi uma peça chave para se entender esse processo e Karl Marx (Reino da Prússia/Renânia-Palatinado/Tréveris, 1818-1883) um divisor de águas, por trazer uma concepção que alimenta interpretações antagônicas [79] em uma sociedade que passa a ser estudada como organismo manipulável cujas consequências são desprezadas e não mais como resultado da livre cooperação entre indivíduos que procuram agir livremente, com o peso da responsabilidade, para satisfazer seus interesses tomando decisões não necessariamente racionais, mas também emocionais e subjetivas. O comportamento do agente humano deixou de ter peso na visão racionalista, que se apoderou do que é tido como intelectual para não apenas discorrer e analisar fenômenos sociais mas, sobretudo, fazer política de maneira que a razão pura é vendida como força motriz sobre os instintos, sobrepujando ligações com raízes de valores, crenças, tradições, enfim, tudo que seja moral e esteja agindo dentro do ser humano com peso de subjetividade, desde o início da nossa espécie.

79. Ver as críticas de Erick Fromm ao que seria adulteração dos conceitos de Marx e a interpretação ao que seria o individualismo em Marx na “Conceito Marxista do Homem”.

13/07/2022 00h02

Imagem: Perfil oficial no Twitter

Nassim Nicholas Taleb

“Lembre-se que o intervencionismo foca na ação positiva, em fazer algo. Assim como as definições positivas, vimos que as ações são respeitadas e glorificadas por nossas mentes primitivas e levam, digamos, a intervenções governamentais ingênuas que terminam em desastre , seguidas por queixas generalizadas sobre as intervenções governamentais ingênuas, visto que estas, como agora já se admite, terminam em desastre, seguidas por mais intervenções governamentais ingênuas.”

Obra: Antifrágil. Livro VI. Via Negativa. Onde está o charlatão? Edição best. business, 2017, Rio de Janeiro, formato físico. De Nassim Nicholas Taleb (Líbano/Greater Amyoun, 1960).

Mais um autor que sugere me lembrar de alguma coisa. Neste caso, em matéria de economia, fiz um esforço para me lembrar de como funciona o negócio, não importa se di destra ou di sinistra, em torno dos que clamam para que o governo faça alguma coisa, por exemplo, com o preço da gasolina.

Então, o supremo comandante da tribo verdes-amarelos-idiotes-conservadores-nos-costumes-e-liberais-na-economia decide desonerar com ICMS e fazer alguns inferninhos na administração de uma empresa, diga-se de passagem fruto do fetiche nacional por intervenção, concebida na época mais próxima do fascismo na história da Pindorama. Ao desonerar, o Dilmo aprofunda um problema fiscal que desembocará em contas públicas já por demais onerosas pela mentalidade de estado-babá que aflige a nação dos bocós-com-políticos-de-estimação. O problema fiscal se tornará outro desdobramento para mais um intervencionismo, enquanto o inferninho no Conselho da tal empresa servirá mais para fazer de conta que fez alguma coisa, para não cair na descarada manobra direta de preços que faria seu opositor-irmão; no fundo, o objetivo é o mesmo, mas tudo é feito como se fosse “mais inteligente” em relação ao que faria o outro “lado certo da história”, dito “comunista”.

Agora, vou meditar no opositor-irmão, no supremo líder daquele partido da ética e dos economistas que faziam vídeos estilo novela mexicana para defender o congelamento de preços, munidos da tabela da Sunab nos anos 1980, e assim seguirá por outra via, a modificar radicalmente a política de preços da tal empresa orgulho nacional, em outras palavras, a manipular semelhantemente o que fizera a notável presidenta-filósofa de questões profundas como “estocagem de vento”. O Grande Irmão da sinistra seguirá um velho script que alimenta o dragão inflacionário. Então, as contas da empresa “orgulho da nação” entrarão em modo-colapso novamente, mas nada como um fundo dos pagadores de impostos que não resolva (intervenção), enquanto o custo seguirá embutido nos preços de bens e serviços, não raramente de primeira necessidade, visto que nada funciona melhor, para quem deseja arrecadar rapidamente, do que taxar o consumo que gira mais ou seja, tributar severamente os mais pobres. Então, os que queriam que o governo fizesse alguma coisa reclamarão do alto custo de vida, um desdobramento da intervenção que começou na tentativa de conter o aumento do preço da gasolina

E como no mundo da política, bobo mesmo só o eleitor, o título de “intervencionista ingênuo” só cabe a quem vai a urna eletrônica cheio de fé em intervencionistas nada ingênuos.

12/07/2022 22h49

Imagem: BBC

Stanislaw Ponte Preta

“Lembrem-se que notei o alastramento do Festival de Besteira depois que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que seu filho tinha tirado zero numa prova de matemática, embora sabendo que o filho era um debiloide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista.”

Obra: Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País. Edição da Companhia das Letras, São Paulo, eBook Kindle. De Sérgio Marcus Rangel Porto (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1923-1968).

Mais uma leitura das noites pandêmicas. Ri da primeira à última página com o espirituoso “alter-ego” de Sérgio Porto, cronista que debochava da ditadura.

E o festival de besteira segue desde sempre em nossos quintais patriotas com os zelosos “conservadores” nos costumes e “liberais” na economia que saem por aí chamando de “comunista” todo aquele que contrariar seus desprovimentos de massa cefálica aplicada com inteligência, manifestados em forma de pensamentos delirantes, da mesma forma que, do lado canhoto da venerável idiotice útil, sobra um “fascista!” a quem for contrário a alguma forma de “coerção do bem”.

Do zeloso general do “Serviço Secreto” que, em meio à monotonia do cabide de emprego, descobre um cargo vago de fiscal da Receita para nomear o filho, a um grupo de agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) que foram até o Theatro Municipal de São Paulo em busca do autor de uma peça, considerada “subversiva”, e descobriram que se tratava de uma missão impossível de ser cumprida, pois o depravado dramaturgo, Sófocles, já partira deste mundo desde 406 a. C.

E como seriam as crônicas do camarada Stanislaw se o impagável estivesse em nosso tempo, a conferir os debiloides irmãos militontos e rixosos apoiadores na disputa épica entre o Dilmo-de-direita-PEC-Kamikaze e a Alma-mais-honesta-deste-país?

11/07/2022 23h12

Imagem: Radio France

Duc de Saint-Simon

“[…] as pessoas morreram de fome, literalmente, e de doenças causadas pela extrema miséria. O número infinito de famílias arruinadas, e cascatas de males de todos os tipos que dela derivavam […] os impostos arrecadados, multiplicados, exigidos com o mais extremo rigor, completavam a devastação da França. Tudo aumentou incrivelmente, não havia mais nada para comprar, a maioria do gado pereceu por falta de comida […]”

Tradução livre

Obra: Mémoires complets et authentiques du duc de Saint-Simon sur le siècle de Louis XIV et la Régence. T. 7 / collationnés sur le ms. original par M. Chéruel ; et précédés d’une notice biographique par M. Sainte-Beuve, edição online, Gallica. De Louis de Rouvroy, duc de Saint-Simon (France/Paris, 1675-1755).

