Imagem: Amor por Livros

“Existe tanta gratidão e vaidade em quase todas as afeições que é perigoso abandoná-las à sua sorte — todos podemos começar livremente, uma ligeira preferência é bastante natural, mas são poucos os que têm o coração bastante firme para amar sem receber alguma coisa em troca. Em noventa por cento dos casos, uma mulher deve mostrar mais afeição do que a que realmente sente.”
Obra: Orgulho e Preconceito. Capítulo VI. Abril Cultural, 1982, São Paulo. Tradução de
Lúcio Cardoso. De Jane Austen (UK/England/Hampshire, 1775-1817).
Tão jovem enquanto finalizava este romance, impressiona a maturidade de Jane Austen ao tratar de questões atemporais.
No emaranhado jogo de interesses pessoais na abertura do capítulo VI, que conta um traço do universo de seu romance que se tornou clássico, Austen trabalha elementos que atravessam os tempos e me fez pensar em Brontë, outra romancista inglesa no campo do extraordinário, em O Morro dos Ventos Uivantes [501], quando lida com o atemporal em termos de relacionamentos afetivos no jogo de interesses de forma mais realisticamente dramática, enquanto o talento da autora desta Leitura recorre a um modo um pouco mais inclinado à ironia refinada e ao sarcasmo.
O primeiro ponto atemporal na fala de Charlotte, entendo, está na natureza das afeições que pode se desbravar um caminho raríssimo: o ágape, quando se tem o coração firme o suficiente para amar sem o desejo de receber algo em troca (p. 25). Este tipo de amor é paradoxal, à mon avis, porque enquanto atravessa os tempos na sua humilde discrição e virtude, não encontra guarida na predominância de relacionamentos afetivos, sendo até mesmo utópico na visão de mundo de muitas pessoas que se declaram apaixonadas.
O segundo ponto decorre imediatamente do primeiro, pois ao predominar em uma afeição o descarte do altruísmo, sendo então baseada em interesse de conquista e pela pragmática conveniência material, ou quando replica Elizabeth, “quando está em jogo apenas o desejo de se casar bem” (p. 26), penso que também implica na ideia que a autora insere quanto à demonstração de afeto ser um tanto dissimulada, fazendo-se parecer maior do que realmente é e, ainda nesta lógica do “casar bem”, completa a romancista pela personagem, quando uma mulher “esconde a sua afeição com igual habilidade daquele que constitui o objeto dessa afeição, pode perder a oportunidade de conquistá-lo” (p. 25).
501. 14/12/2025 18h39
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