
“só temos consciência real de nosso valor quando sentimos que nossa existência e nosso comportamento são benefícios à comunidade […]”
Obra: A coragem de não agradar. A quinta noite. Viva intensamente no aqui e agora. A essência do trabalho é a contribuição para o bem comum. Sextante, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Ivo Korytowsky. De Ichiro Kishimi e Fumitake Koga.
Poucas obras me proporcionaram a experiência de realizar a segunda leitura iniciada imediatamente após concluir a primeira.
Quando no último seis de dezembro entrei na livraria para me presentear [545], A coragem de não agradar estava definida para aquisição. Confesso de que me resguardei de grande expectativa, apesar do que tinha escutado e lido em resenhas, do apelo na capa sobre os 3,5 milhões de exemplares vendidos e, sobretudo, do estilo em abordagem socrática (que muito me apraz) entre um jovem (que se parece com o meu eu de 21 anos) com um filósofo sobre a psicologia do desenvolvimento individual, de Alfred Adler (1870-1937), escola marcante em uma fase crítica de minha vida.
Autoaceitação, trabalho e pertencimento
A quinta noite me remeteu a um atendimento no Zoom ocorrido no final do mês passado.
Começou em tom de despedida. Após informar que tinha conseguido se aposentar por tempo de contribuição, revelou sua intenção de entregar a única escrita contábil (de Lucro Real) que assina, o cliente completou com um comentário que foi uma abertura para uma das conversas mais importantes que tive em minha carreira.
Cliente: Não sei como você aguenta. Acho que cheguei ao meu limite.
Leonardo: Também acredito que estou no meu limite com os erros dessa nova administração, mas isso não significa que passa pela minha cabeça a ideia de sair dela. É um desgaste que sinto alegria de fazer parte.
Cliente: Por quê?
Leonardo: Porque faço parte de algo maior que envolve a sua liderança na contabilidade. Se o senhor diz que quer sair, isso me atinge gravemente. Por favor, fique. Apesar dos novos administradores nos tratarem de forma pouco respeitosa, os empregados precisam bastante do nosso trabalho. Temos que pensar na importância de estarmos lá, do pertencimento aos que trabalham nela e vestem a camisa.
Cliente: Você sugere que não devemos nos apegar ao reconhecimento da direção e sim aos funcionários que nos respeitam tanto?, seria mais ou menos aquela história de “fazer o bem e não ver a quem” sobre a diretoria, é isso?
Leonardo: Por aí… Queiram ou não os novos administradores, somos extremamente necessários. Não perceberam que temos um sentido dentro da comunidade que é a empresa, algo naturalmente maior do que a direção. E tem outra coisa?
Cliente: O quê?
Leonardo: O senhor tem muito a contribuir na carreira. Muito importante para a empresa, para os empregados e para mim. Poucos contadores possuem a sua expertise. Deixará um vazio enorme se for embora. Sentiria muito a sua falta. E talvez o senhor caia em um vazio com a aposentadoria, não sei…
Cliente: Vazio?
Leonardo: Já parou para pensar no que vai fazer quando “pendurar as chuteiras”? Duvido muito que um homem com a mente e a formação que o senhor tem vai se sentir bem ao amanhecer e não ter uma ocupação de certo nível intelectual.
Cliente: Engraçado que minha esposa me perguntou uma coisa parecida um dia desses…
Leonardo: A outro cliente no ano passado que falou em encerrar as atividades, sugeri simular a situação, tirando um recesso e passando, pelo menos, uma semana sem nada para fazer.
Cliente: E?
Leonardo: Ele fez e no terceiro dia ficou incomodado, apesar de ter outras atividades, caridade, hobbie, etc. E tem outro cliente que se aposentou, afastou-se do escritório, e de vez em quando solicita agendamento. Conversamos sobre muitas coisas, incluindo questões que tratávamos quando ele estava na ativa. Ele também sinaliza que pode estar sob esse vazio. Tenho receio de um dia parar e cair nele…
Cliente: Mas convenhamos Leo, não se encontra sentido para a vida apenas no trabalho…
Leonardo: Concordo. Porém o termo “trabalho” aqui tem um sentido amplo. Quando estou fazendo tarefas domésticas, lavando os pratos, estou trabalhando. Quando converso com minha esposa e filhas, estou trabalhando. Quando leio e escrevo, estou trabalhando. Quando oro a Deus, creio que estou trabalhando. Programar e dar suporte são apenas formas diversas de “trabalho”. Em todas as atividades, “trabalho”, ou seja, pertenço a algo ou alguém, estou em interação, dou benefícios pelo que faço, e sou beneficiado pela percepção de que sou necessário, e não pelo fato de ser reconhecido. Acredito que o “segredo” para ficar de bem com a vida passa por aí…
Cliente: E fora do trabalho?