Tomo 7 das Memórias completas do Duque de Sant-Simon, obra imensa do nobre que registrou o tempo de recessão profunda, impostos e miséria que varreram a França do “rei sol”, Luis XIV. Monarquia absolutista, sete décadas antes de estourar a Revolução.

Saint-Simon descreve a exorbitância de gastos e taxações onde o rei extraía “sangue e pus” de todos os súditos. Contas da monarquia definhavam e como todo sistema de governo, consumia a sociedade produtiva. Em processo de insolvência, o “rei sol” decretou moratória, enquanto o meio produtivo enfrentava um inverno rigoroso que comprometeu a colheita e gerou ainda mais escassez de insumos e produtos, aumentando a carestia e a fome.

A ideia de um imposto sobre o patrimônio surge como uma das propostas em meio a um emaranhado de tributos que dificultavam a fiscalização e a arrecadação. Foi uma tentativa de “simplificação”; toda história de “reforma tributária” para “simplificar” a vida dos pagadores de impostos e resolver crises fiscais termina com mais impostos e foi assim que a comissão de parentes do “rei sol” aprovou um projeto que demonstra como o drama fiscal está longe de ser uma coisa do estado moderno.

Saint-Simon também registrou algo comum em nossos dias: um projeto de confissão de bens por meio de uma declaração, um “proto Big Brother Fiscal” na reforma do “rei sol”. Saint-Simon reagiu prevendo conflitos diversos na sociedade, levando em conta que o aparato da monarquia bisbilhotaria a vida e os bens dos súditos. No meio da crise, o rei vai em busca de suporte religioso a serviço da reforma,  o “segundo estado geral”, composto pelo clero, e François d’Aix, Père La Chaise (1624-1709), confessor do rei, acabou como mediador de um parecer a favor do direito divino, atribuído ao monarca, para espoliação. O parecer teológico da Sorbonne deu a “base legal” para o conceito de que os bens dos súditos, em todo o território do reino, na verdade pertenciam ao soberano que por, bondade, os consentia, não havendo assim qualquer constrangimento em toma-los de volta.

Não há nada de novo embaixo do céu… “O Estado sou eu!”, famosa frase do “rei sol” que, à mon avis, foi uma síntese muito próxima do que seria o nazi-fascismo três séculos depois. O “rei sol” foi mais um “homem forte” e solitário no comando, implacável com opositores. Reedição de uma mentalidade cuja auge na antiguidade esteve no Império Romano. O período do “rei sol” foi de radical censura com cronistas, que hoje seriam chamados de “jornalistas”, sob o constante temor de terminarem na Bastilha se publicassem algo que desagradasse o soberano.

10/07/2022 00h10

Imagem: Baptist Joint Committee

Walter B. Shurden

“Na tradição batista, a liberdade religiosa apresenta várias dimensões. Primeiro, a liberdade de religião representa um compromisso com a plena liberdade, e não a mera tolerância religiosa. […]

Em segundo lugar, historicamente os batistas têm deixado bem claro que a liberdade religiosa é para todos, não para uma seleta minoria, nem tampouco para uma grande maioria. […] O direito de não crer é tão sagrado quanto o direito de crer. Alguns batistas contemporâneos fariam bem em reler o que escreveram outros batistas no final do século XVIII. […]

Em terceiro lugar, liberdade religiosa significa separação entre Igreja e Estado, e não acomodação da Igreja ao Estado.”

Obra: Quatro Frágeis Liberdades. Capítulo IV. A Liberdade Religiosa. Edição do MLK-B. Centro Martin Luther King., 2005, Recife, formato físico. De Walter B. Shurden (EUA/Mississipi/Greenville, 1937).

Leitura de 2006, mais uma dos tempos de seminarista. Do original The Baptist Identity: Four Fragile Freedoms de 1993. Walter Shurden, autor de vários livros, uma das maiores referências entre batistas nos EUA, Ministro Geral da Mercer University. Tradução de Raimundo César Barreto e Benedito G. Bezerra, este último foi meu professor de grego e teologia bíblica do Novo Testamento.

Quanto à sequência do trecho, Shurden menciona John Leland em 1791 a defender que “o governo não tem nada a ver com as opiniões religiosas dos homens” e que “todo homem fale livremente sem temor, mantenha os princípios em que acredita e cultue de acordo com sua própria fé, se em um Deus, três deuses, nenhum deus ou vinte deuses; e que o governo proteja seus direitos de assim proceder”. Outro histórico, Thomas Helwys, já tinha suscitado o mesmo direito universal em 1612. Y. Mullins em 1923 a defender a liberdade religiosa para todos: “[…] embora não tenhamos nenhuma simpatia pelo ateísmo, agnosticismo ou materialismo, nós defendemos a liberdade do ateu, do agnóstico e do materialista em suas convicções religiosas ou não-religiosas.”.

A liberdade religiosa é o ponto que mais me identifico com a confissão batista. O que Shurden menciona no trecho faz parte da educação religiosa que comecei a receber quando me tornei protestante aos 15 anos de idade, uma formação aprofundada teologicamente no seminário (2003-2007). Pude observá-la quando um pastor se mostrou fiel ao princípio ao defender o direito de um pai-de-santo não ter seu terreiro importunado por evangélicos pentecostais, que ficaram surpresos com a defesa da liberdade de um culto afrodescendente apresentada por um pastor evangélico. De fato, liberdade religiosa não é a mesma coisa de tolerância. A liberdade é um direito e a tolerância é somente uma concessão. Batistas estão firmados historicamente na liberdade religiosa. No entanto, o mesmo não pude confirmar em um veterano pastor batista, que bem poderia ter atendido à sugestão de Shurden (“reler o que escreveram outros batistas no final do século XVIII”), pois passou três domingos seguidos a usar o púlpito, no culto matinal, para denunciar a “exploração da fé” de uma determinada confissão neopentecostal de terceira onda, com base no livro Teatro, Templo e Mercado, de Leonildo Silveira Campos. Situação análoga em um professor de EBD apologeta disposto a contestar publicamente o que chamava de “seita pseudocristã” que crescia na sua cidade.

Se um batista, em nome da “sã doutrina” (pode haver muita arrogância nisso), agir com o intuito de prejudicar a liberdade religiosa de outrem, abdicou de um caríssimo princípio da confissão; à mon avis, deixou de ser batista. Ao professor citei referências do século XVII deste livro, sem mencionar o autor, e fui convidado por um diácono interlocutor a rever meus posicionamentos “junto com esse desconhecido livro”. Quando um pastor decide fazer referência, no exercício do ministério da Palavra, a um político, sobretudo em tempos eleitorais (mas não diga!?); a essência do terceiro ponto, mencionado por Shurden, fica ao léu. A “mentalidade teocrática” também é citada na obra, por sinal problema cada vez mais comum entre evangélicos brasileiros que não perdem a oportunidade de usar o pano de fundo religioso para fazer campanha eleitoral para seus políticos de estimação. O nacionalismo é outro problema e o ministro americano pareceu até falar ao tempo presente de um certo país onde evangélicos andam meio perdidos com um certo governo dito “conservador”:

“Algumas vezes chamada de ‘Religião Civil’, esse posicionamento defende, entre outras coisas, a oração em escolas públicas, a canalização do dinheiro de impostos para apoiar programas religiosos particulares e a presença de símbolos religiosos em contextos civis.”

