Imagem: Editorial Sufi

“Uma parte do psiquismo da pessoa faz todo tipo de esforços, invertidos ou inúteis, para manter essa ‘identidade’, que na realidade nada mais é do que uma ilusão.”
Obra: Direito de rir e de chorar. Como opera a negatividade. Jaguatirica, 2015, Rio de Janeiro. Tradução de Grace Alves Ferreira. De Aziz Djendli.
O que acontece quando se está diante de um problema relativamente grave e se pensa cada vez mais em algo ainda pior? No tratamento de intercorrências em meu trabalho penso no quanto é comum a negatividade, baseada na especulação, que não raramente apresenta tendência ao fatalismo.
Trabalhei com um administrador de TI que costumava afirmar diante de uma situação delicada: “temos sempre que pensar positivamente, e ter fé que vamos superar, mas devemos tentar também buscar um preparo para cenários onde as coisas pioram”. Pensei aqui em algo próximo do “realismo esperançoso” de Ariano Suassuna, contudo, quando um “se isso ou aquilo acontecer” é seguido por uma expectativa tão-somente pessimista, cada vez pior e até mesmo catastrófica, ocorre a ilusão negativista que Djendli aponta. Quando consigo identificar esse problema, a começar de meus pensamentos automáticos, tento me policiar para reverter o drama e não sucumbir na confusão entre o que é realidade e o que não passa de expectativa.
A negatividade se manifesta por meio de crenças e esquemas inicialmente suportados pela própria pessoa. Não passa de fantasia pensar no pior prevalecendo nas expectativas quando se especula. O pessimismo como tendência automática opera no que Aziz Djendli aponta como “falsa identidade”, “fruto de um número variado de condicionamentos ligados à própria história da pessoa, sua cultura, seu contexto de vida e sua saúde” (p. 11). Neste aspecto, o sujeito habitualmente pessimista está refletindo mais seus dilemas pessoais do que qualquer outra coisa, como se fosse parte da realidade. Isso pode ser observado quando alguém enviesado no fatalismo se auto rotula em um “eu sou assim”; eis o problema da “falsa identidade”, produtora de ilusões baseadas na especulação que distorce o entendimento da realidade, até mesmo citando dados que, muitas vezes, quando não mal interpretados, são insuficientes para embasar o que se afirma.
A questão de maior relevância, entendo, diz respeito a tratar de assuntos delicados com seres passivos a emoções, com variadas reações, uma tarefa que requer um bom senso apuração de realidade e uma psicologia apropriada em diversos âmbitos. Quanto a isso, conheci gestores que demonstraram uma forte tendência para analisar situações mais pela especulação do que por indicadores nos instrumentos, enquanto outros foram serenos e emocionalmente aptos para lidar com elevadíssima tensão nervosa. No meu ramo mais intenso, em algumas situações desenvolvi pareceres pessimistas diante de um problema que se revelaria de menor gravidade, e isso ocorreu quando afirmei “isso pode terminar muito mal”, enfatizando o “pode” como se fora parte do mundo real, apenas com base na “intuição”, sem dados à altura do alerta. Claro que um profissional muito experiente, contando com um histórico de casos análogos em que avaliou, pode dar um parecer pessimista sobre expectativas dentro de uma razoabilidade, mas já vi muitos se enganarem ao fazer o papel de profeta do trágico, assim como o contrário. Pensei também em um grupo de empreendedores de uma TI que brigaram com os números reais da contabilidade a indicar o caminho da falência, enquanto se decidiu por um otimismo ancorado na mente delirante de um marqueteiro influente dentro da organização.
Um “se” ou um “pode acontecer isso ou aquilo” não existe como realidade, no entanto, apesar do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, muitos se comportam como se a expectativa fosse fato. O que é real e o que é estimado – e se tem por expectativa – tem que ser muito bem separado em momentos críticos para compreensão do momento e tomadas de decisões. Um balanço patrimonial bem produzido faz parte da realidade, enquanto uma estimativa de crescimento e uma projeção de câmbio são apenas elementos especulativos. Uma projeção do IPCA não faz parte da realidade econômica, diferentemente do indicador de inflação apurada em relação a um determinado período.
Quando este tipo de confusão se manifesta no campo da saúde, então, o problema se torna ainda mais dramático por envolver profissionais no exercício de funções de alta complexidade em termos de vida ou morte, de maneira que afeta de forma aterradora leigos quando precisam ouvi-los. Nesse segmento, recentemente percebi um grande contraste entre duas profissionais de medicina quando abordaram uma situação de intercorrências: a primeira relatou um quadro em um tom grave, com uma linguagem corporal a indicar forte tensão, de forma um tanto especulada com poucos dados, onde mencionou “falta de resposta da paciente” aos procedimentos, provocando mais tensão entre familiares, enquanto outra, após um tempo e uma verificação mais minuciosa, contando com um pouco mais de dados, com um semblante suave, aplicou uma forma de comunicação adequada e assim conseguiu apresentar um balanço mais claro e menos alarmante da situação, tranquilizando familiares.
Depois que comparei as duas abordagens, notei que a primeira profissional não considerou que era preciso aguardar mais um tempo para verificar respostas antes de considerar que a paciente não estava respondendo positivamente em seu breve e assustador parecer inicial, enquanto a outra, de forma prudente, ao se pronunciar, demonstrou embasamento em dados, identificou algumas respostas, mesmo sendo tímidas, e decidiu não fazer o que a primeira fez: especular sobre tendências, enquanto recorria à psicologia para se comunicar melhor com familiares, de forma mais humana, positiva.
Em outras palavras, a segunda profissional revelou uma maturidade – penso aqui no que Djendli aborda no final do tópico – de quem consegue usar uma zona da mente que se recusa a aceitar a ilusão de se manter no sentimento de fracasso, quando se recorre à especulação e se verte ao negativo em vez de observar o que de fato é possível afirmar em termos de certeza conforme indicadores disponíveis, e assim se comunicou melhor que a primeira, provendo ajuda positiva e real (p. 14) a familiares.
2 Replies to “21/12/2025 08h00 Direito de rir e de chorar. Como opera a negatividade”