Segue Uma leitura ao dia com lembranças e recomendações a cortejar a dúvida, o contraditório, o desbravar a si mesmo no desprestigiado empreendimento de conhecer melhor um pouco da vasta dimensão da própria ignorância, a romper com antigas ilusões de tempos outrora pleno de certezas, a contrariar novas convicções pelo fogo do além-do-homem destemido com a realidade, tudo regado ao Finale e no Europe’s anthem com o Hino à Alegria da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven (Sacro Império Romano-Germânico, hoje Alemanha/Bonn, 1770-1827), na graciosidade do European Union Youth Orchestra (EUYO).

28/09/2022 23h31

Imagem: El Español

Umberto Eco

“Em 16 de agosto de 1968 me veio às mãos um livro do abade Vallet, o manuscrito de Dom Adson [129] de Melk, traduzido em francês de acordo com a edição de Dom J. Mabillon (Aux Presses de l”Abbaye de la source, Paris, 1842). O libro, acompanhado por indicações históricas muito pobres, alegava reproduzir fielmente um manuscrito do século XIV, por sua vez encontrado no monastério de Melk, pelo grande erudito do século XVII, a quem tanto se deve pela história da ordem beneditina.”

Tradução livre.

Obra: Il nome della rosa. Naturalmente, un manoscritto. 5 gennaio 1980. Edição da Bompiani, 2019, Firenze, formato físico. De Umberto Eco (Italia/Alexandria, 1932-2016)

E assim começou a história do premiado O nome da rosa. 2019, adentro em uma livraria próxima ao Palazzo Montecitorio e lá estava em destaque o grande romance do bibliófilo. Não resisti…

Na introdução (Naturalmente, um manuscrito) conta Umberto Eco que estava em viagem e leu o livro “em um clima de grande excitação, fascinado pela terrível história de Adso [129] de Melk” (p. 9). Quem o apresentou, de repente desapareceu. Restou-lhe algumas anotações de punho “e um grande vazio no coração” (p. 10).

Umberto Eco foi a Paris pesquisar sobre o texto misterioso e encontrou problemas para confirmar a sua autenticidade; cogitou que tivesse chegado em suas mãos uma falsificação (p. 11). Dois anos depois, em Buenos Aires, encontra em uma livraria de antiguidades em Corrientes, um livreto em castelhano, de Milo Temesvar, com citações do manuscrito misterioso de Adso, tendo como fonte não o abade Vallet, mas o padre Athanasius Kircher, sem citar a obra (p. 11).

Foi então que o semiólogo e medievalista italiano começou a pensar em produzir uma versão italiana do manuscrito, pleno de dúvidas sobre a sua historicidade, embora com alguma tentação para tomar a coragem de apresentá-lo como autêntico (p. 14). Começou a escrevê-lo em março de 1978 (p. 584).

Fato é que Umberto Eco produziu um belíssimo romance na história de Adso. Nas notas no final da edição, como um posfácio, aborda algumas questões interessantes na construção do romance: o título, a considerar a rosa como uma figura simbólica “tão densa de significados” (p. 581), que decidiu contar a história “pela boca de um cronista da época” (p. 587), e assim romanceou como um “fato cosmológico”, onde precisou “construir um mundo” (p. 588); aqui entendo como uma tradução de um tempo e uma visão da vida tão distantes na perspectiva de quem iria lê-lo e, evidentemente, para isso contou com sua expertise de medievalista. Assim o fez se divertindo no desejo de divertir o leitor (p. 604).

129. Adso em italiano, Adson em francês.

27/09/2022 23h10

Imagem: PNP.de

Hans Woller

“Mussolini estava morto, mas para os protagonistas da Resistência, ainda era muito pouco. A morte do ditador tinha que ser de domínio público […]”

Tradução livre

Obra: Mussolini, Il Primo Fascista. Dongo, 28 aprile 1945. Salò e morte. Edição da Carocci editore, 2018, Roma. De Hans Woller (Alemanha/Aldersbach, 1952).

Durante minha primeira viagem (2018), a leitura deste livro, lembrança de Milão, foi “relâmpago” dada a qualidade do texto. Ao caminhar pela cidade foi inevitável a conexão com os lugares do que fora “uma típica justiça de praça italiana” como dissera outro historiador, o italiano Indro Montanelli, na série televisiva La Storia d’Italia [127].

A Segunda Guerra estava no desfecho e a Itália sob o armistício. Depois do fracasso da Reppublica di Saló, Mussolini tentou cruzar a fronteira disfarçado de militar alemão, acompanhado por sua amante, Claretta Petacci; foi reconhecido e capturado. Um círculo de líderes militares da Resistência, com predominância de militantes de esquerda, aparentemente, decidiu pela execução. Desde o início foi descartado um procedimento judicial ordinário. Era 28 de abril de 1945 e Walter Audissio, comunista que tinha combatido na guerra civil espanhola, foi o encarregado para cumprir a ordem e decidiu matar também a amante de Mussolini. O fascista diante do executor teria dito: “aponte para o coração”. No final daquela tarde, Audissio daria um banho de sangue; em Dongo ainda executaria ministros e funcionários do partido fascista, incluindo Pavolini, o último secretário (p. 255).

Os corpos de Mussolini e demais executados no Lago de Como foram carregados em um furgão e levados a Milão para serem deixados na Praça Loreto, lugar escolhido pelos comunistas dado o seu valor simbólico, pois em agosto de 1944, 15 reféns italianos foram mortos no mesmo local, por milicianos sob ordens dos alemães, e assim os comunistas devolveram na mesma moeda. A ideia é que todos em Milão pudessem ver o ditador morto e exposto como um adeus ao regime de terror. Foi uma “festa popular” (p. 256) com milhares de pessoas a conferir os cadáveres. Alguns com pistolas e fuzis atiravam nos corpos sem vida, outros cuspiam, chicoteavam e até se tentou colocar um rato na boca de Mussolini, enquanto algumas mulheres urinavam sobre o cadáver do “duce” que, em seguida, foi o primeiro a ser içado para virar alvo de pedras e objetos de diversos tipos, de modo que a cabeça ficou rachada, deformada, em meio a queimaduras de cigarros nos lábios, no nariz a na bochecha. Entre 1945 e 1946, fascistas tentavam fugir ou suicidavam-se, certos de que na Itália o que restava era a pena capital por execução, contudo, nada superou a forma bestial com que Mussolini foi tratado (p. 257).

A forra popular, por ironia, foi na mesma cidade onde o movimento fascista foi lançado, e aqui me remeto a 1919 na Praça San Sepolcro em Milão, “com o apoio das lojas maçônicas daquela cidade” [128].

127. La Storia d’Italia di Indro Montanelli – 01 Piazzale Loreto e la fine del fascismo;

128. Ver página 32 de O fascismo eterno. Editora La Nave di Teseo, Milão, 2018, no Kindle.

26/09/2022 23h45

Imagem: Nobel Prize

Friedrich August von Hayek

“Poucos aspectos dos regimes totalitários despertam tanta confusão no observador superficial e são, ao mesmo tempo, tão característicos do clima intelectual desses sistemas, como a completa perversão da linguagem, a mudança de sentido das palavras que expressam os ideais dos novos regimes.”

Obra: O Caminho da Servidão. Capítulo 11 – O Fim da Verdade. 6a. edição pelo Instituto Mises Brasil, 2010, São Paulo. De Friedrich August von Hayek (Áustria/Viena, 1899-1992).

Leitura de 2007, ano marcado por um divisor de águas em minhas crenças políticas. Representou um período em que percebi algo diferente em minha forma de pensar a perceber que a interpretação da Escola de Frankfurt sobre os problemas do socialismo me deixavam com outras questões no vazio e me via até então como “um democrata liberal em economia”.

Na sequência do trecho, Hayek menciona “liberdade” como a palavra mais deturpada (p. 156). Sempre que encontro quem viveu na juventude durante a década de 1970, auge do regime militar, pergunto sobre se tinham alguma ideia, na ocasião, de que estavam a protestar contra um regime autoritário em favor de outro, a tal “ditadura do proletariado”, e a resposta é sempre a mesma: Não. Naqueles tempos, pelo que escutei de muitos, aparentemente a palavra “liberdade” estava sob controle de narrativas dos que apreciavam o regime de Fidel Castro em movimentos que corriam na excitação de resistência ao regime militar em boa parte da imprensa e, sobretudo, nas universidades. Nada mais sintomático do que observar, nos dias atuais, quem encontre sentido entre “socialismo” e “liberdade”; até um partido apreciado por riquinhos da zona sul carioca foi fundado com essa curiosa relação.

O fascismo, o nazismo e o comunismo foram três regimes no contexto das análises de Hayek, onde “liberdade” passou a ser um termo instrumentalizado em favor do autoritário. Cita Peter Drucker [126]:

“quanto menos liberdade há, mais ouvimos falar em ‘nova liberdade’. Todavia, essa nova liberdade é uma simples palavra com que se encobre a negação completa de tudo quanto a Europa já entendeu por liberdade. A nova liberdade que se prega na Europa resume-se, entretanto, no direito da maioria contra o indivíduo” (p. 157).

Adverte Hayek sobre o impacto da deturpação da liberdade no exercício da ciência, quando passa a servir não à verdade, “mas aos interesses de uma classe, de uma comunidade ou de um estado” e assim a finalidade única da argumentação e do debate “é justificar e difundir ainda mais as ideias por meio dos quais é dirigida toda a vida da comunidade” (p. 160). Lembra o austríaco o que dissera o ministro da justiça nazista quando a pergunta que toda nova teoria científica deve fazer a si mesma:

“estarei servindo ao nacional-socialismo para maior benefício de todos?” (p. 160)

E então o próprio sentido da “verdade” é deturpado, no contexto científico, passando a ser submetido ao entendimento da autoridade politica em evidência.

Torno aos dias atuais e não é preciso fazer muito esforço para notar que “liberdade” e “ciência” são termos um tanto reverenciados por líderes, cada um conforme suas necessidades de retórica, na labuta do tabuleiro político onde sobram interesses por mais controles sociais de acordo com suas conveniências de sentido coletivista.

E eis que não é difícil encontrar quem acredite na liberdade em Cuba, na Venezuela, na Coreia do Norte, na liberdade em países europeus encharcados de progressismo que aliena cada vez mais seus cidadãos conforme um viés governamental nitidamente avesso ao laissez-faire, e claro no Brasil sovietizado pela Constituição Cidadã de lulistas a bolsonaristas, bem como há quem se ufane pela Rússia do Putin onde protestantes contra a guerra são presos, cuja narrativa governamental gira em torno da “nobre missão” de lutar contra o “nazismo” na Ucrânia em uma “operação especial” (não é guerra, tampouco invasão…) em favor da “liberdade” dos irmãos falantes de russo que por lá vivem a sofrer com as cruéis perseguições de milícias supostamente a serviço do “tirânico” governo de Kiev. Enfim, há sempre uma harmonia bem customizada em crenças ideológicas a envolver o entendimento sobre “liberdade” em visões de mundo baseadas em restrições e violações sistematizadas por grandes arranjos corporativos coercitivos.

Por fim, nada mais sutil vejo entre curiosos que se dizem “liberais na economia” e “conservadores nos costumes” que aparentam crer na “liberdade de mercado”, desde que a economia seja “regulada” pelo planejamento central do Estado vosso de cada dia.

126. Nota 3: The End of Economic Man, p. 74.

25/09/2022 21h42

Imagem: Redelp

Henri Lefebvre

“Durante um discurso ou uma discursão, o sentido de cada palavra deve conservar-se idêntico; se isso não ocorre, os interlocutores não sabem mais o que estão falando e não falam mais a mesma coisa. É preciso definir e conservar a definição, até o momento em que ela é enriquecida; esse enriquecimento, caso ocorra, deve ser realizado de modo consciente; quem o realiza deve advertir seu interlocutor.”

Obra: Lógica Formal, Lógica Dialética. Capítulo III. Lógica Formal. Função da forma. 6a. edição, Civilização Brasileira, 1995, Rio de Janeiro, formato físico. De Henri Lefebvre (France/(Hagetmau, 1901-1991).

Leitura original de 1996, na graduação em economia, por indicação de um professor de história do pensamento econômico, ateu e de viés marxista. Sete anos depois, no período de seminarista, descobriria que o docente tinha sido aluno na mesma instituição teológica que ingressei e por lá teria “revisado a fé” a ponto de abandoná-la pelo marxismo.

Henri Lefebvre foi o que posso chamar de genuíno intelectual de esquerda, coisa raríssima nos dias atuais nos limites entre os pensadores que pude conhecer, até o momento. Crítico do stalinismo (p. 5) e toda forma de dogmatismo no pensamento, algo que pode ser observado no prefácio de 1969, na edição que disponho, na abertura parece que ocorreu com ele o que se chama hoje de “cancelamento”, dadas as críticas ao, pelo visto, optar pela coerência. Ao contrário do que se pode ver entre o que pensam certos neoconservadores, quando induzem entendimento de que “marxismo” é tão-somente sinônimo de fraude e pobreza lógica, a esquerda tem um uma base intelectual muito sólida, apesar de ser também, como ocorre na direita, no bojo político com suporte acadêmico oportunista, um centro de atração para muitos falsários, impostores e dissimulados.

A lógica dialética é um aprofundamento a mediar o trajeto do espírito crítico a partir da síntese na redução do conteúdo, esmiuçando-se no confronto de tese e antítese ou como diz o autor, “a lógica formal não proíbe o pensamento dialético” e, mais adiante, que a lógica formal “remete a dialética” (p. 24).

Quanto ao trecho mencionado, Lefebvre dá uma demonstração de apreço pela consistência lógica que pode surpreender a quem imagina que intelectuais de esquerda se resumem a sujeitos desonestos na explanação de ideias ou seja, manipuladores e sem qualquer interesse por consistência lógica. O francês é de outro naipe, muito sofisticado. No parágrafo adiante adverte que o pensamento “mesmo em seu movimento, quando apreende um conteúdo igualmente mutável, deve permanecer coerente”. Para o filósofo marxista formado na Universidade de Paris, no movimento que tange ao pensamento, o mesmo “não deve destruir-se” o que seria “transformar-se numa sequencia de afirmações desligadas entre si, de sentimentos, de imagens ou de sensações, numa sequência de contradições inconscientes” (p. 135).

