Uma leitura ao dia é uma receita terapêutica para fazer o tempo ter sentido no fundo da alma, sob o Concerto 21 K.467 de Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart (Áustria/Salzburgo, 1756-1791), com a pianista Yeol Eum Son (Coréia do Sul/Wonju, 1986).

Imagem: Alchetron

Hans-Hermann Hoppe

“[…] o livre comércio e a imigração restrita não são apenas perfeitamente coerentes entre si, mas também são até mesmo políticas que mutuamente se reforçam. […]”

Obra: Democracia, o Deus que Falhou. Capítulo VIII. Sobre o Livre Comércio e a Imigração Irrestrita. Mises Brasil, 2014, São Paulo. Tradução de Marcelo Werlang de Assis. De Hans-Hermann Hoppe (Alemanha/Baixa Saxônia, 1949).

Combina bem um livro sobre Prestes seguido por este “polêmico” livro do filósofo austrolibertário. Quem sabe, em uma fase mais avançada do “Estado Democrático de Direito”, a começar do título, esta obra possa vir a constar em algum Index Librorum Prohibitorum laico chancelado por alguma corte suprema.

Hoppe contesta que o livre comércio está para a imigração livre (p. 187) enquanto desmonta argumentos em favor do protecionismo, sobretudo em torno de Patrick Buchanan e adeptos (p. 188). O raciocínio de Hoppe certamente agradaria um pouco o presidente Trump apenas na parte da imigração restrita, enquanto o deixaria enojado na crítica sobre a ideia em favor do protecionismo como política de proteção de empregos (p. 188), além dos problemas de empobrecimento que a concepção do isolamento autossuficiente pode provocar (p. 189).

Argumenta Hoppe que o fato de que alguns não desejarem viver próximos de determinados grupos, não significa que não querem fazer negócios à distância com eles, além de que a integração forçada (imigração irrestrita) deve ser evitada para que se tenha a possibilidade de relações pacíficas (p. 192). Outro ponto interessante suscitado por Hoppe é que na medida em que a produção de países pobres, quando impedida em países ricos (diria, ou também encarecida por taxas de importação), aumenta o incentivo para que os habitantes de países pobres queiram migrar para os mais ricos (p. 192); o protecionismo de países mais desenvolvidos prejudica os países menos desenvolvidos pela via das exportações, muitas vezes as impossibilitando, ponto onde justamente a geração de riqueza se potencializa de forma maior. Então, a considerar as críticas de Hoppe, Trump estaria a promover o incentivo àquilo que afirma combater entre os habitantes de países menos desenvolvidos quanto à intenção de estabelecer uma vida nos Estados Unidos.

Imagem: PC do B

Luís Carlos Prestes

“Durante a Marcha da Coluna, ele se convenceria de que a proposta liberal dos “tenentes” não era a solução para os graves problemas sociais do povo brasileiro – em particular, dos trabalhadores rurais, com os quais entrara em contato em seu périplo de 25 mil quilômetros pelo interior do país.”

Obra: Luiz Carlos Prestes : um comunista brasileiro. Apresentação. Boi Tempo, 2015, São Paulo. De Anita Leocádia Benário Prestes (Alemanha/Berlim, 1936).

A história da autora deste livro é um destaque à parte: Anita Prestes, filha do casal militante comunista mais icônico da história política brasileira, Luís Carlos Prestes (Brasil/Rio Grande do Sul/Porto Alegre, 1898-1990) e Olga Benário Prestes (Alemanha/Munique, 1898-1942).

A leitura desta obra se desdobrará em tópicos diversos, sendo este primeiro registro meramente introdutório. Considero indispensável conhecer a vida e as ideias que determinaram a vida de Prestes, para quem tem o propósito de entender melhor o contexto das ideias políticas no Brasil da Republica Velha e do Estado Novo.

Lá pelos idos de 1996 um grupo de estudantes de economia saíram da sala crentes de que o velho professor (ZW) era um ferrenho comunista, pela aula que tomaram de história da Coluna Prestes. No caminho de volta, eu ainda atônito com o que tinha escutado por duas horas, tomei outra lição do homem cujo arquétipo é o que mais comunistas militantes odeiam (o tipo antimarxista intelectual, onde a primeira condição, no encontro, não conseguiram identificar). ZW demonstrou um domínio de conceitos sobre “comunismos” (o entendimento do termo no plural foi ponto central do que fora abordado) que expôs o baixo nível de conhecimento da matéria de minha parte (eu me enxergava como um socialdemocrata com “boa” base de marxismo e nesse dia, descobri minha pobreza de conhecimento no tema) e, penso, de muitos colegas do diretório que se declaravam “marxistas”. Em suma, um antimarxista falando com tanta propriedade de determinado assunto ideológico, envolto a quem se pauta pela paixão sobre o objeto lecionado, facilmente será confundido com um militante do mesmo porque não sabe discernir o sujeito do objeto.

O comunismo de Luís Carlos Prestes, explicou ZW, teceu um caminho inverso: o militar brasileiro partiu da crença revolucionária para se converter ao marxismo, a lembrar a citação nesta obra do que dissera Florestan Fernandes. Porém, foi no carro que meu espanto pela intimidade dele com os “comunismos” ganhou mais um capítulo: o estudo de uma personalidade política tão importante como Prestes somente será de bom proveito intelectual se eu conseguir estudar a sua história e os seus valores desarmado de minhas crenças políticas. É preciso mergulhar humildemente na história da personalidade política para entendê-la melhor, seus anseios, suas ferramentas ideológicas, seus propósitos de vida, e isso implica em procurar conhecer os elementos que remodelaram suas crenças, principalmente durante os 25 mil quilômetros que ele percorreu pelo Brasil, onde recebeu um choque de realidade e tentou resolvê-lo com o que estava disponível dentro de suas disponibilidades de pensamento. Percebi que Prestes foi um brasileiro genuinamente sensibilizado com o sofrimento do povo, cuja indignação se verteu em uma energia poderosa que terminou por conduzi-lo a crer no marxismo como solução.

Teria sido apenas por apreço ideológico os 25 mil quilômetros? O que fez Prestes e seus comandados peregrinarem dessa forma? Essas perguntas de 1996 passaram décadas sem resposta em meu foro íntimo.

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