Imagem: Memória Globo
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_ee6202d7f3f346a7a5d7affb807d8893/internal_photos/bs/2021/u/g/okXf9GShuyl5zF2OP3uQ/landascape.jpg)
“[…] O ser humano é uma mistura de forças tão contraditórias que, provavelmente, inexiste uma síntese, à la Hegel.”
Obra: Paulo Francis. Uma coletânea de seus melhores textos já publicados. Paulo Francis por ele mesmo. Editora Três, 1978, São Paulo. De Franz Paul Trannin da Matta Heilborn (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de janeiro, 1930-1997). Pseudônimo: Paulo Francis.
Nesta parte da obra, entrevista publicada na edição 17 da Revista Status.
Sobre o trecho (p. 124), lembrei-me de uma das frases desconcertantes de Francis no programa Manhattan Connection:
“Qualquer pessoa inteligente é contraditória. Só gente burra que não se contradiz.”
Tinha escutado algo parecido, filosoficamente mais elaborado, do meu mentor da juventude acerca de si mesmo quando uma aluna cobrou dele coerência, em sala de aula, por ter mudado de entendimento sobre um problema político-econômico:
“A contradição é um recurso indispensável na inteligência que depura as ideias e as crenças que temos”.
Hoje costumo dizer que sou “guiado pela dúvida”, e o sentido se dá exatamente no peso que dou à contradição para sondar o que sinto, penso e creio diante das poucas certezas que tenho na vida. Isso não significa que necessariamente penso em abandonar alguma posição por colocá-la em discussão, tampouco sou adepto de um relativismo radical. Tão-somente indica que tenho disposição para reavaliar meus conceitos, pensamentos e minhas crenças e isso se torna possível quando procuro compreender como se dão na realidade, ponto em que a contradição se torna necessária. Obviamente, essa visão que tenho hoje foi se formando lentamente, mas no tempo em que trabalhei no meio religioso (2001-2007), percebi que já estava ativa em minha intimidade ao me dar conta do quanto esse meio é inóspito à dúvida, avesso ao contraditório, disseminador de preconceitos, formador de indivíduos que se tornam fechados em suas certezas, regidos por dogmas que se revelaram frágeis nos momentos em que houve algum choque de realidade, porém apregoados como se fossem perfeitos, consistentes e irrefutáveis.
Torno a Francis que menciona Hegel e quando penso na tríade do filósofo, entendo uma síntese que pode ser reencaminhada a uma nova dialética. Então, uma síntese sobre uma pessoa é algo momentâneo, sujeito a uma tese e uma antítese repensadas, uma revisão. Definir alguém em termos de síntese que se proponha ser “definitiva” então é algo que não é apropriado ao humano, à mon avis, mas, no mundo real, em que analisar e julgar outrem é algo habitualmente imediato, entendo que a única coisa que revela é arrogância. Em outras palavras, se a síntese “à la Hegel” for pensada em termo estático, conclusivo, provavelmente não passará de um equívoco.
Francis também se admite como um “cético” e sua perspectiva é um tanto pessimista. Assume ter uma ”profunda depressão” ao externar sua visão dos problemas do mundo em que vivia na ocasião. E então afirma:
“O humanismo ganha umas, perde outras. Talvez não haja um triunfo final possível do que já se chamou o bem, ou o mal. O ser humano é uma mistura de forças tão contraditórias que, provavelmente, inexiste uma síntese, à la Hegel.
Quando se analisa frio a vida, dispondo como dispomos, no século 20, de um prodigioso equipamento de análise, de um controle tecnológico absoluto sobre a natureza, parece inconcebível que ainda existam as injustiças e sofrimentos perfeitamente evitáveis que todos conhecemos. Logo, é justo que muita gente imagine que numa vjda futura. post mortem. haja a felicidade.“
Lembra o “realismo esperançoso” do mestre Ariano Suassuna. A contradição no pensamento de Francis fluía de forma envolvente, além da mera provocação. O jornalista marcante de minha adolescência e juventude olhava para a vida como uma “tragédia” mas ao mesmo tempo evocava uma força dentro do ser humano “que clama por coisas melhores”, e finaliza:
“Os artistas estão sempre nos lembrando disso. Existe um paraíso, pois Beethoven ou Gauguin já nos deram mostras convincentes. É inatingível permanentemente, mas devemos ser gratos pelas sobras que nos couberem.”
Comentário