Imagem: Editora Rocco

“[…] Antes era o mar puro. E apenas restava do passado, correndo dentro dela, ligeira e trêmula, um pouco da antiga água entre cascalhos, sombria, fresca sob as árvores, as folhas mortas e castanhas forrando as margens. Deus, como ela afundava docemente na incompreensão de si própria. […]“
Obra: Perto do coração selvagem. A partida dos homens. Edição da Rocco Digital, eBook Kindle, 2019, Rio de Janeiro. De Chaya Pinkhasivna Lispector (Ucrânia/Chechelnyk,1920-1977).
Pensei por um instante quando minha vida de leitor de Clarice Lispector começou, lá no final da adolescência, por um comentário esportivo do saudoso Armando Nogueira que terminou na aula de português [546].
Depois pensei quando um tipo complexo na linha de seu pensamento se materializou, quem sabe também próxima da forma da introspectiva de Joana, de Perto do coração selvagem [547], personagem central deste romance em que Clarice Lispector inovou ao conectar de forma sublime as narrativas com saltos temporais da juventude à infância e ao que remete ao selvagem coração de uma desbravadora do próprio ser.
Joana é um tanto precoce na infância e vive sob problemas de pertencimento, entendo, a considerar naturalmente sua orfandade, seguida pela dificuldade de se integrar com os tios e a visão nada convencional que tem do relacionamento afetivo. Um exemplo se dá no casamento com Otávio, que tinha abandonado a noiva, Lídia, grávida, para ficar com ela.
Casada com Otávio, o teor da conversa dela em um encontro com Lídia (p. 77), que se torna amante de Otávio, ilustra uma intrigante personalidade:
— Não? Mas sim…Eu lhe darei Otávio, não agora, porém quando eu quiser. Eu terei um filho e depois lhe devolverei Otávio.
— Mas isso é monstruoso! — gritara Lídia.
— Mas por quê? É monstruoso ter duas mulheres? Você bem sabe que não. […]
O romance foi publicado em 1943, o que pode soar anacrônico a ideia de se casar apenas para ter um filho, ao cogitar que a maternidade pode ser vista como empreendimento comum fora do casamento, não raramente lucrativo. No entanto Joana vai fundo no fluxo de uma experiência do convencional como quem deseja sondá-la com peculiar combinação de valores heterodoxos quando comenta (p. 74) com Lídia sobre o que pensa do casamento:
— Isso vem contra mim. Pois eu não pensava em me casar. O mais engraçado é que inda tenho a certeza de que não casei… Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. — Meu Deus! — não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. […]
Concentro-me na concepção de que Joana vive na busca de ser aceita pelo que não sabe ao certo, e possivelmente nunca saberá, pois não cabe em si mesma, quando então se perde em ciclos; ela não aprendeu a considerar, tampouco a conviver em paz, com alguns significados comuns da vida, de maneira que sua espontaneidade provoca choque quando esbarra na superficialidade de valores do cotidiano.
Com Otávio o sentido do casamento segue em seu misto de sinceridade alavancada pela indiferença (p. 88):
[…]
— Talvez um pouco forçada a ideia, não? — perguntou com ironia.
Ela não a notou: — O que houve entre nós por si só não basta. Se eu ainda não lhe dei tudo, talvez você me procure um dia ou eu sinta sua falta. Enquanto que depois de um filho nada nos restará senão a separação.
— E o filho? — indagou ele. — Qual será o papel do pobre em todo este sábio arranjo?
— Oh, ele viverá — respondeu.
— Só isso? — tentou ele o sarcasmo.
— Que é que se pode fazer além disso? — lançou ela no ar a pergunta, de leve, sem aguardar resposta.
[…]
Quando Otávio decide ser mais direto (p. 89):
— Não… — assustou-se ela. — É que tudo o que eu tenho não se pode dar. Nem tomar. Eu mesma posso morrer de sede diante de mim. A solidão está misturada à minha essência..
Impulsiva, intrigante, talvez alguns diriam “imoral”, “pervertida” ou simplesmente “má”, todavia à mon avis, pode ser tudo isso enquanto seu coração palpita, delirante para lidar com o desconhecido, quando na partida de Otávio (p. 95), dá-se conta, mesmo que por um instante, do que lhe remete ao vazio, pensa no amante que nada deseja saber e também se foi para se reverter a uma agonia de sua forma introspectiva, indo navegar por uma autocrítica que desafia os limites da percepção de si mesma.
546. 20/03/2025 21h42
547. 04/09/2022 20h30
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