Imagem: IEA USP

Daniel Martins de Barros

“Como nos ensina a professora Alison Wood Brooks, uma das maneiras de usar a ansiedade social a nosso favor é reinterpretar os sinais do corpo.”

Obra: O lado bom do lado ruim. Medo. Medo dos outros. Sextante, 2020, Rio de Janeiro. De Daniel Martins de Barros.

Quando um pouco de irritação e medo da vergonha são mais úteis que palavras de motivação – por Leonardo Amorim

Lembrei-me de uma ocorrência em 2006, quando decidi adotar com um colega de trabalho a mesma estratégia de contingência que o psicoterapeuta utilizou comigo em 1997.

Boa parte de minha rotina profissional consiste no uso da palavra, em treinamentos, reuniões, palestras e apresentações onde, não raramente, preciso me expressar com pessoas que não são clientes e, muitas vezes, não me conhecem. Naquele ano fui diagnosticado com síndrome do pânico e no início da terapia me recusei a participar de um trabalho como palestrante na faculdade de economia, sob o receio de que pudesse passar pelos mesmos sintomas que tinha apresentado no evento anterior. Aos 22 anos esperava por palavras de apoio, algo mais “motivacional”, mas não foi bem aquilo que pensei: fui desafiado pelo psicólogo, sutilmente provocado pelo ego, revi minha decisão e consegui realizar o trabalho que marcou um passo importante no tratamento, por ter sido a primeira oportunidade para testar a técnica pela qual estava sendo treinado para neutralizar os gatilhos.

Concluído o evento, fui surpreendido ao me ver cercado por alunos e professores fumando e bebendo em uma espécie de confraternização. Notei que estava tenso, mas na medida em que aplicava a técnica, também percebi que não estavam ocorrendo os sintomas mais severos: auto isolamento, suor intenso e mãos trêmulas. Era apenas o começo de uma caminhada que terminou no início de 1999, quando ficou evidente que o problema foi superado por completo.

Para quem fica ansioso além da conta quando pensa em falar em público, sob o medo de travar ou se perder, talvez ajude, para reforçar a auto confiança, o que sugere Chris Anderson, citado pelo doutor Daniel Barros, sobre manter frequência nos olhos das pessoas que aparentam gostar da apresentação (p. 75), mas em 1997 este não era o meu caso e sim de um jovem vulnerável a sinais que desencadeavam o pânico (pessoas fumando e/ou consumindo bebida alcoólica), significantes sob distorção cognitiva que se dava em qualquer situação, não apenas quando falava em público, atividade que, desde o início da vida profissional, não tinha histórico de dificuldade.

No trecho (p. 74) desta Leitura pensei o quanto, durante o tratamento, foi decisivo saber identificar os gatilhos, reinterpretar suas causas, o sentido da apreensão, conhecer melhor os sinais de meu corpo, as raízes daquela ansiedade para ressignificar a adrenalina, o coração disparando, desvinculando-o da sensação causada pela “possibilidade de ameaças futuras” (p. 61) que não podem ser controladas, as quais eu super estimava por conta da síndrome (p. 61). Fui preparado para racionalizar cada situação e compreender que a causa do temor desmedido não possuía a mesma natureza de determinada tarefa de interação que precisava realizar, de maneira que passei a canalizar e separar bem cada situação para lidar com a própria emoção de forma positiva e condizente com a realidade.

A situação do colega em 2006 era também de contingência, não havia tempo para terapia e apesar de não apresentar sinais da síndrome que passei, enxerguei nele alguns traços do meu eu de 1997; tinha quase a mesma idade que a minha na época do tratamento. Então, fitei bem em seus olhos e com um olhar muito sério, sob certo desapontamento, disse quão constrangedor seria para mim (quem o convidou), assim como para as pessoas mais próximas, substituí-lo no evento, por ser inconstante ao não cumprir com o que tinha combinado, demostrando-se carente de inteligência emocional, incapaz de lidar com uma pequena intercorrência na vida pessoal para simplesmente “fracassar”, algo diminuto que não combina com o que tanto mencionava com louvor, sua origem sertaneja, a qual tenho grande admiração, de pessoas “fortes”, “determinadas”.

Ele ficou um tanto irritado, contudo, há circunstâncias em que provocar um pouco, de forma moderadamente dosada, pode ter um efeito psicológico melhor do que fazer uso de palavras de motivação, e assim fez emergir um ego impactado pelo orgulho acerca da própria reputação. Funcionou um tanto à semelhança do exemplo dado pelo autor sobre os vikings, a mencionar o historiador Theodore Zeldin, quando o medo da vergonha de ficar marcado como débil, fraco, diante de um desafio se torna maior (p. 73) que o medo com o desconforto físico e/ou emocional da pressão, aspecto que ajuda a regular o comportamento social, e assim ele foi e realizou o trabalho com êxito.

2 Replies to “28/12/2025 08h00 O lado bom do lado ruim. Medo dos outros.”

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