E se muitos “confundem a imaginação com a razão”, como considera no mesmo parágrafo, a obra é oportuna pois Lefebvre expõe problemas de lógica na construção do pensamento, faz uma interessante análise da lógica aristotélica (formal). Então penso na construção de discursos, reflexões, narrativas que, à mon avis, nos afligem constantemente e que a diferença de conduta reside na ética quando, pela dialética, podemos descobrir nossas falhas e/ou imprecisões de pensamento, e assim pela consciência também podemos reconhecer, revisar, reformar e reconstruir pensamentos. O problema é que no meio político o que predomina é a inconsistência no pensar de forma deliberada, para fins desprovidos de qualquer virtude, e assim não há suporte no infeliz pragmatismo do mundo real para o que Lefebvre trabalha na obra, que é muito interessante de ser apreciada, em especial para os desprovidos de paixões ideológicas.

24/09/2022 19h08

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

“O meu livro Mensagem chamava-se primitivamente Portugal. Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar — a observação era por igual patriótica e publicitária — que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. ‘Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com ‘portugalize os seus pés?’’ Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.”

Obra: Apontamento sem data. Mensagem. Obra poética de Fernando Pessoa. Volumes I e II. Edição da Nova Fronteira, 2016, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

Na introdução (pp 13-14) de outra edição que disponho, da Martin Claret (São Paulo, 2005), assinada por Alberto Bento Augusto, informa-se que Mensagem foi elaborada de 1913 a 1934, a ser a única obra publicada que Fernando Pessoa pode ver e que foi submetida a um concurso de poesia nacionalista “Antero de Quental”. Venceu Vasco Reis, pseudônimo do padre Armando Reis Ventura. Bento Augusto cita Prof. Massaud Moisés que sugere ser Vasco Reis, “escritor de segunda categoria” (p. 14). Fato é que a obra de Vasco Reis caiu no esquecimento e que Mensagem “elevou-se à constelação da obras-primas da literatura da língua portuguesa” (p. 14).

Amo certos traços da brasilidade, a madre língua, a capacidade de improviso no jeito de ser, o que denota inteligência criativa peculiar, o espírito alegre e de acolhimento que contrasta com certa frieza de outros povos… Posiciono-me distante dos estereótipos do carnaval, do futebol e da vulgarização das nádegas femininas, e assim penso no brasileiro trabalhador, empreendedor, batalhador, do ambulante que luta nos engarrafamentos para não passar fome ao grande agroindustrial produtor e distribuidor de commodities em uma cadeia global de alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. Claro, temos nossos defeitos, mas vou aqui usar um espírito europeu, para enaltecer qualidades que superam as debilidades, e não o estilo “vira-lata” que se situa no setor degenerativo da brasilidade.

Acontece que ao amar determinados traços da brasilidade, e nesse sentido ter orgulho de ser brasileiro, alguns, que se situam no bojo dos idiotes, facilmente encontrados entre militantes dos uga-uga-bolsonaristas, uga-uga-lulistas, uga-uga-qualquer ista ideológico-coletivista-patético, entendem que devo inserir, por obrigação, um patriotismo ou um coletivismo coercitivo que passa a celebrar abstrações impositivas e aberrações cognitivas comportamentais; a primeira coisa consiste no culto ao Estado nacional, abstração alienante do grande centro de promoção do atraso na vida do que Machado de Assis via como o sujeito do “Brasil real”, e a segunda consiste na primitiva associação de apreço à nacionalidade por meio da celebração de políticos de estimação.

Essa confusão entre amar a brasilidade e ser patriota fica estabelecida nos frutos de dissonância cognitiva que aprofunda a miséria de uma mentalidade cujo raciocínio é deveras rudimentar, binário, tosco, simplista, ignaro, desprovido de um mínimo espírito crítico que possa trazer algum enlevo intelectual.

Entretanto, como Fernando Pessoa que amou Portugal, o português, da madre língua a dimensão cultural , enquanto desprezou o vil patriotismo estatizante prostituto, sigo na mesma inspiração, para amar o Brasil, admirar muitas coisas da brasilidade, ser reticente com tantas outras, enquanto tenho total repúdio a apropriação política que se traduz em um bestial nacionalismo em delirante politização que assombra na história do povo, que despreza o conhecimento aprimorado por glamourizar o besteirol e a ignorância.

23/09/2022 23h40

Imagem: Città Nuova

Marco Aurélio

“[…] habitua-te a pensar somente naquilo que, se alguém te perguntar de repente o que estás pensando, possas responder com total franqueza e de imediato; de modo que, se assim te abres, será possível perceber de maneira rápida e evidente que és sincero e benevolente em relação a tudo e que és dotado de espírito de comunidade, isso sem ceder em absoluto aos prazeres e às fantasias voluptuosas, livre do gosto pelas disputas, pela inveja e pela suspeita, ou por quaisquer outras coisas cuja revelação te faria enrubescer. [..]”

Obra: Meditações. Livro III. 1a. edição da Edipro, 2019, São Paulo. De Marco Aurélio Antonino (121 d.C.-180 d.C.)

TΩN EIΣ EAYTON – Meditações do Imperador considerado filósofo por muitos, obra escrita em cerca de 167 d.C.

Tradução de Edson Bini (Brasil/São Paulo/São Paulo, 1946) com base na edição da Teubner (1903, Alemanha/Leipzig). O tradutor, na introdução, não vê Marco Aurélio como um filósofo estoico e sim um estoico (p. 9).

Na abertura do mesmo parágrafo (p. 29), diz o imperador, “Não gastes o resto de tua vida com ideias que dizem respeito aos outros a não ser que tenham relação com o interesse comum […]”. E segue a meditar em seu estoicismo de que se deve evitar supérfluo e pernicioso no encadeamento das ideias, concentrar-se na própria vida, cumprir com as obrigações, ter espírito comunitário, fazer o que cabe a ser feito de forma íntegra, correta, e evitar as paixões, os excessos, para estar “profundamente mergulhado na justiça”.

“Quanto às pessoas que não vivem assim, lembra incessantemente que tipo são em suas casas ou fora delas, dia e noite, quais são suas companhias, como passam suas vidas em um estado de confusão […]” (p. 29).

E completa que não se deve aceitar o louvor de tais pessoas, que não são capazes de satisfazerem a si mesmas.

Do cuidado com o pensamento ou no que vejo no “cultivo do intelecto”, voltado à prática ou ao pragmatismo (πράξις prâxis). Em Marco Aurélio é oportuna a síntese em três princípios a serem seguidos (pp 11-12), elencados pelo tradutor Bini: Prática das virtudes, devoção religiosa e interesse comunitário.

Lendo a obra pude perceber como Marco Aurélio externou uma interessante relação entre cuidar do que se ocupa na mente, de maneira que isso se revele em atitudes virtuosas ou hábitos. É nítida a ênfase no tratamento da interioridade do nosso ser de maneira que influa na conduta pelo mundo exterior. Então, penso que esta obra é muito importante para ser lida e meditada em nossas dias de culto intenso e megalomaníaco das aparências e da ostentação, enquanto os valores parecem um tanto jogados ao léu. Penso em quanto está em desprestígio o empreendimento de cuidar do próprio intelecto, do que penso também como “investimento espiritual”, certamente em face de uma predominância do zelo pelo “eu exterior”.

Como seria se fosse habitual que se tratasse o espírito – o intelecto – com a mesma disposição que se cuida do que é aparente?

Se houvesse a mesma entrega do intelecto – vetor de pensamentos que se voltam à ação em virtudes – em comparação com o que se faz na dedicação ao corpo físico, objeto mortal tão idolatrado e supostamente “sarado”, enquanto no desejo de ser desejado, cuja cultura hedonista e narcisista se traduz em gastos de tempo e pequenas fortunas com plásticas, apetrechos e malhação na academia, enquanto a mente atrofia em um vil materialismo.

22/09/2022 23h18

Imagem: Erich Fromm.net

Erich Fromm

“Com efeito, apesar de os comunistas soviéticos, assim como os socialista reformistas, acreditarem ser inimigos do capitalismo, conceberam o comunismo – ou socialismo – segundo o espírito do capitalismo.”

Obra: Conceito marxista do homem. Capítulo I – A adulteração dos conceitos de Marx. Edição Zahar, 1970, Rio de Janeiro, formato físico. De Erich Fromm (Alemanha/Frankfurt, 1900-1980).

Leitura de 2001. Anotações na biblioteca por um estudante em crise de fé política, no afã de entender melhor os conflitos do “socialismo da realpolitik“.

A visão crítica de Erich Fromm sobre o que Marx teorizou e o que determinados marxistas realizaram, no caso os soviéticos e os “socialistas reformistas” parte do entendimento de que é inteiramente falsa a imagem popular das ideias de Marx no tocante à tendência antiespiritual e ao desejo de uniformidade e subordinação (p. 15). Sintetiza Fromm que “a própria meta de Marx é libertar o homem da pressão nas necessidades humanas, de modo a ser completamente humano” (p. 16).

Então, partindo do entendimento de que a teoria de Marx foi deformada (p. 16), Fromm aponta a ignorância dos que se dizem conhecedores das ideias de Marx sem o terem lido minimamente. Depois, pontua o efeito da propaganda soviética pelo mundo de que os revolucionários russos estavam a aplicar a ideias de Marx, algo reconhecido pelo mundo capitalista ocidental. Fromm, neste aspecto, vê a interpretação sobre Marx no equívoco de concebê-lo sob uma linha econômica-hedonista, o que fora, segundo o autor, compartilhado também por socialistas anticomunistas e reformistas (p. 17).

O terror de Stalin associado a ideia de que o modelo soviético expressava o pensamento de Marx teria deixado o comunismo no “lugar do diabo” (p. 18). No entanto, Fromm suscita a questão sobre a legitimidade do estigma no comunismo a partir do que ocorrera no modelo soviético, visto que os críticos teriam aplicado uma indignação seletiva a considerar os atos de terror e desumanidade praticados por franceses (de viés socialista reformista) na Argélia (p. 18).

Ao ler Fromm em 2001, ainda em uma mentalidade idealista-coletivista-progressista, tive uma sensação de que seus argumentos faziam certo sentido para sustentar alguma crença no socialismo em Marx e que, talvez, as ideias anticapitalistas tenham sido mesmo mal interpretadas. Ficava ainda uma expectativa de uma possível releitura de Marx na política. Contudo, em meu encontro com os austríacos, seis anos depois, desmontei por completo essa crença, e passei a conceber o capitalismo não como sinônimo, necessariamente, de ideais virtuosos; o que o termo expressa é a natureza humana no campo das relações econômicas e sociais, de indivíduos com seus desejos, aspirações, perturbações, virtudes, defeitos, e que o socialismo em Marx é uma tentativa de refazer essa natureza como se tivesse a escrever um roteiro na história ou um “plano de salvação” e é justamente neste ponto que está, à mon avis, o erro fatal do socialismo dito “científico”.

La théorie est souvent différente de la pratique. Eis que em 2020, ao tornar às anotações de 2001, pude reler Fromm e compreender com melhor precisão certos malabarismos retóricos de um intelectual renomado, como resultado do conflito entre o desejo de uma ideia dar certo e os resultados frustrantes nas tentativas de realizá-la.

21/09/2022 23h48

Imagem: Grattacielo Intesa Sanpaolo

Alessandro Barbero

“O que contaremos hoje é o colossal déficit orçamentário da monarquia francesa, acumulado em um século de despesas descontroladas e taxações delirantes que ao fim deixarão o rei constrangido ao passo que, sabemos todos como se iniciou a Revolução Francesa, a convocação dos Estados Gerais […] foi por via da catástrofe do balanço da monarquia francesa.”

Obra: La bancarotta dello stato: le cause della rivoluzione francese. Quando l’economia cambia la storia. Intesa Sanpaolo, 2019. Palestra 21/11/2019. Torino. De Alessandro Barbero (Italia/Torino, 1959).

Registros na história me remetem às causas da Revolução Francesa que apontam um ódio popular sobre privilégios dos nobres, do clero, da burguesia que priorizava a expansão dos negócios,  crises de escassez de insumos provocando altas nos preços de alimentos de primeira necessidade e, sobretudo, a fome e a miséria. No entanto o que o professor Alessandro Barbero apresentou na lição de 21 de novembro de 2019, na Intesa Sanpaolo, deu destaque a uma causa pouco abordada, a partir do “colossal” déficit fiscal ou rombo nas contas de uma monarquia absolutista, iniciando de um período do rei Luís XIV  até Luís XVI, culminando na convocação dos “Estados Gerais” em maio de 1789.

A convocação dos “Estados Gerais” foi uma antiga prática medieval onde o rei colocava em discussão algumas questões, em especial, referentes a aumento de impostos, formando uma assembleia de nobres, membros do clero e produtores/comerciantes, visando obter o apoio político, porém, na França absolutista a partir da Luís XIV, este instrumento foi deixado de lado para dar lugar a um monarca que tomava decisões solitárias não admitindo discussão ou contestação. Quando estive no Palácio de Versalhes, no início deste ano, pude conferir toda a opulência da espoliação deste período.

Os que podiam contestar, príncipes e outros nobres como Sant-Simom,  alertavam sobre os gastos exorbitantes e concentração de poder do “rei Sol”,  Luís XIV, um soberano que posso definir como uma versão política protofascista, entre tantas desde a antiguidade passando pelo período medieval. “O Estado sou eu!” é uma síntese nazi-fascista antes de Mussolini e Hitler; Luís XIV foi mais um “homem forte” e solitário no comando, implacável com opositores, o “Grande Irmão” controlador da imprensa, formador de jornalistas temerosos de terminarem na Bastilha se publicassem algo que o desagradasse.

