Imagem: FGV-RI

Oliver Stuenkel

 “Por que então, indagaram alguns observadores no Brasil […] Por que o Irã é um pária internacional, enquanto as armas nucleares de Israel são toleradas tacitamente? Por que os EUA reconhecem o programa nuclear indiano, por mais que Nova Déli nunca tenha assinado o Tratado de Não Proliferação Nuclear?”

Obra: BRICS e o futuro da ordem global. 8. O grupo BRICS e o futuro da ordem global. Paz e Terra, 2017, Rio de Janeiro. Tradução de Adriano Scandolara. De Oliver Stuenkel (Deutschland/Bundesland/Düsseldorf, 1982).

O professor Stuenkel menciona questões comuns, suscitadas por críticos brasileiros sobre “aparentes contradições da ordem global” (p. 231), que ilustram o quanto a produção política normalmente se baseia em incoerência e confusão com o que possa ser tratado como científico ou intelectual:

Penso no Prólogo para franceses de A Rebelião das Massas [552]:

“A obra intelectual visa, muitas vezes em vão, esclarecer um pouco as coisas, ao passo que a do político normalmente consiste, ao contrário, em confundi-las mais do que já estavam. Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil: ambas são, de fato, formas de hemiplegia moral.” 

Seja em um centro universitário, em um grupo familiar ou em uma mesa de bar, discutir política será sempre uma atividade afetada pelo passional, pelo irracional e pelo demagógico.

Por que são aceitáveis abusos sistemáticos de direitos humanos e ausência de legitimidade democrática em países que apoiam os Estados Unidos (p. 231) – aqui penso na Arábia Saudita e no Catar – e não em outros?, e segue o professor a indicar mais questionamentos de críticos da falta de coerência no mundo da política, em sua obra sempre no contexto da ordem global: as inconsistências (que beneficiam os Estados Unidos) são mais danosas para a ordem global do que qualquer política russa, cita ainda em relação a avaliações feitas no Brasil em apontamento no contexto da invasão da Crimeia (p. 231), o que é lógico, justo, verdadeiro, mas não para justificar a política russa com a Ucrânia, penso. Uma incoerência não justifica outra.

Quando analistas citam apenas a política externa dos Estados Unidos como danosa e “esquecem” o que a política costuma produzir para a mesma ordem global a partir da Rússia, do Irã e da Coréia do Norte, passam a enxergar o problema com o mesmo alinhamento tóxico dos que defendem o imperialismo americano, entendo. Isso acontece porque a política envolve muito mais paixão ideológica e interesses abjetos de quem vive dela, do que racionalidade e ética que possam ser de fato elementos saudáveis para a ordem global.

O posicionamento neutro (p. 233) do governo brasileiro em 2014, em relação a condição de dependência dos dois polos (EUA e Rússia), quanto a Putin e ao BRICS, em meio è necessidade de manter um mínimo laço com a Casa Branca, ilustra bem como a política real funciona para um país vassalo, na condição do Brasil (pp. 232-233). Agora, com a guerra no Irã, o governo brasileiro será novamente testado e, diria, tentado, quanto ao viés ideológico antiamericano que, diga-se de passagem, é legítimo, porém, potencialmente destrutivo na delicada e frágil relação econômica brasileira com a economia americana.

552. 25/01/2022 22h46

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *