Imagem: IEA USP

“‘É necessário ser herético’, declarou Febvre em sua aula inaugural.”
Obra: A Escola dos Annales (1929-1989). A revolução francesa da historiografia. 2. Os Fundadores: Lucien Febvre e Marc Block. Editora da Unesp, 2010, São Paulo. Tradução de Nilo Odalia. De Peter Burke (UK/England/London/Stanmore, 1937).
A ciência carece de “heresias” muito de vez em quando, porque se não for assim, deixa de ser o que é, e a Escola dos Annales é um exemplo, penso.
Lucien Febvre (1878-1956) a declarou logo quando debutou a revolucionária Escola dos Annales (p. 48) em uma revista com primeira edição em 15 de janeiro de 1929 (p. 36), que foi vista como uma seita no meio acadêmico, mas que se tornaria ortodoxa após a Guerra.
Um dos fundadores, Febvre diferia de Marx quanto ao economicismo da “luta de classes”; era “um conflito de ideias e sentimentos tanto quanto um conflito econômico”. No entanto, historiadores econômicos predominaram nas primeira edições da famosa revista (p. 37). Febvre também introduziu a análise geográfica (p. 27), no entanto, não via o ambiente físico como determinante para opção coletiva, mas o homem “sua maneira de viver, seu comportamento. Mesmo as atitudes religiosas aí se incluíam” (p. 28). Esse problema em Marx foi um dos que me fizeram repensar minha crença no socialismo em meados dos anos 1990.
Marc Bloch (1886-1944), o historiador que cuja menção fazia os olhos de um professor brilhar, teve uma carreira parecida com a de Febvre (p. 27), que tinha mais ligação com a geografia e se enveredou também pela linguística (p. 45). Ficou evidente a semelhança entre os dois fundadores na maneira interdisciplinar de pensarem (p. 29) e quando passaram a conviver academicamente em Estrasburgo, “cercados por um grupo interdisciplinar extremamente atuante” (p. 30), convergiram para o que seria a revista que deu origem à Escola dos Annales.
Febvre foi mais contundente diria, bem mais radical do que Block, que produziu “ponderadas reflexões” (p. 43). Na fundação de uma nova escola a partir da edição de uma revista, Febvre deixou claro a demarcação; havia agora “nossa” história e a “deles”, ou seja, a dos que não concordavam com sua linha interdisciplinar de estudos (p. 42).
Block foi influenciado pelo sociólogo Émile Durkheim (1858-1917), o qual reconheceu sua “profunda dívida” (p. 29). Block se destacou ao descrever seu livro Le Rois Thaumatorges (p. 32) usando o termo “representações coletivas”, associado a Durkheim (p. 33), e que remetia a uma forma de estudo histórico que considerava a psicologia religiosa, coisa inesperada nos anos 1920 (p. 32). Neste ponto, Block aborda um problema curioso em torno da crença em milagres onde, mesmo se revelando posteriormente como não confirmados, não destruía a fé de quem se frustrava (p. 32). Outro destaque de inovação em Block estava na “história comparativa” para permitir a constatação de diferenças entre sociedades europeias (p. 33).
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