Imagem: caiofabio.net

Caio Fábio

“O sofrimento é a interpretação traumatizada de uma dor tópica.”

Obra: O que o sofrimento ensina. Capítulo 2. Storyside/Academia, 2025. De Caio Fábio D’Araujo Filho (Brasil/Amazonas/Manaus, 1955).

O que o sofrimento ensina oferece ao leitor uma visão holística; bíblica, espiritualista, teológica, filosófica e psicológica sobre o sofrimento.

“Leonardo, o sofrimento é derivado de sua interpretação dos fatos”, foi a primeira lição que assimilei na psicoterapia que tinha começado em maio de 1997 para tratar a síndrome do pânico, lembrança que me veio de imediato ao ler “O sofrimento é subjetivo”, afirmação na abertura do segundo capítulo deste livro extraordinário de Caio Fábio, que é psicanalista, além de ser grande referência de reflexão bíblica e teológica para mim desde os anos 1990.

Foi difícil o processo de minha assimilação da subjetividade do sofrimento. Consumi algumas sessões com discussões um tanto cansativas, até me dar conta de que o pânico se estabelecia por crenças nucleares e distorções operantes em torno do significado e da gravidade das dores emocionais relacionadas com o que tinha passado havia um ano.

Paradoxalmente, quando tomei a importante decisão de deixar a casa dos meus pais, no dia do meu aniversário em dezembro daquele ano, consegui lidar melhor com a interpretação da dor natural provocada pela ruptura. Como afirma Caio Fabio, a dor é objetiva, e penso, a deixar a interpretação com a tarefa de definir meu comportamento traduzido pelo sofrimento. Durante a terapia entendi que foi o sofrimento, ou seja, a interpretação da dor tópica, carregada de distorções, que me incapacitou de tomar a decisão no ano anterior.

A distorção interpretativa dos sentimentos que fomenta o sofrimento é algo comum, sobretudo quando penso em um jovem de 22 anos. Isso posto, em 2008, quando me reencontrei com o terapeuta, ele pediu para que eu escrevesse uma carta para o meu eu de maio de 1997. “Imagine um encontro com seu eu de agora, aos 33 anos, com o de 22, o que diria àquele jovem Leonardo?”, indagou para logo em seguida complementar: “O que você aprendeu com aquele sofrimento?”.

Pensei na imaturidade, nas ilusões, na típica falta de prudência daquela idade, nos temores, e, claro, nos enganos, nas distorções da realidade, mas quando imaginei os conselhos que lhe daria, fui envolvido por um silêncio seguido de lágrimas e compaixão. Virei-me ao terapeuta e respondi:

– Agora compreendo… não lhe daria conselhos, nem lições de moral. Deixaria ele falar bastante, desabafar naquela fascinante energia de sua juventude… faria pouquíssimas perguntas, no entanto, daquelas que bem sei o quanto colocam ele para pensar melhor no sentido da vida, na beleza da razão com a sensibilidade e a espiritualidade… e o mais importante: lhe daria abraços.

Então concluímos que o sofrimento ensina a linguagem e a prática do amor, a começar por nós mesmos até alcançar nossos semelhantes.

2 Replies to “05/02/2026 20h00 O que o sofrimento ensina. Capítulo 2”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *