Ichiro Kishimi e Fumitake Koga

“Enquanto permanecermos presos às supostas causas, não daremos nenhum passo à frente.”

Obra: A coragem de não agradar. Por que as pessoas podem mudar. Sextante, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Ivo Korytowsky. De Ichiro Kishimi e Fumitake Koga.

O caso do amigo que não consegue sair do quarto, especulado pelo jovem como possível neurose ou pânico (pp. 23-24), é bem ilustrativo sobre possibilidades em torno de como lidar com traumas.

Dentro de uma concepção freudiana de se ponderar causas com base em investigação do passado, o provocante filósofo desta obra, ao dialogar com o jovem tão pleno de certezas, recorre ao “terceiro gigante” desconhecido, Alfred Adler (1870-1937), para argumentar contra o determinismo. Eis o problema: se sofri algum trauma, digamos na infância, assumindo que define como será meu comportamento, então, o presente e o futuro são inalteráveis, “já foram decididos por acontecimentos do passado” (p. 25).

Entre 1997 e 1999 reconheci fatos, de recentes até a infância, relacionados a traumas, mas durante a terapia fui bastante cético, crítico, relutante, ao determinismo freudiano, não no sentido dado pelo filósofo deste livro envolvente, e sim por até admiti-los como causas, enquanto não os aceitava como determinantes à minha forma de ser no sentido de se propagar pelo resto de minha vida; queria me livrar deles e isso foi determinante para aceitar as técnicas para tratar o problema imediato: a síndrome do pânico.

Ajudou o fato de ter começado por uma ocorrência recente (1996), e por ter sido bem sucedido o tratamento, quando então fiquei motivado para enfrentar outros problemas que foram desvelados durante a terapia, e que seriam mais desafiadores. Cada avanço não chegou a ter o sentido de “metas” do presente, penso aqui na abordagem adleriana, mas significou uma luta pessoal contra o determinismo, apesar do psicoterapeuta ser freudiano.

Quando o filósofo argumenta de forma inversa ao considerar que o fato de o amigo não querer sair do quarto, cria um estado de ansiedade (p. 26), de certa forma, foi o que cogitei um tempo depois em relação ao primeiro problema (pânico) e, mesmo não sendo de linha adleriana, ficou claro que meu comportamento estava afetado por uma distorção que tinha diante de certos estímulos (no caso, pessoas consumindo álcool e cigarro) que associava ao traumático.

A questão então entre Freud e Adler em meu caso consiste em considerar se o trauma alimentou a distorção, ou se eu desenvolvi uma “meta” que provocava ansiedade até chegar ao pânico. No caso de Freud a explicação é etiológica, encontrando-se no passado, e em Adler é teleológica, onde interessa o propósito de certo fenômeno, o que remete à compreensão do presente, enquanto se descarta o que passou cogitado como causa ou o trauma simplesmente não existe (p. 27), sendo este o contexto do trecho (p. 26) desta Leitura.

Sem entrar no mérito entre as duas abordagens, uma coisa me pareceu certa desde o início: não queria ficar preso ao passado, sobretudo no sentido de ressentimentos ou de adotar o “não é sua culpa” (embora isso tenha sido dito em algumas sessões), de certa forma, irônica, quando desejo superar o passado e me voltar a um bom presente, neste ponto estou mais para Adler. Hoje penso o quanto experiências traumáticas são comuns e que algumas pessoas simplesmente as ignoram face a problemas de comportamento, enquanto seguem preconceituosas com a psicologia e a psiquiatria, o que as levará para um determinismo de sofrimento desnecessário e auto infligido pelo resto da vida, enquanto outras se determinam à mudança. O fato de conseguirem ou não é outra questão que não diminui o valor da busca pela superação.

2 Replies to “07/01/2026 20h00 A coragem de não agradar. Por que as pessoas podem mudar”

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