Imagem: Luciana Amorim

Ryan Holiday e
Stephen Hanselman

“Se você não tomar cuidado, estas são precisamente as imposições que dominarão e consumirão sua vida.”

Obra: Diário Estoico. 366 lições sobre sabedoria, perseverança e a arte de viver. 03 de janeiro. Ser impiedoso com as coisas que não importam. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.

Esta reflexão estoica é bem apropriada para ajudar a explicar por que, exatamente, há cerca de oito anos passei a viver desconectado em um mundo cada vez mais intenso, cansativo, apressado, adoecido de ansiedade por retornos imediatos e prontidão desmedida.

Quais as coisas que realmente importam? Pergunta desafiadora, que exige definição de valores e princípios. Alguns se contentam com futilidades, distrações que nos afastam do amadurecimento, ou até mesmo do cultivo da raiva em si mesma, quando já se passou da conta. Sêneca em Brevidade da Vida, citado pelos autores (p. 26), fala sobre o desperdício com “pesar inútil, alegria tola, desejo voraz e conversas fúteis”.

Após ter uma razoável ideia do que merece a atenção, como então dizer NÃO para as coisas que não merecem mais nossa atenção? O trecho desta Leitura é um alerta estoico aos que não conseguem se libertar de uma ocupação indevida a consumir um tempo precioso enquanto se foge do fundamental para se ter uma vida melhor desfrutada com as coisas que verdadeiramente importam.

Com uma razoável quantidade de contratos em uma cartela de serviços que se diversificou bastante nos últimos cinco anos, o uso de redes sociais está restrito ao perfil empresarial no WhatsApp, controlado pela robô Gioconda, usada para gerenciar abertura de chamados, marcar compromissos e realizar comunicados. Fato é que vivo em uma estrutura que possibilita a dispensa de uso direto de telefone celular próprio de forma aleatória, nem de WhatsApp pessoal [513].

O modelo começou a ser pensado quando, lá pelos idos de 2018, decidi reavaliar a atenção que dava a algumas coisas, entre elas, as redes sociais, o uso contínuo do telefone de forma aleatória, sem ordem, sem controle de chamados, além de eventos presenciais que consumiam muito tempo. Essas atividades foram impiedosamente descartadas.

As redes sociais consumiam muito tempo para retorno a pessoas que não eram e normalmente não queriam ser clientes da consultoria e dos sistemas especializados que ofereço. Como ficar famoso não era e nunca foi meu propósito de vida, comecei a questionar o sentido daquela dedicação ao pensar que no meio contábil é muito comum encontrarmos o tipo que deseja ser atendido de graça, o que na prática pode ser um desastre em meu segmento. Isso posto, as redes sociais são importantes para o marketing além de que se pode recorrer à monetização para compensar os que buscam suporte gratuito, normalmente em termos muito genéricos, no entanto, apesar da monetização ser potencialmente lucrativa, decidi não ir por esse caminho, pois exigia uma mudança na estrutura de meu negócio que entendi não ser viável , dadas as circunstâncias da ocupação que dedicava e ainda dedico aos clientes habituais.

Quanto às ligações telefônicas, aprendi que atendê-las aleatoriamente, sem qualquer controle, diante de atividades diversas de programação e consultoria que realizo, agravava uma desordem no atendimento, além de estimular a falta de educação de alguns clientes quanto aos horários de expediente. O problema foi resolvido a partir da implantação de uma forma de triagem que registra o contato, principalmente pelo WhatsApp, realiza coleta dados do problema e define uma classificação prévia de prioridade sobre a ocorrência avaliada, seguida de uma definição de ordem de serviço para realização do atendimento a ser feito conforme “ordem do dia”. Assim hoje, praticamente, não há congestionamento no suporte e ligações telefônicas ou vídeo conferências pelo Zoom, pelo fato de serem totalmente programadas.

Com a triagem sobre o telefone e as mensagens no WhatsApp, pude viver na vida privada o conforto de ficar desconectado de coisas roubavam minha atenção. O valor disso é intangível quando preciso viajar, estar na intimidade do lar, ir a compromissos familiares ou resolver problemas pessoais. Reconheço que não se trata de uma solução facilmente replicável; foi o caminho que encontrei dentro de minha realidade. Às me sinto sinto um ET quando ando na rua ou estou em um lugar público liberto do tal dispositivo que mais parece parte do corpo humano, e sigo feliz a lembrar uma canção do velho Gonzagão: “sem rádio e sem notícia da terra civilizada”.

Os cursos e palestras presenciais realizados até 2018 foram de um impressionante êxito financeiro, e olhando para os números, facilmente se diria que deveriam ter continuado como um negócio à parte, mesmo assim os encerrei, realizando o último em setembro daquele ano. Percebi que as ferramentas que cresciam à época, Zoom, Google Meet, entre outras, tornariam esse trabalho bem menos oneroso e mais eficiente em comparação com o modo presencial em hotéis, sob custos elevados, além de cansativos. Segui a expectativa de que um negócio que até então estava dando muito lucro, se tornaria obsoleto e deficitário. De fato, com o descarte dos eventos presenciais, escapei de ocupar minha agenda com um negócio que passou a dar prejuízo, e nem foi por conta da pandemia (2020-2021), e sim devido ao que observei em outros colegas que passaram a ter muitas dificuldades para fechar o balanço financeiro de eventos dessa natureza.

O que importa está na essência das mudanças e dizem respeito à avaliação pessoal sobre as coisas que realmente me cabe dar atenção, o que é muito pessoal, tomando por exemplo, as atividade de leitura, escrita e meditação.

Neste exercício, também descobri uma política de atendimento onde é fundamental saber:

  1. O que está acontecendo, ou seja, o que os clientes estão comunicando, os problemas, o que enseja em abertura de processo chamado “triagem”, problema por problema, nunca de forma conjunta, algo implícito muitas vezes na abordagem feita pela Gioconda;
  2. A gravidade do problema, dado essencial para definir o caminho de solução, estimar o tempo necessário para resolvê-lo e o nível de sua prioridade;
  3. A disponibilidade de tempo e agenda para execução da solução definida em um cronograma para evitar congestionamento e estresse desnecessário.

É fútil, desnecessário deixar apenas na perspectiva do cliente, muitas vezes leigo no problema, a definição de urgência. O cliente muitas vezes não tem discernimento das questões que devem ser tratadas inicialmente, não raramente, porque desconhecem certos aspectos técnicos e até da legislação.

É contraproducente iniciar um atendimento de TI, em meu ramo, sem ter os dados acima minimamente detalhados.

Por fim, entendo que a falta de política de atendimento é um problema crônico que vejo diariamente em algumas TI onde estou como cliente, até mesmo de porte razoável, onde impera uma ideia um tanto tola, infantil, de que o “cliente é quem manda”, o que estimula o caos pela forma aleatória, sem ponderar os problemas mais graves dentro de uma cadeia de relevância técnica. Quem trabalha assim, se comporta como se fossem ilimitados os recursos à disposição, o que administrativa e economicamente não passa de ilusão.

513. Não tenho telefone pessoal nem mesmo para conversar diretamente com parentes. Quando preciso, em raríssimas ocasiões, pego emprestado o de minha esposa, seja para ligações ou recado.

2 Replies to “03/01/2026 08h00 Diário Estoico. 03 de janeiro. Ser impiedoso com as coisas que não importam”

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