A exploração do sagrado para fins políticos é algo tão antigo quanto a própria religião, e no meio batista isso pode ser evidenciado com a conivência de pastores e demais líderes quando fazem confusão (proposital?) entre cidadania e discipulado. Shurden também alerta que “nas últimas décadas, as linhas que separam a Igreja do Estado estão se tornando cada vez mais obscuras nos Estados Unidos, mesmo entre alguns batistas.”. E no Brasil estaria diferente? Oportuno reforçar que a publicação original é de 1993.

09/07/2022 15h22

Imagem: Pinterest larousse.fr

Émile Durkheim

“Com uma passada de olhos sobre o mapa dos suicídios europeus, notaremos imediatamente que nos países puramente católicos, como Espanha, Portugal e Itália, o suicídio é muito pouco desenvolvido, enquanto nos países protestantes, como a Prússia, a Saxônia e a Dinamarca, atinge o seu máximo. […] por toda a parte e sem nenhuma exceção, há muito mais suicídios entre os protestantes do que entre os fiéis de outros cultos. […] Quanto aos judeus, a inclinação desses para o suicídio é sempre menor do que a dos protestantes, em sua generalidade, é também inferior, ainda que em menor proporção à dos católicos. […] ainda que a prudência involuntária das minorias pudesse exercer alguma influência na diferença tão acentuada que esses duas religiões apresentam, a maior parte se deve certamente a outras causas.

É na natureza desses dois sistemas religiosos que as encontraremos. […]

[…] Ora, a única diferença essencial entre o catolicismo e o protestantismo é que o segundo admite o livre exame em uma proporção muito maior do que o primeiro. […] Também é fato que o católico recebe a sua fé já pronta, sem que se exija de sua parte qualquer colaboração crítica. Nem sequer pode submetê-la a um controle histórico, uma vez que lhe são proibidos os textos originais sobre os quais ela se apoia. Há todo um sistema hierárquico de autoridades, organizado com enorme perícia, para tornar invariável a tradição. O pensamento católico tem horror a tudo o que é variação. O protestante participa mais da elaboração de seu credo. Dá-se a Bíblia sem que nenhuma interpretação lhe seja imposta. […] Mas a melhor prova de que essa liberdade de opinião, proclamada pelos fundadores da reforma, não se manteve no estado de mera afirmação platônica, é a multiplicidade crescente de seitas de toda a espécie, que tão intensamente contrasta com a unidade indivisível da Igreja Católica.

Chegamos, pois, a esse primeira conclusão de que a inclinação do protestantismo para o suicídio deve estar relacionada ao espírito de livre exame que anima essa religião.”

Obra: O Suicídio. Capítulo II. O suicídio egoísta. Edição da Martin Claret, 2003, São Paulo, formato físico. De David Émile Durkheim (France/Épinal, 1858-1917).

Leitura de 2004, em um tempo pessoalmente decisivo sobre aquele departamento de sociologia onde, se tivesse prosseguido, teria consolidado uma vida intelectual diversa. Um livramento… Na época estava interessado em sociologia voltada a temas de economia e religião a usar métodos quantitativos, aproveitando a base em econometria, e o que estava a estudar no seminário teológico, por isso este livro me atraiu, fruto de um trabalho pioneiro de análise de dados estatísticos, publicado em 1897, de Durkheim que é considerado por muitos o “pai” da sociologia moderna, em paralelo a Max Weber.

Mais importante que a correlação (aparente) nas tabelas aplicadas e mapas utilizados, o objeto de investigação de Durkheim foi marcante para a consolidação de uma ciência moderna, a sociologia, a considerar os fatores sociais em uma combinação para o problema do suicídio que, obviamente, parte do indivíduo (que chamo de fator “endógeno”), mas que tem elementos coletivos (que seria, à mon avis, fator “exógeno”), ambos a influírem na consumação do ato, tipificado como “egoísta”, conjunto que denota sua classificação como “fato social”.

A conclusão de Durkheim (p. 160) é de que “a superioridade do protestantismo do ponto de vista do suicídio provém do fato de se tratar de uma Igreja menos fortemente integrada do que a Igreja Católica.”. Durkheim também considera que a perseguição cristã ao judaísmo, ao longo do tempo, criou entre judeus “sentimentos de solidariedade de uma energia particular.”, o que contribuiu decisivamente para a solidez e união em comunidades judaicas, regulando mais os detalhes da existência entre seus membros, ocasionando em fatores a explicar a baixa taxa de suicídios entre judeus.

A leitura me ajudou a refletir melhor sobre um drama humano no trato da livre consciência ou da liberdade no espírito crítico versus as sistematizações coletivas que inibem o auto exame do indivíduo lhes passando alguma sensação de segurança, peculiar a ambientes religiosos. Crises de fé não são exclusivas do âmbito religioso, visto que na sociedade regida por reguladores “laicos”, se pode observar a tensão entre o que se estabelece no coletivo, por normas de legislações, e as reações adversas de indivíduo, assim como em partidos políticos e outros tipos de associações não religiosas. O ser humano, para avançar no espírito crítico, inevitavelmente estará diante de tensões nos paradigmas onde se situa um determinado tipo de fé como instrumento para lhe dar sentido à existência e uma vez que certos dogmas ou preceitos são questionados ou se apresentam como pífios, seja por exame livre em atividade intelectual, ou em tempos de crises profundas, como a que se deu recentemente na pandemia, onde a sensação de segurança social foi posta à dura prova, então se apresenta o problema que pode impactar ou abalar a consistência nas crenças, e para alguns indivíduos mais suscetíveis, ocasionar em uma descrença radical e a consequente perda do sentido da vida. O meio protestante, de fato, é mais aberto ao livre exame, embora igrejas sejam centros onde o livre pensar tem rígidos limites diante das doutrinas, a rigidez da sistematização da católica inibe mais o criticismo, meio para o nascimento de crises de fé.

Durante o seminário, percebi em alguns o medo de enfrentar determinadas dúvidas. Como auto defesa, alguns reagiam com ofensas pessoais a quem ousava ir ao enfrentamento intelectual [76], outros se fechavam ainda mais no fundamentalismo bíblico, uns tantos optavam por uma estratégia que mais parecia ser de “dupla personalidade” [77] enquanto outros pareciam ir a uma radical relativização de valores e comportamentos [78].