Barbero menciona os efeitos negativos na economia francesa, destacados por Saint-Simon, em função da expulsão do reino da cidade de Torino (Turim). Saint-Simon também  foi um dos críticos mais destacados sobre os gastos e as taxações; o rei extraía “sangue e pus” de todos os súditos, menciona o professor. Uma situação fiscal crítica, devendo equivalente a  dez anos de arrecadação (entradas) (lembrando, como comparação que na Itália de hoje, a dívida é de três vezes, ou seja, se devia mais que o triplo no contexto italiano atual). Fato é que a monarquia do “rei Sol” estava em estado de insolvência  e assim decretou moratória, enquanto a França enfrentava um inverno rigoroso que comprometeu a produção e gerou ainda mais escassez de insumos e produtos, aumentando a carestia e a fome A necessidade de um imposto sobre o patrimônio surge como uma das propostas em meio a um emaranhado de tributos que dificultavam a fiscalização e a arrecadação. Foi uma tentativa de “simplificação”; toda história de “reforma tributária” para “simplificar” a vida dos pagadores de impostos e resolver crises fiscais termina com mais impostos e foi assim que a comissão de parentes do rei aprovou um projeto que demonstra como esse drama também está longe de ser uma coisa do estado moderno.

Um socialista antes de Marx, dito “utópico”, Saint-Simon também se escandalizou com uma coisa do socialismo prático (dos estados modernos) em nossos dias: a confissão de bens por meio de uma declaração ou o que eu entendi como um “proto Big Brother Fiscal”, na reforma do “rei Sol”, e assim o nobre crítico Saint-Simon reagiu negativamente, prevendo conflitos diversos na sociedade, levando em conta que o aparato estatal bisbilhotaria a vida e os bens dos súditos. No meio da crise, surge o aparato religioso a serviço da reforma [124];  o “segundo estado geral” deu suporte à espoliação e a quebra da privacidade que o rei estava promovendo, dando parecer teológico de Sorbonne onde argumentava que os bens dos súditos em todo o território do reino, na verdade, pertenciam ao soberano que por, bondade, os consentia, não havendo assim qualquer constrangimento em toma-los de volta. Aqui faço um comentário pessoal: esta colaboração de alguns do clero sutilmente me remete, guardando as devidas proporções, a certas ligações comuns registradas na história entre déspotas, espoliadores, ditadores, monarcas e demais políticos em geral carimbados como líderes “cristãos” servindo de exemplos de como política e religião, quando combinadas, formam um poder ainda mais nefasto. No Império Romano e na Igreja Romana a teologia tida como “ortodoxa” foi determinada, em  aspectos elementares, como a natureza divina de Jesus, o Credo Niceno, a relação com Deus-Pai, em meio a influências políticas, em especial a do Imperador Constantino havia 1.604 anos [125] que se aproveitou do apoio cristão para ampliar valores que não condizem com a própria fé cristã, deixando inclusive fortes influências no que o catolicismo viria a ser como instituição intolerante na chamada Idade Média. Penso também na ligação controvertida do catolicismo italiano moderno com o fascismo em 1929, mediante o Tratado de Latrão que culminou na instituição do Estado do Vaticano enquanto deu capital político para o ditador Mussolini ser tolerado entre católicos à época, muito embora depois tenha ocorrido um reconhecimento dos males do fascismo, já tinha sido tarde demais dado um poder que foi consolidado e levou a Itália a um regime absolutista de idolatria (a Mussolini) e terror.

Ao ouvir Barbero, faço um paralelo do “rei Sol” com Mussolini, Stalin e Hitler que foram longe de serem originais olhando para o regime absolutista francês. De um certo ponto, Keynes não foi tão original assim também olhando para o século XX no pensamento econômico, levando em conta o que os keynesianos e neoliberais celebram quanto à heterodoxia, comparando com o que economistas do século XVIII desenvolveram a serviço da monarquia francesa décadas antes de estourar a Revolução.

Voltando à lição de Barbero, morre em 1 de setembro de 1715 o rei “Sol” da moratória e assume um tutor,  Duque de Orleans Felipe II (1674-1723), mediante a idade insuficiente do sucessor; Luís XV, com cinco anos. Economistas então entram nessa história de golpes e choques de oferta com propostas de intervenções sob diversas visões, do que pode ser vista como liberal até as expansionistas para “estimular” a economia.. Nesse contexto chega a Paris John Law (1671-1729), fugido da Escócia, condenado por assassinato em um duelo típico envolvendo disputa por uma mulher. Law se tornou íntimo do “preguiçoso” e debochado ateu Duque de Orleans. Não demorou muito para convencer o regente devasso, que gostava de pagar a quem “invocasse o diabo”, dentro das provocações ao catolicismo que fazia, acerca de um projeto que viria a ser um ensaio para um sistema bancário que se tornaria uma bolha financeira usando uma massiva emissão de notas e ações, a primeira para substituir o uso de moedas em ouro nos negócios que funcionou como um “quantitative easing” da época de um “proto Federal Reserve” ou “proto Banco Central Europeu”. A segunda emissão funcionava como títulos para financiar o déficit do reino, além de ações no recém instituído banco privado que financiavam negócios nos colônias americanas, cuja especulação fez surgir os primeiros que enriqueceram rapidamente transacionando papéis debutando assim a palavra “milionário” no vocabulário francês. Tudo isso não daria em outra coisa a não ser em um estouro da bolha (chamada “do Mississipi”, por conta da companhia que recebia aportes por negócios na colônia inglesa na América que viria a ser os EUA), não antes do Luís III de Bourbon-Condé, em um clássico caso de insider trading, ir ao banco e sacar todas as notas que tinha, recebendo o equivalente em ouro, o que despertou o aumento da desconfiança nos investidores em geral e o que se seguiu foi o conhecimento público da insolvência do Banque Générale Privée com o esquema monetário inflacionista de Law, que fugiu para Venezia. ResultadoInvestidores arruinados,  a monarquia com déficit coberto com o golpe do calote e alguns gestores do banco presos na Bastilha.

Durante quase 50 anos, o sucessor do “rei Sol”, Luiz XV, se aproveitou de um quadro fiscal beneficiado pela “quitação” de boa parte das dívidas com o golpe da bolha de Law e o escândalo da companhia do Mississipi, porém, como todo soberano, continou produzindo déficits fiscais e deixou ao sucessor Luís XVI, em 1774, uma herança maldita remontando à época anterior ao esquema inflacionista de Law. O ministro Anne Robert Jacques Turgot, de visão não intervencionista que Barbero chama de “ultraliberal”, adotou então medidas de eliminação de impostos sobre o comércio e a produção, enquanto decidiu tributar sobre a posse da terra, seguindo a visão mercantilista do período. Contudo, um choque de oferta derruba Turgot com a alta nos preços dos grãos e derivados em 1778, onde a política liberal foi responsabilizada pela escassez, assumindo Clugny de Nuits  que sugere uma loteria para tentar pagar as dívidas em uma França “profundamente corrupta” e ao mesmo tempo “crítica”, segundo o professor. Com a morte de Nuits cinco meses depois, assume um suíço de Genebra, o protestante Jacques Necker, que precisou se converter ao catolicismo para ocupar o cargo. Necker é o que eu chamaria de “ultraintervencionista” (por analogia, usando a linguagem do professor aplicada ao liberal), adotando aumento de impostos enquanto o financiamento dos colonos no que viria a ser os EUA, para impor uma derrota a grande rival, Inglaterra. Necker combina a loteria com um esquema de premiação de renda vitalícia enquanto implanta uma “reforma da previdência” com base na expectativa de vida; o problema é que Necker não contava com o aumento da expectativa de vida em 3 anos por causa dos primeiros efeitos da recente vacina contra a varíola. Em uma monarquia absoluta com uma imprensa na cabresto do regime, Necker conseguiu  por um tempo esconder as dívidas que se acumulavam. No final, deixou o cargo desgastado com a previdência se revelando falha, sendo substituído por Charles Alexandre, visconde de Calonne (1734-1802) defendendo que a dívida pública é “indispensável” e incrementa mais gastos na agenda intervencionista, atingindo um déficit de 51% do balanço (professor mencionou 8% na Itália atualmente, por comparação). A ideia consistiu em uso massivo de endividamento para aparentar prosperidade e promover otimismo em um estado à beira de nova insolvência, com dificuldades para pagar as forças armadas, justamente onde os regimes absolutistas costumam privilegiar para se preservarem no poder.

O desfecho fatal ao absolutismo monárquico veio pela convocação dos “Estados Gerais” em um contexto de vulnerabilidade fiscal que fez o rei aceitar o pleito dos nobres (ironicamente, os mesmos que iriam à guilhotina com o aprofundamento do processo). A dívida do reino ganhou destaque nas reuniões plenárias, e logo a então “esquecida” instituição medieval, que funcionava como contrapeso ao poder da monarquia, se converteu em Assembleia Nacional na ideia de que o rei não poderia continua a governar sozinho. O monarca se tornou uma figura decorativa com os membros da Assembleia estarrecidos com as dívidas e o peso que representava pelos impostos, com as ostentações da corte enquanto a miséria e a revolta popular aumentavam. Constrangido, o rei por um pouco hesita, salientou o professor, e depois aceita, mas não suportando a humilhação, trama a invasão da França com potencias estrangeiras e ao ser descoberto, acaba na guilhotina. Revolução!

124. François d’Aix, Père La Chaise (1624-1709), confessor do rei e mediador de um parecer a favor do direito divino atribuído ao rei;

125. Primeiro Concílio de Niceia em 325.

20/09/2022 23h30

Imagem: Casa Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

“Os deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes,
porque são Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Christo definiu:
Assim o oppoz à Natureza
E Filho o ungiu.”

Obra: Mensagem. Primeira parte / Brasão. Segundo / O das quinas. Bellum sine bello. [2] 8-12-1928. Obra poética de Fernando Pessoa. Volumes I e II. Edição da Nova Fronteira, 2016, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Fernando António Nogueira Pessoa (Portugal/Lisboa, 1888-1935).

Felicidade passou

Efêmera felicidade
no pasto a jorrar
atrás do vento como
Coelet ficou a poetizar.

Na abundância das ilusões
se revela extrema pobreza…
de quem por baixo geme
em tantos apetrechos.

No crepúsculo às vezes um milagre
quando precedem no tornar ao pó
raros momentos de uma descoberta,
melancólica, ainda que tardia seja.

Felicidade passou como uma enchente
de um medonho rio de redemoinhos
a devastar juízos e das ruínas vagou,
para dar lugar à transcendência.

Pastor Abdoral 20/09/2022 23h10

19/09/2022 23h45

Imagem: Grattacielo Intesa Sanpaolo

Alessandro Barbero

“Os terrores do ano mil são na realidade um produto da imaginação, mas não no sentido daqueles que viviam na vigília do ano mil, na mente que construiu a imaginação de que o mundo acabaria; não é assim, a imaginação é aquela de nós modernos que em um certo ponto ficamos convencidos de que aquela gente ‘barbara’ e ‘ignorante’ que vivia naqueles séculos ‘escuros’, esperava verdadeiramente o fim do mundo no ano mil.”

Tradução livre.

Obra: La paura dell’anno Mille. Storia in Piazza 2019. Palestra. Palazzo Ducale. Venezia. De Alessandro Barbero (Italia/Torino, 1959).

Resumo de leitura de texto falado em 2020 (palestra). Aula de história medieval.

O medo do ano mil estaria mais para uma distopia? O professor Alessandro Barbero aborda o tema [121] partindo do que pode ser visto como uma concepção imprópria, feita  na modernidade, por estereótipos e lendas sobre as expectativas que se tinha no ano 999 em relação à virada do milênio onde (supostamente) predominavam crendices e temores fatalistas. Neste ponto, Barbero menciona Giosuè Carducci (1835-1908), poeta italiano, dentro um contexto de história da literatura italiana (como língua vulgar adotada por eruditos) em torno do ano mil,  não necessariamente pela consideração de fatos históricos. O mesmo não se aplica a leituras de historiadores e pensadores dos século XVIII e XIX, submetidos em um ambiente mais anticlerical e com uma patrulha ideológica mais intensa após a efetivação de um tempo de revoluções e fim de monarquias, cuja tendência se deu em retratar crises, conflitos, epidemias e crendices populares na “idade média” dominando o imaginário, visando destacar negativamente mais a Igreja, absolutista, oportunista, onde a ingenuidade de quem entregava bens pela fé se aproximava com ideias sensacionalistas em torno da escatologia.

Como verificar a veracidade de tais leituras? O professor contraria narrativas frequentes sobre um terror generalizado com a virada do milênio, e isso faz através de documentos da época, como uma carta do papa Silvestre II (946-1003) de 31 de dezembro de 999, ao abate (abade) de Fulda, um importante monastério na Germânia, onde o pontífice confirma as solicitações de reconhecimento de privilégios da abadia, assim como aos seus sucessores, mencionando compromissos de pagamento dos monges a Santa Sé em Roma, não havendo qualquer menção sobre possíveis problemas com a virada do milênio. Pelo menos entre o papa e o abade, a história de “fim de mundo” na virada do milênio não tinha a menor importância.

Em um contrato de 999, dois irmãos firmam por escrito o aluguel de bens (terras) do abade de Tortona, pelo prazo de 29 anos, período longo para o nosso tempo, porém o documento registra um modelo de contrato  que foi uma inovação para a época, visto que muitos aluguéis eram perpétuos e como alguns proprietários perceberam que a economia estava se recuperando depois de um longo período de estagnação com as invasões bárbaras no alto período medieval, e assim os preços dos bens tendiam a subir, então começavam a trabalhar com contratos formados com prazos “menores”, adotando cláusula de penalidade para eventual quebra ou antecipação, o que evidenciava indiferença com questões escatológicas sobre a virada do milênio que se aproximava.