Leonardo: Penso que mesmo quando deixamos de ser úteis, produtivos, somos necessários, mesmo quando não podemos trabalhar, servir a uma comunidade, um negócio, encontramos sentido para a vida pelo que significamos para as pessoas que nos amam.
Cliente: Eu disse uma coisa mais ou menos parecida para o meu pai quando ele adoeceu e me falou que se sentia um velho inútil, que só estava me dando trabalho… sabe, havia um pouco de orgulho de um homem que trabalhou a vida toda pela família e tinha ficado recluso numa cama. Então eu disse a ele o quanto fizera de muito bem feito a parte dele por mim e por minha mãe, e o que ele significava era muito mais importante.
Leonardo: Às vezes confundimos reconhecimento com significado. O significado de uma pessoa que amamos é algo muito mais profundo, que nos dá sentido para a vida. O reconhecimento é algo de menor importância, e na forma como vejo a vida hoje, para mim é desnecessário. O amor não carece de reconhecimento. Não se baseia em obrigação.
Cliente: E quando amamos o que fazemos…. (alguns segundos de silêncio)
Cliente: Entendi. Você não se importa com que a administração pensa porque o que lhe dá sentido para ficar lá e se sentir bem está na satisfação de trabalhar, de ser útil, de participar da empresa, porque ama o que faz, e isso não tem mesmo nada a ver com o reconhecimento deles. É fato. Eu também, por essa visão, posso afirmar que encontro satisfação nisso.
Leonardo: Muito do falei tem a ver com este livro, A coragem de não agradar. Recomendo a leitura. Penso que o senhor seja muito mais necessário do que eu. Não é um elogio. Não gosto de elogio, o senhor sabe. Estou falando com quem estabeleceu e é quem supervisiona a aplicação das políticas contábeis de lá, assina os balanços, assume responsabilidade solidária pelas declarações ao fisco. O senhor conhece profundamente a realidade da empresa. Sabe muito mais sobre ela do que os que chegaram agora, em outras palavras, isso por si só basta. Não precisa do reconhecimento deles, nem de ninguém, diria pois, o senhor simplesmente é referência natural, “é o cara” em uma linguagem mais direta.
(Risos)
O relacionamento do contador comigo funciona por uma parceria onde ele trabalha sem escritório próprio, usando a estrutura de pessoal e TI do seu cliente, enquanto tem na retaguarda minha consultoria em arquivos digitais e integração de bases.
Então retomamos a conversa:
Leonardo: Este livro aborda a psicologia de Adler, que se pauta no desenvolvimento humano independente do reconhecimento nos relacionamentos interpessoais. Adler chama de “relacionamento vertical” o que se baseia em função do que os outros pensam sobre nós, onde reside a busca do reconhecimento, o que limita a leitura acerca do que nós somos e podemos ser, além de comprometer o discernimento do que nos cabe realizar no mundo de maneira que promova um sentido para a vida.
Cliente: Isso me parece muito diferente de tudo que vi sobre crescimento profissional.
Leonardo: Sim. Identifiquei-me profundamente com a conversa do filósofo com o jovem no livro, pois um tempo, no início de minha juventude, passei pelos mesmos dilemas em torno da busca pela aprovação alheia e, enquanto frustrado, não conseguia enxergar o que poderia fazer de concreto para me desenvolver de fato como pessoa. Mesmo diante de uma situação desfavorável, é possível encontrar sentido pela contribuição quando percebo que faço parte de algo muito maior. Neste aspecto, a psicologia de Adler mudou minha visão da vida e do sentido que dava a “competição”, quando deixei de me pautar pelo que os outros pensam sobre mim, e passei a cultivar a autoaceitação mediante o conhecimento do que poderia aproveitar ao máximo quanto aos recursos que disponho (p. 211).
Cliente: Agora começo a entender uma coisa intrigante que você me falou há algum tempo: “tenho muito cuidado com elogios, porque normalmente são nocivos”, algo assim…
Leonardo: Quem está mais próximo de mim sabe que não tenho mesmo apreço por elogios. Comecei a notar uma mudança em mim nesse aspecto quando passei a me interessar mais (2008) pela psicologia de Adler em vez da psicanálise freudiana. Muita gente fala sobre Freud, que é bom para se estudar o passado e tirar lições, mas então notei que Adler é fundamental para viver o presente e transformá-lo.
Entendemos no final que se tratavam de ocorrências um tanto comuns com quem assumiu um negócio herdado dos pais. Cheios de energia, com uma mentalidade diferente, nossa tarefa é contribuir e assim encerramos no estilo Adler, pensando em um relacionamento horizontal, aceitando nosso valor na perspectiva da empresa sendo uma comunidade, o que pode ser aplicado junto com a sabedoria de ouvir pessoas mais experientes, onde envolve meu cliente contador com quase cinco décadas de trajetória profissional.
545. 08/12/2025 20h00
Comentário