De toda forma, à mon avis, é irrenunciável o espírito crítico, apesar dos efeitos que podem ser provocados por sua atividade, acredito que faço parte de uma espécie que existe não para ser uma mera massa ignara (de manobra) por sistematizações onde não se admite questionamento, se portando como se fosse acéfala, e sim para aprender mediante erros e acertos, meditando acerca de certezas e dúvidas, alegrias e tristezas.

76. A aula de Teologia do Novo Testamento transcorria em ordem, e eis que um colega, filho de um conhecido pastor, acabou me chamando de “imbecil” (o lado bom dessa história foi a dura repreensão do professor que assegurou o meu uso da palavra) porque considerei válida a discussão sobre a hipótese da ressureição de Cristo na esfera da “desmitologização” de Rudolf Bultmann. O sujeito pareceu ter “esquecido” que estava em um ambiente onde hipóteses são apreciadas. Acredito que, por um instante, talvez tenha se imaginado em uma EBD ávido por um diácono, quem sabe o próprio papai-pastor para “denunciar” tamanha “apostasia”.

77. Pastores que no seminário eram bastante céticos e polemistas, mas que em púlpito de igreja se transformavam em fundamentalistas bíblicos, com direito a críticas ácidas à teologia liberal ou moderna, em uma tensa dialética que pode ser até compreendida como natural, em certo sentido, a considerar os ambientes, mas que pode resultar em conflitos mais delicados ou em desonestidade intelectual. Em alguns casos desconfiava de dissimulação ou no que chamava, em tom de provocação de pastores acometidos de “dupla personalidade”.

78. É o caso do sujeito que decide estudar teologia e entra no seminário cheio de fé e, na medida em que vai tomando conhecimento das incongruências entre o que a fé doutrinária ensina nas Escolas Bíblicas Dominicais e o que os fatos indicam, entram em um estado de impacto um tanto violento sobre a fé, às vezes, a experiência é tão intensa que chaga a ponto de abandoná-la por completo. Um dos livros, que em breve irei registrar neste espaço, se deu em leitura por indicação de um professor de economia que conheci durante a graduação (lecionava história do pensamento econômico), que me revelou tinha passado pelo mesmo seminário em que estudava em paralelo, e após algum tempo se tornou ateu militante, embora não apresentasse outros sintomas de quem sofreu uma crise de fé profunda, entre os quais se situam a vulgarização da linguagem e a incorporação de certos hábitos normalmente mal vistos no âmbito religioso evangélico.

08/07/2022 23h45

Imagem: post-italy

Dante Alighieri

“Cílios em fio de ferro perfuram e costuram
Todas as pálpebras, como um gavião selvagem
De olhos fechados embora assim não perduram
.

Tradução e adaptação livres.

Obra: Purgatorio. Canto Decimoterzo. La Divina Commedia. Edição em italiano em eBook Kindle. De Dante Alighieri (Repubblica di Firenze/Firenze, 1265-1321).

Una terzina dantesca adaptada livremente; três versos encadeados em um sistema peculiar de rimas, do Canto XIII no Purgatório.

Olhos fechados, pálpebras costuradas com fios de ferro para os invejosos, vê o poeta ao passar no Purgatório.

O terceto na íntegra, pela edição em italiano que disponho:

“Ch’a a tutti un fil di ferro i cigli fora
E cusce sì, come a sparvier selvaggio
Si fa però che queto non dimora.”

Em uma tradução livre sem adaptação em rima, “Que a todos um fio de ferro os cílios perfuram e costuram como um gavião selvagem…”. E completando, “si fa però che queto non dimora”, poderia ser “feito embora que isso não seja definitivo”, talvez em alusão ao significado teológico (no catolicismo) do purgatório, como condição de pena temporária para purificação. E na tradução da edição em português, da Martin Claret (2002, São Paulo), outra adaptação a dar ênfase à rima:

“Fio de ferro às pálpebras prendia
A todas, como ao gavião selvagem
Para domar-lhe a condição bravia.

A inveja em alegoria contida em pálpebras costuradas com fios de ferro; alusão ao olhar característico de quem tem esse tipo de sentimento, o que me remete à raiz latina para o termo, em português, “inveja”: invidia, verbo invidere; sufixo negativo (in) sobre “vida” ou “videre“, no sentido inicial de “negar o que se vê”, olhar contrariamente, observar incondicionalmente com ar de reprovação, o que pode ser evidenciado por “mau-olhado”, “olhar distorcido” ou “torto”.

Tommaso d’Aquino (Regno di Sicilia/Roccasecca, 1225-1274) sintetiza a inveja como tristitia de alienis bonis ou “tristeza em relação às coisas boas dos outros”. A obra-prima de Dante Alighieri está permeada de aspectos teológicos do grande teólogo da Escolástica.

Seguindo na ilustração em torno do olhar, na Divina Comédia, o invejoso não enxerga nada além de si mesmo, estando assim em uma condição de idiotes [74]; só contempla o próprio ego, exercendo juízo sobre o outro apenas pela sua própria (e sempre limitada) dimensão, por certo incomodado com o que porventura demonstre atributos e apropriações que perceba ser melhores, superiores, de alguma forma, quando os compara consigo mesmo. Na medida em que esse olhar é tão somente regido por uma concepção para compensar a si mesmo ou massagear o ego, satisfaz sua invidia como  “visão” particular de repulsa sobre o outro. Sendo então incapaz de lidar com uma realidade que evidencia algum valor, condição ou qualidade alheia que o incomoda, o invejoso se torna passivo de um sentimento de angústia que, ocasionalmente vem em dissonâncias, crenças, pensamentos automáticos, fantasias, delírios, que podem derivar em críticas ácidas, não raramente, ofensivas quase sempre travestidas com narrativas no intuito de distorcer fatos para depreciar a quem se tem por inveja.

O ato da crítica em si não está necessariamente associado à inveja, quando realizada com fundamentos razoáveis que venham a estabelecer questões bem fundamentadas e impessoais, sobretudo em aspectos construtivos. Muitas vezes um crítico é classificado como “invejoso” por quem é criticado ou tem apreço a ideia questionada e, por orgulho e/ou arrogância, a parte que recebe a crítica não está disposta a reconhecer eventuais carências ou falhas.

A tristeza em relação às posses ou qualidades das coisas alheias consiste no primeiro passo para se chegar rapidamente a outro sentimento tóxico: a cobiça, desejo incontrolável em possuir o que diz respeito a outrem. Vejo-a como uma evolução do quadro doentio da inveja que pode chegar a uma “materialização” ou ato intencional para tomada ou da violação do que pertence a outrem. A questão da cobiça à propriedade alheia está elencada no Decálogo:

Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”

A considerar os elementos culturais de uma mentalidade de família patriarcal e as peculiaridades do idioma hebraico, desprovido de certas abstrações que uma língua como a grega à época permitia elaborar, o verso da Escritura Sagrada, por inserir a mulher na lista de propriedades, costuma suscitar questionamentos feministas, no entanto, penso, o conceito de cobiça é o que cabe ser posto em maior destaque na hermenêutica e assim contextualizado ao tempo presente para que se compreenda o que está no universo do Mandamento em torno do respeito à propriedade privada, o que remete a valores, relacionamentos, afetividades, assim também ao que se tem por imaterial; “coisa alguma do teu próximo“.

