Imagem: Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux

“[…] Erasmo encarna a ambiguidade perigosa, própria do espírito.”

Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. A Cinza do Purgatório. Terceira Parte: Origens e afins. Erasmo e as fortificações. Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).

Desidério Erasmo de Roterdã (Holanda/Roterdã, 1466-1536). Intelectual “estéril e subversivo”, um homem cujo ponto de interrogação fica-lhe bem, eis Erasmo, apresentado por Carpeaux (p. 364). Um lúcido, “um “iluminador” à semelhança de Voltaire, pensador em um mundo tão banal que nenhuma linha fortificada pode protegê-lo (p. 365).

Quando conheci o Elogio da Loucura [553], comecei a perceber a genialidade lúdica de quem olhou para o mundo e andou por cima de suas tolices com elevado senso de humor e ambiguidade um tanto sarcástica. Erasmo despertou a ira, o deboche, a ofensa, a maldição, chamado de luterano na liberal Holanda, papista na luterana Alemanha, “monge desertor”, “letrado vagabundo”, “pseudoteólogo herético” (p. 365). Hoje seria chamado de “comunista” por bolsonaristas e “fascista” por petistas.

Para Carpeaux, Erasmo “é nosso”, penso, um espírito desbravador, que se recusa ao fechamento das ideias, mente que vagueia pela transição; é perigoso, um tanto sedutor, por enxergar alguma verdade de relance como se cultiva em poesia, versa pelo “sempre difícil” (p. 366).

De certa forma, todo livre pensador porta um pouco do mesmo espírito que marcou Erasmo. Guiado pela dúvida, penso, no entanto, o provocante reformador não foi um racionalista, tampouco um revolucionário e sim um espiritualista em busca do cristianismo primitivo (p. 367), na visão do intelectual austríaco mais brasileiro que conheço.

O espírito que pairou sobre Erasmo hoje pode ser visto em quem se policia para não ficar preso a bolhas ideológicas; um jeito de ser para não ficar submisso a grupos disso e daquilo e a sistemas que oferecem respostas para quase tudo e o que dizem beiram o nada. Um espírito capaz de desagradar alucinados que se guiam por paixões enquanto tentam disfarçá-las como coisa séria.

Erasmo estava mais para os seus amigos espanhóis de um “cristianismo estoico” (p. 368), sofisticado, não pragmático com um mundo barbarizado; almejava “uma melhor fé”, “uma melhor justiça” (p. 370), Carpeaux sugere, enquanto caminhava pela Europa; “primeiro europeu”, não tinha casa esse “vagabundo intelectual” prestigiado como “embaixador do espírito” (p. 369).

553. 28/06/2022 00h20

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