Imagem: Jornal da USP

“Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. Se olharmos a realidade com uma óptica de retícula fina, a proporção é mais falsa que verídica.”
Obra: A Rebelião das Massas. Apêndice. As vitrines mandam. Vide Editorial, 2016, Campinas. Tradução de Felipe Denardi. De José Ortega y Gasset (España/Madrid, 1883-1955).
Pelo que observo, é o soberano que dá sentido à vida de muitos, no entanto, em outros, raros, não exerce qualquer poder. Ter conhecido o trabalho de alguns frades me ajudou a entender melhor a questão, apesar de que entre religiosos encontrei os maiores adoradores deste deus.
Ateísmo, desapego e generosidade é algo que me remete à primeira classe regada ao fati, não para ostentação, mas na discrição total. O dinheiro não importava. Já com os frades, aprendi a relevância cabível, na simplicidade coletiva do cuidado mútuo convergindo à obra de Cristo.
Chéremata, chéremata, aner! (p. 323), o apotegma hoje assumiu outras formas para o que Ortega y Gasset define como “sentença terrível” (p. 323) de uma obviedade (p. 324) quanto à grande força social exercida através do dinheiro, sobretudo em tempos de crises e dores, contudo, é preciso ter cuidado para não analisar a questão tão-somente pela “concepção econômica da história” (p. 325), ou simplesmente cair na ilusão do “economicismo”, que inclusive caracteriza o marxismo.
Não se trata de negacionismo em torno do poder social proporcionado pela posse do dinheiro, e sim de que não consiste em um poder supremo; entendo, é inferior ao político. Não livrou judeus dos horrores do Holocausto ou, como bem lembra Ortega y Gasset, não evitou – enquanto formadores da nascente elite bancária – que fossem considerados “escória” na Idade Média (p. 325), e aqui penso que este apêndice foi escrito em 1927 (p. 328), bem antes da tragédia nazista novamente confirmar que a ideia de poder pelo dinheiro se dissolve na truculência da força governamental, embora a política faça uso desse recurso para operacionalizar seus atos, muitas vezes de forma indecorosa.
Quem tem muito dinheiro e nenhuma influência política, não tem muita coisa na lógica deste mundo, penso. O dinheiro possuído tem um poder diretamente proporcional ao apetite para aplicá-lo e à disponibilidade de coisas colocadas à venda; esse poder social “será tanto maior quanto mais coisas houver que comprar, e não quanto maior for a quantidade de dinheiro mesmo” (p. 328). E aqui encerro a lembrar dos que costumam falar que determinadas coisas não estão à venda, especialmente para aqueles que agem como se o dinheiro pudesse comprar tudo. Este é o melhor exemplo na sabedoria do cotidiano para atestar o limite do poder relacionado ao dinheiro.
Comentário