Imagem: A Casa Humana

“[…] o que fato temos, de fato, ao nosso alcance é a forma de viver essas experiências. […].“
Obra: A morte é um dia que vale a pena viver. As nossas mortes de cada dia. Sextante, 2019, Rio de Janeiro. De Ana Cláudia Quintana Arantes.
Naquele final de abril de 2009 recebi uma ligação de um diácono de uma igreja batista em Recife. Ele me pediu para visitar um pastor que eu tinha trabalhado por quase dois anos na denominação (2001-2002). Ele tinha pedido licença à comunidade, com sinais iniciais de um quadro depressivo após perder a esposa de forma fulminante logo em seguida a descoberta de um câncer em metástase.
Informei ao diácono que eu tinha deixado a confissão batista em 2007, mas isso não importava e assim fui rever o pastor que, apesar das divergências teológicas que teve comigo durante o tempo que passamos juntos, costumava suscitar lembranças positivas de minha pessoa em conversas com os mais próximos, o que fez o diácono acreditar que, talvez, minha visita ajudasse de alguma forma.
No caminho passei na universidade para rever o meu psi que me ajudou na cura da síndrome do pânico (diagnosticada em 1997) entre outros problemas que me levaram à psicanálise e a mais uma psicoterapia dada as circunstâncias da morte de meu pai (2007). Conversamos sobre a visita que eu iria realizar logo em seguida e refletirmos sobre a importância da conexão com quem seria visitado para uma empatia que também envolve uma combinação da arte de priorizar a escuta com a fala de forma discreta e assertiva, antes de qualquer coisa, algo que eu tinha experimentado durante os anos de seminário quando visitava o Hospital do Câncer e alguns hospitais psiquiátricos da cidade.
No apartamento do pastor fui recebido por uma secretária do lar que logo me encaminhou para a varanda. Lá estava ele, sentado, com o olhar no horizonte, distante, alheio ao intenso movimento de uma avenida quase ao pôr-do-sol. E sem olhar para mim, falou:
– Como vai, Agostinho?
Eu falava tanto no bispo de Hipona em sermões e em nossas conversas durante minha passagem em sua comunidade que ele passou a me chamar assim, a diferença é que não havia mais aquele sorriso um tanto irônico; apenas uma voz seca, breve e triste. Finalmente ficamos posicionados um de frente para o outro e o silêncio era apenas quebrado por ondas que subiam do trânsito intenso. Isso perdurou por mais tempo que eu imaginava quando os olhos do pastor se encheram de lágrimas, o que acionou algo que eu tinha conhecido em minha forma de ser quando passei a visitar terminais no tempo de seminarista: conectei-me com a sua dor e simplesmente chorei.
O “Agostinho” foi o ponto de partida para uma conversa que parecia ser uma retrospectiva de nossas divergências. O pastor gostava de pregar sobre prosperidade e, em certo momento, passou a associar o conceito a questões de saúde e enfermidade. Dava a entender que havia uma imunidade de sofrimento para o crente, o que me fez discordar de forma severa. Eu tinha a preferência por uma fé que considerava a importância do sofrimento para amadurecê-la, de que os martírios da vida são importantes em um mundo inóspito a Cristo, além de enfatizar a relevância da introspecção, este último elemento bastante agostiniano. Para a minha surpresa, o pastor reconheceu que a forma como se deu a morte da esposa foi um duro golpe no que disseminava em púlpito, o que fez o tom do nosso diálogo ser em mútua autocrítica, pois eu também reconheci que fui duro demais com ele em minhas divergências, embora merecesse um desconto por conta da juventude.
Das recordações encontramos um caminho para tratarmos sobre o que a doutora Quintana Arantes aborda no trecho (p. 179) desta Leitura, que me fez lembrar da segunda parte de nossa conversa: a vida, muitas vezes, não se explica por escolhas, pelo que podemos controlar. A esposa do pastor se cuidava bastante e essa condição derivada do livre-arbítrio, obviamente, não tem a ver com o que acabou acontecendo. Então argumentei que o mais importante é reconhecer estoicamente as coisas imponderáveis, o que na fé cristã se aborda pelo conceito de nossa dependência de Deus, e assim nos resta reconhecer a dor, viver o luto para encerrá-lo da melhor forma possível, na perspectiva da fé na ressureição inaugurada por Cristo. Falei ao pastor sobre a experiência traumática durante os últimos momentos que passei com o meu pai e o que ele representava para mim, especialmente no período em que me afastei da família (dezembro/1997-agosto/2000), fato que passou a saber em detalhes.
A doutora Quintana Arantes fala sobre se entregar ao processo de perda para que seja possível a renovação para o próximo passo (p. 179). E mediante uma dor tão profunda, concordamos que o reconhecimento da debilidade do que pregara (teologia da prosperidade) foi um sinal de transformação durante um processo tão difícil de ser superado, algo que me lembrei hoje ao ler o que a doutora fala sobre “o que tem que vir conosco das histórias passadas é a transformação que elas nos proporcionaram” (p. 180).
No final o pastor (que certa ocasião me confessou que queria ser padre quando menino) conseguiu ser um pouco espirituoso ao comentar sobre a minha saída da denominação:
– O catolicismo te espera.
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