Imagem: Thich Nhat Hanh Foundation

Thich Nhat Hanh

“Quando o sofrimento surge, a primeira coisa a fazer é parar, seguir a nossa respiração, e admiti-lo.”

Obra: Sem lama não há lótus. 2. Admtindo e acolhendo o sofrimento. Vozes, 2016, Petrópolis. De Thich Nhat Hanh (Vietnã/Hué, 1926-2022).

A primeira coisa que pensei ao meditar sobre este capítulo foi quantas vezes errei quando, diante de quem estava sob um grande sofrimento, enfatizava o “seja forte!”, sem considerar bem o significado, talvez porque confundia o necessário momento de se viver uma dor, com uma rendição pelo ato de sucumbir (p. 28).

Por que é necessário viver o momento da dor? Não é possível vencer o que não bem conhecemos, penso. Por isso admitir e acolher o sofrimento é o primeiro passo para superá-lo, penso acerca do que orienta o sábio vietnamita.

Não cabe reprimir ou negar emoções que trazem desconforto; não lute contra e sim trate-as “com muita ternura” (p. 28):

Inspirando, eu sei que há sofrimento.
Expirando, eu digo olá para o meu sofrimento
(p. 24).

A saudação ao sofrimento não se trata de uma submissão e sim de uma abertura para um processo de saber lidar melhor com seus efeitos por uma melhor compreensão do nosso interior. Para isso é necessário cessar o ritmo estonteante das atividades, dar uma pausa no corre-corre, seguir a respiração (inspirando, expirando) e assim admitir a presença do sofrimento (p. 24). É preciso respeitar a própria dor – penso aqui o quanto chorar faz bem – e simplesmente aceitar com humildade o que está passando para se tornar possível sondar a si mesmo e entender melhor a situação, desfrutando da “natureza búdica” que há em cada um de nós (p 29).

Pensei então sobre o problema de não se encontrar tempo para ir além da rotina, com o entulho de coisas que são colocadas entre o nosso eu interior e os compromissos no mundo exterior, e como esse paradigma pode ser prejudicial para realizar a experiência que o budista propõe, ou como bem lembra, o quanto não raramente estamos mesmo “aprisionados em nosso trabalho, em nosso computador ou em nosso telefone, em nossa conversa, que podemos esquecer até mesmo que temos um corpo” (p. 25), e que assim, sem se permitir sequer a um fôlego e ao reconhecimento de si mesmo, não conseguimos perceber o nosso estado, não somos capazes de reconhecer o nosso sofrimento (p. 23), porém, quando o notamos, pode ocorrer outro grave impedimento ao recorremos a distrações para encobri-lo, o que denota uma fuga (p. 24), e aqui penso como isso se desdobra em transtornos quando, para “esquecer”, corre-se à geladeira, aos entretenimentos, aos jogos eletrônicos, aos entorpecentes…

No sofrimento é à “casa do nosso corpo” que devemos ir, após interrompermos o acelerado modo do cotidiano. “Se deixarmos o sofrimento se manifestar e simplesmente se apossar da nossa mente, podemos ser rapidamente dominados por ele” (p. 28), adverte, mas com a “respiração consciente”, podemos iniciar um diálogo interior e fraterno com ele, remetendo o que nos provoca grande desconforto para a “energia da consciência plena” que cuidará do sofrimento e nos poupará de sermos subordinados a ele (p. 27), enquanto aprendemos pela contemplação profunda a transformar o seu “lixo” orgânico em adubo, “que por sua vez, pode se transformar em muitas flores belas de compreensão, compaixão e alegria” (p. 29).

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