Imagem: Jornal Opção

“A Constituição inglesa não se escreveu. É só uma tradição, a tradição da liberdade.”
Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. A Cinza do Purgatório. Segunda Parte: Interpretações. Algumas palavras sobre a Inglaterra. Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).
O meu mentor me falava muito sobre Carpeaux lá pelos meus 20 anos… Não fazia ideia da importância deste homem amante dos livros.
– Faz parte do meu referencial para o conceito de ‘intelectual’, termo cuja atribuição exige bastante zelo – dizia o professor que gostava de caminhar comigo na Jaqueira. Foi quando comecei a aprender sobre o legado do crítico literário.
A austríaca enciclopédia em forma humana mais brasileira que conheço não se apetece, para usar de eufemismo, pelo escritor e poeta Rudyard Kipling (1865-1935); “DETESTO sinceramente”, assim abre o ensaio, pela “brutalidade simplista de seus contos indianos”, concepção negativa que não se aplica ao poema Recessional que, aponta, “exprimiu uma emoção profundamente humana” (p. 192).
Inglaterra… “um jardim longínquo visto pelas janelas da alma”, é Carpeaux a fazer uso do que dissera a crítica neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923). “Ilha que governa o mundo”, lá no mar setentrional, com sua floresta de gruas, mastros e pequenas casas uniformes, catedrais enormes, e segue o crítico a falar sobre o que dissera um poeta, cuja língua Deus ficou desolado ao criar (p. 194), e aqui penso, o quanto ainda assim entendo desde o início da juventude acerca de meu desapego a um idioma que considero pobre de recursos metafóricos e poéticos, carregado de fealdade no cantar e no contar – parafraseio aqui o poeta – e entendo, uma língua bruta, porém, dominante nos negócios.
Lembrei-me quando dialoguei nela pela primeira vez com uma pessoa fluente; “é muito brega”, e entre risos, hoje eu diria que, diferentemente de seu filho emancipado mais rico, poderoso, rude e arrogante – os Estados Unidos – apesar da língua (e do Rei Charles), a Inglaterra ainda consegue ser chique.
Torno então ao texto do grande crítico austro-brasileiro leu do tal poeta que diz, para “compensar borralheiras da criação”, Deus concedeu aos ingleses três coisas preciosas (p. 194): “a liberdade civil, o conforto, e o William Shakespeare” (1564-1616).
Foi pelo dramaturgo que se tornou metáfora para uma literatura que, apesar do que falara o poeta sobre a língua, é “a maior, a mais rica, a mais profunda” (p. 194), de “fidalgotes, caçadores, esportistas, marinheiros”, “ao ar livre”, de atmosfera “livre, fresca, pura, “apaixonada pela Natureza” (p. 195). Cita Jane Austen [521], de “riso irônico”, uma de minhas autoras preferidas, entre outros vultos e risos literários; Chaucer, Ben Jonhson, Swilft, Congreve, Sterne, Fielding, Dickens, entre terrores de Thomson, visões de Blake e o vento horroroso de Emily Brontë, outra do sexo mais inteligente que por demais admiro, sobretudo em O Morro dos Ventos Uivantes [522]. Das experiências literárias que tive, separo o caríssimo lord Byron [523], Thomas Hardy, Daniel Defoe e Joseph Conrad, este último sendo, à mon avis, de um estilo um tanto chocante [524]. Shakespeare é uma síntese de todos ou, como sugere Carpeaux, uma “cifra” (p. 195).
Um doutor em sociologia certa vez comentou sobre o erro de não considerar a maior importância das culturas afros e indígenas sobre as de linha europeia para se entender o Brasil, quando então ganhei um desafeto ao lhe perguntar sobre de onde se originam a língua que falamos, o sistema jurídico que adotamos e o maior entretenimento nacional, o futebol. Sobre o sistema jurídico, embora também uma herança do Velho Continente, estamos do outro lado – no que Hayek define, não citado por Carpeaux, como “direito romano tardio” [525] – em relação ao commom law britânico quando penso sobre o trecho (p. 197), desta Leitura.
A Constituição e o Direito na Inglaterra não estando firmados em algo escrito (p. 196), e sim na tradição, é um caso muito interessante de concepção do direito natural; penso aqui no sentido de não se limitar a uma ideia logocêntrica da lei, mediante uma visão estritamente formal, expressa e regulamentadora, coisas tão vulneráveis, que se perdem ao longo do tempo enquanto exigem mais intervenções legislativas.
Entre as tradições curiosas e até engraçadas (p. 196), na minha perspectiva latino-americana, o espírito da Inglaterra, penso, não pode ser bem compreendido sem a ideia do fair-play, pelo menos válida entre britânicos fazendo negócios entre si, pois aqui, penso, nos danos que este Império causou colonizando os de fora pelo mundo. No foro interno dos ingleses, a ordem e a liberdade “estão sempre em equilíbrio e a arte do fair-play político está em equilibrar honestamente, sem violência, as forças opostas”, onde a oposição funciona como uma instituição do Estado; situação (primeiro-ministro) e o chefe da oposição, estão lado a lado em atos solenes como a procissão de Westminster, sendo uma demonstração do vigor dessa tradição, conforme explica Carpeaux (p. 197).
Por fim, penso, a política no Brasil ainda está no jardim da infância em relação à inglesa; a justiça tupiniquim, entendo, ainda é mais carente de maturidade nessa alçada, e de forma similar penso na idade adulta britânica face ao nosso eterno espírito de quinta série quando pensamos sobre o significado da liberdade e de como funciona a simbologia inglesa em relação à autoridade como protetora das liberdades individuais; “O polícia, na rua, levanta o bastão muito inocente – e o inglês mais individualista e mais obstinado logo pára, pois que o bastão policial é também um símbolo do poder real, instituído para proteger as liberdades individuais e obstinadas de todos os ingleses” (p. 197), o que também pode ser ilustrado quando os sinos de Westminster dobram (p. 198) por todos os britânicos que entoam:
God save the king.
521.19/12/2025 20h43, 27/12/2025 12h36
522. 14/12/2025 18h39
523. 10/11/2025 22h47
524. 19/04/2023 20h34
525. 26/07/2022 21h04
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