Imagem: About Dr. Hahn

Scott & Kimberly Hahn

“[…] enquanto dirigia para casa, olhei as estrelas e suspirei: ‘Senhor, o que está acontecendo? Onde as Escrituras ensinam a sola scriptura?’.”

Obra: Todos os caminhos levam a Roma. Nossa jornada até o catolicismo. Capítulo 4. Ensinando e vivendo a aliança enquanto família. Cleófas, 2022, Campinas. Tradução de Rafael Nunes Godinho. De Scott Hahn (1957) e Kimberly Hahn (1957).

Este livro é um presente que recebi no último dia 23 de um cliente muito especial da área contábil. Veio acompanhado de um inspirador texto feito a punho. Trata-se de um obra para vários registros.

Durante minha passagem pelo seminário teológico batista (2003-2007), fiz uma pergunta da mesma natureza, feita pelo aluno de História da Igreja do então professor presbiteriano Scott Hahn (p. 76):

“[…] onde a Bíblia ensina que ‘apenas as Escrituras’ são a nossa única autoridade?”

A “suar frio” (p. 76), e dentro de uma redundância de respostas do sistema de crenças que seguia lhe oferecia, Hahn tornou à questão de uma forma que deixa transparecer o nível de sua inquietude (trecho, p. 78).

Cheguei a outra questão a qual considerei mais interessante, a partir da concepção da Bíblia como resultado de tradições que foram transmitidas, inicialmente por meio auricular, por comunidades, por liturgias, e depois canonizadas por… autoridades da… Igreja! Então, pensei um pouco mais e:

Se a Bíblia resulta da tradição através da Igreja, há legitimidade para se arrogar a sola scriptura?

Não encontrei. Foi quando a sola scriptura começou a morrer dentro de mim. Percebi então uma contradição no meio cristão que se opõe à Igreja Católica pela recusa da tradição, pois quando se argumenta que apenas a scriptura é única e suprema autoridade para designar os paradigmas da fé, e sendo a mesma scriptura resultado da tradição que fora homologada pela Igreja, além de um compêndio de práticas consagradas como tradições diversas, identifiquei o absurdo lógico de conceber o que faz parte da tradição sendo considerado excludente daquilo que o produziu.

Uma colega missionária batista, de forte viés apologeta, após ouvir esta minha argumentação, lá pelos idos de maio de 2007, olhou para mim perguntando quem era o meu pastor (da igreja batista) e se eu tinha “perdido a fé”, entenda-se ”deixado de crer na confissão batista”, e de uma forma mais ampla, se eu tinha desacreditado dos valores da Reforma Protestante. Respondi que havia pouco tempo notado que a confissão batista em mim já não tinha mais espaço, e que os tais ‘valores” da Reforma a partir de Lutero, idem, enquanto a fé em Cristo passava bem, obrigado. Enquanto isso, aumentava minha desconfiança de que o catolicismo é a parte com razão e coerência no embate com este e outros pilares do protestantismo.

Da apreensão o olhar da apologeta se converteu em espanto, seguido de um contra argumento de que a sola scriptura diz respeito ao referencial único de autoridade da Bíblia, em tudo o que consta na scriptura, e esse “tudo” considera as tradições nela contidas, ficando automaticamente excluídas as demais que não são elencadas, tais como o papado, o magistério, entre outras celebradas na Igreja Católica. No entanto, de que magistério se trata?, pois há um nos apóstolos, bispos e nas demais lideranças das comunidades primitivas que pode ser verificado na composição do que seria a scriptura – o que ela concordou – e novamente a ideia da sola scriptura se revelou contraditória por ignorar que foi por um magistério guiado pelo Espírito Santo, conforme o testemunho da fé pela tradição, que a mesma scriptura foi produzida, compondo elementos da história contada na forma de textos sagrados, outrora falados pela tradição auricular que foi passada, e que posteriormente se tornaram escritos, processo mediante ação humana que se tornou meio de afirmação das verdades de fé e esse papel do ser humano se deu pela tradição que se tornou Igreja, corpo de Cristo. Penso aqui, para tomar como exemplo, a referência a I Tm 3,15 da Igreja como “pilar e fundamento da verdade”, contra argumento de Scott (p. 79) a deixar essa condição bem clara.

A sola scriptura não passa de uma afirmação ideológica sobre a scriptura e não da scriptura; refiro-me em termos confessionais dos reformadores. A sola scriptura não se baseia em uma “conclusão provada”, como indica uma resposta que Hanh obteve de um colega professor (p. 79). Penso, é uma forma de reducionismo que compromete o entendimento das origens da Bíblia Sagrada e o valor das tradições. Buscar uma prova para a sola scriptura é entrar em um ciclo incessante no vazio de uma afirmação que apresenta sua prova em si mesma.

2 Replies to “01/01/2026 11h08 Todos os caminhos levam a Roma. Capítulo 4”

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