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Fiódor Dostoiévski

— Assumir o sofrimento e redimir-se, é isso que é preciso.

Obra: Crime e Castigo. IV. Editora 34, 2009, São Paulo. Tradução de Paulo Bezerra. De Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Império Russo/Moscou, 1821-1881).

– Mais importante que assumir e compreender o próprio sofrimento, é saber como se redimir, passar por ele com serenidade para chegar bem no final – eis a primeira lição que recebi sobre este romance, em uma das últimas caminhadas que tive com o meu mentor no Parque da Jaqueira, quando a primavera estava no horizonte para sinalizar uma pequena luz que surgia, após uma longa noite; era o início de setembro de 1996.

Aos 21 anos, em uma fase crítica, sem conseguir dar crédito a muitas coisas boas que a vida pode oferecer, tive meu primeiro contato com a complexa literatura de Dostoiévski. Sentamos, livro aberto…

De alguma forma o sofrimento e o que chamamos de “mal”, relaciona-se com a consciência de um “direito ao crime” (terceira parte, V) que verte a uma finalidade “boa”, tese por demais perturbadora. Analisamos e expurgamos o contexto criminoso de Raskólnikov e a defesa do “direito ao crime” publicada no jornal Discurso Semanal, a refletir a sociedade permeada de espírito revolucionário em que o romance foi produzido, com todas as ressalvas sobre conexões com crenças de regimes totalitários no século XX. Apenas nesta questão central do romance, fiquei desconcertado. Quinze anos depois a revisitei com uma mentalidade mais polida para melhor ressignificá-la.

Depois nos concentramos no tema do sofrimento, com uma releitura bíblica em paralelo, quando assumimos a verdade do livro de Jó quanto ao “mal” alcançar justos e injustos, culpados e inocentes. Pensamos em quanto pesa a insuficiência da razão para explicar situações complexas da vida sobre culpa, inocência e sofrimento; finalmente, ficamos com o sofrimento em si e no lidar com as consequências de enfrentá-lo, independente da culpabilidade.

– Além da fé em Deus, que sempre deve ser guardada, é preciso assumir, enfrentar, compreender, lidar com a dor do sofrimento para que a compreendamos como uma “coisa boa” – concluímos essencialmente sobre o que se encontra no dito a Raskólnikov por Porfiri Pietróvitch, mas também nos desafios de mesma natureza, feitos a outras personagens, como o que ocorre com Sônia, que fica estremecida ao ser provocada por Raskólnikov a “Esmagar o que for preciso, de uma vez por todas” (quarta parte, IV).

No sofrimento caímos no vazio que atormenta e, ao mesmo tempo, abre-se um espaço para aprendemos o significado do desconforto da dor que a natureza nos possibilita para sinalizar, de forma concreta, circunstâncias em que estamos passando que remontam a uma necessidade de relermos nossa própria história de vida.. Se temos culpa ou se somos vítimas, ou se estamos nas duas situações concomitantemente, não importa; o sofrimento é um “sinal de vida” da natureza para despertarmos no meio do caos.

A dor do sofrimento é uma necessidade fisiológica, psicológica, moral, ética, existencial e pedagógica para superarmos o que entendemos sobre as coisas que dizem respeito a nossos atos, interesses, acertos, desacertos, defeitos, virtudes, enfim, o sofrimento pode nos canalizar e orientar em uma via de autoconhecimento, igualmente dolorosa e libertadora, pelo menos foi o que experimentei pela psicanálise e pela psicoterapia; da síndrome do pânico em 1996, a partir do tratamento, reconheci e enfrentei outros traumas que me remontaram à infância, e que também foram superados nos anos seguintes. Uma dor desencadeou um processo enquanto compreendida como sinal de necessidade de autoconhecimento, que me proporcionou ressignificações que resultaram em outros problemas que foram superados nos anos seguintes. Quando se chega neste último estágio, compreende-se então o sentido mais profundo de tudo que foi sofrido.

Então, saí daquela noite na Jaqueira certo de que a luz que surgia com uma nova perspectiva sobre o sofrimento em que passava naqueles dias, conectava-se com uma nova era que seria debutada ainda no final daquele mês.

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