Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Padre António Vieira

“Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse, perguntar-me-eis e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó: em que nos distinguimos uns dos outros?”

Obra: Sermão da Quarta-Feira de Cinza. 1672. Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverentis  [1]. §I. Sermões. Parte I. eBooks Brasil. Biblioteca Nacional. De Padre António Vieira (Portugal/Lisboa, 1608-1697).

Pensei ao ler este sermão do grande orador sacro do catolicismo, sobre o que somos naturalmente e muitas vezes essa verdade simples é “esquecida” ou desprezada no cotidiano:

Somos pó… fragmentos da terra. Vivo ou “morto”.

Ao terminar a leitura, meditei o quanto este sermão, pregado na Igreja de Santo Antonio em Roma, 1672 (p. 55), é profundo, pelo menos o foi para mim na experiência de leitura da última quarta de cinzas.

Durante a leitura, pensei: no Gênesis (capítulo 1), o primeiro ser humano é definido como ‘ADAM, o Adão, e esta palavra no hebraico significa “da terra”, ou húmus, no latim, donde vem a palavra homo, “homem”, e se deriva o termo “humano”.

Depois pensei em termos científicos sobre o que somos enquanto um emaranhados de células ativas, quando vivos, sob um impressionante ordenamento que forma nosso corpo e nossos sistemas vitais que o viabilizam. A ciência pode explicar até certo ponto como tudo isso funciona, mas está fora de sua alçada tratar da “causa causante” sobre a questão “De onde viemos?”, embora a mesma ciência tenha que se basear em “causa e efeito”.

O padre que muito admiro, e torno ao seu sermão, argumenta que a vida deste “pó” que forma o homem está pelo que se levanta no vento, e quando assim chamado de “morto”, é o pó sem animação, “sem vento, sem vaidade, pó caído”, e segue “pó levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortus est” (p. 62).

Eis a diferença que não é metáfora ou comparação, “senão realidade experimentada e certa”. Não é figura de linguagem. É fato onde não é preciso ter fé, tampouco entendimento mais sofisticado para acreditar nessa condição (p. 55), afirmou o orador por excelência. E quando nos deparamos que somos “pó”, precisamos compreender também o peso de que não somente seremos, e penso aqui novamente nas referências do Gênesis quando Vieira afirma:

“senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es” (p. 56), e de pó em pó a vida acontece. Ora, o que se chama de “vida” nada mais é que um “círculo que fazemos de pó a pó” (p. 59).

Somos pó da vida ou da morte. Adão, Abraão, Moisés, Jó, Davi… personagens que, de certo modo, expressam essa concepção em textos bíblicos, trabalhados no sermão.

O “pó” que compõe a vida em nosso princípio, esse mesmo pó é o nosso destino terreno, é o pó que caracteriza o “fim” (p. 61). Penso em aspas aqui porque o “fim” não finaliza a vida na perspectiva da fé cristã, sabemos.

A verdade do que é pó e ao pó tornará (Gênesis 3.19) tão simples, verificável e, longe de ser uma ilustração da fé, é muitas vezes ignorada; o humano tenta “esquecê-la” e até mesmo há quem sonhe com uma eternidade terrena, como se a ordem natural fosse algo sem sentido, seja pela arrogância e/ou pela prepotência de comportamento, seja em uma humildade dissimulada quando se arroga à ciência, conduta que não passa de um disfarce para o efêmero, penso, que a vida material pode oferecer.

Essa ignorância ou esse desprezo sobre nossa condição natural acontece quando se olha e não se vê e/ou não se aceita a junção deste pó que nos forma, do quanto revela que somos fracos, vulneráveis, frágeis, sujeitos ao imprevisto que é muito maior do que podemos suportar em nós mesmos, e muitos descobrem e/ou aceitam isso no leito de um hospital ou diante de um problema que a riqueza material que possuem não pode resolver. E como são tantas as coisas que o dinheiro não pode comprar…

Talvez essa ilusão no humano, no húmus vivificado, seja quando se fora ocupado demais com o cultivo do conceito superestimado que possa ter de si, a viver com base no que será pensado sobre seu “sucesso” ou “fracasso”, sem se dar conta daquilo que a sabedoria do Coélet chama da vida enquanto “vaidade”, no vazio de “correr atrás do vento” (Eclesiastes 1:14).

Penso também aqui no homem-pó deveras deslumbrado com a ideia da própria exaltação, tornando-se escravo da estética, em casos mais extremos, é um narcisista em níveis crônicos (epidemia neste mundo). Ora, este humano-pó iludido consigo mesmo então se perde ao esquecer o que é de fato, não apenas o que será quando passar pela mudança de forma chamada “morte”.

E quando percebe o drama que o aproxima desta experiência do “fim”, penso agora em Davi a retratá-la em uma espécie de expectativa dramática, e torno ao sermão de Vieira:

Jn pulvere mortis deduxisti me.

Levastes-me, Senhor, ao pó da morte (p. 63).

Quanto a essa condição do mesmo pó, já em outro estado de formação, o pó de fato “morto”, penso no que Vieira lembra então de Santo Agostinho de Hipona: “abri aquelas sepulturas, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros?” (p.65).

Tudo encerrado no pó.

Diante da simples verdade do homem-pó, vivo ou morto, “ou cremos que somos imortais, ou não”. Para os que se pautam sobre a vida tão-somente terrena, resta o grande temor do “fim”, da morte que “tudo encerra”, mas para quem crê na eternidade, penso, não faz sentido temer a morte que significa a mudança deste pó humano mudando apenas de forma, assim medito sobre o que reflete Vieira quando expressa que teme mesmo é a imortalidade, pois, o espera uma eternidade: ou no céu, ou no inferno:

Scio enim quod Redemptor meus vivit, et in novissimo die de terra surrecturus sum” (p. 69).

E então, mais adiante provoca:

“Não vedes que haveis de acabar amanhã? Não vedes que vos hão de meter debaixo de uma sepultura, e que de tudo quanto andais afanando e adquirindo, não haveis de lograr mais que sete pés de terra?” (p. 71).

Para exortar:

“Cuidemos na nossa morte e na nossa vida. E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo
que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso
viver? Quarto: como é bem que viva? Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo” (p. 74).

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