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Olavo de Carvalho

“[…] Interpretando esses sinais espontâneos, ele conseguia comunicar-se com seus pacientes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito […]”

Obra: O Jardim das Aflições. De Epicuro à ressureição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil. Capítulo 4. Lógica de Epicuro. §11 O convite ao sono. Vide Editorial, 2015, Campinas. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo, 1947-2022).

Olavo de Carvalho discorre neste tópico (pp. 94-100) sobre o desenvolvimento da Programação Neurolinguística (PNL) e suas relações com a filosofia de Epicuro.

“Não vá pensar o leitor que está diante de mais uma porção mágica, de mais um charlatanismo inócuo. A PNL funciona. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas, com o mais rigoroso controle científico, mostraram isso”, afirma o filósofo (p. 97), para em seguida advertir sobre os perigos de sua aplicação generalizada de “manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem com o seu próximo” (p. 98), em meio à “sonsice dos crentes” e à “indiferença blasée” dos descrentes (p. 100).

No trecho (p. 95), refere-se “a um dos grandes psicoterapeutas do século”, Milton Erickson (1901-1980), o que fez da experiência de leitura algo extremamente significativo para mim.

Erickson desenvolveu uma prática clínica que foi usada como base inicial da PNL (entre outras não citadas por Olavo) e a primeira vez que escutei o seu nome foi em 1997 quando fiquei impressionado com a precisão das perguntas especulativas do psicoterapeuta que tratou minha síndrome do pânico. Apesar de minhas omissões no início do tratamento, ele conseguia dialogar comigo em um nível como se eu as tivesse revelado.

Fez-me pensar também em um psicoterapeuta que fazia anotações e quando perguntei se era tudo que tinha lhe falado, ele disse: “não, neste caderno aqui anotei apenas alguns assuntos que você não falou” [517]

O que ele anotava no caderno das minhas omissões era depois abordado em uma linguagem pessoal, muito amigável, em que eu me sentia mais à vontade. Quando percebi que estávamos especulando algo um tanto próximo de um assunto que eu não tinha expressamente lhe falado, fiquei intrigado, então, mais adiante, quando eu me senti mais seguro e passei a ter um interesse incomum em pacientes por temas da psicanálise, recebi a informação de que o desenvolvimento de nossos diálogos iniciais não estava baseado apenas no conteúdo que eu verbalizava explicitamente, mas também em interpretações que ele fazia da direção do olhar, de mudanças no tom da voz, de alterações na face e até mesmo em sinais que coletava de hipertonia e hipotonia.

Brinquei perguntando se não tinha faltado um detector de mentiras… na verdade, o meu corpo falava o que eu não queria conversar.

De alguma forma a técnica me encorajou a falar mais abertamente, e quando a explicou, quebrou o que tinha sobrado de minha resistência de maneira que conseguirmos ir mais a fundo nos fatos que realmente importavam até chegar no que eu distorcia em relação aos estímulos que provocavam o pânico, para então avançar gradualmente no processo de racionalizar cada vez melhor o significado de certas exposições.

A técnica de Erickson é algo clínico e em meu caso me ajudou a ganhar confiança para enfrentar assuntos que eu tinha consciência, porém não encontrava disposição para conversar. Já a PNL é um desdobramento controverso no uso dessas e outras técnicas, pois pode induzir pessoas a tomarem decisões com base em sentimentos ocasionados por manipulações em mensagens quase imperceptíveis, enviadas ao subconsciente.

517. 14/10/2025 22h48

2 Replies to “10/01/2026 16h00 O Jardim das Aflições. §11 O convite ao sono”

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