Outro documento, datado de 3 de outubro de 999, menciona o fim do mundo, não no sentido de uma expetativa imediata em relação à virada do milênio, mas em uma conotação típica de retórica com o uso da fé popular: trata-se de um diploma assinado por Antonio Terzo ao monastério de Farfa, no centro da penísula apenínica (itálica), cuja instituição estava sob sua tutela, fazendo indicação à abadia, lembrando que, se porventura algum papa ou sucessor desfazer a decisão empenhada no ato, “saiba que deverá responder no retorno de Cristo quando julgará o mundo no fogo”.

Em um mundo complexo demais, antes da escolástica, antes de Marco Polo ir à China (com calendários confusos), na vigília do ano mil não tinha, absolutamente, nenhum cronista indicando naquele ano e mês que ocorriam algumas expectativas ou predições e o povo tinha se deixado levar pelo terror (20:47). Tirando abordagens de alguns anos ou décadas passadas, baseadas em sermões com base no Apocalipse e/ou Evangelhos, ainda sob a permanente problemática teológica do significado dos “mil anos” e das advertências das tradições bíblicas contra os que marcavam datas para o “juízo final”, é possível identificar casos onde ideias escatológicas se espalhavam, mencionados pelo professor. O charlatanismo para fins extorsivos eram corriqueiros, como o da profetisa Fiofa no ano 847 (bem distante de 999 então) em Magonza, que vivia se transferindo de diocese, contando com a cumplicidade de um padre, para profetizar sobre o “fim” na medida em que cessavam os fundos dos que lhes davam crédito. A profetiza marcou o fim do mundo para aquele mesmo ano, em um apelo que fazia as pessoas entregarem rapidamente bens na crença de que poderiam assim obter a salvação da alma. Em 998 também se registram ideias de fim do mundo contando mil anos após o nascimento de Cristo; menciona-se um caso de um adolescente que chegou a Paris para estudar e chegou a tal conclusão, após ouvir sermões na Notre-Dame, que ganhou notoriedade em monastérios e dioceses em meio a clérigos carentes de conhecimentos em latim e até mesmo sobre credos da Igreja.

E eis que após o “medo do ano mil”, no século XI floresce a ideia de uma “idade média” que estaria marcada pelas “trevas”  [122] enquanto, citando o crítico literário Savero Bettinelli (1718-1808), se desenvolve uma concepção de uma “nova era” (na Itália) que teria se aberto nas artes e na literatura em meio aos bloqueios que os temores do século anterior teriam provocado, o que explicaria a pouca produção conhecida até o ano mil, partindo do final da antiguidade considerando a queda do Império Romano do Ocidente no final do século V. O professor sugere que a imagem negativa da idade média está sempre por exigência de “polêmica contemporânea” (49:29), no entanto, lembra que a ideia de um período de escuridão nasce no próprio ambiente medieval entre humanistas que produzem com base em Cícero (106 – 43 a.C.) o tendo como um modelo insuperável de intelectualidade e o que estava disposto adiante passou a ser visto como de qualidade inferior, cercado por ignorância e, neste ponto, até Dante Alighieri (1265-1321) era visto com certo desprezo.

Na arquitetura essa visão como a antiguidade sendo superior também teria encontrado muito espaço, onde as construções baseadas em ideias desenvolvidas nos últimos séculos eram também tidas como inferiores em sofisticação e beleza ou coisas de “bárbaros” (51:13), pela “arquitetura gótica”.  Então, as ideias de cúpulas como a do Panteão de Roma retornam com força na concepção de obras como a de Santa Maria del Fiore (Firenze, Florença), no final o século XIII. A ideia de construção de arcos nas cidades, replicando os estilos da antiguidade, também se explicaria por isso. Em seguida, vem a Reforma Protestante (1517) como reforço de uma ideia de recomeço diante de uma Igreja Católica Romana agora contestada, sob forte viés absolutista, associado à opressão da Inquisição e à ignorância.

Tomando aqui como uma reflexão estritamente pessoal, no mais entendo que prevalecem indícios de que o “medo do ano mil” foi enraizado por narrativas para exacerbar um ponto de vista panfletário. De fato a Igreja fazia parte de um ambiente de mentalidade ignara, fatalista ou escatológica, repleto de superstições e fortemente reacionária, mas não se deve sintetizar e resumir tudo a isso, assim como ignorar que o progressismo na política ganhava força em paralelo, enquanto narrativas que o favoreciam politicamente cresciam desde o iluminismo. Havia (e permanece nos dias atuais) um conjunto de conceitos anticlericais (e também anticristãos) estigmatizando a idade média, dificultando uma melhor compreensão desse longo período. É rasa a ideia de que o “medioevo” estava desprovido da luz da razão. Um caso do tipo pode ser avaliado no entendimento convencional de que graças aos árabes (e por tabela ao Islã) que Platão, Aristóteles e o que se tem como “filosofia grega” teriam sido apresentados na Europa até então, sendo algo refutado por Sylvain Gouguenheim [123] que merece entrar neste debate.

Tornando ao suposto “terror” sobre a virada do primeiro milênio na era cristã, considerando o exposto na lição de Barbero, é notável o esforço do professor em destacar narrativas, sempre travestidas de “ciência”, com a história, embora sempre mais contada pelos vencedores. “Nosso trabalho é esse, de dizer a verdade” (1:00:42) diz o professor fazendo referência a um ensinamento do grande historiador Marc Bloch (1886-1944). O “medioevo” foi marcado, sem dúvida, pela forte religiosidade, pelo absolutismo cada vez mais intenso na política, sendo oportunista com conveniências extraídas da teologia católica dominante, assim pontuando também o fanatismo que o fideísmo gerava,  porém quando tais coisas são usadas para ignorar outras relevâncias no período,  fica comprometido um entendimento mais depurado sobre a história e o que se verdadeiramente se tinha acerca de fatos em relação ao fim do primeiro milênio pós Cristo, restando factoides de superstições sobre “fim de mundo”, quando o que se consiste em registros é que esse suposto temor coletivo passou distante das ações dos que se dedicavam aos afazeres pragmáticos no mundo dos negócios.

Termino com uma síntese do professor sobre a sociedade medieval; todos acreditavam que o mundo achegaria ao fim, cedo ou tarde, mas também acreditavam que não era possível sabê-lo. E o sol se levantou no dia 1 de janeiro do ano 1000  com a vida seguindo normalmente em afazeres cotidianos.

121. https://www.youtube.com/watch?v=VWLlaiCcvmE

122. Ver também “Aos Ombros de Gigantes” de Umberto Eco (1932-2016) no capítulo “A Beleza” sobre a importância da luz nas artes medievais.

123. Ver a obra “Aristote au mont Saint-Michel”, do historiador e medievalista francês. Não seriam os árabes responsáveis por traduções da filosofia grega, de Aristóteles, Platão e muitos autores, pois já estavam traduzidos em muitos monastérios, sem os árabes. Então, nesse entendimento, a cultura europeia nada deve aos árabes e ao islamismo. Também se considera, nesta obra, que a língua árabe não é dada a discursos filosóficos. Ver também a obra “Les fausses terreurs de l’an mil.. Attente de la fin des temps ou approfondissement de la foi?”, do mesmo autor, mencionada por Barbero

18/09/2022 00h30

Imagem: Radio France

Ludwig van Beethoven

“Ó homens que pensam ou dizem que sou malévolo, insociável ou misantropo, quão grande é o meu mal, vocês não sabem as causas secretas que me fazem parecer assim, desde a infância meu coração e minha mente estavam dispostos aos sentimentos gentis de boa vontade, estava sempre ansioso para realizar grandes feitos, mas reflitam agora que por seis anos eu tenho sido um caso perdido, agravado por médicos insensatos, enganado ano após ano na esperança de melhorar, finalmente obrigado a enfrentar a perspectiva de uma doença duradoura (cuja cura levará anos ou, talvez, seja impossível), nascido com um temperamento ardente e vivo, mesmo suscetível aos desvios da sociedade, fui obrigado desde cedo a me isolar, a viver na solidão, quando às vezes tentava esquecer tudo isto, ó quão duramente me repugnava a experiência duplamente triste de minha má audição, e ainda assim me era impossível dizer aos homens que falem mais alto, gritem, pois sou surdo.”

Tradução livre.

Obra: Heiligenstädter Testament. 6 Oktober 1802. Publicação online BTHVN Bibliothekarische Erschließung. De Ludwig van Beethoven (Sacro Império Romano-Germânico, hoje Alemanha/Bonn, 1770-1827).

Trecho do Testamento de Beethoven em 6 de outubro de 1802, aos seus dois irmãos Kaspar Anton Carl van Beethoven (1774–1815) e Nicolaus Johann van Beethoven (1776–1848). Registro se deu no período de transição para o romântico na composição erudita. Os originais podem ser conferidos na Bibliothekarische Erschließung.

Crônica de um gênio

Pai alcoólatra,
infância triste.
Infância? Que Infância?
Aos cinco anos, talento descoberto,
nada lúdico, era obrigado
a lições de música.

Pela ambição do pai,
fora da escola;
aos dez dominava
obras de Bach,
aos onze se tornou
compositor.

Na puberdade foi
chefe de família,
acumulou dívidas, muitas…
por consequência
do alcoolismo paterno
que o perseguia.

Não o bastante, ainda teria
tribulação maior:
progressiva perda de audição,
depressão e ideias de
suicídio, um drama seguido
por mais problemas familiares
e uma sensação de
“falta de criatividade”.

E lá pelas 46 primaveras,
no pós da crise de meia-idade peculiar,
que a muitos aflige,
foi devastado por uma
quase total surdez.

E assim caminhou o gênio,
e por não dizer na máxima
do talento que se faz com dedicação
acima da inspiração.

Pastor Abdoral 16/12/2021.

17/09/2022 19h41

Imagem: Teologia Brasileira

Rudolf Bultmann

“Como explicação da vontade, da exigência de Deus, a pregação de Jesus é um grande protesto contra o legalismo judaico, isto é, contra uma piedade que vê a vontade de Deus expressa na lei escrita e na tradição que a interpreta, e que se esforça para conquistar a benevolência de Deus por meio de um cumprimento meticuloso das prescrições da lei.”

Obra: Teologia do Novo Testamento. Capítulo I – A pregação de Jesus. § 2. A explicação da exigência de Deus. Edição da Teológica, 2004, São Paulo, formato físico. De Rudolf Karl Bultmann (Alemanha/Wiefelstede, 1884-1976).

Leitura de 2006 desta obra fluvial de Bultmann, teólogo com enfoque interpretativo existencialista, considerado polêmico, por inclinados ao fundamentalismo, em função da “demitologização” que propõs. Pessoalmente, junto a Søren Kierkegaard e a Karl Barth, figura entre os teólogos protestantes que mais despertaram meus estudos nos tempos de seminarista.

Bultmann vê o “grande protesto” na pregação de Jesus não distinguindo ética da religião, “nem os mandamentos da veneração a Deus e as exigências da ética são separados das prescrições do direito” (p. 49). No entanto, a motivação para a ética se corrompe quando há uma grande quantidade de mandamentos cúlticos e rituais considerados como exigências divinas. Neste aspecto, explica, reside o erro do legalismo judaico: tratar a lei jurídica como exigência ética para abranger todas as situações de vida individuais, o que é impossível, enquanto estimula um legalismo onde o ser humano pode, em principio, cumprir todos os compromissos previstos na regras religiosas como obras meritórias diante de Deus. E ao pretender ordenar todos os aspectos da vida, o legalismo judaico abriu brechas para não imputar certos atos ou desejos não previstos no ordenamento (se não é proibido, não é pecado), assim como induziu ao tratamento de obras além do dever regulado (esmolas, assistencialismo, jejum espontâneo e coisas semelhantes) como formas de criar um excedente ou um crédito extra diante de Deus visando expiar transgressões da lei. Neste ponto reside a ideia da fé como um negócio com Deus, onde valem tão-somente as aparências de credibilidade religiosa pelas “boas obras”, sem necessariamente existir autêntica obediência na consciência ou no “eu interior”.

A pregação de Jesus é assim uma crítica ao sistema religioso dominante, com a propagação de um legalismo de obediência formal a preceitos como meios de garantir a aprovação de Deus, que servem para maquiar a fé sem considerar as verdadeiras intenções na intimidade do ser. Na análise de Bultmann sobre a ética de Jesus, “Deus exige obediência radical, reivindica o ser humano todo” (p. 51). O ato, o fazer, o constatado, o material, o visível, não são coisas decisivas diante de Deus, e sim “a vontade do ser humano” (p. 51).

16/09/2022 23h50

Imagem: Pantocrator (História com gosto)

יֵשׁוּעַ

“Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-vos vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas.”

Obra: Evangelho Segundo São Mateus. Capítulo 7, verso 12. Sermão da Montanha. Discurso Evangélico. A Regra de Ouro. A Bíblia de Jerusalém. Edição da Paulus, 2000, São Paulo, formato físico. De Jesus Cristo.

A Regra de Ouro de Jesus

A nota da Bíblia de Jerusalém (p. 1850) menciona o antigo dito conhecido no judaísmo (Tobias 4,15, carta de Aristeu, Targum de Levítico 19,18, Hilel, Filon) sob forma negativa, e nos ditos de Jesus, onde se inserem os textos do Sermão da Montanha, a máxima toma forma positiva, o que denota uma exigência maior. Aquilo que penso em fazer constantemente submetido a ética que examina o meu foro íntimo.

A pregação de Jesus se caracteriza pelo questionamento à mera formalidade das aparências de bondade, da retórica, do discurso, e no caso da religiosidade de seu tempo, dos atos dissimulados com base nos ritos. O que interessa a Jesus é a verdade interior que deve inspirar nossas atitudes.

Na forma negativa, o antigo dito significa que eu não devo fazer aquilo que não gostaria que fizessem comigo. Em contraste, nos ditos de Jesus o envolvimento sai do “não fazer” e se torna ativo; diz respeito a todo ato que eu venha a praticar a ser norteado por uma ética que indique o tratamento que desejo receber dos outros. A dimensão é notadamente superior, o sentido é bem mais auto crítico e profundo. Se o não fazer nada antiético atende ao dito antigo, o fazer espelhado pelo ético é a base do dito de Jesus.

