Imagem: Luciana Amorim

Stephen Hanselman
“[…] se perder o autocontrole, você pode ser a própria fonte do desastre que teme. [..]”
Obra: Diário Estoico. 366 lições sobre sabedoria, perseverança e a arte de viver. 7 de fevereiro. O medo é uma profecia que se autorrealiza. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.
Os autores fazem referência (p. 68) à obra Édipo, de Sêneca:
“Muitos são prejudicados pelo próprio medo, e muitos podem ter chegado a seu destino enquanto o temiam.”
Poder, medo e mania combinados podem ser mortais, apontam os autores. Citam Nero, o imperador que matou a própria mãe e a esposa, depois se voltou contra Sêneca, seu mentor. Então o filósofo estoico sentiu na pele essa combinação quando se tornou vítima da dinâmica do desastre autoinfligido, na perda do autocontrole de seu pupilo. O famigerado imperador, entendo, é uma figura histórica que representa uma hipérbole de pessoas com certo poder e que perdem as estribeiras diante do que mais temem.
O que fazer diante de uma situação de possibilidade de iminente desastre, seja na vida pessoal, financeira ou profissional? E quando o que foi temido se confirma?
A filosofia estoica ensina que diante de uma ocorrência dessa natureza, lembrar-se de controlar os próprios impulsos, manter o autocontrole, representa a chave para não se tornar a própria fonte do desastre que teme. A regra de ouro consiste em se ocupar apenas com o que pode ser controlado e não se deixar contaminar emocionalmente pelo que não consegue controlar.
E quando o temido desastre se confirma? Penso no que aprendi com veteranos de investimentos: aconteça o que acontecer, pode piorar o que for, não abdique de olhar os fatos e manter seu autocontrole.
Em um quadro que se agravou, tornar-se-á ainda mais importante a sabedoria do autocontrole e da ocupação com coisas que podem ser tratadas, para evitar que o pavor se multiplique se pautando na imensidão do que não pode ser gerenciado, onde um desastre gera outros evitáveis, senão vejamos:
No início de janeiro de 2020, enquanto arrumava as malas no quarto do hotel em Paris para voltar do recesso, uma notícia em um telejornal local me chamou a atenção: dizia o apresentador que autoridades francesas entraram em alerta sobre um vírus misterioso se alastrando na China que pode rapidamente chegar à Europa. Embarquei para o Brasil pensando na notícia. Algumas semanas depois, o mistério foi desvelado na forma de uma iminente pandemia de coronavírus quando os benchmarks da B3 derretiam e fui perguntado se eu iria sair.
Havia muito tempo descontinuado o botão de pânico da profecia autorrealizável e não deixou de ser um teste para verificar se aquele dispositivo, que me transtornou no início da juventude, estava mesmo desabilitado. Uma coisa é a dor, outra é o sofrimento. Minha vida seguiu dolorida, mas sem o sofrimento desmedido, em meio a perdas financeiras significativas que acabaram amenizadas no jogo de paciência de onze meses, quando veio a onda da primeira vacina que impactou os mercados.
No meio do caos, no meu trabalho de origem lidava com alterações em um ritmo alucinante no sistema trabalhista para dar conta das obrigações criadas durante o Estado de Emergência, tendo no ínterim me afastado em maio por quase duas semanas para lidar com sintomas da covid-19. Foi naquele período da pandemia que percebi um espírito de “todos no mesmo barco” com os clientes. Foi desgastante e belo. Quando adoeci, pude sentir a força desse espírito, que me ajudou a ficar pautado na recuperação. Recebi muitas mensagens de apoio e segui fixado na solução do problema de saúde enquanto evitava pensar no pior, nas tarefas pendentes. O estoicismo me ensinou que especular nesse contexto retroalimenta um estresse emocional perigoso que pode ser fatal.
A pandemia passou e deixou lições para quem está aberto a considerá-las.
Então penso no 11 janeiro de 2023: novamente estava arrumando as malas para a volta no final de mais um recesso, enquanto assistia em Madrid a uma entrevista do ex-deputado Jean Wyllys, à época exilado em Barcelona, dando sua versão sobre o que tinha acontecido em Brasília no que se tornaria o histórico dia 8 daquele mês, quando sou chamado pela Gioconda com uma mensagem insólita de um colega de TI: Urgente: Americanas. FATO RELEVANTE.
“A Americanas informou na noite desta quarta, 11/01, que o seu presidente, Sérgio Rial, e o diretor de relações com investidores, André Covre, decidiram deixar os cargos. O movimento ocorre após a companhia detectar inconsistências em lançamentos contábeis estimadas em R$ 20 bilhões. Os executivos tomaram posse das posições na varejista há menos de 10 dias.” [537]
Sem sentir na pele (eu não tinha AMER3), enviei uma resposta me limitando a comentar apenas o que tinha sofrido em fevereiro de 2020 na pandemia e como lidei com as perdas. Assisti então à frieza de quem não queria aumentar o próprio desastre financeiro. Ele tinha uma quantia significativa no papel e decidiu não dar ordem imediata de venda para o dia 12, quando viu a ação despencar 77,33% [538] e até hoje faz piadas com esse número quando, pelo gráfico de 15 minutos no dia 13 (que lhe trouxe sorte), aproveitou um fluxo de 58,% de alta e conseguiu realizar uma ordem de venda que reduziu um pouco seus danos. Meu colega se refez com o aprendizado de que não se deve confiar tanto em relatórios de análises fundamentalistas em grifes de investimentos, além da obviedade de que balanços podem ser manipulados.
Alguns meses depois, um cliente de sistemas contábeis comentou sobre um jovem conhecido que, ao descobrir o prejuízo tomado com AMER3, “surtou”, e começou a apresentar um quadro de depressão combinado com alcoolismo.
O episódio das Americanas me trouxe para reflexão duas reações muito distintas para o mesmo problema. O primeiro investidor ao passar pelos espinhos do vale da sombra, transformou o “lixo” da crise em adubo para aprimorar seu estoico autocontrole, enquanto aproveitou para tomar lições sobre dores e perdas, a lembrar também a sabedoria de Thich Nhat Hanh em Sem lama não há lótus [539]. Porém, infelizmente, o segundo investidor mergulhou em uma espiral auto destrutiva que ampliou o porte do desastre com uma profecia autorrealizável que se alimentou do pânico pelo descontrole emocional.
Em setembro de 2025 novamente meu botão de pânico foi colocado à prova quando percebi, por razões éticas e contratuais, a necessidade de manter normalmente o atendimento em uma determinada carteira de clientes de sistemas contábeis, sob condições bem desfavoráveis por um certo tempo, sem qualquer retorno financeiro em uma situação provocada por um terceiro.
O que pode ser feito determinou as ações em benefício dos clientes, que expressaram novamente aquele mesmo espírito da pandemia, o de “todos no mesmo barco”, e como isso foi decisivo. Desta forma o muro das lamentações e o pânico não foram vivenciados; mergulhamos no trabalho de maneira que o fim da passagem por esse vale de espinhos se aproxima, novamente todos juntos, onde se repete a grande lição de fé na vida que segue.
537. B3: Americanas: Rial renuncia presidência após inconsistências contábeis de R$ 20 bi
538. B3: Ibovespa fecha pregão em queda e Americanas (AMER3) desaba 77,33%
539. 17/12/2025 20h00
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