Imagem: Canal Autismo

Mayra Gaiato

“Quando investigam sobre os sintomas dos filhos , encontram em si as mesmas características.”

Obra: S.O.S. Autismo. Guia Completo para Entender o Transtorno do Espectro Austista. Vida adulta e trabalho. nVersos, 2018, São Paulo. De Mayra Helena Bonifacio Gaiato.

Livro para compor toda biblioteca residencial.

Nesta obra de utilidade pública, a psicóloga Mayra Gaiato também aborda o Transtorno do Espectro do Autista (TEA) em adultos e aponta que é comum pais se identificarem com questões em torno do transtorno e reconhecerem que tinham os mesmos sintomas quando crianças (p. 105).

Há quem pense que eu sou autista pelo preciosismo com que me lembro de datas e detalhes de eventos ocorridos há mais de 20, 30 anos, além do foco e do metodismo cronométrico que adoto na organização de minhas tarefas do cotidiano. Tenho algum nível de autismo?

Um registro de minhas memórias sobre Eliseu [536] podem ilustrar essa suposição que vez ou outra escuto.

– Isso só pode ser coisa de autista, ater-se deste maneira a tantos detalhes de algo que aconteceu lá no científico! – escutei de um cliente que, pela terminologia “científico”, é um veterano que conferiu o texto, enquanto dávamos risadas do nosso saudosismo escolar.

Aliás, por um tempo pensei no meu amigo do texto, que é da época do ensino médio, como autista, mas durante o período de minha primeira terapia (1997-2000), marcado por muitas leituras de Freud, Jung e Adler (eu fui um paciente “chato” que debatia muito com o psicólogo), na medida em que me envolvia com textos dos três gigantes e de outros autores, fui considerando que Eliseu poderia estar mais para um possível caso de transtorno de personalidade borderline (TPB).

Em mim, a hipótese se deu porque ficava desligado (e ainda fico) por um tempo, e com frequência, quando exposto a algo remetente ao passado, além de que apresentava sintomas de interesses restritos, com situações frequentes de hiperfoco (este último característico até os dias atuais). Então, nas primeiras sessões a hipótese do TEA, em grau leve, menos comprometido, foi considerada, avaliada e não confirmada.

Não tenho TEA.

Tenho um apreço especial por pessoa com esse tipo de transtorno comportamental. Quando consigo reconhecer um autista, observo e tento me comunicar. Admiro a pureza de sinceridade e a capacidade de foco. Cabe a ressalva que o TEA é uma condição complexa, que se caracteriza por sintomas variados (p. 21). A própria definição técnica de “Espectro” indica amplitude e variedade (p. 22), o que dificulta sua rápida identificação.

Autistas adultos normalmente se revelam como profissionais de excelência pelo apego peculiar das restrições e pela inteligência, o que desmonta narrativas de incapacidade por conta da dificuldade de comunicação. Na época de seminarista, quando visitava igrejas e escolas, identifiquei alguns alunos com sinais e fiquei feliz por ter conseguido conversar um pouco com eles. Em uma igreja que trabalhei havia um jovem com sintomas de autismo já em idade adulta que era aluno da EBD e gostava de conversar comigo. Foi um tempo de muito aprendizado. Na escola onde minha filha concluiu o ensino médio, um aluno com sinais de TEA começou a conversar comigo na recepção e percebi meu estado de alegria pela experiência de me sentir convidado para um mundo que considero fascinante.

Desde a experiência da primeira terapia, passei a identificar profissionais de contabilidade e de TI com possíveis sintomas de TEA. Entre profissionais de TI as ocorrências são mais frequentes em minha carreira.

Fato é que meu grande interesse por recordações de datas e detalhes de eventos antigos, considerados muito importantes em minha vida, tem relação direta com as sessões de psicanálise e psicoterapia que passei, juntamente com atividades que desenvolvi construindo um histórico de minha trajetória desde a infância. Fui estimulado pelo psicanalista a visitar locais que foram marcantes. Exemplo: em 1999 fui até onde me formei no ABC e repeti algumas vezes o trajeto a pé da escola à casa de minha vó materna. Conversei com funcionários e professoras do ABC (as de minha época já não estavam mais na ativa). Acabei fascinado por esse tipo de mergulho no passado.

Na medida em que refleti sobre o capítulo, sobretudo no tópico Trabalho (pp. 107-108), pensei em um jovem professor de um curso de programação para Rede Novell, que participei em 1993. Ele demonstrava alguns sinais de autismo, por interesses restritivos e padrões repetitivos dos nove elencados pela autora (pp. 23-25). Chamava a atenção pela excelência em detalhes técnicos. Até hoje não consegui encontrar um profissional de TI com o domínio extraordinário que ele demonstrava. O professor tinha uma característica marcante: no meio da aula, de repente, parecia entrar em transe; ficava paralisado, com um olhar diferente, então voltava a falar com uma impressionante fluidez e profundidade no assunto. No final do curso, quando alguns alunos, acometidos daquele famigerado espírito de quinta série, começaram a fazer piadas com o comportamento dele, o professor “entrou em transe”, mas em vez de falar algo muito substancial, como normalmente ocorria, saiu em silêncio da sala e desapareceu caminhando pela Conde da Boa Vista. Na aula seguinte seguiu como se nada tivesse acontecido, quando me juntei a uma colega para lhe pedir desculpas pelo que a turma do fundo fizera; então ele ficou um tempo em silêncio, e retomou ao assunto da aula. Compreendemos por uma linguagem além das palavras que recebemos o aceite, simples assim.

536. 22/09/2024 13h12

2 Replies to “04/02/2026 20h00 S.O.S. Autismo. Vida adulta e trabalho”

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