Por fim, em síntese, a inveja é um “insumo”, um ingrediente insalubre a nutrir a ação humana, e quando se externaliza, vem por atos de cobiça. Sendo um insumo que age como toxina no comportamento, alimenta desejos e inspira assim ideólogos. Neste contexto se pode entender a inclinação de muitos por ideias que tentam “justificar”, através de legalismo, a violação do que é dos outros, entre os quais figura uma super estrutura chamada “socialismo”.

74. Idiota vem de “idiotes”, cuja raiz “idios” em grego, significa “o mesmo”

75. Êxodo 20:17

07/07/2022 23h30

Imagem: El Español

Umberto Eco

“Benjamim Constant sustentava (Sobre as Reações Políticas) que dizer a verdade é um dever, ‘mas ninguém tem o direito a uma verdade que prejudique outros’ […] Para Kant, pelo contrário, a veracidade era um dever incondicional: ‘Se um homem recorre a notícias falsas prejudica, não um homem em particular, mas antes todas a humanidade, pois, se o seu comportamento se generalizasse, o desejo humano natural de conhecer seria frustrado’.”

Obra: Dizer o Falso, Mentir, Falsificar. Aos Ombros de Gigantes. Lições em La Milanesiana 2001-2015, edição da Gradiva, Portugal, página 49 a 51, formato físico. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).

Umberto Eco analisa o argumento kantiano sobre o dever incondicional de dizer a verdade na situação, considerada pelo próprio Kant, de um assassino perguntar onde está a vítima escondida por quem é indagado. O semiólogo italiano considera Tomás de Aquino “bem mais equilibrado” na Summa theologiae (II-II, 110) a tratar como ofensa venal a mentira útil, assim como a oficiosa com intenção de “gracejo”.

Mentir muitas vezes é um recurso para evitar problemas em torno dos aspectos humanos emocionais. Neste ponto, nenhum exemplo me parece melhor do que o que se passa no filme A Vida é Bela.

No entanto, enorme diferença há entre a mentira para poupar um semelhante visto como muito emocional ou vulnerável para lidar com uma realidade total (uma criança, por exemplo), assim como o ato de dizer uma coisa falsa sem a intenção de prejudicar ou manipular, por exemplo, um sujeito que sai por aí espalhando conceitos de “terra plana” porque realmente acredita nisso, embora seja um engodo, evidentemente, não é a mesma coisa de dizer o falso com a intenção de enganar, trapacear, causar dano, obter vantagem ilícita, o que pode ocorrer no mesmo tema da “terra plana”, quando um sujeito espalha o engano e tem plena consciência da verdade, mas prefere explorar a crença no que é é falso a lucrar com a boa fé de quem lhe dá atenção. Em suma, tanto no aspecto do sujeito enganado que espalha coisa inverídica (um “idiota útil” na política), como o que o faz de modo consciente (político profissional), consiste o universo das fake news, todavia, são responsabilidades de níveis distintos.

Se muitas pessoas vão dormir sossegadas se lhes pouparem de uma dura sinceridade, a questão ganha outra dimensão na medida em que a mentira sai do âmbito lúdico ou emocional-afetivo, por exemplo, no meu caso que não gosto de ir a festas e, às vezes, para poupar quem tenho apreço no convite, decido “abrandar minha sinceridade”, no entanto, a mentira útil é também um instrumento político, o que me remete a Thomas Sowell em relação às expectativas que as pessoas criam sobre busca de soluções para determinados problemas complexos onde sobram políticos com promessas mirabolantes e eis que o economista americano sintetiza o problema ao afirmar que “quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las.”.

Santo Agostinho, na obra De Magistro,  em diálogo com seu brilhante filho adolescente Adeodato, diz que “nem sequer resta às palavras o papel de manifestar ao menos o pensamento de quem fala, pois è duvidoso se este sabe ou não o que diz. Considera também os mentirosos e enganadores, e facilmente compreenderás que, com as palavras, eles não só não revelam, mas até ocultam o pensamento”. Então, políticos, e não somente os que militam na “vida pública”, mas também na vida privada, de empresas a ambientes familiares, não raramente fazem uso do discurso para que seus ouvintes acreditem no sentido externado que pode não consistir na real intenção do que se pensa realmente e/ou do que se pretende de fato fazer. O estelionato eleitoral é o que sobra, muitas vezes, nesse aspecto na política. O engano, pelo lado de quem está exposto ao dito, e acredita, e a mentira categórica no outro que manipula com supostas intenções na fala, induzidas para dar um sentido de que o dito, por si só, representa a definição ou solução de um determinado problema. Essa prática comum ofusca para confundir a compreensão da diferença entre a intenção apresentada no discurso, a ação para comparação entre o dito e o realizado (execução) e finalmente, o resultado.

06/07/2022 00h20

Imagem: Nobel Prize

Milton Friedman

“O paternalista ‘o que seu país pode fazer por você’ implica que o governo é o patrono, o cidadão o tutelado, uma visão que está em desacordo com a crença do homem livre na responsabilidade por seu próprio destino. O orgânico ‘o que você pode fazer pelo seu país’ implica que o governo é o mestre ou a divindade, o cidadão, o servo ou o devoto.”

Tradução livre.

Obra: Capitalism and Freedom. Introduction, The University of Chicago Press, 2002. De Milton Friedman (EUA/Nova Iorque/Nova Iorque, 1912-2006).

As frases pronunciadas, pelo então presidente Kennedy no discurso de posse, mencionadas em tom crítico pelo (provavelmente) maior economista liberal do século XX em Capitalismo e Liberdade, podem ser facilmente celebradas na patriótica tribo da Pindorama dos cara-pintada-do-capitão que, segundo reza a lenda urbana, gostam de se auto proclamar “liberais” na economia e “conservadores” nos costumes.

Não é preciso fazer muito esforço para identificar a incongruência dessa gente, mas há quem os leve a sério. Certa vez, um eleitor médio dessa tribo citou, como um objeto de extremo desejo, diria até uma espécie de fetiche, o patriotismo (e quando imaginam homem de farda, parecem “subir pelas paredes”) dos americanos como coisa que falta aos brasileiros, justamente com base nesta fala de Kennedy. Ideias do Estado a tutelar o cidadão também permeiam o universo ideológico dos adeptos dessa tribo, que costumam ficar um tanto agressivos quando comparados com os coirmãos da tribo canhota-sovietizante-do-molusco-mais-honesto-deste-país-cafetão-de-linhas-auxiliares.

Quando se reflete sobre Capitalismo e Liberdade, então me vem à mente que os caiçaras de ambas as tribos na verdade são dois irmãos rixosos, separados na infância, e um dia, quem sabe, possam se descobrir como tais e assim terminarem abraçados sob a mesma pajelança.