O Sermão da Montanha se dirige ao nosso íntimo para um constante exame de consciência sobre os atos que praticamente ou, como ensina São João Paulo II em Teologia do Corpo, “Cristo apela ao coração” no sentido de que o que fazemos deve ser legítimo nos intenções do nosso “eu interior” a superar a mera aparência ou o ritual muitas vezes travestido no que fazemos aos olhos dos outros no politicamente correto; nos ditos de Jesus o “coração” é um campo de batalha pelo cultivo de examinarmos nossa conduta sob uma genuína virtude.

O Sermão da Montanha se dirige ao nosso íntimo para um constante exame de consciência sobre nossos atos ou, como ensina São João Paulo II em Teologia do Corpo, “Cristo apela ao coração” no sentido de que o que fazemos deve ser legítimo a superar a mera aparência ou o ritual, muitas vezes travestido no que fazemos aos olhos públicos no politicamente correto; nos ditos de Jesus o “coração” é um campo de batalha pelo cultivo de examinarmos nossa conduta sob uma genuína virtude.

Uma vida onde nos esforçamos para não prejudicarmos os outros, excelência há, mas pode haver uma inércia ética nisso e não atende ao apelo de Cristo que insere o elemento ético-ativo para os relacionamentos interpessoais; assim a regra antiga é superada na Regra de Ouro de Cristo. Em suma, se desejo ser tratado de forma gentil, devo ser gentil, se espero ser respeitado, devo respeitar, se é a bondade que quero de outrem, devo ser bondoso com os outros.

15/09/2022 23h26

Imagem: Grupo Editorial Record

Bruno Garschagen

“[…] o privilégio é o instrumento por meio do qual uma pessoa é obrigada a pagar por algo que só um terceiro poderá usufruir.”

Obra: Direitos máximos, deveres mínimos. O festival de privilégios que assola o Brasil. 8. Direito ou privilégio? Editora Record, 2019, Rio de Janeiro, formato físico. De Bruno Garschagen (Brasil/Espírito Santo/Cachoeiro do Itapemirim, 1975).

Garschagen menciona a distinção entre direitos e privilégios, a partir do conceito de Direito Natural, estabelecida pelo economista americano Lawrence W. Reed (p. 53). Em seguida faz referência a São Tomás de Aquino, quanto ao Direito Natural ser “intrínseco e essencialmente bom e justo” (p. 54), e ao padre Antonio Vieira quanto a “lei da restituição” (p. 54). Então, Garschagen torna a Reed para associar um direito genuíno ao Direito Natural quando o usufruto não leva a nenhum conflito.

Nessa linha de pensamento, se o que se tem por “direito” não pode ser usufruído por todos, o que se tem é um privilégio, o que também reflete o conflito que há entre os que defendem a Teoria do Privilégio pois ao conceder benefícios a grupos específicos, o que ocorre é a negação da ideia de igualdade entre todos.

Garschagen se ocupa em apresentar exemplos da confusão que se faz entre direitos e privilégios. Cita a “lógica perversa” do rentismo sob a alegação que tenta justificar privilégios a partir de efeitos sociais, como a preservação de empregos, o que é amplamente adotado no Brasil; muitos empresários ancorados em proteções políticas, argumentam sempre em tom da função social de seus negócios. No entanto, penso, nada supera o Estado em termos de concentração de privilégios, o que no Brasil se traduz com uma carga tributária elevadíssima e uma burocracia fiscal pesadíssima para manter o aparato de regalias a “servidores públicos” e políticos.

A lista de privilégios tratados como “direitos” é imensa e a questão mais importante para mim se apresenta na Parte 3.5, quando Garschagen trata sobre o aborto como uma “licença privilegiada para matar” (p. 171). Cita a obra Contra o aborto, de Francisco Razzo, quanto ao exercício da liberdade, “mesmo sobre o próprio corpo, deve ser limitado pela presença concreta de outro ser humano” (p. 184).

14/09/2022 23h50

Imagem: BRAZILIAN POETRY

Cora Coralina

“Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.

Esta é a tua luta.

Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que te cercam.”

Obra: Esta é a tua safra (trecho). Cora Coralina, Melhores Poemas. Direção de Edla van Steen, 2a. edição digital, 2020, eBook Kindle. De Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Brasil/Goiás, 1889-1985), pseudônimo Cora Coralina.

Mais uma lembrança de minhas visitas ao pastor Abdoral:

O que vejo é como uma gota no oceano
da jornada insondável do meu ser.

No campo de batalha de meu mundo interior,
tenho que decidir e não tem desculpa.

No drama dos limites da razão com a intuição
decido se levarei a minha cruz
ou se me farei de vítima.
Serei forte ou fraco? Vou recriar ou choramingar?
Vou sorrir, chorar, pensar ou calar o espírito?
Não há desculpa quando
mesmo em meio ao caos de meu entendimento,
sou humano pela consciência.

O  tempo traz a conta de minhas decisões
na forma de consequências.

Pastor Abdoral, 09/12/2021

13/09/2022 23h40

Imagem: Perfil oficial no Twitter

Nassim Nicholas Taleb

“[…] há quatro décadas, Mandelbrot deu pérolas aos economistas e aos filisteus construtores de currículos, que as rejeitaram porque as ideias eram boas demais para eles. Foram, como se costuma dizer, margaritas ante porcos, pérolas aos porcos.”

Obra: A lógica do cisne negro. Capítulo 16 – A estética da aleatoriedade. Pérolas aos porcos. Edição da best.business, Rio de Janeiro, 2018, formato físico. De Nassim Nicholas Taleb (Líbano/Greater Amyoun, 1960).

O capítulo 16 desta obra, Taleb explica como se pode “endossar os fractais mandelbrotianos como representação de boa parte da aleatoriedade sem necessariamente aceitar seu uso preciso” (p. 327). O conceito apresentado no capítulo, diz o autor, “liga todas as partes” do livro (p. 333). Os fractais tem a propriedade principal de a proporção de duas “excedências” ser a proporção de dois números elevados a potência negativa do expoente da potência.

O matemático francês Benoit Mandelbrot (1924-2010), nos anos 1960 surgiu com esse conceito, um tanto perturbador para a visão de mundo gaussiana da curva na forma de sino, e o aplicou sobre preços de commodities e ativos financeiros, o que chamou de “Fractal”. Taleb conta esta história com o senso crítico ácido que lhe é peculiar. Mandelbrot e suas novas ideias foram “boas demais” (p. 326) para um mundo pensado por mentes educadas em uma determinada forma, bitoladas em esquemas tradicionais de matemática avançada como ferramenta de predição, sob o invólucro de “especialistas” do mercado financeiro e de catedráticos da academia europeia, incapazes de romper com a bolha de conceitos que os envolvia naquele momento.

O problema lembra a dispersão do conhecimento: observamos dados e tentamos fazer deduções, vulneráveis a falácias, pré-conceitos, na ilusão do quanto é preciso ter de determinado conhecimento aplicado para se guiar pelo mundo. Modelos que explicam o que ocorreu, usados como preditivos, irritam Taleb (p. 335). “Trabalhar com dados em abundância desperta humildade em nós” (p. 334), sugere, pela intuição do erro de trilhar entre representação e realidade. “A história não nos revela sua mente” (p. 333), adverte, referindo-se à opacidade, incompletude da informação e invisibilidade do gerador do mundo.

O caso de Mandelbrot mencionado por Taleb para explicar o contexto da teoria “Fractal” me fez refletir sobre o problema da bolha de ideias equivocadas ou impróprias que podem nos envolver. A bolha se evidencia em ideias aglutinadas ou em uma determinada “visão de mundo”; é um fenômeno baseado em conceitos sistematizados exercendo um peso de controle no comportamento, seja do indivíduo ou coletivo, de um grupo, mediante valores e crenças, onde há uma perda do mínimo senso crítico resultando em um predomínio de práticas de preconceito e intolerância, seja interna entre membros do grupo ou no foro íntimo de alguém “cheio de convicções”, seja de algum agente externo que faz um contraponto. O domínio da bolha se torna melhor observável quando é exposta alguma falha potencial no sistema de conceitos e valores que lhes dão liga. Na mentalidade de bolha fatos não pesam e sim a crença em narrativa. Um indivíduo dominado por uma mentalidade de bolha não raciocina com imparcialidade diante de resultados, pois foi educado ou melhor, adestrado, a pensar que suas ideias, ou do grupo que milita, estão sempre corretas.

12/09/2022 23h22

Imagem: Sétimo Selo

Aurelius Augustinus Hipponensis

“Nos passos de Cristo havia esse poder. Os cinco pães eram, em um certo sentido, das sementes que, se não foram geradas na terra, foram multiplicadas por aquele que fez a terra.

Assim, apresentou-se sob um meio e uma elevação do espírito, deu-se uma oportunidade aos olhos para exercitar a inteligência do espírito e contemplar, através das obras visíveis, o Deus invisível.”

Tradução livre.

Obra: Sermoni di Sant’Agostino. 3 – Commento al Vangelo di San Giovanni (Tratto XXIV) (P. L. 35, 1592S). Il linguaggio dei miracoli. eBook Kindle. De Aurelius Augustinus Hipponensis (Aurélio Agostinho de Hipona), Santo Agostinho de Hipona (Norte da África/Tagaste, 354-430).

A linguagem dos milagres, comentário de Santo Agostinho de Hipona sobre a multiplicação dos pães no Evangelho de São João, leitura de tempos pandêmicos (2020). Edição em italiano com textos selecionados por Douglas Stones.

Santo Agostinho afirma que os milagres de Cristo “são obras divinas e convidam o espírito humano a subir das coisas visíveis à consciência de Deus” (p. 12). Cristo é “a Palavra de Deus” e todo ato que Ele protagonizou “é uma Palavra para nós” (p. 12). Nesse sentido Santo Agostinho reflete sobre o seu significado a partir do fato exterior, a obra miraculosa onde somos levados a louvar o Autor.

À mon avis, Agostinho indica que contemplar o ato é uma coisa, compreender seu significado, outra. “Não basta louvar uma carta bem escrita, de bela caligrafia, mas deve-se ler aquilo que ela exprime” (tradução livre), argumenta. Santo Agostinho neste comentário demonstra um traço marcante de sua teologia, que se contrapõe a ideia de que a fé cristã não tem profundidade. Agostinho se dedicou a mostrar importância de que os cristãos não devem estar associados a indivíduos rudes de pensamento, sem discernimento intelectual. E o intelecto está intimamente ligado às coisas do Espírito que abrem ao entendimento, na mentalidade teológica agostiniana.

Então, diante de um texto, quando não se sabe lê-lo, pergunta-se: O que está escrito aqui ou o que quer dizer? Nesta analogia, Agostinho apresenta a fé como construção da busca de entendimento do sentido natural, da observação até se chegar à compreensão espiritual mediante Àquele que tem um “poder de visão” que mostrará além do olhar do homem natural. Se nesse olhar natural há admiração pelo milagre, a compreensão a qual Santo Agostinho se refere é o olhar que “lê ” ou que se aprofunda na interpretação, pois vai além da admiração ao chegar ao entendimento de seu significado.

Quem observa o fato – o ato miraculoso de Deus em Cristo – satisfaz-se por sua beleza e admira o seu Autor, argumenta, e quem compreende o seu significado, por assim dizer, fez a leitura da linguagem do milagre.

11/09/2022 18h54

Imagem: C-SPAN

Yossef Bodansky

“[…] Durante o tempo de colégio e faculdade, Osama visitava assiduamente Beirute, frequentando boates da moda, cassinos e bares. Ele era um bom copo e um paquerador, o que muitas vezes o levou a brigar em bares.”

Obra: Bin Laden: O Homem que Declarou Guerra à América. Edição da Prestígio Editorial, Ediouro. São Paulo, 2001, formato físico. De Yossef Bodansky (Israel, 1954-2021).

Neste 11 de setembro torno a mais uma anotação de leitura em 2002 desta obra de Bodansky, que foi um dos maiores especialistas em terrorismo islâmico.

Como um jovem islâmico de alta instrução, culto, de formação teológica robusta, família abastada, em um estilo meio bon vivant, tornou-se o maior terrorista procurado pelos EUA? Bodansky menciona 1973, ano em que ocorreu “um profundo impacto espiritual” na vida do jovem Osama bin Laden, mas isso não foi preponderante para que entrasse na militância islâmica radical e sim “o turbilhão que vivia o Oriente Médio árabe” nos anos 1970 (p. 43). Osama bin Laden foi impactado pelo assassinato do rei Faisal, da Arábia Saudita, pelo sobrinho “louco”, “totalmente ocidentalizado” e que “visitava frequentemente os Estados Unidos e a Europa Ocidental” (p. 45. ). O evento teria despertado no jovem um maior interesse pelo retorno às raízes islâmicas. Esse sentimento teria se tornado muito mais intenso quando a então URSS invadiu o Afeganistão; a ocupação soviética foi um fato decisivo em sua vida (p. 51) e assim Osama bin Laden decidiu atender ao chamado dos mujadins afegãos no Paquistão para organizar a guerra santa contra os comunistas. Logo percebeu a falta de unidade árabe e então optou por um engajamento político combinado com o financiamento de campos de treinamentos dos combatentes mujadins, incluindo equipamentos de engenharia pesada, de sua família saudita, para construir estradas, túneis, hospitais e demais instalações para os guerrilheiros (p. 53).

Em paralelo, o governo dos EUA pressionava os aliados árabes por uma tomada de posição contra a URSS (p. 53). Unidades de inteligência (ISI) foram montadas pela resistência islâmica (e eis que o governo dos EUA começou a dar apoio financeiro, através da CIA, a jihad afegã; Osama bin Laden estava totalmente envolvido em movimentos que passaram a receber aporte financeiro originado dos pagadores de impostos dos EUA e anos depois, com o fim da ocupação soviética, muitos dos guerrilheiros formados nos campos (Al Qaeda) estavam em fileiras que se voltaram contra os EUA atuando como terroristas em uma rede global de agentes. As intervenções americanas no Oriente Médio trouxeram a amargura de efeitos colaterais um tanto estimáveis quando uma força política decide apoiar inimigos no intuito de derrotar um outro inimigo considerado de maior prioridade. Fato é que sob o legado dos treinamentos nos campos afegãos, os EUA ajudaram a formar o monstro que hoje aterroriza cidadãos americanos, judeus e aliados ocidentais pelo mundo.

