Imagem: Onassis

Gabor Maté

“[…] Deixou de ser um mistério minha incapacidade de seguir ou mesmo lembrar orientações, ou minha raiva paralisante quando
confrontado com o mais simples manual de instruções.”

Obra: Mentes dispersas: As origens e possíveis curas do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). 1. Muita sopa e muito lixo. Sextante, 2025, Rio de Janeiro. Tradução de Fernanda Abreu. De Gabor Maté.

São oito em ponto e abro o Zoom para explicar procedimentos que seguem exatamente o mesmo roteiro do vídeo que tinha deixado na área de trabalho do cliente na semana passada. Na conclusão da rotina, ele pede desculpas por me fazer repetir o que tem à disposição em MP4 e não conseguiu repetir sozinho, quando então começou a lamentar-se de si mesmo.

– Isso também é característico – comentei.

– Isso o quê? – perguntou enquanto emendou um comentário breve sobre outro problema contábil que nada tinha a ver com o que estávamos tratando, e para aumentar a pressão (desnecessária), decidiu atender a uma ligação telefônica.

– Autodepreciar-se – comentei.

– Característico de quê? – questionou de um jeito que pareceu menos disperso.

– Do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) – respondi.

– Será que tenho TDAH? – perguntou com um semblante mais pensativo.

No meu cotidiano tenho a sensação de que o TDAH é uma epidemia entre contadores e colaboradores de escritórios. São frequentes situações em que não se consegue prestar mínima atenção em simples orientações, avisos, além de lembretes de datas e horários que passam por olhos saudáveis que não veem e ouvidos sadios que não escutam; não se toma consciência de coisas elementares quando a mente está acelerada a ponto de impedir que sejam processados dados essenciais em meio a diversas distrações. Em suma, ver, “dar uma vista” é tão-somente passar sem qualquer discernimento; não se lê nem se escuta efetivamente, é tudo ruído, lixo, palavras sem sentido, embora sejam bem objetivas, eis o problema.

Prazos são perdidos, compromissos de agenda descumpridos, deslizes não por esquecimento, e sim pela não identificação de dados elementares como local, data e horário que estão bem visíveis. Regras básicas deixam de ser observadas pela força da desatenção, o que leva junto a credibilidade e abala a relação com clientes. Instruções simples não são compreendidas e, entendo, trata-se de algo que não se explica por deficiência cognitiva; considero aqui o fluxo de estímulos externos ser tão intenso que não se consegue filtrar o que realmente importa no momento.

Recentemente uma contadora confessou que não está suportando mais ter que lidar com tanta informação e exigência; a sensação é de sufocamento; sente-se impotente, incapaz de entender o que era fácil há poucos anos. Outros profissionais se queixam na mesma linha e falam sobre uma correria louca que os impede de simplesmente parar para reorganizar as ideias, o que me fez pensar na tese do quão tóxico pode estar o meio contábil como disseminador do TDAH . Neste ponto pensei também na definição do autor sobre o que acontece na mente do adulto com TDAH: “nunca descansa; voa de um lado para outro feito um pássaro desnorteado, nunca pousando por tempo suficiente para fazer um ninho” (p. 20). Isso é um resumo do que vejo em muitos contadores.

O médico húngaro-canadense Gabor Maté desconstrói neste livro a narrativa de que o TDAH se explica apenas pela genética e aponta que o ambiente, da infância à fase adulta, compõe causa e cura para o transtorno; genética e criação envolvem o problema onde é preciso considerar que a neurociência “já comprovou que o cérebro humano não é programado apenas pela hereditariedade; seus circuitos são moldados pelo que acontece depois que o bebê nasce e até antes disso, dentro do útero”. A influência dos pais tem peso nesse processo, mas “os circuitos cerebrais podem se recuperar na infância, e mesmo na fase adulta, se forem criadas as condições necessárias para um desenvolvimento positivo” (p. 14). E tais “condições necessárias”, onde começa a cura, envolve romper com a correria insana, criando métodos para neutralizar fatores que desencadeiam ansiedade e imediatismo, entendo, aplicando uma filosofia de trabalho que promova a união da organização de tarefas por sequenciamento lógico e econômico, com a humanização do ambiente de trabalho.

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