05/07/2022 21h34

Imagem: British Council

Dylan Thomas

“Não adentrem a boa noite apenas com ternura
A velhice queima e clama ao cair do dia.
Fúria, fúria, contra a luz que já não fulgura.

Embora os sábios no fim da vida,
Sabem que é a escuridão que perdura,
Porque suas palavras não capturaram a centelha tardia,
Não adentram a boa noite apenas com ternura.

Fúria, fúria, contra a luz que já não fulgura.”

Obra: Do not go gentle into that good night. The collected poems of Dylan Thomas. Original Edition. A New Directions Book, eBook Kindle. De Dylan Marlais Thomas (Reino Unido/País de Gales/Swansea, 1914-1953).

De estilo refinadíssimo que me faz associá-lo a Fernando Pessoa, Dylan Thomas foi um talentosíssimo poeta e roteirista galês que produziu em língua inglesa. Tornou-se referência nos EUA.

Trecho da tradução de Não entre gentilmente nessa boa noite em Interestellar, obra cinematográfica dirigida por Christopher Nolan, que considero filosófica, muito além do conceito de “ficção científica”. Obra-prima para meditar acerca de decisões difíceis, extremamente complexas em termos existenciais e afetivos. Ao meditar no drama das personagens que me marcaram, Cooper e Murph (pai e filha) ao rever o filme no final do ano passado, fui ao poema original.

Do filme ao poema, em uma noite adentro com ternura, aos poucos vou descobrindo a melhor fase de minha vida, onde fecho os olhos para melhor enxergar, e assim deixo registrada minha meditação em versos:

Minh’alma peregrina

Na fulgura de um tempo infundado
Divina Luz se contempla apenas em olhos cerrados,
Pela ternura de um olhar insondado
Que conduz além de caminhos meditados.

No silêncio que disfarça a melancolia
Minh’alma peregrina contemplo, sem fantasia.
De tristura a fúria adentro me cubro em poesia
E paz encontro no meio da agonia.

Leonardo Amorim 24/12/2021

04/07/2022 00h08

Imagem: RAI Cultura

Indro Montanelli

“Quando Constantino chegou ao poder, muitas funções dos prefeitos, consideravelmente em declínio, foram assumidas pelos bispos. A igreja foi notoriamente a herdeira designada e natural do Império em colapso. Os hebreus lhe deram uma ética, a Grécia, uma filosofia, e Roma estava lhe dando sua linguagem, seu espírito prático e organizador, sua liturgia e sua hierarquia.

Tradução livre.

Obra: Historia de Roma. XLVI Constantino. Edição em espanhol. Peguin Rabdom House Grupo Editorial, 2014, Barcelona, eBook Kindle. De Indro Montanelli (Italia/Fuccechio, 1909-2001).

A leitura deste domingo me fez lembrar esta passagem no capítulo XLVI sobre Constantino, da obra História de Roma, de Indro Montanelli, que foi um historiador (de estilo espirituoso) e jornalista italiano.

A Igreja Católica Romana é a herdeira do Império Romano (do Ocidente), síntese que também ouvi da professora italiana durante minha visita guidata nos museus do Vaticano, em dezembro de 2018. Na ocasião, se referia com destaque às obras, relíquias, em poder de Igreja, assim como da organização incluindo aspectos da hierarquia (papa, cardeais, arcebispos, bispos, padres) da língua (latim) e da liturgia. O paganismo romano, com o culto aos antepassados e a deuses (Montanelli menciona mais de trinta mil, em XLVII. O triunfo dos cristãos) para necessidades específicas, também estaria também nessa herança? Segue um trecho de uma publicação neste blog sobre os costumes religiosos na domus (também baseada na leitura desta obra):

Uma típica casa romana, de um cidadão chefe de família patrícia, com prestígio, tinha paredes decoradas com ladrilhos ou adobe, com gravuras ou ícones de deuses e símbolos dos antepassados. Séculos antes da fé Católica cultivar um santo para pedidos específicos dos fiéis, romanos tinham deuses específicos para determinadas ocasiões ou necessidades. Júpiter era cultivado como o rei das divindades, dos deuses, do céu, cuja esposa, Juno, era a rainha de todos, cujo nome foi dado a um mês (Junho, em português). Ela costumava ficar fixa na porta da casa com suas duas faces “vigiando” dentro e fora. Minerva era associada à sabedoria, a guerra e às artes. Na imensa lista, encontramos uma deusa especial para os primeiros passos dos filhos, Pamona; para quem procurava ajuda no aprendizado das primeiras palavras dos meninos, tinha Fabulino. Já a Stérculo, um deus um tanto desconhecido, se pedia por um gado mais produtor de estrume. Para abundância de recursos em geral, se ofereciam “prendas” a Saturno. Como alternativa a pedidos mais específicos, tinha a deusa Ceres; das plantas, dos grãos. Da mesma forma que há São Longuinho no catolicismo para ajudar o fiel a localizar objetos perdidos para em seguida dar três pulinhos, como se vê, os antigos romanos tinham um cardápio religioso bem variado para pedirem auxílio ao sobrenatural em problemas específicos, com sacrifícios ou “prendas” de maneira também similar a rituais que se voltam a entidades em diversas confissões da atualidade. Quando um membro da família adoecia, obviamente aos deuses também se apelava em um tempo em que medicina era uma coisa esquisita dos gregos, sendo as enfermidades vistas como sinais dos deuses indicando que se deveria lhes prestar melhor culto ou mais sacrifícios, visando agradá-los ou acalmá-los, tudo conduzido pela liderança ritual do chefe do domus.

03/07/2022 00h12

Imagem: Vaticano

São João Paulo II

“O Autor (da Carta aos Efésios 5.21-33) fala da mútua submissão dos cônjuges, marido e mulher, e de tal modo faz também compreender como é necessário entender as palavras que escreverá em seguida sobre a submissão da mulher ao marido .[…] O Autor não pretende dizer que o marido é ‘dono’ da mulher e que o pacto interpessoal próprio do matrimônio é um pacto de domínio do marido sobre a mulher. Exprime, pelo contrário, outro conceito: que a mulher, na sua relação com Cristo – que é para ambos os cônjuges único Senhor – pode e deve encontrar a motivação daquela relação com o marido, que brota da essência mesma do matrimônio e da família […] O marido e a mulher são de facto ‘submissos um ao outro’, estão reciprocamente subordinados. […] devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. De facto, ninguém jamais quis mal à própria carne; pelo contrário, nutre-a e dela cuida, como também Cristo faz com a Igreja; porque somos membros do seu Corpo. Por isso, ‘o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne’.”

Obra: Teologia do Corpo. Lições de 11/08/1982 e 25/08/1982. Alêtheia Editores, 2013, Várzea da Rainha Impressores, Óbidos, Portugal, eBook Kindle. Tradução a partir da edição portuguesa do Observatório Romano. De Karol Józef Wojtyła (Polônia/Wadowice, 1920-2005), S. Ioannes Paulus PP. II (1978-2005), São João Paulo II.

