Imagem: Cultura Animi

Bertrand de Jouvenel

“How is it possible not to see in this stupendous degradation of our civilization the fruits os state absolutism? […]”

Obra: ON POWER: The Natural History of Its Growth. Book VIII. Os political rivalry. Total war. Liberty Fund, 2020, Indianapolis. Traduzida para o inglês por J. F. Huntington. De Bertrand de Jouvenel des Ursins (France/Paris, 1903-1987).

“Como é possível não ver, nesta degradação estupenda de nossa civilização, os frutos do absolutismo estatal?”, eis a questão (p. 167) que Bertrand de Jouvenel apresenta e está entre as que mais me deixam pensativo sobre o quanto é perene a letargia diante da promoção do poder de intenções absolutas, no modo concentrado, fator que se relaciona com a mentalidade belicista alcançando a “degeneração” que aponta o autor.

Neste capítulo, Bertrand de Jouvenel analisa o processo de rivalidade política que se retroalimenta pela expansão do aparato estatal relacionado em um ciclo contínuo de concentração de poder (pp. 150-166), e um resultado que destaco, do que se aponta como “degradação” está na “guerra total”, a “parteira” de modelos absolutistas e da moderna burocracia ampla que se entrelaça em uma mentalidade que estabeleceu o sufrágio ao serviço militar, na era do “cannon fodder” (pp. 163-164) a consolidar a ideia de guerra como elemento de exploração de uma massa humana sacrificável, instrumentalizada para o que se entende por “defesa da civilização” e, acrescento, a transformação da política, de atividade intelectual, ética, a uma espécie de catalisador da ignorância popular e da violência enrustida nos recalques da massa governada, a promover uma espécie de devoção que converge à figura de quem concentra o poder, o “homem forte” que muitas vezes é desejado, especialmente em tempos de crise. Tudo isso está banalizado na modernidade em uma escala muito superior ao que ocorria no tempo medieval.

O autor discorre também sobre o problema dessa modernidade que não consegue desenvolver uma resistência que seja significativa à crescente força em favor do contínuo avanço do poder em modo concentrado que alimenta a cultura belicista e vice-versa. Aqui penso no fenômeno do poder político como algo envolto no âmbito do entorpecente, tirando os cínicos que exploram essa atividade “profissionalmente”. O poder que corrompe absolutamente, forma gerações de dependentes de uma química de fanatismos e paixões desenfreadas que formam a camada de apoio a ditadores em potencial sempre travestidos de baluartes de alguma causa dita “nobre”. Sobre isso, a cena de Trump e seus comandados orando antes de iniciar uma reunião me veio em mente, assim como a de clérigos ortodoxos que abençoam Putin e, claro, a “guerra santa” quando deflagrada em uma teocracia islâmica; três exemplos de “civilizações” amalgamadas com o espírito que faz da guerra uma forma de expressão.

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