Imagem: Memória Globo
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“[…] O ser humano é uma mistura de forças tão contraditórias que, provavelmente, inexiste uma síntese, à la Hegel.”
Obra: Paulo Francis. Uma coletânea de seus melhores textos já publicados. Paulo Francis por ele mesmo. Editora Três, 1978, São Paulo. De Franz Paul Trannin da Matta Heilborn (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de janeiro, 1930-1997). Pseudônimo: Paulo Francis.
Nesta parte da obra, entrevista publicada na edição 17 da Revista Status.
Sobre o trecho (p. 124), lembrei-me de uma das frases desconcertantes de Francis no programa Manhattan Connection:
“Qualquer pessoa inteligente é contraditória. Só gente burra que não se contradiz.”
Tinha escutado algo parecido, filosoficamente mais elaborado, do meu mentor da juventude acerca de si mesmo quando uma aluna cobrou dele coerência, em sala de aula, por ter mudado de entendimento sobre um problema político-econômico:
“A contradição é um recurso indispensável na inteligência que depura as ideias e as crenças que temos”.
Hoje costumo dizer que sou “guiado pela dúvida”, e o sentido se dá exatamente no peso que dou à contradição para depurar o que sinto, penso e creio diante das poucas certezas que tenho na vida e não são intocáveis. Isso não significa que serão necessariamente abandonadas ou que se trata de um relativismo radical, mas uma disposição para reavaliar conceitos, pensamentos e crenças quanto ao que representam na realidade que posso sondar, ponto em que a contradição se torna necessária.
Na entrevista, Francis se admite como um “cético”, aborda sua perspectiva um tanto pessimista a assume ter uma ”profunda depressão” por sua visão dos problemas do mundo em que vivia até então. E então afirma:
“O humanismo ganha umas, perde outras. Talvez não haja um triunfo final possível do que já se chamou o bem, ou o mal. O ser humano é uma mistura de forças tão contraditórias que, provavelmente, inexiste uma síntese, à la Hegel.
Quando se analisa frio a vida, dispondo como dispomos, no século 20, de um prodigioso equipamento de análise, de um controle tecnológico absoluto sobre a natureza, parece inconcebível que ainda existam as injustiças e sofrimentos perfeitamente evitáveis que todos conhecemos. Logo, é justo que muita gente imagine que numa vjda futura. post mortem. haja a felicidade.“
Lembra o “realismo esperançoso” do mestre Ariano Suassuna. A contradição no pensamento de Francis fluía de forma envolvente, além da mera provocação. O jornalista marcante de minha adolescência e juventude olhava parta a vida como uma “tragédia” mas ao mesmo tempo evocava uma força dentro do ser humano “que clama por coisas melhores”, e finaliza:
“Os artistas estão sempre nos lembrando disso. Existe um paraíso, pois Beethoven ou Gauguin já nos deram mostras convincentes. É inatingível permanentemente, mas devemos ser gratos pelas sobras que nos couberem.”