Entre 05/09/1979 e 28/11/1984 o Papa João II realizou lições sobre o tema da Teologia do Corpo, abertas ao público, no Vaticano, ministradas nas quartas-feiras. As lições foram compiladas em um livro que leva o mesmo nome. Em janeiro do ano passado finalizei a primeira leitura da obra e ao perceber a riqueza do conteúdo, que não se resume a ser uma catequese, se revelou como um dos textos mais importantes que li de teologia produzida no século passado. Então decidi fazer uma releitura à francesa com um resumo de cada lição em blocos, a partir de março do mesmo ano. Os resumos são publicados neste blog.

Não sou católico romano. Estou situado em bases teológicas do protestantismo de confissão batista. Tenho grande respeito pela confissão católica romana e a considero a mais importante do Ocidente, seja pelo preparo teológico superior de seus ministros, na comparação com o que ocorre entre protestantes, seja por ser herdeira do Império Romano no sentido do legado cultural, onde se situam as tradições (onde se insere o Novo Testamento) bem como da estrutura eclesiológica. Não se trata de uma admiração pelo Império Romano; o que me interessa é um melhor entendimento sobre a antiguidade, o passado e minhas raízes. Por isso nas duas ocasiões em que estive na Itália, fiz duas visitas ao Vaticano, na primeira fui aos museus com visita guiada onde pude contar com o suporte de uma especialista italiana que me deu uma inesquecível aula de história antiga enquanto caminhávamos por salas e aposentos que acomodam um tesouro de relíquias e obras de arte cujo valor me pareceu incalculável. Nas duas ocasiões fui escutar o tradicional Angelus professado pelo Papa Francesco.

A Carta aos Efésios, no tema do casamento, apresenta o que vejo como “subversão” de valores que predominavam no Império Romano, onde a união marido-esposa não passava de um negócio entre famílias por meros interesses, quando não políticos, econômicos, onde a submissão da mulher, tratada como propriedade, era em via única diante do marido. O casamento como negócio de famílias deixou de ser evidente na atualidade, mas isso não significa que deixou de ser regido por interesses materiais, só que desta vez entre os próprios indivíduos envolvidos quando motivados por conveniências em torno de estabilidade econômica, quando não por atração de cunho sexual de uma das partes, normalmente a que oferece o “porto seguro” das comodidades, embora tal união esteja recheada por “declarações de amor” em tempos em que as aparências enganam em escala de redes sociais. Contudo, essa visão utilitarista do casamento, marcada mais ou somente por interesses materiais, físicos, se choca com os valores altruístas do matrimônio que são discorridos na Carta aos Efésios, pois o Autor insere a relação Cristo-Igreja como modelo de união de mútua submissão baseada no amor. Cristo ama e por isso entregou a própria vida pela humanidade, onde a Igreja representa essa aliança a lembrar o que ocorrera no Antigo Testamento entre Javé e Israel. A Igreja forma o corpo que se integrou mediante a fé à cabeça que é Cristo Jesus. A Igreja-esposa, como parte nessa formação, tem Cristo-Esposo que é um senhor diferente da ideia subserviente da mulher perante o marido na mentalidade patriarcal romana, pois se entrega totalmente para salvar ou ser o guardião da vida da “esposa” ou seja, pela Igreja em uma relação livre de coerção mediante figura de linguagem de Cristo-Igreja a servir de base moral para a relação marido-esposa.

A união marido-esposa em Efésios também está carregada de um profundo sentido teológico que se remete ao Antigo Testamento no conceito de que “o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne” (Gênesis 2.24). Sobre isso, reproduzo alguns trechos dos resumos:

A ilustração corpo-cabeça, em analogia com Cristo-Igreja e esposo-esposa é, em certo sentido, pedra angular em Efésios; condicionada ao amor, sendo moral, orgânica, somática, biológica; para o matrimônio se funda também em uma união psíquica de dois sujeitos distintos em um, o que pode encontrar fundamento em Gênesis 2.24; “uma só carne”, no entanto, a analogia dessa união não ofusca a individualidade dos sujeitos envolvidos. Denota bi-subjetividade, onde a primeira, Cristo-Igreja, reflete uma entrega por manifestação de amor à Igreja como imagem ou um modelo para o amor a segunda relação, esposo-esposa, como referência ao que o marido deve manifestar à mulher no matrimônio (“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja”). […] O corpo da mulher não é o próprio corpo do marido, mas deve ser amado como se fora: “Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Efésios 5.28); em certo sentido o “eu” da mulher se torna o “eu” do marido. E assim se aprofunda o significado de ser “uma só carne” ao deixar pai e mãe para essa união cuja finalidade é a santificação (Efésios 5. 25-26) cujo princípio está o batismo, como purificação “no banho da água e pela palavra” (Efésios 5.26), cujo poder deriva da doação de Cristo à Igreja em caráter esponsal em uma ilustração à Igreja onde quem se batiza sinaliza o preparo do corpo Igreja para a união com Cristo.

O mistério da união Cristo-Igreja como referência ao matrimônio, representa para mim o ponto de maior destaque para o vazio perigoso em que o casamento vem se direcionando na pós-modernidade diante da Teologia do Corpo discorrida pelo pastor e teólogo Papa João Paulo II. O profundo sentido dado a expressão “uma só carne”, derivada das características da íngua hebraica, na perspectiva cristã acaba indo muito além da união carnal, alcançando uma união de egos ou de personalidades, embora permaneçam as individualidades, soa como uma visão atualíssima para tempos correntes porque tem o potencial de atingir o centro nervoso de crises matrimoniais onde cônjuges, muitas vezes uma ou ambas as partes, marido e/ou mulher, se fecha(m) em si mesmo(s) em interesses e conflitos mal resolvidos e, não raramente tratados sob questões materiais ou em reencontros hedonistas. Compreender que essa união vai além do corpo físico, da matéria – nas vicissitudes tangíveis do cotidiano – é a parte mais importante da mística em torno da relação marido-esposa tendo o modelo Cristo-Igreja como referência superior.

Percebo que a obra Teologia do Corpo pode ser muito útil para aprimoramento teológico de pastores em confissões protestantes, evidentemente excetuando os poucos trechos onde São João Paulo II se refere às doutrinas estritamente particulares do catolicismo romano.

02/07/2022 20h02

Imagem: Skoob

Simone de Beauvoir

“[…] Considerei sempre com desprazer o casamento. Não via nele uma servidão, porque mamãe nada tinha de oprimida; era a promiscuidade que me repugnava. ‘Não se pode sequer chorar tranquilamente à noite na cama se se tem vontade’, pensava com pavor.”.

Obra: Memórias de uma moça bem-comportada. Edição da Nova Fronteira, 2017, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir (France/Paris, 1908-1986).

