Imagem: Enciclopédia do Arkansas

Dee Brown

“Em meia hora, todo apache no acampamento havia fugido, capturado ou estava morto. Os prisioneiros eram todos crianças, sendo 27 delas levadas pelos papagos cristianizados para serem vendidos como escravos no México.”

Obra: Enterrem meu Coração na Curva do Rio. A dramática história dos índios norte-americanos. Capítulo Treze. 9. Cochise e as guerrilhas apaches. L&PM, 2025, São Paulo. Tradução de Geraldo Galvão Ferraz e Lola Xavier. De Dorris Alexander Brown (EUA/Lusiana, 1908-2002).

Este livro pode ser um choque de realidade para quem crê no conto de fadas norte-americano.

“Os apaches eram outrora uma grande nação; agora são poucos e por isso querem morrer e não se importam mais com suas vidas”, conta o desenganado líder indígena Cochise (p. 203).

Quando a paz cessava entre apaches e o “povo dos Estados Unidos” (p. 208), como no caso da decapitação do líder indígena Mangas, prisioneiro que acabou jogado em uma vala, fato que desencadeou a ira dos nativos no desejo de vingança (p. 210), na medida em que os indígenas contra-atacavam a força militar dos “Casacos Azuis” (p. 207), tecnologicamente superior, a resistência indígena, numericamente muito inferior (um para cem inimigos), sinalizava uma capacidade de atuação que explorou o elemento surpresa típico de operações de guerrilha, em uma escalada que provocava mais reações de extrema crueldade entre as forças a serviço da cavalaria americana.

O caso da devastação do acampamento dos arapaivas é um exemplo do modus operandi de um aparato que foi se especializando em exterminar índios que resistiam à ocupação branca, no caso, penso no trecho (p. 214) relatando o que fizera um grupo organizado pelo expert no assunto, William, S. Oury, que combinou seis americanos, 42 mexicanos e 92 mercenários papagos, que eram indígenas “subjugados pelos espanhóis e convertidos ao cristianismo por padres espanhóis” (p. 214).

Parei para pensar em que tipo de conversão à fé cristã se tratava, ao ler sobre nativos direcionados para atividades de mercenário e atravessador de escravos, enquanto participantes de uma operação de contra ofensiva que resultou em 144 mortos, entre mulheres e crianças que foram mutiladas. Um cenário de estupros e assassinatos (p. 213), um massacre que atraiu a atenção presidencial em Washington (p. 216) que, em seu peculiar cinismo, ordenou “ações urgentes para levar a paz ao Sudoeste” (p. 216), o que se traduziu em um gradual processo de redução contínua da ocupação indígena na região (pp. 217-227), com a maioria dos apaches confinada em reservas ou refugiada no México (p. 228).

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