
Stephen Hanselman
“[…]um terceiro tipo, diz Sêneca, investe em si mesmo – em ser uma pessoa boa e sábia.”
Obra: Diário Estoico. 2 de outubro. O bem mais valioso. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.
Algumas pessoas estão pautadas no investimento em bens materiais, outras em relações ou em realizações, e um terceiro tipo, segundo Sêneca, é o que investe em si mesmo, em ser uma pessoa boa e sábia.
São três ativos bem distintos. O primeiro é predominantemente tangível, mensurável, aparente, os outros dois são intangíveis, imateriais, penso, e qual seria o mais resiliente, imune a provações e tribulações?, indagam os autores (p. 352).
O exemplo de Sêneca, mencionado na obra, indica o quanto o filósofo viveu sua própria filosofia quando se deu conta da monstruosidade de Nero, abdicou do dinheiro e do prestígio, em troca de seu afastamento do imperador para desfrutar de uma “completa e total liberdade”, mas o tirano, sendo assim, recusou e Sêneca perdeu o que tinha oferecido em troca e se afastou assim mesmo. No final não prevaleceram dinheiro e amigos influentes, e sim a virtude e a força interior do filósofo.
O que mais importa?
Riqueza material, amizades influentes e conteúdo pessoal são três elementos que não se excluem mutuamente. Não se trata de uma disputa eliminatória onde apenas um deve sobrar para ser pautado e sim do que mais faz a diferença na vida. Ser rico em si não é um problema, mas implica em responsabilidades para saber aplicar o que se tem sem disseminar injustiças, perseguições e outras coisas que degeneram o espírito. Lembrei-me aqui de um aforismo de meu mentor (entre 1994 e 1997):
“Poucas coisas são mais desastrosas do que uma pessoa com muito dinheiro e sem classe.”
Quem acumulou muitos bens e/ou prestígio na sociedade, mas não tem conteúdo em termos de valores e sabedoria, tende a ser o elemento mais tóxico socialmente porque o poder temporal exercido por sua riqueza potencializa o raio de alcance de sua pobreza interior e falta de categoria. O dinheiro em excesso não muda uma pessoa, apenas proporciona mais oportunidades para que manifeste seus problemas mais perturbadores.
O professor mais importante de minha formação universitária fora um sexagenário rico que filosofava sobre o maior desespero que encontrou na vida, sobretudo entre pessoas de sua classe social: o da tentativa de preencher o imenso vazio interior com coisas que não resistem ao tempo e a crises profundas, como conquistas materiais, além do dinheiro e do glamour.
Pode-se perder a riqueza e o prestígio, pode-se levar tudo que se conquistou em termos materiais, mas não é possível tomar a bondade, a virtude, o conhecimento, a sabedoria e a espiritualidade que habitam no interior do nosso ser.