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“A vida deve ter um sentido. Agora ele começa a adivinhar nela contornos mais lógicos, o princípio dum desenho nítido. […] ‘A vida começa todos os dias’, costumava dizer Olívia.”
Obra: Olhai os Lírios do Campo. Parte II. 13. Companhia das Letras, 2005, São Paulo. De Érico Lopes Veríssimo (Brasil/Rio Grande do Sul/Cruz Alta, 1905-1975).
Antes, na abertura do capítulo (p. 208):
“[…] e o vento sacode o estore claro que se balouça no ar como um lenço que acena”.
Ler é uma terapia no desfrutar da riqueza da língua. Obrigado, Veríssimo.
Mais uma vez o “amor” impedido por desencontros e vicissitudes, sob um triste final.
Eugênio “amava” Olívia, colega na medicina, personalidade sublime, mas em parte por desencontros, e mais por conveniência, para fugir da pobreza, optou em se casar com Eunice, uma filhinha-de-papai.
Questões que correram na experiência de leitura onde coloco aspas acerca do que se revelou como uma decisão onde o “amor” foi vencido. Não penso na seca relação Eugênio-Eunice, que serve de ingrediente para o drama da relação Olívia-Eugênio, mais próxima de um altruísmo, do ágape, mas sobretudo penso no sentido Eugênio-Olívia, mais intrigante.
A decisão de Eugênio por Eunice não deixa de ser uma versão moderna, diria individualista, do clichê sobre o casamento “arranjado”, negócio alheio a qualquer necessidade de afeto. De outra forma se dava tão comum na tradição da monarquia, assim como na antiguidade e na chamada “idade média”, com a diferença (considerável) de que se tratava de uma decisão da liderança familiar e não restrita aos que se casavam.
Nessa perspectiva moderna, o casamento por conveniência parece mais sutil, embora muitas vezes seja tão óbvio. Penso em Catherine ter escolhido Edgar em O Morro dos Ventos Uivantes [513] em vez do então pobre Heathcliff, também sob um desfecho infeliz. Então volto ao caso de Eugênio, enquanto envolvido com Olívia, embora sob a distância dela, decidiu por um casamento-negócio que se torna ponto de partida e vai sendo vencido por um amadurecimento que se desenvolve no vazio de sua relação com Eunice e pela dor da perda de Olívia. O doutor outrora pragmático, torna-se profundamente reflexivo sobre sua trajetória de vida ao enfrentar o luto por Olívia, seu “amor” de segundo plano, marginalizado, processa a tristeza com Anamaria no colo (p. 208), filha do relacionamento que preteriu, intensificando uma luta interior de valores, entre os quais está seu ateísmo e, nessa agonia, quem sabe, pudesse descobrir Deus (p. 208).
Eugênio lê a última carta deixada por Olívia, poucas horas antes dela falecer. O tema do enlevo espiritual pelo sofrimento resplandece na encantadora personagem; a doutora tem fé e esperança, e enquanto discorre sobre os dilemas, chega a amar o sofrimento dele, certa de que assim “há de nascer o novo Eugênio” (p. 210), acima do amor ao dinheiro a olhar para o que a vida tem a oferecer de melhor, capaz de apreciar o que Deus ensina com os lírios do campo e as aves do céu, na ilustração que faz do Sermão da Montanha (p. 212), base do romance.
Devastado com a carta (p. 214), Eugênio sai para caminhar, e aqui vejo uma sombra do que se desenvolve gradualmente, no despertar para o sentido da vida além dos anseios quando então contempla o céu e consegue ver as estrelas brilhando por cima da riqueza que o seduziu (p. 215).
513. 14/12/2025 18h39