O atentado de 11 de setembro, articulado por Osama bin Laden, foi orquestrado no contexto da rede de terrorismo “numa série de comunicação pessoais e semipúblicas”; até mesmo no casamento de seu filho, 10 meses antes (10 de janeiro), Bin Laden professou uma comunicação (p. 17).

Osama bin Laden foi morto por forças americanas; o pesadelo com o terrorismo islâmico chegou ao fim? Os governos da Casa Branca seguem intensificando buscas e execuções de líderes de grupos extremistas, no entanto, Bodasnky lembra uma advertência de Abu-Hamzah que “existirão muitos outros como Bin Laden que nascerão no mundo do Islã.” (p.19).

10/09/2022 21h08

Imagem: flickr oficial

Olavo de Carvalho

“[…] não existe nada de democrático no puro e direto governo da maioria. A democracia exige o respeito pelas minorias. Essa respeito, nada tem de democrático se consiste apenas em deixá-las em paz no seu canto, intactas porém marginalizadas. A democracia começa no momento em que se concede à minoria o direito de tentar persuadir a maioria e tornar-se assim ela própria a maioria. […]”

Obra: O Imbecil Coletivo. A democracia das ONGs e a ditadura do marketing ou: Uma nova apologia do imbecil coletivo. Editora Record, 2018, São Paulo, 3a. edição, formato físico. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo/Campinas, 1947-2022).

O Imbecil Coletivo consiste na terceira obra da trilogia olaviana, que considero imprescindível para se compreender melhor a realidade do domínio do pensamento no Brasil pelas elites consideradas “intelectuais” que, na visão crítica de Olavo de Carvalho, não passam de produtoras de bobagens que se arrogam como “filosóficas”, enquanto enviesadas e alienadas por ideias desenvolvidas na Escola de Frankfurt. Sobre a “trilogia”, a primeira obra é A Nova Era e a Revolução Cultural, depois segue com O Jardim das Aflições e por fim O Imbecil Coletivo, que consiste em análises de casos práticos do que seria o besteirol da produção da elite intelectual revestido como coisa inteligente ou sofisticada, na visão do autor.

No caso de A democracia das ONGs e a ditadura do marketing ou: Uma nova apologia do imbecil coletivo, Olavo de Carvalho faz uma reflexão sobre Mídia e cidadania: faça você mesmo, de Jorge Maranhão. Face ao trecho selecionado, o contexto está na influência de Maranhão, na crítica de Olavo de Carvalho, recebida da Nova Retórica de Chaim Perelman e da contradição “insuperável” entre a democracia (na versão que o próprio Maranhão dá, segundo Olavo de Carvalho) e a “elevação do marketing a supremo critério do conhecimento” (p. 127).

Penso, quando não se compreende a ponderação de Olavo de Carvalho faz na citação desta Leitura (p. 128), facilmente se aceitará um entendimento sobre o “democrático” como instrumento voltado à tirania da maioria; um ponto que sempre merece reflexão intensa. Mais adiante, no mesmo parágrafo, Olavo de Carvalho reforça o argumento ao afirmar que a democracia “longe de se identificar com o império da maioria, tem um de seus fundamentos essenciais na crença de que é possível a minoria ter razão contra a maioria”. Os exemplos que menciona no mesmo (longo) parágrafo me parecem bem apropriados: “em 1933, a maioria do eleitorado alemão desejou Hitler” e no que chama de um “plano menor”, Collor foi escolhido em 1989.

Quanto ao que Olavo de Carvalho argumenta sobre a democracia (sem querer entrar no mérito de sua eficácia quanto ao que propõe) no Brasil, penso no advento da evidência de Jair Messias Bolsonaro, e a política até então marcada por uma ausência de genuíno respeito à oposição fora dos arraiais da ocupação esquerdista ou, em outras palavras, na predominância de um “teatro das tesouras” que engolia o verdadeiro antagonismo. Um sinal recente dessa herança pode ser visto na chapa Lula-Alkmin, hoje aliados, mas em um passado, não tão distante, players em um ambiente onde todo pensamento de minoria tido como de “direita” não passava de algo a ser ridicularizado e silenciado subliminarmente por patrulhas ideológicas (essa intenção permanece e deseja se restabelecer).

Todavia, a atual bipolaridade Lula versus Bolsonaro, verdadeiramente diversa das que ocorreram entre FHC versus Lula, Lula versus Serra, Lula versus Alkmin e Dilma versus Aécio, não significa que houve uma mudança plena na mentalidade política quanto ao apreço legítimo pelo conflito de ideias, na visão crítica que Olavo de Carvalho tem pela democracia, pois é importante ponderar que Lula e Bolsonaro são populistas, intervencionistas na economia (cada qual a seu modo), promotores de programas sociais de redistribuição de renda e conservadores de formas de planejamento central em meios de controles sociais (onde reside o socialismo prático nos estados modernos); ambos seguem a cartilha de apelo ao “centrão” para poder governar e destarte não fogem do fisiologismo da velha política. São duas raposas antagônicas por uma visão, e convergentes por outra quanta às velhas praticas. A diferença é que a direita, antes de Bolsonaro, depois do término do ciclo dos militares (1964-1985), processo mais conhecido por “redemocratização”, praticamente inexistia como voz política mais ativa e, por um fenômeno que não encontrei explicação, o que pode ser visto como coisa “reacionária” (na narrativa progressista), conseguiu encontrar um espaço relevante em nível majoritário, não porque o que a antagoniza (o progressismo filho da Escola de Frankfurt) tinha o que Olavo de Carvalho menciona como “respeito pelas minorias”, pois para isso se deve levar em conta que o debate político no Brasil até então estava sob uma cortina de fumaça ou fingimento pelo contraditório, onde grupos de viés esquerdista, do centro ao estremo, apenas pareciam antagônicos enquanto tratavam pautas rotuladas como “conservadoras” sob a marginalização citada por Olavo de Carvalho, e isso se deu mediante o cultivo em favor do “politicamente correto” orquestrado pela mentalidade progressista a qual são devotados. Digo “pautas rotuladas como conservadoras” porque entendo que o fenômeno do bolsonarismo não é conservador raiz e sim um produto mutante de uma crise na própria mentalidade socialista que se vê como conservadora nos costumes, mas não passa de afirmação dissonante cognitiva por defender ideias progressistas no campo econômico, apegando-se aos apelos morais um tanto fanfarrões, na busca por defender, às vezes tão-somente impor (onde se assemelha ao progressismo), seus valores no campo de batalha cultural.

09/09/2022 23h22

Imagem: gov.uk

Margaret Thatcher

“A essa altura, a discussão estava ocorrendo em todo o Whitehall sobre todos os aspectos da campanha, incluindo a aplicação de sanções econômicas e outras medidas contra a Argentina. Fervorosas preparações militares estavam em andamento. O exército estava preparando sua contribuição. Uma força-tarefa naval estava em formação, parte por navios atualmente em Gibraltar e outra por navios em portos britânicos. A rainha tinha deixado claro que o príncipe Andrew, que servia no HMS Invincible, se juntaria à força-tarefa: seu avô, o rei George VI, havia lutado na Batalha da Jutlândia e, na época, como agora, não podia haver dúvida de um membro da família real sendo tratado de forma diferente de outros militares.”

Tradução livre.

Obra: The Downing Street Years. The Falkland War. Follom the Fleet. Week one. Edição da HarperCollins e-books, 2011, eBook Kindle. De Margaret Hilda Thatcher (Reino Unido/Grantham,1925-2013).

Depois da Imperatriz Leopoldina, mais uma mulher forte na política.

De volta às memórias da Dama de Ferro, Baronesa de Kesteven, lendária líder do Partido Conservador e primeira-ministra do Reino Unido, que não levava desaforo para casa, enquadrava comunistas, sindicalistas, soviéticos e afins.

Em tempo de luto britânico por Elizabeth II, uma recordação sobre o posicionamento da rainha com a eclosão da crise da ocupação dos argentinos das ilhas Malvinas, reivindicada pelos hermanos. O terceiro filho da rainha, Andrew, na época, servia como copiloto de helicóptero (Sea King) no porta-aviões HMS Invincible, e a questão da segurança do herdeiro foi naturalmente colocada em discussão. O risco de perder o filho era real, embora o conflito fosse desproporcional em relação ao poderio das forças militares britânicas em comparação com o arsenal dos argentinos. Passando uma mensagem de que não queria tratamento diferenciado, a lembrar uma referência familiar para reforçar a nobreza como serviço patriótico, a rainha incentivou a permanência do filho, e o príncipe Andrew serviu no helicóptero na curta guerra, inevitavelmente vencida pela Coroa Britânica que humilhou e contribuiu para a queda da ditadura militar argentina que, em um surto megalomaníaco muito comum entre nacionalistas de farda, assim como seus incautos lambedores de botas, a acelerar a ida para um desfecho que culminou na própria ruína por desafiar uma força militar muito superior.

08/09/2022 23h30

Imagem: Students for Liberty

Thomas Sowell

“Em transações comerciais , atender aos interesses do vendedor e desvalorizar o comprador seria correr o risco de perder esse cliente para outra pessoa. Porém, na academia, quase por definição, o aluno não compreende plenamente a natureza do produto vendido.”

Obra: Fatos e Falácias da Economia. Capítulo 4 – Fatos e falácias acadêmicos. Ed. Record, 2017, 1a. edição, formato físico. De Thomas Sowell (EUA/Carolina do Norte, 1930).

Sowell aponta que “os interesses dos professores superam as necessidades educacionais dos alunos” (p. 128). Tais interesses subsistem na dissociação que há no meio acadêmico em relação à lógica de mercado, pelo fato de que a relação de consumo e o comportamento do ofertante de ensino é afetado pelo desconhecimento do aluno (consumidor) sobre o produto vendido (conhecimento voltado a ideia de “formação”).

Se em uma mentalidade de mercado, atender aos interesses do vendedor e desvalorizar o do comprador pode significar maior risco de perder o cliente, na faculdade o professor (agente contratado pelo “vendedor”) está em uma posição de “zona de conforto’ onde se é em mais complicado para o aluno (comprador) avaliar se foram entregues os produtos ou seja, bem transmitidos os conteúdos previstos no contrato de ensino.

Sowell então considera as agências como meios de avaliação da qualidade de ensino, no entanto salienta dificuldades provocadas pelas próprias instituições no processo de verificação da qualidade (p. 129). Neste aspecto, penso no corporativismo em torno de regulações, onde a política é instrumentalizada no ensino para sobrepor interesses de quem presta serviços de educação à realidade que vem do mercado, e no contexto do problema apresentado por Sowell, vejo uma forma de se analisar criticamente o corporativismo de professores que mais parecem viver em uma redoma de vidro, alheios à realidade e às necessidades dos alunos, enquanto mais voltados aos próprios interesses, o que acaba alienando os “consumidores” (alunos) do que entendo ser um sentido mais profundo do significado da educação, assim como da busca e da construção do conhecimento.

07/09/2022 19h23

DECRETO DE 13 DE AGOSTO 1822

Determina que, na ausência do Príncipe Regente, presida a Princeza Real ao despacho do expediente e as sessões do Conselho de Estado.

Tendo de ausentar-me desta capital por mais de uma semana para ir visitar a província de São Paulo, e cumprindo a bem dos seus habitantes e da segurança e tranquilidade individual e pública, que o expediente dos negócios não padeça com esta minha ausência temporária, hei por bem que os meus ministros e secretários de Estado continuem nos dias prescritos, e dentro do paço, como até agora, debaixo da presidência da princesa real do reino Unido, minha muito amada e prezada esposa, no despacho do expediente ordinário das diversas secretarias do Estado e repartições públicas que será expedido em meu nome, como se presente fora; e hei por bem outrossim que meu Conselho de Estado possa igualmente continuar as sessões nos dias determinados ou quando preciso for, debaixo da presidência da mesma princesa real, a qual fica desde já autorizada para, com os referidos ministros e secretários do Estado, tomar todas as medidas necessárias e urgentes ao bem e salvação do Estado […]

Palácio do Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 1822.

Com a rubrica de S. A. R. o Príncipe Regente.
José Bonifácio de Andrada e Silva

Imagem: Twitter

Paulo Rezzutti

Obra: D. Leopoldina. A história não contada. A mulher que arquitetou a independência do Brasil. Parte III A Matriarca da Independência. Edição da Casa da Palavra, 2017, Rio de Janeiro, eBook Kindle. De Paulo Rezzutti (Brasil/São Paulo/São Paulo, 1972).

A íntegra do decreto pode ser lida na página 42 do documento Decretos, cartas e alvarás de 1822, na Biblioteca da Câmara dos Deputados, no endereço:

https://bd.camara.leg.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/18337/colleccao_leis_1822_parte2.pdf?sequence=2&isAllowed=y

A obra de Rezzutti é importantíssima para se ter uma boa base do contexto e de referências bibliográficas sobre momentos que antecederam o “grito do Ipiranga” que revelam como d. Leopoldina assumiu o papel de protagonista no processo de Independência do Brasil. De fato, a austríaca que abraçou o Brasil foi decisiva na condução do marido e príncipe regente.

Diz o autor que Pedro foi “guiado pela esposa” (p. 164) para o “fico” (9 de janeiro). O contexto político no início de 1822 dava sequência ao delicado quadro com uma crise que se avolumava em movimentos contra e a favor da Coroa portuguesa na colônia brasileira, após a partida de D. João VI. Entre revoltas e intimidações de militares portugueses, por segurança, d. Leopoldina estava no final de uma gravidez e ficou reclusa na fazenda Santa Cruz enquanto o marido certificava, entre outras coisas, no Rio de janeiro, que a fábrica da pólvora estava em mãos de brasileiros (p. 167). Em carta ao pai, a princesa revelou o receio de que as coisas no Brasil tomassem o rumo da Revolução Francesa (p. 175) e após reavaliar a situação política, tornou-se defensora não mais da autonomia, mas da independência do Brasil (p. 176). D. Leopoldina acompanhava os bastidores dos movimentos políticos em São Paulo, Pernambuco e outros centros quando foi nomeada, em 13 de agosto de 1822, para presidir o Conselho de Estado, sendo assim a primeira mulher a assumir o executivo no Brasil colônia, se bem que, ressalva o autor, “o que ela decidisse teria que passar pela aprovação do marido regente” (p. 179). Com a chegada do navio Três Corações, de Lisboa, o clima político se tornou ainda mais acirrado com ordem de prisão de José Bonifácio e exigência ratificada para que o príncipe Pedro retornasse à Portugal, entre rumores de um exército português a caminho e outras determinações que davam ao Brasil o trato meramente provinciano. D. Leopoldina então, reunida na presidência, sancionou em 2 setembro a deliberação do Conselho pela Independência (p. 182). Em carta ao marido, a princesa regente reforçou:

“Com o vosso apoio e sem o vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece” (p. 184).

Os correios alcançaram o príncipe Pedro em 7 de setembro, em São Paulo; ele estava indisposto, com uma diarreia (p. 184). Ao tomar conhecimento das decisões em Lisboa e o que a esposa assinou no Conselho, o príncipe Pedro teve um “acesso de fúria” (184) com os portugueses, arrancou do chapéu o laço azul e branco que simbolizava a nação portuguesa. Às 4h30 da tarde o príncipe determinou o mesmo aos soldados e em um breve discurso, encerrou com “Independência ou Morte!” No lugar do laços azul e branco, um novo laço verde heráldico (dos Bragança, do príncipe) e amarelo (dos Habsburgo, família de d. Leopoldina), cores oficializadas em 18 de setembro (p. 185); a íntegra do decreto também está no documento Decretos, cartas e alvarás de 1822, página 47.

06/09/2022 23h08

Imagem: ENGEPLUS

Eduardo Bueno

“No dia 5 de setembro, quando partiu para uma inspeção a Santos, o futuro imperador e Domitila já eram amantes – e o seriam por sete longos e abrasadores anos. Mas nem a diarreia nem as vertigens da paixão impediriam D. Pedro de tomar a maior decisão de sua vida.”

Obra: Brasil, Uma História. Capítulo 16. O Brasil Independente. Editora Leya, 2013, eBook Kindle. De Eduardo Bueno (Brasil/Rio Grande do Sul/Porto Alegre, 1958).

Para o comentário desta experiência de leitura, pareceu-me mais apropriado deixá-lo aos cuidados do pastor Abdoral:

Pedro, o pegador” – Por pastor Abdoral

Lá vem “Pedro, o pegador”, certamente diriam hoje figuras que costumam admirar cafajestes. Mas, antes de tratar sobre o adúltero mais famoso da história política tupiniquim, permitam-me a um preâmbulo de fatos relevantes no contexto do Sete de Setembro de 1822:

Do alto da montanha é tempo de meditar na secessão do curral brasilis. Em 1755 um terremoto em Lisboa desencadeou uma série de fatores políticos na reconstrução da capital lusitana. Ora, ora, onde buscar recursos para a Matriz? No ouro da colônia brasilis [115] e não tinha travessia oceânica, nem tribos que sacrificavam crianças e jantavam literalmente prisioneiros que vencessem a solução. O Brasil virou tábua de salvação além da função de depósito de criminosos lusitanos “convidados” pela Coroa, em alternativa à masmorra, para começarem uma “nova vida” ao lado dos velhos “amigos do rei” adestrados na burocracia e na corrupção de políticos presenteados com o loteamento das terras assim chamadas de “capitanias hereditárias”,  juntamente com as vítimas mais comuns dos arranjos colonialistas à época: tribos pacíficas de nativos e escravos da África. Toda a ânsia por recursos econômicos para reconstruir e embelezar Lisboa se traduziu naquela palavra que muitos amam até hoje na Banânia: imposto. E haja tributação para pagar a conta da reconstrução portuguesa e dos planos mirabolantes do senhor Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal (1699-1782), lobista do positivismo [116], homem de confiança, primeiro-ministro durante a crise que viu oportunidades na mais recente moda política de uma Europa em decadência, enquanto no “iluminismo”, que mais parecia um caldeirão com revoltas que culminariam com a Revolução Francesa de 1789 e 1799, aquela “maravilha” que virou um banho de sangue e deu mais democracia ao povo preparando o caminho para um tirano: Napoleão Bonaparte (1769-1821), que iria tomar conta do curral francês e aterrorizar europeus da vizinhança, fazendo D. João VI, um rei um tanto frouxo fugir para a colônia Brasil em 1808. No entanto, o estrago político já estava feito na colônia com os impostos e a burocracia, tendo consequência pelo controle da arrecadação gerando nativos revoltados, inspirados pelo modismo europeu das revoltas contra os monarcas; um deles foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), mais conhecido por “Tiradentes”, maior ícone da crescente insatisfação com a exploração tributária dos colonizadores de cada dia no famoso “quinto”, e acabou condenado em meio da diversos interesses [117], usado como “boi de piranha” na Inconfidência Mineira de 1789, executado por enforcamento e depois esquartejado, para dar o exemplo da nobre justiça de uma monarquia “orientada” por uma “distinta” fé cristã. Mesmo após a independência, o sentimento separatista  e resistente ao império “independente” permaneceu forte e o caso mais notório é de outro Joaquim, o da Silva Rabelo [118], mais conhecido por Frei Caneca (1779-1825) que já tinha participado de um movimento pernambucano em 1817 e em 1824, quando o imperador D. Pedro I dissolveu a assembleia nacional constituinte (um “Vargas” antes de Vargas), as resistências locais aumentaram frente ao poder central e líderes pernambucanos então formaram  a Confederação do Equador, uma república tentando a adesão de outras províncias. Frei Caneca acabou preso, julgado e sentenciado ao enforcamento, em 13 de janeiro de 1825 no Forte das Cinco Pontas, no Recife.

Voltando um pouco antes da Independência, com o tirano da França derrotado e morto, D. João VI decidiu retornar à capital lusitana em 1821, o que expandiu uma crise política que se avolumou com nativos cada vez mais dispostos a um enfrentamento e agora apoiados por alguns colonizadores insatisfeitos com a administração da realeza. Pedro, o herdeiro imediato dos negócios se viu entre a cruz e a espada, pressionado para ficar. Na condição de filhinho de papai raparigueiro [119], típico das realezas europeias, o príncipe pouco poderia fazer diante dos insatisfeitos na corte sem a sorte de ter se casado com uma moça muito acima dele em termos morais e intelectuais: inteligente, poliglota, culta, elegante e fiel, Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena (1797-1826), dona Maria Leopoldina de Áustria [120] que se aliou a gente do mesmo calibre intelectual, como o senhor José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) para articular politicamente um movimento para que o marido ficasse e desapontasse os conterrâneos do outro lado do Atlântico, assumindo por conta e risco os negócios da família no Brasil, processo político que culminaria na separação do pai D. frouxo João. Bonifácio tinha testemunhado na França o banho de sangue da revolução e temia o mesmo no Brasil. Assim, boa parte de seus esforços pela separação com a conservação de um regime monárquico em melhor relação com interesses locais, se deve a este temor.

Se a intenção for comemorar o Sete de Setembro, é justíssimo celebrar Maria Leopoldina de Áustria e José Bonifácio. No entanto, predomina na população a imagem do imperador herói, algo que ganha conotação ainda mais rudimentar no sistema de educação brasileiro que formou multidões na bipolaridade dissonante cognitiva, moléstia que costuma ser vista entre devotos de um misógino e desprovido de empatia, inquilino do Palácio, quando não entre outros alienados que preferem lamber os beiços de um ex presidiário.

Quanto ao trecho citado de Brasil, Uma História, o príncipe da independência ou, diria melhor, da secessão, apesar da fama que o grito lhe deu, parece-me ter sido mais dedicado à expertise em ter amantes; a mais famosa foi dona Domitila de Castro do Canto e Melo (1797-1867), que atendia por Marquesa de Santos, título dado pelo filhinho-de- papai-imperador-playboy cujo relacionamento gerou quatro filhos. No capítulo 16 da obra de Eduardo Bueno pode-se ler que nobres e ricos brasileiros escondiam suas filhas de D. Pedro I com receio de serem seduzidas; por onde “Pedro, o pegador” passava gerava apreensão e até mesmo com a irmã da amante Marquesa de Santos, Maria Bendita, teve um caso. Enquanto colecionava aventuras sexuais, o processo político se agigantou e “Pedro, o pegador”, viu o negócio de ter o próprio império sob uma responsabilidade cujo peso estava muito acima do que poderia suportar. E, além de entender bastante de adultério, entendia de combates cujo conhecimento lhe foi útil no nascedouro do império da Pindorama tomando, talvez, e assim derrotou alguns devotados gadosos do esquisito pai D. João VI,  porém sua inteligência para lidar com políticos raposeiros estava muito abaixo à da esposa e assim foi um imperador intelectualmente fraco; “Pedro, o pegador” foi macho como conquistador de mulheres e frouxo como político. Dona Leopoldina chegou a ocupar o trono quando o marido precisou dar uma “escapadinha” até São Paulo, bem pertinho de dona Domitila. Ao se ausentar do palácio do palácio imperial, foi por alguns dias, o imperador passou interinamente o comando à Maria Leopoldina, sendo assim a primeira mulher a governar o Brasil, talvez surpreendendo aqueles que pensam ter sido a Mãe Dilma dos Pobres.

No dia 2 de setembro então, com o Pedro ausente, Leopoldina assinou a separação de Portugal, fato desconhecido por muitos que pensam apenas no grito do Ipiranga, dado cinco dias depois quando o danadinho das mulheres tomou conhecimento do fato e, em meio a uma viagem em São Paulo, acometido de uma curiosa diarreia, enquanto regressava de um alivio no mato, recebeu cartas de Lisboa com ordens típicas a uma província, o que o provocou pela “independência ou morte”, assim entrou para os livros de história e os acometidos por delírios que romantizam a monarquia.

Com resquícios da frouxidão paterna, o então imperador D. Pedro I decidiu abdicar do trono, em meio às intermináveis crises nas disputas políticas de uma realeza que mais parecia com as tretas do atual Congresso Nacional com o inquilino do Palácio. A esposa fiel tinha adoecido, provavelmente sofria de depressão por conta dos adultérios e assim faleceu em profunda tristeza vendo o marido ocupar um palácio defronte à residência oficial para acomodar a amante. Pedro, viúvo, se casou de novo para depois ir embora deixando o filho “Pedrinho”, o Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon, na tutela do principal amigo, José Bonifácio. Fato é que, apesar da crise que terminou com a abdicação do trono, o até então Brasil colônia estava superado; a separação da Coroa portuguesa estava consumada.

Secessão é o termo mais apropriado para sintetizar os fatos políticos que resultaram no grito da “independência” do dia sete de setembro de 1822, isto posto por se tratar de uma separação ou divórcio entre colonizadores, o pai D. João VI e o filho príncipe “pulador de cerca” Pedro e seus respectivos puxa-sacos do gado gourmet versão monarquia contando com a simpatia de nativos bestializados no jogo político.

115. Ver o capítulo 7 da obra História Econômica do Brasil, de Caio Prado Jr: A Mineração e a Ocupação do Centro-Sul;

116. Sobre o impacto da política de Pombal na colônia brasileira, ver o capítulo 2 da obra Pare de Acreditar no Governo, de Bruno  Garschagen: Do Brasil colônia ao fado de Pombal;

117. Ver Inconfidência Mineira: negócios, conspiração e traição em Minas Gerais, de André Figueiredo Rodrigues;

118. Frei Caneca 1779-1825: Gesta da Liberdade, de Gilberto Vilar de Carvalho, e Frei Caneca – Vida e Escritos, de Frei Tito Figueiroa de Medeiros;

119. Expressão comum no nordestinês para um sujeito mulherengo ou “femeeiro”. Sobre essa condição de D. Pedro I, na obra desta leitura, no capítulo 16, Brasil Independente, ver Amantes;

120. Ver a obra D. Leopoldina: a história não contada – A mulher que arquitetou a independência do Brasil, de Paulo Rezzutti.

05/09/2022 23h50

Imagem: Diário de Pernambuco

Moniz Bandeira

“Essa tentativa de restabelecer o cálculo econômico e, portanto, manter a continuidade da acumulação capitalista, sem penalizar os trabalhadores, constituiu a grande contradição que liquidaria não apenas a política econômico-financeira de Furtado e San Tiago Dantas, mas, também, o Governo de Goulart e o próprio regime democrático.” [54]

Nota do autor: Oliveira, F. op., cit., pp. 10 e 11.

Obra: O governo João Goulart 1961-1964. As lutas sociais no Brasil. Edição da Civilização Brasileira, 1983, Rio de Janeiro, formato físico. De Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira (Brasil/Bahia/Salvador, 1935-2017).

Leitura de 1995. Um ano antes de eclodir o primeiro de abril de 1964, o governo populista de Goulart, após ser efetivado no plebiscito em favor do presidencialismo, cambaleava em crise social com inflação, “acossado tanto pela direita quanto pela esquerda” (p. 98). A dupla de ministros Celso Furtado (“sem Pasta”, Planejamento) e San Tiago Dantas (Fazenda) combinou uma “recessão atenuada”, novos empréstimos e reescalonamento da dívida pública, com perfil de juros que comprometia o fluxo de importações e forçava novos empréstimos em um círculo vicioso. A equipe econômica aboliu subsídios às importações de trigo e petróleo, para tentar uniformizar o câmbio, seguindo a cartilha do FMI (p. 89) e negociou acerto com Almino Afonso (ministro do Trabalho) “para não permitir que a expansão do salário monetário se convertesse em fator de inflação” (p. 97).

