Imagem: Renovatio Imperii

“Você não tem vergonha de reservar para si mesmo apenas o remanescente da vida e separar para a sabedoria apenas o tempo que não pode ser dedicado a qualquer negócio?”
Obra: Sobre a Brevidade da Vida. III. 5. Montecristo, 2018, São Paulo. Tradução e notas de Alexandre Pires Vieira. De Lúcio Aneu Séneca (Império Romano/Espanha/Córdoba, 5-65).
“Quando o assunto é desperdiçar tempo, são ótimos”, respondeu ZW o que, muito tempo depois foi entendido como ironia, sobre a rotina de trabalho que teve nos anos 1980 com pessoas do mercado financeiro, o que surpreendeu um certo jovem de 21 anos:
– Como assim?
– Vidas que gravitam em torno da ideia de “resultado”, via de regra, financeiro. Não fazem nada além disso. Estão mortificados no modo que escolheram como sentido para a própria existência. Alguns descobrem o que fizeram de si mesmos tarde demais, quando estão cheio de frustrações, recalques, muitas vezes tentando se recuperar de alguma doença e/ou traumas que os acompanham até o último suspiro – respondeu.
Acerca do que ZW respondeu, dez anos depois tornei a pensar naquele jovem, então no seminário e que se envolveu com obras estoicas e as comparou com ditos de Jesus no Evangelho. Quando li e interpretei o III.1 (p. 20), resumi no tipo que se doa totalmente mediante posses, enquanto regrado pelo que ostenta, se não há sentido em compartilhar o que tem, faz pleno sentido distribui a própria vida pela dedicação que envida para acumular conquistas, bens. A forma como Sêneca reflete sobre a ânsia e dedicação pela riqueza material, e o desprezo pelas coisas que essa mesma riqueza não pode garantir, lembra muito o Sermão da Montanha, texto posterior, anotou à época.
A crítica estoica ao tempo que se dedica à realização pessoal dentro de uma ótica da ocupação preferencial às vicissitudes para atender por meio da ânsia ao que restringe a vida e, muitas vezes, a deixa sob a ilusão de estar “bem-sucedida”, enquanto carregada de futilidades, paixões desenfreadas, rixas, busca insaciável pelo enriquecimento e tudo o que a esvazia da beleza, da virtude, diria, do poético, pode adoecer o corpo e a mente – eis a minha releitura do III.2 – ao se desdobrar no ponto seguinte sobre o que rouba essa experiência mais proveitoso, sábia, do viver com “tristezas inúteis”, “alegria tola”, “desejo ávido”, “seduções da sociedade” (p. 20), comportando-se como se dispusesse desta vida para sempre (III.4) não dando oportunidade para aproveitá-la se dedicando à sabedoria (trecho, p.21) .
2 Replies to “06/01/2026 20h00 Sobre a Brevidade da Vida. III. 5”