Imagem: Mundaréu

“O [54] papel desempenhado pelos confiscos revolucionários que acabamos de ver é o de uma deidade não raro propicia ao pesquisador: a catástrofe.[…]”
54. Nota do editor: ]No exemplo que acabamos de ler, o[
Obra: Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Capítulo II. 3. A transmissão dos testemunhos. Zahar, 2001, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Marc Léopold Benjamin Bloch (France/Lyon, 1886-1944).
Como se pode saber o que será dito?, torno à obra e parafraseio o que suscita Bloch sobre o que não deve faltar como advertência em todo livro de história digno desse nome, visto quão desafiador é reunir documentos, apurar evidências e lidar com a “passagem da lembrança através das gerações” (p. 83).
Foi irônico, ao passar por este trecho (p. 84), pensar também no que normalmente ocorre em regimes revolucionários no trato da história quando se decide revisar o passado. Não deixa de ser uma forma de deturpar o conhecimento da memória, porém, uma genuína busca científica para uma história pode se dá na tranquilidade de um meio sob alguma pacífica continuidade de uma vida social, e penso aqui no exemplo das instituições monásticas onde podem ser encontrados documentos com mais de mil anos em bom estado de preservação, mas isso não significa que uma revolução não possa ser mais útil quando, como bem lembra Bloch, os que intencionam destruir provas não encontram tempo para isso quando obrigados a fugir (p. 85).
No entanto, o caso suscitado pelo historiador que fazia brilhar os olhos de um professor que tive, diria, é “arqueológico”, visto que o ofício do historiador esbarra em uma de suas mais difíceis tarefas quanto à reunião de documentos (p. 82), o que se agrava pela usual indiferença da conservação deste fundamental objeto do trabalho, mediante outros interesses em relação a fatos apurados que podem intrinsicamente envolver danos a evidencias: penso aqui em invasões, pilhagens, guerras, catástrofes, etc,, Bloch aborda o mero esquecimento ou abandono do que é fonte. No mais, é vero que “os grandes desastres da humanidade estão longe de sempre terem servido à história” (p. 85).
Da leitura que refleti, torno ao que entendo como desastre do desastres, ou seja, ao vício da alteração do passado por narrativas alienantes em sociedades sob alguma ideia de revolução, o que me faz lembrar quando cheguei ao ensino médio, no início dos anos 1990, e passei pela universidade, e percebi o quanto fora fantasioso o que me fora contado sobre o mesmo passado no primário e no ginásio nos anos 1980; refiro-me às maravilhas da “Revolução de 1964” nos livros de história e educação moral e cívica, o que depois descobri como fake news oficial dos tutores da educação, entre outras fábulas, ao me dar conta de sua tragédia política, com seus porões de tortura, sua censura e sua estupidez econômica socialista de farda disfarçada de “milagre” nos anos 1970, bolha que estourou nos anos 1980 com hiperinflação e elevado desemprego. Ainda hoje penso o quanto indivíduos saudosistas deste tempo parecem fascinados com esse passado alterado por suas delirantes paixões ideológicas de direita. Quanto aos regimes de esquerda, evidentemente não ficam para trás nessa arte de coletivização da estupidez no trato com a história e pude ver uma demonstração de seu poder ao conversar com um professor e doutor em sociologia que me contou sobre uma União Soviética que talvez tenha sido de outra galáxia ou de uma Cuba que mais parecia Alice deslumbrada no país das maravilhas.
2 Replies to “14/01/2026 20h00 Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Capítulo II. 3. A transmissão dos testemunhos”