Imagem: Corriere della Sera

“Dunque, lotte e rivalità interne, non le persecuzioni anticristiane […]”
Obra: Paolo. L’uomo che inventò il cristianesimo. 21. Quale vita è stata…. Rai Libri, 2023, Roma. De Corrado Augias (Italia/Roma, 1935).
A primeira referência ao martírio de São Paulo, lembra Augias, encontra-se em uma epístola escrita em torno de 95, a primeira atribuída ao papa Clemente (88-97), de Roma aos Coríntios. Clemente menciona “inveja”, “ciúme” e “discórdia” como fatores associados aos martírios. São Pedro e São Paulo são mencionados (p. 355).
Pensei então em Atos dos Apóstolos, onde está registrado que São Paulo foi alvo de conspiração entre judeus (9. 23); os de sua antiga fé faziam juramentos (23.12) e se reuniam para matá-lo (Atos 9.29), o que sugere que o apóstolo certamente passou a ser visto como um traidor entre determinados grupos judaicos, por ter abraçado a fé em Jesus, a que perseguia até a ocorrência da narrativa do mesmo capítulo 9 da obra canônica, no caminho de Damasco.
O jornalista que tem o interessante La Torre di Babele, programa televisivo no canal italiano La7, aponta então que Clemente teria associado os martírios a “lutas” e “rivalidades internas” e não a perseguições anticristãs, não mencionadas na carta. Penso aqui em um contraponto, pois é preciso considerar o contexto em que a fé cristã era um fenômeno relativamente novo; tinha saído do judaísmo. No começo, os cristãos eram vistos como membros de uma “seita” judaica. Certamente “inveja”, “ciúme” e “discórdia” são termos que podem estar relacionados com disputas dentro de um ambiente judaico impactado por um processo de separação da corrente cristã.
Torno ao texto de Augias, onde menciona que o homem que inventou o cristianismo, segundo linha de abordagem deste livro, teria ido à Espanha e faz referência à obra Atos de Paulo. Parece um tanto desapontado com a pouca informação confirmada acerca do final da vida do apóstolo, além de brevidade de São Lucas em relação à vida como prisioneiro em Roma (p. 365). Também lembra de uma narrativa não canônica de que o apóstolo teria convertido os dois algozes que o levaram para a execução do que cabia a um cives romanus condenado à pena de morte: a decapitação com um golpe de espada (p. 359). Mais adiante define como “comovente” a segunda carta à Timóteo (p. 364), que retrata uma consciência de réu sob seus dias contados.
Na parte final do capitulo, expõe uma reflexão pessoal onde reconhece que Paulo amou os homens em Cristo a seu modo, pautando-se pela eterna salvação da alma e não pela existência concreta (p. 369) em termos de questões mais imediatas e sociais da vida. O apóstolo dos gentios fez “escolhas difíceis” (p. 370) em sua trajetória de fé rompida com o judaísmo; um homem de dores, aponta, calejado por perseguições, além de um certo ostracismo nos dias atuais quanto ao bairro de Roma onde se acredita que seu corpo foi sepultado, quanto então encerra de uma maneira um tanto curiosa para um ateu (p. 374):
Tudo vai acabar? Ou tudo está para começar?
2 Replies to “06/02/2026 20h00 Paolo. L’uomo che inventò il cristianesimo. 21. Quale vita è stata…”