Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Padre António Vieira

“Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse, perguntar-me-eis e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó: em que nos distinguimos uns dos outros?”

Obra: Sermão da Quarta-Feira de Cinza. 1672. Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverentis  [1]. §I. Sermões. Parte I. eBooks Brasil. Biblioteca Nacional. De Padre António Vieira (Portugal/Lisboa, 1608-1697).

Somos pó vivo pelo que se levanta no vento, e morto, sem vento, sem vaidade, pó caído; “pó
levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortus est” (p. 62), eis a diferença que não é metáfora ou comparação, “senão realidade experimentada e certa”. Não é preciso ter fé, tampouco entendimento mais sofisticado para acreditar nessa condição (p. 55), afirmou o orador por excelência (p. 62) neste sermão pregado na Igreja de Santo Antonio em Roma, 1672 (p. 55).

Somos pó, não somente seremos pó, penso aqui nas referências do Gênesis… “senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es” (p. 56), e de pó em pó a vida acontece. Ora, o que se chama de “vida” nada mais é que um “círculo que fazemos de pó a pó” (p. 59). Este pó que compõe a vida em nosso princípio, e esse mesmo pó é o nosso destino terreno, o fim (p. 61). Somos pó da vida ou da morte, mas não esqueçamos.

Adão, Abraão, Moisés, Jó… personagens que expressam a realidade simples e muitas vezes ignorada do ser humano que é pó e, não raramente, tenta esquecer quando se exalta como se fosse outra coisa, penso. Quando se olha e não vê a junção deste pó que há em si, enquanto ocupado com o conceito sobre o próprio enlevo, na vaidade, na estética, entre o deslumbre da beleza e a fuga ou desprezo da fealdade, este humano-pó então se perde ao esquecer o que é de fato, não apenas o que será quando passar pela mudança de forma chamada “morte”. Davi ao Jn pulvere mortis deduxisti me: Levastes-me, Senhor, ao pó da morte (p. 63).

Ao homem-naturalmente-pó, penso no que Vieira lembra então de Santo Agostinho de Hipona: “abri aquelas sepulturas, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros?” (p.65). Tudo encerrado no pó.

Diante da simples verdade do homem-pó, “ou cremos que somos imortais, ou não”. Para os que se pautam sobre a vida tão-somente terrena, resta o grande temor do “fim”, da morte que “tudo encerra”, mas para quem crê na eterndiade, penso, não faz sentido temer a morte que significa que este pó mudou apenas de forma, assim medito sobre o que reflete Vieira quando expressa que teme mesmo é a imortalidade, pois, o espera uma eternidade: ou no céu, ou no inferno:

Scio enim quod Redemptor meus vivit, et in novissimo die de terra surrecturus sum” (p. 69).

E então, mais adiante provoca:

“Não vedes que haveis de acabar amanhã? Não vedes que vos hão de meter debaixo de uma sepultura, e que de tudo quanto andais afanando e adquirindo, não haveis de lograr mais que sete pés de terra?” (p. 71).

Para exortar:

“Cuidemos na nossa morte e na nossa vida. E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo
que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso
viver? Quarto: como é bem que viva? Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento hom” (p. 74).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *