Imagem: Thich Nhat Hanh Foundation

“A verdadeira prática do mindfulness não exige a meditação sentada nem qualquer prática externa. […]”
Obra: Silêncio. 2. Estação de rádio. Pensando sem parar. HarperCollins, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Rodrigo Peixoto. De Thich Nhat Hanh (Vietnã/Hué, 1926-2022).
Quando falo sobre mindfulness, fora a curiosidade com o termo, percebo nos que o conhecem pelo budismo, um pouco do imaginário popular em relação à clássica posição sentada de pernas cruzadas e posição reta associada à meditação. É a posição que menos realizo. Normalmente o faço em movimento, de forma lenta, quando caminho por dentro de casa ou em algum momento quando vou em direção ao ponto onde inicio um treino de corrida enquanto o sol está nascendo. Pratico também deitado um pouco antes de dormir e no intervalo de um atendimento para outro (durante o expediente de suporte) e após o almoço em uma poltrona.
Cheguei a aplicar técnicas introdutórias de mindfulness em um atendimento do sábado. Ocorreu com um cliente de contabilidade com sinais de estresse e dispersão elevadíssimos que comprometiam o andamento dos trabalhos. No meio contábil, insalubre em termos de saúde mental, vejo boas perspectivas para o mindfulness, um conceito de “atenção plena” que pode ser aplicado em diversas circunstâncias. Utilizo para monitorar meu estresse e o que um determinado alimento faz com o meu organismo. Mais importante que a posição do corpo é que a sondagem pelo mindfulness requer “uma observação profunda e a descoberta de nosso silêncio interno” (p. 43), como ensina o monge vietnamita que, em certo sentido, mudou minha vida.
Silêncio então se aplica também em um sentido pleno, eis a chave inicial. Pelo cultivo da quietude será possível lidar com energias que carregam violência, medo, covardia ou raiva, forças que tentam me controlar, oportunistas na mente agitada, impulsiva, acelerada, povoada por ilações, achismos, imaginações… Uma mente “barulhenta” é um campo inóspito, impossível para o mindfulness mediante a necessidade de cessar os pensamentos, para desligar a “estação de rádio interna” que o sábio intitula como Pensando Sem Parar (p. 34).
Esta estação de pensamentos consome a consciência de uma forma não saudável, quando irradia divagações, distrações, preocupações que envolvem internamente e comprometem o estabelecimento da calma, recurso indispensável para se chegar na observação profunda de si mesmo; “para conseguirmos viver nossa vida, devemos desligar a rádio dentro de nós e livrar-nos dos ruídos internos “, resume Thich Nhat Hanh (p. 35).
Na psicologia budista, a mente consciente, a parte superior, “pensante” (p. 53) “a sala de estar”, onde são recepcionados e manifestados os sentimentos (p. 37), é afetada pela mente inconsciente, onde ficam estocadas as sementes de pensamentos e emoções, como se fosse um porão de uma casa (p. 36), e se soubermos lidar com nossa consciência, as sementes que causam dano a saúde mental não serão regadas e sim as sementes que fazem bem.
A mente inconsciente trabalha enquanto dormimos, e pode atuar também pelos pensamentos. Na mente inconsciente também são construídas soluções (p. 52) para problemas que são demandados desde que a mente consciente não atrapalhe com pensamentos impróprios; é preciso “pisar no freio intelectual e emocional e entregar o problema ou desafio à nossa mente inconsciente, da mesma maneira que, após plantar uma semente, confiamos no trabalho do céu e da terra”, argumenta (p. 53). Em suma, a mente consciente é a mão que planta e cultiva o solo (a mente inconsciente) por meio da prática do mindfulness, uma forma de entregar dificuldades e questionamentos à mente inconsciente para que seja possível um momento de despertar ou de “iluminação”.
“Na mente verdadeira há o silêncio de todas as palavras e ideias”. É no silêncio dentro e fora de si que se pode desfrutar da essência da tranquilidade; “apenas quando o oceano está calmo e tranquilo, podemos ver a lua refletida nele” (p. 54). O silêncio é o “oceano milagroso, curativo e poderoso” mediante o que proporciona como paralisação de conversas ininterruptas (p. 89) e de toda manifestação que agita as águas e tumultua nossa navegação.
Pessoalmente a busca do silêncio passou a ser compreendida por mim semelhantemente à busca por ar puro. O silêncio é um componente para limpeza e renovação da mente. Acordar muito cedo é então estratégico. No intervalo de almoço aproveito um pouco do silêncio do lugar onde moro (neste período eleitoral ficou mais difícil por conta da poluição sonora), embora não seja o ideal. Por fim, o passo seguinte consiste em confiar na natureza das “duas mentes” pelo conceito psicológico budista, para exercer a atividade de desacelerar e se desligar da correria que o mundo tenta me impor quase todo o tempo, apreciando assim a possibilidade de um salto para um mar de tranquilidade, aberto, disponível a toda pessoa que se permita a essa experiência.