A crise fiscal provocada pelo excesso de gastos, herdada da administração Kubitschek, forçava a renegociação da dívida externa a cada três meses (p. 93), refletia no câmbio e a lei que limitava as remessas de lucros, agravou a situação no influxo de capitais privados americanos, forçando queda da taxa de reinvestimento (p. 92). O “centrão” da época como um manto sobre o presidente Goulart, que teria flertado com a direita, enquanto visto como “comunista” por reacionários, concomitantemente era questionado pela esquerda (p. 95). O presidente de viés progressista resistia à política de arrocho salarial do seu próprio ministro (Plano Trienal). Era pressão de todos os lados, do FMI, dos banqueiros americanos, do Congresso, da “divisão de base do comunismo tupiniquim”, mais conhecida por União Nacional dos Estudantes (UNE), assim como do Partido Comunista Brasileiro (PCB), da Frente Parlamentar Nacionalista FPN) e até de Brizola que denunciava o ministro San Tiago Dantas de ter cometido “crime de lesa-pátria” (p. 99).

Crônica de uma morte anunciada de um governo populista ensaiando anti-inflacionismo, sem base no Congresso, sob a desconfiança geral em um caldeirão que seguiu até a eclosão do “movimento”, para alguns, ou “golpe” para quem hoje domina as narrativas; fato é que a crise econômica que combinava inflação com endividamento estatal galopante deixou o governo vulnerável a caminho da queda no final de março de 1964. É um exemplo na história de que crise fiscal e inflação são dois problemas a espreita para tragar qualquer governo neste “museu de grandes novidades”, como cantara o poeta Cazuza, a servir de alerta para quem estima o inquilino do Palácio em 2023, independente do lado.

04/09/2022 20h30

Imagem: Editora Rocco

Clarice Lispector

“Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? Mas, mesmo assim, na solitude branca e ilimitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. Presa, presa. Onde está a imaginação? Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”

Obra: Perto do coração selvagem . …O banho… Edição da Rocco Digital, eBook Kindle, 2019, Rio de Janeiro. De Chaya Pinkhasivna Lispector (Ucrânia/Chechelnyk,1920-1977).

Primeiro romance (a9144) de Clarice Lispector.

Percebi um forte teor existencialista na obra no desenvolvimento da personagem Joana, a garota desbravadora de si mesma, que gosta de se voltar ao passado para tentar entender o que ela mesma significa diante de um mundo que a provoca mediante sua aguçada e inquietante sensibilidade com o ser.

Joana vive cercada por questionamentos que consegue enxergar de seu mundo interior, então vive a deixar a tia desconcertada, onde o pragmatismo do tio é insignificante, e a sagacidade do professor é confrontada com uma intensidade de poder combinada com uma angústia; poder para se expressar “excessivamente sincera” (p. 41), muito além das obviedades de seu “eu” social, e angústia porque não encontra respostas para atender a objetividade que lhe é pedida, sobretudo nos diálogos com o professor, a qual sua admiração é profunda a ponto de sentir desejo.

Joana é fascinante, misteriosa, provocante… Sabe que tudo o que possui está profundo dentro de si (p. 52) enquanto percebe que o exterior, com suas convenções, não passa de algo raso, então ela (na sequência do trecho selecionado) se sente como “um brinquedo a quem dão corda, e que terminada esta, não encontrará vida própria, mais profunda.” (p. 52).

As questões que Clarice Lispector trabalha na personagem Joana, entendo, remetem a um dualismo entre o eu social, que é suportável e demonstrado na convivência, e o eu das profundezas do ser, desbravador, o que lembro um tanto “além-do-homem” de Nietzsche, destemido na busca de uma compreensão mais profunda da própria natureza na complexa relação com a existência em meio aos limites do eu social.

03/09/2022 20h55

Imagem: DW

Karl Marx

O sistema de crédito público, quer dizer, as dívidas do Estado, cujas origens encontramos na Idade Média, em Gênova e Veneza, toma conta da Europa durante o período manufatureiro. O sistema colonial, com seu comércio marítimo e suas guerras comerciais, lhe serve de estímulo. Ele se instalou, assim, primeiramente na Holanda. A dívida pública, quer dizer, a alienação do Estado, seja despótico, constitucional ou republicano, dá o verdadeiro caráter à era capitalista. A única parte da pretendida riqueza nacional que entra realmente na posse coletiva dos povos modernos é a dívida pública.

A dívida pública torna-se um dos fatores mais poderosos da acumulação primitiva. […]

Obra: O Capital. Vol I, capítulo 14. A chamada acumulação primitiva. Edição Resumida por Julian Borchardt. Editora Guanabara, 7a. edição, 1982, formato físico. De Karl Marx (Reino da Prússia/Renânia-Palatinado/Tréveris, 1818-1883).

O pensador-herói mais importante de minha adolescência e início de juventude destaca a parte final do período medieval com o “sistema colonial” tendo parte da estrutura histórica em seus argumentos sobre o que denomina “acumulação primitiva”. Entendo que o capítulo XIV do resumo de Borchardt, XXIV na obra integral, é o mais importante para se entender a crítica socioeconômica de Marx ao capitalismo a mencionar, na abertura, que “a acumulação do capital pressupõe a mais-valia” (p. 171).

Marx vê o comércio e a navegação como resultados de “progressos enormes” (p. 185) do regime colonial que intensificou o acúmulo “pela pilhagem, a escravidão e o morticínio” (p. 185) no extermínio das populações indígenas (p. 183) na descoberta das minas de ouro e de prata na América, assim como no “saque de bens eclesiásticos, o embargo das propriedades comunais, a transformação usurpadora – e efetuada sob um regime de terror – das propriedades feudais e coletivas dos clãs em propriedades privadas modernas – eis os doces métodos de acumulação primitiva” (pp 178-179), salienta. A supremacia comercial assegura a industrial, o que deriva “o papel importante desempenhado então pelo sistema colonial” (p. 185); o “deus de fora” no altar de velhos ídolos europeus, aponta Marx, para em seguida concluir que “a partir dessa data, a mais-valia se tornava o fim único da humanidade” (P. 185). Nesse contexto, Marx insere o Estado como meio encontrado pelos acumuladores e detentores das companhias para o estabelecimento de monopólios na expansão marítima comercial (p 184), assim como o estabelecimento do sistema protecionista como “um meio artificial de fabricar fabricantes” (p. 187).

Até conhecer os austríacos, estava moldado pela visão de Marx que vê capitalismo apenas no final da Idade Média, como se o comércio e os empreendimentos da antiguidade não tivessem existido como consequências de relações de propriedade separada (ou privada, aqui usei um termo de Hayek), assim como a visão grotesca do processo de geração de riqueza na economia de mercado como se fosse resultante apenas de meios fraudulentos ou de exploração. As livres trocas, o papel do consumidor como senhor da escolha e a cooperação social que só pode ser legítima por liberdade econômica, não fazem parte da cartela de Marx para explicar a economia. Fato é que pude perceber com os austríacos que Marx ignorou dezenas de séculos para, aparentemente, favorecer seu enredo em que dá à acumulação que diz “primitiva” (apenas fraudulenta) e à burguesia, destaques no processo que tornou o sistema feudal obsoleto, para finalizar o que entende como “capitalismo”. O fato de que pilhagens e escravidão foram vetores de enriquecimento não significa que a acumulação de capital ou enriquecimento seja coisa apenas indigna.

O mais importante na crítica de Marx neste capítulo, à mon avis, é o entendimento dele sobre o problema do endividamento do Estado como parte da “alienação” dos detentores do capital que, na sua visão, são resultantes de acumulação pelos tais “doces métodos”, pois “os credores do Estado não entregam nada; a soma emprestada se transforma em títulos da dívida pública de fácil transferência e que continuam a funcionar em suas mãos como moeda sonante” (pp 185-186). A dívida pública, na visão de Marx, “faz nascer e prosperar as sociedades por ações, o tráfico de títulos negociáveis de toda espécie, a agiotagem, em uma palavra, a bolsa e o sistema bancário moderno” (p. 186).

Isso posto, penso o quanto é curioso ver hoje como o pensamento de Marx, avesso à propriedade privada dos meios produtivos e financeiros, está superado; pois foi abandonado, há muito tempo, por políticos de esquerda que se converteram a modelos do “capitalismo de laços” que gostam de enaltecê-lo (apenas como grife ideológica para iludir os abobados de fileiras partidárias) enquanto aumentam sistematicamente o endividamento do Estado e prometem honrar contratos com credores milionários e bilionários que aprenderam a apoiar, financiar e conspirar em favor dos mesmos políticos de esquerda.

Sobre a bolsa e o sistema financeiro global ou “moderno”, nada mais indica a obsolescência das soluções anticapitalistas de Marx quanto ao fato de que hoje um bilionário chinês como Jack Ma [114], confirmado como membro do Partido Comunista daquele país, cujos detentores do capital, nas mãos do mesmo Partido, em um modelo de economia neofascista, fazem parte da alienação do Estado que, parece, estar em processo de alienação de muitas economias pelo mundo.

114. Ver Bloomberg: Jack Ma Confirmed as Chinese Communist Party Member

02/09/2022 22h54

Imagem: DW

Nietzsche

“Não quero ‘crentes’, creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas… Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo […]”

Obra: Ecce homo. Como alguém se torna o que é. Por que sou um destino. Companhia de Bolso, 2008, São Paulo. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

Virtú

Tem um alto preço não permitir que a minha vontade de potência seja conduzida em outrem além do meu ser. O risco de desbravar a própria ignorância é como caminhar em um precipício no galope de um corcel indomável, por uma liberdade que não pode ser medida por um tempo comum, forjado em meias verdades.

Prefiro ser um marginal desta cínica harmonia social. Faz-me feliz, em muitas ocasiões, saber que não tenho nada que seja interessante e poder seguir em frente sem ser notado. Não quero crentes em minha caminhada; minhas lições são minhas, particulares e inconvenientes. Dispenso admiradores de ocasião que me elogiam por algum interesse vil e prefiro novas subversões aqui, acolá, em esquinas esquecidas e arredores onde quase ninguém presta atenção.

Há um clamor nos que ousam em incertezas e são mal resolvidos. No eterno ir e vir, peregrino em limites que não me condenam pela fé em um destino politicamente correto, sem virtú, a cortejar a sorte, a fingir que sou autêntico, sem coragem de ser para transmigrar no meu próprio vazio.

Pastor Abdoral, 18/05/2018. Revisões concluídas em 03/09/2022 19h28.

01/09/2022 23h00

Imagem: ALJAZEERA

Mikhail Gorbachev

“[…] devemos mencionar um período que costumamos chamar de ‘período do culto da personalidade’. Ele afetou nossas leis e sua orientação e, mais especialmente, sua observância. A ênfase na estrita centralização, a administração por injunção e a existência de um grande número de instruções e restrições administrativas diminuíram o papel desempenhado pela lei. A certa altura, essa situação levou a um regime arbitrário e ao reinado da legalidade, que não tinham nada a ver com os princípios do socialismo, ou com as cláusulas da Constituição de 1936. Stálin e seus associados mais próximos foram os responsáveis por esses métodos. Quais tentativas de justificar essa ilegalidade por necessidade política, tensão internacional ou exacerbação da luta de classes dentro do país são erradas. As violações das leis tiveram trágicas consequências, que ainda não conseguimos esquecer ou perdoar. O 20o. Congresso do PCUS fez uma dura avaliação desse período.”

Obra: Perestroika. Novas ideias para o meu país e o mundo. Editora Best Seller, São Paulo, 1987, p. 227. De Mikhail Sergeevitch Gorbachev (Rússia/Privol’noe, 1931-2022).

Faleceu no último dia 30 o último premier soviético que foi, à mon avis, o agente geopolítico mais importante da década de 1980, primeiro por ser o porta-voz do império de economia planificada decadente na fase final de implosão; segundo porque foi o articulista de um diálogo mais intenso com o ocidente, o que lhe rendeu o Nobel da Paz [113]. Gorbachev também se notabilizou por esforços pelo desarmamento nuclear, contudo hoje fico a pensar na Rússia e no Putin, à época agente da KGB, herdeiro do referido arsenal ainda tido como o maior do mundo.

No trecho (p. 121), a referência ao mais sombrio dos estágios de uma experiência socialista, quando o “culto de personalidade” na figura patológica de Stálin se revelou aos desavisados, como uma vertente similar e paralela ao que ocorreu no fascismo e no nazismo. Hitler tem a maior fama, mas Stálin foi tão ou mais cruel. Contudo, ainda sobram hoje “tentativas de justificar essa ilegalidade”, em fileiras saudosistas da URSS em grupos políticos de soças-militeens-de-iPhone, crentes de que socialismo é sinônimo de liberdade, que se dariam à incontinência se tivessem que lidar com o aparato político de um regime de partido único no estilo nazifascista com a chancela marxista, como ocorrera na extinta URSS. A parte mais constrangedora talvez experimentam em salas de aulas com professores “intelectuais” que ainda hoje tentam justificar os métodos de Stálin no que Gorbachev chamou de “exacerbação da luta de classes”. Stálin saiu, mas os problemas de “debilitação” seguiram na URSS; “casos de corrupção tornaram-se frequentes dentro da própria máquina de aplicação da legislação” (pp 121-122).

Perestroika foi um discurso típico de propaganda comunista para “os de fora” do partido, no caso específico, de uma forma ampla nunca antes vista, digo, para o mundo além dos domínios soviéticos que assistia aos sinais de crise profunda no leste europeu. E esse discurso, naturalmente recheado de malabarismos retóricos e subterfúgios, foi um “canto do cisne” para anunciar que o maior arranjo socialista, até então produzido, continuaria “socialista” embora estivesse sob a inevitável abertura à economia de mercado e sua derivada maior propensão à propriedade privada dos meios produtivos e financeiros.

113. Mikhail Gorbachev Facts

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