E eis que uma mocinha parisiense bem-comportada, que se confessava duas vezes por mês e comungava três vezes por semana e gostava de ir a capela para rezar, nos intervalos das aulas, de família tradicional bem estruturada, de um pai culto, pensador, crítico e educador do lar, com uma mãe dedicada aos bons costumes, em um roteiro que seria mais compatível com o de uma mulher conservadora, se tornaria a notável teórica do feminismo moderno, de viés socialista, progressista; intelectual de imensa envergadura, muito distante da coisa comum em esquerdistas sem conteúdo, pobres intelectualmente, cheios de clichês e espantalhos. Simone de Beauvoir produziu uma grandiosa obra que merece ser estudada por todos, sobretudo quanto aos estereótipos em torno do corpo feminino e do significado do patriarcado, independente de preferências ideológicas: O segundo sexo.

Memórias de uma moça bem-comportada é uma interessante autobiografia da escritora (não escondo) que tenho admiração, apesar de discordar de suas preferências político-ideológicas, incluindo as questões de gênero. Não jogo em time de bolha, onde a tribo dos conservadores amaldiçoa tudo que vem da tribo dos progressistas e vice-versa, como se a humanidade fosse dividida em duas categorias onde o pensamento e o comportamento são determinados por crenças binárias a determinar o que psicólogos da TCC chamam de “pensamentos automáticos”.

No trecho, é difícil se ter em um casamento um nível de cumplicidade onde os cônjuges estejam tão ligados (dando um sentido mais profundo ao “uma só carne”) a ponto de revelarem um ao outro suas profundas perturbações e, ao mesmo tempo, serem capazes de darem um espaço para a individualidade. No mais, o desprazer revelado soa como uma ensaio de uma menininha prendada prestes a se tornar, por um comum pleonasmo, adolescente rebelde e, dada a sua criação conservadora, ligada à leitura, disciplinada e um tanto incentivada em espírito crítico pela figura paterna, que teve maior peso intelectual nos primeiros anos de vida, se tornou uma jovem, mediante o pedigree intelectual, de capacidade para uma exímia crítica sobre problemas de gênero e, por tabela, relacionados ao casamento convencional. Talvez a passagem tenha sido também uma sombra acerca da forma como trataria o que se tornou longevo e não convencional relacionamento com outro gigante da filosofia, Jean-Paul Sartre (France/Paris, 1905-1980). Por fim, segundo Fernando Henrique Cardoso, na ocasião de tradutor do casal em visita ao Brasil, Simone de Beauvoir “era uma mulher bela e elegante de cintilantes olhos azuis. Tratava Sartre mais como um bebê do que como um amante.” [73].

73. O improvável presidente do Brasil. Edição da Civilização Brasileira, 2015, São Paulo.

01/07/2022 23h26

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Søren Kierkegaard

“Aos olhos do mundo, o perigo está em arriscar, pela simples razão de se poder perder. Evitar os riscos, eis a sabedoria. Contudo, a não arriscar, que espantosa facilidade de perder aquilo que, arriscando, só dificilmente se perderia, por muito que se perdesse, mas de toda a maneira nunca assim, tão facilmente, como se nada fora: a perder o quê? a si próprio. Porque se arrisco e me engano, seja! A vida castiga-me para me socorrer. Mas se nada arriscar, quem me ajudará? Tanto mais que nada arriscando no sentido mais lato (o que significa tomar consciência do eu) ganho ainda por cima todos os bens deste mundo – e perco o meu eu.””

Obra: O Desespero Humano. Livro III. Personificações do desespero. Desespero da finitude ou carência de finito. Edição da Martin Claret, São Paulo, 2003. Formato físico. De Søren Aabye Kierkegaard (Dinamarca/Copenhague, 1813-1855).

Reler esta passagem de O desespero humano me fez voltar aos tempos de adolescente quando ouvi um sermão marcante onde o pastor afirmou: “Viver é um grande perigo!”.

Não raramente visto como “pai” do existencialismo, a filosofia de Kierkegaard tem forte influência em minha formação cristã e no meu jeito de pensar.

Viver é um ato inerente ao risco. Quem deseja experimentar intensamente a vida tem que se arriscar. As pessoas mais vividas que conheço são marcadas por decisões improváveis aos olhos de quem busca apenas “estabilidade” nas conveniências que se limitam a meros interesses materiais.

Embora tenha crescido como economista e tratado o problema da aversão ao risco como um objeto de estudo, aprendi que a disposição ao risco é o que possibilita à nossa espécie desbravar novos horizontes. Sem grande aptidão ao risco, pelos antepassados, não estaria hoje a escrever com as tecnologias que disponho. Nossa espécie foi se tornando civilizada na medida em que foi se dando a novos riscos.

A aversão ao risco envolve uma forma de considerar custos ou danos de se correr determinados perigos, no cometimento de falhas, mas isso não significa que riscos em si mesmos devem ser sempre evitados como se a vida pudesse ser bem levada na mais absoluta segurança, o que é uma grande ilusão. O risco é um componente natural e inevitável em tudo o que é humano.

Quem nunca se arrisca está morto.

Tenho vulnerabilidades diversas, algumas conheço, outras sequer posso imaginar; neste último ponto, a pandemia, com seus desdobramentos, veio para me lembrar desta verdade. Sou frágil e ao mesmo tempo confrontado com a necessidade de correr riscos para viver. Então a questão crucial é procurar identificar perigos, fatores em que poderei provocar danos em cada circunstância da vida e decidir se vou corrê-los ou não. Não se trata apenas de uma análise baseada no utilitarismo e sim na complexa sondagem de razão e intuição, racionalidade e sentimentalidade. Estar sempre na defensiva, em busca de uma vida “estável”, na ilusão de que posso evitar riscos e assim não me expor, não passará de uma crença infantil de que poderei viver em negócios “sem riscos”. Essa ilusão vai me garantir apenas duas coisas: uma alienação diante do significado da vida onde estarei em uma existência morta de espírito humano enquanto vou abdicando de um melhor conhecimento sobre o meu próprio eu, porque na medida em que vou evitando riscos o tempo todo, vou morrendo por dentro, deixando de saborear a própria vida, mas na medida em que decido me arriscar, entre erros (onde a vida me castiga) e acertos, em ambos os resultados, vou aprendendo a me conhecer melhor, vou tomando melhor consciência do meu eu, e assim seguirei a avaliar certos limites entre diversas outras questões dado o acúmulo de experiências, até mesmo para decidir melhor sobre os riscos.

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5 Replies to “Uma leitura ao dia (jul/22)”

  1. Primeiro, meus sinceros parabéns.

    Se puder responder, mui grato amigo, então, como encontras tempo?

    Pergunto porque cheguei aqui por um link do outro site, que já deve dar um trabalho danado para manter atualizado e quando vi o que você faz neste, não resisti em perguntar. Rs.

    Corrija-me se estiver enganado: Você publica tudo isso sozinho.

    Excelentes comentários dos livros.

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