Imagem: Vaticano

“Cabe a humanidade decidir se quer se tornar alimento de algoritmos ou avançar pelo caminho, conservando intacta a própria natureza de caráter […]”
Obra: Papa Francisco: Esperança. A Autobiografia. 24. Por que os melhores dias ainda estão por vir. Fontanar, 2025, São Paulo. Tradução de Frederico Carotti, Iara Machado Pinheiro e Karina Jannini. De Papa Francesco, Franciscus (2013-2025), Jorge Mario Bergoglio (Argentina/Buenos Aires, 1936-2025), com Carlo Musso.
A expressão “se quer se tornar alimento de algoritmos” (p. 348) me remete ao que venho pensando recentemente sobre o poder de manipulação exercido por corporações de TI sobre usuários de sistemas e redes sociais, o que se tornou mais evidente com o que é chamado de “inteligência artificial” (IA).
A ansiedade, o imediatismo, o estímulo à ilusão de que “tudo” se resolve rápido, no apertar de botões, promove o comodismo do uso do intelecto em nível mais profundo, ocasiona em um contínuo não-pensamento em termos mais elaborados, com o desprezo ao saber internalizado na repetição de conceitos e informações sem discernimento apropriado após uma conversa com um chat GPT da vida. Pensei em um contador que conheci que não consegue mais construir conteúdo próprio e ficou dependente químico de IA. Sem uma IA não consegue produzir. Tudo isso me faz pensar no mesmo parágrafo, quando Francesco aponta o que é mais importante: o coração, penso, o campo de uma batalha entre os que coisificam o ser humano e a humanidade que nos resta.
A desumanização que as tecnologias fazem ao “pensarem” no lugar do ser humano, definindo “vida” “morte” por algoritmos (p. 347), assim releio estes termos citados por Francesco, provocam o desprezo pela intelectualidade mediante a crença de que não é preciso mais entender e sim obter respostas advinda do cruzamento heurístico de um banco de dados, o que é bem diferente.
No mesmo segundo parágrafo da página 347, Francesco adverte para o problema deep fake. Quanto a isso, não gostaria de chegar ao ponto de considerar que o conhecimento da realidade, um dia, seja viável apenas se estivermos desconectados da internet. Meu maior receio é que nossa espécie fique restrita a uma minoria de vida restrita, simples, desconectada propositalmente das redes, enquanto a maioria, que seria outra coisa, uma espécie anômala, não-humana, acéfala na prática, incapaz de pensar por si mesma, totalmente à mercê de grandes corporações de TI.
A IA como todo instrumental, não é um problema em si e Francesco ao lembrar da espada de Dâmocles, que “de um grande poder derivam grandes responsabilidades” (p. 346), penso, suscita o tema de que a maior tentação reside na dispensa do uso de nossos recursos cognitivos para reflexão, deixando tudo aos cuidados de uma ferramenta que não tem sentimentos e é, essencialmente, desumana. Assim os que se entregarem a IA abdicando do papel do exercício humano, poderá compor um processo de “abolição do homem”, e aqui penso não por citação de Francesco, mas por alusão como releitura que penso sobre a obra de C. S. Lewis.
Francesco, ao citar o teólogo Romano Guardini (começa a partir da p. 346), considera que o ser humano tem que assumir a responsabilidade para direcionar a ciência e a tecnologia, o que exige que seja formado “um novo tipo humano, dotado de uma espiritualidade mais profunda, de uma liberdade e de uma interioridade novas” (p. 347), reproduzindo o que dissera o teólogo.
Mesmo a abordar questões que indicam o contrário, Francesco encerra com uma mensagem de fé, para apontar que o melhor está por vir. “Rezem dizendo essas palavras e, se não conseguirem rezar, sussurrem-nas até acreditarem nelas, sussurrem-nas aos desesperados, aos que têm pouco amor: o melhor vinho ainda está por vir” (p. 350), pois “o vento do Espírito não parou de soprar” (p. 351). Aqui Francesco deixa, à mon avis, a maior lição: guardar a fé.
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